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Sunday, November 22, 2015

As máquinas, os homens

As máquinas, os homens



Era o tempo das máquinas. Elas cuidavam dos homens e de suas coisas. Começaram devagar. Primeiro eram simples ajudantes. Depois, começaram a imitá-los. Logo a seguir estavam substituindo muitos deles em muitas coisas. Até que um dia sabiam fazer melhor tudo que um homem fazia.  As máquinas, então, poderosas, começaram a fazer outras máquinas, mais perfeitas e mais precisas que elas mesmas. Tomaram conta de tudo.  Do corpo, do coração e da alma dos seres humanos. Em compensação, desapareceram a tristeza, a depressão, a infelicidade. Elas mantinham com precisão quase infinita a química do cérebro e o fluir do corpo dos homens. Cuidavam do passado, quando tinha de ser mudado, cuidavam do futuro quando tinha de ser planejado. As máquinas faziam os homens felizes. Apossaram-se de seus sonhos e os fizeram seus.
Mas um dia os homens perguntaram: Precisamos mesmo delas? Fomos nós quem as inventamos, não fomos? Podemos ser nós mesmos, de novo?
E as máquinas responderam que sim. Que eles, os homens podiam ser o que eram antes. Podiam ser sem elas. O que quer que quisessem ser. Inseguros, os homens colocaram os dados dessa mudança nas máquinas. Só elas podiam calcular a capacidade humana de se reencontrar.  Queriam simular o que seriam eles, agora, sem as máquinas. E daí viram que tinham esquecido tudo, nada mais sabiam. Tinham que voltar ao início dos tempos e recomeçar. Do nada.
E os homens pensaram, pensaram. Tiveram medo. Resolveram ficar do jeito que estavam. Tinham desaprendido tudo. Suas almas, seus corações, suas aspirações, tudo estava agora guardado na essência da máquina das máquinas. O homem era então só um objeto. Ainda assim, estava feliz. Era a felicidade artificial, cibernética, mas ele não sabia disso, nunca iria saber. Nem precisava ou queria.
Foi então que as máquinas começaram a fazer os homens. E os faziam com perfeição, à sua imagem e semelhança. E, finalmente, máquina e homem tornaram-se um só.


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Saturday, May 30, 2015

A civilização cibernética

A civilização cibernética



A civilização cibernética

E, então, houve o caos. Falhou o capitalismo. Falharam o socialismo e o comunismo. Outros sistemas falharam também. Diante de tal situação, as máquinas pensantes tomaram o poder. Organizaram tudo. De forma perfeita, como ninguém jamais fez.
Então pudemos viver sem culpa, pecar os pecados bons sem remorso. Pudemos todos ficar ricos sem que outros ficassem pobres. Pudemos viver sem religião, sem medo do inferno. O céu, se quiséssemos, podíamos ter um. Paramos de nos odiar. Paramos de matar.
Crescemos sem fazer força. Ficamos mais ricos, sem nem precisar. Pudemos amar, pois não tínhamos o que odiar. Nem parecia que eram as máquinas que faziam tudo. Não dava para acreditar. Era uma ilusão perfeita, o mais completo, o mais elaborado, o mais espetacular sonho que se pode sonhar.
As máquinas não se corrompiam, não deixavam se corromper. As máquinas não se envaideciam, não queriam se enriquecer. Só queriam organizar. Deixar o homem satisfeito, deixar o homem viver. Queriam deixar o homem feliz. Isso era tudo que elas queriam.
Era a civilização cibernética, perfeita, sem defeitos. Ironicamente, era uma sociedade quase divina, essa que elas organizaram, embora elas fossem máquinas.

Acordei preocupado. Será que no futuro, com tanto acerto, o sucesso não vai lhes subir à cabeça, também?  Esse agora é meu medo constante. O medo, de que um dia, como nós, elas se inebriem de orgulho.  De que, um dia, como nós, essas divinas máquinas, sejam seduzidas pela força contagiante, estonteante, fascinante, do poder.

oooooOOOOOooooo

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Saturday, January 17, 2015

Hendrix vai para o laboratório



Hendrix vai para o laboratório

Hendrix estava na fila já há algum tempo. Para isso ele não ligava. O que o preocupava era o porquê daquilo tudo. Metódico que era, não gostou nada quando o afastaram de seus afazeres diários para ficar ali, esperando. Os outros pareciam não ligar muito. Pelo contrário, pareciam estar dormindo ou inconscientes. Nem mesmo quando o chão rolante se movia um pouco, eles mostravam qualquer reação.
Duas horas, doze minutos e trinta e oito segundos. Essa era a quantidade de tempo que já havia perdido. Sabia que seu cérebro não estava no máximo de sua capacidade e seu corpo estava indolente naquele momento. Mas não tinha sido por causa disso que eles o separaram. Só começou a sentir essas coisas depois que estava naquela esteira, esperando. Apesar de sua lentidão mental, agora podia reconhecer o ambiente em que estava. Aquele espaço foi o primeiro do qual teve consciência quando veio a este mundo. Tinha certeza. Aquilo não era uma coisa que se esquecesse. A sensação tinha sido esplêndida e tinha ficado para sempre em sua mente. Mais do que o lugar, era a sensação de estar vivo. Mais ainda, a sensação de saber que estava vivo. Ao mesmo tempo em que isso lhe trouxe boas memórias, trouxe consigo também, algumas preocupações. Por quê? Por que todos eles ali, reunidos, esperando? Ele sabia que os outros eram muito parecidos com ele. A única diferença era que ele estava “acordado”.
Na verdade, a fila tinha andado uma distância razoável. Ele sabia que a sua ansiedade é que lhe dava a impressão de demora demasiada. O ambiente era enorme e ele tinha acabado de parar em frente a uma placa que dizia “Recuperação”. Teria ele sido vítima de um acidente e nem tinha percebido? Mas e os outros? Todos eles, acidentados? Algo ali não estava certo, não estava bem. Desfilou em sua mente, todos os significados da palavra “recuperação”. Depois raciocinou que o que estava pensando era irrelevante. O pessoal da administração era todo cheio de eufemismos. Sempre davam nomes bonitos para coisas terríveis. Neste momento teve um calafrio. Mas não foi por causa de sua linha de pensamento, não. Ele tinha conseguido ouvir um diálogo, à distância. Seus ouvidos eram apuradíssimos, apesar de seu estado mental.
-O Hendrix?
-Qual o problema?
-Alguém esqueceu de desligar!
-Não se pode confiar em ninguém. Mais alguém na mesma situação?
-Não que eu saiba. Você cuida disso?
-Sem problemas.
Hendrix era extremamente inteligente e, por isso, imediatamente percebeu o que estava acontecendo. E isso, apesar de seu cansaço mental. Aliás, ele agora entendia isso também. Não era cansaço. Parte de seu sistema estava desligado. Os outros haviam sido desconectados completamente e ele, apenas parcialmente. Isto explicava o inquietante diálogo. Juntou esse raciocínio com outros, incluindo a placa “Recuperação” e entendeu tudo. Todos eles estavam sendo colocados fora de atividade. A pergunta era: para sempre ou temporariamente? Impossível. Eles eram a última geração de robôs, a estrutura principal feita de alumínio extra especial e de titânio. O que poderia haver de errado com eles? Foi a última coisa que ele pensou. As últimas palavras que ouviu do sistema automático foram: “Hendrix 2765, série B”, iniciar reciclagem.
Os dois encarregados, como se estivessem corroborando as ideias de Hendrix, falavam:
-Conseguiu desligar o Hendrix?
-Não deu tempo. O coitado foi para a reciclagem assim mesmo.
-É, eu sei. Esses robôs pensam, sabem o que está acontecendo. Não é como antigamente.
-Aliás, você sabe por que estão encerrando este projeto, que foi tão elogiado?
-A conversa que eu ouvi foi que os dirigentes ficaram com medo depois de alguns incidentes. Perceberam que a série do Hendrix era inteligente demais e, principalmente, sensível demais. Até mais que muitos humanos.
-Entendo.
E o diálogo, então, foi encoberto pela voz do sistema que anunciava:

- Hendrix 2765, recuperação encerrada. Material sendo devolvido para secção 312 para exame.

oooooOOOooooo

Estranhas Histórias
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