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Sunday, June 14, 2015

A Invasão


A Invasão

Estação Polar Myriad, Polo Sul. O enorme telescópio apontava para uma galáxia distante. Bernard e seus homens estavam encerrando seu dia. Julius ficaria no turno seguinte, fazendo vigília, tentando descobrir os segredos ocultos nas estrelas. Em toda a paisagem havia uma paz fora do normal, apenas perturbada pelo zumbido insistente do vento.
Algo, entretanto, começou a incomodar Bernard.  Era alguma coisa ainda indefinida, incerta, mas nem por isso menos inquietadora. Julius começava também a ficar agitado, podia se dizer. Depois de muito convívio, aprende-se muito sobre uma pessoa. Bernard colocou a jaqueta termal e saiu um pouco. Estava escuro. O que se via lá fora, era só a luz do alojamento se projetando no gelo. Notou então, uma outra luz, tênue, verde, a uns dois quilômetros de distância e que antes não estava lá.
Repentinamente o zumbido do vento não era mais o zumbido do vento. Bernard sentiu algo muito estranho, ao mesmo tempo assustador e poderoso. Agora, conseguia ver com incrível precisão, muito longe, como se fosse dia. Sentia cada ser vivo, até debaixo do gelo, como se estivesse em seu cérebro. Podia sentir o ritmo cardíaco de cada um de sua equipe, podia sentir o correr do sangue em cada veia e artéria de cada um deles. Ouvia sons, antes inaudíveis, mínimos, com um detalhe sem comparação.  Seu corpo estava transformado. Parecia um ser com superpoderes.
Então, ele soube. Não era ele, era alguém que havia invadido seu corpo. Era aquele ser vendo, sentindo e vivendo através de seus nervos, seus músculos, seus neurônios e seus órgãos. Agora sabia que aquele ser tinha vindo daquela tênue luz verde, uma espaçonave alienígena. Podia ver dentro dela, podia entender seu mecanismo, podia tudo. Mas não era ele, sabia. Era um outro ser e, agora, o seu próprio ser, estava se desvaindo. Sabia que todos da tripulação haviam sido tomados. Sabia.
Não muito longe dali, a enorme nave, fazia seu caminho para dentro do gelo, que se derretia para recebê-la. Ali iria ser seu estacionamento, durante a missão. Bernard, Julius, todos estavam tomados, não eram mais eles. Seus corpos estavam sendo usados. Através do sistema de comunicação da estação polar, e dos corpos que haviam tomado, os estranhos seres da nave enviavam pedidos de resgate. Em breve sairiam dali, iriam partir para o mundo. Disfarçados de humanos. A nave, agora, já estava totalmente submersa, escondida na profundidade do gelo.
A cem quilômetros de Barrow, norte do Alaska, o comandante americano Brendon também estava sentindo superpoderes. Sabia tudo que estava acontecendo a milhas de distância, com uma precisão milimétrica. Também ouvira o zumbido e agora podia ver uma luz tênue verde, vindo de dentro do gelo profundo.
No meio do Pacífico, uma fragata da Marinha Americana passava pelo mesmo processo e o estacionamento da nave eram as profundezas das águas do mar.
Dezenas de outras naves, em várias partes do mundo, estavam chegando. Corpos humanos sadios, perfeitos, sendo assumidos por uma inteligência superior.

Era o começo da invasão.










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À procura de Lucas  (Flávio Cruz)
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Saturday, January 17, 2015

Hendrix vai para o laboratório



Hendrix vai para o laboratório

Hendrix estava na fila já há algum tempo. Para isso ele não ligava. O que o preocupava era o porquê daquilo tudo. Metódico que era, não gostou nada quando o afastaram de seus afazeres diários para ficar ali, esperando. Os outros pareciam não ligar muito. Pelo contrário, pareciam estar dormindo ou inconscientes. Nem mesmo quando o chão rolante se movia um pouco, eles mostravam qualquer reação.
Duas horas, doze minutos e trinta e oito segundos. Essa era a quantidade de tempo que já havia perdido. Sabia que seu cérebro não estava no máximo de sua capacidade e seu corpo estava indolente naquele momento. Mas não tinha sido por causa disso que eles o separaram. Só começou a sentir essas coisas depois que estava naquela esteira, esperando. Apesar de sua lentidão mental, agora podia reconhecer o ambiente em que estava. Aquele espaço foi o primeiro do qual teve consciência quando veio a este mundo. Tinha certeza. Aquilo não era uma coisa que se esquecesse. A sensação tinha sido esplêndida e tinha ficado para sempre em sua mente. Mais do que o lugar, era a sensação de estar vivo. Mais ainda, a sensação de saber que estava vivo. Ao mesmo tempo em que isso lhe trouxe boas memórias, trouxe consigo também, algumas preocupações. Por quê? Por que todos eles ali, reunidos, esperando? Ele sabia que os outros eram muito parecidos com ele. A única diferença era que ele estava “acordado”.
Na verdade, a fila tinha andado uma distância razoável. Ele sabia que a sua ansiedade é que lhe dava a impressão de demora demasiada. O ambiente era enorme e ele tinha acabado de parar em frente a uma placa que dizia “Recuperação”. Teria ele sido vítima de um acidente e nem tinha percebido? Mas e os outros? Todos eles, acidentados? Algo ali não estava certo, não estava bem. Desfilou em sua mente, todos os significados da palavra “recuperação”. Depois raciocinou que o que estava pensando era irrelevante. O pessoal da administração era todo cheio de eufemismos. Sempre davam nomes bonitos para coisas terríveis. Neste momento teve um calafrio. Mas não foi por causa de sua linha de pensamento, não. Ele tinha conseguido ouvir um diálogo, à distância. Seus ouvidos eram apuradíssimos, apesar de seu estado mental.
-O Hendrix?
-Qual o problema?
-Alguém esqueceu de desligar!
-Não se pode confiar em ninguém. Mais alguém na mesma situação?
-Não que eu saiba. Você cuida disso?
-Sem problemas.
Hendrix era extremamente inteligente e, por isso, imediatamente percebeu o que estava acontecendo. E isso, apesar de seu cansaço mental. Aliás, ele agora entendia isso também. Não era cansaço. Parte de seu sistema estava desligado. Os outros haviam sido desconectados completamente e ele, apenas parcialmente. Isto explicava o inquietante diálogo. Juntou esse raciocínio com outros, incluindo a placa “Recuperação” e entendeu tudo. Todos eles estavam sendo colocados fora de atividade. A pergunta era: para sempre ou temporariamente? Impossível. Eles eram a última geração de robôs, a estrutura principal feita de alumínio extra especial e de titânio. O que poderia haver de errado com eles? Foi a última coisa que ele pensou. As últimas palavras que ouviu do sistema automático foram: “Hendrix 2765, série B”, iniciar reciclagem.
Os dois encarregados, como se estivessem corroborando as ideias de Hendrix, falavam:
-Conseguiu desligar o Hendrix?
-Não deu tempo. O coitado foi para a reciclagem assim mesmo.
-É, eu sei. Esses robôs pensam, sabem o que está acontecendo. Não é como antigamente.
-Aliás, você sabe por que estão encerrando este projeto, que foi tão elogiado?
-A conversa que eu ouvi foi que os dirigentes ficaram com medo depois de alguns incidentes. Perceberam que a série do Hendrix era inteligente demais e, principalmente, sensível demais. Até mais que muitos humanos.
-Entendo.
E o diálogo, então, foi encoberto pela voz do sistema que anunciava:

- Hendrix 2765, recuperação encerrada. Material sendo devolvido para secção 312 para exame.

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Estranhas Histórias
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Wednesday, December 26, 2012

A Nova Vida de Sara


A Nova Vida de Sara

A Nova Vida de Sara
Há males que vêm para o bem. Diziam isso antigamente e ainda é verdade. Era o que Sara achava dos recentes acontecimentos em sua vida. Passou por aquele acidente horrível, mas no final deu tudo certo. Antes era uma depressão total. A vida parecia não ter sentido, não havia motivação para nada. Lá no fundo desconfiava que o acidente tinha sido causado por ela mesma. O que alguns “cientistas da mente” chamavam de “suicídio por descuido proposital”. Claro, não havia mais psicólogos ou psiquiatras, agora era assim que os chamávamos. Afinal o mundo estava completamente diferente neste começo de século 22 e aqueles termos eram coisa do século passado.
Voltando à Sara, ela estava completamente curada. Mais do que isso. Agora ela tinha uma vida de verdade, cheia de motivação. Ainda por cima, quase por milagre, aquela grande amiga de sua juventude, a Aurora, havia se mudado para bem perto da casa dela. Sara desconfiava que aquilo tinha sido coisa dos tais de “técnicos sociais”.  Aurora confidenciou que uns funcionários do governo a visitaram. Andaram fazendo perguntas sobre sua solidão, o que estava sentindo e quando percebeu, estava sendo convidada para se mudar. E surpresa: bem ali, pertinho da sua grande amiga, a Sara. Estavam numa felicidade indescritível, parecia até uma coisa do outro mundo. Todos os problemas haviam desaparecido como por milagre. Faziam coisas juntas a maior parte do tempo. Divertiam-se a valer, não tinham com o que se preocupar. Monotonia era coisa de um outro mundo, distante, Sara e Aurora nem sabiam mais o que era isso.
Para não dizer que tudo era 100%, ultimamente a Sara estava experimentando vez ou outra, durante algumas frações de segundo, uma coisa um pouco estranha. Não era coisa que incomodasse, mas dava para se perceber que estava acontecendo. Era como se tudo parasse naquele lapso de tempo, como se a realidade inteira, tudo, se congelasse. Não doía, não incomodava, portanto tudo bem. Era como você estivesse assistindo a um filme e de repente houvesse uma pequena “pause”.
Se você considerar a gravidade do acidente pelo qual Sara havia passado, aquilo não era nada. Até seu cérebro foi parcialmente afetado. Levaram um tempo mais do que o normal para reconstituir tudo. Apesar de os acidentes serem raríssimos, as equipes médicas conservavam todas as técnicas e equipamentos como se fosse tudo uma rotina.
Na grande sala de “Controle de Atividades Virtuais”, Norton acabara de informar seu supervisor que estava havendo uma pequena falha, quase imperceptível, na programação da unidade VL1345. Havia um problema na sequência temporal, para ser mais preciso, uma “nanofalha”, quase imperceptível. O supervisor avisou para Norton que nenhuma falha era admissível. Todo o programa teria de ser refeito.
Sara era a unidade VL1345. E, de repente, sentiu um sono danado e ouviu uma espécie de “voz interior” dizendo para ela ir para casa descansar.
Na sala de controle, Norton reprogramou todas as atividades virtuais de Sara, dando ênfase para o fator do tempo. Checou o programa, agora estava perfeito. Só para se certificar, resolveu verificar a parte de hardware e também o “elemento biológico”. Entrou na sala própria, abriu o compartimento e lá estava o cérebro de Sara num cilindro de acrílico com todas as conexões necessárias. Norton pensou consigo mesmo, como aquela mulher havia conseguido destruir seu corpo inteiro daquele jeito? Quase perdeu o próprio cérebro. Sorte dela que eles conseguiram reconstituir o pouco de massa cinzenta que ela havia perdido. E mais sorte ainda era que o seguro dela era dos bons. Ligou o os sensores de teste para “elemento biológico” e segundos depois, pode notar que estava tudo em ordem, que o cérebro de Sara estava perfeito. Segundos depois reativou a vida virtual de Sara.
Sara acordou extremamente disposta e logo a seguir chamou sua amiga Aurora para dar uma volta. Assim que se encontraram na rua, Sara deu um beijo na face da amiga, suspirou, e disse com alegria:
-Aurora, como nossa vida é boa! Eu gosto de viver!

E as duas deram uma grande gargalhada de felicidade...


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Friday, June 29, 2012

A Estrela d’Alva


Era o ano de 2137 e Mary Lou estava se preparando para a mais importante viagem de sua carreira de astronauta. Era também a estreia da nova geração de naves espaciais, com propulsores jamais imaginados pela inteligência humana. Inicialmente a agência do espaço da Grande Confederação da Terra havia concebido uma missão tripulada por robôs ultrassofisticados, também criação recente. Entretanto depois de muita deliberação, decidiram que era seguro e também importante que o ser humano tivesse este tipo de experiência. Além do mais, os astronautas agora não só eram  preparados desde crianças para este tipo de projeto, mas também tinham caracterísicas genéticas próprias para viagens espaciais implantadas em seus corpos desde sua concepção em laboratório.
Mary Lou, apesar de ser uma excelente profissional,  tinha herdado os gens de seu pai – ela o conheceu mesmo tendo sido gerada em laboratório – um certo sentimentalismo característico das gerações antigas. Ela nunca deixara isso ser percebido por ninguém.  Desta forma, apesar de seu treinamento, ela se emocionava ao se lembrar da imagem do pai. Lembra-se ainda hoje, adulta, de uma cena comovente quando ela tinha cinco anos. Seu pai,  astronauta comandante Arvin – do primeiro escalão – disse que havia um presente que queria lhe dar. Era uma corrente de ouro com um pingente no qual estava incrustado um lindo diamante. Era uma joia que estava na família há gerações.  O comandante Arvin, ou Fred, como era chamado pelos amigos, colocou a corrente no pescoço de Mary Lou. Disse a ela para levá-la em todas as suas viagens. E foi o que ela sempre fez. Deu à joia o nome  de Estrela d’Alva.
O destino, no entanto, às vezes é cruel. Depois de três viagens feitas por Mary Lou com a corrente, Fred, que ainda fazia muitas missões espaciais, foi designado para uma viagem como esta que Mary Lou ia fazer agora. No entanto, as naves eram da antiga geração, que, de qualquer maneira eram também bastante sofisticadas.  Por algum motivo, talvez subconsciente, ele pediu para a filha que lhe “emprestasse” a joia que ele havia lhe dado. Queria tê-la em seu bolso durante a missão. Ironicamente sua nave desintegrou-se quando estava indo em direção a Júpiter, matando todos seus tripulantes. O acidente nunca foi bem explicado. O boato era que faziam parte da missão experiências nunca antes tentadas mas tinham a ver com os resultados obtidos através do extraordinário acelerador de partículas recém-construído em Marte. Houve uma comissão especial de cientistas que pesquisou os eventos e chegou a conclusões que obviamente escondiam o que realmente tinha acontecido. Mary Lou fazia agora suas missões sem levar a Estrela d’Alva. E desta vez, sentiu falta. Teve um pouco de vergonha ao pensar nisso, afinal de contas ela era uma oficial de primeira linha, a comandante Arvin, como era chamada em seu meio.
O  Grande Colisor de Hádrons que começou a funcionar em 10 de Setembro de 2008, era um brinquedo de criança comparado ao que havia sido construído em Marte. Cem vezes maior, dez vezes mais sofisticado. Suas atividades haviam sido suspensas após o acidente com a nave de Fred, mas alguns meses depois tudo voltou ao normal.  Claro que astronautas e cientistas não devem ser, e normalmente não são supersticiosos, mas as coincidências da missões de Mary Lou com as de seu pai eram assustadoras. Ambas deviam “dar um passeio” pelo sistema solar e ambas faziam parte de experimentos relacionados com o grande acelerador de partículas. A comandante Arvin não pensava em nada disso, pelo contrário, estava ansiosa e excitadíssima com sua missão. Pensou que seria interessante ter a correntinha de ouro que seu pai havia lhe dado, a “Estrela d’Alva”. Seu pai, se vivo, também gostaria...
A  “New Enterprise” estava agora há um mês de distância de Júpiter, provavelmente não muito longe do ponto onde a nave de seu pai, o comandante Arvin, havia se desintegrado. Uma parte da missão era justamente deixar na órbita do planeta quase metade da própria nave, que seria, na verdade, a primeira grande peça de uma enorme estação que ficaria na órbita de Júpiter. Outras inúmeras missões viriam para completar a obra. A outra parte da missão era praticamente função apenas dos computadores. Os tripulantes só fariam algo numa emergência e, ainda assim, de uma maneira restrita. O segredo não incomodava Mary Lou nem os outros tripulantes. A ciência entrara numa fase tão avançada que era difícil dominar e fazer parte dela de uma maneira completa e direta. Os grandes computadores faziam quase tudo.
Quanto mais a “New Enterprise” se aproximava do grande planeta era inevitável para Mary Lou se lembrar da tragédia e de seu pai. Isto,entretanto, não afetava seus afazeres ou seu desempenho. Ela era provavelmente a mais equilibrada da equipe e jamais o teste emocional que era feito em todos os tripulantes a cada 24 horas indicara nela qualquer alteração. Nem mesmo alguns pequenos incidentes recentes na viagem haviam produzido qualquer efeito  em seu comportamento. Houve vários casos de mau funcionamento de navegação que logo depois eram corrigidos pelo sistema. A única coisa que a incomodava um pouco era que, toda vez que ela tentava analisar o ocorrido, principalmente com o objetivo de evitar nova ocorrência, simplesmente não havia registro do mesmo. Era como se a inteligência dos computadores estivesse tentando esconder algo. Nos últimos três dias, porém, algo mais grave havia acontecido. Uma pequena vibração, que foi notada por todos da tripulação, ocorrera por duas vezes. Os computadores novamente nada registraram. A essa altura Mary Lou não sabia se era mais grave a vibração ou o fato de os computadores se recusarem a notificá-la e explicá-la.
Uma semana depois, algo mais grave ainda havia ocorrido. Uma vibração intensa, por mais de 35 minutos, outra vez sem nenhuma notificação dos computadores, deixara toda a tripulação muito preocupada. Houve reunião, muita discussão, diversas opiniões, mas o fato era que nada podiam fazer. As mensagens especiais enviadas para Marte e para Terra tiveram respostas evasivas, dizendo que estavam analisando, estudando, etc.
Foi então que aconteceu o inimaginável. Uma vibração enorme, assustadora, como se a espaçonave estivesse se partindo em duas. Todos os tripulantes desmaiaram e só acordaram horas depois. Aparentemente a nave estava intata, tudo funcionando. Imediatamente todos começaram a consultar os dados. Mais uma vez, não havia indicação de nenhum mau funcionamento. Nada. No entanto estavam “faltando”  dezessete minutos no tempo, no histórico, nos dados, em tudo. E todos os computadores, mesmo os especiais dedicados somente à missão do grande acelerador, buscavam freneticamente “entender”  os minutos faltantes, sem conseguir. Começaram então a montar uma situação hipotética, trabalhar em cima dela, para que as coisas voltassem ao normal. Enquanto isso membros da tripulação recebiam mensagens não oficiais de conhecidos e amigos de Marte e da Terra narrando estranhos eventos. Nada gigantesco, mas coisas que eram surpreendentes. Prédios e máquinas que sumiram, pessoas que  apareceram em outros lugares depois da “falha dos 17”, como ficou sendo chamado o evento. O óbvio passou a ser o objeto de todas as conversas. O grande experimento que envolvia a “New Enterprise” e o grande acelerador havia interferido no tempo-espaço do sistema solar e talvez até fora. Provavelmente algo infinitamente pequeno em termos cósmicos mas altamente significativo em termos humanos. Obviamente a espécie humana, por mais adiantada que estivesse, ainda não estava preparada para lidar com as consequências deste novo avanço da ciência.
Foi durante uma  conversa com outro membro da tripulação que, quase inconscientemente, Mary Lou enfiou a mão no bolso de sua túnica e – não podia acreditar – sentiu com seus dedos a correntinha de ouro que seu pai lhe dera. Ficou lívida e mal conseguiu esconder o que estava sentindo da sua interlocutora. Pediu desculpas e se retirou para seus aposentos. Tirou a joia e colocou-a sobre a mesa. Não havia dúvida, era a “Estrela d’Alva”.  Consultou dados em seu computador pessoal. As coordenadas coincidiam. O “evento” ocorrera exatamente no mesmo local onde a nave de seu pai havia desaparecido. Lógica? Nenhuma. Por que só a corrente? Definitivamente, pensou ela, os fatos científicos não podiam ser separados da consciência humana. Havia uma ligação. Não comentou nada com ninguém. Iria parecer uma idiota, ninguém acreditaria e afetaria sua imagem de comandante. Nos dias seguintes houve inúmeras entrevistas com os comandantes da missão da Terra e de Marte. Queriam mais dados, além do que diziam os computadores. Coisas pessoais, o que eles haviam sentido. Eles sabiam algo mais, porém não queriam compartilhar, só queriam “ extrair informações”. Havia um grande enfoque em “experiências pessoais” nas perguntas que faziam. O que acontecera não era um fato científico isolado, tinha a ver com “consciência pessoal”, talvez até com espiritualidade, algo de que praticamente não se falava mais, a não ser em estudos históricos. Ela quase falou sobre a joia durante as investigações, talvez fosse uma colaboração importante. Depois decidiu que não.
Voltou para sua sala, abriu a foto de seu pai na tela, olhou para seu sorriso e para seu uniforme de comandante, colocou a Estrela d’Alva na palma da mão, e chorou...de emoção.