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Tuesday, June 4, 2019

Giulia, o episódio de Hachiro



Giulia, o episódio de Hachiro

Hachiro foi andando pelos arbustos, tentando afastá-los com as mãos. Estava com pressa. O frio era tremendo, embora um sol intenso, quase branco, bem no meio do céu azul, iluminasse, destemido, a paisagem. Uma brisa, quase vento, penetrava a pele como se fosse uma faca feita de gelo, mesmo com a roupa especial com que estava. Não demorou muito para que ele atingisse a areia da praia, Cala Brandinchi, Sardenha. Olhou inadvertidamente para cima e ficou quase cego por alguns segundos. Assim que recuperou a visão, viu o corpo nu de Giulia: magro, molhado, tremendo com aquela temperatura baixíssima. Estava sentada numa espécie de colchão que, paradoxalmente, estava seco. Era como se Hachiro soubesse de tudo, conhecesse a história que tinha acabado de acontecer. Giulia tinha sido de vítima do naufrágio de um pequeno barco a três quilômetros dali.
Tirou seu casaco e o colocou sobre os ombros delicados da mulher. Ela se virou e olhou para ele submissa, agradecida, tentando cobrir os seios. Certamente ela era italiana, mas seus olhos eram ligeiramente “puxados”, indicando talvez alguma ligação genética com asiáticos. Hachiro achou que isso era bom. Levantou-a e começou a carregá-la em seus braços. Com os pés ia afastando as pequenas plantas para que elas não a machucassem. Sentia carinho sem sensualidade, amor sem erotismo. Era bom ajudar alguém. Fazia muito tempo que não sentia algo tão profundo. Alguns minutos depois chegava em casa. Empurrou a porta com as costas, andou alguns passos e a pôs com ternura sobre o sofá. Foi até o quarto, pegou um cobertor e um travesseiro. Agora ela parecia confortável, não sentia mais frio.
Seguro de que tudo estava bem, deu uma ordem ao seu robô pessoal para que preparasse um chá, sabor pêssego. Não demorou muito para que sentisse o aroma na sala. Estava agora sentado em frente à enorme tela côncava de seu ICS (Integrated Communications System). Ordenou que a presente sessão terminasse, virou-se para trás e notou que sua linda Giulia não estava mais lá. Também ele não estava mais na casa de praia.
Estava sim no 73º. andar de um conjunto habitacional nos arredores de Tóquio.  Tinha voltado de seu episódio virtual, parte do tratamento de uma condição de saúde chamada LOSPS (síndrome da falta de propósito social, em Inglês). Era o final do ano 2087 e as pessoas trabalhavam cerca de 4 horas por dia apenas e mesmo isso era demais. Tudo era feito pelos robôs. As pessoas, principalmente os jovens, sentiam-se completamente inúteis com tanto tempo à sua disposição. A maior parte dos casos era tratada com infusões químicas. Casos mais sérios eram tratados com a técnica de imersão profunda em realidade virtual.

Hachiro estava feliz com a última sessão com a Giulia, e conferiu qual seria o próximo “episódio”, nome dado a cada parte do tratamento. Tratava-se de socorrer uma criança que tinha acabado de ser atropelada em uma rua de Los Angeles há décadas atrás, por volta do ano 2021. Graças à sua ajuda, ela seria salva. Hachiro tentou dar um “start” no programa, mas logo veio o aviso que ele já conhecia. Só era possível uma sessão por dia, a “imersão profunda” poderia causar danos ao cérebro. Não custava tentar, aquilo era muito bom. Conformou-se e pegou o elevador. Ia começar a sua jornada de 4 horas diárias de trabalho. Bom dia, Hachiro, bom dia Tóquio!

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Friday, March 2, 2018

Happy Ville


Happy Ville

Estou muito feliz aqui. Não há nada para se acrescentar, tudo é perfeito. Foi assim desde sempre e nem me lembro mais de quando esse sempre começou. Quando acordo, de manhã, a primeira coisa que me vem à cabeça é que a vida é maravilhosa e que o novo dia vai ser melhor ainda. Acho que é daí que vem o nome da cidade, Happy Ville. Muito apropriado.
Sento-me à mesa na cozinha e mal posso acreditar no café da manhã que está bem ali, em frente a mim. Do outro lado da mesa está Lykke, a minha espetacular esposa. Além de ser de uma beleza estonteante, ela sabe tudo: fala outras línguas, canta como uma profissional, e, meu Deus, como sabe cozinhar!
Cheguei até a pensar que seria bom de vez em quando a gente ter algum tipo de problema. Só para variar. Fico com receio de um dia ficar aborrecido com tanto contentamento. Percebi, no entanto, que isso é besteira. Cada novo dia é melhor do que o que já passou.
É verdade que há um tempo atrás aconteceu algo estranho. Ficou tudo escuro por um breve, muito breve, período de tempo. Ao mesmo tempo eu, de certa forma, perdi a consciência. Não houve consequência nenhuma. Aconteceu de novo no mês passado, mas o evento foi ainda mais curto que o anterior. Eu absolutamente não me preocupo com isso. É verdade que meu amigo Steve não concorda comigo e ele até explicou o porquê. Ele, no entanto, é exagerado e se preocupa com tudo. Os outros amigos meus também não estão se importando muito com isso
Na semana passada chamei minha esposa, por engano, de Elsker. Sei lá por quê... Será que já fui casado com outra mulher? Fiquei preparado para uma briga ou pelo menos um muxoxo. Que nada, ela veio para o meu lado, me deu um beijo e falou que eu era uma graça, quando trocava os nomes assim.
Ela me explicou que Lykke na antiga Noruega significava Felicidade e que Elsker significava Amor. Deu um sorriso malicioso e acrescentou “Não é bom assim?”. Eu não entendi direito o que ela quis dizer, mas fiquei feliz com sua atitude.
Combinei com o Steve de almoçar no novo restaurante da rua principal. Isto foi para hoje e foi muito melhor do que eu esperava. Eu não tenho mais adjetivos para elogiar tudo o que acontece por aqui. E olha que o Steve ainda tentou me deixar preocupado. Começou com a história do “blackout”. Disse que aquilo foi uma tentativa de invasão. Eu não aguentei e comecei a rir. Ele me chamou de idiota. “Não é o tipo de invasão que você está pensando!”. E então me explicou que tudo que a gente vê, sente, ouve e vive por aqui, é completamente irreal. É uma tecnologia, uma realidade “inventada”. A vida real é em outro lugar. E disse que ele “volta” para a realidade - a verdadeira -  regularmente. Dá para acreditar? Ele continuou dizendo que nossos corpos estão em uma gigantesca instalação, onde nos mantêm vivos, alimentando-nos, cuidando de nossa vida. Quando perguntei para ele por que eu também não voltava para lá como ele,  fez um sinal de aborrecimento, mas explicou. Fizemos contratos diferentes com a empresa "Afterlife”. No meu, disse ele, eles são obrigados a me trazer de volta para o estado consciente a cada dois anos. No entanto, continuou, tenho ido para lá com muito mais frequência do que isso. Há uma cláusula que os obriga a me trazer de volta toda vez que o sistema está em perigo. E é isso que está acontecendo. Há gente tão revoltada com esses privilégios que nós temos – um céu na terra, de acordo com a propaganda da "Afterlife”-  que contrataram um grupo de “hackers” para derrubar o sistema de realidade virtual da "Afterlife". Eu sei que nunca vão conseguir, mas isto pode se tornar uma chateação.
Diante da minha incredulidade, ele me disse que sabia que eu jamais acreditaria. Eu estava no “sistema perpétuo”, ou seja, não tinha visitas programadas. Isso só aconteceria se o sistema falhasse de vez, o que jamais vai acontecer, concluiu ele.
Vou dizer, essa é a história mais estranha que eu já ouvi! Estou preocupado? De jeito nenhum. Ao contrário, acho que isso também faz parte da perfeição dessa nossa vida aqui. Um pouquinho de medo, de preocupação, só para nos lembrar, através do contraste, de como somos privilegiados!
Pensando bem, no entanto, esse Steve tem cada história!


                                                  ooo000oooo


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Saturday, November 28, 2015

A Balada



A Balada (em algum ano do século vinte e dois...)

Luna tinha um dia agitado pela frente e achou que seria bom divertir-se um pouco aquela noite. Precisava relaxar. Estavam na moda as famosas festas noturnas do final do século 20 e começo do 21. Eram festas “da pesada” e faziam parte de uma onda de saudosismo.  Quem tinha experimentado, dizia que acontecia de tudo. Com tudo que havia ocorrido em termos de diversão nas últimas décadas, ficava cada vez mais difícil achar alguma novidade no setor. E algo de que Luna não gostava, era de ficar entediada. É claro que o que se fazia nessas casas noturnas tinha que ser encaradas dentro do contexto. Para se divertir pesado, você precisava “entrar” nelas com o espírito do passado, aí é que residia a essência da diversão.
Luna preparou-se adequadamente e dali a pouco já estava “se aquecendo” no novo ambiente. Rostos desconhecidos, mas todos interessantes, rindo, animados. Homens e mulheres jovens movimentando-se doidamente pelo imenso clube. Ela, por seu lado, já estava tomando seu primeiro drinque. Depois dos dois primeiros goles já se sentia em estado de êxtase. Seu corpo parecia flutuar entre os pares que dançavam. Claro, a bebida já vinha com as drogas certas. Prazer através de todos os sentidos, de todos os tipos. Seu corpo ia da total languidez para a total excitação. Num momento estava viajando pelas galáxias, noutro estava imersa no próprio sangue, nas próprias moléculas. A seguir, suas células explodiam e se espalhavam pelo enorme salão. Depois se reagrupavam e reconstituíam seu corpo... que, então caminhava célere por tubos multicoloridos que terminavam em grandes piscinas com água rosa, azul, verde... Daí então, os rostos da festa apareciam de surpresa do fundo da água a sua frente e sorriam... Lá estava ela de volta no salão flutuando... Seu corpo sendo devorado por todos os jovens da sala. Todo seu ser envolto em volúpias mil, sua libido aumentando, aumentando até seu corpo explodir em pequenos pontos de luz e se evaporar no ar. Os pontinhos lentamente voltavam ao chão e depois se reorganizavam em células, moléculas, e seu corpo surgia no meio do salão, outra vez, no meio de todos. Ela era novamente devorada e no prazer do devorar, até sua alma se enchia de gozo.

As horas passaram rápidas. Loucura após loucura, numa espiral doida e sem sentido, mas com todos os sentidos do corpo sentindo todas as sensações possíveis. Nada importava e tudo importava. Entendia tudo, falava todas as línguas, conhecia todas as fórmulas. Olhos, ouvidos, nariz, pele... todos os órgãos estavam auferindo tudo do ambiente, das pessoas, do universo. Cores, luz, formas...
Finalmente, começou a vir uma calma quase divina. Seu corpo e sua alma começaram a ficar em silêncio. Começou a voltar.
Lá estava Luna calmamente sentada em sua poltrona. As horas que passara na sua louca balada eram na verdade apenas 10 minutos de “viagem virtual”. Estava toda plugada e nem precisara sair de seu quarto. No seu corpo não havia uma gota de álcool ou um grama de drogas. Estava sadia e forte como nunca. Estava relaxada e calma.

Bem-vindo ao saudável “admirável mundo novo” do sexo, das drogas e “rock and roll” do século vinte e dois...



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