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Saturday, August 11, 2018

Um coroinha e a história de Perus


Um coroinha e a história de Perus

Se você pudesse voltar no tempo e ver Perus dos anos 50, certamente iria pensar que estava em um outro país, em alguma terra distante. Além do esqueleto principal do bairro, suas principais artérias, nada se parecia com o que é agora. Mas não é assim em todo lugar?
Às vezes olhamos fotos antigas e, por algum mecanismo mental, pessoas e fatos voltam à nossa mente. Foi o que aconteceu comigo quando vi aquele “retrato” da antiga Paróquia de Santa Rosa de Lima. Lembrei-me da época em que fui coroinha. Nem sei como aconteceu. Não sei se minha mãe, devota como ninguém, teve alguma coisa a ver com isso, mas o fato é que aconteceu.
Fora do horário da missa, eu ficava bisbilhotando os objetos, livros e tudo que havia por ali. Foi então que encontrei aquele livro enorme – enorme mesmo – igual àqueles que existiam nos cartórios. Aliás, eu nunca entendi por que os chamavam de livros, se você escrevia neles e eles não vinham impressos. Não deveria ser “caderno”? Semântica à parte, o fato é que o livrão, em pé, era mais alto do que eu. Abri a primeira página e lá estava uma grafia impecável, distinta, daquelas que só se viam antigamente. Comecei a ler e percebi que era alguém tentando escrever a história de Perus. Dava para ver que o projeto tinha sido abandonado. Infelizmente não tinha ido além da primeira página. Lembro-me vagamente do  narrador falando da tal “Maria dos Perus”, a Nhá Maria. Quando ela tinha chegado, onde era sua casa, a antiga fazenda que havia por ali... Eu era muito pequeno e certamente não me lembro dos detalhes. O que eu me lembro, no entanto, é de que eu sabia que estava diante de alguma coisa importante, uma espécie de documento histórico. Enchi o peito e avisei o padre e todo adulto que pudesse me ouvir. Ninguém deu a menor bola para mim.  Esses meninos – eu, no caso – não têm mesmo o que fazer, pensam que os adultos têm tempo para essas besteiras.  E eu continuei minha vida, não fui historiador nem nada, mas não consigo me esquecer do ocorrido. O livro, será que ele existe ainda? Duvido. O que iriam fazer com um “cadernão” desajeitado daqueles, que quase precisava de duas pessoas para ser carregado? E o escritor misterioso? Um pároco antigo, algum dos primeiros residentes de Perus, um devoto? Nunca vou saber.

Como se escreve nos tabelionatos, eu vi, atestei. É verdade, dou fé. Ou como o grande poeta brasileiro do Romantismo, Gonçalves Dias,  escreveu uma vez: “Meninos, eu vi!”.



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Thursday, May 7, 2015

Pelegos e Queixadas: o cimento das almas

Pelegos e Queixadas: o cimento das almas

Era uma vez um lugar… Lá moravam nossas famílias, ganhávamos nosso pão, vivíamos nossos sonhos. Quase todos trabalhavam no mesmo lugar, uma grande fábrica de cimento. Era enorme, dominava a paisagem,dominava a comunidade. Na hora do almoço, nós, os filhos dos trabalhadores, fazíamos um longo roteiro para levar as “marmitas” para que nossos valorosos pais pudessem se alimentar e continuar trabalhando pelo resto da tarde. A comida, embora simples, era cuidadosamente  preparada e separada, item por item por nossas mães. Passávamos por um túnel sob a estrada de ferro e ao longo de um pequeno riacho, até chegarmos ao grande refeitório. Talvez o roteiro fosse considerado perigoso hoje em dia para crianças de nossa idade. Entretanto naquela época ainda havia anjos que cuidavam de nós. Não era obrigação, gostávamos de fazer isso, era parte do grande sonho que é a infância.
O que nós não sabíamos na época, era que a fábrica, ao produzir o cimento, jogava o resto do pó sobre nossas casas, nossas ruas, nossas plantas. Era como se tudo fosse cinza-esverdeado. Os arames das cercas tornaram-se três  vezes mais grossos do que  eram originalmente. As ruas eram cimentadas ou se tornaram, não porque quiséssemos, mas simplesmente porque o pó não parava de cair. As folhas das plantas eram todas da mesma cor, a cor do cimento. Flores só as que estavam dentro de casa. Todos passaram a reclamar, exigir uma solução. Esse tipo de consciência não era tão forte naquela época mas algumas pessoas eram valentes, lutavam e sabiam que era tudo um problema de ganância: a fábrica não queria gastar dinheiro com os grandes filtros industriais. O cimento era tanto que começou a entrar em nossos pulmões, nos pulmões de nossas crianças, em nossos olhos, em nossa pele.  E ainda assim, precisávamos da fábrica, do trabalho.
Um dia, porém, o cimento entrou em nossas almas. Por várias razões, os empregados resolveram entrar em greve. Não foi uma greve qualquer, foi uma longa e interminável greve. Não foi uma greve qualquer, foi uma greve que mudou a nossa cidade. Não foi uma greve qualquer, foi uma greve que nos transformou por dentro e por fora. Foi aí que o cimento endureceu em nosso interior tanto quanto endurecera em nossos pulmões.As pessoas se dividiram. Umas achavam que a greve deveria ir até o fim, outros achavam que os trabalhadores deveriam retornar ao trabalho que “trabalhar era preciso”.  Dividiram-se  as pessoas entre “pelegos” e “queixadas”, os que queriam voltar a trabalhar e os que queriam continuar a paralisação até o fim. Foi triste. Amigos se tornaram inimigos, parentes e amigos se separaram, passaram a “olhar torto”, a falar coisas... Cada um, de cada lado, tinha suas razões. Foi aí que, mais do que nunca, sentimos a dureza do cimento. Passamos a ter almas de concreto. O cimento, definitivamente, tinha invadido tudo: o corpo e a alma.
Muito tempo se passou e, claro, de uma forma ou outra, tudo se resolveu. Não sei quantas pessoas ainda se lembram dessas coisas tristes, não sei se ainda há gente com rancor em Perus, onde tudo aconteceu. Eu sei que o cimento das ruas, das plantas e das casas, embora com dificuldade, um dia você pode limpar. Quanto ao cimento das almas, não sei. Não sei se passa de pai para filho, se amolece com o tempo. Eu só sei que esse cimento prejudicou nossa gente mais do que os acidentes de trem, do que a política, do que tudo... Claro, estou falando do cimento da alma... Espero que os filhos e netos de Perus - os filhos da terra - tenham se esquecido desse capítulo triste de nossas vidas, para sempre.


Perus: um pouco de história











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