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Friday, February 26, 2016

A vida é um susto



A vida é um susto


A vida é um susto,
um suspiro profundo,
uma pergunta sem resposta,
uma resposta indevida,
uma graça sem par,
uma vontade de amar,
um caminho inseguro,
uma estrada com perigos,
um buraco escuro,
uma sensação vívida,
uma surpresa esperada,
uma estrela brilhante,
um ócio cheio de ação,
um ódio sem razão.
um amor não correspondido,
uma incoerência insana.
Um mistério formidável,
um desejo sublime!
Tão má, tão boa,
incoerente, demente,
tão insensata e suprema,
que, por um mistério divino,
adoramos viver
e gostaríamos de prolongar.
Prolongar, prolongar....
ooooooOOO0OOOooooo






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Thursday, April 9, 2015

Uma cidade chamada “Céu Estrelado”


Uma cidade chamada “Céu Estrelado”




Estavam todos dormindo na pequena vila quando se ouviu um som surdo, grave. Demorou uns dois ou três minutos. Ninguém sabia o que era, mas todo mundo acordou e ouviu. Entretanto ninguém se preocupou em levantar e verificar o ocorrido. Quase todas as pessoas tiveram a mesma ideia: se é algum problema, alguém vai lá ajudar. Sempre alguém ajuda. Só de manhã que todos ficaram sabendo da coisa ruim. O “seu” Valério foi o primeiro, depois a “dona” Saméria. Os outros, praticamente todo mundo, vieram logo a seguir, quando esses dois primeiros saíram correndo para dar a notícia.
Um grande, profundo e assustador buraco, havia aparecido bem no meio da praça. Engoliu, sem cerimônia, o coreto, os bancos ao redor, a estátua do fundador da cidade, as árvores, tudo. Só parou na frente da igreja. Foi assim que pela frente não dava para entrar. O padre conseguiu fazê-lo pelos fundos, numa porta que era um acesso para a sacristia.
Diante de tão grande tragédia, o sacerdote esperava que os fiéis viessem para a missa, de tal forma que pudessem iniciar a negociação com Deus para resolver aquela profundidade de problema. A fé não era tanta assim e todo mundo ficou com medo do resto desmoronar e levar a igreja junto, com eles lá dentro. Nem as beatas mais fervorosas arriscaram. É nessa hora que a gente vê a fé verdadeira. Mas quem sou eu para criticar? Não sei o que eu mesmo faria numa situação dessas.
Começaram as especulações. Coisa da geografia, movimentação de terra, lençóis de água e tudo mais... Muitas teorias, além daquelas que não são tão científicas, como uma maldição antiga, coisa do demo. O Vigário, com certeza, sabia que aquilo estava relacionado com a degradação dos costumes, o adultério que se alastrava como erva daninha pela cidade. Mas não era coisa de Deus, não. Aquilo era coisa do maligno, explicou. Todo mundo podia perceber que o danado parou bem em frente do edifício sagrado. Ali o chefe das trevas não tinha chance, precisou parar. Alguém tinha dúvida? Estava escrito com todas as letras, era só ler a mensagem. O “seu” Isidoro não entendeu direito pois não conseguia ver nada escrito em lugar nenhum.  A única coisa que ele via era aquela cratera enorme. Quando explicaram para ele que aquilo era uma metáfora, daí ele se perdeu de vez. Existe gente que é mesmo exibida, como você vai querer que alguém que não entendeu algo tão simples, vá saber o que significa “metáfora”? É explicar uma coisa difícil com outra mais difícil ainda.
O prefeito, ao contrário do que se esperava, não quis enumerar as prováveis  causas. Disse que teria de haver um estudo. Mas o que o preocupava mesmo era que aquilo era uma chateação. Aquela coisa grotesca bem no meio da paisagem urbana. Se fosse na periferia, numa vila qualquer, tudo bem. Talvez fosse até bom. Podia dar emprego, movimentava a administração. Ele poderia dar uma de eficiente, de pai de todos, aquele que ajuda quem precisa. Mas ali, no coração de tudo, a um bloco da sede da prefeitura, aquilo era uma indignação. E o pior que o maldito era profundo e de tal forma construído – melhor dizer, “desconstruído” – que não se via onde terminava. Parecia mesmo uma coisa de outro mundo, em todos os sentidos que esta expressão tem. Alguém sugeriu jogar todo o lixo da cidade ali, até encher o danado. Mas depois, e com razão, alguém argumentou que não ficaria bem ter um lixão bem ali na praça, e ainda mais, na frente da igreja. Encher aquilo tudo com terra e pedras, ia dar um trabalho monstruoso, além de custar um dinheirão. Coisa que a cidade não tinha e que certamente o governo estadual não iria dar, tal era a crise econômica em toda a nação.
Assim foi que a solução do problema, se é que ela existia, foi adiada por tempo indeterminado. O prefeito tinha esperança de que, pelo menos, alguns turistas aparecessem e trouxessem alguma ajuda econômica para o seu governo. Que nada, ninguém estava interessado em buracos.
Claro, a mando da prefeitura, foi colocada uma cerca ao redor, para evitar um mal maior, se é que é possível um mal ser maior ainda. Mesmo sem poder mais ver claramente o fundo do buraco – assustador – ninguém conseguia deixar de pensar nele. Os habitantes não só pensavam, sonhavam também com o dito cujo. Cada um com seu sonho, um mais esquisito do que o outro. Depois de algum tempo, alguns sonhos começaram a se repetir, e as pessoas começaram a sonhar sonhos parecidos e até iguais. Aquilo parecia uma comoção coletiva. Um dos mais comuns – e até dá para entender – era de que máquinas e caminhões trabalhavam intensamente para encher a cratera. Alguns já sonhavam com a coisa pronta. Uma praça novinha em folha, com uma bandinha tocando no coreto.
Sonhar é bom.
Eles foram ficando cada vez mais intensos e cada vez mais parecidos. Deve haver alguma explicação. Tenho certeza de que os psicólogos e os psiquiatras sabem exatamente o porquê disso tudo.
Finalmente, numa noite de sábado, houve um grande sonho. Todos, sem exceção, sonharam exatamente a mesma coisa. Foi um sonho coletivo, de fato. E era assim: no domingo de manhã, escutaram uma linda marchinha sendo tocada por uma banda, impecável, vestida de branco e usando dragonas cor de ouro. A música era irresistível. Todos se levantaram, puseram a melhor roupa que tinham e se dirigiram para a praça. O padre insistia que todos deveriam primeiro ir à missa – nunca mais ninguém tinha ido à missa – e depois assistir a banda. Mas, como foi explicado, a música era irresistível e mesmo o pároco acabou indo para lá, na esperança de todos depois irem para a cerimônia eclesiástica, assim que a apresentação musical terminasse. E era uma coisa linda. As notas penetravam nos ouvidos, na alma. As pessoas quase se sentiam culpadas de se sentirem tão felizes. Neste sonho, o buraco não estava mais lá. Uma praça elegante, cheia de árvores e bancos. Os músicos, sublimes, como se fossem anjos, tocavam, tocavam...
Mas veja você, o que de fato aconteceu. Por isso que alguns dizem que sonhar é perigoso. Daquele, ninguém nunca mais acordou. O que aconteceu, na verdade, é que, sonâmbulos, levantaram-se de suas camas e, enganados por aquela música fatal, que não era real, dirigiram –se para o grande buraco, pensando que era a nova praça. Foram todos, sem exceção, caindo, caindo. Acho que a sensação de êxtase veio de quando eles estavam pairando no ar, antes de chegar ao fundo. Digo isto porque sempre há uma relação entre o que a gente sonha e o mundo exterior, verdadeiro, aquele que nos cerca. Aquela sensação divina que eles sentiam, com aquela banda tocando como se fossem anjos... Não sei, talvez eles estivessem indo para o céu e tivessem confundido a banda com os anjos. Mas aí já estamos entrando numa área complicada, de filosofia, de metafísica.
O fato é que todo mundo morreu com a queda, pois a altura era realmente muito grande. Uma coisa que não dá nem para pensar, a cidade toda, sonâmbula, se jogando naquele abismo, pensando numa onírica e festiva banda. Não sobrou ninguém para contar o que aconteceu para as autoridades estaduais e federais quando eles chegaram para examinar a tragédia. Nenhum corpo foi recuperado, devido à profundidade.
Não sei o que aconteceu depois. Parece que o buraco foi se enchendo de água com o tempo, até virar um lago. Ninguém vai lá porque é perigoso e profundo. Está cercado e é tudo proibido.

O nome da cidade era “Céu Estrelado”.  Pena que não tenha sobrado ninguém, pois iria perguntar a origem desse nome. Como é que escolheram essas palavras, etc. Isso é interessante, gosto de saber. A origem dos nomes é simbólica, pode trazer luz para os fatos. Às vezes é só um nome, nada mais. Mas, como dizem, não sobrou ninguém para contar a história, assim não se sabe o porquê de “Céu Estrelado”.

oooooOOOooooo

Estranhas Histórias
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Friday, March 22, 2013

Rua das Morangas, 629


Rua das Morangas, 629

Maurício gostava de correr logo cedo. Naquela manhã o ar parecia mais gostoso, parecia mais volumoso. Ia passar agora por aquela sequência de casas antigas, todas com frondosas árvores na frente.
Notou de repente  que, numa delas, logo adiante,  havia uma senhora de idade na porta. Parecia fazer um sinal para ele.  Não tinha certeza de que era com ele.  Sem saber como agir, continuou a andar. Havia alguma coisa de diferente nela, mas não sabia dizer o quê.
No dia seguinte, excepcionalmente, não fez os exercícios de costume. Precisou ir ao trabalho de manhã. Um dia depois, no entanto, lá estava ela novamente, como se o estivesse esperando. Dessa vez estava quase na calçada. Não houve jeito, Maurício teve de parar.
Disse que precisava de ajuda, se poderia entrar. Ela  parecia estar sendo sincera e, além do mais, era certamente inofensiva. Entrou. Ela fez sinal para que ele sentasse. Foi até o quarto e trouxe na mão a foto de uma mulher. Mostrou-a para o Maurício explicando que era sua filha. Tinha 22 anos, morava perto dali e seu nome era Valdívia Monteiro de Albuquerque. Quase chorando, disse que ela estava em apuros e que seu namorado, Leno, era o culpado. Precisava ajudá-la, era sua filha. Pediu, pelo amor de Deus, que ele passasse lá para dar uma olhada. Passou-lhe um bilhetinho com o endereço. Beijou a mão de Maurício e repetiu: “Me ajuda, pelo amor de Deus!”
Maurício estava perplexo e impressionado. Ao sair, ela ainda falou: “Obrigado. Meu nome é Anastácia.” Ele virou-se,  fez um sinal com as mãos e viu o número da casa: 629. Ali era a Rua das Morangas, 629.
Naquele mesmo dia não havia nada que ele pudesse fazer. O endereço que a mulher lhe dera era distante uns 18 quilômetros dali e já estava na hora de ir para o trabalho.
No dia seguinte, ao invés de sair para andar, pegou o carro e se dirigiu para o endereço dado pela velha senhora. Conhecia um pouco a região mas não se lembrava especificamente daquela rua.
Depois de meia hora e um pouco de trânsito, finalmente dobrou à esquerda e em segundos estaria na casa da Valdívia. Para sua surpresa, logo a frente, havia um aglomerado de pessoas e um carro de polícia com as luzes de cima acesas, piscando. Estacionou na calçada e já foi perguntando...
-O senhor não sabe? A moça que estava desaparecida...? Acharam seu corpo, todo desfigurado. Já sabem quem é o assassino, um tal de Leno, acho que é seu namorado.
Maurício quase teve um enfarte com o susto. Atormentado, foi trabalhar, sentindo uma culpa enorme no peito. Durante o dia, tentou se consolar dizendo que não havia como ele prever uma coisa daquelas. No intervalo, mais tarde, assistiu ao noticiário na TV. Estava em todos os canais. Valdívia morava sozinha, não tinha família. Uma colega reparou que ela estava faltando no trabalho e na faculdade há mais de dez dias. Sabia também da personalidade violenta do Leno. Foi até a polícia. Interrogaram duro o Leno e ele acabou confessando tudo, inclusive onde estava o corpo.
Não tinha família? Será que ela não sabia que a mãe era viva e morava na mesma cidade? Resolveu visitar a dona Anastácia no dia seguinte. Ia ser duro, mas precisava.
Chegou bem cedo, a casa estava toda fechada, Tocou a campainha, bateu na porta, nada. Andou até a porta de trás, nada. Quando estava voltando para a frente encontrou uma senhora que vinha em sua direção. “O senhor deseja alguma coisa?”,  perguntou. Ele explicou a situação.
A vizinha, que na verdade cuidava da casa para a família, ficou bem surpresa. Da filha Valdívia, ela ficou sabendo, viu nos jornais. Entretanto estava desconfiada da história que o Maurício contou sobre a dona Anastácia. Ela perguntou se ele era algum repórter que estava usando uma desculpa para entrar na casa. Diante da negativa do Maurício, a vizinha explicou: “O senhor deve ter visitado outra casa. Esta aqui está fechada há mais de dez anos. Além disso, a dona Anastácia, mãe da Valdívia,  também  morreu há mais de dez anos.”



Maurício estava muito confuso com a história. Foi até a prefeitura e pesquisou a casa da Rua das Morangas 629, pesquisou a história da dona Anastácia. Era verdade o que a vizinha estava dizendo. A casa estava fechada  há mais de dez anos e a dona Anastácia havia falecido na mesma época. Foi até o cemitério e aí teve mais uma confirmação: lá estava o túmulo da da senhora Anastácia Monteiro de Albuquerque. Com fotografia e tudo. E aí seu coração gelou de novo. A foto mostrava exatamente a mesma mulher com quem falara há dias atrás.
Com o tempo, Maurício foi conseguindo por a história para trás. Dizia para si mesmo que foi uma alucinação, um sonho. Qualquer coisa assim. Mas esquecer, ele nunca esqueceu, não...