Sunday, May 17, 2015

Saturday, May 16, 2015

A ditadura cordial


A ditadura cordial

Talvez você já tenha ouvido falar que o brasileiro é o homem “cordial”. Em “Raízes do Brasil”, Sérgio Buarque de Holanda explica o termo e o conceito. Ao contrário do que sugere a aparência da palavra, isto não significa que somos generosos, gentis ou coisa assim. O que o autor quer dizer é que nós agimos de acordo com o coração, como sugere o termo cordial, derivado do Latim “cor”. Seguimos nossos sentimentos, nossos interesses, ao invés de seguirmos as regras, o governo, a sociedade e as leis. Colocamos o individual acima do coletivo, não sabemos distinguir entre o que é público e o que é privado. E daí, certamente, vem a ideia do “jeitinho”, do nosso jeito especial e particular de resolver as coisas, em detrimento do coletivo, do público. O grande historiador explica esta nossa característica através de nossos antepassados, de nossa história.
Em princípio, uma ditadura seria o oposto disso. Seria o interesse público acima do individual. Não haveria “jeitinho”, todo mundo estaria sob a “linha dura”. Foi, de certa forma, o que aconteceu. De uns tempos para cá, porém, fiquei pensando. Nossa ditadura foi muito especial em algumas coisas. A mais interessante de todas é que mudávamos de ditador a cada quatro anos. Quem faz isto? Havia até um certo “tipo” de eleição. Normalmente os ditadores são vitalícios. Talvez o pessoal da extrema direita quis dar um ar de “tudo normal”, de “democracia” para algo que era absolutamente anormal e antidemocrático. Havia até dois partidos políticos. O de oposição (antigo MDB) podia até opor, desde que tudo fosse aprovado com antecedência. Era até bonito: uma democracia ao estilo de “Alice no país das maravilhas”. Talvez eles tenham tentado “dar um jeitinho” na ditadura, para ela não parecer tão cruel. O que era feio ficava nos porões.
Certamente o Sérgio Buarque não iria aprovar meu raciocínio, mas não resisto à tentação de chamar esse nosso escuro período de a “ditadura cordial”.
Com o perdão da palavra, é claro.





O Homem Cordial
Sérgio Buarque de Holanda, em "Raízes do Brasil" (Capítulo "O Homem Cordial"), fala sobre o brasileiro e uma característica presente no seu modo de ser: a cordialidade. Porém, cordial, ao contrário do que muitas pessoas pensam, vem da palavra latina cor, cordis, que significa coração. Portanto, o homem cordial não é uma pessoa gentil, mas aquele que age movido pela emoção no lugar da razão, não vê distinção entre o privado e o público, ele detesta formalidades, põe de lado a ética e a civilidade.
Em termos antropológicos, o jeitinho pode ser atribuído a um suposto caráter emocional do brasileiro, descrito como “o homem cordial” pelo antropólogo Sérgio Buarque de Holanda. No livro “Raízes do Brasil”, este autor afirma que o indivíduo brasileiro teria desenvolvido uma histórica propensão à informalidade. Deva-se isso ao fato de as instituições brasileiras terem sido concebidas de forma coercitiva e unilateral, não havendo diálogo entre governantes e governados, mas apenas a imposição de uma lei e de uma ordem consideradas artificiais, quando não inconvenientes aos interesses das elites políticas e econômicas de então. Daí a grande tendência fratricida observada na época do Brasil Império, tendência esta bem ilustradas pelos episódios conhecidos com Guerra dos Farrapos e Confederação do Equador.
Na vida cotidiana, tornava-se comum ignorar as leis em favor das amizades. Desmoralizadas, incapazes de se imporem, as leis não tinham tanto valor quanto, por exemplo, a palavra de um “bom” amigo; além disso, o fato de afastar as leis e seus castigos típicos era uma prova de boa-vontade e um gesto de confiança, o que favorecia boas relações de comércio e tráfico de influência. De acordo com testemunhos de comerciantes holandeses, era impossível fazer negócio com um brasileiro antes de se fazer amizade com este. Um adágio da época dizia que “aos inimigos, as leis; aos amigos, tudo”. A informalidade era – e ainda é – uma forma de se preservar o indivíduo.

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Sunday, May 10, 2015

Dona Eleta



Dona Eleta

Como ela era uma pessoa muito discreta, não queria falar o nome dela. Mas sabe de uma coisa? Preciso falar, pois ela precisa ficar registrada nos documentos da vida como uma pessoa de fé. Seu nome era Eleta. Dona Eleta. Como todas as mães, preocupava-se excessivamente com os filhos. Todo o tempo pensando neles, querendo saber como estavam, se tudo corria bem. Três homens, três preocupações, nem sequer uma filha mulher para fazer companhia, para compartilhar. Como ela era católica tenho que dizer que ela “rezava”. Mas rezava  muito. Eu acho que ela também “orava”, se é que existe alguma diferença. Não pense que ela pedia e depois ia descansar. Não, ela não parava nunca, pedia, pedia para Deus... pelos filhos e pelos amigos e por quem precisasse. Era muita fé, como nunca vi em outra pessoa. Dona Eleta era minha mãe e ela já faleceu. Ela não gostava de dar trabalho para ninguém, só gostava de ajudar. E isso já é outra história. Um dia sentiu-se mal e depois de alguns minutos foi levada numa ambulância para o hospital. Morreu no caminho. Não quis dar trabalho em casa, não quis dar trabalho no hospital, não quis dar trabalho para ninguém. Se Manuel Bandeira a tivesse conhecido, ao invés de Irene, teria colocado o nome dela no poema dele: “E São Pedro bonachão:- Entra, Eleta. Você não precisa pedir licença.” 
Voltando às orações, meu irmão tinha uma teoria sobre as orações de nossa mãe. Segundo ele, a Dona Eleta rezava tanto, tanto, que a uma certa altura, Deus, mesmo sendo Deus, e me perdoe se estou blasfemando, não conseguia ver aquela mulher rezar sem parar. No final da noite, depois de muitos dias, mesmo que fosse uma graça ou benção que tivesse de esperar, Deus, na sua infinita bondade, ficava cansado de ouvir tanto a mesma oração e mandava uma mensagem para Dona Eleta: “Está bem, Dona Eleta, não precisa mais rezar, amanhã de manhã, sem falta, vou enviar sua benção.” Ela dava então um pequeno sorriso – porque eu sei também que ela conversava com Deus – e Deus ia dormir. Mas a Dona Eleta, mesmo assim, continuava rezando até de manhã, quando a graça ia chegar, só para garantir.
Dona Eleta, a senhora não sabe a falta que faz...


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Thursday, May 7, 2015

Pelegos e Queixadas: o cimento das almas

Pelegos e Queixadas: o cimento das almas

Era uma vez um lugar… Lá moravam nossas famílias, ganhávamos nosso pão, vivíamos nossos sonhos. Quase todos trabalhavam no mesmo lugar, uma grande fábrica de cimento. Era enorme, dominava a paisagem,dominava a comunidade. Na hora do almoço, nós, os filhos dos trabalhadores, fazíamos um longo roteiro para levar as “marmitas” para que nossos valorosos pais pudessem se alimentar e continuar trabalhando pelo resto da tarde. A comida, embora simples, era cuidadosamente  preparada e separada, item por item por nossas mães. Passávamos por um túnel sob a estrada de ferro e ao longo de um pequeno riacho, até chegarmos ao grande refeitório. Talvez o roteiro fosse considerado perigoso hoje em dia para crianças de nossa idade. Entretanto naquela época ainda havia anjos que cuidavam de nós. Não era obrigação, gostávamos de fazer isso, era parte do grande sonho que é a infância.
O que nós não sabíamos na época, era que a fábrica, ao produzir o cimento, jogava o resto do pó sobre nossas casas, nossas ruas, nossas plantas. Era como se tudo fosse cinza-esverdeado. Os arames das cercas tornaram-se três  vezes mais grossos do que  eram originalmente. As ruas eram cimentadas ou se tornaram, não porque quiséssemos, mas simplesmente porque o pó não parava de cair. As folhas das plantas eram todas da mesma cor, a cor do cimento. Flores só as que estavam dentro de casa. Todos passaram a reclamar, exigir uma solução. Esse tipo de consciência não era tão forte naquela época mas algumas pessoas eram valentes, lutavam e sabiam que era tudo um problema de ganância: a fábrica não queria gastar dinheiro com os grandes filtros industriais. O cimento era tanto que começou a entrar em nossos pulmões, nos pulmões de nossas crianças, em nossos olhos, em nossa pele.  E ainda assim, precisávamos da fábrica, do trabalho.
Um dia, porém, o cimento entrou em nossas almas. Por várias razões, os empregados resolveram entrar em greve. Não foi uma greve qualquer, foi uma longa e interminável greve. Não foi uma greve qualquer, foi uma greve que mudou a nossa cidade. Não foi uma greve qualquer, foi uma greve que nos transformou por dentro e por fora. Foi aí que o cimento endureceu em nosso interior tanto quanto endurecera em nossos pulmões.As pessoas se dividiram. Umas achavam que a greve deveria ir até o fim, outros achavam que os trabalhadores deveriam retornar ao trabalho que “trabalhar era preciso”.  Dividiram-se  as pessoas entre “pelegos” e “queixadas”, os que queriam voltar a trabalhar e os que queriam continuar a paralisação até o fim. Foi triste. Amigos se tornaram inimigos, parentes e amigos se separaram, passaram a “olhar torto”, a falar coisas... Cada um, de cada lado, tinha suas razões. Foi aí que, mais do que nunca, sentimos a dureza do cimento. Passamos a ter almas de concreto. O cimento, definitivamente, tinha invadido tudo: o corpo e a alma.
Muito tempo se passou e, claro, de uma forma ou outra, tudo se resolveu. Não sei quantas pessoas ainda se lembram dessas coisas tristes, não sei se ainda há gente com rancor em Perus, onde tudo aconteceu. Eu sei que o cimento das ruas, das plantas e das casas, embora com dificuldade, um dia você pode limpar. Quanto ao cimento das almas, não sei. Não sei se passa de pai para filho, se amolece com o tempo. Eu só sei que esse cimento prejudicou nossa gente mais do que os acidentes de trem, do que a política, do que tudo... Claro, estou falando do cimento da alma... Espero que os filhos e netos de Perus - os filhos da terra - tenham se esquecido desse capítulo triste de nossas vidas, para sempre.


Perus: um pouco de história











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Monday, May 4, 2015

Um lugar chamado Perus




Um lugar chamado Perus

As lembranças voltam, às vezes, aos borbotões. Outras, vêm de uma em uma, lentamente.
Lembro-me de olhar para os dois lados, com muito cuidado, antes de atravessar a linha do trem. Estava voltando do Suzana de Campos. A porteira estava fechada, podia ser um risco. Quantas histórias de gente que perdeu um pé ou um braço. Antes de chegar ali, tinha sentido o cheiro gostoso que vinha da padaria perto da estação, na Avenida Sílvio de Campos. Do outro lado, bem perto da porteira, o bar do Jânio, onde eu comprava doces quando podia. Vejo-me  de repente, transportado ao Morro do Cartório, com um saco de compras. Eram da Dona Amélia. Ela me pagava para ir duas vezes por dia lá embaixo até a venda ou a quitanda. Meu primeiro emprego fixo, sem registro, é claro. Tinha apenas 8 anos. Noutro momento, estou lá em cima do abacateiro, colhendo alguns com uma vara, para depois vendê-los na quitanda da Mieko, lá na praça. Dali a pouco estou passando bem em frente à loja do “seu” Elias, com todos aqueles vidros e espelhos. Depois paro em frente ao cinema - meu ponto favorito - para, logo a seguir, beber água na bica. Pensando, ainda, nos cartazes dos filmes do póximo final de semana. Havia depois, na mesma rua, o velho Grupo Escolar e, no final, virando à direita, a venda do “seu”Machado, onde meu irmão Bonifácio trabalhou por muito tempo. Mas agora, estou misturando épocas. E o que importa? Está tudo lá, num grande redemoinho de memórias. E a estrada da Ponte Seca, onde bem mais tarde iria com meu fusquinha azul namorar em Caieiras? Como posso esquecer? E, em outra época, bem antes, eu estava a andar, de madrugada, pelos trilhos da Santos a Jundiaí, voltando dos bailinhos da Melhoramentos.

E as imagens se atropelam, vivas ou esvaídas, na minha cabeça. Umas se vão para sempre, outras voltam fresquinhas. Sei, no entanto, que um dia, todas vão partir. Talvez se transformem em poesia. Poesia pura, pairando no ar. No ar de um lugar chamado Perus.

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Essa vida da gente

(crônicas e contos sobre o cotidiano)







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Sunday, May 3, 2015

A poesia dos poetas, dos brutos, e de todo mundo



A poesia dos poetas, dos brutos, e de todo mundo

O cronista é um poeta que escreve poemas em forma de prosa. O poeta é o poeta, escreve poemas em forma de poesia, em sua forma original. Os leitores também são poetas, apenas não estão se expressando. Assimilam a poesia que está no ar, nas palavras, em todo lugar. As pessoas brutas também podem ter poesia, escondida em algum ponto recôndito do ser. Há os brutos estúpidos. Estes a destruíram, há muito tempo, e são agora, a sua antítese.  Ela, ao contrário do que se pensa, nem sempre é suave. Às vezes, é profunda, doída, existencial.  Às vezes se expressa, depois de passar pela pena do dramaturgo, dramaticamente, no palco,  interpretada por atores geniais. É também triste, pois a vida pode ser triste também. Os músicos e compositores a expressam em formas de notas musicais.

A poesia em forma pura está na alma das crianças. É  lá que ela fica, até amadurecer, ficar pronta e, finalmente, explodir num ato de criação. Através do poeta, do romancista, do escritor...

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Saturday, May 2, 2015

A Assassina de Olhos Frios

A Assassina de Olhos Frios

Lá vou eu transportando mais uma paciente pelas estradas da Flórida. Desta vez é uma carcereira. Conta coisas interessantes sobre as mulheres prisioneiras, o dia-a-dia, os problemas, as curiosidades. Conta sobre as mulheres assassinas, suas sentenças, etc. De repente me veio à mente o caso de Aileen Wuornos, a famosa “serial killer” da Flórida. Sim, aquela mesmo que matava motoristas de caminhão. Ela ficava nas estradas exercendo a “profissão” de prostituta e quando os motoristas paravam , ela os executava a tiros. Não foi realmente a primeira “serial killer” mulher como alguns dizem, mas foi “inovadora” em vários aspectos. Normalmente mulheres assassinas deste tipo usam veneno e matam maridos ou pessoas  “chegadas”. 
Não resisto e pergunto se ela sabia do “caso”. Claro, disse ela. Trabalhei na prisão onde ela estava. Daí juntos lembramos que ela foi executada em outubro de 2002. Pergunto como ela era. Imediatamente me reponde que Aileen tinha os olhos mais frios que ela tinha visto em toda sua vida. Embora estivesse acostumada com prisioneiras de todos os tipos, essa lhe “dava calafrios”. Juntos lembramos do filme “Monster” e a discussão sobre a “motivação” da criminosa. Ela era uma simples bandida,  fria e cruel,  ou realmente a vida maldita que ela teve foi a causa principal de todos os seus crimes? Concordamos que Charlize Theron teve uma atuação fenomenal nesta película.
Foi uma conversa interessante, principalmente porque adoro filmes e tudo que se relaciona a eles. Além disso, esta foi a vez que mais cheguei perto, na vida real, de alguma coisa próxima a um filme “de verdade”. Foi muito interessante a conversa com a carcereira. Ela contou mais coisas.
Depois fiquei pensando... Será que o olhar de Aileen era mesmo tão frio como ela dissera? Ou será que os olhos azuis de Charlize e sua personagem no filme é que a impressionaram??? Não que eu duvide que ela tenha conhecido Aileen... Pelo contrário, tenho certeza.  O que eu não sei é até que ponto ela misturou a realidade da prisão, a realidade da Aileen, e o filme, a história. 
Esses filmes...

Trailer do filme:  Desejo Assassino (Monster)
Sobre o filme: Monster (Aileen Wuornos)













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