Thursday, June 11, 2015

Sobre meninos e lobos: o renascer de Ronald



Sobre meninos e lobos: o renascer de Ronald

Ronald sentia-se bastante confortável naquela cadeira reclinável da varanda. Pela tela podia ver alguns esquilos correndo céleres pelos galhos das árvores. Através das folhas, a luz do sol insistia em invadir o quintal, formando um contraste de claro escuro na relva. O cheirinho de comida vindo da cozinha fazia a saliva brotar em sua boca. Não estava vendo, mas podia imaginar sua mãe cortando legumes, temperando, mexendo na panela, fritando... Com mais de oitenta anos, ela parecia tão bem quanto há quarenta anos atrás.
Certamente uma vida boa, muito boa. Ficaria ali para sempre, se pudesse. Deu uma cochilada e, lá do fundo, começou a ouvir um conjunto que ele adorava quando era jovem, bem jovem. “The Platters” estavam cantando “The Great Pretender”. Lembrou-se de quando perguntou para um amigo o que significava aquilo. Ele disse: “sou um grande fingidor”. Ficou com aquilo na cabeça todos esses anos. A música, fingimento ou não, era linda. Lembrava-se do disco de vinil girando na vitrola, a luz de um abajur se refletindo nele, suavemente se mexendo junto com a rotação.
Aquilo era muito real, nem parecia imaginação. Era como se tivesse voltado no tempo. Ouviu, então a voz de uma garota, chamando por seu nome. Lembrou-se dela. Era Ana, sua namorada. Estava ali a seu lado. Tinham combinado de sair. Ficou assustado, mas por outro lado, parecia, no fundo, entender o que estava acontecendo. Sabia o que ia acontecer. Ele tinha voltado décadas no tempo. Sabia que em alguns minutos se esqueceria do futuro novamente. Era um lapso de tempo aquele em que tinha consciência das duas realidades, de duas épocas. Aquele era o ano do presente: 2003. O ano do futuro era 2043. 
E  parecia que tudo tinha acontecido daquele jeito inúmeras vezes. Tinha vivido aqueles quarenta anos de novo e de novo. Parecia que passava muito rápido, que não eram tantos anos assim. Mas não é assim com todo mundo que fica velho? Aquela sensação de que a vida passou como um relâmpago?
Na verdade, tudo aquilo era planejado. Ele fazia parte de um programa. Era estranho e não era. Entendia e não entendia. Não importava. Aquele era um momento mágico, ele não ia se lembrar de mais nada e, em alguns momentos, ia viver uma nova vida. Começar de novo. Por uns segundos ainda, pensou. Não eram dois momentos. Eram três. O futuro, o presente e o passado, que ele não conhecia, mas podia sentir com a aquela velha canção, daquele maravilhoso conjunto. A voz de Ana tirou-o novamente de seus pensamentos. Estava falando para ele se apressar, pois estavam atrasados. Enquanto ele pegava suas coisas, ouvia a namorada cantarolar em inglês, junto com a vitrola: “Pretending that I'm doing well, my need is such, I pretend too much, I'm lonely but no one can tell”. Estava tentando fazer uma associação entre a letra e sua própria vida, quando de repente, só existia aquele momento, o ano de 2003. Ele era jovem de novo, não se lembrava de mais nada, só daquele instante. Iria viver tudo de novo, para, décadas depois, voltar para a velha cadeira de balanço, ver os esquilos, sentir o cheio de comida no longínquo ano de 2043 e... voltar, mais uma vez.
Na saída, ele e a Ana deram um beijo na jovem mãe, que, nesta data, estava costurando e não cozinhando, e saíram. Aquele era o novo momento e ele já não sabia mais do futuro.
Na grande sala de Inteligência Artificial da prisão da Flórida, os dois agentes do sistema penitenciário discutiam seu caso.
Philip achava que ele estava quase bom. Era só rodar o programa mais uma ou duas vezes - já tinham feito isso mais de cem  - e ele poderia ser “devolvido” para a sociedade. Ronald depois de cometer um crime de assassinato, foi considerado “doente mental” e pôde participar do programa “Renascer”. O tratamento consistia em reprogramar o cérebro do prisioneiro, fazer o “input” de novas e boas lembranças e devolvê-lo à sociedade, depois de "rodar" a nova vida inúmeras vezes em seu cérebro. Na verdade, ele seria um outro ser. Nada do que havia antes ficaria em sua memória. Leo, embora fosse um importante agente do programa Renascer, era contra o sistema. Ele achava que aquilo era um prêmio que se dava a um criminoso. Mas ele tinha uma função no sistema e precisava cumpri-la. Respondeu ao Philip que achava prematuro liberar o “caso # FL347892/A” (Ronald Bergman). Na sua opinião, a experiência virtual de uma nova vida e o input de sensações teriam de ser repetidos pelo menos mais uma vinte vezes. Podia se notar na sua voz um certo desprezo pelo “paciente” Bergman.
Na câmera 372B, o corpo de Ronald parecia inerte dentro da cápsula. Inúmeros fios, quase invisíveis, conectavam a sua cabeça a um enorme e sofisticado aparelho.
Enquanto Philip e Leo discutiam seu caso, Ronald e a namorada tinham chegado ao cinema e assistiam ao filme “Sobre meninos e lobos”. Estavam quase no final e Ronald, quase chorando, não se conformava com a maldade humana mostrada na história. Discretamente, Ana passou-lhe um lencinho de papel.
Na grande sala de controle, Leo levantou-se falou boa noite para Philip. Seu turno havia terminado. Era o dia três de abril de 2045.

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Histórias do Futuro

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Monday, June 8, 2015

Rimas fatais



Rimas fatais

Não importa o que pensamos,
o quanto amamos,
o que sabemos.
Somos a matéria em movimento,
partículas sopradas pelo vento,
a vida em andamento.
Um experimento do Universo,
do paralelo o reverso,
inúteis rimas sem versos.
Almas num cérebro vazio,
sensações em que não confio,
uma carga inútil num navio.
Somos o infinito com fim certo,
o finito no céu aberto,
uma caravana no deserto.
Desejos megalomaníacos,
corpos sedentos do afrodisíaco,
uma constelação fora do zodíaco.
Somos um nada sedento de Deus,
fingindo que somos ateus,
tentando atingir o apogeu.
No entanto, cá estamos nós,
tal qual nossos avós,
desatando nossos próprios nós.
E um dia, o fim vai chegar,
e com uma fúria invulgar,
tudo o que somos, vai levar.

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À procura de Lucas  (Flávio Cruz)
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Sunday, June 7, 2015

Consertos



Consertos

O marceneiro conserta as portas,
já o encanador cuida das pias.
Os fios quem emenda,
é o hábil eletricista.
O engenheiro, cuida da rodovia.
A costureira, tudo remenda:
calças, vestidos e saias.
A empregada limpa tudo
com um bom desinfetante.
A cabeça que anda errante,
é função do psiquiatra.
O rapaz, muito inteligente,
conserta todo software.
Algo está quebrado?
Sempre há quem dê um jeito.
O coração da moça triste,
quem, no entanto, vai consertar?

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A crônica acima não faz parte do livro abaixo

Essa vida da gente

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Thursday, June 4, 2015

Sonho de uma noite de inverno

Autor: Flávio Cruz

Sonho de uma noite de inverno

Sonhei. Era uma grande parada. Uma avenida sem fim. Eu estava vestido de trapos como todos os outros assistentes dos dois lados da avenida. Os carros alegóricos e os grupos iam passando lentamente. A música era ensurdecedora e as imagens muito vivas, me pareciam muito reais.

No primeiro grupo vinham vários homens bem vestidos, uns com ternos, outros com fraque, fumando charutos, felizes, rindo à toa. Punham as mãos nos bolsos e atiravam cédulas para a multidão que assistia. As pessoas, ávidas, pulavam para pegá-las, mas elas batiam num grande vidro e caíam de volta no chão, aos pés dos magnatas que sobre elas andavam. Já havia uma camada bem grossa de dinheiro, tanto assim que eles já estavam mais altos agora. Eles riam vendo o povo desesperado tentando pegar as notas, batendo-se uns contra os outros e às vezes contra a parede de vidro.

Mais atrás, sobre o carro, vinha uma grande mesa com homens e mulheres, também bem vestidos, comendo manjares deliciosos e bebendo vinhos raros. As mais incríveis especiarias estavam dispostas diante deles. Comiam e bebiam, bebiam e comiam. A multidão, dos dois lados, faminta, tentava subir sobre o tablado. Mas ele estava untado com o azeite que corria dos pratos, todos escorregavam e ninguém conseguia. O aroma delicioso passava sobre todos.

Depois vinha um grupo de pessoas estranhas. Pela frente estavam bem vestidos, chiquérrimos, por trás tinham uma roupa comum. Quase todos tinham atrás de si um pequeno cartaz que dizia “a verdade” ou “the truth”, ou “la verdad”, ou “la veritá” ou “la verité”. Havia outras línguas desconhecidas também. Eles andavam para lá e para cá, conversando, gesticulando e toda vez que passavam por um espelho, no centro, surpreendentemente, outra palavra, diferente, nele se refletia: “lies”, “mentiras”, “mensonges”, etc. Volta e meia, algum deles se virava para o povo e cumprimentava alguém, sacudindo as mãos. Rapidamente se afastavam e, ao fazê-lo, a pessoa cumprimentada ficava nua.

Depois veio um grupo de pessoas ajoelhadas. Cada um tinha uma túnica de diferente cor. Tinham a a cabeça baixa e, de vez em quando, olhavam para o céu. Mas logo, logo, uma névoa os cobria. Podia-se ver dinheiro caindo de cima mas ele desaparecia antes de tocar o chão. Os vultos apareciam de vez em quando, novamente, parcialmente vistos dentro da névoa. Muitas pessoas também se ajoelhavam ao ver o grupo passar.

Uma visão ainda mais insólita então se sucedeu. Um grande tubo despejava do alto uma infinidade de coisas. Quando chegou perto de mim, pude ver que eram telas com pinturas, livros, computadores, câmeras, televisores, telefones, fios e cabos que saíam pela ponta e desapareciam dentro de um grande cálice. No pé do mesmo havia uma torneira por onde saía um líquido que mudava de cor.

Veio então um grupo de pessoas que pareciam normais. Alguns usando barbas, outros não, mais outros de bigode, homens e mulheres, crianças também. Vestiam roupas comuns, nem baratas nem caras. Ao passar pela multidão, iam pulando do carro e se juntando aos outros. Ao fazê-lo sua vestimenta se transformava em trapos.

Ao longe consegui ver o último carro do desfile. Homens armados e vestidos com camuflagem, atiravam nas pessoas dos dois lados do cortejo. Mais perto, conseguia ouvir o grito das pessoas feridas, das pessoas morrendo, caindo sobre o próprio sangue derramado. A procissão começou a acelerar e de repente, me vi sob a mira de um dos homens.


Antes que ele pudesse atirar, eu acordei. Foi apenas um pesadelo, como tantos outros. Não há nada que temer.

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  À venda


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Wednesday, June 3, 2015

Borboletas



Borboletas

Estou caçando borboletas que não devem ser caçadas.
Usando palavras que não devem ser usadas.
Pensando o impensável.
Indo contra a corrente.
Falando o que não se deve.
Inventando histórias impossíveis.
Planejando o passado.
Pintando uma canção.
Escrevendo um quadro.
Compondo uma escultura.
Fazendo o que não se faz.
Acho que não fui planejado.
Acho que não chorei quando nasci.
Acho que nasci antes do tempo.
Acho que perdi a rota.
Acho que estou fora dos planos.
Acho que sou o contrário.
Já sei: Vou parar de caçar borboletas.


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A crônica acima não faz parte do livro abaixo

Essa vida da gente

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Tuesday, June 2, 2015

Preciso


Preciso

Preciso de ajuda na tormenta,
de consolo na desgraça,
de apoio na miséria,
de carinho na tristeza,
de remédio na dor,
de inspiração na inércia,
de paz durante a batalha,
de conselhos na indecisão,
de força no dia a dia.
Preciso de tantas coisas,
o tempo todo, em todos os momentos.
Na maioria das vezes, porém,
só um sorriso seu bastaria...

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Essa vida da gente

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Monday, June 1, 2015

A receita do jornal




A receita do jornal

A dona Joana tinha um emprego bom. Era o começo da década dos 70 e ela era empregada doméstica na residência da família Mendes de Almeida. Gente fina, gente boa, além de educada e rica. Tradição de São Paulo. À tarde, quando o senhor Antônio chegava de seu escritório, deixava o jornal na mesinha ao lado da porta de entrada. Geralmente, depois dali, ia para o lixo, pois ele já tinha lido. Ele avisava para a empregada quando já tinha acabado de ler.
Ela, embora com dificuldade, sabia ler um pouco. Mas as notícias eram estranhas, ela não entendia nada de política, nem de economia e nem das outras coisas. Daí ela percebeu que havia, ultimamente, muitas receitas no “Jornal da Tarde”. De bolos e doces. E isso ela adorava. Gostava de preparar todo tipo de comida para os filhos e os netos. Foi então que ela se interessou mais pelo vespertino. Ali estava algo de que ela entendia e bastante. E por isso mesmo, foi que notou algo estranho. Na maioria das vezes, eles não terminavam de explicar como fazer o delicioso bolo de fubá com coco, por exemplo.
Não passou desapercebido pelo “seu” Antônio o interesse dela pela leitura. E, um dia, perguntou se ela gostava de ler. Claro que sim. Mas falou também que aquele pessoal do jornal não conseguia escrever direito. Quase nunca terminavam as instruções para se finalizar o doce ou o bolo. O “seu”  Antônio sabia muito bem que aquilo era só para repor material censurado pela ditadura. Que era feito às pressas, ninguém estava interessado na receita. Desconfiou então que, atrás daquela pessoas simples, existia alguém com preocupação política, com coisa para dizer. Talvez até tivesse um filho “subversivo” que tivesse explicado para ela a história do golpe militar. Talvez estivesse usando de ironia para saber o que o patrão pensava daquilo tudo.
Foi por pouco tempo, porém. Estava claro que não era o caso. Ela era apenas uma boa cozinheira que gostava de aprender mais e mais. Em tempo, refeito de seu pensamento, falou para ela que, talvez, ela pudesse ajudar lá no jornal. Seria uma boa jornalista culinária. Gostava de brincar com pessoas simples. A dona Joana ficou muito satisfeita com o comentário do patrão. Ele era um homem bom, sim senhor. Sabia que estava só brincando com ela, mas deu um sorriso grande com aqueles dentes bem brancos contrastando com a boca morena.

E o “seu” Antônio, depois, ficou pensando. Até que aquela ditadura tinha umas coisas gozadas. A dita cuja tinha sua parte cômica. É pena que muita gente estivesse sendo torturada e assassinada. Ainda bem que havia as receitas para substituir aquelas notícias ruins. Coitada da Joana... Já pensou ela lendo aquelas barbáries?

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