Saturday, December 5, 2015

Esses americanos

Esses americanos



De manhã, a moça, com sono, acorda e vai ao mercado comprar as coisas para um bom café da manhã. Claro, bacon e ovos são necessários, necessário é dizer. Foi de pijama mesmo, quem se importa? Claro, os cabelos estavam desgrenhados também.
Saindo do mercado, estava o respeitado senhor com bermuda xadrez e camisa listrada. Não combina! Para quem? Tudo é relativo. No posto de gasolina, a funcionária para e compra um copo de café. Está indo trabalhar. Depois de colocar gasolina, faz um esforço enorme para entrar no carro, está com umas cem libras a mais. Ninguém prestou atenção. Nem o rapaz que estava ao lado, usando sapatos sociais, com meia e tudo, e uma bermuda, bastante esportiva e colorida, num flagrante desrespeito à moda convencional. Que ousadia!
Quem são essas pessoas? Sem gosto, que não ligam para a aparência? São muitas, são americanos no seu dia a dia, ninguém se metendo na vida da outro, cada um é livre para usar o que quiser. Mesmo a mulher de meia idade, com “bobs” e tudo mais, que vai até o correio.
Ninguém repara, ninguém “cuida”, cada um “fica na sua”.

A coisa toda muda se um pequeno grupo estiver assistindo a televisão e o locutor der uma certa notícia. O prefeito de tal cidade, comprou algo que talvez não era tão necessário. O governador gastou alguns milhares de dólares que podia economizar. Então, até palavrões você pode ouvir. O que esse *** está fazendo com nosso dinheiro? E o outro: Este idiota não sabe que este é o dinheiro dos contribuintes? Isso mesmo, o “tax payer’s money”, este é sagrado. Nisso todos combinam. Ninguém repara nas roupas, mas nisso, pode ter certeza, todos reparam. Esses são os americanos... Nesse aspecto, dá inveja, não dá?

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Thursday, December 3, 2015

O pó das estrelas

O pó das estrelas



Dizem que fomos formados do pó das estrelas. E eu acredito. Que longo caminho, que longa transformação! Os primeiros átomos, as primeiras moléculas se formando, se organizando. Os primeiros micróbios, as primeiras bactérias, os peixes, os répteis e os mamíferos. Tudo evoluindo, evoluindo. Depois, um deles, o macaco, muito esperto, ficou em pé. Podia ver os inimigos de longe, cuidar de suas crias. Depois aprendeu a fazer armas, fazer fogo, se proteger dos inimigos. Ficou, então consciente de si mesmo, sabia que existia. Pensou, logo existia. Não foi assim? E o homem surgiu.
E foi ficando cada vez mais inteligente. Começou a entender do que era feito, como era feito. Aprendeu a voar, que coisa maravilhosa! Ousou e foi até a Lua. Quer ir mais além. Saber os  segredos da vida. Conhecer a mecânica do Universo e a incrível Mecânica Quântica. Nem dá para acreditar que tudo isso aconteceu, tudo isso, vindo do pó das estrelas...
Há um problema, porém. Alguns saíram com defeito. Não estou falando do corpo, não estou falando de pernas ou braços, ou dos sentidos. Para isso, cada vez mais estamos achando a cura. Estou falando da cabeça, do pensamento. Há seres humanos, tão pequenos em sua mentalidade, tão preocupados com coisas tão inferiores, que mal podemos dizer que são humanos. Preocupados com poder, com dinheiro também. Há também os loucos monstros. O que fazemos com eles? Mandamos para reciclagem?  Nada, pois somos civilizados, somos humanos. Temos de conviver, esperando que um dia, por uma alquimia mística, eles sejam tocados e transformados, repentinamente, em seres humanos de verdade. Quem sabe? Ou então esperar, como dizem os livros sagrados, que o pó volte ao pó...

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Wednesday, December 2, 2015

A quitanda da praça

A quitanda da praça





Eu era muito, muito, pequeno e existem coisas das quais não me lembro mais. Lembro-me, no entanto, de que  arrumei um emprego na quitanda de Perus, lá na praça. Devido à tenra idade, nem fui registrado. Desconfio, porém, que, naquela época, muito pouca gente era. As minhas obrigações eram bem simples e adequadas aos meus tenros anos. Não havia exploração infantil, nem nada parecido.
Arrumava os abacates numa caixa de madeira, para que eles ficassem com cara bonita para o freguês. Ela, minha patroa, nunca me falou isso, mas acho que eu já tinha um inclinaçãozinha para marketing. Outra obrigação era separar as frutas podres para jogá-las fora, como mandam as regras de saúde pública. Claro, elas ainda nem existiam. Acho que varria também o pequeno estabelecimento, mas disso não tenho certeza.
O meu emprego, depois da escola, é claro, ia de vento em pompa. Estava feliz. Saía correndo do Grupo Escolar Suzana de Campos só para ir trabalhar. O pagamento certamente era irrisório, mas dava para fazer um monte de coisas, até mais do que eu precisava.
Um dia, porém, fui despedido. Não sei se foi por justa causa, por uma causa razoável, ou por causa de mim mesmo. A Mieko, dona do prestigiado estabelecimento, me avisou, assim, sem mais nem menos. Agora, muitas décadas depois, desconfio que eu brincava muito durante o serviço. Criança não foi feita para brincar? Não tenho raiva da Mieko e nunca tive. Ela estava fazendo seu papel de empresária.
Não sei o que deu na minha cabeça, mas eu continuei por lá. Fiz de conta que não entendi. Que não era comigo. Talvez não tenha entendido mesmo, afinal eu era apenas um pimpolho. Talvez ela não tenha dado aviso prévio ou não tenha me avisado por escrito. Por isso, fiquei ainda trabalhando lá por muito tempo. Claro que brincava também, lá mesmo. Obviamente, o meu “gordo” salário também foi suspenso.
Acho que gostava da praça e, além do mais, aquele Morro do Cartório era terrível. Só subia quando não tinha mais jeito. Era bom ficar por ali...
A gente faz cada coisa quando é criança...


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Sunday, November 29, 2015

E o pássaro voou

E o pássaro voou

Uma coisa de louco. Lá estava ele no meio da floresta, sem saber para onde ir, sem saber o que fazer. Começou a correr, pois sentiu que havia perigo por ali. Não conseguia se lembrar de seu nome, mas certamente tinha um. Era uma dificuldade correr no meio do mato, descalço e nu. Os gravetos do chão machucavam seus pés, os ramos das árvores machucavam seu corpo. Mas era preciso correr.
Quem era, o que fazia ali? De onde tinha vindo? Nada, absolutamente nada, vinha à sua mente. Agora já doía o corpo todo. As pernas, os músculos das costelas, os braços, tudo. Quando levantou a mão para tirar o suor do rosto, percebeu que havia sangue nelas. Assim, seu rosto também ficou manchado de vermelho. Assustado, corria mais e mais. Finalmente, ao longe podia se ver que as árvores iam ficando escassas. A paisagem estava mais clara.
Diminuiu a intensidade de seus passos. Estava andando e dali para a frente só havia uma relva, com arbustos dispersos. Mais um pouco, estaria perto das primeiras casas que tinha visto à distância. Ao invés de ficar mais tranquilo, o medo aumentava. Não podia voltar, entretanto. Sabia que tinha de continuar. Queria se lembrar  pelo menos de seu nome. Nada, absolutamente nada vinha em seu cérebro. Olhou para seu corpo e viu que havia muito sangue escorrendo.
Andava por uma rua, ainda era de manhã e não havia pessoas na rua. Queria e não queria encontrar alguém. Chegou a pensar em bater à porta de algum morador mas desistiu. O desconhecido também lhe dava medo. Era agora uma avenida comprida. Além de casas, havia lojas. Havia coisas escritas, mas ele não conseguia ler. Não sabia ler, mas sabia que aquilo tudo era para ser lido.
Bem lá na frente, pela primeira vez viu um vulto que vinha em sua direção. Caminhava rápido e vinha para ele. Quando percebeu que, definitivamente, era com ele que ele vinha ter, parou bem no meio da pista. De um lado havia uma igreja e, do outro, estava o fórum.  Mais um pouco, à esquerda estava a cadeia.
Depois de alguns longos segundos, o homem chegou e parou à sua frente. Era bem mais alto que ele. Tinha uma barba rala, era forte e vestia uma túnica cinza. Tinha também sandálias e usava um estranho chapéu.
Falou com ele em uma língua estranha, que ele não conhecia, mas mesmo assim ele entendeu tudo. Entendeu que ele havia pecado e daí a razão de sua nudez. Estava ali para cumprir sua pena, seu destino. Pecado sem perdão, castigo sem redenção. Pensou em perguntar para o estranho seu próprio nome mas não teve coragem. No fundo, talvez, não quisesse saber. Sem direito ao fórum e sem direito à igreja, foi jogado numa cela onde havia apenas um banco. No alto da parede, uma pequena janela por onde entrava um pouco de luz. As grades não eram pequenas, mas certamente não permitiam que ele pudesse escapar. De nada adiantaria, de qualquer jeito, pois seria pego novamente. Adormeceu, estava muito cansado.
Quando acordou, percebeu que muito tempo havia se passado. Olhou para suas feridas. Não mais sangravam, estava seco e sujo. O corpo já não doía tanto. O silêncio, lá fora, era total. Devia ter um nome, queria se lembrar. Queria se lembrar do pecado também, uma vez que o estranho homem o havia mencionado, mas nada lhe ocorria. Achou, porém, que deveria se sentir culpado e assim o fez.
Dormiu mais uma vez. Um pouco antes de pegar no sono, sentiu que algo estava crescendo em seu corpo, principalmente em seus braços e em seu peito. Pareciam penas.
Desta vez dormiu muito mesmo. E agora estava se sentindo muito diferente. Não se lembrava mais de nenhum pecado, não se lembrava de nenhuma dor, nem se lembrava do homem que o prendera. Ele era muito pequeno, podia passar por entre as grades, podia até passar pela pequena  janela. Tinha penas, tinha asas. Era um pássaro marrom, com peito amarelo e uma cabeça vermelha. Não sabia como tinha vindo parar ali, mas sabia que era uma ave e que podia voar...
Bateu as asas e voou.

Enquanto voava, não sentia culpa, não sentia dor, não precisava de um nome, não sangrava. Voava sobre as casas, sobre as florestas, sobre as águas. E continuou a voar. Era a  única coisa que queria e que precisava fazer. E era isso que ele fazia, voar, voar, voar...
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Saturday, November 28, 2015

A Balada



A Balada (em algum ano do século vinte e dois...)

Luna tinha um dia agitado pela frente e achou que seria bom divertir-se um pouco aquela noite. Precisava relaxar. Estavam na moda as famosas festas noturnas do final do século 20 e começo do 21. Eram festas “da pesada” e faziam parte de uma onda de saudosismo.  Quem tinha experimentado, dizia que acontecia de tudo. Com tudo que havia ocorrido em termos de diversão nas últimas décadas, ficava cada vez mais difícil achar alguma novidade no setor. E algo de que Luna não gostava, era de ficar entediada. É claro que o que se fazia nessas casas noturnas tinha que ser encaradas dentro do contexto. Para se divertir pesado, você precisava “entrar” nelas com o espírito do passado, aí é que residia a essência da diversão.
Luna preparou-se adequadamente e dali a pouco já estava “se aquecendo” no novo ambiente. Rostos desconhecidos, mas todos interessantes, rindo, animados. Homens e mulheres jovens movimentando-se doidamente pelo imenso clube. Ela, por seu lado, já estava tomando seu primeiro drinque. Depois dos dois primeiros goles já se sentia em estado de êxtase. Seu corpo parecia flutuar entre os pares que dançavam. Claro, a bebida já vinha com as drogas certas. Prazer através de todos os sentidos, de todos os tipos. Seu corpo ia da total languidez para a total excitação. Num momento estava viajando pelas galáxias, noutro estava imersa no próprio sangue, nas próprias moléculas. A seguir, suas células explodiam e se espalhavam pelo enorme salão. Depois se reagrupavam e reconstituíam seu corpo... que, então caminhava célere por tubos multicoloridos que terminavam em grandes piscinas com água rosa, azul, verde... Daí então, os rostos da festa apareciam de surpresa do fundo da água a sua frente e sorriam... Lá estava ela de volta no salão flutuando... Seu corpo sendo devorado por todos os jovens da sala. Todo seu ser envolto em volúpias mil, sua libido aumentando, aumentando até seu corpo explodir em pequenos pontos de luz e se evaporar no ar. Os pontinhos lentamente voltavam ao chão e depois se reorganizavam em células, moléculas, e seu corpo surgia no meio do salão, outra vez, no meio de todos. Ela era novamente devorada e no prazer do devorar, até sua alma se enchia de gozo.

As horas passaram rápidas. Loucura após loucura, numa espiral doida e sem sentido, mas com todos os sentidos do corpo sentindo todas as sensações possíveis. Nada importava e tudo importava. Entendia tudo, falava todas as línguas, conhecia todas as fórmulas. Olhos, ouvidos, nariz, pele... todos os órgãos estavam auferindo tudo do ambiente, das pessoas, do universo. Cores, luz, formas...
Finalmente, começou a vir uma calma quase divina. Seu corpo e sua alma começaram a ficar em silêncio. Começou a voltar.
Lá estava Luna calmamente sentada em sua poltrona. As horas que passara na sua louca balada eram na verdade apenas 10 minutos de “viagem virtual”. Estava toda plugada e nem precisara sair de seu quarto. No seu corpo não havia uma gota de álcool ou um grama de drogas. Estava sadia e forte como nunca. Estava relaxada e calma.

Bem-vindo ao saudável “admirável mundo novo” do sexo, das drogas e “rock and roll” do século vinte e dois...



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