Showing posts with label adriana calcanhotto. Show all posts
Showing posts with label adriana calcanhotto. Show all posts

Saturday, January 6, 2018

Devolva-me


Devolva-me

Sozinho na sala de espera do consultório, vou navegando pelas músicas antigas do Brasil. Quem não tem uma crise nostálgica de vez em quando? Gosto mesmo é do Chico, do Gil e do Caetano. No entanto, de repente escuto aquela antiga canção primeiramente gravada por Leno e Lilian, desta vez executada por Adriana Calcanhotto, “Devolva-me”. Melodia gostosa, letra simples, mas bonita, deixo-me encantar por uns momentos.
De repente vejo que há uma moça sentada a meu lado. Sempre achei feio obrigar outras pessoas a ouvirem suas preferências musicais. Nesse caso, pior ainda, pois era alguém que não conhecia a nossa língua. Peço desculpas, coloco em pausa o meu fone. Imediatamente ela avisa:
-No, no, I like it!
Deixo então a sinfonia correr: – isso mesmo, agora, ela já tinha mudado de categoria, isso mesmo, uma sinfonia! Até acho que ela é bonita mesmo. Assim que termina a “apresentação”, ela me pergunta o que significa.
Com o Inglês mais romântico que pude produzir, falo que é a história de alguém que rompeu com seu amor e agora lhe diz para rasgar as cartas de amor. E tem mais, se ainda tem o retrato que um dia – quando ainda eram apaixonados – lhe dera, que devolva. Daí o título da música: “Devolva-me”. Explico até que é um caso de dor de cotovelo, do melhor jeito que achei.
Paro então minha tradução com medo de estar me tornando piegas e até inconveniente. Olho para ela, mas ela está dizendo:
-No, no... It’s beautiful!
Aí, então, ouço meu nome, a assistente do médico me chama. Digo então “até mais” e entro no consultório. Eu seria capaz, entretanto, de jurar que seus olhos estavam lacrimejantes. Não, não pode ser...

O fato é que de vez em quando escuto de novo a canção, mas agora meus ouvidos são outros...

----------------------------------------------------------------     
<><><><><><><><><><><><><> 


Para comprar no Brasil 
(impresso e e book):


À procura de Lucas  (Flávio Cruz)
----------------------------------------------
Para comprar nos EUA:

Monday, November 28, 2016

Goiabada sem queijo




Goiabada sem queijo

Dia especial, a vovó vai visitar a netinha amada lá longe. Hora de curtição, precisa ser aproveitada ao máximo. Conversa para cá, conversa para lá, a pequena mostra vídeos para vovó, cantam em conjunto. Aqueles dedinhos, rápidos na tela, atestam a grande brecha entre gerações. Quem se importa com isso? A vovó também é craque. Enfim, uma festa.
De repente ela fala para a avó:
- Quero ver “Fico assim sem você” da Adriana Calcanhotto!
E antes que a vovó pudesse se lembrar que música era aquela, já no ar se ouvia a melodia:

“Avião sem asa,
fogueira sem brasa,
sou eu assim sem você.
Futebol sem bola,
Piu-piu sem Frajola,
sou eu assim sem você.”

E ela joga seu corpinho para lá e para cá, rindo e cantando. “Num doce balanço”, como diria o Vinicius.
Com ritmo e ginga, continua:

“Neném sem chupeta,
Romeu sem Julieta,
sou eu assim sem você.
Carro sem estrada,
queijo sem goiabada,
sou eu assim sem você.”

Quem resiste? A vovó entra na onda e canta junto.
E assim foi, vezes e vezes.
Finalmente, ela dá uma parada. Daí, então, com um sorriso sério, ela solta:
Sabe, vovó? Eu gosto muito desta música!
-Eu também!
Põe a mãozinha no coração, dá um suspiro e completa:
-Eu sinto uma coisa aqui e me lembro do Pepinho toda vez que ela canta!
E aí estava revelado o segredo infantil! Aos quatro anos, a primeira paixão-amizade.
Daí, ela puxa a vovó pelas mãos e sai saltitando pela sala... Fazendo coisas que crianças precisam fazer!


**********

Histórias do Futuro

Para adquirir este livro no Brasil 



Para adquirir este livro nos Estados Unidos 

Clique aqui (e-book: $3.99 impresso: $11.98)



Tuesday, March 20, 2012

A Bailarina

Autor: Flávio Cruz

Ela era uma bailarina. Eu nunca tinha visto uma bailarina de verdade. Pertencia a um grupo de dança de Orlando. Para mim bailarina tem de ser delicada, suave, leve, quase transparente. Isso é o que ela era. E muito mais. Ela falava como bailarina, respondia como bailarina, andava como bailarina. Desconheço seus pensamentos mas sei que pensava como bailarina. Era peruana. Suave no corpo, suave no rosto e, tenho certeza, suave por dentro, lá no fundo da alma. Ainda nova, 23 anos, havia se casado com um cubano. Claro, o cubano também dançava, era professor. Um dia a bailarina machucou seu tornozelo num ensaio. Foi uma tristeza. Não pela dor, isso ela aguentava.  Era por não poder dançar. Talvez por pouco tempo, ainda não sabia. Fez um raio X.
 O especialista confirmou que iria ser um pouco mais longo do que ela esperava. 
Teve até de fazer uma pequena cirurgia. A tristeza cresceu dentro de seu peito. Ela, que já comia pouco, agora quase parou de comer. Você nem pode imaginar o que a tristeza pode fazer para uma pessoa. Nem as palavras do marido, consternado, nem o consolo das colegas, nada a animava. Daí então veio o pior. O médico disse que havia a possibilidade de ela não poder mais dançar e perguntou para ela se ela gostava de ensinar. Pois isso, ele achava que talvez ela pudesse fazer. Eu sei que há coisas mais tristes no mundo como a morte, a fome, a miséria e outras coisas mais. Foi então que aprendi que não mais dançar, para uma bailarina como a peruana, era ainda mais triste que tudo isso. Parece quase uma injustiça falar isso, mas era verdade.
Perdi o contacto com a bailarina. Quer dizer, poderia achá-la, conversar, ver como ela está. Mas da última vez que a vi, ainda havia a possibilidade de o médico estar enganado, havia a chance de ela voltar a bailar, ainda que demorasse.  Se voltasse a vê-la, havia a possibilidade de eu saber que nunca mais isso fosse acontecer. Já havia tantas tristezas na vida que achei melhor ficar sem saber. A esperança é uma coisa muito preciosa. A informação pode matá-la. Resolvi não arriscar e não ficar sabendo.  Volta e meia me lembro dela e a imagino dançando...Assim é melhor. Existe tanta coisa no mundo que seria melhor não ficar sabendo...Baila, bailarina, baila... Em meus sonhos, em seus sonhos, nos palcos da vida. Baila!


Ciranda da Bailarina: Adriana Calcanhotto







Novo lançamento no Clube dos Autores: Essa vida da gente