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Wednesday, September 20, 2017

O furacão e suas histórias




 O furacão e suas histórias

Ele já tem uma certa idade, mas ainda trabalha oito horas todos os dias da semana. Nunca falta. Nem precisaria dar duro assim, tem mais do que suficiente para viver, mas é viúvo, mora sozinho, fazer o que em casa? Além disso, ele adora o que faz. Trabalha num dos hotéis da Disney e sua função é simples: quando chegam os hóspedes, cumprimenta-os com um sorriso, dá-lhes boas vindas e indica o caminho a seguir. Todos os conhecem: funcionários, gerentes, clientes antigos, etc. E mais, quando há um casamento, ele segura a cauda do vestido da noiva.
Foi por isso que todos estranharam quando Richard não veio trabalhar logo depois do furacão. Aquele não era ele.  Querido que era, imediatamente foram atrás dele. Logo descobriram o que tinha acontecido. O local onde morava – só para pessoas de idade – tinha sido inundado. Não estava no abrigo onde a maioria tinha sido recolhida. Estava numa espécie de estalagem adaptada para recolher as vítimas da enchente. Já era o terceiro dia em que ele comia mal, não tinha roupas para trocar e nem água para banho. Imaginem! Justo ele, tão metódico, tão certinho!
Foi tirado de lá imediatamente. Conseguiram um quarto de hotel na Disney, roupas secas, comida, material de higiene pessoal, tudo. Daí ele falou que precisava do uniforme, que tinha se perdido no meio das águas. Não precisa, fica uns dias sem trabalhar, falaram todos. Mas ninguém conseguia convencê-lo. Faltar mais um dia era inadmissível. Levaram-no até o departamento adequado e lá foi ele, vestiu seus trajes especiais e dirigiu-se, todo feliz, para o trabalho.
Parecia um herói. Mas por que tanta festa? Tanta gente perdeu a casa, perdeu tudo!

É que eu ainda não falei a idade do Richard. Ele está com 93 anos...

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Thursday, June 23, 2016

Lógica do terror


Lógica do terror

Imagino um terrorista religioso tentando entrar no céu para cobrar as 21 virgens a que tem direito segundo suas crenças. Claro, ele matou várias pessoas ao se suicidar e essa é sua recompensa. Quem não conhece essa história? O porteiro do céu, impaciente, vai explicar tudo para ele, pois aparentemente, além de cruéis, esses indivíduos não são os mais brilhantes em termos de inteligência. Não, não é aqui, o seu lugar é no inferno. Além disso, aqui só há almas, não corpos, portanto esquece essa história de virgem.
Recentemente tivemos esse caso estupido do facínora em Orlando que assassinou 49 pessoas numa boate. Ele se declarou simpatizante do estado islâmico (sim, minúsculas) antes de começar o tiroteio. As investigações, no entanto, cada vez mais mostram que ele era homossexual e não conseguia conviver com isso, não conseguia assumir sua identidade sexual, por mais que hoje em dia a sociedade esteja se abrindo para essa aceitação. Isso, somado a problemas mentais e a facilidade com que se compram armas militares neste país, levou-o a cometer o massacre.
Embora muitos achem que isso é uma tendência geral do Islamismo, sabe-se que apenas uma pequena fração pensa assim. Suficiente, porém, para abalar o mundo e a sociedade.
Vejam agora o ridículo da situação. Ele, sendo homossexual, acaba se tornando uma abominação dentro de sua própria religião. Crime digno de morte. Aliás outras religiões e até alguns cristãos radicais pensam assim. Assim sendo, como fica a situação depois da morte? Por um lado, ele é herói reverso, tendo matado pela fé, em teoria. Por outro, é homossexual e infiel maldito, merecedor de morte eterna por sua opção sexual. Que dilema! Talvez nem tanto. Na sua condição, se virgens existissem no paraíso celestial, de nada serviriam para ele, tendo em vista suas preferências.
Se inferno existir, entretanto, ele está nos quintos. Melhor, nos sextos...

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Tuesday, March 20, 2012

A Bailarina

Autor: Flávio Cruz

Ela era uma bailarina. Eu nunca tinha visto uma bailarina de verdade. Pertencia a um grupo de dança de Orlando. Para mim bailarina tem de ser delicada, suave, leve, quase transparente. Isso é o que ela era. E muito mais. Ela falava como bailarina, respondia como bailarina, andava como bailarina. Desconheço seus pensamentos mas sei que pensava como bailarina. Era peruana. Suave no corpo, suave no rosto e, tenho certeza, suave por dentro, lá no fundo da alma. Ainda nova, 23 anos, havia se casado com um cubano. Claro, o cubano também dançava, era professor. Um dia a bailarina machucou seu tornozelo num ensaio. Foi uma tristeza. Não pela dor, isso ela aguentava.  Era por não poder dançar. Talvez por pouco tempo, ainda não sabia. Fez um raio X.
 O especialista confirmou que iria ser um pouco mais longo do que ela esperava. 
Teve até de fazer uma pequena cirurgia. A tristeza cresceu dentro de seu peito. Ela, que já comia pouco, agora quase parou de comer. Você nem pode imaginar o que a tristeza pode fazer para uma pessoa. Nem as palavras do marido, consternado, nem o consolo das colegas, nada a animava. Daí então veio o pior. O médico disse que havia a possibilidade de ela não poder mais dançar e perguntou para ela se ela gostava de ensinar. Pois isso, ele achava que talvez ela pudesse fazer. Eu sei que há coisas mais tristes no mundo como a morte, a fome, a miséria e outras coisas mais. Foi então que aprendi que não mais dançar, para uma bailarina como a peruana, era ainda mais triste que tudo isso. Parece quase uma injustiça falar isso, mas era verdade.
Perdi o contacto com a bailarina. Quer dizer, poderia achá-la, conversar, ver como ela está. Mas da última vez que a vi, ainda havia a possibilidade de o médico estar enganado, havia a chance de ela voltar a bailar, ainda que demorasse.  Se voltasse a vê-la, havia a possibilidade de eu saber que nunca mais isso fosse acontecer. Já havia tantas tristezas na vida que achei melhor ficar sem saber. A esperança é uma coisa muito preciosa. A informação pode matá-la. Resolvi não arriscar e não ficar sabendo.  Volta e meia me lembro dela e a imagino dançando...Assim é melhor. Existe tanta coisa no mundo que seria melhor não ficar sabendo...Baila, bailarina, baila... Em meus sonhos, em seus sonhos, nos palcos da vida. Baila!


Ciranda da Bailarina: Adriana Calcanhotto







Novo lançamento no Clube dos Autores: Essa vida da gente