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Tuesday, March 14, 2017

Expressões que expressam muito...


Expressões que expressam muito...


A gente gosta mesmo de usar expressões ao invés de dizer a coisa diretamente. Talvez porque assim “tenha mais graça”. E aí foi, escapou a primeira, “ter graça”. E não é a mesma graça de “ela é uma graça” e muito menos de “comida de graça”, o que não acontece “nem que a vaca tussa”... Por que dizemos, por outro lado, quando alguém “se deu mal” – mais uma – que o fulano “dançou”? O que “dançar” tem a ver com isso? E, vejam bem, não pode ser “bailar”, a não ser que, como a Rita Lee, você queira  “bailar no esconderijo”, mas o significado dessa é melhor você perguntar para ela mesmo... Se, ao invés da bela arte da dança, você quiser usar a arte da guerra, você pode usar uma mais antiga que é “o tiro saiu pela culatra”. Nesse caso, até dá para entender, porque culatra é a parte de trás da arma e a bala atingiria você mesmo. Por falar nisso, por que usar a mesma palavra - bala - para uma coisa tão doce e um projétil que pode matar? Já, quando falamos “manda bala”, fica fácil entender, alguém está querendo que você faça as coisas na mesma velocidade do projétil.
Fico preocupado quando a gente usa a expressão “acabar em pizza”, afinal de contas, é uma coisa triste, quer dizer que as pessoas não aplicaram as regras do jeito que deveriam. Deveríamos chorar e não ficar comendo. É claro, estou sendo inocente aqui, quem está a comendo a pizza são eles, e não nós. Existem expressões que são parentes, acho até que são irmãs. Por exemplo a tal da expressão “acabar em pizza” deve ser no mínimo prima daquela outra “grana por fora” ou, ainda, “quebrar o galho”. Quando essas coisas acontecem, geralmente a grana é do povo, embora seja “uma grana preta” – pois é sempre muita – e o galho que quebra é sempre o nosso e não deles. Estou falando que a “a grana foi preta” sem saber, pois, nós, o povo, nem vimos a “cor da grana”. No máximo, “comemos grama”.  Além do mais, não estamos sempre “no buraco”? Claro, foi lá onde caímos quando o “galho quebrou”. Isso é só para gente importante, porque para pobres mortais como nós , só existe o “dá um jeitinho”, mas do jeito que está, para nós nem esse “jeitinho” existe mais...

Para terminar, não “em pizza”, é claro, estou preocupado com o fato de que para pessoas sem recursos, além de nada “acabar em pizza”, eles quase sempre veem a “pizza acabar” antes de chegar. Na verdade, eles nem pediram a dita cuja pois o dinheiro nunca é suficiente para tal no final de semana. No máximo, as coisas acabam em “feijão com arroz”, uma coisa comum, que também é uma expressão, mas não para os sem recurso, pois, no caso destes, “feijão com arroz” não é uma expressão, é arroz com feijão, mesmo, e olhá lá...


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Monday, February 8, 2016

Crônica de um amor de Carnaval



Crônica de um amor de Carnaval

O carnaval da Lindinha foi maravilhoso. Entre outras grandes emoções, ela conheceu o Cristóvão. Silva era seu sobrenome, mas ela nunca perguntou. Pularam, pularam. Beberam umas e outras, mas nem tantas assim. O amor, sim, era tanto que nem fantasia usaram. Para quê? Era gostoso, assim, olhar um para a cara do outro.
O carnaval acabou, Lindinha ficou para cá, o Cristóvão foi para lá, para onde não se sabe. O tempo passou. Para ser mais exato, foram nove meses que se passaram. E uma menina nasceu, linda, alegre. Gostava muito de pular, era uma gracinha. A mãe, decepcionada com a ausência paterna, lhe deu o nome de Colombina.
A Colombina cresceu e um dia perguntou: por que tinha aquele nome? A mãe explicou. O pai era um navegador e se chamava Cristóvão Colombo. O Colombo, ela inventou. A Colombina insistiu, queria saber por onde ele andava. Lindinha, então falou: andar, ele não anda não. Ele navega. Por mares distantes, longe daqui. Se ele volta? Acho que não, querida, deve estar em  outros mares. Mares distantes, e que também precisam ser navegados. Explorador, ele era, mas de oceanos nunca dantes explorados.

A Colombina cresceu, virou mulher. Nunca pulou carnaval, pois a mãe nunca deixou. Tinha medo de que outro navegador – Cabral, Vasco ou Américo Vespúcio - viesse por essas terras aportar. Seria perigoso pular ou dançar. Dançar assim como ela dançou...


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Tuesday, March 20, 2012

A Bailarina

Autor: Flávio Cruz

Ela era uma bailarina. Eu nunca tinha visto uma bailarina de verdade. Pertencia a um grupo de dança de Orlando. Para mim bailarina tem de ser delicada, suave, leve, quase transparente. Isso é o que ela era. E muito mais. Ela falava como bailarina, respondia como bailarina, andava como bailarina. Desconheço seus pensamentos mas sei que pensava como bailarina. Era peruana. Suave no corpo, suave no rosto e, tenho certeza, suave por dentro, lá no fundo da alma. Ainda nova, 23 anos, havia se casado com um cubano. Claro, o cubano também dançava, era professor. Um dia a bailarina machucou seu tornozelo num ensaio. Foi uma tristeza. Não pela dor, isso ela aguentava.  Era por não poder dançar. Talvez por pouco tempo, ainda não sabia. Fez um raio X.
 O especialista confirmou que iria ser um pouco mais longo do que ela esperava. 
Teve até de fazer uma pequena cirurgia. A tristeza cresceu dentro de seu peito. Ela, que já comia pouco, agora quase parou de comer. Você nem pode imaginar o que a tristeza pode fazer para uma pessoa. Nem as palavras do marido, consternado, nem o consolo das colegas, nada a animava. Daí então veio o pior. O médico disse que havia a possibilidade de ela não poder mais dançar e perguntou para ela se ela gostava de ensinar. Pois isso, ele achava que talvez ela pudesse fazer. Eu sei que há coisas mais tristes no mundo como a morte, a fome, a miséria e outras coisas mais. Foi então que aprendi que não mais dançar, para uma bailarina como a peruana, era ainda mais triste que tudo isso. Parece quase uma injustiça falar isso, mas era verdade.
Perdi o contacto com a bailarina. Quer dizer, poderia achá-la, conversar, ver como ela está. Mas da última vez que a vi, ainda havia a possibilidade de o médico estar enganado, havia a chance de ela voltar a bailar, ainda que demorasse.  Se voltasse a vê-la, havia a possibilidade de eu saber que nunca mais isso fosse acontecer. Já havia tantas tristezas na vida que achei melhor ficar sem saber. A esperança é uma coisa muito preciosa. A informação pode matá-la. Resolvi não arriscar e não ficar sabendo.  Volta e meia me lembro dela e a imagino dançando...Assim é melhor. Existe tanta coisa no mundo que seria melhor não ficar sabendo...Baila, bailarina, baila... Em meus sonhos, em seus sonhos, nos palcos da vida. Baila!


Ciranda da Bailarina: Adriana Calcanhotto







Novo lançamento no Clube dos Autores: Essa vida da gente