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Tuesday, April 7, 2015

Um paradoxo judicial



Um paradoxo judicial

Tsarnaev é o rapaz que, junto com o irmão (morto durante a caçada policial), colocou as bombas no local onde estava sendo realizada a Maratona de Boston. Eles mataram 3 pessoas, causaram a amputação de membros de 17 pessoas e deixaram mais de 240 feridos. Neste momento estão decidindo se deve receber a pena de morte ou não. Há todo um aparato e muito dinheiro está sendo gasto para se chegar ao resultado final. Há cem vezes mais provas do que seriam necessárias para provar a autoria do crime. Ninguém discute isso. Merece a pena de morte? Se você reconhece este castigo como válido, não tenha a menor dúvida. Ninguém mais do que ele.
Há 30 anos atrás, um homem chamado Anthony Ray Hinton, residente no Alabama, foi condenado à morte, num processo cheio de irregularidades e malícia. Poderia relatar mais detalhes, mas não há necessidade. Basta dizer que ele é negro e o processo foi no Alabama. Finalmente foi libertado, há alguns dias atrás. Tudo que o Estado tinha de fazer era testar uma arma. Apenas isso. O pedido foi negado. Depois de muito trabalho judicial, finalmente ele foi libertado diante do absurdo da condenação. Há vários casos como este. Alguém pode duvidar que outras pessoas inocentes foram condenadas e executadas sem terem sequer a chance de provarem sua inocência?
Olho os dois casos e fico perplexo. A perplexidade que vem do inacreditável, do paradoxo. E o paradoxo é este: você querer e achar justa a pena de morte, bastante compreensível, mas saber que ela pode atingir uma pessoa simples, inocente e que não tem meios de se defender.

Mais incrível ainda foi a declaração do pobre homem: sem rancor, sem ódio e feliz por poder aproveitar o que lhe resta de vida, agora que ele tem 58 anos.

 oooooOOOooooo
À procura de Lucas


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Wednesday, November 27, 2013

As últimas palavras

As últimas palavras



“Sim, eu gostaria de falar para minha esposa que eu a amo e lhe agradeço por todos os anos de felicidade. Isso é tudo, guarda.”
Alguns minutos depois, John Quintanilla era executado através dos sistema penal do Texas. Era o dia 16 de julho de 2013. No dia 24 de novembro de 2002, quando tinha 25 anos, tentou roubar um centro de diversões em Victoria, Texas. Houve reação e na luta ele matou um homem e feriu uma mulher. Quando lhe foi dado direito à palavra, as últimas, antes da morte, ele falou as frases ali acima.
Há tantas coisas que podem ser ditas mas elas não cabem aqui. Certamente, o primeiro pensamento vai até a família da vítima de Quintanilha. Possivelmente uma esposa desolada ficou para trás. Filhos sem pai, talvez. De qualquer forma, sempre há uma tristeza enorme quando alguém vai embora, principalmente quando acontece de uma maneira violenta. Não foi um crime premeditado e frio, mas isso não muda nada, pessoas ficaram sofrendo do mesmo jeito, suas vidas completamente danificadas.
Quanto ao condenado, o que aconteceu durante a vida daquele jovem que fez com que ele cometesse aquele crime? Estava determinado, era seu destino? Foi sua educação,o meio em que viveu? Faz parte do seu desenvolvimento? Um efeito colateral? Não dá para aceitar a ideia de que isso é normal nas sociedades modernas. Existem vários países em que o índice de criminalidade é quase zero. Existem sociedades em que quase não existem armas. Há outras em que se criam monstros. Há países que liberam armas para esses monstros. Há outros que fazem de conta que controlam as armas, mas elas estão em todo lugar.
O fato é que se o Quintanilla falou o que falou, na hora de morrer, havia algo dentro dele que ainda servisse. Havia um resto de sentimento, possivelmente arrependimento. Talvez nem a vítima precisasse ter morrido, nem o assassino precisasse ter sido executado. Talvez ele sequer tivesse cometido o crime.
Cada vez que um prisioneiro está sendo executado, a própria sociedade está sendo julgada como um todo. Cada vez que uma vítima é assassinada, ela está sendo assassinada também.
Há os que já nascem loucos, no entanto. Não deveriam ter nascido. Quem sabe, no futuro, os mágicos da  Genética consigam consertá-los também. Daí, sim, teremos uma sociedade do Primeiro Mundo.
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Name
Quintanilla Jr., John Manuel

TDCJ Number
999491

Date of Birth
12/09/1976

Date Received
12/08/2004

Age (when Received)
28

Education Level (Highest Grade Completed)
08

Date of Offense
11/24/2002


Age (at the time of Offense)
25

County
Victoria

Race
Hispanic

Gender
Male

Hair Color
Black

Height
5' 08"

Weight
153

Eye Color
Brown

Native County
Calhoun

Native State
Texas



Monday, November 25, 2013

O jurado

O jurado



Foi tudo muito rápido. Depois de ter dominado o único funcionário da loja de conveniências, o assaltante limpou a caixa registradora. O Davi, coitado, tremia como uma vara verde, rosto para baixo, deitado de barriga no chão e mãos atrás da cabeça. O fulano já estava indo embora, tinha até tirado a máscara, estava um calor desgraçado. Bem naquela hora o desafortunado funcionário deu uma olhada bem na cara do bandido. Ele, esperto, percebeu. Mirou a arma na testa do Davi. Este estava suando frio e teve certeza de que aqueles eram seus últimos momentos. Ainda ouviu uma frase antes de ouvir o tiro:
-Não é nada pessoal. Você não devia ter me olhado.
Antes de atirar, porém, podia já se ouvir o barulho das sirenes da polícia ao longe. Distraído com isso, errou a pontaria. A bala foi se alojar na coxa de Davi.
Ele passou algum tempo no hospital e depois ficou outro tanto fazendo fisioterapia. Mesmo assim, até hoje ele ainda manca de leve. É quase imperceptível. De qualquer maneira, Davi continuou a estudar, melhorou de emprego e agora está muito bem. O deliquente não foi preso apesar da descrição que ele fez.
Os anos foram se passando e Davi passou a ser um membro valioso para a comunidade. Às vezes até participava do juri no fórum local. Gostava dessa história de julgamento, leis, advogados. No próximo mês haveria um julgamento importante e ele havia sido convocado. Estava excitado pois era um caso em que o promotor público estava pedindo pena de morte. Os jornais locais achavam um erro, pois não havia circunstâncias especiais para isso. Agora, prisão perpétua, era coisa certa. O réu havia assassinado o dono da casa durante um assalto. Aparentemente ficou assustado com o aparecimento inesperado daquele senhor enquanto  recolhia as coisas. A mulher estava subjugada, ele estava quase terminando o “serviço” e de repente aparece aquele homem  com algo na mão. O bandido se assustou e atirou. Era apenas o marido segurando o celular e que viera ver o porquê daquele barulho todo. Não foi premeditado ou a sangue frio, mas ele estava assaltando e tinha uma arma na mão. Mas isso é discussão para entendidos em lei, doutores, juízes.
Depois de todos os depoimentos, acusação, defesa, chegou a hora da deliberação dos jurados. O advogado de defesa – apontado pelo governo – tinha feito seu trabalho razoavelmente bem, mas não havia demonstrado grande paixão na defesa.
Depois de onze horas o grupo de jurados entregou o veredito. O juiz leu. Tinham optado pela pena de morte. Houve muito comentário nos jornais. Apesar do crime, todo mundo estava esperando prisão perpétua ou quase, mas não uma pena de morte. Vazou um comentário de que um dos jurados foi muito veemente e ficou horas convencendo os outros a optarem pela sentença capital. Por uma questão de ética, não revelaram o nome. As pessoas mais íntimas sabiam que era o Davi.
Alguns anos se passaram e então o condenado estava a dois meses de sua execução. Nunca tinha recebido visitas, mas naquele dia, anunciaram que havia alguém que queria vê-lo. Encheu-se de esperança. Quem sabe alguém dessas associações que tentam reverter penas de morte. Talvez alguém preocupado com penas demasiadamente cruéis.
O assassino não reconheceu Davi, mas este se lembrava muito  bem da cara dele. Do que ele disse quando mirou em sua testa. Davi deu um sorriso vago, olhou bem para a cara do condenado e disse:
-Não foi nada pessoal.
Falou isso e saiu. Só então o prisioneiro se lembrou da cara assustada do rapaz em que ele havia atirado há muitos anos atrás naquela loja de conveniência. Ele e o jurado eram a mesma pessoa.

Como disse o Davi, nada pessoal...

Saturday, July 13, 2013

A justiça dos homens ( ou a história de “School Boy”)

A justiça dos homens ( ou a história de “School Boy”)

Era um momento solene. O juiz, circunspecto, estava sentado em sua grande cadeira, numa plataforma mais alta. O martelo de madeira, símbolo de justiça, estava a seu lado. Plateia, promotor público, advogados, cada um em sua posição previamente designada. Claro, o monstro cruel também estava lá. Só não estava a vítima, uma garota de 16 anos, que fora estuprada e brutalmente assassinada há alguns meses atrás. Ela estava no cemitério.
Os pais não estavam em casa, ela havia faltado às aulas, estava sozinha. Quis o destino que o assassino estivesse na área. Ou talvez estivesse à espreita, sondando. Isso não se sabe. O que se sabe é que, cometido o hediondo crime, ele saiu apressado da casa, com uma corrente de ouro na mão. Sua camisa, de cor azul escura, estava rasgada do lado direito, na altura da barriga. Virou a cabeça para os lados para ver se alguém o observava. De fato, havia pelo menos cinco testemunhas. Era alto, tinha queixo um pouco protuberante. Alguém de quem você não se esquece facilmente. A porta da casa estava aberta e um dos vizinhos entrou. Na sala, o corpo da menina, todo ensanguentado. A polícia chegou rápido, entrevistou as testemunhas e o alerta estava na praça em alguns minutos. A descrição do homem, com a camisa rasgada, a cor, o queixo pontudo, tudo. Ninguém o encontrou na rua. No entanto, a uns cinco blocos dali, morava alguém com essa descrição, segundo um vizinho. A polícia bateu à porta e lá estava Bryan, que era alto, tinha o queixo ligeiramente projetado, mas estava usando camisa branca. Um dos policiais, muito esperto, foi até o banheiro e examinou o saco de roupas sujas. Lá estava uma camisa azul com um rasgo. Foi preso imediatamente e levado para o prédio da polícia.



Nos dias seguintes, fizeram as sessões de reconhecimento. Duas das testemunhas não tinham muita certeza. Talvez a camisa do suspeito fosse um pouco mais escura. O queixo era mais pontudo. As outras três, embora tivessem alguma dúvida, reconheceram oficialmente o assassino. Uma chegou a falar do rasgo que parecia ser muito pequeno. Parecia ser muito maior no dia do crime. Uma outra falou que talvez o suspeito fosse um pouco mais alto. O investigador explicou para elas que aquilo era irrelevante. “Na hora do sufoco”,  a gente acaba se esquecendo dos detalhes. Para elas ficarem tranquilas, que estavam fazendo um bem para a sociedade, tirando aquele monstro das ruas.
Era esse Bryan que estava lá agora, o réu. Não parecia mais feroz. Agora era um coitado encurralado. O advogado de defesa estava tentando convencer o juiz e os jurados de que havias poucas provas. Não havia evidências colhidas na casa que mostrassem uma ligação direta do seu cliente com o caso. De seu lado, o promotor afirmou que o suspeito fora visto saindo da casa por várias testemunhas e que as características físicas do réu eram óbvias. Tudo isso, sem contar  a camisa azul. Azul e rasgada. Houve ainda mais duas testemunhas que afirmaram que o réu trabalhava num prédio em construção, do outro lado da rua em que estava a escola onde a menina estudava, e que já havia sido repreendido duas vezes por seu chefe por estar parado, sem trabalhar, olhando para as garotas no pátio da instituição escolar. Isto teve um impacto e tanto no júri.
Talvez se o advogado de defesa não fosse  apontado pelo estado, o Bryan tivesse alguma chance. Havia várias coisas que ele poderia alegar. Mas o crime tinha sido horrível, a pressão era muito grande, o Bryan era a pessoa mais odiada da cidade. Foi condenado à morte.
Alguns meses mais tarde, um outro crime horrível aconteceu numa cidade a cerca de cem quilômetros dali. Uma menina foi seguida depois das aulas até sua casa. Os pais ainda não haviam chegado. O criminoso entrou pela porta da frente, estuprou a vítima e a estrangulou.  Escreveu com sangue no espelho do banheiro: “School Boy”. Dois vizinhos chegaram a ver o assassino entrar na casa. Um sujeito de camisa xadrez, segurando uma pequena valise na mão direita. Um outro vizinho viu o mesmo fulano sair e pegar um carro a uns cem metros da casa. Um carro Ford, branco, com a pintura estragada. Quando os pais chegaram, ficaram petrificados diante da cena horrível. Chamaram a polícia. Mais três vizinhos disseram o que viram e a partir daí começou a caçada ao Ford branco.
Duas horas mais tarde, não muito longe dali, foi detido um sujeito cujo carro batia com a descrição feita pelas testemunhas. No entanto, não encontraram a valise que viram na mão do assassino nem acharam nada suspeito em sua casa. O fulano, porém, era esquisito. Vivia sozinho, tinha hábitos estranhos. Os detetives tinham pouco, só aparências. O acusado, que aliás era muito cínico e arrogante, tinha um pouco de dinheiro e contratou um bom advogado. Não foram muito longe. O caso, para o promotor, era muito fraco e não conseguiriam uma condenação.  Foi liberado. Sua intuição, porém, dizia que ali havia algo estranho. Colby Baker era o nome do suspeito.
Nos próximos anos, o “serial killer  School Boy” ficou famoso. Sempre escrevia seu nome no espelho, com sangue.Sempre levava consigo alguma lembrança da vítima. Sempre cruel e violento. Sempre escolhia, como vítimas, meninas de 15 ou 16 anos de idade e que estavam frequentando a escola. Ficou famoso por todo o estado e depois nacionalmente. Seus crimes se espalhavam por cidades num raio de 300 quilômetros. Havia inúmeros artigos sobre  o “School Boy” em toda a imprensa nacional.
Quase 12 anos depois e mais de 23 assassinatos, o “School Boy” cometeu um erro. Por algum motivo, demorou-se um pouco além do usual na casa de uma das vítimas. Saiu às pressas quando ouviu as sirenes da polícia. Na correria deixou para trás sua valise.
Os detetives conseguiram identificar o monstro depois de quase 15 horas. Era o mesmo Colby Baker, que se livrara das acusações há uns anos atrás. Cercaram sua casa. Invadiram e logo perceberam que ele havia fugido. Lá dentro, um verdadeiro  santuário em reverso. Fotos de todas vítimas, recortes de jornais, as “lembranças” que levava após o crime.
Foi aí que descobriram que Colby Baker tinha assassinado também a primeira menina desta história. Aquele caso em que Bryan havia sido condenado. Estava lá até a camisa azul rasgada, como relíquia. A corrente de ouro que ele havia levado, também. E para ninguém ter dúvidas, o nome da menina estava lá na longa lista que ele mantinha na parede de seu quarto.
Colby, porém, sumiu, ninguém mais ouviu falar dele. De vez em quando, alguém chama a polícia e avisa que viu o monstro em algum lugar, mas é sempre notícia falsa.
Agora todo mundo cometa que, de fato, seu queixo era um tanto protundente e ele era alto. Bryan, no entanto, não poderia sair da prisão, pois ele não estava mais lá. Tinha sido executado há cinco meses atrás.
Até o momento, apesar da caçada nacional, não encontraram o tal de Colby. Deve estar vivendo  em algum outro lugar, com outro nome.. Pode começar a matar de novo, a qualquer momento.
Que a justiça seja feita. Quando for possível.

P.S. Esta história não é baseada em fatos reais. Mas tudo que está aqui, de uma forma ou outra aconteceu, com pessoas diferentes, em diferentes lugares, em alguma época.



Tuesday, November 13, 2012

No Corredor da Morte


No Corredor da Morte

Os últimos dias foram completamente diferentes de todos os outros da minha vida. Parece que eles duraram uma eternidade e ao mesmo tempo foram rápidos como um raio. Agora aqui estou esperando minha hora. Não há muito o que fazer e a única coisa que dá para fazer, é pensar. Foi o que também fiz nos últimos dias. Quando a única coisa que dá para fazer o dia inteiro é pensar, a realidade que você está pensando vai mudando, mudando. E ela passa a ser a verdadeira realidade. A primeira é a realidade que você sentiu, viu e viveu. Mas a realidade “pensada” depois, torna-se mais autêntica, mais verdadeira. Parece besteira mas é assim.  É a verdade filtrada, atualizada, pesquisada. O que vale é o que ficou da primeira verdade.Talvez seja idiotice isto que estou dizendo, mas como pensei muito sobre o assunto, você deve me dar algum crédito. Há outro motivo pelo qual mereço crédito e não é por causa de meu passado ou por referência de alguém. É o melhor motivo de todos: quem não acredita em alguém que vai morrer? E não é suicídio, não. Eles vão me matar. É coisa certa, é coisa do sistema, é o governo. Garantido. Se fosse um bandido me ameaçando ou outra pessoa qualquer, poderia ser só uma ameaça, daquelas que se fazem a todo momento e não se cumprem. Meu caso é diferente, o Governo é que vai me executar.
Meu amigo, eu estou condenado à morte. Se eu fosse conhecido, ou uma pessoa importante, eu poderia ter alguma esperança. Um apelo de última hora, o perdão do governador. Nada disso, sou um ilustre desconhecido. Saí algumas vezes no jornal, mas nunca na manchete, nunca ninguém se interessou pelo meu caso. E eles deveriam, porque a minha história é uma história e tanto. Antes de continuar gostaria de informar que acabei de pedir minha última refeição, aquela refeição especial, tipo “último pedido”, sabe? Como se vê em filmes. Pedi salmão, tem bom colesterol, não é carne vermelha. Não que faça muita diferença tão perto da morte como estou, mas princípio é principio, você sabe. Um homem sem princípios não vale quase nada. Eu sempre tive. Você provavelmente deve estar pensando, como um condenado à morte pode ter princípios? E aí está o grande engano. Existe tanta gente sem condenação nenhuma, uma tremenda ficha limpa e não tem princípios, nem moral, nem referência. Eu sou condenado mas não sou culpado. Não que eu queira ser melhor que eles. Besteira, o que importa são os fatos e não o princípio. O fim, esse sim, importa. E antes que ele chegue – o fim -  vou lhe contar a parte do meio, ou seja como cheguei aqui. Esse “como cheguei aqui”  está batendo no meu ouvido há um mês. Interessante. Passaram um filme para os prisioneiros e o personagem principal começava sua narrativa assim: “Como cheguei aqui?”. Só que a vida dele foi uma vida de sucesso, já a minha...Mas chega de lamentações.
Cindy foi minha primeira namorada de verdade e eu já tinha 22 anos, sempre fui muito tímido. Nós vivíamos numa cidade pequena e, obviamente, todos sabiam do nosso namoro. Uns dois anos depois, logo após ficarmos noivos, ela, sem mais nem menos, disse que não poderia ficar mais comigo. Alguns dias depois ela saiu da cidade e não mais voltou. Não sei se tinha conhecido alguém, se resolvera estudar numa cidade grande, não sei. Fiquei decepcionado, triste, acabrunhado. Quem me conhecia, imediatamente percebeu o que estava se passando dentro de mim. As pessoas comentavam, eu sei, muitos tinham dó de mim. O tempo passou, no entanto. Alguns anos foram suficientes para apagar as tristes lembranças. Eu estava bem mesmo, as coisas estavam melhorando, quando...Você não vai acreditar, a Cindy voltou. Não sei por quê, não fiquei sabendo. Eu estava curado, eu sei, pois não sentia vontade de falar com ela. Se precisasse, falaria, também não haveria problema. Eu a vi uma duas vezes e tentei evitar contato, melhor assim. Quase dois meses ja tinham ido desde que ela chegara de volta, e acreditem, eu estava bem, não queria nada do passado, nem mesmo a Cindy. E vou lhe dizer, ela era uma garota e tanto: bonita, inteligente e delicada.
O destino, meu amigo, é cruel e traiçoeiro, pelo menos comigo foi. Desculpe-me estar chamando você de amigo, eu um condenado à morte, que você nem conhece. Não é todo mundo que quer ser amigo de um condenado. Tenho esperança de que quando você conhecer toda a minha história, você queira ser meu amigo. É claro que vai ser por pouco tempo, pois, como já disse, estou no corredor da morte e é bem lá na ponta.
Mas vamos voltar à minha história. Como eu disse, a Cindy era história do passado, não era um problema para mim até que...Bem, o destino não é algo você possa construir apesar do que alguns otimistas falam. Você pode, no máximo, forçar um pouco, mudar uns detalhes, segurar o touro pelos chifres, mas no fim, ele vence. Seja ele bom, seja ele ruim. Termino meu dia de trabalho e lá vou, feliz, passar o resto dia na minha gostosa solidão, fazendo o que eu gosto de fazer em casa. Desci do ônibus a dois blocos de minha casa. Estava quase escuro e eu já no meio do caminho, quando, virando à esquerda na curva, me deparo com uma mulher estendida na calçada. Escorria sangue de sua cabeça, ainda estava quente. Fiquei desesperado, nunca enfrentara uma situação como aquela. Uma tontura enorme invadiu minha cabeça e meu corpo ficou mole. Foi por isso que o que aconteceu a seguir não poderia piorar as coisas pois elas já estavam piores. Quando tirei os cabelos dela da frente do rosto, meu Deus, era a Cindy! Foi aí que fiquei sabendo que as coisas poderiam sim, ficar piores. E ficaram. Não quero aborrecer você com os detalhes, com o que aconteceu a seguir. Vou falar tudo bem rápido, bem simples, é fácil de entender. De qualquer jeito, eu também não tenho muito tempo. Pelo  menos por aqui. Com o sangue nas minhas mãos, segurava a sua cabeça quando vi um martelo ensanguentado. Tinha sido um crime. Pobre Cindy, seu rosto estava ainda mais belo do que antes. Foi aí que vi, por trás de mim, luzes vermelhas e azuis. Ouvi também a sirene de um carro de polícia. Cheguei a ficar aliviado de eles estarem ali tão rápido, eu não precisaria me envolver muito. Mal sabia que eu seria o mais envolvido de todos. Não me perguntaram nada, me algemaram, leram meus direitos e me prenderam. Acho que uma ambulância levou o corpo dela. Acho. Depois disso nunca mais voltei para casa. Era tão óbvio que eu seria absolvido  daquela acusação ridícula que nem cheguei a ir fundo no caso. Nem pensei em contratar um advogado, aceitei o que o governo estava me oferecendo. Caso fácil. Sairia da cadeia num instante. Talvez até processasse os policiais por fazerem um erro tão grosseiro.
Não foi bem assim. Num instante o caso virou um “caso garantido” para eles, os promotores. Eles tinham o motivo – um antiga paixão, um homem abandonado pela vítima - tinham a arma e, principalmente o flagrante. Flagrante é flagrante nem que não seja, se é que você me entende. Meu advogado não acreditava em mim, nem meus amigos, ninguém. Não tinha família próxima por ali, estava sozinho no meu drama. Foi rápido. Tribunal, julgamento, condenação. Lembro-me das caras dos jurados balançando a cabeça em sinal de desaprovação, enquanto o promotor falava palavras como ”cruel, vingança, pego no ato, frio”.  A defesa desanimada do meu advogado era mais uma confissão que ele fazia do “meu crime” do que uma defesa propriamente dita. O meu advogado acabou de me enterrar. Recurso negado, condenação confirmada. Talvez meu amigo esteja pensando, que absurdo, não é tão fácil assim condenar uma pessoa inocente. Acredite, meu amigo, comigo foi. É verdade que, no meu caso, a uma certa altura, eu desisti. Achei que não valia a pena. Se eu pudesse, pelo menos, convencer os pais dela e seus amigos de que não tinha sido eu, já seria alguma coisa. Mas eu tenho certeza de que eles sempre me consideraram como sendo o frio e cruel assassino de sua filha.

Enquanto eu estava explicando essas  coisas para você, o tempo foi passando. Eu andei todo aquele espaço até a sala de execução e já estava na mesa, amarrado com aquelas tiras todas. Preciso confessar que estava apavorado. Por outro lado, seria bom eu ter um pouco de sossego. Esses anos todos sofrendo, esperando a morte. Chega uma hora que você diz para si mesmo: que venha! Do meu  lado esquerdo podia ver os líquidos coloridos que iriam entrar em minhas veias num instante. Não vi, mas acho que os pais da Cindy estavam me vendo. Eu que estava para morrer mas tinha pena deles. Além da morte da filha ainda precisavam me odiar. Que tipo de pais não têm ódio de quem mata uma filha? Se alguém mata sua filha, você tem de odiar, não tem? Eu entendo. Se eles acreditassem em mim...Ninguém acredita em mim. Cheguei a um ponto em que até eu duvido de mim mesmo. Não, não, eu sei que não fui eu.
Já pensou se, naquele minuto final, o secretário do governador liga e manda suspender a minha execução? Talvez eu saísse nos jornais...Que nada, milagres não acontecem, pelo menos para quem não acredita. Milagre? Depois de tudo que aconteceu comigo? Parece até brincadeira. Só se existir milagre inverso. Milagre reverso, ou reverso do milagre. Gozado, milagre inverso, nunca tinha pensado nisso. Milagre ao avesso? Acho que já me injetaram com os líquidos coloridos. Estou sentindo algo muito estranho, não doi, até que não é tão mau...Milagre? Dá até vontade de rir...Milagre! Meu amigo, sempre tome cuidado com o destino. Siga meu conselho. Como disse, o destino às vezes é cruel. Agora tenho de me despedir, não consigo mais pensar. Lembre-se do que eu disse, meu... Posso chamar você de “amigo” agora? Pois então, meu amigo...Cuide-se, meu amigo, pois o destino...

Sunday, May 20, 2012


Corpus Christi
 “Viste, Senhor, a injustiça que sofri;
 julga tu a minha causa.”
Lamentações de Jeremias 3:59


Carlos DeLuna foi executado em 1989  pelo assassinato de Wanda Lopez.  A vítima sentiu o perigo, chamou a polícia, que não veio e, provavelmente por isso, foi esfaqueada até a morte.  Pelo menos a justiça foi feita, vão dizer os defensores da pena de morte. Errado. Executaram o outro Carlos. O que matou Wanda foi Carlos Hernandez, conforme relatório do professor James Liebman e seus cinco alunos da “Columbia Law School”. Segundo o  mesmo relatório, erros grosseiros foram cometidos durante a investigação e o julgamento , culminando com a execução.  A acusação foi baseada  numa só testemunha, que viu um “hispano” correndo do posto de gasolina onde a vítima tinha sido assassinada. Carlos DeLuna estava usando uma  camisa branca enquanto Carlos Hernandez  usava uma camisa cinza e tinha bigode. Mais ainda (a idiotice e incompetência não têm limites, acreditem!), Hernandez  matou uma outra mulher, mais tarde, com a mesma faca, admitiu que foi ele que havia matado Wanda também e ainda assim DeLuna foi executado. Nesses seis anos entre o crime e a execução, apesar de todas as evidências, o caso nunca foi revisto. Ironicamente o absurdo todo aconteceu na cidade de Corpus Christi, no Texas, é claro. DeLuna não era um anjo. Estava na condicional e naquele dia havia bebido , razão pela qual fugiu quando a polícia se aproximou. Nem de longe, entretanto, era um assassino.  Às vezes as autoridades, por arrogância ou simplesmente para não admitir um erro, fazem barbaridades como esta, matando um inocente. Podemos tentar viver com a incompetência e até com a arrogância de certos indivíduos, mas não quando elas resultam em tamanha injustiça. Puxa, Corpus Christi – Corpo de Cristo – que lugar foram escolher para levar a cabo esta calamidade. Não vou dizer a maior, porque convenhamos, a concorrência é grande.  Mas voltando ao nome da cidade, não consigo assimilar a ideia: Corpus Christi! Bem que poderiam ter escolhido outra cidade…