Friday, June 1, 2012

Amor, Eterno Amor


Amor, Eterno Amor

Ao contrário do que alguns pensam, há coisas que não têm explicação. Uma delas era o amor que Mário sentia por Regina. Insensato. Absurdo. Sem sentido. Alguns até achavam que era uma doença, mas acreditem, não era não. Amor puro, verdadeiro, paixão sem limites, sem vírgulas ou ponto de interrogação. Só ponto de exclamação e ponto…final. Até a Regina, objeto de tal atenção, achava um exagero e às vezes se perguntava. Não a levem a mal. Ou era incompreensão ou até, quem sabe, uma certa inveja por não conseguir amar nos mesmos e estratosféricos níveis. Mário nem sequer pedia ou sugeria tal retribuição. No fundo sabia que ninguém era capaz de amar assim. Não sei se existe uma explicação para o que vou contar a seguir. No final desta história vou tentar uma solução metafísica, mas vai ser pura especulação.
O que aconteceu foi a inesperada morte de Mário. Um outro motorista, bêbado, encerrou os afazeres de Mário nesta vida. Podia ter matado um outro qualquer, inútil, mau caráter, bandido ou até um suicida que por definição já estivesse querendo morrer. Poderia ter ele mesmo morrido. Qual nada, saiu vivo do acidente e assassinou o maior amante vivo existente na terra. Que fazer? Nada além de chorar, lamentar, chorar de novo. Regina estava inconsolável. O amor de Mário era tão intenso que ela não se dera conta de que um dia ele pudesse desaparecer, quero dizer, ele, o Mário, não o amor. Isso mesmo. O evento passou, velório, funeral, e todos os seres  ligados ao evento também voltaram à rotina da vida. Com o passar dos dias, no entanto, Regina percebeu que, embora Mário não estivesse lá, seu amor estava. Não estou falando figurativamente, não. Ela sentia o amor dele rondando na casa, nas coisas, no pensamento, em tudo que via, sentia ou tocava. A explicação lógica é que o ambiente da casa estava impregnado dele e as lembranças voltavam. Regina começou a sair e ir para lugares que eles não costumavam frequentar, só para testar. Puro engano, pois aquele amor incessante, arrebatador, envolvente e até intrometido, estava em todo lugar. Não era metafórico nem nada. Amor mesmo. Entrava com tudo na cabeça, no coração e na alma de Regina. Ela quase conseguia pegá-lo nas mãos, tão forte era sua presença. Regina, é claro, aceitou e se sentiu feliz por isso. Ao contrário dos amores comuns, esse aumentava ao invés de diminuir com o tempo. Junto com a força que ele adquiria, tornava-se também mais elaborado e  mais sutil e portanto “suportável”, características talvez, do outro lado da existência. Senão, onde iríamos parar com tanto amor assim? E a vida continuou…
Fiquei devendo aquela explicação “metafísica” prometida acima. Talvez seja uma explicação esfarrapada, mas lá vai. Acho que como dizem as filosofias orientais, há um equilíbrio entre as coisas da vida. Ódio e amor, raiva e afeição, saudade e esquecimento, etc…O que seria do universo, se um dos lados começasse a preponderar? Haveria um desequilíbrio cósmico. O amor de Mário era tão forte que houve um princípio de desestabilização. Necessário se fez tirá-lo do cenário.O que iríamos fazer com tanto amor por aqui? Por outro lado, o outro motorista, irresponsável, bêbado, também estava começando a pesar muito do outro lado. De repente teve de sentir um enorme remorso pelo que fez, o que também também equilibrou as coisas no setor.
Não sei se eu mesmo acredito nessas explicações, mas que o amor de Mário era enorme, isso é verdade, e não duvidem não…

Sunday, May 20, 2012


Corpus Christi
 “Viste, Senhor, a injustiça que sofri;
 julga tu a minha causa.”
Lamentações de Jeremias 3:59


Carlos DeLuna foi executado em 1989  pelo assassinato de Wanda Lopez.  A vítima sentiu o perigo, chamou a polícia, que não veio e, provavelmente por isso, foi esfaqueada até a morte.  Pelo menos a justiça foi feita, vão dizer os defensores da pena de morte. Errado. Executaram o outro Carlos. O que matou Wanda foi Carlos Hernandez, conforme relatório do professor James Liebman e seus cinco alunos da “Columbia Law School”. Segundo o  mesmo relatório, erros grosseiros foram cometidos durante a investigação e o julgamento , culminando com a execução.  A acusação foi baseada  numa só testemunha, que viu um “hispano” correndo do posto de gasolina onde a vítima tinha sido assassinada. Carlos DeLuna estava usando uma  camisa branca enquanto Carlos Hernandez  usava uma camisa cinza e tinha bigode. Mais ainda (a idiotice e incompetência não têm limites, acreditem!), Hernandez  matou uma outra mulher, mais tarde, com a mesma faca, admitiu que foi ele que havia matado Wanda também e ainda assim DeLuna foi executado. Nesses seis anos entre o crime e a execução, apesar de todas as evidências, o caso nunca foi revisto. Ironicamente o absurdo todo aconteceu na cidade de Corpus Christi, no Texas, é claro. DeLuna não era um anjo. Estava na condicional e naquele dia havia bebido , razão pela qual fugiu quando a polícia se aproximou. Nem de longe, entretanto, era um assassino.  Às vezes as autoridades, por arrogância ou simplesmente para não admitir um erro, fazem barbaridades como esta, matando um inocente. Podemos tentar viver com a incompetência e até com a arrogância de certos indivíduos, mas não quando elas resultam em tamanha injustiça. Puxa, Corpus Christi – Corpo de Cristo – que lugar foram escolher para levar a cabo esta calamidade. Não vou dizer a maior, porque convenhamos, a concorrência é grande.  Mas voltando ao nome da cidade, não consigo assimilar a ideia: Corpus Christi! Bem que poderiam ter escolhido outra cidade…


Tuesday, May 15, 2012


A Maratona de Ryan

Ryan Adams era um senhor respeitável, educado e extremamente saudável, principalmente se considerarmos que estava com 73. Poderia ter se aposentado há mais de 15 anos atrás, mas preferiu continuar trabalhando. “Fazer o que em casa?”, perguntava.
Sam era relativamente jovem, tinha apenas 32. Bom sujeito, extrovertido, brincava com todos. Tinha um pequeno defeito, porém. Estava sempre fazendo observações sobre os colegas e sempre na frente de todos. Não eram maldosas mas às vezes incomodavam um pouco. Era um grande hotel e havia muitos funcionários. Ora Sam fazia uma brincadeira sobre a gravata do recepcionista, outras vezes sobre a maneira como o rapaz do estacionamento corria para pegar o carro do hóspede ou ainda sobre o novo penteado da moça da limpeza. Como disse, nada pesado, mas não deixava passar nada. Tinha sempre uma observação. Às vezes vinha disfarçada em forma de elogio, as vezes não tinha disfarce nenhum. Apesar da diferença de idade, Sam não perdoava nem o Ryan. Sempre alguma coisa a respeito da idade, da aposentadoria ou algo assim. Com o Ryan, Sam disfarçava bem, sempre vinha em forma de elogio. Ryan, no entanto, era experiente, já tinha vivido muito e certamente sabia ler nas entrelinhas. Não só isso, sabia ler antes e depois da linha. Sábio que era, nunca retrucava, embora tivesse pelo menos três ou quarto respostas que aniquilariam a piada do colega de trabalho. Mas fazer isto não era seu tipo e por isso apenas dava um pequeno sorriso, educado, mas que para um bom leitor de expressões faciais, significava muita coisa.
Um dia houve uma maratona organizada pela empresa que administrava o hotel. Qualquer um podia participar: hóspedes, funcionários, qualquer atleta que viesse de qualquer lugar. Chega o dia esperado e Sam, que também gostava de se exibir, resolveu participar da mesma. É dada a partida e Sam começa com tudo. Antes de completar o primeiro quilômetro, entretanto, começa a fraquejar, o coração parece que vai explodir e, sábia e dissimuladamente abandona a corrida.  Espera, claro, que nenhum colega tenha visto pois não tinha vontade de ouvir uma “gracinha” igual às que ele mesmo fazia. Encontra uma área de descanso onde pode sentar-se e tomar um refrigerante. Precisa passar um bom tempo lá para que nenhum colega seu perceba o fiasco.
Depois de mais de duas horas e meia, tempo que Sam precisou “matar”, começam a chegar os primeiros maratonistas, aqueles com os melhores tempos. Muita conversa e animação, pessoas se cumprimentando, se abraçando. De repente, para surpresa de Sam, entra o Ryan, todo lépido, de tênis e tudo mais. Senta-se e pede uma água gelada. Será que ele correu? 73 anos? Não pode ser…Ele é um velhinho.  Sam começa a ficar preocupado com todas as piadas que fizera. Quando percebe, Ryan está acenando para ele. A seu lado, uma linda mulher também está sorrindo. Não havia outro jeito senão se aproximar. Após as introduções de praxe, Jessica explica que “Papai fez um bom tempo mas está chateado pois sempre fica entre os primeiros 50 e desta vez ficou entre os cem”. Diante da estupefação de Sam, ela explica: “Existe uma boa explicação para isso…”  e continua: “Papai estava deprimido  porque a direção do hotel não o liberou para a maratona de Boston no próximo mês, onde ele sempre consegue uma boa marca. Papai correu a vida inteira.”, finaliza a orgulhosa filha.
Sam estava aturdido, envergonhado, mudo de vergonha. O “velhinho” era um sério corredor de maratonas. E ele? Um gozador barato que mal conseguiu dar as primeiras passadas na corrida. Nem se lembra do que falou para a exuberante Jéssica, deu algumas desculpas esfarrapadas e foi para a casa. E pensou, pensou…
Sam praticamente parou de fazer piadas. Com certeza nunca mais fez nenhuma sobre o Ryan, pai de Jéssica, o grande maratonista, o grande atleta, etc, etc…
A história é verdadeira e até pensei em um grande pensamento para o desfecho, mas acho que não precisa, os fatos falam por si mesmos…ou talvez melhor dizendo “calam por si mesmos”?

Sunday, May 6, 2012

O Protocolo


O Protocolo

A estação estava calma como sempre e o funcionário KS23-6788 realizava as inspeções  de rotina. Há um bom tempo os humanos haviam parado de usar nomes para identificação. No entanto o KS23-6788 gostava do apelido que seu avô lhe dera quando ele era bem pequeno ainda: Nick. Era uma coisa de família, pessoal. Quase todos achavam uma infantilidade usar esses nomes da época em que os humanos mal conseguiam navegar pelo espaço. Na verdade neste ano fazia 3 séculos que o homem pela primeira vez havia conseguido voar para fora de seu planeta e posar na Lua. O que na época foi algo espetacular, agora era considerado uma navegação grosseira, rudimentar e arriscada.
Nem os grandes escritores de ficção científica conseguiram antecipar os rumos que a exploração do espaço iria tomar. Na verdade foi a combinação de avanço científico e tecnologia com o imprevisível, o acaso. 
As pessoas agora viviam muito mais, pelo menos 200 anos. Poderia ser mais, mas havia uma combinação de fatores sociais,  científicos e econômicos, que fizeram o homem “optar” por cerca de 200 anos. Na verdade os indivíduos não morriam mais: eram “preservados” através do  incrível e avançadíssimo sistema de criogenia  administrado por computadores quânticos. Ninguém sabia ao certo os crítérios de descogelamento, mesmo porque esses novos computadores eram programados mas depois se auto-reprogramavam. Tomavam então  decisões  por conta  própria. Uma pessoa seria “descongelada” quando e  se fosse necessário, de acordo com eles. Trariam de volta à vida número suficiente de humanos no caso de uma catástrofe ou de uma ameça de extinção vinda do próprio planeta ou de fora.
Através do novo sistema de navegação espacial a espécie humana espalhou-se por inúmeros planetas. Basicamente instalavam algumas estações em cada um e essas continham alguns poucos humanos e inúmeros robôs, além de máquinas, que lentamente iam tornando o planeta habitável. Era um novo sistema de colonização. Agora os humanos eram “elaborados geneticamente” para sobreviver mais especificamente no local  para onde foram designados. Seria, pois, quase impossível Nick voltar para a Terra pois teria de ser “reelaborado” em sua configuração. Mesmo assim Nick às vezes sonhava com isso. Seu avô conseguira lhe transmitir algumas ideias saudosistas ( por muitos consideradas perigosas) dos primórdios da colonização espacial empreendida pela raça humana.  Cada vida durando dois séculos não foi difícil as imagens e ideias do bisavô de Nick chegarem até ele.
O Planeta GP3467A não era dos piores. Até que lembrava de longe o nosso planeta. Em uma série de 8, a colônia estava na fase 3 de colonização completa. Fora da grande base inúmeros robôs trabalhavam enquanto  Nick ficava a maior parte do tempo no interior. A atmosfera ainda era tênue e ele precisava sair com o equipamento apropriado. As grandes explosões que criariam uma atmosfera razoável só viriam na fase 6 e durariam quase um ano pelo tempo da Terra. Durante a última semana Nick havia trabalhado  intensamente com os computadores de comunicação para restabelecer a mesma. Não havia conseguido nada e ele estava preocupado, pois precisava de aprovação urgente para algumas alterações no programa. Era muito raro o corte completo de contato e por isso Nick havia tentado  se comunicar, em caráter de emergência, com outras colônias. Isso normalmente não era  permitido e a administração central da Terra normalmente era severa contra esse tipo de tentativa. Nick, no entanto, não estava preocupado com isso. O que o aborrecera tremendamente é que as mensagens recebidas do Planeta G9878B estavam truncadas e o pouco que se podia entender delas era profundamente preocupante. Havia a menção de que eles também não estavam conseguindo contatar a Terra e, pior que  isso, haviam recebido uma mensagem gerada por computador de que havia emergência 3B segundo a classificação de emergências do  centro geral de comunicação do sistema de colônias da Terra. Era profundamente perturbador para Nick que tanto a mensagem original do nosso planeta como a retransmissão através do Planeta G9878B não tinham chancela humana, ou seja, ficava a pergunta, havia humanos para validar a mensagem? Além disso emergência 3B estava a apenas dois passos da emergência L que era o ultimo grau e que consistia numa autorização implicita de seguir seus próprios passos por falta de comando central. Quando a emergência atingisse o nível L, as colônias deveriam usar o Protocolo. O Protocolo certamente daria as instruções mas ninguém o havia usado antes e obviamente havia algo fatalístico sobre o conceito.  O que mais assustava a respeito do assunto é que todos sabiam como funcionava o mecanismo.   O Protocolo na verdade era um computador separado de todo o sistema e que só poderia ser acionado pelas colônias, se no Planeta Terra, o comandante chefe de comunicações ou alguém autorizado por ele não o reativasse por mais de uma hora. O fato de ninguém estar lá para acionar o Protocolo por esse tempo era obviamente estarrecedor e significava uma tragédia de inusitada proporção. Nick tinha esperança de que brevemente as comunicações seriam restabelecidas.
Para longas viagens no espaço ou para longos períodos de tempo sem atividade numa colônia era usada a técnica do “adormecimento”. Isto permitia que um longo período se passasse com um consumo mínimo de energia e principalmente, sem danos psicológicos para o astronauta ou colonizador. Além do mais, o nível de ”adormecimento” era tão profundo que praticamente não contava como “tempo vivido” e se uma pessoa ficasse neste estado por um periodo longo, esse tempo estaria sendo acrescido a sua vida. No entanto, esta técnica só poderia ser usada por cerca de 10 anos. Mais do que isso seria necessário recorrer-se à criogenia, obviamente algo muito mais sério e definivo. Todos sabiam que o uso do Protocolo estava ligado a uma  dessas duas técnicas ou às duas. Foi por isso que, quando  ele recebeu de um planeta próximo a retransmissão de “condição L”, ou seja a emergência maxima, Nick realmente se assustou por mais preparado que estivesse psicologicamente. Até então ele havia ficado bem mesmo quando,  nas últimas semanas,  toda a sua equipe, de 14 pessoas,  havia sido removida para uma missão especial. Deixaram-no  sozinho e nem por isso se abalou. Na época, como era praxe, não questionou nem consigo mesmo nem através das mensagens a proridade ou não daquela retirada. Agora, no entanto, começou a relacionar os dois fatos, “ a condição L” e a remoção de seu pessoal e começou a achar, quase ter certeza,  de que as coisas estavam interligadas.
Em duas horas , se não chegasse nova mensagem, ele deveria tentar abrir o Protocolo. Além de ser um sistema de segurança, o Protocolo eram também, um lugar físico com o grande computador independente e as máquinas de adormecimento e criogenia. Havia também quatro  robôs que operariam o sistema em caso de necessidade. Até então ninguém havia entrado  na sala do Protocolo.
Nick acabava de estar em contato com essa nova realidade, quando para sua surpresa, o sistema de Protocolo respondeu a sua tentativa de acesso.Isso era a confirmação da condição "L " ou seja, emergência máxima. Por mais treino que ele tivesse tido para este momento – você nunca acredita que é possível  acontecer -  ele estava estarrecido.  Acomodou-se no confortável assento e começou a seguir o  “prompt” com as instruções. O Protocolo informava inicialmente que o “incidente” havia ocorrido no Planeta  Terra e era localizado. A possibilidade de sobrevivência  local era de apenas 10%.  A seguir o Protocolo calculou de 3 a 10 anos o tempo de restabelecimento no caso de haver o mínimo de vida reminiscente na Terra para operar o processo de resgate e recuperação.  O Protocolo então explicava que as colônias que tinham passado da fase 6 de colonização estavam autorizadas a tomar medidas de sobrevivência em sistema de autonomia da Terra. As outras, segundo o próprio Protocolo estariam diante de um dilema. Se a Terra sobrevivesse – e as chances eram de apenas 10% - o adormecimento era a melhor alternativa, pois em menos de 10 anos haveria  socorro, instruções. Outros planetas mais próximos poderiam mandar  ajuda, o que não fariam no caso de o dano na Terra ser permanente, pois teriam  de cuidar da prória sobrevivência.  No caso de a administração central e sua população ficar reduzida a zero ou a condições de pré-civilização espacial, o congelamento seria a melhor indicação por ser quase perene. Milhares de anos poderiam se passar até que novas tecnologias voltassem e viabilizassem o descongelamento. Depois de séculos de tirania , autonomia e arrogância, pensou Nick, os computadores estavam confessando que não tinham condições de tomar uma decisão. Ironicamente, na hora mais importante  de sua existência, Nick teria de confiar em seu próprio senso de análise. O Protocolo, o “Grande Protocolo” estava ali, a sua frente, confessando que não tinha a capacidade de decidir. O Nick, que era um funcionário de quinta linha no “ranking” tecnológico, estava ali, a uma distância assustadora da terra , sozinho, com a decisão de sua própria vida em suas mãos, pela primeira vez.
O computador dizia que ele tinha  cerca de 300 horas decidir e iniciar ou os procedimentos de “adomercimento “ ou “congelamento.”  Cinco ou dez anos de sono super profundo seriam como nada e tudo estaria resolvido. E se o problema na Terra fosse muito mais grave? Dali a alguns anos ele estaria de volta, ali, sozinho, acordado mas sem qualquer perspectiva e provavelmente teria de induzir a própria morte para não ficar louco. A outra alternativa, a da criogenia, era a um tempo garantida e assustadora. Assustadora porque nada  mais dependeria dele. Se as coisas voltassem ao normal, milhares de anos depois, alguma civilização que dominasse tanto a tecnologia de viagens espaciais e a criogenia talvez chegasse até ele e o  ressuscitasse. O Protocolo estaria mandando sinais indefinidamente pelo espaço.Ou então…ele poderia ficar congelado para sempre.
Embora não fosse momento para isso, Nick resolveu dormir por algumas horas. Induziu em si mesmo um sono leve em que pudesse sonhar. E sonhou. Sonhou com a Terra. Com seus rios, seus oceanos, suas árvores, sua aves. Com o sorriso das pessoas, com o som dos ventos, com o aroma das flores. Sonhou que uma nave o estava transportando de volta, que seus gens estavam sendo modificados para novamente habitar o Planeta. Sonhou que a civilização estava voltando devagar…
Nick acordou aliviado  e feliz. Tinha decidido. Era melhor esperar mais de mil anos e ter pelo menos a esperança sólida de uma vida mais parecida com a que seu avô descrevera. Entrou na sala de criogenia e deitou-se na cápsula que se fechou automaticamente. Apertou o botão de “iniciar”. Segundos depois notou que dois robôs, um de cada lado se aproximaram dele. Dali a pouco começou a se sentir sonolento,   a primeira fase do congelamento …Nick então dormiu profundamente enquanto as máquinas programavam o evento e armazenavam a fabulosa energia para manter a sua cápsula isolada e fria, muito fria por muito tempo..…Mas ele não estava sentindo nada.  A última coisa que sentiu foi o vento quente do mar da Terra em seu rosto, em seu sonho…

Sunday, April 29, 2012

O Ministério da Corrupção

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O Ministério da Corrupção
Todo mundo está cansado de saber que a corrupção anda a solta em nosso querido país. Não posso dizer “como nunca” pois os otimistas dizem que diminuiu um pouco. Ou será que na verdade,  o que está acontecendo é apenas que a imprensa está falando mais agora do que antes? A favor de nosso querido Brasil devo confessar que muita coisa que para nós é ilegal, sutilmente passou a ser  “legal”em alguns países, como os Estados Unidos. As absurdas contribuições para campanhas eleitorais que  na terra do tio Sam são permitidas, no Brasil seriam “legalmente” motivo para ir para a cadeia. Para sermos justos,no entanto,  ir para a cadeia é relativo pois sabemos que dificilmente alguém com muito dinheiro vai para lá em nosso país. Sempre a tal da relatividade. O que é absoluto, no entanto, é que muita gente simplesmente acha que é normal  levar um “extra por fora” quando  está em um cargo público. Talvez haja algumas honrosas e raras exceções mas são tão poucas que nem sei se vale a pena procurar. Dizem que os culpados são os portugueses que trouxeram esta “cultura”para nós. Não sei não, mas se isto é verdade,  os alunos viraram professores e nossos colonizadores estão perdendo de longe para nós. A verdade é que acho que vamos ter de conviver com isso por muito tempo. Nós todos sabemos que por mais que haja sistemas para coibir este vício, a criatividade brasileira é exarcebada e vai sempre conseguir  “dar a volta por cima”. Por isso é que um amigo meu, que além de gozador, é muito prático,  fez uma proposição simples, prática, cínica e assustadora.  Elea cha que a corrupção deveria ser oficializada, legalizada e que até um Ministério da Corrupção deveria ser criado. Talvez uma Secretaria Especial para Assuntos de Corrupção ( com sigla e tudo: SEAC).  Todos os corruptos teriam de ser registrados e pagar altos impostos sobre suas transações. Eu sei o que todos estão pensando.Teriam de fazer mais corrupção por causa dos impostos. Mas daí teriam de pagar mais impostos de novo. Daí todos ganhariam: mais  corrupção, mais impostos mais obras, mais propina, mais impostos. Seria uma vertigem…Nós cresceríamos, cresceríamos…Não haveria mais corruptos pois a corrupção seria legal, além de gerar impostos.  Aí sim, seríamos o país do futuro já no presente.
Parece bom, mas todos sabem que deve  haver alguma coisa errada nesta história. O que será? Acho que eu sei…Os corruptos verdadeiros, legítimos, não iriam resistir. Eles iriam  oferecer algo “por fora” para sonegar os “impostos sobre corrupção” e o sistema estaria todo  “furado” e teríamos inventado algo extraordinário, um verdadeiro monstro legal: a corrupção para subornar a “corrupção”. Acho melhor voltar para o sistema antigo e esperar que um dia o povo fique educado, perceba o que está acontecendo e finalmente faça algo a respeito. Pode demorar mas é mais seguro…

Sunday, April 15, 2012

Sociedades Não Tão Secretas

Sociedades Não Tão Secretas
Ainda bem que existem essas associações que tentam proteger as minorias, os desamparados, os aflitos. Elas existem no mundo inteiro mas aqui nos Estados Unidos elas proliferam. Os aposentados, por exemplo, têm a AARP (American Association of Retired Persons) que, entre outras coisas, procura arrumar descontos para os seus sócios, tenta protegê-los no Congresso Nacional contra leis que queiram tirar seus benefícios, faz pressão para melhorar a aposentadoria. Nada mais justo. As pessoas de raça negra têm  a NAACP (National Association for the Advancement of Colored People) que examinam casos de discriminação, que protegem seus associados contra injustiças e pressionam politicos para que promovam leis que mais e mais lutem contra o isolamento de seu grupo. Além disso,  incentivam crianças e jovens a buscarem seu justo lugar na sociedade. A   NCLR (National Council of la Raza) faz a mesma coisa pelas pessoas  de raça hispânica.  E assim vai. O Greenpeace luta pelo meio ambiente. Todos precisam de proteção neste mundo cruel, cheio de competição, injustiça e maldade. Existe, porém uma associação muito especial: a NRA (National Rifle Association of America). Alguns traduzem como Associação Nacional de Rifles. Definitivamente ela não é como as outras. Não, não é também algo como um grande clube de tiro ou coisa assim. Estariam eles protegendo as incontáveis vítimas de tiros acidentais e outros não tão acidentais? Com certeza não. Estariam protegendo os possuidores de armas, talvez,  contra processos de pessoas descuidadas que levaram tiros de outros porque são distraídas? Talvez protegendo as armas propriamente ditas? Pensando bem, acho que  elas não precisam de proteção…
Nada disso: ela  protege os fabricantes de armas. Contra quem não gosta delas, contra quem quer regulamentar a venda, contra quem acha que é perigoso. Pressionam politicos e desviam a atenção da imprensa quando acontece um desses tiroteios famosos que matam muitas pessoas. São riquíssimos e poderosos. Dizem até que investiram pesado no Brasil quando houve o plebiscito a respeito das armas. Será? Não, não é possível… Esse pessoal fala demais... De qualquer forma, se eles abrirem um escritório no Brasil, já sei até o “slogan” que eles vão usar. Vão parodiar a frase dos antigos navegantes e depois usada por Fernando 
Pessoa e Caetano Veloso:  “Atirar é preciso; viver não é preciso” , ou em outras palavras, é mais importante vender uma arma do que tentar evitar que alguém seja vítima de uma. Pois é, há  associação para tudo…

Tuesday, April 3, 2012

Ficção e Realidade: Mais um massacre ( continuação)

Ficção e Realidade ( continuação)

Não chegou a completar uma semana minha crônica “Realidade e Ficção” e a história se repete. Falava então dos loucos que, a todo momento, aparecem em escolas, firmas ou locais públicos e começam a atirar desvairadamente. Na ocasião inventei uma história sobre um desses atiradores só para depois falar que era mentira. Continuando, escrevi que não havia necessidade de inventar pois a história acontecera tantas vezes que a realidade cuidava disso mais eficientemente.  Ela vai sempre correndo na frente da ficção. O que esqueci de dizer, entretanto,  foi que provavelmente o mesmo evento iria se repetir no futuro. Aí está: Segunda-feira, em Oakland, Califórnia  mais um doido abriu fogo e matou sete pessoas. Hoje em dia, quando essas coisas acontecem já não causam o mesmo furor de antigamente. Estão virando quase notícias comuns, do dia-a-dia. Espero que não virem notícias de rodapé ou entrem na secção de “variedades” ou algo assim. Mas, como eu estava dizendo, para que criar essas histórias, se elas insistem em acontecer de verdade? É só ler os jornais.
Leia mais sobre o massacre de Oakland:
http://www.estadao.com.br