Tuesday, March 12, 2013

POEMINHA ECOLÓGICO, sem rima


POEMINHA ECOLÓGICO,  sem rima








O peixe está com mercúrio,
A verdura tem agrotóxico.
A carne contém toxinas,
E a água está poluída.
O que se pode fazer?
Ainda bem que não falaram nada da cerveja...
Nem do vinho!
Desse jeito não vou morrer de fome,
Quero dizer, de sede..

Monday, March 11, 2013

Briga de casal


Briga de casal














Você está no norte,
Eu estou no sul.
No centro, nenhum de nós dois.
Você vai para o leste,
Eu para o oeste.
Estamos à deriva, sem rumo magnético,
Sem rumo nenhum.
Sem prumo também.
Procuro uma porta,
você olha pela janela,
vendo o além.
Algo não está bem.
Definitivamente,
Precisamos conversar.
Urgente!

Sunday, March 10, 2013

O Mendes e o mundo da lua


O Mendes e o mundo da lua

O Mendes era um cara distraído. Muito distraído. Vivia no mundo da lua. Verdade a ser dita, acho que morava em Marte, talvez até em um  planeta ainda mais distante. A situação era agravada pelo fato dele ser funcionário público. Isso não ajudava.  E pior ainda,  o trabalho era perto de casa. Era tudo uma tranquilidade e isso facilitava a sua condição. Não precisava se focar em nada. As coisas praticamente aconteciam por si mesmas.
A dona Genoveva não gostava nada disso. Com o tempo a coisa piorou. O Mendes ficou mais e mais lunático. Um dia, ele estava na repartição e aconteceu um problema  em casa. Um grande vazamento. Um cano estourou e estava inundando tudo. Genoveva correu até o local de trabalho e procurou pelo marido. Quando se aproximou da mesa, lá estava ele, cabisbaixo, fazendo o que ele tinha de fazer. A Genoveva, aos gritos, falou o que estava acontecendo. O Mendes, sem levantar a cabeça, estendeu um formulário e falou para ela preenchê-lo. Ela replicou que era ela, a sua mulher.  Ainda sem levantar a cabeça, estendeu uma caneta e falou que ela podia usar a cadeira ao lado.
Ela saiu de lá furiosa. No próximo dia o Mendes recebeu a papelada para o divórcio. A Genoveva tinha atingido seu limite.
A rotina do Mendes agora teria de ser  alterada. Isso era um problema. Estava tudo indo tão bem, tão certinho. Divórcio? Que coisa estranha, o que deu na Genoveva?
Eu não sei não o que vai acontecer com o Mendes. Coitado, tudo vai se tornar tão diferente, tão estranho...pobre Mendes...




Saturday, March 9, 2013

Existe uma nação


Existe uma nação



Uma nação existe, que tem de tudo. Tem montanhas lindíssimas, algumas com neve, outras com um verde exemplar. Às vezes há vulcões no topo delas, às vezes os vulcões se espalham pelo chão.  Há terremotos e há furacões, mas tudo se pode controlar. É uma nação bonita, grande, que se espalha de oceano a oceano e tem riquezas mil. Ciência com recursos sem par, pessoas com riqueza ímpar. Pessoas diferentes, ricas de se admirar, outras bonitas de se invejar.
É uma grande nação. Indeed. Tem soldados. Tem artefatos de guerra, guerra que gosta sempre de recomeçar. Há soldados nas guerras, há inimigos na espreita, que querem sabotar. Morrem herois todos os dias. Outros morrem depois, em casa, desesperados com o próprio pensar.
Agora há um novo tipo de guerra. Guerra que brota de dentro, guerra feito um incesto, que gosta de seus próprios matar. Mata outros iguais, mata infantes. É um sangue injusto, que não era para se derramar. Que sangue é este, todos perguntam? Que loucos são esses, todos perguntam?
Todos perguntam. Ninguém responde. Os meninos querem, a todo custo, com as armas brincar...

Friday, March 8, 2013

O livro


O livro


Fiquei com vontade de ler novamente “1984” em inglês, do George Orwell. Lá vou eu, como todo mundo, na internet, procurar meu produto. Já ali, me deu uma saudade da época da Rua Maria Antônia, onde eu ia até a livraria da faculdade procurar os livros que queria. Às vezes nem havia um “que eu queria”, para ser franco. Apenas tinha vontade de estar lá, passando pelas estantes, olhando. Pegava um, pegava outro, folheava.  Vinha aquele cheirinho gostoso das páginas, junto com aquele barulhinho suave que elas faziam quando eu as manipulava. Era bom. Fazia parte de um conjunto, de tudo que eu vivia ali, daquele momento da minha vida e até do momento que o país todo vivia.
Eu era cercado de livros: na faculdade, em casa, no dia-a-dia. Acho que eles faziam até parte da minha alma. Amor antigo e persistente, nunca me livrei dele.
Pois bem, era a segunda vez que estava com aquele dilema. Compro uma cópia daquelas de verdade, com papel de verdade, com cheiro de livro, com jeito de livro...ou simplesmente baixo o texto no meu kindle?
A dúvida só persistiu alguns segundos. Ali, bem do meu  lado, estava o “Grande Sertão: Veredas” do Guimarães Rosa, que eu tenho desde a época universitária. Quantas vezes passei por aquelas páginas e quantas lembranças me trouxeram de uma fase tão boa.  O Rosa me fez decidir. Cliquei na opção do livro de verdade, físico, consistente. Ia demorar uns dois dias, podia esperar. Esperar era gostoso também, fazia parte do prazer de ler...

Thursday, March 7, 2013

A sinceridade do Stuart


A sinceridade do Stuart

Guzman, astronauta da Confederação das Américas,  estava viajando há 13 anos, mas só agora chegara a sua vez de assumir o comando. Até então estava “dormindo” na secção 7 da nave espacial. Durante o último século, conforme as viagens espaciais foram se tornando muito longas, adotou-se esse sistema de “sono profundo induzido”, que poderia ser mantido durante anos.
Demorou um pouco até Guzman tomar contato com a realidade. Agora já estava bem, sabia em que parte do cosmos estava, a missão que estava realizando. A primeira pessoa de quem se lembrou foi Lucy, sua esposa. Ela estava com 120 anos quando saíra, portanto agora estaria com 133 anos. Isso não era nada no ano 2289, uma vez que a expectativa de vida era de quase duzentos anos. Seria como ela ter 40 anos no século 20.
Apesar de praticamente não haver mais doenças, ironicamente uma delas havia começado a crescer nos últimos 20 anos. Não era bem uma enfermidade, era mais uma disfunção: a Síndrome de Hunt. O pesquisador Hunt descobriu por que algumas pessoas, perfeitamente saudáveis, de repente começavam a mostrar sintomas de diversas doenças ao mesmo tempo, até levá-las à morte. Num mundo quase perfeito, cientificamente falando, o nosso cérebro aparentemente tinha desenvolvido uma espécie de reação contra toda aquela manipulação genética que controlava a saúde humana. Era como um protesto da natureza contra o absoluto controle artificial do corpo. O mesmo Dr. Hunt  havia declarado, uns dias antes do início da viagem de Guzman, que ele praticamente já havia conseguido uma maneira de controlar a síndrome. Isso era especialmente importante para o nosso astronauta, pois sua querida companheira, Lucy, havia mostrado sintomas evidentes da nova “doença”.
Naquele primeiro dia “acordado”, Guzman mandou uma mensagem holográfica para sua querida mulher. O tempo para a mensagem ir até a Terra e uma resposta ser enviada de volta seria de cerca de 15 horas, tal era a distância em que estavam agora do nosso planeta. Isso sem contar o tempo que ela demoraria para responder.
Já fazia 19 horas e a resposta ainda não havia chegado. Guzman então falou com Stuart – nome carinhoso para o computador comandante da missão – sobre a sua ansiedade. Stuart explicou a ele que entre eles e a Terra havia uma densa constelação, que certamente atrasaria o tempo de “entrega” da mensagem. Isso consolou Guzman um pouco.
Passaram-se cerca de 70 minutos e o Stuart alertou Guzman para uma mensagem que havia acabado de chegar. Ele sentou-se numa confortável poltrona na sala de projeções holográficas e tocou de leve o controle para iniciar a mensagem. E lá estava a Lucy, linda como sempre. Não parecia estar abatida ou doente. Na continuação ficou sabendo que o Dr. Hunt cuidara do caso dela pessoalmente e que tudo tinha dado certo. Contou uma série de outras coisas, riu, mandou beijos.
Normalmente Guzman deveria estar cheio de felicidade. Entretanto, algo na transmissão o incomodava. Lucy não parecia a mesma, embora estivesse exuberante. Havia coisas, brincadeiras, palavras, que certamente ela teria usado na conversa, que não estavam lá.
Guzman estava cismado, ficou pensativo. Depois de algum tempo, resolveu falar com o Stuart. Ponderou com ele que sabia que ele havia sido programado com forte dose de “sentimentalidade e sensibilidade humanas”. Abriu-se dizendo  que estava desconfiado que algo não estava bem. Stuart retrucou que ele mesmo havia visto a mensagem e a própria Lucy confirmara estar bem.
Mais  30 horas se passaram, mas a cisma de Guzman não foi embora. Conversou novamente com seu amigo computador Stuart. Abriu seu coração. Sabia que ele tinha obrigações com a missão, tal como manter a tripulação feliz, equilibrada emocionalmente, etc... Disse que com ele não iria funcionar, estava desconfiado, a melhor coisa era falar a verdade. Ele conseguiria superar, sobreviver, mas precisava da verdade.
Stuart demorou um pouco para responder. Aparentemente estava processando as emoções do Guzman. Depois confessou. Lucy havia morrido há sete anos atrás, enquanto ele estava em sono profundo. O computador da Terra, encarregado da missão, juntou todos os dados que tinha e “falsificou” a mensagem holográfica de resposta. Aparentemente ele não tinha todos os detalhes para fazer uma mensagem perfeita. No final, Stuart disse que sentia muito.
Guzman agradeceu a sinceridade do Stuart e recolheu-se por algumas horas.
Mais tarde, um pouco mais tranquilo, Guzman falou em volz alta para Stuart:
-Stuart, você sabe como foi importante sua honestidade comigo? Isto muda completamente a maneira como vou me sentir daqui para a frente em relação à missão, em relação a você...
-Eu sei, eu sei...
Guzman já havia também participado de missões espaciais em naves da União Europeia, da Confederação Asiática e da Liga Independente. Nenhuma delas tinha inteligência artificial tão sintonizada com a personalidade como o Stuart da Confederação das Américas. Isso era bom...
Stuart interrompeu seus pensamentos:
-Guzman, por falar em sentimentos, acho que você deveria dar uma olhada na grande  escotilha do nosso lado direito. Há cinco estrelas super-gigantes, com luz e cores de arrepiar...
Guzman sabia que Stuart estava tentando alegrá-lo, mas foi assim mesmo. De qualquer forma ele gostava mesmo dessas paisagens cósmicas. Esse Stuart era mesmo uma coisa...
Na vastidão do espaço, a nave especial SS6574, ou a  “Splendid”, indiferente a sentimentos humanos ou de máquinas, continuava sua longa jornada em direção ao planeta Stallion. Suave, brilhante, esplêndida...



Tuesday, March 5, 2013

Uma colcha branca


Uma colcha branca (suspiros de uma viúva...)

O Júlio  se foi. Não me abandonou não, ele me amava muito. Ele foi para o outro lado. Dá até um nó na garganta quando falo isso. A casa ainda tem seu cheiro, seus traços, acho que a alma dele ainda está por aqui.
Leio, arrumo as coisas cá e lá, tento dar um novo jeito naquilo que não tem jeito. Às vezes dou um soluço, daqueles bem fundos, assim do nada, sem avisar.
Já faz algum tempo e ainda coloco a mesma colcha na cama. A mesma que estava lá, naquele dia fatídico, quando, sem aviso prévio, seu coração resolveu parar. É linda, branca, toda trabalhada. Ele olhava para ela e falava assim: “Gosto da sua colcha de retalhos...” Eu ficava zangada e replicava: “Seu tonto,  esta colcha não é de retalhos, não...”
-Mas é tão bom de falar...toda colcha devia ser de retalhos...
E ria. Aquele sorriso gostoso, debochado,  que eu não tenho mais.
É por isso que não troco mais a colcha. Qualquer dia destes, quem sabe, Deus faz um milagre, e ele vem me agarrando por trás, beijando meu pescoço, falando da minha colcha...Talvez eu consiga juntar, de novo,  os retalhos de minha vida...


(crônica participante de concurso no blog www. http://letrasdobviw.blogspot.com/)