A
segunda vida do Ribeiro
Lá estava o Ribeiro, mexendo e remexendo na papelada em uma sala
na parte sul do hospital. Inventara umas histórias, umas desculpas, e conseguiu
finalmente a autorização. Teve sorte pois não se passaram nem duas horas e
achou o que queria. E agora estava olhando, quase em choque, para uma foto. Não
podia ser, mas era. Estava tentando se convencer de que estava enganado. Não
havia como negar, a foto...
Não vamos nos precipitar. Para entender a cena, temos de voltar
alguns meses no tempo. Ribeiro era um enfermeiro do Hospital Santa Clara. Era
um bom lugar para se trabalhar, muito antigo e tradicional na pequena
cidade. A instituição tinha mais de oitenta anos. Ribeiro, logo de imediato,
foi bem aceito entre os colegas. Todos o chamavam para ajudar aqui e ali, era
um batalhador, funcionário dedicado e inteligente, além de um bom amigo de
todos. Já estava há uns três meses no hospital quando teve a primeira da
série de experiências estranhas pelas quais passou.
Um dia
sentiu um tontura danada quando estava passando por uma sala que tinha escrito
“Arquivo”em sua porta. Não foi só isso, sentiu também uma força danada
impulsionando-o a entrar. Assim o fez. Lá dentro, devagarinho, foi voltando ao
normal. Daí, quando acordou, notou que seu uniforme era de outra cor. Branco.
Nunca usava essa cor no trabalho. Mas era um uniforme sim. Saiu da sala, voltou
para o corredor. De repente, começou a olhar para as pessoas e notou que as
conhecia e até sabia seus nomes. Não eram, entretanto, os seus colegas de
serviço. As paredes tinham outra cor, os móveis e os aparelhos todos pareciam
muito antigos. Aos poucos fois e esquecendo do “outro hospital”. Na verdade ele
não saía de sua mente, estava lá, só que distante, como uma lembrança. Parecia
um sonho que tinha tido, uma recordação. De repente viu, no meio do corredor,
uma enfermeira agitada, acenando. Correu para lá e foi atrás dela, que entrou
numa sala. Um paciente parecia ter morrido. Imediatamente fez massagem
cardíaca, esmurrou seu peito e, como por milagre, seu coração começou a bater
novamente. A enfermeira agradeceu, e o irmão do doente, que estava no quarto,
abraçou-o chorando. Deu mais umas voltas pelo hospital, fez uma tarefas que lhe
cabiam e, de repente, lá estava ele passando pela “sala do arquivo” novamente.
Aconteceu exatamente a mesma coisa, sentiu tontura, um impulso incontrolável de
entrar. Aos poucos volta ao normal e já está com seu uniforme verde outra vez.
Sai, começa a reconhecer as pessoas, as primeiras que já conhecia antes. Aos
poucos as imagens do velho hospital vão sumindo, sem desaparecer totalmente.
E isso aconteceu inúmeras vezes, durante meses, com
pequenas alterações. O que havia de comum, sempre, é que ele sempre acabava
ajudando alguém. Nem sempre era salvando alguém. Às vezes consolava um
companheiro que estava passando por um problema difícil, às vezes “dando uma
dica” importante para um médico que estava com uma dúvida sobre um paciente.
Era como se cada vez que “voltava” era para cumprir uma missão. Nunca ficava
muito tempo lá , mas era sempre uma experiência viva, real. Com o repetir das
“viagens” a lembrança das cenas, das pessoas, das instalações ficava mais viva
em sua mente. Conseguia se lembrar. Foi então que começou a prestar atencão
numas fotos em quadros pendurados na parede do prédio principal do hospital.
Não passava muito por lá, por isso demorou um pouco para ele notar. Mas assim
que ele olhou com cuidado, pela primeira vez, teve certeza. Aquelas fotos das
instalações hospitalares de 40 anos atrás eram exatamente o que ele via toda
vez que entrava naquela sala e repetia a experiência. Normalmente isso o
deixaria louco, faria com que pensasse que estava com alguma doença mental.
Entretanto, como as coisas foram acontecendo aos poucos, ela pareciam quase
normais, faziam parte da sua vida atual.Um dia, porém, algo lhe
ocorreu. Será que o hospital tinha fotos de funcionários antigos, da época para
a qual ele estava sempre voltando? Se tivesse, com certeza ele os iria
reconhecer, pois tinha os semblantes vivos na memória.

Por isso, como dizia no começo desta história,não
havia como negar...a foto era da Margarida, encarregada das enfermeiras. Ela
tinha um rosto inconfundível. E mais: a Fernanda, a Francisca, a Marília,
estava todo mundo lá. Começou a ter calafrios. Agora era outra história, as
coisas estavam ali, documentadas. De repente, lembrou-se do óbvio. Que tal
achar a própria foto? Lembrou-se de que seu rosto era praticamente o mesmo nas
duas épocas. As únicas duas diferenças eram o corte de cabelo e uma marca de nascimento
na face esquerda. Ele só tinha essa marca na sua versão antiga. Remexeu,
remexeu e depois de cinco minutos lá estava, em outra caixa, sua foto. Dizia:
Sebastião Ribeiro, 27 anos, nascido no Rio de Janeiro. Escrito a mão, num
canto, estava “Ribeirinho” . O nome do Ribeirinho, de agora, era Afonso Ribeiro
Júnior.
Pesquisou, procurou, entrevistou todo mundo na família. Ninguém
nunca ouvira falar de Sebastião Ribeiro. Noi entanto conseguiu falar com duas
pessoas de bastante idade, que trabalharam no hospital há décadas atrás e elas
se lembravam do “Ribeirinho”. Viera de outra cidade, não sabiam qual, e morrera
jovem, aos 31 anos. Trabalhara apenas 4 anos no local. Era sozinho, não tinha
família.
Era um nistério e tanto. Sem saída, sem solução. Na cidade não
havia outros registros, nada. Você sabe, antigamente, essa história de
registros, identificação, não era coisa muito séria.
O
“Ribeirinho” de agora, Afonso,na verdade, o “Ribeiro”, quase enlouqueceu de
tanto pensar no assunto. Nunca contou nada para ninguém, alguém poderia achar
que estava ficando louco. Quando investigava sobre o assunto, inventava uma
desculpa qualquer. Ele, como seu outro “eu” também faleceu. Agora nem sequer
temos alguém para entrevistar, perguntar. Assim terminou a história de Afonso
Ribeiro Júnior, o Ribeirinho de antes, o Ribeiro de agora...