Friday, March 13, 2015

Encontros eletrônicos

Encontros eletrônicos



O Stuart estava triste e não estava. Divórcio não era uma coisa que ele tinha programado para sua vida. Ainda bem que a quase ex estava levando tudo “numa boa”. Sem ressentimentos de ambas partes. Essa paz relativa permitiu que ele conseguisse refletir. Verdade é que a única coisa em que ele refletia era a solidão que viria dali para a frente. Ele não acreditava nessa história de ”melhor só do que mal acompanhado”, mesmo porque ele, e até então, a sua esposa,  tinham sido bons companheiros apesar de as coisas não terem dado certo.
Estava com 47 anos e não tinha mais aquela paciência de frequentar rodas de amigos, talvez clubes, na vã esperança de encontrar alguém que pudesse ser uma boa esposa. Pensou bastante e decidiu: é a Internet. Estudou alguns daqueles websites que promovem encontros e casamentos, tentando achar o que as pessoas têm em comum. Escolheu um, fez um perfil sem exageros.  Não queria dar falsas impressões e depois ter de passar desgosto. Não adianta mentir, pensou.
Divorciado, economicamente independente, apresentação razoável, gosta de esporte, de viajar, blá, blá, blá...
E não é que o danado, em algumas semanas foi “visitado”por mais de duzentas mulheres? 238, exatamente. Nem ligou quando seu colega de trabalho disse que a “liga feminina” estava mesmo desesperada. Usou o método científico. Rigorosamente selecionou as que eram ao mesmo tempo viáveis e interessantes para ele. As escolhidas foram 27. Daí pensou, precisava encontrar essas pessoalmente. Chega  um ponto em que só o “cara  a cara” é que resolve. Pacientemente, marcou jantares, almoços e outros tipos de encontro. E foi fazendo anotações. Ficou muito bem impressionado com cinco e assim, eliminou as outras. Tudo com muito charme e elegância. Daí ficou olhando para a cara das cinco e se imaginando em casa com elas. Lembrava-se da voz de cada uma, dos trejeitos e de outras coisas. De repente, uma delas começou a voltar toda a hora para seu pensamento. Marcou mais um jantar com essa. Podia-se ver que ela também estava feliz quando o encontrou. Ele mais feliz ainda. Disse consigo mesmo: é essa, é essa. Ela confessou que também tinha acabado de eliminar outros três pretendentes só pensando nele.
E assim foi. Casaram-se e estão muito felizes e com muitos planos. Quem disse que casamento via Internet não funciona?
Como dizem, o futuro, definitivamente chegou. Eu só não sabia que estava andando tão depressa assim...

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Thursday, March 12, 2015

A loja de penhores


A loja de penhores

As lojas de penhores têm coisas bem baratas. Produtos quase novos são comprados por uma pechincha. Lá vou eu atrás de uma bicicleta, preciso de exercício. Abro a porta e a primeira coisa que eu vejo é um violino. Está em destaque em cima de uma  mesinha. Velho, porém bonito e conservado. Estranho, nunca tinha visto um lá e olha que lá existe de tudo: aparelhos de som, ferramentas, televisores, computadores, nem sei mais o quê.
Começo a pensar. Quem traria um violino para uma casa de penhores? Um pai que, desiludido,  desistiu de incentivar o filho a tocar o belo instrumento? Uma viúva que está se desfazendo dos bens do marido, que há pouco se foi? Pior, talvez um músico, que, em dificuldades financeiras, precisou fazer alguns trocados. É o mais provável, infelizmente... Normalmente as pessoas vêm a esses lugares porque estão com problemas de dinheiro. Fico imaginando a figura triste do artista, sem seu precioso instrumento. Caindo na realidade, abandonando a arte para sobreviver.
Talvez não seja bem isto, mas certamente é uma história parecida. Não, não vou comprar mais a bicicleta. Talvez alguém... É triste ter uma vantagem porque alguém está em dificuldades.
Por dentro, chorei pelo violinista que perdeu seu instrumento. Espero que não perca sua arte também, sua dignidade e, um dia, possa voltar a tocar... Sou otimista, acho que até já escuto as notas no ar...


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Tuesday, March 10, 2015

Dá para acreditar?

Dá para acreditar?




Fica cada vez mais difícil para os escritores da área de terror e similares sobreviverem. Não que eles não sejam bons, eles são. Fazem a gente ficar arrepiado com suas narrativas. O problema, porém, é que esse mundo moderno, com tanta gente, está produzindo os horrores mais genuínos e criativos da história da humanidade na vida real, mesmo.  Vou citar só alguns para provar meu ponto de vista. E está tudo documentado, certinho, em jornais e televisão. Terror certo, garantido, com certificado e tudo. Além disso, esquisitices também, daquelas que você é capaz de jurar que não são possíveis nem na ficção.  

No interior de Pernambuco, duas mulheres e um homem - que trio, você vai ver – atraíam vítimas que eram executadas a seguir. Bebiam seu sangue e depois aproveitavam suas coxas, braços e nádegas para comer. Se você pensa que eles paravam por aí, muito enganado. Não que isso seja pouco, é claro. Faziam coxinhas e empadas com a carne que não haviam comido e vendiam no comércio da cidade. Não posso falar nada sobre a higiene com a qual esses produtos eram preparados, mas, tenho certeza de que isso, aqui, é irrelevante.

Antes que você encha seu peito cheio de orgulho nacional, você precisa conhecer a história dessa mulher da China. Não ganha em horror, mas ganha em estranheza. Li Xiaufeng, uma chinesa de 95 anos foi encontrada morta no chão por seu vizinho. Seguindo o costume chinês, foi colocada num caixão aberto e ficou lá por seis dias, esperando todos os parentes chegarem para o funeral. Um dia antes do enterro, foram verificar e ela não estava mais lá. Foi encontrada “vivinha da silva” preparando  uma refeição em casa. Estava com muita fome, o que é justificável. Os cientistas explicaram tudo, não se preocupem.

Tenho outras notícias, todas elas à disposição do público em geral. Não vou entrar em detalhes, pois eles podem ser excruciantes. Muitas vezes são cômicas, mas com a conhecida ressalva de que “seria cômico se não fosse trágico”. Vamos lá: “Casal de amantes cai da janela enquanto fazia sexo na Alemanha”, que  tal? E aquela outra manchete: “Jovem pego a 178 km/h diz que estava com pressa para fazer sexo”, não é demais? Para completar, mais duas ( não estou dizendo que não há mais, há muitas, creia!): “Peladona surta e pula sobre para-brisa de carro de desconhecido nos EUA” e “Idoso morre após engolir a dentadura durante sexo com prostituta”.
Voltando a minha consideração inicial, dá para competir com essa gente? Coitados dos escritores do gênero!


Notícia 6


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Estranhas Histórias
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Saturday, March 7, 2015

As cores da argila (Perus: memórias)



As cores da argila   (Perus: memórias)

Eu chegava da escola, sentava-me à mesa e, num instante, devorava o prato com feijão, arroz, e mistura. Depois de subir o Morro do Cartório, quem é que não fica com fome? Logo a seguir, se eu conseguisse escapar imune de alguma tarefa dada pela minha mãe, ia correndo para a rua. O objetivo era simples. Encontrar meus amigos e decidir qual seria a aventura do dia. Quando não havia missão especial, ficávamos por ali mesmo, jogando taco ou bolinha de gude. Muitas vezes, porém, íamos até a frente da Igreja de São Jorge, a cem metros de casa. O lugar ali era mais oficial, mesmo porque naquela época ainda não tinham deposto o santo de sua verdadeira hierarquia. Olhávamos Perus lá de cima. Uma sensação inigualável. Parecia tudo de brinquedo lá embaixo; a estrada de ferro, a ponte, o caminhão passando. Quando você não tem nada e olha lá do alto, parece que você é dono de tudo. Das nossas brincadeiras, certamente nós éramos.
Era muito comum ficarmos por ali. O pequeno terreno, em frente à igreja, terminava de repente e um quase penhasco se desenhava a nossos pés. A chuva tinha causado erosão e o ventre da terra ficava exposto. E sabe o que havia lá dentro? Um monte de cores. Isso mesmo, argila colorida. Havia verde, cor de rosa, amarela, vermelha. Nós, cirurgiões mirins, arrancávamos pedaços e os esculpíamos com pedaços de madeira. Era bonito de se ver. Aquele colorido todo. Parecia um caleidoscópio de argila. Como esquecer uma coisa dessas? Aquilo era nosso tesouro enterrado.
Mais tarde tínhamos de voltar para casa. Fazer a lição, escrever no caderno de caligrafia. Acho que eles, como tantas outras coisas, não existem mais. Quando começava a ficar escuro, minha mãe me chamava:
-Flávio, vem jantar!

Era a sopa de feijão, feita no fogo de lenha. O tempo antes de ir para cama era curto. Não havia televisão, a luz era fraca. Só restava dormir. Dormir e sonhar com as cores da argila.


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Friday, March 6, 2015

Masculino, feminino

Masculino, feminino




Essa Língua Portuguesa tem cada uma. Por que a palavra “nuvem” é feminina? Porque passeiam graciosas pelo céu, cheias de curvinhas, suaves, se exibindo? Talvez porque, no final da tarde, elas ficam todas iluminadas pelos raios do sol, como joias que brilham? E por que o “sol” é masculino? Por ser poderoso, forte, por tomar conta de tudo? E a “árvore”, por que é feminina? Por ser frondosa, cheia de contornos, por nos trazer frutos gostosos? E o “rio” então? Por que é masculino? Porque corre, caudaloso, potente, forte, levando tudo que cai em seu leito?  E a “estrada”? Feminina, porque acaba nos conduzindo para onde quer? Porque nos leva ao nosso destino? O “mar”, masculino. Porque é grande, poderoso, profundo? Pode ser, pode ser...
Agora então me explique...Por que o “Brasil” é  masculino? Se você tem a resposta, me explique também, porque a “Argentina” é feminina. Se você conseguiu uma resposta, então esclareça por que falamos “minha Alemanha” e “meu Portugal”, o “lindo Uruguai” e a “graciosa Bolívia”?   Por que um país é feminino e o outro é masculino”? “A rosa”, “o cravo”, “a dália”, “o crisântemo”, feminino, masculino,...Como? Se todas são flores? E “o caqui”, “a manga”, “a banana” e “o mamão”...Por quê? Não são todas frutas? A manga e a banana, o que elas têm de feminino que o caqui e o mamão não têm?
A Língua Inglesa, não quer saber de brincadeira. Se é ser vivo, ou é masculino ou é feminino, tudo bem. Se é coisa, nem masculino, nem feminino, é só o neutro, como as coisas devem ser, pois coisas não têm sexo... Interessante, para nós a palavra “coisa” é feminina...
Quer saber de uma coisa? Prefiro do nosso jeito. Tem mais graça.  É muito melhor para os compositores, escritores e poetas. Se não fosse assim, como poderíamos dizer que  “o cravo brigou com a rosa”? “Uma linda noite de luar”, feminino,  “um belo entardecer”, masculino. Para mim faz sentido, não vejo nada de neutro nem na noite, nem no entardecer...

Por outro lado fico com pena do americano que quer aprender Português. Já pensou ter que decorar o sexo de milhares e milhares de coisas? Não deve ser nada fácil. Para nós é moleza, já sabemos de tudo...Sabemos o sexo de todas as coisas, ou quase...


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Tuesday, March 3, 2015

Um gigantesco computador


Um gigantesco computador

Hoje em dia você não precisa saber nada de cor. Você se lembra daquelas listas de capitais que o professor queria que a gente guardasse na memória?
Lista de países, tabela periódica, montanhas e suas alturas? Para quê? Está tudo no Google. Isso e muito, muito mais, e atualizado. Tudo na ponta dos dedos. Com fotos, fatos e dados. Nem mais escrever, precisamos. Podemos simplesmente perguntar para o Google, que ele responde.
Que bom. Deste jeito, podemos usar nossas cabeças para algo mais importante, mais nobre. Para que utilizar nossos neurônios com tão insignificante tarefa?

O que se nota, entretanto, é que algumas pessoas se esqueceram de preencher o vazio deixado pelas antigas informações. Nada de importância foi colocado em seu lugar. Pode ser que, de tanto vácuo, alguns nem sequer saibam mais o que perguntar. Daí, então, o Google e outros similares vão, eles mesmos, fazer as perguntas e também responder. Então não vai haver mais a gente e a máquina. Tudo vai ser uma imensa máquina. Mais um pouco, ela vai ser completamente independente e não vai mais precisar de nós. Nem nós dela, pois seremos um só. Um gigantesco computador.

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Sunday, March 1, 2015

Vão rir de nós no Futuro



Vão rir de nós no Futuro

Houve uma época em que os homens acreditaram que a Terra era plana, mas faz muito tempo. Que o sol, a lua, e as estrelas estavam presas num grande domo colocado sobre ela. Que, se chegássemos até as bordas desse imenso platô, despencaríamos num enorme e terrível abismo. Os intelectuais e sábios provavelmente nunca acreditaram nisso. Ridículo, dá até vontade de rir.
Agora sabemos que o Universo é um gigantesco, imensurável espaço, com galáxias, nebulosas, estrelas, planetas, jogando um jogo de atração, repulsão, movimento. Há teorias que dizem que há inúmeros outros universos como o nosso. Talvez outras dimensões. E vem a pergunta leiga: e depois disso, o nada? Mas o que é o nada? Um espaço vazio? Mas um espaço vazio é um espaço. Na verdade, nosso cérebro não está aparelhado para entender isto. Nem isto, nem o Infinito. O Universo vai durar para sempre? A gente finge que entende. Mas como fingir que entendemos que nunca começou? O que havia antes do início de tudo? Nada? Mas o nada também é alguma coisa. Os físicos teóricos têm suas fórmulas e estão tentando explicar tudo. Explicar, eles podem, mas entender, a maioria de nós nunca vai conseguir.

Um dia, entretanto, num futuro longínquo, vai haver um melhor entendimento do cosmos. E o que pensamos agora, vai se para eles, o mesmo enorme platô de muitos de nossos antepassados. E, então, eles também vão rir de nós. E com razão.


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