Friday, December 7, 2012

Brasileiro gosta de reclamar


Brasileiro gosta de reclamar

Vamos ser sinceros, brasileiro gosta de reclamar. Reclama de tudo. Dos preços, do time, do trânsito, e principalmente do governo. Este último está sempre roubando, cobrando muito imposto, sendo ineficiente, enfim, sempre decepcionando. Diria até que, simplesmente, "está sendo governo". Não estou afirmando que o povo não tenha razão, muito pelo contrário. A única observação que posso fazer, e desculpe a rima indesejada, é que a ação é inversamente proporcional à reclamação.  Quanto mais reclama, menos faz para eliminar o problema. Por outro lado, se serve de consolo, dê uma olhada  no resto do mundo. Árabes se matando e matando os outros. Com exceções, é claro. Países pequenos na África e outros países do mundo elegendo e outras vezes “engolindo” ditadores que, além de roubar, ainda maltratam a população... E o que dizer de nações localizadas em partes do globo onde todas as possíveis tragédias naturais acontecem? Será que eles reclamam como nós? Tempestades, furacões, tsunamis, terremotos, avalanches, enchentes,  etc...A favor dos reclamantes brasileiros devo dizer que há coisas que  podem ser evitadas e outras não. Eu sei que há pessoas pensando nos países da Europa e nos EUA. Não há nada para reclamar? Posso garantir que, pelo menos por aqui, nos EUA, há coisas bem esquisitas, das quais poderia se fazer uma boa reclamação. Ultimamente, por exemplo, um dos partidos claramente tem apoiado a isenção de impostos para os mais ricos. Até aí, você pode pensar, afinal de contas, são eles que fornecem o dinheiro para que esses políticos sejam eleitos. Poderiam reclamar disso, mas faz sentido  pelo menos.O problema é que uma grande parte da população, inclusive gente de renda bem baixa, eu diria metade, acha que é certo, é normal. Existem alguns argumentos, é claro. Se os ricos não pagam impostos, eles investem em negócios e criam mais empregos. O problema é que justamente nesse período em que tem havido essa redução de taxas é que aconteceu uma das maiores crises e a maior taxa de desemprego de toda a história americana. E que tal o fato de que instituições podem doar quantia ilimitada de dinheiro – ilimitada mesmo – para campanhas políticas sem precisar se identificar? Tudo dentro da lei, que aliás foi confirmada pela Suprema Corte? 
Eles têm ou não motivo para reclamar? E mais...Quanto aos políticos, existem umas “peças” raras. Devo confessar, não é a maioria, mas mais do que sufientes para formar um “zoológico”, sem querer ofender os pobres animaizinhos. Existe aquele deputado da Flórida que tem certeza de que os políticos do outro partido, o Democrata, são todos comunistas, de “carteirinha” e tudo. Alguém se esqueceu de avisar para ele que nem a Rússia é comunista mais hoje em dia. E o senador que disse que não deve ser autorizado aborto para mulheres que foram estupradas, pois o organismo delas por si mesmo têm a capacidade de “colocar tudo para fora”. E o outro então, que acha que nesse caso não deve ser autorizado aborto pois o “estupro foi vontade de Deus”... Eu poderia escrever um livro sobre as besteiras que se falam e fazem por aqui. Não sei não se o Stanislaw Ponte Preta não iria ficar com inveja. Quem sabe ele poderia por um adendo americano ao “Febeapá”.
Agora tenho de me render ao fato de que há alguns países onde quase tudo é perfeito. Não há pobreza, a corrupção é praticamente inexistente, poucas pessoas falam besteiras ( essa parte é difícil de se alcançar com eficiência em qualquer lugar). Mas não sei por quê, talvez seja pura coincidência, faz um frio desgraçado por lá: Suécia, Dinamarca, etc. E tem mais, não sei se é verdade, as pessoas ficam tão entendiadas – tudo tão perfeito - que ficam  bêbadas o tempo todo. Paciência, deve ser a balança cósmica. Além disso, em nosso caso, reclamar é bom, faz bem para a alma. Dá aquela sensação gostosa de que estamos fazendo algo bom para a sociedade. Mais ainda, podemos continuar a beber cerveja, fazer churrasco quando quisermos, ter feriados prolongadíssimos e outras coisas mais. Se você não gostar de nada disso, você ainda tem a religião para se consolar. Sem bebida, mas você pode escolher a crença que quiser. Compare com países onde você escolhe a crença “errada” e vai para o “céu”  na manhã seguinte ou até no mesmo dia. Claro que existem pessoas em nosso país numa situação tão difícil, que nada disso funciona. Acho que é por elas que deveríamos reclamar.

Estão vendo quantas possibilidades? Sem contar que o time da gente ainda pode ganhar o campeonato. O meu, por exemplo, está sempre ganhando. É  verdade que isso não é para todos, mas sempre existe a hipótese de você mudar de time. Nesse caso, você teria de mudar de cidade. Claro que fica chato virar  bandeira, ali na “cara dura” e permanecer no mesmo local...
Existe ainda uma última alternativa. Se você não gosta de feriado normal, feriado prolongado, praia, churrasco, futebol, cerveja, caipirinha, o direito de reclamar o tempo todo e ainda escolher a religião que quiser, você pode tentar conseguir um visto para um desses países quase perfeitos. Não vai reclamar por que não há nada para contestar. São pouquíssimos e o visto é muito difícil. Não custa tentar. Boa sorte! Só um pequeno detalhe: tome cuidado para não morrer congelado ou ficar bêbado, jogado na calçada! Uma última coisa da qual estava me esquecendo: eles não têm carnaval...

Thursday, December 6, 2012

O Homem da Casa


O Homem da Casa


Era um trio interessante: A Bete, a Maria e o Dinho. A Bete tinha um negócio, a Maria trabalhava numa firma de seguros e o Dinho tinha um negócio na Internet. A Bete estava o tempo todo procurando o amor de sua vida e a Maria também. O Dinho, eu não sei, só sei que ele era “gay”. A Bete de vez em quando achava alguém mas logo se decepcionava – na verdade ela não tinha muita sorte,  e acabava dispensando o namorado. A Maria também. Só que a Maria dispensava porque...bem, como vou dizer? A Maria gostava de variar.
Quase toda tarde, no verão, quando o sol se punha bem tarde, sentavam-se os três na calçada da rua em frente à “Cantina do Paraíso”. Naquele dia, passou um fulano, do outro lado da rua, todo bem vestido, jovem e firme em seu caminhar. Deu uma parada, olhou as vitrines, atravessou a rua e se dirigiu a eles. Para dizer a verdade, se dirigiu a elas. Perguntou sobre um endereço. As duas deram juntas a explicação, quase fizeram uma confusão, se atrapalharam. O cara era bonitão e ele sabia como “jogar um charme” em cima das meninas. Despediu-se, para desencanto delas, e partiu. Deu, porém, alguns passos e voltou. Estendeu um cartão para Bete, jogou mais um sorriso malandro e se foi. A Bete ficou em êxtase, a Maria com inveja e o Dinho muito desconfiado:
- Não sei não...
O cartão só tinha o nome dele e um número de telefone. O Dinho argumentou: “Quem dá um cartão desse tipo?” E falou de novo:
- Não sei não...
Fui tudo muito rápido. É lógico que a Bete ligou, se encontrou e se apaixonou. Logo depois ele já estava metido nos negócios dela, fazendo pedidos, tomando notas, recebendo, arrumando, organizando. Todos sabiam que havia algo estranho. Todos menos a Bete. A Maria, estava me esquecendo, se afastou, mordida com a “traição” da amiga. Dinho consolou a Bete, dizendo, isso é passageiro, ela vai voltar. A Bete estava triste com a amiga mas mesmo assim quis se certificar com o Dinho:
- O que é passageiro: o meu namorado ou a minha briga com a Maria?
-A briga com a Maria, é claro...(lá por dentro deu uma risadinha...)
A Bete ficou um pouco atrapalhada com os negócios da firma. Ah, sim era um bufê: fazia festas de casamento, recepções, coisas do gênero. Lá no fundo ela sabia que não era bom misturar negócios com amor, principalmente assim, sem conhecer bem uma pessoa.
Ainda estava em uma fase de paixão aguda, mas algo já a incomodava, lá no fundo. Até que um dia sumiu sua corrente de ouro. Ouro legítimo, linda, presente de seu pai...além de valer uma nota. Não podia ser seu namorado, impossível. Não era impossível, não. Lá no fundo, ela sabia que era ele.
Naquele dia, mais tarde, lá estavam Dinho e Bete conversando de novo na frente da cantina. Dinho logo percebeu que havia algo de errado com a amiga e ficou cutucando até que ela se abriu. Ele falou:
-Eu sabia...
-Como você sabia? O quê você sabia?
-Não, o que eu quero dizer, é que eu sabia que não ia dar certo.
Estavam ainda falando quando chegou o namorado que, sorridente, deu um beijo na Bete e ignorou o Dinho. Dinho era inteligente e auto-confiante e não se importou. A seguir Bete ficou perplexa com o que Dinho fez. Ele levantou-se, pegou o “namorado” dela pelo braço, levou-o para o outro lado da rua. Fez com autoridade, não houve reação. Bete viu então que Dinho falava e falava. A seguir, o namorado da Bete enfiou a mão no bolso e entregou algo para o Dinho, que voltou, não sem antes apontar o dedo em sinal de advertência para o outro, que se retirou. Sentou-se novamente. Pegou a mão da Bete e lá  depositou a corrente de ouro.
-Fique tranquila, ele vai embora e vai devolver tudo. Você sabe que ele estava pegando seu dinheiro, também, não sabia?
A Bete sabia. Sorriu sem graça e ao mesmo tempo aliviada.
-Meu Deus, como fui perder a minha amizade com a Maria por causa de um traste como esse...?
-Não, você não perdeu..
Mal acabara de falar, lá aparece a Maria e lhe dá um abraço:
-Oi, amiga!
E os três tiveram uma das tardes mais gostosas dos últimos tempos. Um amigo às vezes é melhor do que uma paixão...Dois amigos, então...
À noite, quando chegou em casa, a mala do fulano não estava mais lá. Em cima da mesa, um envelope com umas contas, um maço de dinheiro e um bilhete de desculpas.
Bete ficou pensando. O que será que o Dinho falou para ele? De qualquer jeito, funcionou. Era bom ter um amigo, de verdade, como o Dinho. É bom ter um homem de verdade como amigo... Ela morava sozinha mas mesmo assim, o  Dinho era o homem da casa... 

Wednesday, December 5, 2012

Larissa



Larissa
A tal da Larissa era a tal. Para ser sincero, ela era bonita mesmo, um espetáculo. Também era inteligente e esperta. Mais esperta do que inteligente , mas culta, não sei não...Acho que ela não teve muito tempo para ficar culta pois estava muito ocupada em ser...Larissa. Estava em todas, não porque era chamada ou gostasse, mas porque precisava. O que quero dizer é que ela precisava a todo momento provar que ela era a melhor. É importante dizer, e eu estava me esquecendo, que ela tinha também um “corpão”. Como as mulheres dizem, “homem é tonto”, e todos eles “babavam”, mesmo porque a cidade era muito pequena e não havia tanta concorrência assim. Dentre todos que a queriam, o que mais a queria era o Júnior. Acho que o Júnior faria qualquer coisa para namorar – naquela época o pessoal ainda namorava -  noivar e casar com ela. Ela sabia disso e sabia que havia uma lista. Ela tinha tanta certeza que conseguiria qualquer homem que quisesse, que achou que deveria tentar algo mais alto. E assim fez. Foi para a cidade grande, pois sabia que um grande futuro a esperava. Pelo menos no departamento de homens. Entretanto todos sabem que a cidade grande é um pouco diferente. Há muita tristeza e decepção por lá. As coisas não são o que parecem.
Eu poderia contar tudo o que aconteceu com a Larissa.  Todos os detalhes dos dois anos que ela passou lá. Mas foi tanta melancolia, dor, consternação, que  acho melhor pular esta parte. Se você está pensando “Por que ela não voltou?”, eu lhe digo o ser humano não gosta de aceitar derrota, de se humilhar.  Se não fosse assim, nos primeiros 15 dias ela já teria desistido. Não que a gente deva desistir de imediato de nossos ideais. O problema da Larissa é que ela estava lutando pela coisa errada. Se fosse uma luta boa, ela poderia lutar a vida toda, sempre vale a pena. Além disso quem disse que ela queria lutar? Ela só queria vencer. Vencer  sem esforço e logo de cara e ainda por cima por um objetivo que não era bem um objetivo. Demorou dois anos para se convencer de que era melhor se humilhar um pouco e retornar para o lugar onde ela era a rainha, a melhor.
E ela voltou e tinha planos. Como diz a música, “lavanta, sacode a poeira, dá a volta por cima”. Dessa vez ela tinha de acertar na primeira. Nada mais garantido que o Júnior. Todos sabem que esse tipo de paixão não vai embora fácil. Assim que chegou, consultou as pouquíssimas amigas que ainda tinha sobre o antigo admirador. Ficou então sabendo que o Júnior tinha se casado. Que absurdo, como ele poderia ter se casado com outra mulher? Bom, pensou ela, hoje em dia casamento não é nada, é só divorciar. Deu um jeito e se aproximou de Júnior no seu trabalho. Foi uma decepção total. O Júnior falou com ela só por educação – ele era um excelente rapaz – deixou claro que estava  feliz, muito feliz com seu casamento. Ficou claro que ele não queria nada com ela.
À noite, em casa, ela chorou. Não chorou por causa do Júnior, isso ela não faria. Olhou-se no espelho e, de repente, percebeu que ela não era mais a Larissa. Era uma mulher cansada, sofrida, envelhecida e sem brilho. Tinha tanta certeza de que era o máximo que se esqueceu de manter o brilho da vida.
Não havia nada para ela naquela cidadezinha e nada também na cidade grande. Entretanto ela voltou para lá, onde,  pelo menos,  ninguém iria notar a sua pequenez. Ficaria quieta em seu lugar e, quem sabe, conseguisse recuperar o brilho de seus olhos ao longo do tempo. Afinal agora ela sabia os segredos da grande metrópole. Em lugares pequenos a grandeza aparece com furor. Mas em lugares pequenos também a  mediocridade aparece com furor. Larissa aprendeu tudo isso a duras penas. Agora ela é apenas uma moça do interior lutando para vencer na vida na grande cidade!


Tuesday, December 4, 2012

Um Pouco de Dignidade


Um Pouco de Dignidade

O pequeno Diego adorava seu pai. Por isso o que estava acontecendo ultimamente  trazia uma grande tristeza para seu coração. O pai andava sombrio, acabrunhado. Havia perdido o emprego. A mãe dava a maior força. Não só ela aguentava as coisas no campo financeiro, pois ela ainda tinha um salário, mas também no campo psicológico. Ficava o tempo todo tentando consolar o chefe da família. Ele se sentia humilhado e preocupado vendo a esposa ter que trabalhar tanto. À noite eles conversavam bastante e Diego podia ouvir de seu quarto. Às vezes eles elevavam um pouco a voz mas era só porque um se preocupava muito com o outro. O garotinho entendia muito pouco do que eles falavam. Ainda assim, prestava muita atenção, queria ajudar. Um dia ouviu o pai falar que precisava de sua dignidade de volta. A esposa respondeu que ele era a pessoa mais digna que ela conhecia. Diego não entendeu quase nada da conversa, mas ficou claro para ele que a tal da dignidade era muito importante e era disso de que o pai precisava.
Não teve dúvidas. No dia seguinte, logo que sua mãe saiu para o emprego e seu pai saiu para procurar um, avisou para a empregada que iria brincar lá fora. A dona Eustáquia sabia que ele era um bom menino  e não havia problema nenhum em deixá-lo sair um pouco. Assim que saiu da vista da empregada, foi para a rua e começou a tocar as campainhas das casas Quando perguntavam o que ele queria, ele não hesitava nem um pouco:
-Meu pai anda triste e ele disse que precisa de um pouco de dignidade. O senhor pode ajudar?
Algumas pessoas riam, outras falavam qualquer coisa, outras balançavam a cabeça. Passou quase duas horas tentanto achar a tal de dignidade, e nada. Devia ser algo muito difícil ou raro, pois a maioria das pessoas nem sequer tentava ajudá-lo. Voltou para casa, desolado. Chegou a tempo. A dona Eustáquia ainda não havia percebido que ele não estava no quintal. À noite os pais voltaram. O pai continuava arrasado, o que significava, com certeza, que ele não havia encontrado a tal da dignidade. Diego fez um firme propósito de continuar a sua empreitada no dia seguinte.
Assim que a Eustáquia se distraiu, Diego recomeçou sua tarefa. Dessa vez resolveu tentar a rua de trás. Havia umas casas chiques por lá, quem sabe não seria mais fácil encontrar o que procurava.Tinha visitado seis casas e já estava cansado. Nunca pensou que pudesse existir algo tão difícil assim. Não era por menos que seu pai estava tão chateado. A tal da dignidade era realmente um negócio difícil de se achar. Na sétima casa, entretanto, ele teve uma surpresa. Nem precisou tocar a campainha. Aquele senhor de terno, que estava saindo para a rua, parou e ouviu-o com muita atenção. Foi o primeiro. Perguntou tudo. Como sabia que o pai precisava daquilo, o que ele havia escutado, etc. Diego sabia que não era certo ficar contando as coisas que aconteciam em casa, mas aquela era uma situação especial. Era um homem experiente e imediatamente entendeu o que estava acontecendo.No final da conversa, o senhor Armando perguntou para o garoto o que o pai fazia. Ele  respondeu que ele mexia com computadores. O respeitável senhor sorriu e disse que iria ver o que podia fazer, e logo a seguir perguntou onde o Diego morava. Afinal de contas, aquele dia não fora tão mau assim, havia alguma esperança. Aparentemente o senhor Armando entendia um pouco de dignidade.
Dia seguinte, logo cedo, o pai abriu a porta e ia saindo mais uma vez para procurar emprego. Logo a seguir, Diego ouviu vozes lá fora e espiou pela janela. Viu o senhor Armando falando com seu pai. Logo depois ele entrou no carro do senhor Armando.
À noite, a mãe já estava em casa quando o marido chegou todo feliz. Feliz não, exuberante. Deu um longo abraço na esposa e lhe contou as boas novas. Havia conseguido um emprego. Contou toda a história, como aquele homem de uma rua próxima ficou sabendo que ele era especialista em informática, que estava desempregado, etc. O Diego também ganhou um grande abraço.
O garoto nunca contou a história para os pais. Achou melhor não falar nada. Eles poderiam ficar preocupados pelo fato de ele sair por aí, procurando pela dignidade. Além disso, a dona Eustáquia poderia levar uma bronca por não prestar atenção no que ele estava fazendo. Também existia a possibilidade de alguém mais precisar de dignidade mais tarde e certamente iam ficar de olho nele. Ia ficar difícil sair pelas ruas...
À noite, antes de dormir, ele ouviu de seu quarto seus pais conversarem, animados, na sala. Parecia até que estavam fazendo planos. Pensou como devia ser mesmo importante a dignidade. Que bom, pensou, ainda bem que conseguiu achar uma para o papai...

Monday, December 3, 2012

O Incerto Destino da Nave CRA 2513-79


O Incerto Destino da Nave CRA 2513-79

Voltando

Agora estava chegando a hora da verdade.  A qualquer momento Dr. Lynn seria descoberto. Teria de admitir que havia reprogramado seu destino para Marte. Não sabia se haveria uma luta de palavras ou apenas uma luta cibernética tentanto reverter sua rota para a Terra ou talvez algo pior. Agora mais do que nunca, Dr. Lynn queria levar sua cidade voadora para o Planeta Vermelho”. O nome soava estranho, porque havia pouco vermelho por lá. Marte agora se parecia muito mais com a Terra de antigamente, era muito mais humano que nunca. Um verdadeiro céu para quem detestava a escravidão total para as máquinas, para a “Inteligência”, para a “Rede”. Dr. Lynn revisava em sua mente os 50 anos de viagem, o projeto, como tudo aquilo passara a ser o seu motivo de vida. Em muito pouco tempo saberia se poderia voltar a sentir felicidade genuína, não induzida por computador. Sentir de novo o que é ser humano…

CRA 2513-79: A BELA ADORMECIDA

Muitos séculos haviam se passado desde que o homem havia pisado na Lua pela primeira vez. Agora os terráqueos estavam espalhados não só pelo sistema solar mas também faziam parte da colonização de planetas distantes. Havia também o que era chamado de “planetas móveis”, enormes naves espaciais que ficavam viajando pelo espaço por tempo indeterminado. Elas acomodavam milhares e milhares de navegantes, verdadeiras cidades voadoras. Elas eram importantíssimas  não só por motivos práticos e logística espacial mas também por motivos científicos.
A raça humana estava irreconhecível  se pensarmos em termos de século 20 e 21. Não havia mais concepção no sentido que o termo tinha séculos antes. Todos os humanos eram feitos por computadores em laboratório, geneticamente já direcionados para a função que iriam exercer e o local para onde seriam enviados. Finalmente o “admirável mundo novo” de Aldous Huxley havia se concretizado. O caso da nave “Sleeping Beauty”, nome romântico dado para a estação móvel  “CRA 2513-79”, era porém ainda mais especial.  Havia sido lançada há 50 anos da Estação Lunar “LR 21VT” e tinha uma missão específica. Originalmente ela tinha apenas 97 navegadores, todos cientistas de diversas modalidades.  Nesses anos todos sua população tinha aumentado para 37.334 habitantes, o que na verdade havia sido também planejado. Era mais do que uma nave, era uma cidade ou um planeta navegando pelo espaço.
Marte
Marte, visto do espaço, era agora muito diferente dos primórdios da colonização do espaço. Havia verde e azul como na Terra e grandes conglomerados de construções:  na verdade, agora áreas habitadas pelos colonizadores. Por inúmeras décadas foi tentada a técnica da terraformação para se conseguir uma atmosfera semelhante à da Terra mas o resultado ficou no meio do caminho. Ainda assim foi possível a colonização. Uma parte dos humanos que vinham para Marte já estavam geneticamente preparados para resistir a essa atmosfera mais hostil. Ainda assim usavam nano-implantes como complemento para que seus corpos pudessem resistir a um  ambiente tão diferente como o do nosso planeta  irmão. Outros viviam em ambientes cobertos por abóbodas enormes,  feitas de material fino mas extremamente resistente. A nanotecnologia e a tecnologia de resistência de materiais haviam alcançado níveis de sofisticação que ninguém sequer jamais imaginou. Os terráqueos sem a configuracão genética necessária tinham de usar mais aparelhos para poderem sair das áreas fechadas e enfrentar a nova atmosfera do planeta. Os marcianos, como eram chamados os “bebês” criados em laboratórios na nova colônia da Terra só poderiam ser feitos a partir de material de adultos já geneticamente modificados. Ironicamente, o “admirável mundo novo” da nova colônia da Terra era aparentemente mais feliz e mais “humano”do que a própria civilização do Planeta Terra.
Na verdade, 57 anos depois que oficialmente habitantes e não exploradores definitivamente se instalaram em Marte, ela passou a ser uma ex-colônia. A partir do momento em que a inteligência artificial tomou conta de tudo, uma parte da comunidade científica começou a demonstrar forte preocupação com os rumos que isto poderia tomar. O Estado, agora na verdade a “Grande Confederação” , teria suas ações baseadas 100% por cento na decisão dos computadores quânticos, considerados perfeitos. Os dirigentes - o Grande Conselho - apenas corroborariam essas decisões e na verdade apenas as mais importantes. Milhões de pequenas e médias ordens seriam executadas automaticamente sem passar por qualquer escrutínio de seres humanos. Eram muito fortes na cabeça de todos as inúmeras barbaridades executadas por políticos e dirigentes nos séculos 20 e 21. A confiança nas decisões da inteligência artificial era quase unânime.Todos sabiam também que o próximo passo seria deixar que também as grandes decisões fossem executadas diretamente pela “Rede” sem necessidade de aprovação de qualquer ser humano. Aí residia um grande perigo segundo um segmento da comunidade científica. E se os computadores ficassem tão “humanos” que assimilassem também suas “megalomanias”?
Havia uma linha de cientistas que mais e mais queriam evitar esse poder  crescente das máquinas. O Grande Conselho começou a isolar os cientistas dessa linha de pensamento no planeta Marte. Foi uma espécie de exílio. E a grande ironia que isso foi decisão também dos computadores. Ironia maior ainda foi quando os mesmos computadores decidiram que era melhor não intervir quando os cientistas de Marte juntamente com sua administração decidiram se separar da Terra. Foi verdadeiramente uma grande ironia ou talvez a sofisticada rede de Inteligência tivesse planos mais sofisticados para o futuro. A verdade é que o Grande Conselho foi fiel a seus princípios e confirmou as decisões da Rede de Inteligência, permitindo a formação de um Conselho independente em Marte. De qualquer forma, não teria havido violência ou Guerra ou motim de uma parte ou de outra. Há muito tempo isto havia sido banido da nossa civilização. A Lua, outros planetas e os “planetas móveis” continuavam parte do sistema de colônias da Terra. Marte era uma espécie de reduto humanístico, talvez uma referência para a Terra, que em em sua marcha futurística,  poderia vir a perder todo contacto com o que é essencialmente humano. Você sempre poderia olhar para Marte e perceber que se pode mergulhar na ciência sem perder a humanidade.
O Projeto  “Bela Adormecida”
Durante o longo período de debate entre os “humanistas” e os “intelligents” – a celeuma durou décadas - um grupo de cientistas, apoiado pelo Grande Conselho, dedicou-se a um grande projeto chamado “Bela Adormecida”. O projeto tinha duas faces, uma para o público em geral e para os cientistas normais e uma outra, mais secreta, para os os cientistas magnos – as grandes inteligências do sistema - e o Grande Conselho. Era aceitável haver um lado secreto para projetos pelos mesmos motivos que os governos antigos tinham serviços secretos, serviços de inteligência, etc. No entanto ninguém imaginaria haver  motivação política na parte “não pública” do projeto mas apenas segredos científicos. O projeto “Bela Adormecida”  tinha como objetivo principal criar um grupo de pessoas com características genéticas desejáveis para o próximo milênio. Em outras palavras, fazer já, em cinquenta anos, o homem perfeito, o homem que normalmente só apareceria em mil anos se a ciência genética seguisse seu caminho normal, o que já era assustador. Para fazer isso o plano previa o isolamento de espécimes humanas de primeira linha, a seleção dos maiores cientistas – chamados “magnos”- do setor de genética, e a instalação do que havia de mais avançado em computação quântica numa grande nave, com capacidade para 40.000 pessoas: CRA 2513-79 ou a  BELA ADORMECIDA. Era uma mini terra que seria enviada para fora do sistema solar. Haveria um sistema de comunicação reduzido com a terra, mas o resto da nave teria vida própria e independente. Durante a viagem – projetada para 50 anos – 97 cientistas iriam aprimorando e selecionado espécimes humanos cada vez mais perfeitos, dentro de uma população geral de cerca de 40.000, projetada para o final da viagem. O grupo final a ser selecionado – projetado para 300 -  seriam os “super-homens” e deveriam ter a idade de 5 anos por volta da época em que o projeto fosse encerrado. Voltariam então para a Terra para a fase final do projeto. A partir daí forneceriam material genético para as futuras gerações, as gerações dos homens perfeitos. Havia muitos comentários entre os entendidos. Muitos acreditavam que o novo homem não teria sexo, afinal de contas, ninguém era mais concebido pelo sistema antigo. Essa nova espécie também não se comunicaria através da linguagem mas através de ondas elétricas emitidas por seus cérebros super especiais. Mas nada era positivo ou garantido. Havia uma sombra de mistério e segredos envolvendo tudo que se referia à gigantesca nave. Além dos motivos técnicos, havia um de ordem política para esse projeto ser feito em um local distante da Terra: ficar livre de influências de qualquer tipo. Tinha de ser um projeto  puro.
Dr.Lynn: uma ironia
Dr Lynn era uma verdadeira lenda no meio científico. Além de saber usar com maestria os benefícios da inteligência artificial no seu ramo, era também muito intuitivo, aliás a única forma de um ser humano chegar a competir com os computadores. Havia um boato de que ele era humanista o que não seria muito bom politicamente, mas ele nunca admitiu isto, nunca deu declaração pública a respeito. For por isso que a notícia de que ele seria o chefe da missão, pareceu um pouco estranho no seu meio. No entanto lá estava ele, coordenando todo o projeto, inclusive a construção da fantástica e gigantesca nave na órbita da Lua. Inúmeros  cargueiros espaciais viajavam todos os dias da Terra para a órbita lunar para levar material geral  e genético e na parte final do projeto, equipamentos sofisticadíssimos de inteligência artificial. Alguns deles nunca tinham sido usados ou experimentados antes, mesmo porque só funcionavam bem em velocidades próximas da luz.
Foi ideia do Dr. Lynn – e bem aceita pelos responsáveis do projeto – fazer um grupo de controle. Esse seria formado por um grupo 300 pessoas normais, ou pelo menos que não usariam técnicas especiais de aprimoramente genético para servir de contraparte para os “grupo de 300” super-homens. Seriam “concebidos” durante a viagem também. A ideia era ter pessoas normais evoluindo paralelamente. No caso de as coisas darem errado, pelo menos haveria uma referência.
Mesmo para uma ética extremamente mais tolerante – geneticamente falando – do que a da era pré-colonização, o projeto era ousado. Esses  novos seres ao atingirem 5 anos de idade já estariam no completo domínio de suas faculdades mentais. Estariam livres do resto que sobrara de influências sentimentais, morais ou qualquer coisa que impedisse o homem do futuro de atingir o ápice da raça humana. Sexo, ambição e fome ficariam sublimadas de alguma forma neste novo cérebro criado pela inteligência artificial, embora fosse “humano”.
A civilização humana estava bastante adiantada também em termos de convívio social, respeito às regras, etc. Não havia mais guerra, revoluções, insatisfação, terrorismo ou qualquer coisa do gênero.  Por isso era preocupante que naquele momento se instalava uma grande conspiração dentro desta inédita fase de nossa evolução. O verdadeiro segredo da missão, quase ninguém sabia, era que, na verdade, os “super-homens” resultantes da viagem da “Bela Adormecida” não seriam usados como um banco genético para o futuro da humanidade como estava sendo propagado, mas sim, assustadoramente, para serem uma espécie de complemento para as máquinas que constituiam a “Rede”, ou o fantástico hardware base da “Inteligência Artificial”. Os corpos deveriam ficar em estado de hibernação e seus cérebros seriam conectados à rede. Este seria o requinte final para a inteligência artificial: o toque humano que faltava. Daí a necessidade de um “super-homem compatível com a fantástica sofisticação daquelas máquinas.”, Em cinquenta anos seria possível criar uma atmosfera em que isso ficasse viável ou até aceitável ou necessário diante dos olhos da população regular. Era o que esperavam. A nave voltaria para a Terra com a nova geração dos 300. O plano para os outros milhares que também iriam “nascer” na nave era colocá-los de volta em outras viagens. Eles não estranhariam pois era o que eles sempre tinham experimentado: viver em uma nave. Até a volta da Bela Adormecida o movimento “humanista” provavelmente teria arrefecido. Os articuladores do projeto achavam que ao nomear Dr Lynn para chefiar a missão, estavam conseguindo uma espécie de salvo-conduto para suas experiências. Ninguém suspeitaria de que havia algo escuso por trás de tudo. Ficaram por um lado aliviados e por outro admirados quando o proeminente cientista aceitou o cargo. O que eles não sabiam, entretanto, era que Dr. Lynn tinha bem claro em sua cabeça que aquilo seria feito com ou sem ele. Melhor com ele, pensou. Além disso, quando ele sugeriu o “grupo de controle” ele tinha algo diferente em mente.
A Viagem
Dr Lynn contava com a vantagem de não ter que enviar mensagens constantes para a Terra. Afinal nem eles queriam. Não seria uma boa ideia pessoas alheias à verdadeira finalidade do objeto terem acesso aos desenvolvimentos que estavam ocorrendo na “Bela Adormecida”. Quanto menos informação, melhor. Verdade é também que os computadores tinham a programação e saberiam se o desenvolvimento do projeto em termos científicos estava se desviando do objetivo. Dr. Lynn sabia como encaminhar suas pesquisas de modo a satisfazer à “inteligência”. Além disso havia muitos entre os 97 que compartilhavam secretamente com as ideias humanistas do Dr. Lynn e nos anos seguintes, com calma e cuidado, outros mais, muitos, foram convencidos. No entanto, a espinha dorsal do projeto tinha de ser mantida.
Centenas de “novas vidas” já com as instruções genéticas de aprimoramento eram feitas a cada mês. Os “bebês” passavam por sofisticados estágios de aprimoração. De cada  grupo de 1000 novos seres, apenas alguns eram retirados para prosseguirem no projeto. Seriam crianças de 5 a 10 anos superdotadas apenas.  Os outros passavam a fazer parte da população regular da nave, cada um executando suas tarefas. Para o projeto eram praticamente peças rejeitadas. Não para o Dr. Lynn, que criou em volta delas uma verdadeira comunidade do espaço. Uma espécie de grupo privilegiado, que compartilhava antigas visões “humanísticas” da sociedade.
Havia um pequeno “Conselho” formado pelos principais cientistas da Bela Adormecida”. Faziam reuniões periódicas sem a presença da “Inteligência”. Essa havia sido uma das exigências de Dr. Lynn para aceitar a empreitada. Ele havia convencido a comissão especial de que isso era fundamental numa viagem com quase total isolamento da Terra. Poderia haver emergências que nem mesmo os melhores computadores poderiam prever. Eles precisariam de margens de manobra para situações especiais. Tudo isso era mesmo verdade e Dr. Lynn sabia que ele não poderia passar 50 anos “driblando” a “Inteligência” mesmo como estava na nave, desligada da “Rede”. Havia salas especiais onde esses encontros se realizavam completamente desconectadas do resto da Bela Adormecida. Ali se falava abertamente das digressões propositadamente aplicadas ao programa. Não havia segredo. Quanto aos novos habitantes “nascidos” na nave não havia nenhum problema, eles estavam sutilmente sendo “educados” como cidadãos” da Bela Adormecida. Fora fácil “convencer” os computadores da nave que essa seria a melhor forma de passar aquelas décadas iniciais.
A menina “Gênesis”
 Uma grande novidade era que os novos habitantes podiam procriar como nos velhos tempos. Começou com um acidente. Aconteceu. É verdade que não teria acontecido se Dr.  Lynn seguisse estritamente o programa genético que havia sido traçado. Fizeram o parto e tudo. Deram o nome de “Gênesis” para a menina que havia nascido. Foi uma comoção que ninguém ali, nem mesmo quando estavam na Terra, jamais havia sentido. No follow-up para os computadores foi justificado como uma necessidade de manutenção de certos elementos “naturais” e que isto fazia parte das atividades do grupo de controle. A “Inteligência” aceitou, não enviou sinal de alarme para a Terra e Dr. Lynn, a partir dali, multiplicou as experiências, deixando praticamente livre a geração de bebês de forma natural. Isto não acontecia mais nem na Terra, a não ser em áreas especiais que eram conservadas para estudos e ponto de referência para a antiga humanidade. Quando a Bela Adormecida fez 42 anos praticamente 50% da população era de bebês naturais, uma estatística que deixaria o Grande Conselho estarrecida. Dr Lynn, Dr. Sat, Dra. Martha e outros membros mais “humanistas” da direção da nave mal podiam esconder o entusiasmo e a alegria com aquele renascer do “humanismo” em pleno espaço. Verdade era também que essa nova “raça”,  ainda assim era bem diferente do homem de séculos atrás, mas muito mais humana do que a atual raça da Terra e certa e felizmente menos “tech” do que a do futuro imediato.
Durante a viagem, usando do privilégio do isolamento, e o próprio fato de que  “tinham todo o tempo do mundo”, os cientistas mais ligados ao campo de inteligência artificial, foram, ao longo dos anos, deliberadamente inserindo elementos nos computadores centrais que relaxavam o controle da máquina sobre o homem. A essa altura, a “Inteligência” da Bela Adormecida tinha diferenças razoáveis com a da Terra. Isto era a um tempo uma garantia de que eles estariam seguros contra uma possível emissão de sinal de alarme, mas ao mesmo tempo uma preocupação enorme para quando a Bela Adormecida começasse, a cinco anos da volta para a Terra, os procedimentos de reintegração dela com a “Rede” da Terra. O pequeno “Conselho” da Nave discutia e deliberava quase todos os dias sobre o assunto em suas sessões isoladas.
Faltavam agora apenas dois meses para a contagem dos 5 anos finais, quando a Bela Adormecida, começaria o processo de reintegração. No início seria apenas trasmissão de dados, informação, “acomodação” e “preparação” dos habitantes para a nova vida. A alguns meses da chegada, haveria a integração com a “Rede”. Na verdade, a Terra assumiria o controle da Bela Adormecida e a traria com “segurança” ao Planeta de origem, embora apenas os 97 cientistas iniciais pertencessem a Terra. Tudo o mais era original do “PPV” (pequeno planeta viajante) : nome genérico para esse tipo de nave que fica permanentemente no espaço.
Do ponto de vista do Grande Conselho da Terra e planetas, o projeto da Bela Adormecida, teria sido um fracasso, se eles soubessem o que havia acontecido lá. Par o Dr. Lynn e seu grupo, aquela nave era a salvação da humanidade contra o que eles chamavam subserviência total à “Inteligência”. Ironicamente os habitantes da nave eram, em seu conjunto, mais humanos do que qualquer um na Terra ou em Marte.


O LOG
O “Log” era um sistema de computadores que ficara “dormindo” durante toda a viagem e que somente seria ativado na sua parte  final. Ele tomaria conta da reintegração da nave no grande sistema da “Inteligência”da Terra. Ele tinha todas as informações necessárias, inclusive para preservar o privilegiado “grupo dos 300”. E essa era a grande preocupação do Dr. Lynn. Assim que o Log fosse ativado, imediatamente ele perceberia a ausência de dados sobre o grupo de “super-homens”e também perceberia uma série de anomalias no projeto e certamente tornaria a nave numa verdadeira prisão de segurança durante o processo final de volta ao nosso planeta.
Era necessário que se fizesse algo a respeito do Log. O sistema era muito bem protegido e não era fácil livrar-se dele principalmente se a intenção era fazer tudo parecer um acidente. Essa era a missão de Stelt, que era um verdadeiro mágico – o que certamente parece irônico – em relação a computadores. Dr. Lynn, muito amigo de Stelt, tinha confiança de que ele conseguiria resolver esse problema.
Um dia, durante as atividades de rotina, ouviu-se um alarme em toda a nave. E imediatamente percebeu-se que não era treinamento. Logo a notícia se espalhou. O Log havia sido sabotado e estava seriamente danificado. Stelt morrera no “acidente”. Dr. Lynn, extremamente sábio e conhecedor da personalidade de Stelt imediatamente entendeu o que ocorrera. O único jeito de destruir o Log sem ser classificado como sabotagem era perder a própria vida. Stelt se sacrificara pelo projeto do Dr. Lynn. O corpo dele estava completamente destruído, inclusive seu cérebro. Era impossível mesmo com os fantásticos computadores da nave descobrir como tudo ocorrera. Stelt, como sempre e até mesmo na hora de destruir um computador, fizera um trabalho perfeito. Os computadores normais da “Inteligência” teriam agora de fazer a reintegração com a Terra. Como essa não era sua missão inicial e sim a de Log, ele teriam de ser reprogramados pelo menos parcialmente pelo próprio Dr. Lynn.
Dr, Lynn tinha uma lista fictícia dos 300 super-homens. Na verdade uma fantasiosa lista de DNAs cuidadosamente elaborados.O Log não teria aceitado essa lista, pois ele seria conectado diretamente aos corpos dos 300 seres, que na verdade não existiam. Nos computadores normais, agora, era só os técnicos do Dr. Lynn inserirem os dados genéticos. A essa altura o grupo de controle da Terra já sabia do “acidente”. Aparentemente não estavam alarmados. A lista com os dados genéticos dos 300 era assombrosa e era isso que importava.
Faltava agora a parte final do projeto do Dr. Lynn: desviar o ponto final da viagem para Marte. Na Terra haveria julgamento, processos e tudo mais. Embora o projeto fosse secreto, eles arrumariam alguma forma de incriminar o Dr. Lynn e sua tripulação. Em Marte, ele seria recebido como um herói, ainda mais agora que o planeta  vermelho havia evoluído ainda mais para o lado humanista.
Dr. Eggart
O chefe da missão na Terra tinha sido nomeado recentemente e por coincidência era um antigo amigo do Dr.Lynn, embora não compatuasse com suas ideias. A nave já estava no sistema solar há algum tempo e a qualquer momento o Dr. Eggart perceberia que havia algo de errado. Os dados do computador da nave não eram exatamente perfeitos para quem queria vir para a Terra. Dr. Eggart comentou algo a respeito com o Dr. Lynn e esse disse que iria verificar. Pelas características especiais dessa nave, a mesma não poderia ser navegada da Terra sem o Log. A equipe do Dr. Lynn simulou uma série de emergências para não precisar “lidar” com o problema no momento. As desculpas eram aceitáveis, afinal de contas a Bela Adormecida havia viajado quase cinquenta anos e tivera seu computador de reintegração inutilizado.
Passaram-se mais dois meses e agora não havia mais desculpa. A Bela Adormecida estava, definitivamente, se dirigindo para Marte e não para a Terra. Ficou muito claro para o comando da Terra.
Numa conversa que tiveram, Dr. Lynn disse que esperava que seu amigo entendesse. Dr. Eggart respondeu que ele não poderia fazer nada e que o Grande Conselho, que já estava em reunião extraordinária, iria decidir o destino da CRA 2513-79. Comentara que, infelizmente, a destruição da mesma era uma opção bem provável. A essa altura Marte também já havia detectado a rota do Dr. Lynn e lhe dissera que os esperavam de braços abertos.
A Decisão
Dr. Lynn já podia ver a a luz de Marte de sua cabine diretamente, sem monitor. Sabia também que estava ao alcance de uma grande nave militar que poderia facilmente abatê-lo antes de ficar numa área de segurança, o grande cinturão de Marte, onde, por acordos anteriores a Terra não poderia interceptá-lo. Foram horas angustiantes mas mesmo assim Dr. Lynn conseguiu dormir um pouco. Não se conformava com o fato de que aquela nave, aquela cidade que amara tanto e que fora a razão de sua existência nos últimos 50 anos, poderia acabar ali, com um único míssel atômico, em questão de segundos.
Acordou com um sinal suave vindo do painel avisando que entrara no cinturão de segurança de Marte. Estavam salvos. Imediatamente os oficiais começaram a se reunir na sala principal da nave para comemorar.  Aparentemente, uma das maiores conquistas do novo ser humano – a opção pela paz e não-violência – era definitiva. Mesmo  em situações decisivas, a barbárie não mais fazia parte da cultura humana.

Mais tarde, Dr. Lynn conversava com Dr. Eggart sobre tudo o que ocorrera, ainda na nave. Dr. Eggart confessara que sabia das intenções do amigo desde o primeiro segundo que conversara com ele durante o processo de volta para o planeta. Enquanto falava, o grande comandante da Bela Adormecida olhava pela grande janela de sua cabine e podia, agora, bem melhor, ver os contornos de Marte. Os grandes conjuntos residenciais, as plantações com material da Terra e adaptadas ao novo ambiente...Naves circulando o planeta. Grandes linhas riscando a superfície: um incrível sistema de transportes. Um céu diferente da exuberante Terra, mas ainda assim, belo a sua maneira.
Ele não acreditava em céu ou inferno, era um cientista dos tempos ultra-modernos. No entanto, naquele momento, Marte era para ele e para todos da Bela Adormecida, o paraíso com que sonhara...

Saturday, December 1, 2012

O dono do cinema


O dono do cinema
Faz muito tempo. Com certeza eu tinha menos de dez anos. Estava lá na ponta do morro. Uma ladeira chocante despencava diante de nós e caía lá na praça. Era feita de paralelepípedos. Por falar nisso, nunca entendi porque deram um nome tão complicado para uma coisa tão simples: paralelepípedos. Especialmente porque quem tinha de falar, eram pessoas simples também. Mistérios linguísticos, paralelepípedos.  Pois bem, o senhor, cujo nome graças a Deus eu não me lembro,  estava preocupado. Eu sabia que ele era o dono do cinema, uma coisa muito importante. Naquela época, nada era mais importante dos que os filmes que a gente via aos domingos. Seu olhar se estendia até a praça. Do outro lado da praça estava a estrada de ferro, a gloriosa Santos a Jundiaí. O trem acabara de  apontar do lado direito. Ele deveria parar ali, na estação de Perus, e depois prosseguiria até São Paulo. Foi aí que o “fulano” – o dono do cinema - falou comigo e apontou uma mulher magra que começava a atravessar a praça em direção ao trem que se aproximava. Estendeu-me um envelope e disse que eu teria de alcançar a mulher e lhe entregar o envelope antes que ela pegasse o trem. Uma missão impossível, eu sabia, mas criança adora o impossível, especialmente se o prêmio for um ingresso para a matinê.


Não tive dúvidas. Voei morro abaixo. Os paralelepípedos desapareciam sob meus pés. O lógico era eu ter caído e rolado morro abaixo, mas, como você sabe, as crianças de então eram indestrutíveis. Eu não sabia que podia ser tão veloz. Ainda consegui, com a cara encostada na tela de arame da estação, chamar pela dona...cujo nome não me lembro também. Ela não ouviu e entrou no trem. Respirei fundo, decepcionado e triste,  juntei as minhas forças infantis e comecei a subir de volta o famoso Morro de São Jorge, ou a ladeira do Cartório. Era óbvio que não daria para eu alcançar a dona. Era uma missão impossível, como já falei. Eu esperava que o fulano – ainda bem que não me lembro de seu nome – iria entender o meu desvairado esforço e me dar o ingresso: afinal dei tudo de mim naquela empreitada. Para ele um ingresso não custava nada. Para mim era tudo. Para minha lógica infantil, aquilo era óbvio. Fazia sentido. E daí eu tive a minha maior decepção com um adulto até então. O fulano resmungou uns palavrões e me deixou ali sozinho na ponta do morro. Eu sabia que ele não devia fazer aquilo. Fiquei triste e chocado, mas aprendi uma coisa:  existem pessoas que, definitivamente, não têm coração. Por outro lado, aquilo me fortaleceu para a vida. E bem feito: mais tarde ele precisou vender o cinema. Isso mesmo, pessoas assim não merecem ter um cinema, lugar de sonhos, de fantasia...Imagina só, não combina...

Thursday, November 29, 2012

Consertando o destino


Consertando o destino

Marcos e Renato eram primos mas pareciam irmãos. Sempre que possível, faziam as coisas juntos. Agora os dois estavam indo um para cado lado em suas vidas e as chances de estarem juntos eram cada vez mais raras. Foi por isso que, quando coincidiu de os dois terem 20 dias livres na mesma época, a primeira coisa que lhes veio à mente foi fazer uma viagem juntos.
Prepararam tudo às pressas, colocaram o material  no carro do Marcos  e partiram. Tinham um esboço de viagem, não um plano propriamente dito. Embora fossem bem diferentes em suas personalidades, eles se davam tão bem que não havia muita necessidade de planejamento.
Depois de rodarem cerca de 110  quilômetros, eles teriam de fazer uma parada obrigatória. Ficariam lá no mínimo uma hora e meia. A tia Suzana, irmã da mãe de Marcos, não deixaria por menos. Embora ele gostasse muito da tia, chegou a pensar em passar reto para adiantar a viagem. Mas a mãe não deixou. Já tinha telefonado para a irmã Suzana e acertado tudo. Conformado com o atraso que ia ter, Marcos planejou assim mesmo dirigir mais quatro horas necessárias para se chegar no mesmo dia ao grande rio em cujas margens acampariam. No carro, escutavam as músicas que Renato escolhera, por enquanto. O gosto musical não era o mesmo, mas Marcos fizera uma concessão, como sempre. Depois de passar pela casa da tia Suzana, entrariam as suas seleções.
Fazia tempo que não passavam por aquela estrada. As coisas tinham mudado bastante, não reconheciam mais nada. Depois de uma hora de viagem, Renato anunciou que estava com fome, não tinha tomado café. Um posto de gasolina, novinho em folha, estava anunciado no outdoor. Pararam, Marcos resolveu cochilar uns quinze minutos enquanto Renato iria tomar o seu café. Sonhou. Sonhou que estava ali mesmo, com o Renato de volta, já saindo de novo para a estrada. Dia bonito de sol, uma propaganda de carro à direita. Na esquerda, uma grande propriedade vazia, depois uma grande construção. À direita, mais à frente, um homem de idade andando cabisbaixo. Tem um chapéu e olha para baixo. Na mão esquerda carrega um saco plástico marrom claro cheio de coisas. O carro acelera cada vez mais, mas não é ele que está acelerando. Tudo passa muito rápido, como num filme em velocidade. De repente o carro desacelera e um caminhão grande de combustível começa a ultrapassá-lo pela esquerda. Marcos olha para as placas, para uns dizeres – daqueles que os motoristas gostam de colocar na traseira do caminhão – e vê o desenho de uma sedutora bailarina seminua sorrindo. Daí o caminhão roda mais rápido e some na estrada. O carro de Marcos acelera e passa por uma grande churrascaria. Ganha mais velocidade ainda e então ele consegue ver de novo o caminhão, que fica cada vez mais perto. Agora Marcos está ainda mais próximo e o carro acelera ainda mais, agora para ultrapassar. Renato fala algo, Marcos olha e vê que ele mostra pavor em seu rosto. Marcos não está controlando o veículo. O caminhão, de repente, começa a sair da estrada, para o lado direito, descontrolado, parece que vai tombar. Num esforço desesperado para controlar o grande veículo, o motorista joga-o de volta para a estrada e avança para cima do carro deles. Marcos não vê mais a estrada. No seu parabrisa tudo que vê é o a cor prateada do aço inox do tanque do caminhão. Um barulho enorme, metal se retorcendo e nesses segundos, ou frações, Marcos sabe que a morte chegou. Ele não quer morrer, não é sua hora. Sempre acreditou na força do pensamento. Quer voltar no tempo, evitar o acidente. Ele realmente acredita que pode voltar o relógio.
Ele acorda com umas batidas na vidro. Renato tinha voltado, estava pronto.
-Nossa, Marcos, o que aconteceu? Você está assustado mesmo..
-Tive um sonho, um sonho besta...
-Ainda bem que estamos tirando estas férias. Você precisa relaxar...
Partiram. Marcos estava começando a se acalmar quando viu à sua direita a propaganda de carro, a mesma do sonho, e depois, à esquerda, um terreno vazio e uma grande construção. Que coincidência...mais ainda:  agora, à direita, o velho andando, cabisbaixo, com um saco plástico na mão...Marcos apavorou-se mas mesmo assim não quis dizer nada para o Renato, ele não acreditaria. Estava confuso, pensou, estava misturando o sonho com a realidade. Agora Renato estava falando algo. Tentou prestar atenção. Respondeu qualquer coisa. O carro estava normal, ele tinha controle. Fora tudo um pesadelo e agora ele estava trocando o que estava vendo pelo que sonhara ou vice-versa. Responde que sim para o Renato sem saber o que ele tinha perguntado. Ele tinha controle do carro, podia acelerar e diminuir a velocidade. O carro obedecia, estava tudo normal. Normal.
Marcos estava mais calmo agora. Foi para a pista da direita, resolveu ir bem devagar.
-Desse jeito nós vamos conseguir chegar amanhã bem cedinho...
Marcos demorou uma fração de segundo para captar a ironia do Renato. Deu uma risadinha e quando virou o rosto de volta, percebeu que um grande caminhão o ultrapassava, o caminhão de combustível. Dessa vez ele já tinha certeza do que iria ver. E viu. Os três últimos números da placa – 637 – a bailarina seminua sorrindo. O caminhão sumiu na estrada. Pensou em parar. Mas aquilo seria ridículo, não poderia estar acontecendo. Tentou se lembrar so sonho, dos fatos. Será que ele tinha sonhado mesmo? Será que sonhou outra coisa e agora estava pensando que o real era o sonho? Pensou em falar com o Renato mas ele estava cochilando. Ficou perdido em outros pensamentos, pensou na velha tia Arminda, irmã mais velha de sua mãe. Quando era viva tinha mania de falar no sobrenatural. Ela acreditava em um monte de coisas. Tinha o olhar distante. Boa mulher.


O cérebro de Marcos estava arrumando um jeito de distraí-lo da realidade, pois essa realidade era pertubadora. Durou pouco. Marcos percebeu que estava se aproximando novamente do grande caminhão.
Desta vez foi tudo mais rápido. Lembrou-se de que seu pensamento era poderoso, que ele poderia voltar no tempo. E desejou,com força. Voltar para um tempo onde isto não tinha acontecido. Voltar no tempo.
Marcos acordou assustado com as batidas de Renato em sua janela.
-Nossa, Marcos, o que aconteceu? Você está assustado mesmo..
-Tive um sonho, um sonho besta...
Saíram novamente. Desta vez, Marcos tinha certeza de tudo: outdoor, terreno vazio, construção e o homem andando na beira da estrada.Tinha certeza de que iria acontecer tudo de novo, absolutamente igual. Estava com tanta certeza que conseguiu falar com o Renato sem se apavorar:
- Renato, parece que já vi esse homem da estrada, antes...
-Sabe de uma coisa. Eu senti a mesma coisa. Talvez a gente tenha visto uma cena semelhante em alguma viagem anterior. Como é mesmo que se fala, dejavu?
-Bom, daí tem de ser muito tempo. Pois a última viagem juntos foi há anos.
Marcos já sabia: o caminhão, o acidente, aquele desejo forte de voltar no tempo.
Marcos acordou assustado com as batidas de Renato em sua janela.
-Nossa, Marcos, o que aconteceu? Você está assustado mesmo..
-Tive um sonho, um sonho besta...
Desta vez Marcos tinha certeza de que tudo tinha acontecido muitas e muitas vezes. Inúmeras vezes. Pensou. Estava preso no tempo. Por sua própria vontade. Por necessidade, não queria morrer.Tudo era absurdamente real.
Pensou, pensou enquanto se preparava para enfrentar o acidente pela...Quantas vezes? Perdera a conta. Precisava voltar mais no tempo. Uma semana, no mínimo. Sim, precisava voltar para a época anterior à  decisão sobre a viagem, precisava de mais tempo. Ficou se lembrando do jantar com Renato quando combinou a viagem. Lembrou-se do vinho que estava tomando. Renato estava tomando cerveja. O caminhão estava ficando mais perto, Marcos ficou se lembrando do jantar.
-Renato, então você vai de cerveja? Está vendo como sou mais fino do que você? Eu só tomo vinho.

-Sem essa, eu me lembro muito bem da última viagem que fizemos. Você deve ter desequilibrado o estoque de cerveja da região. Eu sei, agora você está namorando a Dra. Sales, mulher fina. Sabe como é o amor...A gente muda os hábitos. Eu entendo, Marcos, eu entendo. Eu um dia também vou encontrar uma mulher com essa finesse...Daí nós vamos ter de escolher só vinhos finos. Eu vou te ajudar, eu sou bom de vinhos, embora não pareça.
-Eu sei, você aprendeu com seu pai. Por falar nisso, como está ele, o “seu” Tomás?
-Está viajando. Ainda bem, depois de muito tempo que minha mãe faleceu, como você sabe, nós o convencemos a viajar em uma excursão. Ele nunca mais tinha saído para uma viagem longa e ele precisava...Por falar nisso, bem que nós poderíamos sair e acampar, nós temos quase vinte dias pela frente. Faz um tempão que a gente não sai!
Por algum motivo, pela cabeça de Marcos, passou a cena de um acidente, um caminhão de combustível, um grande incêndio. Viu seu corpo jogado na estrada e o Renato preso nas ferragens do carro, agonizando. As cenas, em seu cérebro, eram brutalmente reais.Viu detalhes, eram eles mesmos, os dois, mortos.
-Renato, dessa vez você vai me perdoar. Eu prometi para a Sales que faria uma pequena viagem com ela. É nossa primeira chance. Você é meu amigo, eu sei que você entende.
Marcos nunca havia mentido para seu amigo. Mas ele estava aliviado com o que fizera. De uma maneira misteriosa,  ele tinha certeza absoluta de que acabara de mudar o próprio destino e o do Renato.
-Caramba, Marcos, nós podemos fazer isso noutra data, no futuro. Claro, vai passear com a Sales,  o que  eu mais quero é que vocês se divirtam e sejam felizes.
Fizeram um brinde. O copo de vinho e o de cerveja tilintaram . Era um brinde à vida.