Friday, January 31, 2014

Uma longa e interminável novela

Uma longa e interminável novela



O Cássio, não sei se é político ou não, disse que está “passando por vilão”.  Estou sem contexto, não sei se é verdade, se é justo ou certo, mas está lá nas notícias. Estão falando de um tal de paredão, espero que os tempos de revoluções sangrentas tenham passado. Paz e amor, por favor. Parece também que um avião foi desviado para Lisboa. Não desviam mais aviões para Cuba? Não estou entendendo. Parece que incendiaram um fusca e a Mariah foi encontrada morta. Assassinato? Crime? Será que estou misturando as notícias? Parece que vão dar um jeito para a Portuguesa, com certeza. Ou vão dar um jeito “na” Portuguesa? Estou certo de que esta história não tem nada a ver com o avião de Lisboa – embora ambas, de certa forma, estejam relacionadas com a mãe lusitana -  e nem com aquela do piloto que pousou no aeroporto errado nos Estados Unidos. Na nossa pátria amada, querida, cheia de encantos mil, não se pousam aviões, assim, em qualquer lugar. Onde se viu?
Eu confesso, às vezes fico confuso. Tanta notícia esquisita e, por cima, eles ainda misturam tudo na mesma página: política, novela, reality show, esportes e até justiça. Esportiva, criminal ou comum? Ou é só mais uma injustiça?  É só a gente ficar um pouco fora do país que não consegue entender mais nada.

Ou será que é assim mesmo? Tudo não passa de uma grande, longa, interminável e repetitiva novela?

Thursday, January 30, 2014

Boa vizinhança

Boa vizinhança



O sr. Williams gostava de morar ali. Viúvo e aposentado, já com uma certa idade, não queria saber de confusão, de barulho, de gente tocando a campainha. Seus vizinhos, então, eram perfeitos. O casal Carter não poderia ser melhor. O marido saía só de vez em quando, fazia alguma coisa na frente da casa e entrava de novo. Se visse o Williams, falava um “Hi”, um bom dia, uma boa tarde. A sra. Williams, saía menos ainda. Como o marido, sempre sorria e cumprimentava. Eram, ao todo, três cabeças brancas, cumprindo a última etapa da vida, sem maiores compromissos. Não queriam aborrecimento de ninguém e não queriam aborrecer ninguém. Perfeito para o sr. Williams: cada um cuidando da sua própria vida.
Houve uma época, porém, em que a sra. Carter era pouco vista. Certamente não estava se sentindo bem e evitava sair. Umas duas vezes o Williams chegou a ver uma cabecinha branca de mulher entrando de volta na casa. Mas não poderia garantir se era ela. Estava um pouco diferente. Podia ser uma irmã, uma parenta. Talvez, um dia, pudesse perguntar ao sr. Carter, mas tinha medo de incomodar. Por outro lado também temia que ele começasse a conversar muito e a coisa pudesse evoluir. Queria sossego e deixou um tempo passar.
Um dia, ao voltar de uma de suas andanças – precisava não enferrujar – viu que seu vizinho Carter estava descarregando uns móveis. Talvez estivesse cansado dos velhos. Foi tudo muito rápido e o caminhão partiu. Nos dias seguintes, o sr. Carter continuou cumprimentando-o como sempre. Parecia,  no entanto, mais jovial, mais alegre. Talvez agora fosse uma época boa  para perguntar sobre a  sra. Carter. De passagem, é claro, sem prolongar o diálogo. Ele e seu vizinho tinham mais o que fazer. Talvez pudesse aproveitar e perguntar quais eram seus primeiros nomes. Afinal de contas moravam perto há anos e só sabia seu sobrenome.
Não precisou. Num dia bonito de sol, enquanto preparava-se para sua caminhada matinal, o sr. Williams  ouviu a campainha tocar. Que ousadia, quem se atrevia a atrapalhar a sua rotina? Abriu a porta com cara de poucos amigos e lá estava o sorridente Carter com um envelope na mão. O carteiro, por engano, havia deixado a correspondência em sua casa e ele estava devolvendo. Muito obrigado. O senhor é muito gentil. Sempre estou para perguntar, qual é mesmo seu primeiro nome? Jeff, Mark, Bob, Tom? Assim foi a conversa. Tinha de ser prático, eficiente e , principalmente, rápido. Afinal depois de tantos anos...
Foi aí que o Carter retrucou que não, só estava ali há algumas semanas. Seu irmão gêmeo,  o outro Carter, havia falecido, ele não sabia? Ele não era o Carter que ele pensava.Como poderia, eles eram idênticos! A casa estava vazia e ele morava lá para o Norte – um frio desgraçado – resolvera se mudar e ocupar a casa fraterna. Antes que ele perguntasse, o Carter irmão explicou que a sra. Carter – cunhada - havia falecido também, há uns três anos, e foi uma questão de tempo, o marido também ir para outro lado. Não é assim que sempre acontece, homem viúvo não dura muito tempo?
Foi um vexame não saber o que estava acontecendo com os vizinhos nos últimos três anos. Mas o sr. Williams não ficou envergonhado. A sra. Carter morreu, o sr. Carter mudou para o outro lado da existência também, e o irmão Carter, outro Carter, mudou-se para um lugar mais quente. Foi isso que aconteceu, como ele poderia adivinhar? Que  lugar agitado, quem aguenta um movimento desses? Tudo isso acontecendo ali, bem ao lado, e o sr. Williams não sabia de nada. Para ele, sempre estiveram ali o sr. e a sra. Carter, sorridentes, cabelos alvos, bom dia, boa tarde, vou bem, obrigado.

Ainda bem que o sr. Williams não percebeu. Se tivesse, a rotina dos seus últimos três anos estaria completamente arruinada. Vizinhança boa, essa, não é o que o sr. Williams sempre fala?

Tuesday, January 28, 2014

Anoitecer: pena de nós

Anoitecer: pena de nós



Quando anoitece, nossas almas começam a se recolher. Refletem sobre o dia que passou, sobre a noite que vem. Cansadas da labuta, esperam o descanso. Temem, porém, os pesadelos que podem vir. Temem as sombras. Esperança misturada com receio, um pequeno paradoxo.
É o ciclo da existência, esse ir e vir, essa eterna disputa entre a necessidade da luta e a ansiedade pela paz. A alma guerreira querendo descansar. O soldado com medo de baixar a guarda na solitude e na escuridão da noite.
A transição é lenta. Conforme as luzes vão se esvaindo, porém, o espírito vai se aquietando. É hora de se acomodar, de meditar. Sombras e luz, paz e guerra, trabalho e descanso, eternas dicotomias do homem.

Mas, na verdade, mesmo, desconfio que o anoitecer é simplesmente quando  sentimos pena de nós mesmos...

Monday, January 27, 2014

Um sorriso

Um sorriso

Parece tão simples, um sorriso. Certamente indica felicidade, comoção, cumplicidade. No entanto, caro leitor, é muito mais que isso, ou pelo menos pode ser. Num sorriso podem estar escondidos mistérios e maravilhas sequer imaginadas.
Há uma multitude de pequenos sinais, de movimentação de músculos. Há a graduação de intensidade de abertura dos lábios. Há o acompanhamento do olhar, combinado com o que a boca quer dizer. Pode haver histórias, escondidas ou não, no sorrir. Às vezes, pode-se ver o que o outro está pensando quando se sorri. Até a alma, às vezes, pode-se ver. Pode haver compreensão misturada com alegria, cumplicidade com alívio, exultação com realização, comprometimento com felicidade. Há, ainda outras infinitas combinações.
O sorriso é a coisa mais linda que existe entre as expressões do ser humano e, é claro, exclusividade nossa. Pode mudar nosso momento, nosso dia e, em alguns casos, toda uma vida. Joia rara, preciosa, e para a qual não se pode dar um preço.

Infelizmente existem também os sorrisos maliciosos, os malvados, e o pior de todos, o falso. Desses todos, porém, não quero falar. Não no dia de hoje, pois hoje é dia do sorriso, acabei de inventar...

Thursday, January 23, 2014

Arrastão, rolezinho e BBB

Arrastão, rolezinho e BBB



Não quero ser saudosista, mas naquela época, nos anos 60, “Arrastão” era apenas uma composição espetacular de Edu Lobo e Vinícius de Moraes. Claro, era também um tipo de pesca. So décadas depois foi acrescentado o sentido figurado de “grupo de pessoas que passa por um lugar levando carteiras, dinheiro, joias dos incrédulos frequentadores do mesmo”.
Tenho alguns alunos americanos que estão aprendendo Português, agora que nosso país está tendo um “boom” econômico e que vamos ter a Copa do Mundo e as Olimpíadas. Sempre lhes recomendo ler os jornais brasileiros na Internet para depois discutirmos o assunto. Todo mundo sabe que é importante para quem aprende uma língua, também conhecer sua cultura. Obviamente eles se depararam com a palavra “arrastão” e, infelizmente não foi a gravação majestosa que a Elis Regina fez naquela época. Expliquei para eles, com detalhes, o que era o “arrastão” de hoje em dia. Claro que eles entenderam. Entenderam mas não compreenderam. Ficaram com aquele olhar vago, distante, como quem pergunta “Existe mesmo?”, “É isso mesmo que eu ouvi?”.
Agora, eu mesmo estou tentando entender o que significa “rolezinho”.  Acho que quase entendi, mas faltam alguns detalhes. Espero que, quando eles me perguntarem, eu possa fazer uma pequena dissertação. Essa língua continua sempre evoluindo, não é mesmo? Tempos modernos...
Outro termo que já existe há algum tempo é o tal de “BBB”. Esse eu nunca tentei entender, mas foi de propósito, acho que, bem lá no fundo, não quero saber. Não é crítica à cultura brasileira, não. Afinal de contas esse país daqui – o do Norte - é o rei dos “reality shows”. Essa resistência de entrar no fundo do significado do tal de “BBB” é uma idiossincrasia, não consigo...Se quisesse, era só ir online e tudo ficaria esclarecido.
Existe o outro lado da moeda. Quando pergunto para os americanos o porquê desse amor incondicional por armas pesadas e seu vínculo com aqueles “shootings” insensatos, eles me explicam que está na Constituição Americana. É o direito inalienável de portar armas, argumentam eles. Mesmo você insistindo que são essas mesmas armas que matam crianças e outros inocentes, eles explicam que... Não importa, como eles, em relação a nós, eu entendo, mas não compreendo. Devo ficar com aquele mesmo olhar vago de alguém que vive em outro mundo.

E assim são as coisas. Nenhum país é perfeito. Ou ainda, como se diz por aí, cada país tem a diversão que merece...

Wednesday, January 22, 2014

As brigas do vovô e da vovó


As brigas do vovô e da vovó

Ele ficava sentado, ali ao lado dela, enquanto ela fazia tricô. Falavam sobre coisas banais ao mesmo tempo em que ele, ali, da varanda,  olhava a paisagem. Em certo momento, ele arriscava:
- Você vai ficar tricotando o dia inteiro?
O toque de irritação era quase imperceptível. Aliás, não para ela, que o conhecia há muitos e muitos anos. Delicadamente, quase com suavidade, ela respondia:
- Vou sim, meu amor! Você acha que eu posso?
Diante da sutil ironia, ele se levantava  e ia até o quarto. Mexia em algumas coisas, aqui e ali. Depois caminhava até a cozinha e bebia um copo de água. Voltava, então, para a varanda. Sentava-se e passava as mãos nos cabelos brancos da esposa. Daí, falava:
-Está tudo bem, meu amor?
Com muito carinho, ela respondia:
-Está, sim, querido, está tudo melhor agora.
Daí, eles conversavam novamente sobre coisas distantes, sobre os netos, sobre tudo. Riso, silêncio, riso de novo...
Assim eram as brigas do Emílio e da Maria, o vovô e a vovó...


Monday, January 20, 2014

Uma bandeira, em um certo lugar

Uma bandeira, em um certo lugar

Vi na TV a equipe de reportagem insinuando-se entre os arbustos até chegar a uma clareira. Lá estavam  quatro ou cinco pessoas, mal vestidas, tentando se proteger do terrível frio que está assolando algumas áreas dos Estados Unidos. Rostos sofridos, visivelmente abatidos com as intempéries. A repórter explica que são veteranos de guerra: Iraque, Afeganistão e até Vietnã. No fundo, uma barraca, que, certamente não os protege das baixíssimas temperaturas. Numa árvore, pendurados, utensílios de cozinha; frigideiras, panelas. Um velho  retrovisor de carro está amarrado a um dos galhos e serve como espelho.
Provavelmente a guerra que eles lutaram não foi justa. Eles, entretando, nada decidiram, não foi sua escolha. Tiveram que ir, eram soldados, arriscaram suas vidas por uma nação, independentemente das razões absurdas que os dirigentes usaram para lançar o conflito. Se são heróis, como estão, assim, abandonados, quase como mendigos, com risco de morte, por causa do frio? É difícil entender.

Alguém  resolveu socorrê-los, dar-lhes abrigo. O repórter fotográfico mostra aqueles veteranos entrando, com dificuldade, no veículo que veio buscá-los. E a imagem do lugar começa a ficar para trás. Entretanto, antes de sair, focaliza a bandeira americana, surrada, pendurada de um dos arbustos. Orgulho? Patriotismo? Talvez devêssemos aprender algumas coisas com eles? Não sei. Aquele símbolo, naquelas circunstâncias e principalmente apesar delas, definitivamente me chocou e me emocionou...