Sunday, March 15, 2015

Ainda uma vez, o fim do mundo


Ainda uma vez, o fim do mundo

E naquele dia esperado, pasmem, o mundo acabou mesmo! Foi uma catástrofe. Ou como se dizia, parecia o fim do mundo! Vieram raios do céu, avalanches, terremotos, tsunamis, peste e tudo que você pode imaginar! Até a Internet fechou. Não havia comunicação de nenhum tipo: nem televisão, nem rádio, nem telefone e o pior de tudo, não havia nem Facebook para a gente saber como e onde andavam os amigos e todas as pessoas  que a gente ama. Antes de a eletricidade e a eletrônica pararem de funcionar, os hackers invadiram tudo, acabaram com as contas bancárias, destruíram todos os dados financeiros e econômicos que havia no mundo, tudo, tudo. E alguns segundos antes de tudo sair do ar, ainda soltaram todas as bombas atômicas possíveis, para todos os lados e para todas as direções. Os únicos que não soltaram nada foram o Irã e a Coréia do Norte porque estavam numa outra rede que foi destruída antes de os outros serem destruídos. Houve peste, guerra biológica, tudo que você pode imaginar. Besteira, eles não conseguiram fazer nada pois a morte chegou antes  do vírus global – genetica, artificialmente concebido – conseguir fazer tudo desaparecer...
Tudo? Não...Sobraram algumas coisas. As pessoas boas e sem malícia ficaram para semente. Todos meus amigos se salvaram também. Outros que não meus amigos, mas que poderiam ser, também sobraram. Alguns líderes também se salvaram. Políticos, alguns poucos.  Claro, os bons. Enfim, foi  um fim de mundo seletivo. Restaram as pessoas de boa vontade. 
Sobraram poucos lugares habitáveis mas isso não era um problema porque agora havia pouca gente para habitar.  Entre os lugares que foram preservados, havia algumas praias do Brasil. Por alguma razão, todos que  sobraram, resolveram ir para lá.  A notícia se espalhou de boca em boca. Agora, sem o Face e sem a Internet, as pessoas tinham de caminhar, ir até a casa do amigo, conversar e avisar que haveria uma grande reunião junto ao mar. Era o Ano Novo, só com gente boa, todo mundo sem dinheiro no bolso mas com uma vontade danada de abraçar, de bater papo e cantar...Não sei como conseguiram algumas garrafas de champanhe, pinga para a caipirinha e até limão. Acendemos fogueiras, fizemos churrasco, repartimos comida. Havia uma brisa no ar que estava levando todo o resto da radiação embora.

Claro, tudo isso foi um sonho. Eu sei que é incoerente, mas assim é que se sonha. Coerência só na vida real, que diabos, e olha lá! Além disso, o sonho é meu. Se você não gostar, pode sonhar do jeito que quiser, mas por favor me deixa vivo nele. Ainda tenho umas coisas para fazer, para consertar.


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Estranhas Histórias
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Saturday, March 14, 2015

O padre francês

O padre francês



No seminário havia duas capelas. Uma, onde os seminaristas assistiam às missas, ouviam sermões, rezavam, rezavam e... rezavam. Às vezes me sinto no direito de não mais precisar fazê-lo, minha contabilidade ainda deve estar positiva nessa área. Havia, entretanto, outra capela. Era do outro lado da propriedade. Exceto pelo domingo, não havia fiéis frequentando. Ela tinha pelo menos uns 10 altares laterais, com uma função bem específica. Havia muitos padres no seminário, e eles – cada um deles – tinha de rezar sua missa.
Havia sempre um sacristão encarregado de preparar os altares para os padres. Houve um ano em que essa era a minha função. Cuidadosamente, eu abria uma caixa de metal, retirava uma hóstia e a colocava sobre um pires – acho que era de prata – que, por sua vez ia sobre o cálice. As galhetas, uma eu enchia com água e outra com vinho. O vinho, nunca vou me esquecer, era o “Pindorama” e tinha um cheiro delicioso. Preparava todos os altares e eles começavam a descer de seus aposentos. Uns faziam missas mais longas, outros missas mais curtas. Eu os ajudava durante a cerimônia até a hora em que tinha de subir para o refeitório, onde iria tomar o café da manhã.
Se você conhece alguma coisa sobre a igreja católica, deve saber que a parte mais importante da missa é a consagração, a parte onde, pelo poder divino do sacerdote, o vinho se torna o sangue de Cristo, e o pão – no caso, a hóstia – se torna o corpo. Isso é uma coisa básica. Por isso é que havia algo que acontecia ali, que era, no mínimo, bizarra. Havia um padre, francês, que mal falava Português, que tinha muito sono de manhã. Seus olhos vinham pesados para o altar.  Muitas vezes eu o ajudava na cerimônia. E não é que, vez ou outra, ele se esquecia da parte da consagração? Como pode? É como fazer um jogo de futebol sem a bola, mal comparando. Para mim, era um sacrilégio e certamente seria para seus colegas. Mas aquilo era um segredo. Para ele, porque estava quase dormindo e nem percebia. Para mim, porque eu jamais falaria isso para alguém.
Confesso, porém, que eu também tinha meus segredos. Sabe o vinho “Pindorama” aquele que tinha um cheiro delicioso? Não é que o gosto também era divino?  Desculpe a ousadia de minhas palavras. Quase todo dia eu experimentava um pouquinho, às vezes mais do que um pouquinho. Precisava, vez ou outra, comer algumas hóstias para aliviar o efeito do álcool. Claro, não eram consagradas. Eu não era um pecador como o padre Jacques Lafévre. Deus me livre, missa sem consagração! O Lafévre, nem tenho certeza do nome, certamente ainda estava com sono quando ia para o seu delicioso café da manhã, depois da missa. Ou diria, quase missa?  Talvez por causa do clima dos trópicos? E eu ia, alegre, muitas vezes, bem alegre, para o meu café da manhã, também. Uma café bem mais simples do que o dele. Meu pecado, também, era bem mais simples que o dele e eu era apenas um garoto...Imaginem, esquecer da consagração...

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Friday, March 13, 2015

Encontros eletrônicos

Encontros eletrônicos



O Stuart estava triste e não estava. Divórcio não era uma coisa que ele tinha programado para sua vida. Ainda bem que a quase ex estava levando tudo “numa boa”. Sem ressentimentos de ambas partes. Essa paz relativa permitiu que ele conseguisse refletir. Verdade é que a única coisa em que ele refletia era a solidão que viria dali para a frente. Ele não acreditava nessa história de ”melhor só do que mal acompanhado”, mesmo porque ele, e até então, a sua esposa,  tinham sido bons companheiros apesar de as coisas não terem dado certo.
Estava com 47 anos e não tinha mais aquela paciência de frequentar rodas de amigos, talvez clubes, na vã esperança de encontrar alguém que pudesse ser uma boa esposa. Pensou bastante e decidiu: é a Internet. Estudou alguns daqueles websites que promovem encontros e casamentos, tentando achar o que as pessoas têm em comum. Escolheu um, fez um perfil sem exageros.  Não queria dar falsas impressões e depois ter de passar desgosto. Não adianta mentir, pensou.
Divorciado, economicamente independente, apresentação razoável, gosta de esporte, de viajar, blá, blá, blá...
E não é que o danado, em algumas semanas foi “visitado”por mais de duzentas mulheres? 238, exatamente. Nem ligou quando seu colega de trabalho disse que a “liga feminina” estava mesmo desesperada. Usou o método científico. Rigorosamente selecionou as que eram ao mesmo tempo viáveis e interessantes para ele. As escolhidas foram 27. Daí pensou, precisava encontrar essas pessoalmente. Chega  um ponto em que só o “cara  a cara” é que resolve. Pacientemente, marcou jantares, almoços e outros tipos de encontro. E foi fazendo anotações. Ficou muito bem impressionado com cinco e assim, eliminou as outras. Tudo com muito charme e elegância. Daí ficou olhando para a cara das cinco e se imaginando em casa com elas. Lembrava-se da voz de cada uma, dos trejeitos e de outras coisas. De repente, uma delas começou a voltar toda a hora para seu pensamento. Marcou mais um jantar com essa. Podia-se ver que ela também estava feliz quando o encontrou. Ele mais feliz ainda. Disse consigo mesmo: é essa, é essa. Ela confessou que também tinha acabado de eliminar outros três pretendentes só pensando nele.
E assim foi. Casaram-se e estão muito felizes e com muitos planos. Quem disse que casamento via Internet não funciona?
Como dizem, o futuro, definitivamente chegou. Eu só não sabia que estava andando tão depressa assim...

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Thursday, March 12, 2015

A loja de penhores


A loja de penhores

As lojas de penhores têm coisas bem baratas. Produtos quase novos são comprados por uma pechincha. Lá vou eu atrás de uma bicicleta, preciso de exercício. Abro a porta e a primeira coisa que eu vejo é um violino. Está em destaque em cima de uma  mesinha. Velho, porém bonito e conservado. Estranho, nunca tinha visto um lá e olha que lá existe de tudo: aparelhos de som, ferramentas, televisores, computadores, nem sei mais o quê.
Começo a pensar. Quem traria um violino para uma casa de penhores? Um pai que, desiludido,  desistiu de incentivar o filho a tocar o belo instrumento? Uma viúva que está se desfazendo dos bens do marido, que há pouco se foi? Pior, talvez um músico, que, em dificuldades financeiras, precisou fazer alguns trocados. É o mais provável, infelizmente... Normalmente as pessoas vêm a esses lugares porque estão com problemas de dinheiro. Fico imaginando a figura triste do artista, sem seu precioso instrumento. Caindo na realidade, abandonando a arte para sobreviver.
Talvez não seja bem isto, mas certamente é uma história parecida. Não, não vou comprar mais a bicicleta. Talvez alguém... É triste ter uma vantagem porque alguém está em dificuldades.
Por dentro, chorei pelo violinista que perdeu seu instrumento. Espero que não perca sua arte também, sua dignidade e, um dia, possa voltar a tocar... Sou otimista, acho que até já escuto as notas no ar...


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Tuesday, March 10, 2015

Dá para acreditar?

Dá para acreditar?




Fica cada vez mais difícil para os escritores da área de terror e similares sobreviverem. Não que eles não sejam bons, eles são. Fazem a gente ficar arrepiado com suas narrativas. O problema, porém, é que esse mundo moderno, com tanta gente, está produzindo os horrores mais genuínos e criativos da história da humanidade na vida real, mesmo.  Vou citar só alguns para provar meu ponto de vista. E está tudo documentado, certinho, em jornais e televisão. Terror certo, garantido, com certificado e tudo. Além disso, esquisitices também, daquelas que você é capaz de jurar que não são possíveis nem na ficção.  

No interior de Pernambuco, duas mulheres e um homem - que trio, você vai ver – atraíam vítimas que eram executadas a seguir. Bebiam seu sangue e depois aproveitavam suas coxas, braços e nádegas para comer. Se você pensa que eles paravam por aí, muito enganado. Não que isso seja pouco, é claro. Faziam coxinhas e empadas com a carne que não haviam comido e vendiam no comércio da cidade. Não posso falar nada sobre a higiene com a qual esses produtos eram preparados, mas, tenho certeza de que isso, aqui, é irrelevante.

Antes que você encha seu peito cheio de orgulho nacional, você precisa conhecer a história dessa mulher da China. Não ganha em horror, mas ganha em estranheza. Li Xiaufeng, uma chinesa de 95 anos foi encontrada morta no chão por seu vizinho. Seguindo o costume chinês, foi colocada num caixão aberto e ficou lá por seis dias, esperando todos os parentes chegarem para o funeral. Um dia antes do enterro, foram verificar e ela não estava mais lá. Foi encontrada “vivinha da silva” preparando  uma refeição em casa. Estava com muita fome, o que é justificável. Os cientistas explicaram tudo, não se preocupem.

Tenho outras notícias, todas elas à disposição do público em geral. Não vou entrar em detalhes, pois eles podem ser excruciantes. Muitas vezes são cômicas, mas com a conhecida ressalva de que “seria cômico se não fosse trágico”. Vamos lá: “Casal de amantes cai da janela enquanto fazia sexo na Alemanha”, que  tal? E aquela outra manchete: “Jovem pego a 178 km/h diz que estava com pressa para fazer sexo”, não é demais? Para completar, mais duas ( não estou dizendo que não há mais, há muitas, creia!): “Peladona surta e pula sobre para-brisa de carro de desconhecido nos EUA” e “Idoso morre após engolir a dentadura durante sexo com prostituta”.
Voltando a minha consideração inicial, dá para competir com essa gente? Coitados dos escritores do gênero!


Notícia 6


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Saturday, March 7, 2015

As cores da argila (Perus: memórias)



As cores da argila   (Perus: memórias)

Eu chegava da escola, sentava-me à mesa e, num instante, devorava o prato com feijão, arroz, e mistura. Depois de subir o Morro do Cartório, quem é que não fica com fome? Logo a seguir, se eu conseguisse escapar imune de alguma tarefa dada pela minha mãe, ia correndo para a rua. O objetivo era simples. Encontrar meus amigos e decidir qual seria a aventura do dia. Quando não havia missão especial, ficávamos por ali mesmo, jogando taco ou bolinha de gude. Muitas vezes, porém, íamos até a frente da Igreja de São Jorge, a cem metros de casa. O lugar ali era mais oficial, mesmo porque naquela época ainda não tinham deposto o santo de sua verdadeira hierarquia. Olhávamos Perus lá de cima. Uma sensação inigualável. Parecia tudo de brinquedo lá embaixo; a estrada de ferro, a ponte, o caminhão passando. Quando você não tem nada e olha lá do alto, parece que você é dono de tudo. Das nossas brincadeiras, certamente nós éramos.
Era muito comum ficarmos por ali. O pequeno terreno, em frente à igreja, terminava de repente e um quase penhasco se desenhava a nossos pés. A chuva tinha causado erosão e o ventre da terra ficava exposto. E sabe o que havia lá dentro? Um monte de cores. Isso mesmo, argila colorida. Havia verde, cor de rosa, amarela, vermelha. Nós, cirurgiões mirins, arrancávamos pedaços e os esculpíamos com pedaços de madeira. Era bonito de se ver. Aquele colorido todo. Parecia um caleidoscópio de argila. Como esquecer uma coisa dessas? Aquilo era nosso tesouro enterrado.
Mais tarde tínhamos de voltar para casa. Fazer a lição, escrever no caderno de caligrafia. Acho que eles, como tantas outras coisas, não existem mais. Quando começava a ficar escuro, minha mãe me chamava:
-Flávio, vem jantar!

Era a sopa de feijão, feita no fogo de lenha. O tempo antes de ir para cama era curto. Não havia televisão, a luz era fraca. Só restava dormir. Dormir e sonhar com as cores da argila.


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Friday, March 6, 2015

Masculino, feminino

Masculino, feminino




Essa Língua Portuguesa tem cada uma. Por que a palavra “nuvem” é feminina? Porque passeiam graciosas pelo céu, cheias de curvinhas, suaves, se exibindo? Talvez porque, no final da tarde, elas ficam todas iluminadas pelos raios do sol, como joias que brilham? E por que o “sol” é masculino? Por ser poderoso, forte, por tomar conta de tudo? E a “árvore”, por que é feminina? Por ser frondosa, cheia de contornos, por nos trazer frutos gostosos? E o “rio” então? Por que é masculino? Porque corre, caudaloso, potente, forte, levando tudo que cai em seu leito?  E a “estrada”? Feminina, porque acaba nos conduzindo para onde quer? Porque nos leva ao nosso destino? O “mar”, masculino. Porque é grande, poderoso, profundo? Pode ser, pode ser...
Agora então me explique...Por que o “Brasil” é  masculino? Se você tem a resposta, me explique também, porque a “Argentina” é feminina. Se você conseguiu uma resposta, então esclareça por que falamos “minha Alemanha” e “meu Portugal”, o “lindo Uruguai” e a “graciosa Bolívia”?   Por que um país é feminino e o outro é masculino”? “A rosa”, “o cravo”, “a dália”, “o crisântemo”, feminino, masculino,...Como? Se todas são flores? E “o caqui”, “a manga”, “a banana” e “o mamão”...Por quê? Não são todas frutas? A manga e a banana, o que elas têm de feminino que o caqui e o mamão não têm?
A Língua Inglesa, não quer saber de brincadeira. Se é ser vivo, ou é masculino ou é feminino, tudo bem. Se é coisa, nem masculino, nem feminino, é só o neutro, como as coisas devem ser, pois coisas não têm sexo... Interessante, para nós a palavra “coisa” é feminina...
Quer saber de uma coisa? Prefiro do nosso jeito. Tem mais graça.  É muito melhor para os compositores, escritores e poetas. Se não fosse assim, como poderíamos dizer que  “o cravo brigou com a rosa”? “Uma linda noite de luar”, feminino,  “um belo entardecer”, masculino. Para mim faz sentido, não vejo nada de neutro nem na noite, nem no entardecer...

Por outro lado fico com pena do americano que quer aprender Português. Já pensou ter que decorar o sexo de milhares e milhares de coisas? Não deve ser nada fácil. Para nós é moleza, já sabemos de tudo...Sabemos o sexo de todas as coisas, ou quase...


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