O Nino
tem cada uma
(ou porque temos uma só boca)
(ou porque temos uma só boca)
Outro dia tive uma conversa com meu amigo Nino. Ele estava
filosofando sobre os órgãos dos sentidos. No começo achei a conversa meio
besta, para ser sincero (Espero que ele não esteja lendo essa crônica...).
Quando ele chegou ao final, até que ele fez muito sentido.
Dois olhos, disse ele, por que dois olhos? Em primeiro
lugar, isso ajuda a ter uma imagem multidimensional. Você capta uma fatia muito maior da
realidade. Pensei em perguntar a ele, por que não ter um olho atrás? Assim
poderíamos conhecer o perigo daqueles que nos atacam pelas costas. Fiquei
quieto, no entanto. Ele podia me dar uma resposta daquelas. Além disso, continuou, é uma questão de redundância.
Se perdermos um olho, ainda teremos outro de estepe. Para ser sincero, nunca
tinha pensado nisso.
E os ouvidos? Ele deu quase a mesma explicação: saber de
que lado vem o som e a história da redundância. Muito bem, boa explicação. Narinas?
Quase igual. A história da redundância, no entanto, pensei, não fazia sentido.
Fazia, sim. E se não pudermos, por algum motivo, respirar com a boca? Pensei
comigo mesmo que duas narinas não nos ajudam a saber de que lado vem o cheiro.
Ou ajudam? Fiquei quieto de novo. Cada vez mais acho que calar-se é uma grande
virtude e uma grande arte.
Quando chegou a vez da boca, tive a maior surpresa e também
entendi toda a profundidade da explicação do Nino. Ela, a contrário, é uma só
e, ironicamente, tem várias funções. Serve para comer, beber, respirar e graças
a Deus, falar. Que seríamos de nós sem falar? Passar a vida quase sem comer,
muita gente passa, mas sem falar? Nesse caso, por que um órgão tão importante,
com tantas funções, é único? Onde fica a história da redundância?
O Nino me explicou. As pessoas comem e falam tanto que
seria um perigo a gente ter uma boca de estepe. O que estaríamos fazendo? Em
vez de deixarmos uma de lado, de garantia, estaríamos comendo em dobro, falando
em dobro. Em minha mente concordei com ele, mas e a respiração? Como se
estivesse ouvindo meu pensamento, ele explicou que, para o caso da respiração,
já tínhamos uma outra alternativa: o nariz.
Quanta simplicidade e quanta sabedoria em poucas palavras!
Ele não pode ter raciocinado tudo isso sozinho. Aposto que leu em alguma Wikipedia
da vida.
Eu pensei que ele tinha terminado, mas ele continuou. E o
tato? Na corpo inteiro, em toda pele, dentro da boca e sei lá mais onde. Faz sentido,
ele disse. O tato é uma das coisas mais importantes na vida. Eu pensei que ele
iria dar mais alguma explicação adicional, mas ele apenas comentou:
- Já pensou o que aconteceria se a maioria das pessoas não
tivesse “tato”? As pessoas que estão por aí e que são “sem tato” já fazem
estrago demais...
Até agora estou pensando nas palavras do Nino.
ooooooOOO0OOOooooo

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