Saturday, April 16, 2016

Vovô, vamos conversar!




Vovô, vamos conversar!

Abro os olhos lentamente na manhã paulistana e vejo um vulto de criança sentada junto à cama. Pouco a pouco reconheço minha netinha. Não demora muito e ouço sua voz infantil:
-Vovô, vamos conversar.
Não era um pedido, era um aviso. Antes mesmo que eu pudesse responder, ela começou. Falou da escola, da professora, das amigas e do amigo Pepê. Falou de outras coisas que, embora coerentes, para mim eram difíceis de entender, pois não tinha a referência, o contexto. Pintou graciosamente seu mundinho bonito, colorido. Avisou também das atividades do dia. Aula de natação e outras coisas mais. Estava notificado de tudo.
Depois, deu um sorrisinho maroto e gostoso e avisou que iria tomar café. O assunto estava encerrado.
Não é que a Nila era cheia de conversa e de assuntos importantes? Mais importantes do que os de muita gente grande que fica falando bobagem por aí.
Pelo menos importantes para mim. Daí fiquei pensando em todas as coisas que, quando crescida, ela poderia falar. Pena que não vou estar por aí por tanto tempo. Seria uma conversa e tanto, essa conversa nossa do futuro.



                                     oOOOOOo


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Friday, April 15, 2016

Calota polar

Calota polar



O casal, já idoso, arrumou suas malas e saiu de Umatilla, na Flórida. Três dias inteiros para passear. Podia ser mais, mas para que abusar? Depois de mais de uma hora, ela fala:
-Meu bem, estamos indo para o norte?
-Claro que não, querida, estamos indo para o sul.
-Não sei não, eu acho que você deveria ter trazido o tal de GPS.
-Não tem serventia, aquilo só atrapalha.
Mais uma hora se passa e ela pergunta:
-Não deveríamos já ter chegado a algum lugar? Eu falei que você deveria ter trazido o tal de GPS.
-Que besteira, já vamos chegar.
Mais meia hora, eles chegam. Estão numa praia, nem norte, nem sul. Vieram para o leste, onde acaba  a terra e começa o mar.
Entram num hotel, e se preparam para descansar. A velhinha, preocupada, resolve perguntar:
-Você vai saber voltar sem o tal de GPS?
-Claro, meu amor, é só voltar pelo mesmo lugar. Além disso, é tudo muito simples...
-É mesmo, meu amor, você pode me explicar por quê?
-Porque estamos na Flórida. Se formos para o sul, acabamos no mar. Se formos para o leste e para o oeste, também acabamos no mar. O único perigo é o norte. A gente vai rodando, rodando e parece nunca mais ter fim. De repente a gente sente um frio danado. Daí já se sabe, ou estamos em New York ou em cima da calota polar...

A velhinha ficou apavorada, mas no fim conseguiu dormir...



                 oOOOOOo


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Wednesday, April 13, 2016

O Equilíbrio Cósmico


O Equilíbrio Cósmico



Figuras apocalípticas tornam-se cada vez mais comuns  nesse mundo em que vivemos.  Crueldade sem explicação, maldade e perversidade gratuitas, depravação e degeneração jamais vistas assombram o homem comum. Pode haver uma explicação metafísica ou pode ser simplesmente uma questão de estatística. A Terra cresceu e a cota das potestades malignas também teria aumentado. Devemos ser otimistas, entretanto. Para contrabalançar os demônios, existem os anjos. Não pensem neles como figuras etéreas, espirituais, com asas brancas esvoaçando ao nosso redor. Há muitos deles que vestem roupas comuns, iguaizinhas às nossas. Falam como a gente, respiram como a gente, andam como a gente. No entanto, se você prestar atenção, você vai ver que eles não têm maldade, não têm malícia. Quando todos estão falando mal de alguém, eles não falam, por pior que seja a pessoa de quem estão falando. Vão achar, lá no fundo, algo de bom que essa pessoa possa ter. Quando todos estão com raiva – muitas vezes até por justa causa – eles sorriem e mostram paz no olhar. Sempre acham um jeito de ajudar, sempre têm uma palavra boa para consolar, sempre tem um sorriso... No meio da tragédia são um bálsamo. No meio da tristeza, um raio de luz. Quando as coisas não têm mais jeito eles arrumam um jeito de ajeitar as coisas. Como eu disse, são pessoas comuns, se parecem com a gente. Pode ser um vizinho, pode ser um amigo, um colega de trabalho, um parente próximo ou distante ou um amigo de um amigo. Eles são o sal da Terra, são o mel puro do favo, eles são o ar que respiramos. Não sei quantos são, mas são suficientes. Até agora eles têm mantido o equilíbrio do mundo, o equilíbrio da vida. Eles mantêm a balança cósmica em harmonia. Ainda bem...

                                 oOOOOOo


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Amélia, nem tanto amélia....


Amélia, nem tanto amélia....


A  Amélia não tinha nada de amélia. Era entretanto uma mulher e tanto e o Eduardo sabia muito bem disso.  Tinha profunda admiração por ela, viviam muito bem e curtiam um bom casamento há mais de oito anos. Mas...
Quem não conhece a velha história da bíblia? A tentação é... a tentação. A Amélia não era a Eva mas Eduardo era o Adão.
Foi uma coisa rápida, uma vez só, só sexo, nada mais. Eduardo não contou mas Amélia o conhecia tão bem que perguntou.  Ele tinha errado, mas mentir ele não sabia. Confessou. Chorou dizendo que era só sexo, uma vez  só, nunca mais. Amélia jamais pensou que... A mágoa era profunda. Ele pediu perdão uma vez, duas e outras mais. Teve de sair de casa. Algum tempo depois, aos prantos – e não é que Eduardo sabia chorar? – pediu perdão mais uma vez. Ela, também, em soluços, concedeu o perdão.
No outro dia, lá estava ele, rosas na mão. Ela abre a porta e começa o  diálogo, o que você quer, você não disse que me perdoou, sim, eu perdoei, então...
-Então, o quê? Eu perdoei, mas não consigo esquecer... E fechou a porta.




 oOOOOOo


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Monday, April 11, 2016

Feira paulistana



Feira paulistana

Em plena Frei Caneca, procuro um lugar para lanchar. E o que vejo na próxima esquina? Uma feira. Feliz com o achado, penetro na confusão. Barraca do pastel. Presunto com queijo, escarola com queijo também. Palmito, carne e outros tantos e tão bons. Já peço dois que a fome aperta. Leio os cartazes escritos à mão: caldo de cana, água de coco, guaraná zero, que eu nem sabia que existia. Logo à frente, um homem, sem os dentes de cima, mas com todos os de baixo, canta forte uma canção nordestina, que eu não entendo. Vou andando e ouço alguém falar: três por três reais. Alguém pergunta e ele responde. É isso mesmo, um real cada, não entende? Alguém estava duvidando do óbvio matemático. Logo mais à frente, outra banca de pastel. A moça do Bradesco Seguros, uniforme impecável, devora um de carne, está com pressa, a hora do almoço por acabar. Me assusto com o homem de facão. Na verdade, só quer que eu saboreie uma lasca de manga amarelinha. Boa mesma, dá vontade de comprar. A mocinha magra grita, ligeira, uma oferta que não consigo entender. Pelo jeito dela, oferta impossível de se recusar. Mais um pouco, outra moça me chama: “Moço, tá calor, precisa de uma água de coco, geladinha de doer.” É verdade, mas já tomei. Burburinho vindo de trás, burburinho vindo da frente. Tomate madurinho, verdura fresca, quinze laranjas por cinco reais, melancia doce como o mel. Saquinhos organizados de feijão, de arroz, outros grãos. Vou passando, imune, desviando das mulheres e homens com sacolas. Um homem oriental ajeita as bananas na banca, enquanto o outro conta e adverte o freguês: onze, doze, treze, uma é de lambuja, porque é para voltar outra vez.
Fico alegre com as cores, múltiplas cores e me divirto com o marketing tupiniquim, tropical. Preciso trabalhar, vou procurando a saída e pensando:

Preciso voltar aqui outra vez.

                                oOOOOOo



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Sunday, April 10, 2016

Múltiplas linguagens


Múltiplas linguagens

Tento entender, diligente,
a linguagem dos surdos-mudos.
Desisto, não consigo entender.
Tento depois, outras linguagens:
A dos extremistas, dos capitalistas,
dos comunistas e dos racistas.
Também dos fascistas, nazistas
e outros istas, sem sucesso.
Tento um outro ponto de vista,
um outro ângulo qualquer.
Muito mais difícil ainda,
desisto e me entrego.
Me entrego aos poemas de Drummond,
durante as horas do dia.
Na calma da tarde e da noite,
mergulho nos versos da Cecília.
E dentro da densa noite,
quando meus poetas descansam
no eterno berço do céu,
me conformo e volto, humilde,
à linguagem dos surdos-mudos.
Não entendo, mas me sinto feliz.
Não ouço o absurdo, o insensato
de tantas distintas vozes.
Vejo no silêncio de seus gestos,
com muito pouco esforço,
a graça dos poetas que eu amo...

                            oOOOOOo


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Saturday, April 9, 2016

Moro num país tropical

Moro num país tropical


Faceira, bonita, a moça americana quer conhecer um clima tropical. Confere na internet e decide: Ipanema, Rio de Janeiro, Brasil.  Decidida, apronta as malas e lá vai. Chega, se instala e vai à praia. Pode haver coisa mais linda, mais maravilhosa, do que o Rio, Cidade Marvilhosa? É tudo cheio de graça, as moças vêm e passam a caminho do mar. É tropical, é bonita, abençoada por Deus. E ainda nem é carnaval. Nancy Tugan está encantada, extasiada, cheia de amor pela praia e pela gente. Passa dez dias e volta, cheia de planos. Canta e conta sobre a linda terra. Leblon, Copacabana, também quer visitar. Quer voltar. Você nem imagina como é bonito ouvir a moça pronunciar “Copacabana”....
Volta, cheia de graça. De novo Ipanema, quem sabe a garota pode ainda passar? Dessa vez tem também, Leblon e Copacabana. É demais. Praia cheia, cheia de gente bonita. Pode ser melhor?
 De repente, um burburinho, uma onda vem vindo. Aumenta, é só gente correndo. É o arrastão. A moça corre assustada, vai para o hotel. Antecipa a passagem de volta. Suspira, aliviada, nos braços do Tio Sam.
Agora quando lhe perguntam sobre a última viagem, só murmura, apavorada:
-Arrastaun, arrastaun...
Coitada da moça, nunca mais vai voltar. A Nancy nunca mais vai ver a garota do corpo dourado, do sol de Ipanema, passar, num doce balanço a caminho do mar. Nunca mais vai ver a nega Tereza balançar o corpo, não vai ver o Flamengo e nem o carnaval... Nunca mais. Nem o Simonal. Pois é, pois é, essa é a razão da simpatia, do poder, do algo mais e da alegria... é carnaval...

Moro num país tropical...

Para ouvir

Garota de Ipanema

País Tropical



                      oOOOOOo


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