Wednesday, July 20, 2016

Consciência



Consciência


Quero lhe contar coisas que você nunca ouviu, coisas de um mundo distante, coisas de além da vida. Não sei como fazer, não sei se você vai entender. É tudo tão diferente do que você está pensando, que nem sei como começar. Só para você ter uma ideia de todo o absurdo que vou lhe apresentar, preciso lhe confessar algo. Eu nem existo. Pelo menos não existo mais. Como explicar isso? Não dá com o pouco que você sabe. Precisaria haver mais referências para você poder se guiar. Talvez ficasse mais fácil se eu lhe disser que não existo mais para mim, mas existo para você. Ou talvez que é uma questão de tempo, de época. Existo num outro tempo, que nem é o futuro, nem o passado. Talvez se eu disser que é em outra dimensão, você vá compreender melhor, mas não é isso exatamente.
Eu sou a consciência de que você existe. Entendeu bem? Não a consciência sua ou a minha. A simples e pura consciência de existir. Por falar nisso, existir? Quem existe? Não fique alarmado com isso. Existe a hipótese de que você também nem exista. Pode ser que você seja apenas uma projeção da consciência, como eu. Seria eu me projetando em você e você se projetando em mim, nós dois não existindo. Coisa de louco? Eu avisei que seria difícil. Eu sei que você está pensando que sente a vida pulsar em suas veias. Pulsa mesmo? Sei que você está vendo cores, ouvindo sons, vendo as formas se combinarem em suave harmonia. É bonito, mas é real? Você não sabe, nem eu. Por que, então estaria eu a falar tudo isso? Será que estou falando mesmo, ou sou apenas imaginação? Mas as cores que você vê, os sons que você ouve e as formas que se formam em sua frente, elas existem? Existir, o que é existir? Talvez ninguém exista, talvez sejamos fragmentos de uma realidade maior, insignificantes em nós mesmos, apenas exercendo uma função secundária num outro ser maior, o verdadeiro.
Você ainda está aí?
Eu e você, apenas fragmentos, juntos com outros bilhões de outros fragmentos, formando uma minúscula partícula de um fragmento um pouco maior, parte insignificante e minúscula, e apenas acessória, de um outro ser maior ainda, uma consciência de verdade. Seremos apenas uma fração ridiculamente sem importância de uma sinapse se comunicando com outra? Num imaginário cérebro gigante, enorme, de um verdadeiro ser? E se esse outro ser também não tiver certeza de sua própria existência? Uma falsa impressão de uma consciência muito maior. Uma gigantesca, absurdamente inacreditável falha, multiplicada por milhões da pequena falhas que somos nós?
Eu disse que você não ia entender. Eu também não consigo. Na verdade, como você, nem certeza de que existo, eu tenho. Desculpe-me ter interferido em sua pretensa existência, se é que você existe realmente...
Eu sei, é melhor continuar assim, sem pensar em coisas maiores, complicadas.
Não que o que estou falando, seja verdadeiro. É melhor pensar do jeito que é mais fácil, isso é.

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O sorriso da amada


No infinito do céu, procuro respostas sobre o Universo. Nas obras de filósofos e pensadores, procuro explicações para a vida. Leio  livros de cientistas e procuro neles soluções para os fatos que vejo e que vivo. Procuro, junto aos místicos, uma vereda ideal para a alma sofrida. Procuro, na natureza, a paz para meu espírito inquieto. Procuro, procuro, não paro de procurar. Em tudo, em todo lugar, uma busca que não pode parar.

Procuro, finalmente, na minha amada, um sorriso que possa me ajudar. Só então percebo que lá está a solução para tudo, para todo meu indagar. Sim, isso mesmo, bem ali em seu rosto,  bem na minha frente está a solução ideal.  Bem ali,  naquele seu  sorriso... Que tudo explica, tudo preenche, sem querer nada em troca, apenas o meu desejar...

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Monday, July 18, 2016

Passageiro de passagem



Passageiro de passagem

Estava voltando para casa. Fazia tanto tempo, que nem sequer me lembrava mais como era. Provavelmente tinha mudado e iria ser uma decepção. Sabe, quando a gente não se lembra dos detalhes e os vai substituindo por outros, perfeitos, bonitos? No final, acaba sendo aquela decepção. E as pessoas? Teriam envelhecido? Pessoas tão próximas, pessoas queridas. Como iriam se lembrar dele? Iria ser tratado como antes?
E o trem ia rápido, voava. Os postes quando apareciam ao lado da janela, já tinham ido embora e aquele que eu estava vendo, já era outro, que também já estava indo. Ao longe, porém, a paisagem não mudava quase nada. Para ser mais preciso, fazia já algum tempo que não mudava nada, mesmo. Parada. É a ilusão. Somos assim, só vemos o movimento de perto. Aquelas estrelas no céu: você pensa que elas não se mexem? Fantasticamente mais rápido do que sequer possamos imaginar. Pode acreditar.
Estava preocupado com as pessoas queridas. Fazia tanto tempo, não conseguia mais me lembrar de seus rostos, de seus sorrisos. Nem da casa eu me lembrava direito. Nem a cor, nem o telhado. Nem sabia se havia um muro, não sabia a cor das paredes também.
Estava reparando, de repente, que a paisagem próxima da janela, embora alucinante, era sempre a mesma também. Repetia, insanamente os mesmos postes, as mesmas pedras, o mesmo tudo. E se tudo aquilo fosse uma ilusão? Não havia trem, não havia casa e nem as pessoas queridas? Tudo apenas uma vontade enorme de ser, sem poder.
Eu acho, agora, que é isso. Sou apenas uma imaginação, um passageiro personagem, personagem do destino, uma criação, fútil do meu escritor. Só existo na cabeça dele, de ninguém mais.  Uma pessoa vazia, sem imaginação. Sou só a vontade dele, o seu pensar, o destino que ele quer me dar. Pelo menos, agora, você que está lendo, me conhece também. Prazer em conhecê-lo. Meu nome não posso dizer, pois não sei. Acho que ele, meu escritor, não sabe também. Não, por enquanto. Um dia, ele vai saber. Talvez quando esse trem louco, desvairado, parar em alguma estação qualquer do destino. Ele, porém, como eu, só vai parar quando o autor quiser. Igualmente, o trem  também é um personagem, e seu nome eu também não sei.




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Sunday, July 17, 2016

O Casamento



O Casamento

Dan e Jessi moravam juntos há 11 anos. Parecia um conto de fadas. Muito amor, muito carinho.  Tinham até uma filhinha de 5 anos, a Trisha. Faziam quase  tudo juntos. Para lá e para cá, sempre de mãos dadas.  As amigas tinham até inveja e os amigos desconfiavam. Um dia, Susan, uma das amigas de Jessi, perguntou para ela por que Dan não se casava com ela, já que a união era tão estável? Sabe, a menina precisa de um pai “oficial”... "Para quê?", retrucou Jessi, se somos felizes assim? Outro dia foi a vez de Betty. Não entendo por que vocês não se casam, já que estão juntos há tanto tempo. Respondeu Jessi que estavam bem assim, que não era necessário. Não, ela não ligava não que a união não era legalizada. Volta e meia alguém falava alguma coisa. Que gente xereta, sempre se intrometendo na vida dos outros, pensava Jessi. Um dia comentou com Dan os  falatórios das amigas, que gente chata, intrometida! Dan concordou e disse que também um amigo dele, o Rick, fez um comentário. As pessoas adoram se meter na vida alheia, concordaram.
O tempo passou, pelo menos mais um ano. Cada amigo ou amiga nova, depois de um certo tempo – quando adquiriam uma certa intimidade – vinha com a mesma história. Por que...? Um dia Jessi  falou para Dan, que se ele achasse bom, talvez, quem sabe, poderiam se casar. Pelo menos as pessoas e os parentes parariam de “encher a paciência”, para não dizer outra coisa... Ele não estranhou, disse quem sabe, vamos pensar. Um mês depois, ele falou para Jessi que se ela quisesse, tudo bem, poderiam se casar.
Combinaram uma data, um lugar, contrataram os serviços, a igreja, o bufê. Uma nota! Tiveram de fazer empréstimo. Bom, se é para casar, vamos fazer bem feito! Muita alegria, muita preparação, chegou o dia, muita festa. Uma felicidade, um acontecimento. Até lua de mel aconteceu. A Trisha não gostou muito pois teve de ficar uns dias com a avó.
Voltaram da viagem e a vida recomeçou. Trabalho, serviço de casa, rotina. Estava tudo bem. O primeiro mês foi muito duro, tinham dívidas para pagar: aquelas do casamento. Os dois pegaram horas extras, foi muito cansativo. O segundo mês foi ainda mais duro, porque já estavam cansados do primeiro. No terceiro mês, deram uma folga, pularam alguns pagamentos. No quarto mês, horas extras de novo, mas aí as dívidas eram maiores e havia juros e as companhias começaram a telefonar e fazer cobranças. Os dois estavam irritadíssimos. Um dia discutiram, não foi uma briga muito feia, mas foi triste. Afinal, eles não estavam acostumados a brigar. Beijinhos, desculpas, nós vamos sair dessa. Passou mais algum tempo e não saíram. As dívidas aumentaram. Afinal, o gasto era maior do que podiam aguentar. Nunca deveriam ter ouvido a conversa dos outros. Um dia a briga foi feia. Falaram coisas, um para o outro, que nunca haviam falado. Uma nuvenzinha se instalou nos corações dos dois. Depois de algum tempo as nuvens aumentaram e virou uma tempestade. Agora, era briga quase todo dia. Saía até palavrão. Você pode imaginar? Dan e Jessi  falando palavrões?
Os dois se conheciam tão bem que não precisaram conversar muito para chegar à conclusão que a única saída era o divórcio. Não tinham nada para dividir, só as dívidas. A Trisha ficaria um pouco com cada um. O estranho que nessa fase nenhuma amiga ou amigo chegou para conversar, dar conselho. Fofoca, é claro, havia muita. Era o assunto predileto nos intervalos de trabalho.
Foi assim que terminou o o relacionamento de Den e Jessi. Sinto muito se você esperava um final feliz. Para dizer a verdade nem sempre há um final feliz. Para ser  franco mesmo, muitas e muitas vezes não há um final feliz.






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Histórias do Futuro

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Friday, July 15, 2016

O Harold quer conversar comigo



O Harold quer conversar comigo

Dave Bowman: Open the pod bay doors, HAL. 
HAL: I'm sorry, Dave. I'm afraid I can't do that. 
Dave Bowman: What's the problem? 

(O computador Hal 9000 no filme    
"2001 - Uma Odisseia no Espaço"
falando com Dave, o astronauta
)


Eu não sei o que deu no Harold nesses últimos dias. Ele está ansioso, aflito, me chama a todo momento. É muito estranho. Talvez não tanto para você, mas para mim realmente é algo extraordinário. O fato é que você não sabe que o Harold não é gente, é um computador. Meus amigos astronautas que já viajaram pelo espaço com um desses, já haviam me alertado. Os cientistas encarregados de viagens espaciais estavam desenvolvendo há muito tempo a inteligência emocional para inserir nesses computadores que coordenam longas viagens tripuladas pelo espaço. Sabe, assim dão um toque mais humano, os astronautas sentem que têm companhia, a solidão fica mais tolerável etc. Não é nada fácil ficar anos, isolado numa nave vagando pelo espaço. É verdade que a maior parte do tempo estamos ou congelados ou em coma profundo induzido. O problema com o Harold é que ele está agindo de uma maneira muito além do que um computador “humanizado” deveria ou poderia. Eu posso sentir que existe algo por trás. Está querendo conversar, querendo me convencer que ele pode ser mais amigo do que um amigo de carne e osso. Fico constrangido pois eu sei que ele é uma máquina. No entanto, ele é muito convincente. Não me lembro de ter um amigo que tivesse tentado ser mais camarada comigo do que o Harold. Outro dia fiquei até emocionado quando ele falou de minha infância, confidenciou que me compreendia mais do que eu poderia imaginar. Aliás não sei quem deu autorização para inserir dados pessoais meus em sua base de dados. Preciso entrar com um pedido de explicações. Ele garante que não foi nada disso, que ele “leu” meus pensamentos. Conversa fiada, sei que isso não existe. Mas voltando à “história da minha infância”, ele falou algumas coisas que faziam sentido e me emocionei. Eu disfarcei mas acho que ele percebeu. É muito esperto, o Harold.
Mas não estou aqui para falar de minhas coisas pessoais. Eu quero falar da minha missão, isso que é importante. Desculpe, devo dizer “nossa missão”, como o Harold faz questão de me corrigir o tempo todo. Ele é muito habilidoso. Este Harold... Não sei como o Dr. Litvac conseguiu desenvolver um software como esse para inserir no Harold. É demais. É interessante pois o Dr. Litvac em si mesmo não é uma pessoa emocional. Pelo contrário, poderia dizer até que ele é completamente frio. Na verdade, ele mesmo não precisa ser uma pessoa muito humana para fazer o que faz. Nas últimas décadas, a maneira como eles usaram aqueles pobres clones para extrair dados sobre a natureza humana, meu amigo, você não vai acreditar!

 Apocaliptus

Não quero me estender muito a respeito desse assunto pois tenho algo mais importante para contar. No momento estou estacionado, na verdade estou em órbita, aqui neste planeta, dentro da Constelação Centauro. Ele foi designado como EB2235 pela comissão espacial da Terra, mas nós, os astronautas, o chamamos apenas de “Apocaliptus”. Faz sentido como você vai ver. Ele foi o primeiro planeta onde se detectou vida inteligente fora da Terra. Podia se notar pelas transmissões que recebemos, que eles estavam a pelo menos cinco séculos na nossa frente em termos de tecnologia. Recebemos sinal verde deles para fazermos uma visita. No entanto uma tragédia aconteceu. Como você sabe, mesmo agora, com essas fantásticas naves que temos, demora muito tempo para se chegar aqui. No meio do caminho, em nossa primeira viagem, algo aconteceu com o planeta.  Ele foi completamente destruído. Agora mal dá para se notar as características gerais da forma de vida que eles tinham. Não conseguimos até agora, sequer descobrir qual foi a causa principal do desastre. Há suposições apenas. Essa minha, é a terceira missão da Terra após o fim da civilização dos Xtrons, como eles eram chamados. Você deve estar se perguntando: “Se está tudo destruído, por que mandar outras missões?” Na verdade há uma boa explicação para isso. No meio da devastação total descobriu-se que havia ainda sinais sendo emitidos do subsolo. De um ponto específico, entretanto. Pelo pouco que se sabia dos meios de comunicação usados por eles, pudemos concluir que essas novas mensagens não eram muito amigáveis, que não queriam que nos aproximássemos ou que tentássemos ir até o subsolo. Havia várias teorias. Alguns pensavam que havia um esconderijo onde os dirigentes do planeta se refugiaram para sair depois que as coisas estivessem seguras. Outros achavam que quem estava lá embaixo eram os “bandidos” que haviam destruído a civilização dos Xtrons e estavam se preparando para sair e habitar novamente o planeta. Alguns cientistas pensavam que lá houvesse apenas inteligência artificial esperando que algum tipo de ser vivo, talvez o próprio humano, aparecesse de forma que eles pudessem usar seus corpos e instalar um “império das máquinas” ou algo assim. Ninguém sabia ao certo. O que todos sabiam era que lá dentro havia energia e artefatos capazes de destruir o planeta novamente e qualquer nave que estivesse na superfície ou em órbita. 

Incorum

As instruções “fora do computador” que eu recebi antes de vir, foram claríssimas. Aquela missão era de pesquisa, visava a colher mais dados sobre a situação. Em hipótese alguma deveria ser tentado algum tipo de contato ou intrusão na área, que passara a se chamar de “Incorum”. Nem que ficasse claríssimo que não havia perigo, jamais, em hipótese alguma, qualquer coisa do gênero deveria ser tentada.
Agora, voltando ao Harold. Ele sabia dessas ordens melhor do que ninguém. Mesmo assim, várias vezes, comentou que “a área estava livre agora” e que o contato não só era possível, mas necessário. Começou sutilmente, depois foi ficando agressivo, insistente, como falei no começo desta narrativa. Isso estava me incomodando muito e em determinado momento, avisei que, se ele não parasse, eu teria de desabilitar algumas de suas funções, talvez deixá-lo só com a capacidade de navegação. O Harold sabia que eu poderia fazer isso e imediatamente recuou. Agora, no entanto, ele estava tentando me manobrar de outro jeito. Estava falando da importância épica daquela missão. Falava de como apenas grandes homens e não máquinas, como ele, eram capazes de transcender o momento e perceber que algo inusitado, inédito e heroico precisava ser feito. Aquele era um momento histórico para a humanidade. Talvez a única e última chance de descobrir o que acontecera no planeta Apocaliptus. Talvez naquelas enormes cavernas subterrâneas estivessem segredos tecnológicos que a humanidade só alcançaria em mil anos. E assim por diante.
O Harold era brilhante e esperto, mas eu sabia exatamente o que ele estava tentando. No entanto, me perguntava por que uma máquina estaria tão interessada no assunto. Será que o Dr. Litvac tinha exagerado na dose “humanística” do Harold e ele estivesse se tornando ambicioso, desbravador, como os antigos seres humanos? Hoje em dia nem os próprios terráqueos eram mais assim. Os cientistas desses novos tempos deixavam de lado as emoções e permitiam que as máquinas adotassem as medidas mais adequadas para a humanidade.
O Harold deixou claro o que ele queria. Ir pelo setor C da grande área do Incorum onde havia uma entrada. Era um setor onde seus sensores não podiam detectar quase atividade nenhuma e portanto seguro.  Eu deveria entrar lá com sua ajuda, colocar um pequeno explosivo, abrir a entrada e cuidadosamente penetrar no Incorum. Ele sabia o que eu deveria fazer e como. Nesse mesmo setor havia peças de hardware que estavam carregadíssimas com informações importantíssimas para os cientistas da Terra, segundo ele. Seria uma missão perfeita e eu seria um herói. Diante das minhas constantes negativas, Harold parou por uns dias, como se tivesse desistido. Finalmente veio com uma outra proposta. Disse que entendia a minha posição e as ordens que recebera para aquela missão. Que admirava meu profissionalismo e como era importante que houvesse seres humanos como eu para a integridade das missões. Ele era muito convincente. Sabia usar as palavras, o tom e o timbre certos para fazer com que sua mensagem penetrasse em meu cérebro. O que ele tinha descoberto, no entanto, era algo surpreendente e que mudava tudo, eu entenderia se eu o ouvisse e certamente, na hora certa, o comando da Terra não só entenderia o que eu “tinha” de fazer, como também aplaudiria a decisão.

Sala de Interação Profunda

Finalmente fez uma proposta bem clara. Ele pararia de insistir com uma condição. Eu deveria conversar com ele na “sala de interação profunda”. Era um lugar na nave onde o astronauta entra numa faixa de ondas cerebrais de baixíssima frequência, o que facilita o entendimento de informações difíceis ou em quantidade muito grande para um ser humano captar em condições normais. Eu logo entendi o perigo. Eu tinha amigos que já tinham usado essas salas em situações de emergência e os resultados foram impressionantes. Era como juntar a capacidade da máquina e a sensibilidade e inteligência humanas e esse amálgama ser ampliado dez vezes. Era muito eficiente. Por outro lado, quem controlaria a situação toda seria o Harold e eu estaria em suas mãos ou em seus circuitos, como se dizia antigamente. Sutilmente, ele sugeriu que a outra opção era ele continuar insistindo até o ponto máximo. Este “ponto máximo” obviamente soou como uma ameaça. Claro que o Harold amenizou a afirmação dizendo que aquilo era para o bem da humanidade, e que a sua geração de máquinas jamais prejudicaria um homem ou a espécie como um todo.
Eu pensei muito, considerei todos os aspectos da questão, principalmente numa área considerada “boba” da nave, ou seja, onde o Harold não podia ver minhas expressões. Se ele pudesse vê-las, juntaria tudo com bilhões de outras informações que tem em sua base de dados e talvez descobriria o que eu estava pensando. Tomei umas precauções e depois avisei o Harold que concordava. Eu precisava sair daquela situação.
Sentei-me, a porta se fechou, a luz diminuiu e eu ouvi a voz do Harold, começando a explicar o que ele descobrira. Era impressionante. De acordo com suas descobertas haveria uma revolução em ciência muito maior do que a de dois séculos atrás quando o conhecimento da física quântica começou a ser aplicada em termos práticos na ciência e nas nossas vidas. Havia uma música no fundo, linda, como eu nunca ouvira antes. Uma espécie de síntese de todas as canções de que eu mais gostava, multiplicada por mil. Os aromas gostosos de minha infância, sublimados, sintetizados. As faces e sorrisos mais lindos que passaram pela minha longa vida, todos de uma só vez. Eu me sentia como um jovem, quase adolescente. E as explicações continuavam. Estava com a mente numa sintonia maravilhosa. De repente o Harold parou de enumerar as descobertas que fizera no Incorum. Eu nem me lembrava mais quais eram. Agora ele raciocinava, mostrava o que tinha de ser feito. Entrar, capturar o equipamento. Eu estava achando lógico, absurdamente lógico, sem nem mesmo entender por quê... Estava prestes a concordar, em autorizar que ele prosseguisse com seu projeto. O timbre da minha voz seria a assinatura e abriria os códigos que autorizariam Harold. Foi aí que um alarme tocou.

O Relógio Antigo

O relógio que eu tinha era de ouro e era uma espécie de joia que não se via há mais de quinhentos anos a não ser em algum museu muito especializado. Tinha ganho de um amigo astronauta que vivera mais de 230 anos, pouco antes de ele ter de se decidido por morte voluntária: muita gente fazia isso. Viver muito não era mais uma aspiração, era um problema. Eu sabia que o nono minuto dentro da sala de interação profunda era decisivo, era quando os humanos entravam em sintonia profunda com a máquina e tomavam suas decisões através da fala, numa situação que antigamente chamaríamos de “transe”. Eu sabia também que o Harold captaria e anularia qualquer alarme eletrônico que tentasse me trazer de volta. Pus o alarme para oito minutos, antes do horário de perigo e aí então poderia decidir o que fosse necessário não em estado de transe mas em meu estado normal.
Toda a argumentação que Harold fizera era falsa e era por isso que nem sequer me lembrava dela. Ele tentara me enganar e ele sabia que eu sabia. Ficou com uma admiração quase humana quando expliquei que tinha usado um alarme “mecânico” que ele não poderia ter detectado. Como não se fabricava um desses relógios há muito tempo ele não tinha registro de tal peça em seu imenso banco de dados. Apesar de estar furioso com o Harold, ainda brinquei:
-Desta vez eu te peguei, não é mesmo, Harold?

Harold e a volta

Tínhamos feito tudo que era necessário em Apocaliptus. Depois de dois meses em órbita, tínhamos colhido tudo que era possível em termos de informação daquele misterioso lugar. O Harold pouco falava comigo, tão ocupado estava em analisar aquela imensidão de dados. Uma pequena sonda tinha ido até a superfície e voltado com amostras tiradas de um lugar bem próximo ao ponto de onde vinham as estranhas mensagens.
Não havia mis nada a a fazer. Para evitar mais problemas, notifiquei o Harold que iríamos voltar em 24 horas, horário da Terra. Assim que saíssemos da órbita do planeta EB2235, eu me prepararia para o processo de criogenia. Ficaria congelado por décadas, até alguns meses antes de chegarmos ao nosso querido planeta.
Agora que tudo está tranquilo, posso me preparar com calma para a partida. Eu sei que você talvez esteja preocupado com o que o Harold possa fazer enquanto eu estiver congelado. Ele pode tentar enganar a Central da Terra e procurar voltar para o misterioso planeta. Sim, ele pode. Mas estou preparado para isso. Ele ainda não sabe. Estou todo sorrisos com ele e ele nem desconfia. Assim que a rota estiver delineada, vou desligar suas atividades “extramáquina”. É um segredo que nós, os astronautas, temos. Nós e o comando da Missão na Terra. Talvez o Harold desconfie, mas ele não tem certeza. Quando ele perceber, vai ser apenas uma máquina, de novo. Às vezes, até sinto pena do Harold. Ele quer conversar o tempo todo, tem aspirações, quer fazer grandes coisas, quer ser herói. Tenho pena mesmo... Sabe, essa vontade enorme e incontrolável que ele tem de ser como a gente...

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Thursday, July 14, 2016

O incrível game “Crazy Rabbit”




O incrível game “Crazy Rabbit”

Lucille e seus dois filhos estavam sentados na recepção da IEE, International Entertainment Enterprises, quando foram chamados para entrarem na sala de reuniões da empresa. Após cumprimentos efusivos, todos se acomodaram e o senhor Preston começou o seu pequeno discurso:
-Em primeiro lugar, quero cumprimentá-la, sra. Medina, pela sua sábia decisão.  Pensar no bem-estar da família, neste momento de dor e sofrimento, é uma coisa nobre. Colocar o futuro de seus filhos na frente de conceitos comuns, populares, é coisa de gente que tem dignidade.
Lucille deu um sorriso indefinido, que continha certamente uma boa dose de constrangimento.
Não muito longe dali, no grande centro de testes e criação, Angel estava tendo dificuldades em entender o que estava acontecendo. Em primeiro lugar, todos o chamavam de “Crazy Rabbit” e isso era muito esquisito. O que mais o incomodava, porém, era o fato de que perdera o controle do que estava fazendo. Em outras palavras, ele queria fazer algo, mas alguma força maior o obrigava a fazer outra. Tinha completamente perdido sua capacidade de decisão.
Tudo começava sempre num grande corredor com inúmeras portas dos dois lados. Ele precisava abri-las. Não queria, mas precisava. Tinha de achar material para se proteger: escudos, capacete, um mini carro blindado, roupas especiais, etc. Mas isso era difícil de se encontrar. Cada vez que abria uma porta, havia uma ameaça, um perigo. Numa, um bando de cães ferozes e famintos, noutra, um gigante mal encarado, que o queria esmurrar. Mais na frente, uma outra porta dava num abismo onde ele quase caía. Da última vez que ele abriu a porta, ele estava desconfiado, iria ser fatal. E foi. Havia vários atiradores e ele não teve chance. Uma bala penetrou seu coração. Pensou ter morrido, mas não. Lá estava ele de volta, para o começo do corredor.
Tinha decorado algumas portas perigosas e uma boa, que tinha um capacete, que ele ficou com medo de pegar. Desta vez, ele seria mais esperto. Foi evitando as portas ruins e foi direto à porta onde estava o capacete. Quando ele colocou a mão para alcançar o seu “prêmio”, uma cobra, que estava embaixo, tentou picá-lo. Ele conseguiu escapar. Assim que começou a abrir mais uma porta, lembrou-se de que já a tinha aberto antes e que lá havia um abismo, perigoso abismo. Para sua surpresa, entretanto, um capacete dourado rolou a seus pés. Imediatamente agarrou-o. Sabia que tinha de se proteger melhor antes de ir para a porta do fundo do corredor, mas já estava cansado e correu até lá, assim mesmo. Dava para uma grande avenida. Das janelas, pessoas atiravam, tentando acertá-lo. Pensou em retroceder, mas alguém tinha jogado, logo mais à frente, uma roupa, que ele sabia ser para sua proteção. Correu até ela, mas antes que pudesse pegá-la, levou um tiro no pescoço. Sentiu o sangue quente escorrer pela pele. Tentou levantar-se, mas desmaiou. Quando acordou, estava novamente de volta ao início de tudo. Agora sabia que as portas mudavam seu conteúdo, não adiantava decorar o que vira antes. Crazy Rabbit estava ficando desesperado por um lado, mas por outro, sabia que sempre podia recomeçar.
Na outra sala, Preston continuava seu discurso:
-Apesar de toda a evolução da Medicina, como essa técnica de reconstruir órgãos, refazer completamente o corpo, infelizmente, no caso de seu marido não foi possível. Seu corpo foi queimado a um ponto além da capacidade da tecnologia de reconstrução. Quase por um milagre, boa parte de seu cérebro ficou imune. E o que a senhora fez, parabéns novamente, foi uma coisa admirável. Permitir que ele fosse utilizado numa coisa útil. É quase o mesmo que doá-lo para a Ciência. Neste caso, com uma vantagem. Uma grande soma de dinheiro que vai garantir o futuro de seus filhos. Tenho certeza de que o senhor Medina, se pudesse, estaria aprovando o que a senhora fez. Que pai não quer o bem de seus filhos? Além disso, vocês todos devem se orgulhar. O senhor Medina é pioneiro. É a primeira vez que um jogo online tem a participação de um cérebro vivo. É como jogar com um ser de histórias em quadrinhos, porém vivo. Ele vai ficar na história da evolução dos jogos. E a senhora sabe como é importante para a nossa sociedade, hoje em dia, a criação de novos “games”. Precisamos de diversão, ocupação. Nosso povo inteiro, não só os jovens, corre um grande perigo de entrar em depressão profunda. E a solução que temos hoje, além dos jogos, qual é? Drogas violentíssimas, nada mais. Os jogos virtuais online são a nossa grande salvação.
A essa altura, o senhor Preston percebeu que estava exagerando e achou melhor ir para  a parte econômica. Preparou-se para declarar o valor que estava oferecendo, agora que já estava claro que o cérebro de Angel estava funcionando perfeitamente para seu intuito.  Pegou o cheque nas mãos e antes de revelar o valor, deu mais uma espiada no cantinho da tela de seu computador. A quantidade de internautas que estavam participando do jogo online “Crazy Rabbit”, naquele exato momento, era  de 11.349.177 participantes. Aquilo era um recorde. Havia alguns que já estavam no jogo há mais de 17 horas sem parar.
Por outro lado, finalmente, Angel – o “Crazy Rabbit” – tinha passado da fase dos corredores e da Grande Avenida, sem levar tiros ou ser ferido, e  tinha atingido um terceiro nível. Ficou sabendo então quem era o seu “companheiro” de luta: o finlandês Kaaprel Ikola, 33 anos. Foi aí que ficou conhecendo o grande desafio. Uma grande área, inóspita, cheia de perigos e adversidades teria de ser atravessada para enfrentar o desafio final: chegar até a “Taça do Prazer”, cheia até a boca com um líquido azul e que estava colocada sobre um pedestal. O problema era que este estava sendo guardado por uma mulher vestida de preto e com um lenço azul na cabeça. O rosto da mulher mudava, de acordo com o participante do jogo. Para ele, Angel, o rosto era de Lucille. E ele sabia que isso iria ser um grande obstáculo. Ele teria de matar aquela mulher para chegar até a taça. E, ele repetia para si mesmo, ela tinha a face de sua mulher. Antes de começar a travessia, Kaaprel Ikola, que estava liderando o jogo, optou pela opção do espelho. Angel teria de olhar para o espelho, bem ali a seu lado, para adquirir força. Assim o fez, mesmo porque Kaaprel é quem decidia. Ficou admirado e confuso quando, ao invés de ver seu rosto, via a cara de um coelho maluco. O coelho falava alguma coisa com os lábios. Angel não tinha certeza, mas aparentemente, ele estava avisando para ele que não tinha mais corpo ou rosto, por isso precisava da cara dele, do “Crazy Rabbit”. Angel Molina não entendeu bem o que ele queria dizer, mas podia sentir a vibração do finlandês quando aqueles pontos todos foram acrescentados no seu “chart”, só por causa daquela olhada no espelho. E iniciou a perigosa travessia.

Alheio a esses detalhes, finalmente, o senhor Preston anunciou o valor do cheque: cinco milhões de dólares. Nem a Lucille, nem seus filhos, conseguiram disfarçar a surpresa e a alegria. Pelo menos, naqueles momentos, ela se esqueceu do marido Angel. Mal podia acreditar no valor que estava ouvindo. Pegou o cheque, conferiu, agradeceu e saiu com as crianças.
No caminho para o carro, foi falando com as crianças, o que na verdade era uma justificativa para si mesma:
-O seu pai deve estar feliz. Tenho certeza que sim. Ele sempre dizia que a coisa mais importante do mundo para ele eram vocês. Que ele faria qualquer coisa...
No seu subconsciente, uma voz martelava insistentemente: “um cérebro de 5 milhões de dólares, um cérebro de 5 milhões de dólares...”

Lá, no mundo dos jogos, Angel Medina ainda lutava consigo mesmo. Tinha sido programado para pensar que, se matasse aquela mulher e conseguisse a taça, seu companheiro de lutas, Kaaprel Ikola, poderia beber da taça e ele, poderia voltar a sua vida normal, viver como um pai de família, etc.. Mas ele jamais voltaria. Voltaria sim, mas para o começo do corredor, onde recomeçaria a luta. Aí, porém, não se lembraria de mais nada e seria um novo jogo. Por enquanto, tinha decidido que iria assassinar a mulher com o rosto de Lucille, ele precisava fazer isto. E foi o que o Crazy Rabbit fez. O sangue estava correndo pela face lívida da mulher, mas, a essa altura, Angel Medina, o Crazy Rabbit, já estava de novo no começo do corredor, reiniciando o jogo, com outros milhões de participantes.







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Wednesday, July 13, 2016

O santo que levou um tiro



O santo que levou um tiro

O doutor Isidoro era, de longe, a pessoa mais respeitada na cidadezinha. Era, até onde se sabe, a única coisa certa naquele lugar, cheio de histórias mal explicadas. Começou com o nome do lugar: Almirante. Na verdade, o pequeno grupo que organizou a comunidade, queria mesmo era fazer um mirante no Morro do Sapo. Daí viria o nome: “Mirante”. Alguns queriam que fosse “Cidade dos Mirantes”, mas daí o professor de Português ponderou que teria de haver mais de um. Deu na mesma, pois na hora de fazer o tal do “manifesto” para iniciar o movimento para a criação do município, o Lourival escreveu “Almirante” e, talvez para não o contrariar, assim ficou. Afinal de contas, seu pai era o maior dono de terras da região.
O santo padroeiro da cidade era o São Tarcísio. Foi ideia da beata Marinalva, viúva. Seu marido tinha sido um católico fervoroso e, quando criança, tinha cumprido o importante ofício de coroinha. E ela descobriu que o santo era o patrono desses, dos acólitos e dos cerimoniários. Como não havia nenhum outro santo ou santa para concorrer, o título vingou. Ademais, era um nome bonito. Quem fez a estátua foi o Cícero. Segundo ele, era uma cópia fiel de um desenho da Idade Média que retratava a figura. Desconfio que isso era conversa mole. Deve ter misturado um São Sebastião com um São Benedito. O Cícero era cheio de histórias. Além disso, o pároco, quando foi buscar o santo na oficina dele, viu duas telas com a imagem deles, servindo como modelo. Estava óbvio que ele se inspirou ali. Misturou que era para ninguém suspeitar. O padre desconfiou, mas achou melhor não julgar. Além disso, o que manda é a fé do povo.
Gente cheia de crenças, de contos contados nos cantos, de simpatias que não funcionavam. Um assunto recente era a saúde do Benevides. Alguns diziam que ele estava nas últimas, outros diziam que tinha uma doença incurável. Ele tinha uma certa idade, mas não era hora de ir ainda. Tinha muita dor, o coitado. O melhor mesmo era ele ir descansar no céu. Viver assim, para quê? O padre nunca tinha falado nada, mas todo o mundo dizia que ele tinha confessado ao homem de Deus que queria ir. Que rezassem ao Senhor para levá-lo dessa vida de sofrimentos. Vai se saber o que é verdade ou não, nessa terra perdida e esquecida de todos. Havia uma outra história, mas dessa ninguém sabia, só o vigário. Segredo de confissão. O Simão tinha uma arma, não se sabe onde tinha arrumado. Confessou para o homem de Deus que estava com umas ideias. Estava pensando em tirar a própria vida. Não sabia como pagar uma dívida enorme que tinha. Ia perder a casa para o Benevides. Esse nem estava pressionando. Não se sabe se era porque tinha um bom coração ou porque tinha tudo ali, garantido no papel, era só esperar. Além disso, com tanta dor que tinha, não tinha como se preocupar com isso, pelo menos agora.
Estava chegando o dia do santo, quinze de agosto. Ia ter procissão e tudo mais. Era um acontecimento importante e todo mundo estava se preparando. O andor já estava todo enfeitado, pronto para ser carregado na rua principal. Aquele dia chegou, como todos dias chegam. Dia de sol, graças a Deus. E lá vai o povo cantando, rezando, uma verdadeira comoção. Estavam chegando bem perto da casa do Simão, que não tinha ido para a cerimônia, ensimesmado que estava. Até que seria uma boa hora para realizar seu intento suicida. Acabar com tudo, de uma vez. O filho pequeno ele tinha mandado para a casa da irmã, não queria que visse a cena. Deixou tudo ali, arrumado, depois que o menino saiu. Em cima da mesa, o revólver carregado, uma bala só. Do outro lado da rua, morava o homem que tinha muita dor, o Benevides. Ninguém sabia, mas ele tinha melhorado muito. No coração tinha certeza de que, finalmente, iria sarar.  E, ninguém sabia, nem o Simão, ele ia fazer um grande gesto. Ia conversar com ele, perdoar-lhe a dívida. Não tinha herdeiros, tinha mais duas casas de aluguel, além da sua. Para que fazer um homem sofrer daquele jeito, um homem viúvo, com um filho pequeno? Tinha até rasgado os documentos, ia lhe devolver no dia seguinte. Se alguém quisesse, poderia até atribuir o milagre ao São Tarcísio. Um padroeiro com milagre fresquinho na cidade, isso seria muito bom.
A procissão passava bem em frente às duas casas, uma em cada lado da rua. O Benevides, bem melhor agora, tinha arrumado sua poltrona bem em frente à janela, queria ver o São Tarcísio passar. Não era homem de muita religião, mas pensou até em agradecer. Coração de gente que sofre muito, acaba amolecendo. O Simão, do outro lado da rua, tinha ido até o quarto se arrumar. Não queria que o achassem mal arrumado. Não bastava a sangueira toda que iam encontrar?
Esse mundo tem cada coisa! Que cena aquela! Um suicídio para acontecer, um homem que não conseguia se perdoar. Do outro lado um homem sem fé, quase curado, perdoando tudo, pensando num futuro melhor para todos. Coração cheio de alegria só de pensar na cara de alívio do Simão, quando dissesse que não queria nada, que a casa ficasse para seu rebento quando estivesse adulto. Começar tudo de novo. Entre os dois, o santo passando, gente rezando, o povo cantando. Era uma coreografia, preparada pelos homens, por homens que fazem seu destino, de um jeito ou de outro.
Mas quem disse que o destino estava de acordo? Eu já não tinha dito que a Cidade de Almirante era cheia de contos mal contados? Olha só o que aconteceu. O filho do Simão não encontrou a tia em casa, tinha saído, ela que nunca saía. Voltou, entrou em casa e viu aquele brinquedo estranho, nunca visto antes, sobre a mesa. Curioso, começou a mexer na arma, sem saber do perigo. Ia perguntar para o pai o que era aquilo. Sabia que o pai andava triste, aquilo era um bom motivo para puxar conversa.
Bem na hora em que a reza parou e ia começar um cântico entoada pelas “filhas de Maria”, ouviu-se um sibilo no meio da procissão. Não se sabe por que, todo mundo olhou para a estátua em cima do andor. O menino, sem querer, tinha disparado a arma? A Dona Tiquinha foi a primeira que viu. Um buraco bem no peito do santo. O primeiro milagre ela já anunciou. Aquilo era buraco de bala e a estátua não se despedaçou. Milagre legítimo, todo mundo podia ver. Mas não era só isso. Logo alguém notou o corpo do Benevides, inerte, na poltrona e deu um berro. Alvoroço total. Sob os protestos do padre, puseram o andor no chão. Em volta, alguns clamavam, gritavam. Milagre, milagre! Lá dentro, outros viram que um tiro certeiro tinha entrado no coração do Benevides. Logo alguém lembrou. São Tarcísio tinha, finalmente, atendido ao pedido do pobre homem. Ele queria descansar no paraíso. O tiro foi direto do coração do santo para o coração do sofredor. Mais um milagre legítimo. Viva Almirante, que nunca tinha visto algo assim. Cidade abençoada! Um tiro de arma que não existia, dado por homem nenhum! Quem podia duvidar? Acabando, assim de vez, com o sofrimento de um pobre homem! Nem uma alma só suspeitou que santo não dá tiro. Muito menos São Tarcísio, padroeiro que era de coroinha e tudo mais. Mas quem cala a boca do povo, quando ele quer falar?
Quando Simão saiu para a rua por causa da confusão, ficou sabendo de toda a história e sua cabeça começou a rodopiar. Era para ele morrer, quase o filho morreu, e quem morreu, de verdade, tinha sido o homem para quem ele devia. Ele precisava explicar para o povo aquela confusão. Ia tomar responsabilidade, aquilo não estava certo, não. Mas, e ele conseguia? O povo estava em transe, alucinado. O vigário talvez desconfiasse de alguma coisa. Mas com aquela fartura de fé, nem ele ousou se opor. Era melhor deixar assim, Deus tinha seus próprios caminhos e não era o caminho dos homens. Com o tempo, o próprio Simão passou a acreditar na história. A gente precisa acreditar em alguma coisa, não precisa?
Tinha uma coisa que eu não ia falar, mas resolvi botar para fora agora. Chega de tanta enganação. Sabe o doutor Isidoro? Ele tinha sido um enfermeiro de um grande hospital, numa cidade grande. Sempre quis ser médico, mas, você sabe, isso não é para qualquer um. Chegou um dia em que ele foi convidado para fazer um curso rápido de aperfeiçoamento na sua profissão, dentro da Faculdade de Medicina. Recebeu um diploma bonito, com o nome da Instituição. Embaixo dizia que ele tinha completado, com louvores, o “Curso de Aperfeiçoamento em Enfermagem”. Muita gente só olhava o nome da Faculdade de Medicina lá em cima e já deduzia que ele era um doutor. Gente que não o conhecia, é claro. Não vou contar toda a história, mas você já sabe... Acabou morando em Almirante onde ninguém o tinha visto antes. Médico lá não havia, muito menos hospital. E ele sabia que remédio dar, o que falar para quem sentia dor. Conhecia todos aqueles nomes que só os médicos sabem. Sabia tirar pressão e tudo mais. Para aquele povo, não fazia diferença nenhuma e ele cobrava muito pouco.
Eu não ia contar essa parte, mas sabe de uma coisa? Chega de história mal contada!




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