Monday, June 18, 2018

Os heróis daqueles tempos



Os heróis daqueles tempos

Eu sabia, apesar de criança, que algo muito especial estava acontecendo. Não havia nada de concreto, nada que eu pudesse, com minha cabecinha infantil, entender e falar. Um clima festivo podia ser notado no ar, nas ruas, em todo o lugar.
Em casa, além de nós, havia outras pessoas circulando, falando, sorrindo. No rádio, uma caixa de madeira envernizada, havia uma luzinha verde, redonda, que mudava de intensidade a todo momento. O locutor falava animado, explicava. Minha mãe preparava alguma comida gostosa, um cheirinho danado de bom. Todos, sem exceção, estavam felizes. Passava gente pela cozinha, pela sala, a casa era de todo mundo.
Depois começou uma coisa mágica. O homem do rádio começou a falar animado, às vezes muito rápido, às vezes gritava. Sua voz parecia vir de longe, não sei se era a transmissão ou minha memória que agora me falha. Eu não entendia nada, mas me lembro de que ele falava uns nomes que eu conhecia: Didi, Vavá, Pelé, Garrincha, Zagalo. Ele repetia tanto esses nomes, que parecia mais a escalação do time, do que a narração do jogo. Alguém, um dia, me falou com raiva, que ele repetia tanto o nome dos nossos heróis porque ele nem sabia pronunciar os nomes dos suecos. Eu acho que é mentira. Eu acho que só nosso time pegava na bola mesmo. Como foi que nós ganhamos de 5 a 2?
Eu fui contagiado pela emoção, todo mundo torcia, todo mundo vibrava. Eu nunca vi um povo tão feliz. Foi então que eu entendi que nós éramos um povo louco por  futebol. Era o dia 29 de junho de 1958, final da Copa do Mundo na Suécia, e eu morava em Perus.

Tudo isso foi antes da Revolução e de tantas outras coisas mais que aconteceram em nossa terra. Cansei de discutir, de opinar quem tem e quem não tem razão. 
Naquela hora, para mim e para todos que estavam lá, o Brasil era o maior país do mundo, o melhor, o mais importante. Não sei direito o que aconteceu depois, não consigo entender. Acho que até desisti. Talvez tenha sido tudo uma  ilusão de criança. Às vezes, porém, me dá uma saudade doída e doida daqueles tempos...

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Saturday, June 16, 2018

Um pássaro azul

Um pássaro azul



O Jenuíno foi o primeiro. Foi ficando esquecido, esquecido, até não se lembrar de mais nada. A gente olhava para ele e ele ficava com aquela cara de interrogação. Não sabia do que a gente estava falando. Seu sorriso era distante, uma vaga impressão de que sabia do que se tratava. Quando o Alberto ficou exatamente do mesmo jeito, e ele era o melhor amigo do Jenuíno, muita gente pensou que era uma coisa que “pegava”. Existe gente que é ignorante, não entende como funcionam essas coisas de bactérias e vírus. Eu também não entendo muito, mas pelo menos sei que loucura não é contagiosa, não dá para pegar. O fato é que o doutor da cidade também descartou essa possibilidade. Disse que o único jeito de descobrir essas coisas era fazendo exames. Coisa sofisticada, em laboratório. Ele já estava providenciando. Essas coisas não podem ser feitas assim, no mais ou menos. Ciência é coisa séria, não é coisa de opinião, muito menos coisa de comadre conversando na rua.
De repente, a coisa pegou fogo. Você pode argumentar o que quiser, mas contra fatos não há argumentos. O doutor Euzébio não conseguiu mandar ninguém para fazer exame na cidade grande. O motivo foi bem simples e ao mesmo tempo assustador. Ele também “pegou” a estranha doença. Coisa de louco, sem querer fazer jogo de palavras com coisa tão séria. Não clinicava mais, só balbuciava umas palavras e tinha aquele mesmo olhar perdido dos outros dois. Agora estava claro. Não só aquilo era coisa que “pegava” como também era coisa do capeta. Imagina só, o próprio doutor. Um homem formado, que sabia das coisas, que conhecia higiene como nenhum outro, pegar uma coisa daquelas. Já pensou quanta cultura ali, desperdiçada?
 O fato é que os moradores começaram a ficar com medo. Tinha gente que fervia água, tinha gente que punha álcool em tudo. Que tolice. Como é que álcool vai impedir uma coisa dessas? Ignorância é uma coisa triste. É verdade que, às vezes, as coisas são tão complexas que até mesmo pessoas inteligentes não conseguem entender. Veja o caso do doutor. Nem ele sabia o que estava acontecendo. A ignorância é também uma coisa relativa. Até o mais sabido de todos pode ser um ignorante. Ele sabe um monte de coisas, porém não sabe outras que estão muito acima dele. O fato é que para entender o que estava acontecendo ali, tinha de ser alguém com uma sabedoria muito grande. Não era qualquer um que podia explicar. Com certeza, não.
A única coisa que se sabia era que aquilo era uma coisa esquisita. Primeiro, dois amigos. Depois o doutor que estava tentando descobrir uma solução. Pode ser coincidência, mas parecia que existia alguém por trás daquilo. Os dias foram passando e os três apareciam de vez em quando na rua, cumprimentavam as pessoas, mas não estavam melhorando. Falavam coisas sem sentido entre eles e com a gente também. Isso à parte, o resto era normal. Comiam, bebiam, andavam pela cidade. Devagarinho a gente foi se acostumando com a ideia. Acho que para isso não acontecer, o ente que estava provocando tudo isso, resolveu dar uma mostra de poder. Em uma só semana, atacou mais cinco. Um parente do doutor, dois tios de sua mulher, um primo do Jenuíno, outro conhecido do Alberto. Tinha lógica e não tinha. Eram parentes ou amigos. No entanto ali na cidade, quase todo mundo acabava sendo parente ou relacionado de alguma forma. Só podia ser doença ou uma coisa sobrenatural. Uns três jovens, todos de certa forma ligados aos “atacados” – como agora eram chamados – resolveram sair da cidade. Nunca se sabe, podia ser mesmo contagioso.
A nossa pequena comunidade era muito isolada do mundo e a gente tinha quase de tudo que precisava por ali. Talvez tenha sido esse o motivo pelo qual ninguém decidiu procurar ajuda, ver o que estava acontecendo. Eu tenho cá para mim que o verdadeiro motivo era o medo. Medo de descobrir o que realmente era. Se fosse uma doença curável, tudo bem A gente fazia o que tinha de fazer. E se não fosse? De repente era uma coisa do mal, e a gente ia ficar numa situação comprometedora. Com essas coisas não se brinca. Do jeito que estava, não estava bom, mas mexer naquilo podia ficar pior. Ninguém falava as coisas claramente, mas dava para saber o que todo mundo estava pensando. Como disse, não era nada bom, entretanto era melhor assim do que ficar pior.
Eles não atrapalhavam ninguém, a gente foi se acostumado de novo e cada vez mais, as coisas foram andando. Todo mundo sabia que não ia ficar por aí. Tem coisa que não tem uma lógica visível, mas dá para saber que é o óbvio. Mais algumas semanas se passaram e mais algumas pessoas ficaram “atacadas”. Depois de alguns meses eram centenas, as pessoas nem avisavam mais. A cidade era pequena, tinha pouco mais de mil habitantes e chegou-se a um ponto onde havia mais “atacados” do que gente normal. Tirando o caso do doutor que tinha uma função muito complexa, os outros todos continuavam a cumprir suas funções sem muitos problemas. Faziam as coisas mecanicamente, como autômatos. Entretanto, a gente sabia que eles não estavam pensando, que seus cérebros não funcionavam.
Éramos agora bem poucos, os “sadios”. E a “coisa” parou por um tempo. Achamos até que tudo tinha acabado. Aí outra coisa esquisita começou a acontecer. Uns pássaros grandes, do tamanho de urubus, começaram a descer na cidade. Mas não eram pretos, não. Eram de um azul escuro, muito bonito. Também não eram agressivos. Ficavam por ali, andando ao invés de voar. Vez ou outra eles voavam um pouco, mas voltavam. Havia centenas. Ninguém podia dizer do que se alimentavam. Ficavam bem à vontade, não pareciam ter medo da gente. Às vezes pousavam sobre nossos ombros, bem amigáveis. Vá se entender. Se não fosse o problema que a gente já tinha, ia ser uma confusão danada. Mas o que era aquilo perto do que nós estávamos passando?

Finalmente todos ficaram “atacados”. A gente sabia que isso ia acabar acontecendo. Eu fui o último. Agora, aqui de cima, posso ver meu corpo, lá embaixo, andando pela cidade, fazendo as coisas que precisam ser feitas. Assim, sem saber o que está acontecendo. Mas sou eu mesmo que decido para onde meu corpo vai, o que vai fazer, o que vai comer. Não estou falando de meu corpo de pássaro. Estou falando do meu corpo de gente. Só não consigo falar, e estou me esquecendo de quase tudo. Mas agora, pelo menos, as coisas fazem sentido. Eu sou um belo pássaro azul, consigo controlar meu corpo. Só não dá para a gente conversar com os outros pássaros, quero dizer, com os outros habitantes da cidade. Mas a gente se entende. Voa um pouquinho, pousa lá na rua. A gente se vê por aí. Eu sou um belo pássaro azul. Bonito mesmo. Como disse, as coisas agora se encaixam. Claro, não têm explicação, a causa nós não sabemos. Mas quem sabe a causa de alguma coisa? A gente não sabe de nada, ninguém sabe como tudo começou. Claro, estou falando agora do mundo, do Universo. Como as coisas apareceram? Quem sabe? Nós não sabemos nada. Pelo menos, eu sei agora, que eu sou um pássaro azul. Bonito. Quando quero, posso voltar para o chão. Quando quero, posso voar. Isso é mais do que suficiente. Para que eu iria querer saber mais? Não precisa. Ser um pássaro, e ainda mais azul, é para mim, mais do que suficiente, pelo menos por enquanto...


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Wednesday, June 13, 2018

Amores modernos




Amores modernos

Amores modernos, cheios de carne,
criados online, com luxúria e suor,
sem compromisso e sem ambição.
Onde estarão os amores antigos
tão gostosos, cheios de charme?
Estariam gravados num disquete,
fora de moda, daqueles antigos?
Já os amores da última geração,
estão gravados em cilindros quânticos,
esperando um software formidável,
que lhes dê a vida e emoção?
Esta resposta eu não tenho não.
E acho que este é o fim da programação!

ooooooOOO0OOOooooo



O texto acima não faz parte do livro abaixo

Essa vida da gente

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Wednesday, June 6, 2018

Teia de aranha


Teia de aranha



De repente olhei e lá estava ela. Uma enorme teia de aranha. Ela se estendia da parede da casa até o arbusto próximo. O primeiro impulso foi me levantar da cadeira, na varanda, ir até lá, e com uma vassoura, destruir aquela coisa desagradável. Um pouco de preguiça me reteve ali, e por causa disso, a teia se salvou.
Comecei a analisar aquela obra de arte. A aranha, pequenina, estava quietinha lá no centro. Não sabia dizer se ela era venenosa, mas com certeza, laboriosa ela era. Do meio para as bordas, centenas de retângulos perfeitos, num crescendo... Uma perfeição de computador. O sol batendo naqueles fios...Era como se eles fossem feitos de ouro.
Tanto trabalho, tanta dedicação, e eu quase destruí tudo. Como aquela minúscula cabecinha, naquele minúsculo corpinho , tinha em seu DNA, toda aquela informação? Eu, com todo meu cabeção, nem fórmula  matemática sei resolver...
Da minha parte e, por enquanto, você está salva, prezada aracnídea. Amanhã  e depois, se eu não estiver por aqui, eu não sei não... É bom você se cuidar, o destino às vezes é cruel e o perigo está sempre à espreita.
Vocês, insetos, também tomem cuidado. Aquela rede linda, bem trançada, com perfeição sem igual,  não é um lugar para se brincar!. Não caiam lá: é onde a aranha faz seu prato para o jantar!


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Essa vida da gente

(crônicas e contos sobre o cotidiano)








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Monday, June 4, 2018

Velhas versões de mim





Velhas versões de mim

Decidi: vou enterrar
as velhas versões de mim.
Melhor, vou mesmo cremá-las,
colocá-las numa urna,
jogá-las no espaço sem fim.
Quero refazer os versos,
o reverso do que eu fui,
e enfim transformá-los,
na minha nova versão.
Quem sabe, agora, por fim,
eu consiga encontrar
no meio das cinzas do ar,
o inegável óbvio
que eu antes nunca vi?

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Sunday, June 3, 2018

Poeminha expresso para uma pessoa amada


Poeminha expresso para uma pessoa amada


Quando então te encontrar,
um grande abraço vou te dar:
daqueles que até fazem doer...
E não adianta reclamar,
pois senão com mais força ainda,
em meu peito vou te segurar!


ooooooOOO0OOOooooo

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Monday, May 28, 2018

As pílulas do Doutor Sampaio




As pílulas do Doutor Sampaio

O Léo não andava nada bem. Tristeza, depressão, falta de ânimo pela vida. Às vezes, tinha surtos de alegria intensa. Curtos, muito curtos. E ele não queria nem ouvir falar em médico. Psiquiatra, psicólogo? Nem pensar!
Chegou uma hora, entretanto, que não deu mais. Era um perigo deixar um rapaz naquele estado andando por aí, isso sem contar o sofrimento. A família deu um jeito, e, com jeito, levaram-no para o doutor. Esse era daqueles bem práticos. Conversa não adianta nada. Fez uns testes e receitou um monte de remédios. No começo, a própria irmã do Léo é que separava os comprimidos. Um branco, cinco azuis, duas vezes por dia. Havia também um amarelinho que era só à noite.
E não é que a medicação do Doutor Sampaio estava funcionando? Dois dias depois o Léo já estava bem melhor. Depois de uma semana estava claro que ele já podia cuidar de si mesmo e ingerir todas aquelas pílulas.
Um mês depois, uns dias antes da nova consulta, o rapaz sentou-se no sofá da sala. Estava feliz. Agora sim estava entendendo o que se passava com ele e queria continuar com aquele tratamento. Por falar nele, lá estavam, do outro lado, sobre a cristaleira, aquelas pílulas milagrosas. Branquinhas, azuis, amarelinhas. Um milagre da Medicina. Fechou os olhos por uns segundos e podia ver aquelas luzinhas coloridas brincando no ar. O azul às vezes se destacava, crescia, aumentava e depois ficava nebuloso. Depois era a vez daquele amarelo bonito que ia e vinha pelo ar. Depois todos os comprimidos se misturavam num perfeito arco-íris. De repente, o Léo se lembrou que era hora de tomá-las. Levantou-se e atravessou a sala, foi até a cozinha e voltou com um copo de água na mão. Pegou os três frascos e colocou-os na mesinha da sala. Abriu aquele com as bolinhas azuis e pegou cinco. Depois ficou em dúvida. Achou que eram cinco brancas e uma azul e não o contrário. Será? Mas por outro lado a azul parecia mais importante e resolveu pegar cinco de cada. Depois pegou as amarelos. Sabia que era um só e era à noite. Mas por uma questão de simetria, era melhor cinco de cada. Colocou-as na palma da mão. Antes de engoli-las, pensou como aquela azulzinha fazia bem. Tinha certeza de que ela era a mais importante das três. E ele queria ter uma noite feliz. Pegou mais cinco daquelas azuis. Só para garantir. Azul, cor de anil, cor da felicidade. Talvez fosse perigoso tomar tudo aquilo, pensou. Mas quando pensou, já tinha tomado. Recostou-se no sofá e alguns minutos depois já se sentia mole e gostoso. Dormiu profundo, o Leo. O profundo mais profundo de sua vida.
Nunca mais acordou.
Alguns dizem que foi suicídio, outros que foi um acidente. Que comprimidinho poderoso aquele azul. Azul, azul cor do céu.

Não sei por que me lembrei das pílulas de vida do Doutor Ross. Que saudade!

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À procura de Lucas





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