Sunday, February 10, 2019

A latinha de extrato de tomate




A latinha de extrato de tomate

Era uma festa quando um circo ou um parque de diversões chegava ao nosso bairro. Podia ser mambembe, geralmente era. Nosso coração de criança não fazia a menor distinção. Era tudo uma festa. Os caminhões começavam a chegar, descarregando todo aquele mundo maravilhoso. Gente diferente, andando para lá e para cá. Logo, logo, as arquibancadas começavam a ser montadas, a lona começava a ser içada. Quando era um parque, como se fosse mágica, aquelas peças todas se organizavam e lá estavam a roda gigante, o carrossel, os carrinhos. Parecia uma coisa de outro mundo.

Entretanto, eles cobravam ingresso. Desconfio que eles realmente precisassem, mas minha vontade de entrar era tão grande que achava aquilo injusto. À noitinha, lá de cima, do Morro São Jorge, admirava aquela lindeza, com as luzes acesas, tudo funcionando. Precisava pensar rápido, meu pai certamente não tinha sobra para eu gastar numa coisa tão fútil. Tinha de fazer alguma coisa, o espetáculo era imperdível.
No dia seguinte, bem cedo, ia do outro lado da linha de trem, subia pela Avenida Sílvio Campos, virava à direita na rua do Sindicato e ia até a divisa com a Companhia Melhoramentos. Havia a cerca. Os pinheiros, do lado de lá, que estavam esperando serem cortados para virarem papel, não sabiam da divisa e, sem querer, despejavam as pinhas do lado de cá. Devo confessar, às vezes, eu fazia uma pequena incursão, os Weiszflog que me perdoem, e lá estava eu colhendo as pinhas do outro lado também. Tudo ia para meu saco de estopa. Chegando em casa, minha mãe cozinhava os pinhões para mim. Daí ela me dava uma latinha de extrato de tomate Elefante, vazia e bem limpinha.  Era a medida certa para vender. À noite, eu colocava os pinhões cozidos no mesmo saco de estopa, “estacionava” perto da entrada do circo ou do parque, enfiava a latinha – a medida oficial -  no meio dos gostosos pinhões e aguardava os fregueses. Era um negócio muito bom. Eu vendia bem baratinho, tudo ia num instante. Dava gosto ver aquelas cascas todas espalhadas no chão de terra. No dia seguinte eu tinha o ingresso na mão. Não havia ganância, nem vontade de faturar. Tudo que eu queria era o dinheiro suficiente para o ingresso.

Invariavelmente o “show” era maravilhoso. Pelo menos para mim. Eu adorava.
Ainda hoje eu me lembro da latinha de massa de tomate e do elefantinho. Tenho saudades dela por causa da macarronada gostosa que a Dona Eleta fazia, mas também por causa do circo. Tempos bons, esses... 

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Tuesday, January 29, 2019

A Dona Lígia e o Patinho Feio


A Dona Lígia e o Patinho Feio

Mal sabia, na minha meninice, "
que a vida era um eterno perder e ganhar, 
uma renovação a cada dia.

Todo aprumado, de uniforme limpo e passado e, principalmente, revestido da reasposabilidade de um garoto de 7 anos, eu desço a enorme ladeira para depois subir outra e chegar à minha escola, o Grupo Escolar Dona Suzana de Campos. Na minha pasta, aquele estojo bonito, cheio de lápis coloridos e a caneta tinteiro.
Lá chego, entro na fila junto com os outros, e subo as escadas. Cuidadosamente, espalho meu material pela velha escrivaninha de madeira, dupla, com cadeiras atreladas. A minha professora, como gostava dela, era a Dona Ligia. São bem mais de 60 anos e posso me enganar, mas acho que era morena, magra e bem alta. Para mim ela era um mistério gostoso, um ser superior. Fazia o máximo para fazer tudo direitinho, como ela mandava. Os outros meninos, eu não os conhecia, nem me importava muito com eles. Havia aquele com cabelos ruivos, altivo, cheio de si, bem a meu lado. Mais tarde soube ser filho de um chefe  da companhia de cimento. Fazia sentido. O que me incomodava nele, não era ele, em si, era seu lápis. Tinha um conjunto de pequenas penas coloridas no topo. Parecia exibicionismo, tentando assim obscurecer o esplendor de minha professora.
Os meses foram se passando e o final do meu primeiro ano ficando mais próximo. Sabia que iria perder a Dona Lígia  e isso me incomodava. Mal sabia, na minha meninice, que a vida era um eterno perder e ganhar, uma renovação a cada dia.
Finalmente, chegou o dia da última aula. A professora anunciou que havia um prêmio para o melhor da classe. Enquanto pensava na importância daquele momento, ouvi meu nome. Demorou um pouco para eu entender. Eu tinha sido o estudante mais aplicado, com 88 pontos. Devia ser bastante, pela pomposidade com que ela anunciou o evento. Estava radiante. É verdade que estava dividindo o meu posto com o Osvaldinho, meu colega de classe. No entanto, eu me sentia o dono de tudo, era melhor do que o menino de lápis de penas, eu era o preferido da Dona Lígia. Com muito orgulho fui até a frente pegar meu prêmio: um livro colorido, cheio de desenhos, O Patinho Feio.
Esqueci de muita coisa daquela época, mas da Dona Lígia, eu não me esqueci. Até agora me lembro de sue rosto fino, moreno, simpático... Amor de menino pela professora não se esquece jamais.

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Monday, January 28, 2019

Tempo de tempestade









Tempo de tempestade

Navego nesses tempos,
como se navega na tempestade.
Ondas grandes e pequenas,
me cobrem e me descobrem,
como se eu nada fosse...
Tento lutar, depois me acomodo,
quem há de o mar vencer?
Às vezes, subo com a onda,
bem na crista, lá em cima...
E é aí que vejo a linda praia,
cheia de luz, cheia de sol!
E me encho de esperança, de vida,
antes  de novamente afundar...
Ar, mar, é preciso esperar...


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Estranhas Histórias
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Wednesday, January 9, 2019

Não se fazem mais velhinhos e velhinhas como antigamente



Não se fazem mais velhinhos e velhinhas como antigamente

Quando eu era um garoto, ou um “piá”, como dizia naqueles tempos o meu tio Giuliano, uma pessoa ter 40 anos era estar perto do fim. Talvez esteja exagerando, mas que significava que a pessoa tinha dado o primeiro passo na fase da velhice, isto, definitivamente, podemos afirmar. Cinquenta anos era oficialmente ser velho, com direito a carteirinha e tudo mais. Fazer sessenta anos era um privilégio para poucos e essas pessoas eram consideradas uma exceção. Chegar aos setenta era um acidente do destino. Alguém ter oitenta era certamente uma lenda ou uma mentira. Nem vou falar de números mais altos.
Tudo mudou.
Agora muitas pessoas só casam depois dos quarenta. Os que casam. Há também o oposto: os que se casam o tempo todo; uma, duas, três vezes... Com cinquenta, as pessoas começam a ficar maduras em termos de relacionamento. Claro, aqueles que têm vocação para relacionamento sério. Sessenta anos é uma idade de um pouco de insegurança. Homens e mulheres ficam com ciúmes e fazem briguinhas de amor. Iguais àquelas que faziam os namoradinhos de outrora. Com setenta, os casados começam a pensar em um relacionamento mais definitivo, para, talvez, com 80 se assentarem. Não sei onde vamos parar. A “idade do lobo” que era aos quarenta anos, eu nem sei mais se ainda existe. Ninguém mais falou dela.

Sei que estou me excedendo na minha análise, mas há muita coisa de verdade nisso tudo que escrevi. O fato é que, certamente, não se fazem mais velhinhos e velhinhas como antigamente.

oooooOOOooooo

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Monday, December 31, 2018

Ano vai, ano vem


Ano vai, ano vem

Ano vai, ano vem, curtimos esperanças que ficaram, lamentamos sonhos que não aconteceram. Juntamos o saldo do não realizado com novos desejos e pulamos, alegres, de um ano para o outro. Recalculamos tudo, reforçamos nossa capacidade de sonhar e olhamos para a frente. Para cada tranco do novo ano, recalibramos nossas expectativas, ajustamos nossas metas. É o que melhor fazemos como seres humanos. Criar fantasias, brincar com elas, nutri-las, alimentarmo-nos delas.

É o que melhor sabemos fazer.. Na verdade, essa é a essência de nosso ser, é o que somos.

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Wednesday, December 26, 2018

A Capela


A Capela
(lembranças do seminário, capítulo do conto "Casa dos Loucos)

“Então, o Rei dirá também aos que estiverem à sua esquerda:
 Apartai-vos de mim, malditos, para o fogo eterno,
preparado para o diabo e seus anjos.”( Mateus 25:41)




A capela tinha poucas luzes naquele dia, mas dava para se ver que os bancos e genuflexórios eram de madeira de lei e os vitrais eram enormes e coloridos. Os santos eram estátuas solenes e nobres e pareciam nos olhar com um misto de compaixão, solidariedade e piedade. A cúpula era muito alta e fiquei pensando nas pessoas que construiram a capela, como chegaram lá no alto para trabalhar. O altar central era enorme e sobre ele havia uma cruz de metal, talvez ouro. Candelabros dos dois lados, uma grande e principal imagem de uma santa, solene, quase uma deusa. De um dos lados, um grande púlpito de madeira, elevado, com uma pequena escada de acesso. Não olhei para os outros meninos mas acho que estavam impressionados ou assustados como eu. A capela era muito diferente da igreja da minha paróquia onde eu havia sido coroinha. Lá eu dominava tudo, sabia onde estavam as coisas, o que significavam, conhecia a nossa santa, a Santa Rosa. Aqueles santos que via agora pareciam ser superiores, pareciam nos advertir, embora tivessem aquele olhar meigo. Mais tarde aprendi a gostar da capela. Nela podia me refugiar nos momentos de tormenta, de angústia e de dor que meu coração de menino mal podia suportar. A Ave Maria, solenemente executada no órgão, muitas vezes me fez voar para fora daquelas paredes e pairar sobre campos verdes e calmos. Naquele primeiro contacto, no entanto, tive a primeira grande revelação sobre o inferno. O monsenhor com crueldade e profundidade revelava as responsabilidades de quem tinha vocação. Ele falava de um pulpito sombrio e autoritário e naquele dia a capela me amedontrou. Minha alma de menino não via outra alternativa que não a de seguir em frente numa vida de sacrifícios pois qualquer outra seria minha perdição. Havia tantas coisas das quais eu gostava na minha meninice e pelo que eu entendi, tudo teria de ser deixado para trás. Não me lembro do resto da noite, a não ser de muita reza, de um grande dormitório sombrio e de faces de meninos muito diferentes dos da minha rua. Foi a primeira vez que alguém mostrou para mim o Inferno como uma coisa real e possível. Eu só conhecia um inferno para gente muito ruim, completamente fora de minha experiência, de minha vida. O Monsenhor trouxe um Inferno real, vivo, um Inferno que poderia ser nosso, caso não agarrássemos com força a nossa vocação.Tive medo, muito medo. Pensei de novo no rosto da virgem, suave, comprensivo e fiquei confuso.
              
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Sunday, December 9, 2018

O discreto charme da elite



O discreto charme da elite
(para quem quiser entender...)

Na sala de jantar descrita pelo Gil e pelo Caetano, os burgueses estavam ocupados em nascer e morrer. Não era um charme tão discreto como sugerido pelo Bunuel, porém. Terminado o banquete, vestiram-se com roupas reais e foram até a sacada do prédio. Agora eram a realeza. Mais até.
Lá de cima viram o povo se debatendo. Uns eram contra, outros a favor. Não sei de quê. Uma coisa a ser explorada. Os que eram a favor faziam os preços das mercadorias subirem. Faziam os preços descerem os que eram contra. Ou era vice e versa? E a nova monarquia apostava em uns e outros e sempre ganhava. Era uma beleza aquela peleja toda. Alguém sugeriu que estava ficando perigoso. Poderia haver brigas de verdade, até uma guerra. Um deles sugeriu que, nesse caso, eles fariam a intervenção. Além do mais, se não houvesse mesmo jeito, se uma luta acontecesse de verdade, então eles poderiam vender as armas. Uns nobres fabricariam, outros venderiam.
Era bonito, pelo menos para eles, ver aquela disputa de cores. Pessoas enraivecidas se atacando. Essa era a parte do circo. A parte do pão – o banquete – já tinha acontecido. Alguém corrigiu que o pão e o circo eram para o povo, não para eles. A realeza tinha coisa melhor. Jogaram então comida para a população faminta. Mandaram alguém organizar as brigas, de forma que virassem diversão e não uma simples guerra. Assim, poderiam ter um intervalo, ter mais um jantar, lá dentro.

Novamente sentaram-se à mesa e voltaram a ser burgueses comuns. Comendo e bebendo. Quando houvesse outra briga, voltariam ao balcão. Discretos, charmosos, poderosos.

Vídeo: PANIS ET CIRCENSES - Marisa Monte

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