Wednesday, August 24, 2016

O Jônatas está com ciúmes


O Jônatas está com ciúmes


Depois de tantos anos de casado, o Jônatas está com ciúmes da mulher. Justo ele que sempre fora tão seguro, tão confiante. Começou há algumas semanas  atrás. Ele não tem nada de concreto, para dizer a verdade, não existe nada de concreto. É a cabeça dele. É que ela fica falando com o outro  fulano o tempo todo. Não é nada comprometedor. Um olá, um bom dia. Às vezes pede para ele fazer uma ligação para ela, pergunta sobre o tempo. Esse tipo de coisa. Não há mal algum nisso, pelo menos eu não vejo. É verdade que ultimamente ela tem pedido para ele cantar umas músicas, chegou até a pedir para ele identificar uma música que eles estavam ouvindo no rádio do carro. É óbvio que, se existisse algo de errado, ela não iria fazer ali na cara dele, certo? Talvez seja o jeito que ela fala, tão concentrada, tão atenciosa.  Com ele, quero dizer  o Jônatas,  quando ela fala, ela não presta tanta atenção assim.  Bom, antes de você pensar mal da esposa do sr. Jônatas, eu vou explicar. Não que o Jônatas também não saiba. Ele sabe sim, ela explicou tudo para ele. Você já vai entender.  Ela comprou um desses telefones novos, sabe, esses que reconhecem a sua voz e seu rosto. É com o telefone que ela vive falando. Quando ela acorda de manhã, o danadinho – é o que ela explicou para o Jônatas – reconhece o rosto dela e já liga. Imagina só... O sr. Jônatas, quando era pequeno, ainda viu aquelas telefonistas que mudavam os fios de telefone de um buraco para o outro para transferir uma ligação. Agora sua esposa fala “oi” para o tal do Galaxy, acho que esse é o nome do safado, e ele atende na hora. Daí pergunta sobre o tempo, - e é isso que machuca, ela ainda nem falou bom dia para o coitado do Jônatas - e ele dá a previsão.
O pior de tudo que existe mais um tal de “Shazam”- deve ser um superhomem – que fala para ela qual é o nome da música que está tocando. E ainda manda a letra para ela e tudo mais. Como é um superhomem, nem pus na conta, pois daí seriam dois. Acho que o Jônatas tem razão em ficar com ciúmes. Eu me lembro de quando eu era professor de inglês, há muitos anos atrás. Tinha um trabalho danado de arrumar a letra da música em inglês, bater à maquina, arrumar um disco e uma vitrola para que os alunos pudessem acompanhar. Agora esse tal de Shazam faz tudo sozinho, qualquer música, na hora. O Jônatas tem razão, embora seja tudo eletrônico, virtual e sei mais lá o quê, machuca ver a esposa, bem carinhosa, logo de manhã, falando ”Hi, phone, good morning” ( isso mesmo, ela fala em inglês com ele), toda sorridente. Não sei como o Jônatas aguenta...
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Sunday, August 21, 2016

O oitavo pecado



O oitavo pecado

Há seis coisas que o Senhor odeia,
sete coisas que ele detesta:
olhos altivos, língua mentirosa,
mãos que derramam sangue inocente,
coração que traça planos perversos,
pés que se apressam para fazer o mal,
a testemunha falsa que espalha mentiras
e aquele que provoca discórdia
entre irmãos.
 (Provérbios 6:16-19)

Damian encontra Riana

Damian era o nome dele e Riana era o nome dela. Por acaso se encontraram e por opção se enamoraram. Juntos ficaram antes mesmo de se conhecerem bem. Coisa do destino, coisa do destino premeditado. Quem era Damian, quem era Riana? Ninguém sabe. O pouco que sei, vou colocar aqui. Sem restrições. Uma pintura escrita é o que vou fazer, gráfica fizera se fosse um pintor. Tire suas próprias conclusões, que as minhas não valem. São tendenciosas, vão pender para um lado. As suas também vão pender. Mas aí as pendências são suas e a responsabilidade não é minha. Não cabe a você, muito menos a mim, julgar. Os fatos estão aqui, do melhor jeito que achei de contar.
Depois que se encontraram, os dois não são mais os dois. São o que resultaram da colisão. Falar “colisão” talvez seja um exagero, mas é o que eu sinto e como eu estou no encargo de narrar, é a palavra que escolhi. Antes, porém, cada um era si mesmo. A Riana era uma moça regular. Mais bonita que feia, só fazia coisa errada quando não tinha jeito, era espiritual desde que a carne não atrapalhasse. Uma mulher do mundo, mas não do jeito que normalmente se entende. Era, enfim, uma mulher regular, se é que tal espécie existe. Foi tudo uma quase mesmice até então.  Nem buracos, nem altos voos. Só ela sim, só ela e sua regular, comum vida de mulher. Sua vida, seus passos, sua meninice, sua juventude, seu começo de ser mulher. Nem trancos, nem barrancos, a não ser os pequenos, aqueles que estão presentes na vida de todos nós.
Não foi no bar, não foi no clube, nem em festa nenhuma.  Por acaso, isso sim, num café, numa bela manhã de sol. Um sorriso, uma desculpa, uma pergunta e ele se apresentou. Telefones anotados, destinos marcados, assim é que a vida é.
Já do Damian, nem sei o que posso dizer. Porque o que sei agora é só o que eu fiquei sabendo depois dele encontrar a Riana. Não sei de seu começo, de suas procedências, de seus antecedentes.  Só posso imaginar. E isso não quero. O acontecido aqui, por si só, é demais. Para que somar conjeturas do passado? Talvez um passado ainda mais distante que, na verdade, nunca passa, continua voltando, assombrando. E, posso lhe dizer, Damian não é alguém que você deva por nas suas preces. Não tem validade, não tem remédio e muito menos razão. Seria prece jogada fora, o que seria uma pena, num mundo com tanta precisão dela. Mas não se assuste não, os atos do Damian, as coisas que ele fez, são coisas normais, do dia a dia, de todo lugar. Não que seja coisa que você veja sempre, mas coisa que sempre acontece, isso é. É sim. Mas por que colocar a carroça nas frentes dos bois?
Marcaram o primeiro encontro e foi bom. Conversa muita, ele nada demais tentou. Ela não precisava, mas ainda assim mesmo se reservou. Resguardo é bom sempre. Era assim que Damian queria, era assim que ele gostava. Ninguém gosta de mulher oferecida. Menos hoje em dia que há tantas delas. Mas os sentimentos - se é posso chamá-los assim, que Deus me perdoe - foram, segura e lentamente crescendo. Conversas boas, ah, o Damian sabia conversar. Conversa boa, de danar.  Só carinhos, beijos quentes, só uma amostra, só isso queria o Damian mostrar. Estava ali para coisa grande, fatura alta, não deveria estragar tudo com trocos pequenos. Damian sempre foi bom de avaliar, conseguir o máximo de tudo que aparecia à sua frente.
Foi num dia belo de sol. As coisas grandes acontecem em dias de sol. Se ninguém falou isso, vou falar aqui. Esse foi um dia importante. Não houve muita coisa, mas houve decisão. Formulação. Escolha. As maiores escolhas não são ditas em voz alta. Não são expressas em palavras. Estão bem lá no oculto da mente, fervendo, querendo acontecer. A única coisa que se diz é que aquilo não pode acontecer, não deve acontecer. Mas é tudo mentira da mente. Você já quis, você já decidiu. Não pensa com palavras, não diz as palavras. Truque barato da mente. Se não diz, se a palavra não sai, você não concordou ainda. Lá nas profundas do cérebro, entretanto, decidido está. Firme, escrito na rocha do invisível. Sabe disso o Freud e outros também. E quem é um contador de histórias para contradizê-los?  Estou sempre divagando, mas sei por que isso é assim. Medo de enfrentar os acontecimentos, mesmo só na narração. Dá até um frio na espinha, mas devo cumprir minha obrigação. A de Damian e de Riana era de enfrentar o destino, a minha é de contar o sucedido. O mundo precisa de esclarecimentos e é por isso que estou fazendo a minha parte. Repito, não julgo, só conto, dentro do que pode minha pobre habilidade de usar os vocábulos. Devo advertir, porém, que para certas coisas que estão por vir, não há vocábulos, nem palavras, nem motes, nem rimas suficientes ou adequadas. Estou tomando folego e prometo, vou continuar.
Foi num belo dia de sol, como estava dizendo. Damian falou coisas doces, coisas graciosas. E ele falava de um jeito gostoso, bom de se ouvir. Junto com as palavras, bem ali no banco do parque, ele fazia carícias também. Suave passava as mãos nos braços da moça Riana, que ali mais parecia uma adolescente fervendo de desejo. Os pelos se esticavam sobre a pele, num alvoroço, tentando entender o porquê de tanta vibração. Daí um sussurro nos ouvidos. Eu disse já e reafirmo, esse Damian era um danado com o linguajar. Falava coisas de um jeito que não havia jeito de não se notar. Ele não foi muito além nos gestos, mas falou coisas e mais coisas e coisas mais falou. Como pode alguém entrar em êxtase só com um palavreado? Esse era o segredo de Damian. Riana, acho, não tinha segredos não. Muito menos para o Damian. Deixou transparecer seu sentir, sua vibração. Deixou que o Damian sentisse o curso de seus pensamentos, de seus anseios. Nem precisava, Damian já sabia de tudo.
Um pássaro bonito, de repente, pousou bem na frente do banco. Ficou ali, sem se incomodar com os segredos dos dois. Pois bem, esse pequeno pássaro, bonito, de cabeça vermelha, foi a testemunha do que então aconteceu. De repente, do nada, Damian falou. Uma coisa quase sem sentido, uma coisa que parecia não pertencer ao momento. Mas o Damian sabia que era a hora de falar. Falou dos sete pecados capitais. Falou assim, que todos deveriam, pelo menos uma vez, cada um deles experimentar. Ainda mais, ela, uma moça bonita, que quase não sabia pecar. Estava ele, ali, o Damian para ajudar. Pecar, gostoso, sete vezes, por todas as cores do arco-íris passar. Havia perdão para tudo. Era só não continuar. Todos os sete, nenhum podia faltar.  Riana teve um pequeno sobressalto. Um ligeiro estremecimento passou por todo seu corpo. E vou lhe dizer: mesmo sendo dono dessa narrativa, nem eu mesmo sei se foi de medo, de pavor, de prazer ou de algo mais, esse frio que passou por dentro de seu espírito. Damian falou. Falou e parecia que nem tinha falado. Olhou para ela com um olhar lânguido que nunca antes ela tinha visto nem nele, nem nos outros homens que conhecera. Nem sei se foi ela mesma que falou, se foi algo dentro dela, ou alguém mais. Mas foi de sua boca, agora já lasciva, que saíram as palavras “quero sim”. Damian mostrou surpresa porque era o que ele devia mostrar. Surpresa e deleite. A surpresa era mentira, mas o deleite era a pura verdade. 
Todos sabem que há sete pecados capitais: luxúria, gula, avareza, ira, soberba, vaidade e a preguiça. Foi assim mesmo nessa ordem que Damian para ela recitou. Marcado foi para o próximo domingo o primeiro dos pecados: a luxúria.

Luxúria

A essa altura, Riana já estava entregue. Antecipava o prazer. Entendia agora por que Damian nunca chegara antes ao fundo de seus desejos. Para este domingo reservara os prazeres todos. Sonhou, imaginou, gozou com antecipação.
Damian sabia de uma cabana, isolada, rodeada de árvores. Um dia só para eles, cheio de prazeres, cheio de luxúria.
E lá estavam. Damian preparou a Riana para a torrente de prazeres. Fez carícias que ela não conhecia. De um jeito que ela não sabia. Com uma intensidade desmedida. E ela foi crescendo por dentro, seu prazer aumentando. Coisa jamais sentida, jamais imaginada. Ela se deliciava na preparação, se consumia de desejos.
E, então, ela pensou que era a hora de Damian. Que ele viesse porque era hora dele vir. Ela não aguentava mais, não mais podia esperar. Que viesse o Damian, porque ele sabia das coisas, se sabia. Já sabia disso, sem mesmo antes experimentar.
Fechou os olhos na expectativa. Aqueles segundos intermináveis da ausência de Damian. Justo agora ele tinha saído. Riana então percebeu, de olhos fechados, que havia alguém na cama. Que bom que ele voltara. Mas ele não era ele, eram três. Ele nem estava lá. Impressionada, assustou-se um pouco. Depois achou que era sua imaginação. Mas quando a tocaram, percebeu que era muito mais do que tudo aquilo. Damian queria mais para ela. Queria que ela tivesse um gozo infinito. E aqueles três eram os mestres do prazer. E foi de todos os jeitos, de todas as formas. Formas insuspeitas de se fazer, como nunca fizera antes. Cada um por si, os três juntos, como numa sinfonia suprema de prazer. A harmonia profunda do gozo. A intensidade impensável. E, quando ela pensava que era o máximo, o pico de tudo, um limite mais alto alcançava. Os três, em uníssono, a fizeram chegar. Afinal, estava cansada. Aquilo arrancara todas as forças de seu ser.
E ela descansou. Não sabe quanto tempo. Sonhou que estava com vontade de novo. Estava sim, mas acordara. Agora era a vez de Damian, os outros já tinham partido. E ele sorria maroto, cheio de gozo e luxúria. Fazia as coisas de seu pensamento, as coisas de que ela mais gostava. Os três, ela pensou, tinham sido para ela aprender o que lhe fazia bem. Pois agora, ele sozinho, lhe dava mais prazer do que os outros três juntos. Até sua alma gozava. E era cada vez mais, cada vez mais. Houve uma hora em que se perdeu. Não sabia onde estava. Pediu que ele parasse, não conseguia mais, era muito para seu corpo. Ele obedeceu, não antes de um supremo gozo final. E ela descansou mais uma vez.
E assim foi o dia da luxúria.

Gula

Riana tinha bom apetite, mas não se podia dizer que era gulosa. Diante do que acontecera no domingo passado, difícil dizer o que Damian era capaz de fazer. Até agora ela não conseguia entender como poderia ter tido tanto prazer. Com a gula seria isso possível? Na mesma cabana, diferente pecado. O dia todo para comer. Quando lá chegaram, tudo já estava pronto. O Damian, acho que tinha poderes, sabia de tudo que ela gostava.
Mas não se pode ir direto aos pratos, assim nem mais nem menos. Tinha de haver preparação, ele dizia. Primeiro foi uma pílula, a cor acho que era a rosa, que ela tomou.  Entendido, disse que aquilo aguçava as papilas. Brincou coma s palavras. Papilas, pupilas. Não lhe disse que o danado era bom de usar as palavras? E foi verdade. Uma coisinha besta, uma migalha que lhe pôs na boca, deu assim um senso enorme de prazer. Como podia haver escondido numa insignificante migalha, tanto prazer? Mas foi mais do que isso. Vestiu-se o Damian de garçom lá no quarto e apareceu, de avental e tudo, com uma bandeja cheia de pequenos, quase minúsculos salgadinhos. Podia se ver que havia folhinhas verdes picadas sobre eles. Que experimentasse, era bom, aguçava as papilas também. De novo aquela brincadeira besta: papilas, pupilas. Preciso era provocar as papilas de sua pupila, a pupila preferida do Damian. Na boca dele, aquele trocadilho bobo parecia bem. Tinha graça. Nem sabia bem o que pupila era. O que significava, mas se Damian precisava de uma pupila, que seja. Da papila, suspeitava o significado, não era tão burra assim.
Foi então que Riana aprendeu que Damian, ao contrário do que se possa pensar, tinha disciplina. Veja só, que gozado. Aquele aguçar dos sentidos, que as folhinhas traziam, multiplicado por mil, lembrava os prazeres antes sentidos pelo seu corpo no anterior domingo. Gozado como as sensações se cruzam. Sentiu vontade. Essas vontades da carne. Procurou o beijo de Damian. Esse se afastou com o dedo dizendo que não. Brincando, claro, pois era assim que ele tudo fazia. Brincando com as coisas, brincando com as palavras. Posso lhe dizer, porém, com autoridade de narrador, que ele era mais sério do que parecia. Era do tipo que se concentra num objetivo. Sabe focar. Isso me lembra de focas. Que diabos, o que uma foca tem a ver com isso? Talvez tenha, mas Damian é que sabe fazer essas analogias. Talvez estivesse pensando na história do boto. Por que não? Ele é cheio de metáforas, metonímias e antíteses. Brinca na mente, brinca com a mente. Conhece as fraquezas de mulher. As de homem também. Você percebe como esse Damian é? Como ele procede? Dá para perceber? Tenho que dizer tudo com palavras. Você não pode deduzir. Queria que você deduzisse tudo, pois, para mim, é difícil dizer essas coisas. Só faço por pura obrigação. Coisa do cosmos. Do carma. Preciso escrever.
De novo divagando. Não sou psicólogo, mas eu mesmo acho que isso é uma tentativa de evitar o inevitável. O destino de Riana. Só de Riana, pois Damian já nasceu com destino feito, acertado. Você me entende? Não quero dizer com todas as palavras. Não posso. Preciso voltar à narração. Depois de experimentadas todas aquelas ervas, ervinhas, verdes, algo ocorreu. Pela primeira vez, Riana conheceu tudo que podia sentir com suas papilas. Papilas sim, não pupilas. Embora, agora, até faça sentido. As pupilas do senhor reitor. Sendo, é claro, Damian, uma espécie reitor. Que reitera, que dirige, que conduz, que faz acontecer. Reitor. Sem mandar, sem violência. Só com as palavras. Riana ainda não sabia dos detalhes. Ela nunca tinha lido “As Pupilas do Senhor Reitor”. Quem haveria? Quase ninguém hoje em dia, houvera de ler um livro assim.
E daí vieram os manjares. Suprema delícia, suprema quantidade. Delícias quase infinitas. E Riana sentia tudo de todas as coisas que bebia e comia. Até que seu corpo não aguentou. Ela desmaiou. Por quase duas horas ficou, inconsciente e então Damian fez com que ela botasse tudo para fora. Para poder comer mais, como os romanos faziam.  E ela sentiu o maior prazer de sua vida, tanto ou mais do que quando se entregou à luxúria.
E assim foi o dia da gula.

Avareza

O domingo da avareza foi mais simples, mas foi muito bom também. Damian saiu com Riana pela avenida. Tinha uma grande sacola na mão. Paravam de banco em banco. Ele tinha um cartão plástico verde. De todos os caixas automáticos tirava todo o dinheiro.
E dava para Riana. E dizia que era dela. Para ela guardar, só para ela. E, quando a sacola não dava mais para segurar de tão pesada, pegaram outra avenida. Havia mendigos e pedintes dos dois lados. Eles pareciam saber que havia dinheiro na sacola. Pediam esmolas, desesperados. Riana chegou a pegar uma nota para dar para o primeiro, mas Damian segurou sua mão e deu aquele olhar. Aquele dinheiro era dela, mesmo uma nota só que ela desse, poderia mais tarde faltar. E foram andando e muitos pedidos foram feitos. Ela resistiu, segurou firme a sacola e chegou até fim. Pararam para jantar. Uma delícia, lembrou-se do domingo passado, o da gula. Quando a conta chegou, buscou uma nota no meio das outras tantas. Damian segurou sua mão e ele pagou. Aquele dinheiro era seu. Era para guardar. Nada para a família, nada para ninguém. E no fim do dia ela era praticamente uma pessoa rica. Assim deveria ficar, e certamente melhorar. Não diz o dito popular que “dinheiro chama mais dinheiro”? Muito mais dinheiro aquele seu dinheiro iria chamar. E, do mesmo modo como havia amado o corpo de Damian e as delícias de sabor que ele havia trazido, agora amava de verdade aquele dinheiro todo e nele se abraçava. Era um gozo ter toda aquela fortuna em suas mãos. E Damian prometia que muito, muito mais, haveria de chegar. A regra era simples. Nunca, jamais, gastar um centavo em vão. E ele iria, sim, se multiplicar.
E assim foi o dia da avareza.

Ira

Era de se admirar como Damian sabia das coisas. Naquele domingo, fez Riana passar por poucas e boas.  Uma velha a xingou, um outro rapaz que passava a chamou de “vagabunda”. Daí veio um gesto obsceno. Por que tanto ódio contra ela? Ela começava a sentir ódio também. E aquelas duas fulanas que, ao passar, riram dela?   O seu ódio contra as pessoas foi aumentando, aumentando. Se mais alguém dissesse alguma coisa, ela estouraria de raiva. Damian disse que aquilo era bom. Era bom e ela tinha que fazer alguma coisa. Entraram numa casa, não muito longe dali. Damian conhecia muita coisa, muita gente. Havia um quintal na casa. Ela, porém, teve de esperar na parte de dentro. Damian fez com que ela se sentasse. Queria que ela pensasse, como poderia se vingar daquelas pessoas. Depois, saiu. Voltou três horas depois. Antes de entrar, porém, ele tinha feito algo no quintal. Havia mais gente com ele. Gente protestando, reclamando, outros chorando. Entrou na sala e colocou uma arma, aquelas de repetição, nas mãos de Riana. E disse a ela que aquela era sua hora. Lá fora, uma cena de horror. Entre as duas árvores do quintal havia uma fila de pessoas, amarradas umas às outras. Reconheceu-as todas. Foram as mesmas que a tinham ofendido durante o dia. Damian falou que quando ela apertasse o gatilho, a arma não iria para de atirar. Não até que tudo acabasse. Ela estava cega de ódio. Começou a atirar nas pessoas. Foram todas caindo. De repente, do nada, apareceu uma jovem no meio deles e não era nenhuma das que a ofenderam, mas não podia parar. Não queria parar. Continuou atirando. De repente a arma parou. Estavam todos mortos, deitados no chão. Damian, então, pegou a arma de suas mãos e a jogou no chão. Puxou Riana pela mão e a levou para casa. Ela tinha uma sensação plena de vingança. Havia a imagem da moça no meio daquilo tudo. A inocente. De certa forma a conhecia de algum lugar, não sabia de onde. Ainda assim, não se sentiu mal. Descansou.
E assim foi o dia da ira.

Soberba, inveja

Damian parecia conhecer Riana há muito tempo. Assim como, se a conhecesse antes de conhecê-la. E o pecado da soberba era fácil para ela, pois ela já o tinha em seu coração. Fácil para ele também, pois não tinha muito o que fazer. Só fez o que sabia fazer bem. Usou palavras, bem usadas palavras. Falou de como ela era bonita, inteligente, melhor do que todas as suas amigas. Melhor do que sua própria família. E foi falando, falando... Daí Damian pediu para que ela fosse pela cidade apresentando-o a seus amigos, sua família. E a Riana estava bonita mesmo. De rosto, de roupa. E naquele dia até o próprio Damian caprichou no seu visual. Mais por causa de Riana. Para mostrar para os outros o homem elegante, bonito e inteligente que ela tinha. E como ele gostava dela. Era uma inveja só, o que todos sentiam dela. E conforme ela falava com as pessoas, mais ela se sentia melhor do que todas. Mais bonita, mais inteligente. Dava dó ver aquelas pessoas todas, nunca chegariam a seus pés.
Por último, Damian deixou a Lívia. Mas ele tinha seus motivos. A Lívia não era uma qualquer. Ela tinha jeito, ela tinha classe. E o marido que ela tinha então, muito melhor do que o Damian. Além disso, era uma pessoa direta, sem segredos. A Riana soube então o inverso. Ela era que agora morria de inveja.
À noite, Damian a consolou. Que besteira, é claro que ela era melhor que Lívia. Nem dava para comparar. De nada adiantava. Dessa vez nem o Damian conseguia consolação para a alma de Riana. Riana nunca sentiu tanta inveja de alguém. Foi daí que Damian deixou escapar algo que não era para escapar. Ou era? Era astuto o Damian, tenho certeza de que foi de propósito, mas isso eu não posso provar. Falou, assim, no meio da conversa. Você sabe como a Lívia gosta da irmã, não sabe? Eram ligadas desde pequenas. Riana confirmou e já estava começando a sentir inveja dela também. Esse Damian, ao invés de ajudar, estava piorando as coisas. Mas os caminhos do Damian são os caminhos do Damian. São estreitos, seguros, sabe por onde anda. Não deixa escapar nada nem ninguém.
Quando percebeu, Damian estava mostrando uma foto para ela. Logo identificou a cena. Eram aqueles corpos todos, mortos, sangrando, deitados no chão. Foi no dia da ira, quando ela tinha atirado em todos. Como podia ter feito aquilo? Como já estava esquecendo aquela coisa horrível? Como fora capaz? Antes que ela expressasse seus pensamentos em palavras, o dedo de Damian apontava uma das vítimas. Dava bem para ver o rosto. Era a irmã da Lívia. Certeza. Ela estava entre os mortos, aqueles que a Riana havia matado e ela nem sabia. Era aquela jovem que apareceu na frente dos outros e nem era para estar lá, não era para ser assassinada. Amanhã a polícia iria identificar os corpos e a Lívia seria notificada. Já pensou que dor? Ela não podia imaginar. Lá no fundo, bem no fundo, Riana se sentiu vingada. Não precisava mais sentir inveja.
Assim foi o dia da soberba e da inveja. Dois pecados num dia só.

Preguiça

E o próximo pecado nem precisou esperar. Já começou na segunda, tinha até o outro domingo para pecar. Pecado fácil. Era só não fazer nada. Não precisava trabalhar, sua única obrigação era vadiar. E foi os que os dois fizeram na cabana. Dormiam tarde e até mais tarde no dia seguinte. Bebiam e comiam. Contavam vantagem. Repassaram todos os pecados, sem muito esforço, pois era a semana da preguiça. Foi assim que Damian lhe ensinou. Ficar assim, sem fazer nada. Nadinha.
E por três noites ela teve um sonho, o mesmo sonho. Um anjo, com cara de mulher, que lhe aparecia. Era a cara da Lívia, mas era um anjo. E o anjo lhe trazia uma mensagem. Que atrás da casa, no bosque, se ela olhasse bem, havia uma trilha. Dez quilômetros ela teria de andar. Depois encontraria uma capela. Era só entrar e pedir perdão, de verdade, com sincero coração. Ficar lá uma hora, voltar e terminar com o Damian. Se fizesse, não só os seus pecados seriam todos perdoados, ela poderia recomeçar a vida. E mais ainda, a vida dos mortos seria restabelecida. Dos mortos que ela matara, começando pela irmã da Lívia. Assim como foi fácil cair no pecado, agora seria fácil obter o perdão. Ela teria três chances. Três noites o anjo viria para avisar.
Ela resolveu que era o que ia fazer. Ser perdoada, tudo recomeçar, devolver a vida a quem matara.  No primeiro dia, ela olhou para as árvores atrás da casa e viu uma pequena placa que dizia “Caminho do perdão” e havia uma seta. Olhando para aquela direção dava para ver a pequena trilha. Era verdade, o sonho era um aviso. O Damian, porém, estava perto dela o tempo todo, e ela deixou para o segundo dia. No segundo dia, ela acordou tarde, estava com muito sono e achou que talvez aquilo tivesse sido apenas um sonho. No terceiro dia, ela faria a caminhada e tudo voltaria ao normal. Talvez tudo tivesse sido um pesadelo, e indo até a capela, conforme seu sonho, tudo se esclareceria. Assim faria no terceiro dia. Quando acordou, lá estava o Damian, servindo-lhe o café da manhã na cama. Depois, começaram a fazer amor e foi muito bom. Depois, ela pegou no sono. Parecia até que Damian tinha colocado algo na sua bebida. Pois dormiu como chumbo. Quando acordou, olhou para o relógio da parede e viu que era um novo dia, um minuto havia passado após a meia-noite. Era claro que aquilo tinha sido manipulação do Damian. A terceira chance de perdão havia passado e era a última.
E a semana foi passando e o domingo se aproximando. O tempo passa, queira você ou não, faça você nada ou trabalhe duro, o tempo passa. Dormir, comer, relaxar. Pensar em coisas que não se pode. Pecar o pecado da luxúria, da gula, tudo de novo. O Damian provia tudo. Tudo já estava lá. A semana foi passando e o domingo chegou para Riana. Para o Damian, todos os dias são domingo, pois ele é de diferente natureza. Acho que você me entende.
Durante a semana, Riana nem conseguia pensar. Era uma preguiceira pesada, quem tinha vontade de pensar?  Era de manhã, no domingo. Foi daí que ela acordou, bem tarde, sol quase lá no meio do céu. Quando saiu e foi para a varanda, lá estava o Damian, formoso como sempre. Ela se espreguiçou, como quem não queria nada e perguntou para ele “E agora? ”. Damian apontou para o azul do firmamento e perguntou se ela gostava? Não entendeu direito mas disse que gostava. Damian então disse que naquele dia eles iam voar. Bem alto. Coisa inédita, ela ia gostar.

O oitavo pecado

Levou-a para dentro e mandou-a sentar-se no sofá. Estava preparando algo. Chegou então perto dela, com um pires todo desenhado de flores. As flores, o desenho na porcelana, não eram importantes. Mas não dizem que o demônio está nos detalhes? Não que o Damian fosse algo assim, é só uma força de expressão. Os desenhos do pires eram secundários. O importante era aquele pó especial, azulado, que estava lá. Riana sabia muito bem o que era aquilo. Não devia usar, mas usou. O que poderia acontecer? Depois de tantos pecados, que diferença fazia? Retifico, ela não fez o pecado, quis fazer, mas o Damian não deixou, guardou tudo de novo. Ela não podia. Tinha que se confessar primeiro. Entregar os pecados na igreja, falar tudo. Ser perdoada. O pecado só é bom porque pode ser perdoado. Ela ficou com um pouco de raiva do Damian, pois agora estava com vontade. Agora ela tinha entendido o que era aquele azul, alto, para onde o Damian a queria levar. Sentido figurado, é claro. O azul do céu, vindo do pó do pires, o pires com flores.
Na segunda mesmo, às sete da noite, passou em uma igreja, apesar de ter passado o prazo. Ficou perto do confessionário. Uma moça, quase menina, confessava seus pecados. Ela apenas conseguia entender algumas palavras, mas dava para saber quais eram eles. Pecados de menina-moça. Provavelmente só pensamentos, talvez um pouco mais. Não deu para entender. Deve ter recebido, de penitência, algumas ave-marias e alguns pais-nossos e nada mais. Pecados leves, pecados não capitais. Ela saiu com cara de anjo, contrita. Agora era a vez de Riana. Contou, pela ordem, os sete pecados. Na parte da ira, não deixou claro se matou alguém. Só falou que atirou. O padre que deduzisse, se quisesse. Não quis ou fingiu que não quis. Era por demais. Muito para uma moça só.
Foi perdoada mas ganhou uma semana de jejum e abstinência. Mais rosários todos os dias até o sábado. Domingo próximo, deveria vir até a missa e fazer novos propósitos para a vida. Recomeçar. E assim fez. Damian não apareceu para não atrapalhar a recuperação. Assim é que se faz. Existe hora de estar e hora de não estar. Na sexta, ela repetia as orações, sem nem pensar. Tinha virado tudo automático, um rezar sem fim. Sábado foi dia de descanso, dia de reflexão. Refletir sobre o que tinha acontecido, refletir sobre o que ia fazer no futuro. Mais ainda sobre o que não ia fazer. Coração assentado, alma em penitência, espírito quase curado. Aquele sonho que tivera, era uma balela, o verdadeiro perdão era aquele ali, com o padre,  ela estava perdoada.
O domingo chegou. Damian apareceu. Riana explicou que precisava ir à missa e que isso ela não ia declinar. Não podia. Era uma questão de compromisso lá com o alto. Recebera o perdão. Damian ponderou que ela estava certa. Mas por que não ia à igreja na missa da noite? Terminar ou começar – a semana com chave de ouro. Durante o dia, dominical, iriam à cabana para ela enfrentar seus demônios. Dizer cara a cara que os enfrentara. Que tinha vencido, que era forte. Sempre falo que o Damian é habilidoso com as palavras. Não é mesmo? Tinha lógica o que falava, fazia sentido. Enfrentar seus próprios demônios.  Haveria outros? Outros que não são seus?  Filosofia vã, conceito barato, isso não importa. Ela estava forte, podia enfrentar. Sua alma sairia revigorada, o Damian sabia das coisas, sabia falar as coisas.
Chegaram lá por volta da hora do almoço. Sobre a mesa da sala, umas frutas. Damian explicou, nada de carne naquele dia. Uma questão de respeito. Combinava com a contrição. Fazia sentido aquele Damian. Isso era de se respeitar. Entre as frutas, é verdade, havia uma maçã. A maçã de Eva? De Adão? Que importa? Isso é história antiga, nem se sabe se é verdade. Velho Testamento. Velho. Verdade que não se usa mais.
Sentaram-se.  Um beijo delicado na face de Riana. Estava diferente o Damian. Até parecia também contrito com os pecados de Riana. Pegou uma fruta e trouxe para ela comer. Entre tantas outras, por que a maçã? Por quê? Um símbolo?  Não queria mostrar hesitação, não era mulher de símbolos, nem nada. Deu uma mordida. Gozado, pensou naquilo. Maçã inversa? Maçã do pecado inverso? Da mulher para o homem? Maçã do perdão? Que nada, não havia pecado em comer uma maçã. Damian levantou-se de novo. Voltou com um pires. O mesmo pires. Cheio de flores pintadas. Na porcelana pintadas. No meio, um pó azulado. O que era aquilo, o que queria o Damian? Era para ela?
Foi uma confusão na mente. Aquela semana toda de contrição, uma mordida na maçã, era o que ele queria que ela fizesse. Depois se lembrou. Ele já tinha explicado, primeiro a confissão, depois o arrependimento, só agora, após tudo isso, aquela viagem para o azul. Ele já tinha explicado. Não tinha entendido? As coisas faziam sentido. Muito sentido faziam. Ficar pura por dentro, viajar, ver as coisas lá de cima, no meio do azul. Depois de tudo, precisava. Depois de tudo, queria. Se estivesse tudo errado, se fosse um engano, era só confessar de novo. Os pecados de antes eram muito piores, esse era fácil, se pecado fosse.
O Damian não falava nada, mas parecia conhecer seus pensamentos. Sem palavras. Ela olhou para seus olhos fortes e cheirou aquele pó. Não era isso que devia fazer?
Era uma coisa maravilhosa, ela subindo assim no ar. Sem culpa, sem dor, poderosa. Tudo podia. Uma sensação nunca antes sentida. Nem sequer imaginada. A Riana, senhora de tudo, pairando assim no ar. Que coisa gostosa, que coisa boa. Ela, assim, pairando no ar, senhora de si, pura, sem pecado, tudo podendo.
O Damian fechou a porta e saiu. Ela percebeu e não entendeu. Também para quê? Ela não precisava mais do Demian, ela era a Riana, a senhora do ar, que tudo podia.
A segunda feira chegou, como chegam todas as segundas. Cheia de realidade e de realismo. Um telefonema e a polícia vem. Uma mulher, de nome Riana, havia morrido de overdose. Coisa pesada. Havia engasgado com o próprio vômito. Sem antecedentes. Sozinha. Sem impressões digitais. A família foi avisada, o enterro marcado.
Não se ouviu mais falar do Damian. Nem sei mesmo se ele existe, se alguma vez existiu. Talvez o tempo todo fosse só a Riana e o resto, pura imaginação. Talvez imaginação deste que lhes escreve. Coisa de narrador. Que precisa dar explicação. Seria melhor assim, se fosse pura imaginação. O Damian existe ou não?  Que importa? A Riana está morta agora. Não foi à missa. Não pode mais fazer confissão. Existe um oitavo pecado capital? Se existe, é esse mesmo, esse de voar, irresponsavelmente pelo ar. O pecado que vem servido no pires. Cheio de flores pintadas, flores pintadas na cerâmica. De uma cor azul pálida, misturada com as flores... Riana morreu, Riana está morta agora. Foi seu último pecado, o oitavo. O oitavo e capital pecado, esse de voar...


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Thursday, August 18, 2016

Éramos sete



Éramos sete

Não sei como aconteceu, mas subitamente lá estávamos nós sentados em círculo numa enorme sala, toda pintada de branco. Nossas cadeiras, de madeira envernizada e acolchoadas com um tecido com temas de folhas se destacavam diante de ausência de mais cores. Nossas roupas eram parecidas, mas não eram iguais. Não me lembrava como tinha chegado ali, apenas sabia que minha vida não tinha nada a ver com aquilo e estava diante de uma situação excepcional.
Diante do silêncio dos outros seis – éramos sete – tentei falar alguma coisa. Perguntei, quase murmurando, se eles sabiam onde estávamos. Olhei para eles e ninguém se mexeu, ninguém falou nada. Logo depois, porém, percebi que estavam respondendo. Sem som, sem ruído, estavam se comunicando através do pensamento. E eu podia saber exatamente quem estava falando e o quê. Basicamente a resposta de todos era a mesma. Como eu, não tinham a menor ideia de que lugar era aquele, como tinham ido parar ali. O terceiro à minha esquerda me perguntou silenciosamente de onde eu era. Respondi que era de São Paulo e, mesmo sem que eu perguntasse, ele me disse que era da Hungria Mostrei minha admiração pelo fato de que ela falava Português, ao que ele respondeu que não era o que ele estava falando.  E assim todos foram falando de onde eram e a língua não importava, todos entendiam em suas próprias línguas. Depois de algum tempo conversando, todos nós concordamos que precisávamos sair dali, voltar às nossas vidas normais. Foi, então, que algo extraordinário ocorreu. Alguém disse que sairíamos dali assim que todos os sete dessem a mesma resposta para as perguntas que iriam ser feitas. Não era nenhum de nós falando. Certamente era a pessoa ou ser responsável por estarmos ali.
A primeira pergunta que ele fez foi qual era a cor mais bonita. Imediatamente falei que era o azul. Mais dois falaram a mesma cor que eu, outros dois disseram amarelo e os dois restantes optaram pelo vermelho. Nossas respostas vinham sempre ao mesmo tempo e só depois percebíamos o que os outros tinham falado. E as perguntas continuaram. Qual o sentimento mais bonito? Qual o tipo mais desprezível de homem? Qual a qualidade mais importante da mulher?
Nunca conseguíamos ter as mesmas 7 respostas. Aquilo estava nos exasperando. O máximo a que chegávamos era ter seis iguais.
Muito tempo se passou e ainda estamos aqui. Mal nos conhecemos, estamos juntos todos os dias, o tempo todo tentando igualar nossas falas. Eu, particularmente, desisti completamente de voltar para o lugar de onde vim. Na verdade, nem me lembro mais de onde vim. Se um dia, por um grande milagre, conseguirmos, nós sete, falarmos a mesma coisa, acho que, voltando, nem vou reconhecer o meu ponto de origem.

De qualquer jeito, todos nós respondermos do mesmo jeito, é algo que nunca vai acontecer. É um fato consumado, já aceitei. Talvez se fôssemos 5 ou 3, tivéssemos alguma chance, mas sete? Por que sete? Acho que é porque está na Bíblia, é um número sagrado. Um número divino: sete pragas, sete pecados, sete virtudes. Talvez seja isso mesmo. Somos humanos, nunca vamos conseguir!

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Wednesday, August 17, 2016

O feliz casamento que nunca aconteceu



O feliz casamento que nunca aconteceu

Não queria chegar atrasado, fazia muito tempo que não via a Maria. Sem problemas, porém. Ela era daquelas que depois de anos fala um “oi” de anteontem.  Peguei a camisa xadrez que só tinha usado uma vez, um jeans de azul bem clarinho, dei uma penteada nos poucos e remanescentes cabelos, saí, e comecei a dirigir.
Estava feliz em poder ver aquele sorriso gostoso de novo. Insuspeito, de uma malícia leve e sem maldade. Nunca entendi porque nunca nos apaixonamos, não nos casamos. Sempre nos demos tão bem. Poderíamos conversar horas sem cansar. Seríamos um casal perfeito.
De repente meu pensamento estava viajando. Me imaginei pedindo sua mão, ela rindo, a gente se casando. As imagens voavam em minha cabeça. Nosso primeiro filho, depois o segundo para logo ficarmos livres e viajarmos todos juntos. Imaginei o dia a dia, as refeições, as noites de papos intermináveis.
De um momento para outro, no entanto, me vi discutindo com ela. Ela chorando lágrimas amargas, embora eu tivesse certeza de que a razão estava comigo. Nomes feios, palavras duras que não queríamos falar. Tudo tinha mudado.
Entendi, então, porque não nos casamos. Ainda bem!
Obrigado, Maria, por nunca ter casado comigo. Não sei como faria sem uma amiga como você!

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Monday, August 15, 2016

Nada sabemos



Nada sabemos


-Tudo depende da triangulação dos elementos.
-Você tem razão. Entretanto, é necessário um fator de motivação antes disso. E, antes dessa, um princípio gerador. Sem isso, não há nada o que triangular, meu amigo.
-Puro engano seu. Se os elementos estão lá, a triangulação ocorre, as coisas acontecem...
-Não concordo. Sem princípio gerador, nada começa. Triângulos, quadriláteros, nada importa. Posso garantir isso com conhecimento de causa.
Eu não sei do que essas pessoas estão falando. Você, certamente, não sabe também. Podem estar falando de Filosofia, de História. Até de algo mecânico, como posso saber? Como citam a palavra “motivação”, há uma grande possibilidade de que o assunto se refira à área de humanas, mas ninguém pode garantir. Pode ser linguagem figurada, pode ser tanta coisa. 
A maioria das pessoas, no entanto, nas situações do dia a dia, aventura-se a interpretações.  Quase sempre. É claro, de acordo com seu próprio conhecimento, experiência de vida, convicções e, principalmente, de acordo com seus interesses. Essa ansiedade do ser humano de procurar significado em tudo, essa vontade de querer interpretar o mundo e as coisas, tendo só uma pequena nesga da verdade, é o que nos leva ao caos. Isso mesmo, esse caos que está por aí, as inúmeras e estranhas religiões, crenças, sociedades misteriosas, tudo isso é consequência dessa necessidade de querer explicar o universo através de uma ínfima, quase inexistente, parcela da realidade. A verdade é que não sabemos nada, quase nada. E o pouquíssimo que sabemos ainda precisa de contexto, de maiores explicações. Em suma, o que conhecemos está muito próximo de zero e vai demorar muito, muito mesmo, para sabermos só um pouquinho.






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Histórias do Futuro

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Friday, August 12, 2016

Andando pela Pauliceia Desvairada



Andando pela Pauliceia Desvairada

Não fujo do ridículo. Tenho companheiros ilustres.
O ridículo é muitas vezes subjetivo.
 Independe do maior ou menor alvo de quem o sofre.
Criamo-lo para vestir com ele quem fere
nosso orgulho, ignorância, esterilidade.
(Pauliceia Desvairada)

Falei com o Engenheiro Goulart e com o Ermelino Matarazzo e disse que ia tomar a Liberdade de ir até a Sé para conseguir alguma Consolação ou até alguma Luz para a Pedreira que é a vida do Paulista. No Pacaembu procurei Palmeiras que acabei não achando. Achei, porém, Paineiras no Morumbi, depois de passar pelo Paraíso sem pedir licença para a Ana Rosa. Andei também por Itaquera, mas só achei o que queria no Parque da Vitória, pois a dita cuja não estava lá. Falei com muitos santos: São Mateus, Santa Terezinha, São Domingo, Santa Ifigênia, São Lucas, São Mateus. Pedi a eles Socorro para minha Saúde. Santo Amaro, então, me falou que deveria ir até a Vila dos Remédios para encontrar o que eu queria. Fiquei com fome e fui pescar na Ponte Rasa lá no Rio Pequeno. Não consegui nada. Fui então rezar na Vila Oratório para conseguir comida, a não ser que eu quisesse alguns Perus, pois as Perdizes estavam muito caras tanto no Mercadão como no Mercado da Lapa.
Além de fome, senti sede e fiquei em dúvida entre a Água Fria, a Água Funda e a Água Branca. Achei melhor ir para a Água Espraiada, não sem antes fazer um Bom Retiro no Alto da Lapa, de onde se podia ter uma Bela Vista. Cheguei na Lapa de Baixo e falei Mandaqui um Limão, pois ainda vou passar pela Quarta Parada e pela Quinta da Paineira. Parei na Parada Inglesa e fiquei pensando por que tanta coisa com os ingleses – Chácara Inglesa, Morro dos Ingleses, se nós temos apenas Brás e Brasilândia.
Sem dinheiro para o Metrô, fui ao Tatuapé e, enquanto andava, me perguntava por que a gente precisa de um Moinho Velho se há um Brooklin Novo e um Parque Popular se há um Real Parque.

É mesmo uma Pauliceia Desvairada, como dizia o Mario de Andrade. Ainda bem que, quando estiver chateado, posso ler uns trechos de Brás Bexiga e Barra Funda, do Alcântara Machado, pegar o “Trem das Onze” com Adoniran Barbosa, ou tomar um “chopps” na esquina da Ipiranga com São João.

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