Sunday, July 22, 2018

Um fulano como eu



Um fulano como eu

A Nasa divulgou a imagem de Andrômeda, uma galáxia vizinha à nossa, que é a Via Láctea. Ela tem estimadamente um trilhão de estrelas. Cada estrela tem pelo menos um planeta, além de luas. Não é coisa de maluco? Acontece que o Universo, por sua vez, tem bilhões e bilhões de galáxias. Cada uma contendo bilhões e bilhões de.., etc. A gente até cansa só de falar. E ainda dizem que provavelmente há outros universos contendo, etc.
Certamente, e agora pouca gente duvida, há vida inteligente em bilhões de lugares também. E que seja só em milhões de planetas, já é de se ficar estupefato. Por outro lado, posso afirmar, com bastante segurança, que não há em todo esse vasto cosmos alguém com o meu nome, com minha altura, com minhas caraterísticas, boas ou más. Ninguém também com seu jeitão, meu amigo. Somos ou não especiais?

Por outro lado, pensando bem, será que não há mesmo?



Para comprar no Brasil 
(impresso e e book):


À procura de Lucas  (Flávio Cruz)
----------------------------------------------
Para comprar nos EUA:

Friday, July 20, 2018

A menina e a bola vermelha



A menina e a bola vermelha

Mudança é uma coisa chata. Empacotar, embrulhar, arrumar, transportar. Lá estava eu colocando as coisas na caminhonete para levar a primeira rodada. Mexo daqui, mexo dali, e uma grande bola vermelha de plástico cai, pula na calçada e vai rodando embora. Assim que desocupo minhas, mãos vou atrás dela. De repente vejo dois pezinhos, calçados com sapatinhos brancos, vindo em direção a ela. Era uma  menina sorridente. Ela abre os bracinhos tanto quanto pode e abraça a enorme bola, quase do tamanho dela. Está feliz. Inicialmente veio aquele sentimento idiota de propriedade, como vou pedir o brinquedo de volta? Fiquei até com vergonha quando percebi que a mãe, logo atrás, já veio explicando para a filhinha que a bola não era dela, precisava devolver. Senti vergonha, e imediatamente decidi que a bola ia ficar para a garota. A menina veio em minha direção, com um sorriso, devolvendo a bola. Dava para ver, no entanto, que estava decepcionada. Estava devolvendo algo que ela queria. A mãe percebeu e fez vários gestos explicando para ela continuar andando e me devolver o precioso achado. Foi aí que percebi que a mãe não falava, ela era muda. Com certeza a menina entendia tudo e por isso seu coraçãozinho estava partido entre obedecer e ficar  com a bola. A mãe então fez gestos mais firmes, deixando claro que não havia opção. Resolvi falar e explicar que a garota poderia ficar com o brinquedo, que não havia problema. A menina olhava para mim e para a mãe se enchendo de esperança. A mãe fez então um gesto mostrando que era muda e olhou de novo para a menina, insistindo com sua linguagem de sinais que a bola tinha de voltar para o dono. Foi aí que apareceu um homem que, logo depois, eu percebi ser o pai da criança. Ele deu um beijo nela, pegou a bola e estendeu-a para mim, fazendo gestos que certamente indicavam que a menina não poderia ficar com a bola, que aquilo estava errado.  Era uma família de mudos. A essa altura eu estava determinado a fazer com que a menina ficasse com a bola de qualquer jeito. Fiz gestos e mais gestos, tentando explicar que eu queria que a menina ficasse com o “troféu”. Os pais tentaram explicar algo com as mãos e eu, com as minhas, fiz um gesto definitivo, que a bola era da menina e ponto final. Ficou claro, os pais desistiram de dar a aula de “civilidade” para a garota e agradeceram com sinais. Parecia uma família feliz e bonita. Senti uma certa compaixão por serem mudos, imaginei as dificuldades que tinham de passar o tempo todo. Cumprida minha missão, estava para ir embora. Mas, quando me virei, escutei uma vozinha:
-Obrigado, seu moço!
A menina falava, era a única da família que falava. Nós sempre estamos cometendo esse mesmo erro de presumir as coisas. Uma alegria muito grande me invadiu. Não era um milagre, nem nada assim. Apenas eu presumi algo que não era para ser presumido. Pensei de novo, como era bom que pelo menos a menina falasse. Na verdade aquilo era uma dádiva, era uma coisa muito especial. Um dom da natureza, um milagre da vida. Eu sei que falar é o normal, era o que deveria acontecer em condições normais. Mas naquele momento, naquelas circunstâncias, falar transformou-se numa coisa divina, um dom. Estava feliz e me despedi com gestos. Podia ver uma parte do rostinho da garota por trás da bola. Com uma das mãozinhas, sem soltar a preciosa bola, ela acenou e falou mais uma vez:
-Tchau, obrigado!
Naquele dia eu é que ganhei um presente: a menina que falava!

                         

Para comprar no Brasil 
(impresso e e book):


À procura de Lucas  (Flávio Cruz)
----------------------------------------------
Para comprar nos EUA:


Friday, July 6, 2018

Fazer as coisas nas coxas




Fazer as coisas nas coxas

Existem pessoas que se sentem incomodadas com a expressão “fazer nas coxas”. Com certeza existe uma forma melhor de se dizer que uma coisa não foi bem feita, ou que foi feita com desleixo. Por que apelar para algo tão grosseiro, quase pornográfico? Quem entende da história da nossa língua, entretanto, tem uma informação que vai completamente contra qualquer interpretação desse gênero.
Segundo os entendidos, a maneira como eram feitas as telhas na época da escravidão, pode explicar tudo. Para dar aquele formato redondo às mesmas, os escravos as colocavam sobre as coxas. Essas, obviamente eram de tamanhos diferentes, de acordo com a constituição física dos mesmos. As telhas saíam da “fábrica” com curvaturas variadas e, provavelmente, causariam goteiras mais tarde, quando usadas na construção. E se alguém perguntasse qual era o problema, ouviria a explicação; “elas foram feitas nas coxas”.

Assim, a expressão fica bem mais inocente. Nada de conotações maliciosas. A única pornografia na história toda foi a escravidão. A escravidão e o preconceito que até hoje existe por aí.



Para comprar no Brasil 
(impresso e e book):


À procura de Lucas  (Flávio Cruz)
----------------------------------------------
Para comprar nos EUA:

Monday, July 2, 2018

Admirável mundo novo




Admirável mundo novo


O que eu ouvi inicialmente foram algumas vozes distantes, conversas que não conseguia entender. Havia também ruídos, sons de metal, de rodas no chão. Senti um cheiro que eu conhecia, mas não sabia de onde. Meus olhos estavam fechados,  mas eu conseguia perceber que havia luz. Por mais que me esforçasse, não conseguia soltar minhas pálpebras, elas pareciam estar coladas.
Fiquei assim algum tempo. Tentei mexer as mãos e os pés, mas nada. Podia senti-los, no entanto. O que faltava era força. Talvez por isso não conseguisse também abrir os olhos. Tentava com muito esforço entender o que estava acontecendo, mas minha memória não me ajudava muito.  Estava absorto nesses pensamentos confusos quando ouvi alguém gritar:
-Ele voltou, ele voltou!!!
Demorou um pouco para eu entender que estavam se referindo a mim. Logo depois ficou bem claro que eu era o objeto do alvoroço. Notei que havia muitas pessoas ao meu redor. Alguém, deveria ser o médico, pegou meu pulso, começou a fazer perguntas. Estava confuso, queria responder, mas não conseguia. Fiquei frustrado. Acho que havia gente chorando na sala. Depois vieram outras pessoas. Todos falavam alto, animados. Vez ou outra pedia-se silêncio. Foi aí que me deu um sono irresistível e eu dormi novamente.
Impossível eu saber quanto tempo se passou. O que sei é que, quando acordei novamente, havia poucas pessoas na sala e elas estavam conversando. Acho que não perceberam que eu estava ouvindo. Falavam coisas como “Como será que ele vai reagir?”, “Nossa, é muito tempo”... e inúmeras coisas do gênero. Entretanto o que captou minha atenção foi quando alguém comentou qualquer coisa de “mundo novo”. Imediatamente me veio à lembrança o nome de um livro que eu havia lido: “Admirável Mundo Novo”. Eu me lembrei até do autor: “Aldous Huxley”. A memória da gente é uma coisa estranha... Com tanta coisa para me lembrar, fui me lembrar de um livro. Por enquanto, era a única coisa de que me recordava. Estava tentando trazer à minha mente a história quando algo que eu ouvi chamou ainda mais minha atenção. Alguém falou: “Parece incrível, 19 anos...” Eu demorei um pouco para digerir mais esta. Dezenove anos? Esse era o tempo durante o qual eu estivera dormindo? Impossível... Mas depois ouvi outras vezes. Ouvi também “coma de dezenove anos”. Ouvia também coisas como “Como ele vai reagir?”
Chegou mais alguém, mais tarde, que perguntou:
-Alguma novidade?
-Nada, tudo no mesmo. À s vezes parece que ele quer falar, mas depois não sai nada...
Esse alguém que chegou parecia estar especialmente interessada em mim. Era uma voz de mulher. Minha mulher? Minha filha? Dali a pouco ela estava sussurrando no meu ouvido:
-Eu sei que você pode me ouvir. Estamos todos te esperando. O mundo mudou muito nesses quase 20 anos, mas nós não. Nós continuamos te amando do mesmo jeito, até mais. Vai ser difícil você entender tudo. Mas nós vamos ajudar. Eu vou te ajudar muito. O mundo está muito diferente, você vai estranhar as pessoas na rua...
E ela continuou:
-Todo mundo tem um telefone no bolso agora. As pessoas falam o tempo inteiro. Mandam até fotos por telefone. Eu sei que você vai gostar muito disso tudo. Especialmente você que era ligado em coisas do futuro. A internet, então, você não vai acreditar. Estamos felizes que você voltou...
E as palavras continuavam. Agora pareciam mais distantes um pouco. Pareciam música, às vezes. Eu estava gostando...
Eu estava muito confuso, mas ao mesmo tempo admirado, excitado. Eu sentia que estava melhorando, que logo, logo, estaria mexendo meus braços e minhas pernas.
Não via a hora de ver esse “mundo novo”, na verdade esse “admirável mundo novo”.  Gozado que entre tantas coisas que certamente havia para lembrar, eu só me lembrava do livro. Mundo novo, mundo admirável....




ooooOOOoooo

Para comprar no Brasil 
(impresso e e book):


À procura de Lucas  (Flávio Cruz)
----------------------------------------------
Para comprar nos EUA:

Thursday, June 28, 2018

Tratado provisório de poesia



Tratado provisório de poesia


Ser poeta...é mergulhar no sentido das palavras,
aquele que elas não querem mostrar.
É ver a beleza no feio, a feiura escondida no belo,
a coragem dos fracos e a fraqueza dos herois.   

( Flávio Cruz)


Ser poeta é conhecer a magia das palavras. É conhecer a magia das coisas. É ouvir o som que os outros não ouvem, mas que as palavras têm. É descobrir a doçura no ódio insano. É reconhecer a ironia na suavidade de um sorriso e a suavidade verdadeira na ironia de fato. É mergulhar no sentido das palavras, aquele que elas não querem mostrar. É ver a beleza no feio, a feiura escondida no belo, a coragem dos fracos e a fraqueza dos herois. É ver nas entrelinhas. É dar nome para o que está escondido. É esconder, mostrando, aquilo que as pessoas não querem mostrar. É mostrar, ao mesmo tempo que esconde, aquilo que ninguém quer ver. É ver de um jeito que ninguém consegue, aquilo que está sendo visto do jeito que não é para se ver. É ver o trigo no joio. É ver o branco e preto a cores. É ver o colorido no seu contexto sem cor. É sentir a metáfora e transformá-la em palavras. É fazer hipérbole do mundano. É profanar o sagrado para santificar a estética do belo. É ser a antítese. É fazer pleonasmo do que é único. É ser único, unicamente para ser poético.
O poeta não inventa a poesia. Ele a descobre nas coisas que parecem não ter poesia nenhuma. Ser poeta é fazer as  pessoas que nada sentem, sentirem aquilo que pensavam não poder sentir. É  mostrar para as pessoas o que elas não conseguem ver. É mostrar para elas o que elas estão vendo e não querem enxergar. É fazer os outros serem poetas, como você, sem mesmo escrever.
Antes e mais do que tudo, ser poeta é juntar a magia das palavras com a magia das coisas. Ser poeta é fazer as palavras falarem o que queremos ouvir. Ser poeta é fazer as palavras falarem mais do que querem falar. É  fazer as palavras contarem seus segredos. É fazer as palavras mostrarem os sons que nunca foram antes ouvidos. É vê-las de um jeito que elas nunca significaram. É fazer com que elas signifiquem o que nem mesmo elas pensavam poder significar.  É fazer com que as pessoas descubram os segredos escondidos em si mesmos. E nelas, nas palavras. É fazer as pessoas sentirem as palavras de um jeito que nunca sentiram.

Ser poeta é sentir o mundo. Ser poeta é fazer os outros sentirem o mundo como você. Com você. Através de você. Por causa de. É  fazer os outros serem você, por uma fração de segundo, mas com repercussões para a  eternidade. Porque, posso garantir, a poesia é, definitivamente, eterna! Eternamente bela, maravilhosamente eterna.


Minidicionário de expressões e phrasal verbs da Língua Inglesa

Lançamento:

Um livro importante para quem está aprendendo Inglês

Minidicionário de expressões e phrasal verbs da Língua Inglesa




Para comprar versão ebook, clique aqui

Para comprar versão impressa nos Estados Unidos, clique aqui


Para comprar versão impressa no Brasil, clique aqui

Monday, June 25, 2018

Rosewood: uma tragédia da Flórida



Rosewood: uma tragédia da Flórida 

Nos anos 60 aprendi, em minhas aulas de literatura, o conceito de "verossimilhança" em uma obra literária ou no cinema. A ideia é que uma história que se conta precisa ter essa característica de ser real, mesmo que seja absurda, ou seja, deve haver uma lógica interna que crie a sensação de  "verdadeiro" , de "possível". Pois bem, quando você assiste ao filme “Rosewood”, por um certo momento você poderá achar que falta "verossimilhança" à história, tal a indignação que ela provoca.  Acontece que a narrativa é baseada em fatos reais que aconteceram em 1923 nesta pequena comunidade da Flórida. A maioria da população era negra, lutando para prosperar diante das inúmeras restrições racistas que ainda eram muito fortes nessa época, principalmente nesta parte do país. A versão que temos dos fatos é que se espalhou um boato, mais tarde confirmado como sem fundamento, de que um homem negro havia violentado física e sexualmente uma mulher branca. Imediatamente formaram-se grupos que começaram a perseguir e atacar pessoas da raça negra em Rosewood. Várias pessoas negras foram assassinadas. Por dias todo habitante de Rosewood precisou se esconder nos pântanos ou no mato. Com a ajuda de algumas pessoas de bom senso foi organizada uma retirada principalmente através da estrada de ferro (Seaboard Air Line Railway).
 Praticamente todas as propriedades pertencentes à comunidade local foram  derrubadas ou incendiadas. Mais tarde apurou-se que  Frances "Fannie" Taylor, a mulher que se queixou da violência sexual, na verdade foi vítima de seu próprio amante, um homem branco. Inventou a história para esconder do marido sua traíção A cidade de Rosewood desapareceu, nenhum habitante jamais voltou para a mesma. Virou uma cidade fantasma. 
Don Cheadle, Ving Rhames, Jon Voight, Loren Dean, Michael Rooker atuam neste filme que recria com fidelidade essa triste história da Flórida. Como eu disse, se não fossem fatos reais, eu iria duvidar da “verossimilhança” da narrativa. Como uma espécie de vingança cármica, o local nunca mais se desenvolveu. 
Claro, o Pato Donald e o Mickey Mouse não sabiam desses horrores e acabaram vindo para perto anos mais tarde. Talvez a presença deles ajude as pessoas se esquecerem da vergonha do ocorrido, porque, afinal de contas,  a mágica precisa continuar...
Rosewood: trailer do filme



À procura de Lucas



Para adquirir este livro no Brasil 

Clique aqui  ( e-book: R$ 7,32 / impresso: R$ 27,47)

Para adquirir este livro nos Estados Unidos 



Friday, June 22, 2018

Um mundo de bolhas


Um mundo de bolhas

Vivemos num mundo de bolhas. Existem bolhas de alienados, de gente de esquerda, de gente de direita, de radicais, de extremistas religiosos, enfim, um monte de bolhas.
Obviamente entre elas não há comunicação. Uma ataca a outra, menos a dos alienados. Existe também uma gigante, enorme, deformada por causa do próprio peso, que está lá embaixo e nunca vai se levantar por causa de seu tamanho. É a a bolha doa pobres, oprimidos e abandonados. Acima de todas, estão duas bolhas pequenas, mas douradas, cheias de glamour: são as bolhas dos poderosos e a dos ricos. Elas estão sempre em contato e têm livre passagem de uma para a outra. Elas não se preocupam muito com as outras, somente quando alguma está crescendo muito, principalmente aquela do pessoal de esquerda.
A grande bolha dos abandonados não tem força para subir, a não ser que seja impulsionada por uma outra bolha poderosa. No entanto, ela nunca vai saber por que está subindo, se estiver subindo. No fim, ela sempre vai de novo ao chão, onde é seu lugar, e se esparrama.
Tenho muita pena da Grande Bolha, mas também não sei o que fazer por ela. Talvez eu até esteja lá também e nem esteja sabendo...



À procura de Lucas



Para adquirir este livro no Brasil 

Clique aqui  ( e-book: R$ 7,32 / impresso: R$ 27,47)

Para adquirir este livro nos Estados Unidos