Thursday, March 23, 2017

Uma máquina de escrever



Uma máquina de escrever

Outro dia vi, num depósito, uma velha máquina de escrever. Uma Remington. Ainda tinha uma folha branca de papel enrolada em seu cilindro. A folha branca não era mais branca, era amarelada. Foi o tempo, o tempo cruel. Esse mesmo tempo que impiedosamente acabou com sua utilidade, que a aposentou. Estava coberta de pó, coitada. Aposto que fazia anos que ninguém batia em suas teclas. Os dedos agora estão ocupados com outras máquinas. Poderosas, velozes, inteligentes. Adivinham o que você vai escrever, sabem o que você está pensando. São arrogantes. Imaginem só, corrigem você, querem dizer o que você quer escrever. Se você não tomar cuidado, roubam o seu pensamento e o colocam no ar. Sem saber, você se torna vítima de curiosos e inescrupulosos.
Eu tive uma vez uma máquina de escrever, moderna para a época. Era fraquinha, no entanto. Às vezes eu precisava consertar suas teclas. Era uma delicadeza, mas conseguia escrever tudo o que eu queria. Tinha até tinta vermelha, que era para realçar os meus pensamentos. Seu nome era Manuela. Coitadinha, era fraquinha a minha Manuela. Ela desapareceu, nem me lembro como. Nem de longe se parecia com a Remington do depósito.
Cheguei mais perto e examinei o papel que, teimoso, permanecera ali anos a fio. Para minha surpresa, havia algo escrito. Cheguei bem  perto e li: “Querida Consuelo”. Mais nada. Fiquei imaginando o coitado do remetente com aquela dúvida cruel. O que falar, a seguir? Dizer que a amava? Talvez fosse apenas uma parente, talvez fosse apenas uma conhecida. Acho que não. Por que teria escrito “Querida”, então? Será que alguém o chamou e ele teve de sair? Por que não continuou depois? Nunca vamos saber. Uma carta inacabada. Pior, mal começada. A Consuelo também nunca ficou sabendo que alguém a chamou de “querida”. Talvez ela estivesse precisando. Sabe, mesmo quando é mentira, é bom alguém chamar você de ”querida”. Talvez a carta fosse uma grande revelação, uma coisa que iria mudar a vida da Consuelo. Que diabos, por que ele não terminou a carta? Nunca vamos saber.
Cheguei mais perto e me deu uma tristeza. Uma sensação de coisa mal resolvida. De repente, não me contive e comecei a teclar:
“Tenho muitas saudades de você. Por que você não volta? Do grande amor de sua vida.
Um desconhecido.”
Eu sei que foi uma mensagem idiota, mas ninguém vai ler mesmo.
Dei uma última olhada para a Remington, me lembrei da Manuela, fechei a porta e nunca mais a vi. Me arrependi, ao invés de “um desconhecido”, deveria ter escrito “Manuel”. 
Quem sabe, uma outra vez...




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Tuesday, March 21, 2017

Sutil e perigoso acerto de contas: uma história que só pode ser lida por maiores de não sei quantos anos


Sutil e perigoso acerto de contas: uma história que só pode ser lida por maiores de não sei quantos anos

Ele fez as contas e só aí se deu conta de que a amante tinha contas demais. Ficou por conta e deduziu que seria difícil pagá-las. Tirou um extrato da conta e levou para ela ver. “Olha aí  as contas, sem conta, que você fez!” Ela fez de conta que aquelas contas, embora fossem por demais da conta, não eram contas das quais ela poderia tomar conta. “Tenho minhas próprias contas para pagar”, disse  ela com um muxoxo, que o deixou por conta. E ele perguntou se ela não podia balançar melhor as contas antes de gastar. “Claro”, ela disse. Ela, porém, precisava de sapatos novos, e perguntou se, por enquanto, podiam fazer uma conta de chegar. Ele ficou furioso e foi se deitar.
Mais, tarde, com calma, ela foi chegando. Bem baixinho, contou para ele um conto, daqueles que não dá para se contar. Só sei que ele parou, por algum tempo, de fazer contas. Por conta de outros contos que ela iria contar, fez um balanço das contas todas e ficou assim. Arredondou as contas e pediu para o contador acertar, pois é isso que ele faz. Afinal de contas, existe gente que não dispensa uma mulher que, embora não saiba fazer contas, dá conta de recados tais, dos quais nem posso falar.

Deixa esse recado chegar até a mulher do fulano. Aí, sim, ele vai ter muita história para contar... Quanto a esse acerto de contas, nem quero pensar!

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Sunday, March 19, 2017

O outro lado do rio




O outro lado do rio


Existe coisa misteriosa neste mundão de Deus, existe sim. Muita história. Eu mesmo tenho uma para contar. Esta do reverso aconteceu de verdade, mas nem eu mesmo acredito mais.
Faz muito tempo e eu era muito criança. Ao contrário de agora, que vivo numa cidade grande, vivia num lugarzinho perdido lá no meio do Mato Grosso. Havia um rio caudaloso, bonito, forte, que para nós era o centro de tudo. Tinha uma curiosidade danada de saber o que havia do outro lado, apesar do medo que tinha de atravessar. Sempre que perguntava para meu pai, ele dizia que não era nem para pensar naquilo. O outro lado - e franzia a testa - era uma coisa cheia de mistério. Só um ou outro voltava e, quando voltava, era com a cabeça toda mexida, cheia de estranhamentos. Meu pai tinha esse jeito gozado de falar, que eu não sei onde ele aprendeu. Tinha uma pressa danada de acabar qualquer conversa sobre esse assunto. Terminava sempre com a frase “É o reverso do mundo aquilo lá. O outro lado é o reverso do mundo.” Eu não entendia o que era reverso, pelo menos naquela época e no sentido que meu pai dizia. Ele não gostava de falar daquilo. Não gostava, com certeza.
Eu e meu irmão mais novo, nós ficávamos com aquela curiosidade misturada de medo. Eu mais de curiosidade e meu irmão mais de medo. Ainda assim, um dia eu arrisquei. Mas não foi assim, de ímpeto, sem pensar. Que eu nunca fui assim. Sempre fui cheio de precaução, coisa que me custou muitas coisas nessa vida cheia de competição. Mas não estou aqui para reclamar, estou para contar e é o que eu vou fazer. Depois que decidi – a gente sabe quando não tem mais jeito, que a gente vai mesmo fazer – me enchi de cautelas e preparativos. A primeira foi convencer o pequeno Mário, meu irmãozinho, de que não devia contar nada para o papai. Expliquei que o mundo é assim, que todo mundo tem direito a certos segredos, não muitos, porque daí vira engodo, enganação. Não sei se foi minha lábia, ou se foi a esperança de ter outras aventuras comigo, mas ele concordou e ficou firme. Tive orgulho dele, apesar de saber que o que estava a fazer não era de muita correção, nem de muita prudência. Muita desgraça aconteceu nessas partes perdidas do mundo por se falhar nessa parte de nossos códigos de palavra. Mas, por outro lado, tem tanta gente tão certinha que acaba se dando mal do mesmo jeito, que achei que devia ir em frente.
Voltando aos meus preparativos, primeiro arrumei uma corda bem comprida lá na venda do seu Gonçalo. Ele estranhou quando juntei os trocados que tinha recebido de presente no meu aniversário e paguei à vista sem pôr tudo na caderneta. Ele sabia que o papai sempre punha as coisas “na conta”. Fiquei com medo que ele comentasse algo com mamãe quando ele viesse fazer compras. Mas isso não aconteceu. O uso da corda era uma coisa óbvia e inteligente. Eu ia amarrar o barco do meu lado. Sabia que a correnteza ia puxar a gente rio abaixo, e assim eu ia garantir que poderia voltar.  O Mário olhava admirado enquanto eu fazia os preparativos e queria muito ajudar. Eu dei algumas tarefas para ele, só para dizer, pois ele era muito pequeno e pouco sabia. Nem sequer sabia dos perigos daquele rio. Aquilo era irresponsabilidade minha. Mas não tinha jeito, quando a gente está com uma coisa na cabeça, não tem nada que faça a gente parar. Outra coisa que fiz, foi arrumar uma vara bem comprida, além dos remos. Alguma coisa que pudesse espetar no leito do rio numa emergência. Meu irmão só ficou um pouco assustado quando enrolei as pernas dele com um pano que arrumei no porão de casa. Expliquei que era para evitar picada de cobra. Não devia ter falado nada, pois não fazia muito tempo, um moleque da escola havia morrido envenenado por uma dessas malditas. Ficou meio assustado, mas queria mostrar que era corajoso como eu.
Medo da travessia eu não tinha. O que me deixava nervoso era o tal do “reverso” que meu pai falava. É gozado como certas palavras mexem com a gente, principalmente quando somos pequenos. Até hoje, sabendo já de todos os significados do tal vocábulo, ainda sinto uma coisinha lá dentro. Talvez papai só quisesse assustar a gente, quando franzia a testa para falar do reverso. Talvez fosse só superstição boba de quem vive no mato. Talvez fosse tudo verdade, e, daí, eu seria responsável pelas consequências do reverso, principalmente em relação ao caçula.
Deu um pouco de medo, que eu escondi, quando a gente atravessou para o outro lado. Eu não sabia o que assustava mais: se era a força do rio ou a escuridão das águas. Até hoje não sei. Não sei se é pior a força do destino levando a vida embora, a da gente e das pessoas que a gente ama, ou se a escuridão da noite sem estrelas. A escuridão da noite, até, não é tão difícil, é só arrumar uma luz e tudo se resolve. O que dá medo é a escuridão de algumas pessoas, por dentro, isso sim dá medo. Desculpe o meu divagar. Às veze penso se faço isso - fugir do assunto - porque é coisa de contador de histórias, ou se é porque não estou querendo enfrentar o miolo da conversa. Para ser mais direto e franco, para evitar o confronto com o reverso. Que palavra danada essa, reverso, até dá arrepio. E já estou divagando de novo.
Chegamos do outro lado com bastante dificuldade. Tinha que administrar o meu esforço de tal forma a não assustar meu irmãozinho, pois eu era tudo para ele. Meu pai também era, mas o Mário não sabia, pois meu pai era fechado e não tinha muito tempo nem jeito para conversa. Foi com muita luta que consegui agarrar um arbusto do outro lado e segurar o barco que as águas, furiosas, insistiam em levar. Rio caudaloso. Isso é coisa que dá medo. Agora que já estou bem mais velho, eu sei que há coisa mais perigosa. Até carro com velocidade no urbano de nossas vidas é mais ameaçador. Mas a impressão ficou. É uma espécie de metáfora. Aquela água forte, escura, querendo levar a gente embora. Eu não li em lugar nenhum, mas eu sei que isso é a representação do destino. Querendo levar a gente. A gente, um serzinho de nada, na correnteza absurda da vida. Por isso é que gosto de águas calmas, claras, transparentes. Que coisa, eu divagando de novo.
Amarrei o barco do outro lado, do lado reverso, com muitos nós. Ter certeza de que não seria levado embora. Já pensou a gente, sozinho, do outro lado, sem poder voltar? Papai sem saber de nada, sem saber onde procurar? Ou, sabendo, ter que enfrentar o reverso, para nos procurar? E ele viria, com certeza. Nós dois e minha mãe eram as únicas razões pelas quais ele enfrentaria o reverso. Tudo seguro e amarrado, peguei o facão, dei a mão para meu irmão e fomos entrando na mata. Foi daí que o Mário falou que tinha medo de que alguém cortasse a corda e nosso barquinho fosse embora. Pensei, que besteira, só mesmo uma criança para pensar uma coisa daquelas. Falei para ele que era bobagem, bem confiante. Mas depois pensei comigo mesmo que ele tinha uma certa razão. Fiquei com aquilo nos recônditos da consciência. Criança, às vezes, fala verdades mais poderosas que um adulto. Depois, ainda raciocinei, que aquilo - cortar as cordas - já seria algo pensado, premeditado, de inimigo declarado. Entretanto, o que me dava medo era outra coisa, assim, do outro mundo, essas que ninguém entende. Na verdade, estava pensando, mais uma vez,  no “reverso do mundo” de que meu pai tinha falado.
Fomos entrando mais e mais. Daí o pequenino fez outra observação que, inicialmente, me deixou assustado de novo. E se a gente não soubesse voltar? Respondi automaticamente que era só seguir o corte que estava fazendo na vegetação. Era a melhor indicação da rota, o que estávamos fazendo. Honestamente, porém, não tinha pensado nisso. Foi aí que comecei a cortar tudo com mais intensidade. Criança diz cada coisa. A gente devia ouvir mais esses pequeninos, posso lhe dizer. E fomos andando, andando, com aquele pavor de ser picado por uma víbora. Esse era o medo do irmãozinho. O meu era esse, mais o reverso. A essa altura, o “reverso” para mim era uma pessoa. Pior que isso... Nem gosto de falar, mas acho que não preciso, você já entendeu. Penso mesmo que era isso que papai pensava. Estava claro por que ele franzia a testa. Mas eu sabia que tinha de fazer aquilo, ou pelo menos agora eu sei. São aqueles momentos na vida em que você tem de enfrentar os seus medos.
E daí, eu tive medo de verdade. Vimos, entre as folhas, uma cabana. Paramos. Dava para ouvir o coração bater e a nossa respiração. E o que fazer, então? Ficamos ali, parados um bom tempo. Finalmente saiu da casa um homem. Seus cabelos não eram tão compridos, mas certamente estava na hora de cortá-los. Cabelos loiros, iguais ao de minha mãe. Aquilo não era coisa comum naquelas bandas. Assim, só conhecia minha mãe e agora, aquele homem. O Mário tinha saído com a mesma cor dela, acho que, até então era o único menino loiro que eu tinha visto. E agora conhecia também um homem loiro. De repente alguém o chamou lá de dentro e ele voltou. Houve uma conversa no interior da casa e depois, os dois saíram. E a mulher tinha cabelos negros como meu pai. A cabeça da gente é gozada mesmo. Eu mal sabia o que significava reverso e, ainda assim pensei, que aquilo era o reverso de meu pai e de minha mãe. Que besteira, mas não é assim o nosso pensar, cheio de idiotices brincando o tempo todo nos nossos miolos? Reverso. Que besteira.
Passou um tempo assim, eles falando animados lá fora da casa, e eu achei, na minha razão, que era hora e tempo e voltar. Era a sabedoria falando. Coisa óbvia. Mas quem disse que é a cabeça que manda? A curiosidade era grande demais. Ouvimos mais vozes. Eram de crianças. Não demorou para saírem dois garotos de dentro, um maior, outro bem menor. Tal qual nós dois. E, ainda mais estranho... Para você entender esse novo estranhamento, preciso explicar mais algumas coisas. Meu nome é Fernando e, ao contrário do meu irmão, tenho cabelos pretos, puxei ao papai. O pessoal até brincava que eu era o filho do pai e o Mário era o filho da mãe. Pois não é que o moleque pequeno, que tinha saído da casa - bem modesta – era moreno como eu e o maior era loiro como o pai dele e como a minha mãe e meu irmão? Minha cabeça estava girando. O reverso do reverso, do reverso. Olhei bem para me certificar. Estava ficando já meio assustado e o meu irmãozinho estava percebendo. Achei que era hora de ir embora. Não havia mais nada a fazer ali. Conversar com eles não podia, estava em sua propriedade. Conversar o quê? Sobre o reverso? Eles iriam achar que eu era um demente. A única coisa reversa que eles iriam notar era o meu moreno e o loiro do Mário. Estava certo, tinha de voltar e avisei para meu irmão que concordou muito rápido. Antes de sair, porém, ouvi o mais velho chamar o mais novo de Fernando. Para ele se apressar. O pequeno reclamou que ele estava sempre com pressa e o chamou de Mário. A essa altura parecia já minha imaginação funcionando, mas que ele chamou, chamou. Eu tinha certeza também, embora nunca tenha confirmado - isso é pura teoria - de que o homem se chamava Mário, pois Maria era o nome de minha mãe e a mulher se chamava Fernanda, pois Fernando era o nome de meu pai e é por isso que tenho esse nome.
Voltamos com muita pressa. Na minha cabeça rodopiavam aquelas imagens, aqueles nomes, tudo rodopiava. Meu irmão só estava com pressa, queria voltar. Ele não tinha percebido nada. Nem dava para discutir essas coisas com ele, pois ele jamais entenderia. Nunca entenderia o que era reverso. Qualquer dia eu vou falar com ele para ver se ele se lembra disso tudo. Claro que ele se lembra. Mas não do reverso. Essa parte vou ter de engolir sozinho. Nunca pude falar isso com papai por motivos óbvios. Talvez devesse ter falado depois de adulto, mas fiquei com medo de passar por idiota. Qualquer dia falo com o meu irmão loiro, o Mário, essas coisas, talvez. A parte do reverso, não. Vou ter de morrer com esse segredo.
Além do mais pode ter sido tudo imaginação. Quero dizer, a travessia, as pessoas, tudo isso existiu. A parte de um ser loiro, outro moreno, os nomes invertidos, isso, talvez. Na verdade, tenho certeza de que vi e ouvi bem. Mas você sabe, a cabeça da gente é perigosa, está sempre pregando peças. Além do mais, existem incríveis coincidências neste mundo, não existem? Talvez o reverso, de que meu pai falava, era outra coisa completamente diferente, alguma coisa que tivesse a ver com demônios. Demos escondidos na mata, do outro lado do rio, o lado que não era esse. Era o perigo da morte naquela floresta escura. O reverso, palavra incomum para nós, era só para assustar. O loiro e o moreno, os nomes trocados, tudo, apenas uma coincidência. Será que coincidir é coisa do demônio?

Reverso, que coisa estranha, como meu pai foi ter uma ideia dessas? Fiquei a vida inteira com isso na cabeça. Reverso. Nunca vou ter certeza. Pode ter sido, pode não ter sido. Quase tudo é assim, no final. O que manda, mesmo, é nosso pensamento. Às vezes a gente pensa o reverso do que quer pensar. Mas eu não quero falar mais em reverso. Pelo menos, não por enquanto.

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Saturday, March 18, 2017

As crianças e a poesia


As crianças e a poesia

As palavras, às vezes, não vêm. Quando vêm, chegam soltas, fora da frase, indefinidas. Quando conseguem se juntar na sentença, juntam-se sem sentido, sem sintaxe. O que faz o poeta? Desespera-se ante a tirania da linguagem?
Olha quase em desespero para os lados, para as pessoas, procurando onde se inspirar. Talvez num gesto suave, num sorriso casual, em algum ponto indefinido, esteja a inspiração...
De repente, vê uma criança. Uma menininha que brinca, que ri. Ela nem sabe falar e já “diz” tanta coisa...Por que será? Como será?
O poeta pensa um pouco e descobre a solução do enigma. A menina não precisa de palavras, nem de nexo, nem de sintaxe, nem de metáforas. Ela já é a poesia. A poesia pura, perfeita. Ela é a própria essência da vida, ela é a poesia em si mesma!


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Thursday, March 16, 2017

Essa língua de Camões, boa de se namorar


Essa língua de Camões, boa de se namorar

O Chico, em “Construção”, canta que o operário “dançou e gargalhou como se ouvisse música”, anunciando o trágico momento que ele iria viver. Uma imagem poderosa. Depois anuncia que ele “tropeçou no céu como se fosse um bêbado”, fazendo do topo do edifício um céu de onde se pudesse cair. E continua brincando drasticamente com a língua e suas imagens dizendo que ele “flutuou no ar como se fosse um pássaro”. Para compor assim, além de inteligente, precisa ter um dom de um Deus em quem nem sei se ele acredita.
E o Caetano que canta “Gosto do Pessoa na pessoa, da rosa no Rosa, e sei que a poesia está para a prosa, assim como o amor está para a amizade”? Esse Caetano que joga com a essência e com a forma, invertendo e misturando seus conteúdos. Não é demais?
Já o Milton, junto com o Chico, diz que é preciso “afagar a terra, conhecer os desejos da terra”, pois estamos no momento do “cio da terra, propícia estação” e é preciso “fecundar o chão”.
Eles brincam com a nossa língua, enchem-na de atavios, para depois despi-la e mostrar sua bela nudez. Descobrem nela segredos que nem mesmo ela sabe que tem. Falam de sua intimidade de seus segredos, mostram seu reverso, seu “por dentro” e seu “por fora”. Fazem prosa de sua poesia e cometem atos poéticos com sua prosa. São seus amigos, seus namorados, seus amantes.

Também, essa nossa Língua Portuguesa, quem não quer “ficar” com ela? Ela é gostosa de se ouvir, de se falar, de se cantar. Ela é muito boa de se namorar. Acho que me apaixonei por ela...

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Wednesday, March 15, 2017

O homem sábio que voltou da idade Média



O homem sábio que voltou da idade Média

Astaradontis era um sábio da Idade Média. Além disso, ele era uma pessoa especialmente boa e sensível. Amava os seres humanos, cultuava a amizade entre os povos. Estava desanimado com as guerras, com esses líderes que querem tudo conquistar. Estava pedindo para ser “levado” embora, pois seu coração não aguentava tanta brutalidade entre os seres. Por ser uma pessoa especial, o Criador o atendeu, levando-o para a morada celestial. Quando morreu, entrtanto, recebeu uma promessa do Senhor. Poderia revisitar a Terra no começo do Terceiro Milênio.
E assim aconteceu. Foi há alguns dias atrás, num local que não pode ser revelado. Mostraram para ele as maravilhas da Ciência, a Internet, a viagem à Lua. Ficou encantado. E repetia: “Eu sabia, eu sabia...”  Deduziu que, obviamente, com todos esses conhecimentos, o homem não fazia mais guerras. Foi aí que começaram a contar. Primeiro falaram da Palestina, depois da Ucrânia. Em ordem regressiva, foram relatando tudo. Estavam na guerra do Iraque, quase entrando na do Afeganistão. Foi aí que ele deu um berro medonho que ecoou por toda a Terra. Talvez você não tenha ouvido porque estava ocupado ou com fones de ouvidos, mas que ele berrou alto, ele berrou. Falou,não se sabe por quê, em Inglês: “Stop!”. Acho que foi para todo mundo entender. Foi embora, de volta, não sem antes afirmar que só voltaria daqui a mil anos. Isso, claro, se o mundo ainda existisse com tantos confrontos.
Imaginem só. 
E nem chegaram a mencionar a Segunda Guerra Mundial, a Primeira, e outras tantas...
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Tuesday, March 14, 2017

Expressões que expressam muito...


Expressões que expressam muito...


A gente gosta mesmo de usar expressões ao invés de dizer a coisa diretamente. Talvez porque assim “tenha mais graça”. E aí foi, escapou a primeira, “ter graça”. E não é a mesma graça de “ela é uma graça” e muito menos de “comida de graça”, o que não acontece “nem que a vaca tussa”... Por que dizemos, por outro lado, quando alguém “se deu mal” – mais uma – que o fulano “dançou”? O que “dançar” tem a ver com isso? E, vejam bem, não pode ser “bailar”, a não ser que, como a Rita Lee, você queira  “bailar no esconderijo”, mas o significado dessa é melhor você perguntar para ela mesmo... Se, ao invés da bela arte da dança, você quiser usar a arte da guerra, você pode usar uma mais antiga que é “o tiro saiu pela culatra”. Nesse caso, até dá para entender, porque culatra é a parte de trás da arma e a bala atingiria você mesmo. Por falar nisso, por que usar a mesma palavra - bala - para uma coisa tão doce e um projétil que pode matar? Já, quando falamos “manda bala”, fica fácil entender, alguém está querendo que você faça as coisas na mesma velocidade do projétil.
Fico preocupado quando a gente usa a expressão “acabar em pizza”, afinal de contas, é uma coisa triste, quer dizer que as pessoas não aplicaram as regras do jeito que deveriam. Deveríamos chorar e não ficar comendo. É claro, estou sendo inocente aqui, quem está a comendo a pizza são eles, e não nós. Existem expressões que são parentes, acho até que são irmãs. Por exemplo a tal da expressão “acabar em pizza” deve ser no mínimo prima daquela outra “grana por fora” ou, ainda, “quebrar o galho”. Quando essas coisas acontecem, geralmente a grana é do povo, embora seja “uma grana preta” – pois é sempre muita – e o galho que quebra é sempre o nosso e não deles. Estou falando que a “a grana foi preta” sem saber, pois, nós, o povo, nem vimos a “cor da grana”. No máximo, “comemos grama”.  Além do mais, não estamos sempre “no buraco”? Claro, foi lá onde caímos quando o “galho quebrou”. Isso é só para gente importante, porque para pobres mortais como nós , só existe o “dá um jeitinho”, mas do jeito que está, para nós nem esse “jeitinho” existe mais...

Para terminar, não “em pizza”, é claro, estou preocupado com o fato de que para pessoas sem recursos, além de nada “acabar em pizza”, eles quase sempre veem a “pizza acabar” antes de chegar. Na verdade, eles nem pediram a dita cuja pois o dinheiro nunca é suficiente para tal no final de semana. No máximo, as coisas acabam em “feijão com arroz”, uma coisa comum, que também é uma expressão, mas não para os sem recurso, pois, no caso destes, “feijão com arroz” não é uma expressão, é arroz com feijão, mesmo, e olhá lá...


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