Tuesday, October 25, 2011

Danny Glover e as raspadinhas











Danny Glover e as raspadinhas


Sei que é uma estranha combinação, mas no final tudo vai se esclarecer. Vamos começar com Jimmy, o funcionário da concessionária de veículos. Toda noite, por volta das 8 horas, ele passava pelo 7-Eleven e pedia para a atendente conferir uma pilha de “raspadinhas”. Esse termo,  sem dúvida, é o melhor para traduzir as loterias de “scratch-off” ou os “scratching-tickets” que temos por aqui. Não era uma quantidade absurda mas também não eram poucas. Na fila, aquela cara de impaciência de muitos, com pressa de voltar para casa ou para ir onde quer que tenham de ir. Jimmy normalmente ganhava o direito ao mesmo bilhete, às vezes um prêmio modesto, nada que podesse mudar sua vida nem sequer por uma semana. Os resultados não impressionavam, o que me  impressionava, no entanto, era a assiduidade do Jimmy. Não falhava um dia sequer. Ao saber dos resultados não mostrava nem rancor por não ter ganhado, nem decepção, talvez, no máximo, um longínquo ar de esperança misturada com resignação. Esta era a vida do Jimmy. Comprava algo no mesmo caixa para o jantar, como todos que estavam na fila e ia para casa. Era vendedor, provavelmente vendia seus dois ou três carros e voltava para casa à noitinha. Jimmy tinha um rosto familiar e por alguns meses eu tentei descobrir por quê. Finalmente um dia decifrei a charada. Estava assistindo mais uma vez ao filme “Lethal Weapon” (“Máquina Mortífera”) e lá estava: era o próprio Danny Glover, o policial parceiro da personagem de Mel Gibson, no filme. Agora nosso título acima está explicado. O outro mistério que era difícil de entender era o porquê daquela assiduidade. Anos a fio, todo dia comprando as tais loterias, com resultado quase nenhum? Pensei muito sobre o assunto e cheguei a uma conclusão. Todos os dias Jimmy vendia carros novos, ou seja, vendia realização de sonhos para as pessoas. Eu não sei quais eram os sonhos de Jimmy, mas sei que tinha muitos. Nem importava ganhar, importava manter a fantasia, a esperança. Jimmy havia escolhido uma forma de materializar a procura da sua. Todo dia ele comprava pedacinhos de seu devaneio...Todos nós também, todos os dias,cada um a sua maneira,  estamos “comprando”, de alguma forma,  nossas “raspadinhas de sonho”...

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Thursday, October 20, 2011

Joseph Long, ufólogo








Joseph Long, ufólogo
      
Joseph Long era cheio de histórias. Coisas místicas, seres de outros planetas, planos secretos do governo encobrindo tudo, etc., etc...Na época, ele estava fazendo um tratamento na coluna pois se acidentara no trabalho. Gostava de contar as suas teorias para o motorista. Claro, não eram mais teorias, eram verdades absolutas. Você já tinha ouvido falar do Calendário Maia?  Este calendário era perfeito, tudo cientificamente provado. O mundo vai terminar, com certeza, absoluta, em 2012. Fizeram até filme e esses caras de Hollywood sabem de tudo. A CIA não deixa divulgar, o FBI fiscaliza para ninguém saber, cada presidente novo que entra na Casa Branca recebe um relatório secreto. Daí vêm umas explicações sofisticadas que não ouso reproduzir. E não é só isso. Existem outras civilizações, muito mais avançadas que estão nos observando,  aliás, já estão aqui há muito tempo. Eles controlam o pensamento, viajam no tempo, não dá nem para explicar. O que eles querem da gente? Temos alguns minérios de que eles precisam. Nós nem sabemos direito quais são, mas eles com seus aparelhos, ultra, ultra não sei o quê, sabem tudo, como localizar, etc. “Nossa”, pensou o motorista, “esse Joseph sabe cada coisa.” E na sua inocência, pensa, será que ele não sabe como curar as próprias costas? Quase perguntou, mas ficou com medo de que o Sr. Long se ofendesse. Long devia ter uns 55 anos, nem gordo nem magro, tinha uma pele oleosa e cabelos compridos, como os que o pessoal usava nos anos sessenta. Numa corrida anterior, o motorista precisou bater na porta para chamá-lo e, quando Joseph apareceu, pode ver na sala, pilhas de livros espalhadas para todo lado, uma bagunça. “Nossa, o cara deve ser mesmo inteligente, algum tipo de professor ou sei lá o quê...” Outros grandes segredos são revelados naquela corrida de meia hora. A civilização mais avançada que queria nosso minério, eles iriam nos destruir para poder ficar com tudo. Segundo seus cálculos, isto deveria ocorrer por volta do ano 2015. Certamente o ser humano não veria o ano de 2016 desabrochar. O motorista, Rachid, não era nem físico nem historiador, nem matemático e muito menos ufólogo ou místico, mas tinha uma noção básica de lógica. Perguntou, quase sem querer, para o Joseph: “Mas, Sr. Long, aqueles índios que o sr. falou antes, os Maias, não falaram que o mundo acaba em 2012? Como os outros vão matar a gente de novo em 2015?
Estavam chegando, Long pronunciou umas frases incompreensíveis e desceu. Tinha chegado ao destino. Nunca mais Rachid viu  Joseph Long.

Links:
Teresa Culpepper
a Tereza do Simonal



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Sunday, October 16, 2011

Sarah e o Estado Civil








Sarah e o Estado Civil


Antônio havia se mudado há pouco tempo para a Flórida. Tinha um emprego modesto e morava num hotelzinho também modesto, ou como dizia seu amigo, “vagabundo”, mas que mesmo assim consumia boa parte de seus rendimentos. Precisava alugar um outro imóvel o mais rápido possível. Quando vivia com Dolores era tudo mais fácil, a danada “rasgava” um inglês lascado e tudo se resolvia. Estava envolto nessas lembranças quando viu a  a placa de “aluga-se”, estacionou e entrou no escritório. Alguns minutos depois a moça convidou-o para  sentar-se. Antônio explica para a loira o que queria, embora fosse óbvio. Sarah, esse era o nome da funcionária,  faz-lhe a primeira pergunta:
-O senhor é casado?  Antônio chega a se indignar um pouquinho, “que diabos isto interessa para ela?”, mas responde, meio gaguejando, “que sim, que não...Bem, na verdade estava separado mas ainda não tinha feito o divórcio, pois, sabe,talvez nós voltemos a ficar juntos, claro, que não vai ser fácil...” Sarah não tinha paciência e nem tempo para essa conversa "mole” e explicou rapidamente:
-O senhor não divorciou, então é casado. Precisa comprovar uma renda de $ 30,000.00 anuais, preencher este formulário e...
Antônio interrompeu e explicou que sua renda era só de $ 23,500.00 mas que, como, na verdade, ele era separado,  será que...? Sarah, impaciente, retrucou que se ele fosse solteiro, a renda seria de $ 22,000.00, mas obviamente não era seu caso. Antônio por alguns segundos sentiu saudades de Minas Gerais, e tentou argumentar...”Mas a senhora precisa de uma certidão de divórcio?”

Sarah, visivelmente contrariada com a insistência responde:
-Não preciso nem de certidão de casamento, nem de certidão de divórcio. O senhor já declarou que é legalmente casado. Não posso fazer  contrato com essa renda, não dá.
E quando falou isso, esticou seu pescoço e , embora mais baixa que Antônio, olhou de cima.
Antônio vasculhou em seu pensamento que palavras usaria , dentro de seu modesto conhecimento de inglês, para expressar a frase “não dá para dar um jeitinho”, ou talvez “quebrar o galho” mas nem de longe surgiu qualquer ideia e, além do mais, sabia, seria inútil. A essa altura, ela já estava fazendo sinal para o próximo cliente se aproximar. Antônio soltou um “thanks” bem humilde, talvez o mais humilde que já pronunciara na América.
Sai desolado, pára num Burger King, pede um hambúrguer e uma coca. E pensa e pensa....Ele precisava do apartamento, mais barato, mais limpo...De novo sentiu saudades de Minas. De repente Antônio teve uma ideia. Deixou passar umas duas horas e voltou, com esperança de encontrar uma Susan, uma Jane ou uma Dorothy (esse nome sim era bonito, paraecia até com Dolores...). Mas qual nada, mal abriu a porta, lá estava a mesma Sarah, com seus gélidos olhos azuis, cabelos curtos e loiros, muito magra. Acho que mais magra do que antes. Suspirou, esperou sua vez e lá estava ele novamente diante de seu carrasco. Sarah ou não se lembrou que ele viera antes ou fingiu que não se lembrava. De novo estende o formulário, explica a renda mínima para cada caso e pergunta:
-O senhor é casado?
Antônio falou com decisão que era separado e, com o coração palpitando, ficou esperando por pedidos de maiores explicações, maiores detalhes. Mas não, a Sarah então perguntou se ele tinha renda a superior a 
$ 22,.000.00, requisito para quem não era casado, e Antônio, orgulhosamente explicou que sua renda era de $ 23, 500.00. Preencheu os documentos e no mesmo dia teve o apartamento à sua disposição.
Naquele dia aprendeu uma grande lição para se viver na América. Fale apenas o necessário, nem uma palavra a mais, nem uma palavra a menos. Essa Sarah, afinal de contas, não era tão ruim assim...

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Saturday, October 8, 2011

Steve, o navegador


Steve, o navegador

Steve, nem McQueen, nem Martin. Não sei o sobrenome de Steve. Só sei que o Steve bebia muito. Muita cerveja o tempo todo. Era macérrimo. Eu sei que cerveja engorda, porém, no caso dele ocorria o efeito oposto. Não tinha vontade de comer pois estava sempre bêbado. Não era dessas bebedeiras que você conhece. Nada disso. Você nem percebia seu estado. Era como se ele estive em transe, em meditação. Eu sabia porque sabia, a maioria das pessoas, quem não o conhecia, nem percebia. Outra coisa, não pense que ele era vagabundo, nem nada. Trabalhava direitinho, claro, sempre “em estado de transe”. Era mecânico de máquinas e trabalhava quatro lagos de distância de sua casa. Isso mesmo, havia muitos lagos na região e Steve morava num trailer. Usava uma velha caminhonete Ford para ir ao trabalho.  Ia serpenteando nas estradas em volta dos lagos para chegar. As pssoas falavam para ele, que serpentear ele iria de qualquer jeito, mesmo sem lagos, com todo aquele álcool na cabeça. Acho que ele não entendia. No serviço, Steve era perfeito, só tinha um defeito. Alguns minutos antes de terminar o turno, ele já pegava suas coisas, cartão de ponto na mão, e olhava fixamente para o relógio, daqueles antigos. O danado era de uma precisão incrível. Nanosegundos após o relógio clicar,  já estava tudo registrado e ele no estacionamento. Ninguém sabia explicar como ele sumia tão rápido. Próxima parada: 7- Eleven. Juntava uns pacotes de latas de cerveja e “voava”, quero dizer, serpenteava, pela pequena estrada. Chegava afoito em casa, nem entrava no trailer, sentava-se do lado de fora, olhava para o lago e começava a beber...de novo.
Um dia “a casa caiu.” Não, o trailer não caiu. Steve foi pego dirigindo bêbado para o trabalho. Um policial novo, transferido para a região e que sabia distinguir “estado de transe” normal ( se é que existe, normal?) de estado de embriaguês profunda, achou que algo estava esquisito e parou o motorista. Steve, otimista, pensava dentro de seu nirvana, que tudo se esclareceria na posto policial. Nada. Foi preso, perdeu a licença para dirigir, ou como a gente diz no Brasil, perdeu a habilitação. Passou por um longo drama, advogado e grana emprestada para pagar o mesmo, cursos de direção. Processo longo mesmo, mas um dia voltou a dirigir. Estava feliz e feliz como estava, precisava beber. Afinal, a cerveja para Steve era como água e água é a própria vida, não? Foram só semanas até que o mesmo danado policial, cumpridor insaciável  de suas funções de vigilante da sociedade,  pega o Steve de novo. Desta vez ia ser difícil conseguir a carteira de motorista de volta. Deu-se por feliz por não ficar muito tempo na cadeia. E agora, sem “drivers license”, como trabalhar? Não havia carona, e ônibus naquela região, nem pensar. Pensou, pensou. Montou então um sofisticado sistema “cicloaquático”. O nome é meu, me desculpem. Era mais simples que isto, embora complexo. Ele ia de bicicleta até o próximo lago, amarrava a bicicleta numa árvore, pegava um bote, descia do outro lado do lago, pegava outra bicicleta que tinha deixado lá previamente e assim ia, repetia a operação e finalmente chegava ao trabalho. Não dava para pôr a bicicleta no barco pois este era muito pequeno. Barco maior, algum policial poderia querer prendê-lo por “navegar” bêbado. Simples: três barcos e três bicicletas depois, lá estava Steve pronto para o serviço. Explico: não precisava da quarta bicicleta e do quarto barco porque entre o segundo e o terceiro lagos a distância era pequena e ele podia arrastar o barco pela chão.

Steve, perguntou um amigo, “Vale a pena tudo isto? O seu irmão mais velho é solteiro também, e com certeza, te daria lugar e comida no trailer dele, você nem precisaria trabalhar”. Indignado, Steve, bom trabalhador, responde que “ Nem pensar, comida e morada? E minhas cervejas? Você quer que meu irmão seja responsável por minhas cervejas?” Claro, pensei comigo, é tudo uma questão de prioridades...









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Friday, October 7, 2011

A Breve História de Ribeiro na América















A Breve História de Ribeiro na América

     Ribeiro, quando veio para cá, tinha um plano claro, simples, objetivo. Trabalhar em construção apenas o tempo para juntar um dinheirinho, voltar para Goiânia e comprar um terreninho nas redondezas. Como conseguiu o visto, não sei. Não sabia falar nem “hi” mas não teve problema algum na imigração. Encontrou uns amigos que já estavam aqui, se instalou provisoriamente no apartamento e pediu para eles ajudarem a arrumar emprego. Não demorou muito e “ajeitaram” para ele um serviço de telhado. Era longe, mas ele ia de carona com alguém que trabalhava no mesmo lugar. Você começa na segunda, alertou o Mané. Tenha tudo pronto, saímos às 5:30.
     A segunda chega e os quatro amigos partem de carro para a casa onde iriam trabalhar, perto da praia. Ribeiro achava tudo muito bonito, tudo moderno. Às vezes, um pouco,  esquisitivo. Mas, não, confirmou para o amigo, o que queria era voltar para Goiânia assim que pudesse, não queria morar aqui. Se desse faria horas extras, trabalharia sete dias por semana, queria comprar um terreninho, conforme já dissera.
     Lá chega o pequeno grupo, alguém explica em espanhol o que o Ribeiro tem que fazer, seu amigo “traduz” para ele. Ribeiro pega a escada, junta as ferramentas e vai subindo. Estava quase lá em cima, a escada vai um pouco para a direita, Ribeiro se joga para a esquerda para compensar, daí Ribeiro não se lembra mais. Só lembra de tentar aparar a queda com o braço. Ambulância, sirenes, hospital. Ribeiro acordou de novo na ambulância e achou estranha a maneira como se vê as coisas de dentro... Dois enfermeiros ligam aparelhos, conversam e a sirene vai rasgando o céu da cidade, acho que o som ia também para o mar... Será que os peixes também escutavam? Por que tanto barulho, tanta sirene?
     Acorda bem mais tarde, todo enfaixado, os amigos explicando que teria de fazer uma operação alguns dias depois. Eu sei que você está pensando, que tragédia! Bem, como dizia Einstein, tudo é relativo. Para Ribeiro, nem tanto. Em dois meses e meio, não estava curado, tinha uns “arames” dentro do pulso, teria de fazer muita fisioterapia, mas, por outro lado, ficou sabendo que teria direito a uma indenização. Ribeiro não fez a fisioterapia, ao contrário, com a ajuda dos amigos e do advogado, antes de completar os três meses, conseguiu um cheque de $ 20,000.00.  Ainda com a ajuda de Mané , foi até o banco e sacou o dinheiro. Três dias depois pegava um avião de volta para Goiânia, Brasil. Como disse o Mané, “um cara de sorte”... Uns “araminhos no braço” e já conseguiu comprar o terreninho. O danado nem chegou a ficar com o visto vencido. Tecnicamente ficou ilegal por apenas 22 minutos e alguns segundos, enquanto trabalhava. 
     Ribeiro não realizou o “American Dream” ( nem queria, nem sabia o que era isso...) mas realizou um sonho brasileiro, ou pelo menos goiano, em menos de meia hora. Como disse o Mané, “que cara de sorte...”

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Thursday, October 6, 2011

Norman e Ethel, uma história americana


Norman e Ethel, uma história americana

Casal muito simpático, os Thompson. Ele, quase oitenta anos, faz coisas o dia todo, conserta, às vezes pesca, lê  e tudo mais o que um aposentado pode fazer. Ela, quase dez anos mais nova, cuida da casa, cozinha, lê e fiscaliza se ele está tomando os remédios direitinho. Não são milionários mas têm dinheiro para viver muito bem durante a aposentadoria. A vida tranquila numa praia, no norte da Flórida, havia sido um pouco abalada por um problema no coração dele, no ano passado. Foi mais um susto e a única consequência foi a prescrição de uma série de remédios que tem de tomar todos os dias. Ele não gosta de engolir todos aqueles comprimidos. É coisa de médico e laboratório, diz ele, e dá um piscadinha maliciosa. Ela também tem alguns probleminhas de saúde, mas nada mais do que é normal para  sua idade, como ela sempre repete. Norman e  Ethel ( se você pensou nas personagens do filme “Num Lago Dourado”, isto é apenas uma coincidência) tiveram três filhos. Susan, a mais nova, vive com seu marido, um economista, perto de Atlanta, na Geórgia. Bill vive perto de Duhram, na Carolina do Norte e é casado também. O mais velho, também casado, vive em Nova Iorque.
Certo dia, o casal de velhinhos resolve fazer uma grande viagem de carro até Nova Iorque. No caminho, claro, aproveitariam para visitar todos os filhos, genros e netos. Para não chegarem de surpresa, telefonam para os três avisando. Começa então uma intensa polêmica familiar. A filha telefona para os irmãos e eles ligam de volta, fazem “conference call”, ligam de novo. Assunto da controvérsia: como um casal com esta idade, ele com problemas cardíacos, vai dirigir esta distância enorme, durante todo um mês. Estão loucos, a senilidade atacando. No fundo sabiam que de nada adiantaria discutir porque Norman era “teimoso”. Para sua doce companheira, no entanto, ele era “determinado” e um homem corajoso. O fórum continua por uma semana e depois arrefece um pouco. Aparentemente o casal já estava desistindo da grande aventura. Qual o quê! Mal eles sabiam, os dois velhinhos já estavam firmes na estrada rumo a Atlanta. Por cortesia, dois dias antes, chamam a filha pelo celular para avisar da chegada. Diante do inevitável, Susan liga para os irmãos e os avisa da tragédia, da loucura dos pais. Pelo menos, pessoalmente, iria tentar fazer com que eles suspendessem a empreitada e voltassem para a Flórida. Quem sabe colocá-los num trem ou comprar duas passagens aéreas e mandá-los de volta.

Atlanta
Susan, apesar de assustada, fica feliz em ver os dois. Grandes abraços, beijos, lágrimas, emoção. Norman e Ethel disfarçam as lágrimas ao abraçar a neta, Karen, de 10  anos, que não viam há algum tempo. O genro, muito simpático, os recebe com afeto e simpatia. No entanto, Ethel, com seu instinto de mãe e de mulher, percebe que há algo de errado com o casamento. Crise dos “não sei quantos anos”...Normal, porém, muitas , talvez na maioria das vezes, fatal para um casamento. Ethel e Norman não queriam que sua neta fosse criada com pais divorciados. Passaram uma semana lá e, apesar de todos os protestos e esforços, partem para Carolina do Norte. Curtem a estrada, a paisagem. Vão devagar, passeando. Os telefonemas familiares continuam, a celeuma continua. Dois dias antes de chegar a Durham, dão o telefonema de cortesia para Bill.

Subúrbios de Durham
Novamente, grande emoção. Abraçam os netos, gêmeos de 15 anos. A nora, muito carinhosa os recebe muito bem e tem tudo preparado para a visita. Muita alegria. No entanto, nesta primeira noite, no quarto, a intuição da mãe e avó e do velho Norman deram origem a uma conversa muito triste. Ambos concordaram que havia algo de errado. Era óbvio que eles estavam com problemas financeiros. Uma frase aqui, acolá, a atitude dos netos. O olhar assustado da nora, as maneiras do filho tentando disfarçar o problema. Certamente estavam para perder a casa que haviam comprado com tanto sacrifício. Que iria ser dos netos? Tão brilhantes, tão inteligentes...O que poderia ser feito para evitar essa tragédia financeira? Enfim, passam uma semana, tentando alegrar o ambiente, tentando aproveitar a companhia dos netos. Desta vez a polêmica foi menor na hora  da partida. Os três filhos sabiam que não havia nada que parasse os dois. Além disso, parece que o casal estava se saindo muito bem na grande aventura.

Nova Iorque

Bob também foi avisado dois dias antes. Bob estava em frente da casa quando eles chegaram, como se os estivesse esperando. Chegada, abraços. Bob não tinha filhos. Era casado mas a mulher estava fora por uns dias. Bob deu uma desculpa esfarrapada para a ausência. A mãe, imediatamente percebe o que está acontecendo. Bob voltara ao vício das drogas e certamente a mulher dele não aguentava vê-lo se destruindo e saiu de casa. Mas, para surpresa de todos, inclusive de Bob, ela aparece à noitinha, dá um longo e afetuoso abraço nos dois velhinhos. Ethel sempre sentira um carinho especial por Sarah, que, segundo ela, era a única pessoa que podia manter Bob fora das drogas. Houve diversas conversas paralelas. Norman e Bob. Bob e Ethel. Ethel, Bob e Sarah. Também Ethel e Sarah, e talvez esta a mais importante de todas. Uma semana de conferências pois o que estava acontecendo era uma verdadeira tragédia e talvez a maior de todas. Enfim passaram-se  os sete dias e o casal começa a partir de volta. A longa jornada de carro para a Flórida. Para Norman, era ali mesmo, um pouco abaixo. Aparentemente, pelo menos, houve um grande acontecimento durante a semana. Sarah resolvera ficar na casa e lutar pela vida de seu marido.
A Volta
Tinham planejado ir devagar, parando em locais importantes para eles. Certamente preocupados com os filhos. Cada um com seu tipo de problema. Mas eles sabiam que tudo iria se ajeitar. Ainda bem que havia celular hoje em dia. Podiam viajar e acompanhar a vida de seus filhos. É isso mesmo. A coisa toda se invertera. Eles eram seis tentanto “salvar a vida dos dois” e agora eram os dois velhinhos tentando “salvar a vida dos seis” e mais os netos. Este mundo, às vezes, é estranho. Agora era Ethel e Norman que ligavam. Mas Norman era também prático e tomou várias providências. Ethel sabia que ele iria fazer isto. Ele era como um capitão de navio. Havia uma tempestade e ele, de jeito nenhum, permitiria que sua família naufragasse. Os telefonemas não era só para os filhos. Era para velhos conhecidos. Norman conhecia todo mundo.
Para  Bob arrumou uma excelente clínica de reabilitação. Emocionado com a presença do pai, mais a volta de Sarah, motivação era o que não faltava. Para Bill, dose dupla. Um empréstimo sem juros. Bill nunca imaginara que seus pais tinham estas economias. E mais o empréstimo não iria afetar a qualidade de vida do velho casal. Mas não era só isso, Norman falou com um amigo e arrumou uma excelente colocação na firma de um amigo para o filho. E, ainda brincou com ele; “Não estou fazendo isto por você, não...Quero ter certeza que você tenha um bom salário para poder me pagar de volta.” E ria...
Susan estava só precisando da certeza de que seu marido ainda a amava e que a sua maneira de agir não era falta de amor por ela, mas  era só preocupação com a situação...O marido de Susan mais uma vez se emocionara com os velhinhos, seu amor, seu casamento forte. E decidiu que era isso que ele queria: ser como eles, viver até a velhice com Susan. Tudo era um mal entendido, eles se amavam muito...

Epílogo

Este é o final da história. Quando Norman e Ethel chegaram de volta em sua casa, as coisas estavam completamente mudadas. Mais do que se poderia imaginar. Norman brincou com Ethel: “...estes meninos sempre dando trabalho...” e Ethel, brincando com Norman:  “...mas você bem que gosta deles e não pode viver sem...” E se abraçaram, num abraço, como diria o Chico, “como há muito não costumavam dar...
Eu sei que você não vai se emocionar muito com a história porque ela não está nas telas de cinema. Fico imaginando o filme sendo estrelado por Sandra Bullock como Susan, Sarah sendo revivida por Cameron Diaz. Para o casal ainda tenho dúvidas. Se fosse há muitos anos atrás, seria, sem dúvida, Henry Fonda e Catherine Hepburn, mas agora tenho dúvidas...
Às vezes preocupamo-nos com coisas que não são as mais importantes. Deixamos de lado o verdadeiro foco da vida...Norman e Ethel sabiam onde estava o “foco”...










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Sunday, October 2, 2011

William Smith, um bom funcionário

William Smith, um bom funcionário
William sempre foi um excelente funcionário. Exemplar. Anos a fio na mesma companhia, honesto, trabalhador. Nunca reclamou, nunca reivindicou. Gostava da companhia, era sua vida. Casado, porém sem filhos. E agora vou ousar, pois certeza não tenho não. Desconfio que William optara por não ter filhos pois poderia se dedicar mais ao trabalho. Sabe, filho é uma tremenda de uma 
responsabilidade...Não, não pode ser. Deixar de ter filhos por causa de uma empresa? Eu sei, não há lógica nenhuma nisto, mas esta ideia continua martelando na minha cabeça. Mais algumas semanas e William faria 27 anos de companhia. Era o mais antigo funcionário. Durante esse tempo todo mudaram os donos, mudaram os gerentes, muita coisa mudou no negócio, mas nada mudou no William, Sempre lá, firme. O segundo funcionário mais antigo tinha 15 anos de firma. William sempre falava disto com orgulho nas conversas, nos intervalos. A companhia mesmo ia fazer 30 anos. Fizeram uma pequena festa quando isto aconteceu. Pequena exposição, mural com fotos antigas, lanche grátis com refrigerante, hambúrguer, hot dog. Não, nenhuma menção especial para o William. Mas ele entendia, não se tratava dele, era o aniversário da empresa, do negócio...No entanto, ficou muito feliz quando alguns o reconheceram nas velhas fotos, vieram e fizeram perguntas. Ele se sentiu muito importante, contou histórias. Histórias que ninguém sabia, nem mesmo os donos atuais. Esses sim poderiam ter falado alguma coisa para ele, perguntado algo. Será que eles sabiam que era ele ali, nas fotos antigas? Também, eles não tinham obrigação de reconhecê-lo. Tantos problemas que eles têm de enfrentar, crise econômica, produção, etc...Ele entendia, afinal, isto é América, temos de olhar para a frente, produzir, “time is money”... Alguns dias depois, foi a vez de William fazer aniversário. Não, não seu aniversário. O aniversário de 27 anos de que eu estava  falando. Aí sim foi uma decepção. Uma palavra sequer, ninguém se lembrou. Ah, sim aquele funcionário com quinze anos, mencionou algo. Mas se você pensar bem, com esta crise toda, quem tem tempo de ficar lembrando deste tipo de coisa?
Passaram-se 34 dias do “aniversário” e William tinha uma tênue esperança de que algum chefe, quem sabe os donos, se desculpassem pela falha da memória e dissessem alguma coisa, quem sabe, talvez, uma plaquinha, uma pequena homenagem. Aí aconteceu algo que ele não esperava. Três da tarde, uma hora antes encerrar seu turno, seu chefe manda um recado que precisa falar com ele. Deveria ir ao escritório imediatamente. William tentou esconder um sorriso de satisfação.  Ele sabia, ele sabia. Uma data assim não poderia passar em branco. Ele aceitaria o pedido de desculpas e tudo mais. Afinal ele não era do tipo que guardava rancores, não seria profissional. Chega na sala, senta-se.  O chefe sem olhar diretamente para ele, continua a mexer nuns papéis. E diz qualquer coisa como ( não se lembrava direito pois ficou meio zonzo) “Mr. Smith, amanhão o Sr. não precisa vir mais, não precisamos mais de seus serviços, é uma reestruturação que estamos fazendo.” William não se lembra se ele falou “obrigado” pelos 27 anos e mais 34 dias. Ele se lembra que o chefe falou que iria pagar aquela hora que faltava, que ele poderia ir embora. Não, não precisava daquela hora, só queria receber o que trabalhara... Ainda desnorteado, no caminho de casa, uma coisa  no entanto não saía de sua cabeça. Todos sempre o chamavam de William ou Bill. Por que foi chamado de Mr. Smith? Não conseguia entender...que falta de consideracão, não parecia que era ele...Mr. Smith?