Friday, February 27, 2015

Um piano e uma carruagem chamada Porchê



Um piano e uma carruagem chamada Porchê

(qualquer semelhança com pessoas e fatos da vida real pode ser mera coincidência... ou não)

Era uma vez um reino muito grande. Havia lá a plebe, que ninguém conhecia, o rei e muitos nobres sem nobreza.  Esses últimos eram multimilionários. Chamá-los somente de “ricos” era quase uma ofensa. O matemático da Corte uma vez fez uma conta. Um plebeu teria de viver três vidas trabalhando para ganhar o mesmo que eles gastavam em dez minutos, Talvez isto seja uma lenda. Difícil de acreditar.
Nunca ninguém ousava mexer om os nobres. Havia um, porém, que fez muita coisa errada. Não com o povo, claro, isso não importaria. Ficou devendo para o rei e para outros como ele. Isto era inadmissível. Um juiz se encarregou de recolher todos seus bens, vendê-los e, com o dinheiro apurado, ressarcir os credores. Assim foi feito. O Nobre Bautista deixou de ser milionário para ser apenas rico, o que era uma coisa assustadora.
Entre os bens apreendidos do já não tão nobre senhor, havia uma linda carruagem e um majestoso piano. Como o Bautista gostava de nomes franceses, tinha dado o nome de “Porchê” para ela. Não que carruagens tivessem nomes, mas a dele tinha.
Um dia, numa das estradas do reino, um escrivão real viu o juiz passeando com a carruagem apreendida. Estava claro que ela não estava tão apreendida assim. Investigaram e descobriram que também o piano do Bautista estava em alguma casa perto do juiz. Algum fofoqueiro foi logo contar para o rei, que imediatamente chamou o magistrado. Por que ele estava usando a carruagem e o piano do Bautista, sendo que aqueles eram bens pertencentes ao reino?
O homem da lei explicou tudo com muita candura e clareza. A carruagem e o piano estavam tomando chuva, iriam se estragar ao relento. Por isso, ele, cuidadosamente, os recolheu em seu seguro lar.
Dizem que o rei, por não ter outra explicação e, sendo aquele um homem que entendia de leis, aceitou, provisoriamente o que foi dito.
A plebe, por um acidente de comunicação ficou sabendo do ocorrido. Não houve protesto ou indignação. Tudo que eles comentavam, era que a carruagem tinha um nome francês. Que o piano era do estrangeiro e valia muito dinheiro. E o povo se admirava com aquelas histórias maravilhosas. Era tão bonito ser nobre, era tão bonito poder andar de carruagem. Mais bonito ainda era ter um piano em casa.
Ninguém sabe, por enquanto, se os bens vão ser vendidos, ou se o magnífico juiz será seu guardião perpétuo
Viva o rei, viva o reinado, viva o juiz!

A plebe, eu não sei onde ela mora, mas ela continua encantada com os contos dos nobres e suas deslumbrantes carruagens.

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Thursday, February 26, 2015

Nós e a Via Láctea


Nós e a Via Láctea

Um dia, todas nossas preocupações irão embora. Junto com elas, desaparecerão também nossas vaidades, nossos sonhos, nossos grandes projetos. Nossos queridos, nossos amigos, e até os nossos inimigos também partirão. Todo o nosso povo terá ido embora um dia. Os outros povos da Terra, também. Não vai sobrar nada, nem ninguém. Falarão de nós como uma civilização antiga, meio confusa, beligerante, cheia de contradições. Ninguém mais vai se lembrar de nós. Talvez alguns estudiosos nos procurem em algum remoto arquivo cibernético. Quem se der ao trabalho de nos estudar, vai nos achar interessantes, curiosos, e até difíceis de entender.
E essa nova civilização, esplendorosa, fascinante, deslumbrante, não terá nada de nós. Será algo inimaginável, ímpar, um futuro impensável da raça humana.

E mais tempo vai se passar. E, um dia, esse povo supremo, vai sumir também. E não vai sobrar uma só pedra. Só um pó, rarefeito, esvaindo-se, invisível, na Via Láctea.  E esta nossa imensurável galáxia vai permanecer indiferente, apática, ao nosso insignificante e fútil destino. Vai nos absorver em sua poeira cósmica, como se nunca tivéssemos existido. 

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Wednesday, February 25, 2015

O Pitanguinha


O Pitanguinha

O Pitanguinha era metido. Ele se achava o máximo, bonitão, querido das mulheres. Dizem que o apelido veio do famoso cirurgião plástico, uma vez que ele estava sempre se modificando para melhorar sua aparência.
Uma nova família se mudou para a rua. Ninguém sabia direito quem eram, quantos eram. Só se sabia que havia uma loira, provavelmente a filha do casal, que era de fazer o queixo cair. O Pitanguinha tinha visto a preciosidade e imediatamente se interessou, Ousado, foi até lá no dia seguinte e bateu na porta. Dali a pouco aparece um rapaz loiro, igualzinho à moça que ele tinha visto. O galanteador ficou mudo e saiu sem nada falar. Para não ficar com fama de quem não sabe reconhecer a diferença entre homem e mulher, inventou e espalhou que o rapaz era travesti. A notícia correu.
Foi por pouco tempo, porém. Naquela mesma tarde, O Pitanguinha estava na praça contando vantagem para algumas pessoas e não viu quando uma loira espetacular se aproximou e perguntou:
-Você que é o Pitanguinha?
Ele, feliz e sorridente, respondeu:
-Sou eu mesmo, minha loira linda!
A garota deu-lhe um tapa tão forte que seu pescoço  até estalou quando sua cara virou.
-Aquele que você chamou de travesti, seu idiota, é meu irmão gêmeo e ele é muito mais macho do que você.

O ibope do Pitanguinha caiu tanto que até agora ele não recuperou. Ele até pensou em se mudar...

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Monday, February 23, 2015

Você parece uma criança!



Você parece uma criança!

Carolina já estava cheia das besteiras que o Haroldo fazia. Naquele dia, então, ele estava demais. Chegou um momento em que ela não aguentou e soltou:
-Francamente, Haroldo! Cinquenta anos e nada muda. Você parece uma criança!
Ele passou o dia inteiro pensando naquilo. No fundo, ela tinha razão. Finalmente, à noite, deitado na cama, ficou em paz consigo mesmo. Ele era, definitivamente, uma criança. Aceitou o fato e dormiu.
No seu rosto podia se ver claramente estampado um alegre sorriso de moleque. Esse  era Haroldo...



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Sunday, February 22, 2015

A fotografia mais bonita do mundo



A fotografia mais bonita do mundo

Há fotos e fotos. O mundo da fotografia mudou completamente. Agora temos supermáquinas, sofisticadíssimos softwares. O número de recursos para se fazer uma bela imagem é quase ilimitado. Podemos ver a delicadeza quase invisível de um inseto, cheio de cores e de vida, com detalhamento quase impossível. Podemos captar imagens de galáxias longínquas exibindo sua beleza e grandiosidade estonteantes. Temos o prazer de apreciar o rosto maravilhoso de uma mulher e a beleza quase divina de um sorriso de criança com um requinte antes impensável. É a maravilha da tecnologia.
Antes não era assim. Os recursos eram limitados. Os grandes fotógrafos precisavam de técnicas aprimoradas, oportunismo e também um pouco de sorte, além, claro, da sensibilidade.
Aconteceu em 24 de fevereiro de 1972. Um grande incêndio destruía o Edifício Andraus no centro de São Paulo. Resgate quase impossível: vários heróis, incluindo bombeiros e pilotos de helicópteros fazendo salvamentos impossíveis. De repente, uma cena quase indescritível e de uma beleza única. Um bombeiro surge de dentro da fumaça com uma criança nos braços. O fotógrafo do Estadão estava lá e não perdeu o momento. Ao contrário, registrou-o para a história. Nem os melhores de Hollywood conseguiriam montar cena igual. Tudo nela era maravilhoso. O contraste daquele momento horroroso com a alegria de uma criança sendo salva. A pele escura da mão do bombeiro Geraldo, contrastando com o rosto branco do garoto. Aquele sorriso quase divino do “salvador”, estampando uma alegria indescritível em fazer o que estava fazendo. Eu não sei o que mais emociona naquela imagem. Talvez a felicidade do Geraldo, dando aquele sorriso maior, o grande sorriso de sua vida.
É certamente uma das fotos mais lindas do jornalismo brasileiro: talvez a mais linda.

Obs.:

O Cabo Geraldo Alves de Andrade, faleceu algum tempo depois, vítima de queda do caminhão de combate a incêndio na Praça Panamericana. Aparentemente ele estava destinado a ser herói.

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Saturday, February 21, 2015

Pode tirar o cavalinho da chuva



Pode tirar o cavalinho da chuva

Chegou perto da Rita com aquela cara de safado e disse;
-Meu bem, eu quero me perpetuar em você.
Assim, sem mais nem menos. E daí olhou firme para o rosto da namorada. Ele tinha ouvido uma música da Betânia - e sabia que a Rita gostava dela - e achou a frase bonita.
-Melhor tentar outra. Você está querendo é sexo. Pode tirar o cavalinho da chuva.

Tirar o cavalo? Nem carro tinha, o coitado. Foi para casa e começou a procurar outras frases. Pensou no Vinicius e outros poetas. Iria tentar mais uma vez, mas se a coisa apertasse, pensou, teria de apelar para o Fernando Pessoa. Pode? Que sofisticada essa Ritinha...

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Friday, February 20, 2015

Não se fazem mais velhinhos e velhinhas como antigamente



Não se fazem mais velhinhos e velhinhas como antigamente

Quando eu era um garoto, ou um “piá”, como dizia naqueles tempos o meu tio Giuliano, uma pessoa ter 40 anos era estar perto do fim. Talvez esteja exagerando, mas que significava que a pessoa tinha dado o primeiro passo na fase da velhice, isto, definitivamente, podemos afirmar. Cinquenta anos era oficialmente ser velho, com direito a carteirinha e tudo mais. Fazer sessenta anos era um privilégio para poucos e essas pessoas eram consideradas uma exceção. Chegar aos setenta era um acidente do destino. Alguém ter oitenta era certamente uma lenda ou uma mentira. Nem vou falar de números mais altos.
Tudo mudou.
Agora muitas pessoas só casam depois dos quarenta. Os que casam. Há também o oposto: os que só se casam o tempo todo; uma, duas, três vezes... Com cinquenta, as pessoas começam a ficar maduras em termos de relacionamento. Claro, aqueles que têm vocação para relacionamento sério. Sessenta anos é uma idade de um pouco de insegurança. Homens e mulheres ficam com ciúmes e fazem briguinhas de amor. Iguais àquelas que faziam os namoradinhos de outrora. Com setenta, os casados começam a pensar em um relacionamento mais definitivo, para, talvez, com 80 se assentarem. Não sei onde vamos parar. A “idade do lobo” que era aos quarenta anos, eu nem sei mais se ainda existe. Ninguém mais falou dela.

Sei que estou me excedendo na minha análise, mas há muita coisa de verdade nisso tudo que escrevi. O fato é que, certamente, não se fazem mais velhinhos e velhinhas como antigamente.

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Thursday, February 19, 2015

Eu queria ser o seu caderninho


Eu queria ser o seu caderninho

Quem é da época, se lembra quando o Erasmo Carlos cantava “O Caderninho”.  Eu queria ser o seu caderninho, “pra” poder ficar juntinho de você... e por aí continuava. Bons tempos, hein? E ele continuava dizendo que “na volta (da escola) juntinho ao seu corpo eu iria ficar”. Romântico, sensual. Hoje em dia, porém, teríamos de substituir pelo celular. As meninas modernas não têm mais caderninhos. Pensei em dizer “celularzinho”, mas acho que não ia ficar bem. A canção diz que “você me abriria, ‘pra’ me estudar”. Aí já ia ficar complicado. Os celulares não abrem mais. Eles, ou suas telas, ao contrário, são tocadas. Aí já está melhorando. Mas, por outro lado, pensa bem. Você já viu como essas garotas mexem com esses telefones? A rapidez? Aqueles dedinhos ligeiros, furiosos, me cutucando? Não sei não, mas acho que ia dar cócegas. Eu ia rir e minha namorada iria pensar que eu estava de gozação. Além disso, tudo está no celular, ou seja, eu sendo o dito cujo, toda minha informação iria estar ali, se oferecendo de bandeja, para ela “estudar”. Meus contatos, minhas mensagens. Complicado. Por mais puro eu seja, você já pensou a confusão, ela vendo toda minha vida ali? Apesar de romântica, acho que esta não é uma boa ideia. Melhor ficar com o caderninho. Talvez uma pequena mensagem: “Eu te amo. Vamos sair hoje à noite”. E só.


Às vezes, tenho saudades dos caderninhos da vida. Você não tem?


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Wednesday, February 18, 2015

O Raimundo está pensando



O Raimundo está pensando

Raimundo era muito quieto. Ficava sozinho, por horas, pensando. Outras poucas vezes, estava alegre e conversava, e contava piadas. Em que pensava o Raimundo nas horas de quietude? Vinha uma avalanche de pensamentos, palavras, imagens. Às vezes tinham sentido, conexão, às vezes não. Só uma torrente de palavras loucas, sem nexo. Naquela manhã, se pudéssemos transcrever o que estava passando em sua mente, teríamos algo assim:
-Estou na boleia do trem contemplando o pôr do sol em Vênus. Comigo estão almas que não conheço. Me apaixono por uma que está atrás de mim, mas não posso ver seu rosto. O café que tomei de manhã, na esquina de minha casa, queimou minha língua. Pus groselha para tirar a dor. E a bebida me deixou leve, inspirado. Por isso, agora estou voando, em baixa altura, para meu trabalho. Vejo todos de cima. A rainha da Finlândia me espera lá para um encontro. Vai dar uma solução para meu casamento.
E assim ia, numa torrente. Ainda bem que não falava nada em voz alta. Iriam achar que não batia bem. Mas será que não somos todos assim? Quando pensamos sozinhos, pensamos coisas sem sentido também, como o Raimundo faz? Se pensamos, não confessamos.
Na manhã de domingo, Raimundo acordou diferente. Estava pensando nos anéis de Saturno. Via aviões da Varig no meio deles, tentando acertar a rota. Vez ou outra uma pequena pedra batia em suas asas e tirava um pedaço. Raimundo podia ver o piloto, desesperado, acenando através da janela, pedindo socorro. Foi daí que percebeu que ele também estava num pequeno avião. Era um jatinho, transparente, feito de vidro, mas que resistia a tudo. O ar, porém estava acabando.
Foi daí que Raimundo mudou. Naquele exato momento. Sentiu que precisava falar, se expressar, pedir socorro. Caso contrário, iria morrer sufocado dentro do avião de vidro. Era o mesmo problema do piloto da Varig: ninguém o ouvia.
Assim foi que, de repente, Raimundo começou a falar em voz alta, sem parar, pedir socorro, dizer tudo que lhe vinha a mente. Percebeu que a família, todos os seus, começaram a olhar para ele com estranheza. Horas mais tarde levaram-no para ver  um médico. De lá mesmo foi transportado para um hospital diferente. E fizeram exames e mais exames. E lá ficou para sempre. Seu caso não tinha cura.
Por que esse Raimundo tinha de abrir a boca? A maior parte das coisas não se diz para ninguém. Boca fechada.
Se o Raimundo tivesse ficado quieto, estaria vivendo uma vida normal como todos nós e não num hospício. Todos nós, que também pensamos besteiras e doidices o tempo todo e os que não pensam nada. Estaríamos todos juntos, vivendo felizes. Poderia, até, ter uma vida feliz, o Raimundo.

Raimundo, Raimundo... Ao contrário do que diz o poeta, você poderia rimar com o mundo, calando-se, seria mais que uma simples rima, seria uma solução. Provisória, pelo menos.

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Tuesday, February 17, 2015

Os heróis desconhecidos



Os heróis desconhecidos

Apesar do que falam, o Brasil é cheio de heróis. Não são os Tiradentes, os Cabrais, ou outros assim. Esses, depois de uma análise profunda, acabam não passando nesse específico vestibular para a Faculdade de Heroísmo. Não são também os grandes jogadores, grandes cantores ou coisa assim. Não que esses não tenham valor. Claro que têm. Nós os adoramos, mas eles ganham bem e essa é a sua recompensa. Os verdadeiros ídolos, ou pelo menos, aqueles que deveriam ser considerados assim, ficam muito bem escondidos. Não procuram recompensa ou reconhecimento, mesmo porque o povo brasileiro é muito ruim para discerni-los de pessoas comuns.
Um deles, é aquele trabalhador que dá um duro danado, tem toda a chance de ganhar algo “por fora”, com apenas uma pequena desconsideração pelas regras da honestidade, mas não o faz.
Outro é aquela que faz um sacrifício verdadeiro para ajudar outro alguém em necessidade e nem espera por um “obrigado”. Existe ainda aquele que dá um sorriso amigo na hora certa, sem nem saber se vai ser retribuído. Ainda há aquele que sai de seu caminho para consertar um problema que nem é seu e, antes que alguém perceba, já partiu.
E assim vai. São tantos, mas dificilmente os vemos, os reconhecemos. A vida seria infinitamente pior sem eles.
Há feriados para tantas coisas, para tantos outros heróis. Deveríamos instituir o “Dia do Herói Desconhecido”.  E esse, querido leitor, eu ia querer comemorar com pompa e gala!


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Sunday, February 15, 2015

A riqueza relativa (Papai, o que essas pessoas estão fazendo em nosso avião?)



A riqueza relativa (Papai, o que essas pessoas estão fazendo em nosso avião?)

A riqueza traz felicidade? Quantas vezes ouvimos esta pergunta por aí. Já ouvi muitas respostas, mas a mais honesta, embora não tão política ou filosoficamente correta, foi o desabafo de uma garota diante de uma vitrina cheia de roupas de marca: “Como é bom ter dinheiro!”
Claro que a resposta certa depende de uma série de relatividades e é quase impossível se ter uma boa resposta. Além disso, nunca fui rico e não tenho credenciais para tal. Sei tão somente que é possível sentir coisas boas e belíssimas sem dinheiro. Sei também que, sem o mínimo de recursos, é muito difícil sequer pensar em felicidade.
Para sentir como tudo depende da perspectiva de onde você olha, tenho uma pequena história para contar, a partir de um documentário que assisti sobre David A. Siegel, um dos homens mais ricos dos Estados Unidos. Ele é o dono do Westgate Resorts, a maior cadeia de hotéis do gênero do mundo. Em 2008, após a crise financeira que abalou este país e o resto do mundo, ele se viu obrigado a vender, entre outras coisas, seu jato particular, que usava frequentemente para transportar a família. Pela primeira vez viu-se na situação de precisar tomar um avião comercial para viajar com a mulher e os filhos. Ao entrar no avião, um de seus garotos o puxa de lado e pergunta inocentemente:
-Papai, o que todas essas pessoas estão fazendo em nosso avião?

Não sei o que ele respondeu, mas isto mostra como tudo é relativo. Uma viagem aérea, que para uma grande maioria pode ser um sonho jamais realizado, para aquele garoto era, naquelas circunstâncias, um grande incômodo. Como disse o grande cientista, tudo é relativo. O Einsten sempre teve razão.

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Wednesday, February 11, 2015

Usando das atribuições...



Usando das atribuições...

Era uma espécie de magia, mas era uma magia reversa. Na época da Ditadura, quando os “homens do poder” resolviam, simplesmente soltavam um decreto. Dizia, assim, sem mais nem menos, que o Presidente da República, usando das atribuições que lhe confere o art. 4º, do Ato Institucional nº 5, etc. e tal, resolve cassar os mandatos políticos dos seguintes parlamentares... E daí vinha uma lista. Não podia ser mais simples ou fácil do que isso. Era uma moleza se livrar de políticos corruptos. Sem investigacão, sem processo, sem votação, sem nada. E tudo ficava “limpo”. Havia um pequeno problema, entretanto. Talvez houvesse um corrupto ou dois na lista, mas a grande maioria eram pessoas honestas, porém inimigas do governo. Aqueles que não concordavam com o regime de exceção. Um ou dois reconhecidamente desonestos no meio eram apenas para “validar” a cassação.  E assim foi, até terminarem todos os opositores. O partido da oposição era de oposição só de nome. E o partido da situação era o que valia. E que situação!
Muita gente fala das bombas e mortes causadas pelo pessoal da esquerda. Há verdade nisto e não devemos cobrir o sol com uma peneira. Foi uma luta pela liberdade, mas deve ter havido péssimas decisões. O que pouca gente fala e sabe é que o pessoal da Ditadura também organizou atentados e soltou bombas para parecer que eram os militantes de esquerda. O caso mais famoso, “autuado em flagrante” e tudo mais, foi o do Rio Centro. A bomba explodiu, por acidente, no colo do militar. Havia também um tal de Sábato Dinotos, a mando de militares radicais de direita, que organizava assaltos a bancos e atentados como se fossem executados pelos “subversivos”. Se você não conhece essas histórias, estude um pouco antes de dizer que tem saudades da Ditadura, sem nem mesmo ter vivido naquela época. Foi um tempo negro e triste da história por todos os lados. Isso não quer dizer que a época atual seja boa, mas afirmar que aquela foi  é decididamente um grande erro e está longe da verdade.

Eram assim que se faziam as coisas, era assim que se dirigia uma nação! Muita gente achava bonito. Eles não ouviam os gritos de dor da tortura, nem o que se fazia nos porões.  Esse era o custo. Quem está pagando até agora, eu não sei. Talvez, todos nós. Depois de uma análise profunda, talvez cheguemos a conclusão de que a situação atual de nosso país veio exatamente daquele estado de coisas.



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Tuesday, February 10, 2015

O Julgamento Final

O Julgamento Final



No Congresso, um projeto comercial, com consequência prejudicial. Na rua, um assalto fatal. Na igreja, uma lição de moral.  Na praça, uma confissão sentimental. Sem seguro, alguém aparece no hospital.  No silêncio da sala, uma angústia existencial. Na bolsa de valores, o lucro normal.  No bairro pobre, violência mortal.  Na mansão do rico, desperdício irracional. Nos lábios da menina, um sorriso sem igual. Na casa do ambientalista, comida natural. Na associação, preocupação ambiental.  Em lugares suspeitos, corrupção monumental. No campo, um gol sensacional. No fórum, um acordo ilegal. Na financeira, uma operação imoral. Num país distante, uma arma letal. Aqui, o povo todo, num movimento nacional.
No computador, o poeta escreve uma rima banal.  Repete sempre a mesma rima, numa sequência  infernal.

Por que será?  Será que ele, como todos, está esperando pelo julgamento final?


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Monday, February 9, 2015

As muitas luas da Terra

As muitas luas da Terra


“A situação é crítica e todos deveríamos nos unir.
 Não podemos permitir que uma parte da humanidade seja extinta. Os isolados têm que viver.
São a nossa essência mais pura, nosso impulso mais vivo.
 Um mundo sem eles não valeria a pena, e no futuro não haveria perdão
 por uma tragédia tão grande contra nós mesmos e o planeta”
(Sydney Possuelo em “Carta Aberta em Defesa dos Povos Indígenas Isolados”)


O céu dos últimos dez anos tinha mudado tanto que Apoema não sabia o que pensar. Além da Lua que ele conhecia, havia mais três. Luas, estranhas luas. Nem redondas eram. Brilhavam mais do que a Lua-mãe e se mexiam no céu, menos uma. A mais estranha de todas, por ele apelidada de Amiá, tinha “filhotes” que saíam de seu ventre e eles eram azuis. Havia outras coisas no escuro da noite, que já não era tão escura assim. Luzes velozes, mais que qualquer ave da floresta. As filhas da Lua, às vezes, chegavam bem perto. Apoema sabia que eles estavam a espiar sua gente, seus afazeres.
Os deuses do dia eram outros deuses. Às vezes sussurravam sons de um demônio, às vezes emitiam o assobio das divindades. Eram sempre de dar calafrio. Havia também brilhos intensos a competir com o sol. Mais do que ele, eles luziam, às vezes, em cor prata, às vezes, em cor de ouro sutil. Ainda bem, não havia mais crianças na tribo, pois o medo, medo medonho, iria se instalar em seus corações. Suspeitava algo, porém, Apoema. E isso doía mais do que uma flecha em seu coração. As criancinhas de sua raça, as últimas, que se foram há um bom tempo atrás, suspeitava ele, estavam dormindo, presas, naquelas luas do céu. Se pudesse iria lá ter com elas, resgatar com suas armas, suas  alminhas guerreiras. Apoema sabia, porém, que, agora, todas as armas eram vãs.
Uma coisa que Apoema não sabia, embora ele soubesse de tantas outras coisas más, era que, lá fora da floresta, todos sabiam onde ele estava. E ele, que pensava estar sob a proteção das grandes copas das árvores. Há muito tempo atrás, um guerreiro branco, camuflado, entrou na densa mata. Suas vestes eram iguais às folhas, às flores, a tudo que estava em volta. E sua roupa mudava de cor. Ruído não havia, nem cheiro qualquer. Esse soldado da Lua, era mais do que um espírito. Tudo podia. E com esse poder, lançou um dardo invisível no corpo de Apoema. Depois disso, o índio Katawixi não sabia, eles podiam saber tudo que eles queriam. Sabiam como seu coração batia. Sabiam quando seu corpo se molhava nas águas do Rio Muquim, que desaguava no Purus. E, por mais inimaginável que fosse, sabiam de seus pensamentos. Sabiam quando sentia raiva dos deuses, sabiam quando a tristeza enorme e a saudade de seus antepassados invadiam sua alma. Sabiam, quando, inquieto, Apoema se perguntava o que havia acontecido com os deuses de antigamente.
Era a primavera de 2099 e no ano seguinte acabaria o grande tratado dos organismos mundiais sobre a preservação das tribos indígenas isoladas e um organismo internacional poderia, então, adentrar os territórios, coletar “espécimens”, levá-los para laboratórios. Não que eles não soubessem de quase tudo. Com os implantes feitos pelos “soldados da Lua”, DNA, o estado de saúde, qualquer informação já estava com os homens brancos, os criadores das estranhas luas. Mas eles queriam mais, queriam desvendar outros segredos que só os últimos homens da tribo Katawixi sabiam e tinham escondido em seu corpo.
A alma de Apoema, porém, eles nunca iriam decifrar. Nem os monstros da Terra, nem os sábios da Lua, nem seus soldados, nem suas máquinas divinas.

Apoema, que já suspeitava que algo iria acontecer num futuro próximo, trancou em seu peito, segredos que máquina nenhuma iria adivinhar. Só depois da morte, para seus  deuses, só para os seus, ele iria confidenciar.


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