Sunday, December 30, 2012

Uma questão de percepção



Uma questão de percepção

Serena estava cheia da vida. Justo ela que foi sempre cheia de vida. Nada dava certo. Ultimamente então...Um problema atrás do outro. Começou lá no trabalho. O chefe começou a dar em cima dela. Nada de sutileza. Afinal, ele era o chefe, e foi direto ao assunto. Ela precisava do emprego mas mesmo assim acabou com a graça do safado na hora e também foi direto ao assunto. Sem sutileza também, falou o que tinha de falar. Pediu as contas e foi para casa chorando. Tinha amigos no emprego, gostava do que fazia e aquele idiota tinha de estragar tudo. Daí para a frente foi só tristeza, as dívidas começaram a fazer fila. Desistiu do curso na faculdade e por tabela da “paquera” que ela tinha lá. De qualquer forma, tinha descoberto há pouco tempo que o fulano era noivo de uma moça do interior e as coisas certamente não terminariam bem. Nunca terminam. Na mesma época descobriu que tinha um pequeno tumor no seio. O médico disse que com quase certeza era benigno, mas do jeito que as coisas estavam indo...não sei não. Desgraça era o que não faltava e você sabe que elas nunca vêm sozinhas. O caso de Serena não era diferente. Em cima disso tudo vieram várias pequenas desgraças, que, de tão pequenas nem vale a pena falar. Quer dizer, para Serena, elas não eram nada pequenas. Você sabe como é o velho ditado “pimenta nos olhos dos outros é refresco”?
A partir de um certo momento ela começou a pensar em besteiras. Sabe, essa história de “não vale mais a pena”,  “que tipo de vida é essa? “ e assim por diante. Seria bom se acontecesse alguma coisa, quem sabe um acidente. Não queria sofrer, tinha de ser rápido. Talvez tomar uns 20 comprimidos de uma vez...Começaria dormindo, não sofreria nada. Deixaria um bilhetinho para as amigas e outro para a família. O pai tinha saído de casa quando ela ainda era pequena, não faria diferença nenhuma. A mãe, entretanto...Coitada, não iria ser fácil. No fim a dor passa, sempre passa. A angústia no seu peito aumentou muito naqueles dias. Não tinha vontade de comer, começou a tomar muito vinho. Ficava enfiada em casa, não falava com ninguém. As pessoas tinham até medo de falar com ela por telefone, tal era a aflição que ela carregava nas palavras. Ela era um poço de angústia.

Naquela tarde de domingo, o desespero começou a aumentar. Aquela ideia de a segunda estar chegando e você saber que vai ficar em casa sem fazer nada, sem trabalhar, era algo insuportável. E o destino, você sabe, não tem dó. Imagina o que mais aconteceu.  Ela não tinha olhado as cartas que recebera na sexta. Na verdade há duas semanas não olhava mais nada. Não sei por que razão de repente bateu os olhos na carta de um advogado. Leu por cima, uma história de devolver o carro, processo, etc...Resolveu então que seria  aquela noite. Com algumas taças de vinho ela tomaria coragem. Separou os comprimidos, um montão, tinha de funcionar. Começou a beber. E bebeu, bebeu...Não sei se pegou no sono ou desmaiou, o que foi bom, pois assim não engoliu o remédio suicida.
Eram nove horas da manhã quando  acordou com o celular tocando. Não ia atender, mas por um impulso que não se pode explicar, falou um “alô” quase sumido. Do outro lado era um tal de Arnaldo. Era o novo chefe que estava substituindo o anterior. Entendeu vagamente que a firma estava pedindo desculpas pelo comportamento do funcionário. Se ela quisesse voltar seria bem vinda, e além disso iriam pagar o tempo que ela ficou afastada. Se quisesse, poderia começar no dia seguinte. Iria ter um aumento e tudo mais.
Foi assim que a Serena recuperou sua serenidade. Assim, sem mais nem menos. Os outros problemas, grandes e pequenos, fáceis e difíceis, foram indo embora do jeito que vieram: um atrás do outro, em fila. Assim é a vida, não dê muito valor paras as desgraças. Também não se entusiasme demais com as coisas boas: elas vêm e vão. Tudo que acontece tem importância relativa. O que realmente vale é a percepção que você tem dos fatos e não eles em si mesmos. Resumindo, tente ser mais otimista. Quem precisa de pessimismo? Afinal com ou sem ele, qualquer dia desses podemos ser atropelados. Brincadeira. Quer dizer, tudo é possível...


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Wednesday, December 26, 2012

A Nova Vida de Sara


A Nova Vida de Sara

A Nova Vida de Sara
Há males que vêm para o bem. Diziam isso antigamente e ainda é verdade. Era o que Sara achava dos recentes acontecimentos em sua vida. Passou por aquele acidente horrível, mas no final deu tudo certo. Antes era uma depressão total. A vida parecia não ter sentido, não havia motivação para nada. Lá no fundo desconfiava que o acidente tinha sido causado por ela mesma. O que alguns “cientistas da mente” chamavam de “suicídio por descuido proposital”. Claro, não havia mais psicólogos ou psiquiatras, agora era assim que os chamávamos. Afinal o mundo estava completamente diferente neste começo de século 22 e aqueles termos eram coisa do século passado.
Voltando à Sara, ela estava completamente curada. Mais do que isso. Agora ela tinha uma vida de verdade, cheia de motivação. Ainda por cima, quase por milagre, aquela grande amiga de sua juventude, a Aurora, havia se mudado para bem perto da casa dela. Sara desconfiava que aquilo tinha sido coisa dos tais de “técnicos sociais”.  Aurora confidenciou que uns funcionários do governo a visitaram. Andaram fazendo perguntas sobre sua solidão, o que estava sentindo e quando percebeu, estava sendo convidada para se mudar. E surpresa: bem ali, pertinho da sua grande amiga, a Sara. Estavam numa felicidade indescritível, parecia até uma coisa do outro mundo. Todos os problemas haviam desaparecido como por milagre. Faziam coisas juntas a maior parte do tempo. Divertiam-se a valer, não tinham com o que se preocupar. Monotonia era coisa de um outro mundo, distante, Sara e Aurora nem sabiam mais o que era isso.
Para não dizer que tudo era 100%, ultimamente a Sara estava experimentando vez ou outra, durante algumas frações de segundo, uma coisa um pouco estranha. Não era coisa que incomodasse, mas dava para se perceber que estava acontecendo. Era como se tudo parasse naquele lapso de tempo, como se a realidade inteira, tudo, se congelasse. Não doía, não incomodava, portanto tudo bem. Era como você estivesse assistindo a um filme e de repente houvesse uma pequena “pause”.
Se você considerar a gravidade do acidente pelo qual Sara havia passado, aquilo não era nada. Até seu cérebro foi parcialmente afetado. Levaram um tempo mais do que o normal para reconstituir tudo. Apesar de os acidentes serem raríssimos, as equipes médicas conservavam todas as técnicas e equipamentos como se fosse tudo uma rotina.
Na grande sala de “Controle de Atividades Virtuais”, Norton acabara de informar seu supervisor que estava havendo uma pequena falha, quase imperceptível, na programação da unidade VL1345. Havia um problema na sequência temporal, para ser mais preciso, uma “nanofalha”, quase imperceptível. O supervisor avisou para Norton que nenhuma falha era admissível. Todo o programa teria de ser refeito.
Sara era a unidade VL1345. E, de repente, sentiu um sono danado e ouviu uma espécie de “voz interior” dizendo para ela ir para casa descansar.
Na sala de controle, Norton reprogramou todas as atividades virtuais de Sara, dando ênfase para o fator do tempo. Checou o programa, agora estava perfeito. Só para se certificar, resolveu verificar a parte de hardware e também o “elemento biológico”. Entrou na sala própria, abriu o compartimento e lá estava o cérebro de Sara num cilindro de acrílico com todas as conexões necessárias. Norton pensou consigo mesmo, como aquela mulher havia conseguido destruir seu corpo inteiro daquele jeito? Quase perdeu o próprio cérebro. Sorte dela que eles conseguiram reconstituir o pouco de massa cinzenta que ela havia perdido. E mais sorte ainda era que o seguro dela era dos bons. Ligou o os sensores de teste para “elemento biológico” e segundos depois, pode notar que estava tudo em ordem, que o cérebro de Sara estava perfeito. Segundos depois reativou a vida virtual de Sara.
Sara acordou extremamente disposta e logo a seguir chamou sua amiga Aurora para dar uma volta. Assim que se encontraram na rua, Sara deu um beijo na face da amiga, suspirou, e disse com alegria:
-Aurora, como nossa vida é boa! Eu gosto de viver!

E as duas deram uma grande gargalhada de felicidade...


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Saturday, December 22, 2012

Uma carta estritamente familiar



Uma carta estritamente familiar

Querido pai:
A nação é como se fosse uma mãe.
O governo é como se fosse um pai,
 aquele que toma as decisões no dia a dia.
”(Nino Belvicino, em alguma de suas obscuras obras)

Quando eu estava morando com você, havia coisas que eu não tinha coragem de falar. Além disso, estava envolvido com meus estudos, pensando na carreira, etc...Nessa época meu senso crítico não funcionava com clareza. Agora entendo quase tudo o que aconteceu. Não vá ficar chateado com o que vou escrever, estou dizendo isso apenas para seu próprio bem.
O primeiro e mais importante conselho que eu queria dar é sobre essa mania que você tem de se intrometer na vida dos vizinhos. Dizer para eles que é assim ou assado, dizer para eles qual é o “jeito certo de fazer as coisas”. Pelo amor de Deus, pare de falar para eles como educar seus próprios filhos, de dizer o que é certo ou errado. Pior ainda: você se lembra daquele pessoal que mora logo ali, descendo a rua? Só porque eles não quiseram seguir o seu conselho, você fez a maior confusão...Obrigou todo mundo da rua a não falar com eles, não fazer negócios e um monte de outras coisas? Bem feito para você! Eles sobreviveram, apesar de tudo isso, e não estão nada piores do que os outros da rua. Tem gente que acha até que, em algumas coisas, eles estão bem melhores. Enfim, não se pode intrometer desse jeito nas coisas dos outros. Foi tudo tão absurdo que até pensei que o seu problema era com a barba comprida que o homem tinha. Mas não pode ser...seria um absurdo!
Tem mais. Depois que saí de casa, contaram-me umas coisas que são difíceis de engolir. Eu não me lembro muito bem porque eu acho que era muito pequeno quando tudo aconteceu. Fiquei sabendo que você se intrometeu numa briga feia que houve lá no fim da rua. Era uma briga de família e você mandou umas armas para a esposa. O que você queria? Que ela matasse o marido? Pois fique sabendo que quem morreu foram dois dos filhos. Os pais acabaram se entendendo e quase não brigam mais. Mas não por causa de você. Além disso, você emprestou dinheiro para a mulher para ela ficar em vantagem em relação ao marido. Até outro dia eles ainda estavam pagando a dívida. Dizem que um dos filhos nunca pode chegar até a faculdade por causa dessa dívida. Meu Deus, como você teve coragem?
Como se isso não bastasse, você andou se intrometendo até na outra parte da cidade. Com todo respeito, como você foi meter o seu nariz num lugar tão longe? Fez o mesmo que fez com nossos vizinhos: mandou armas. E como se isso não bastasse, você foi lá, pessoalmente, se meter na briga. O que você tem de se intrometer se eles estão brigando entre si? Se um prefere o azul e o outro o vermelho, não é problema seu. Você machucou pessoas lá e você acabou se machucando também. Viu o que dá meter o nariz onde não é chamado? Até o pessoal de sua casa estava zangado com você. Perdeu tempo e dinheiro lá. Pensa que eu não sei que o pessoal lá em casa passou aperto? Acho até que passaram fome.
Depois de tudo isso, eu pensei que você tinha aprendido. Que nada. Continua se metendo em brigas dos outros. Outro dia, ouvi dizer, havia uma família que nem estava brigando e você foi lá, invadiu a casa e andou matando gente! Até pessoas da sua própria família andaram morrendo! Ainda bem que eu não estava em casa. Você se lembra de que um dia me falou que não me reconhecia mais como seu filho, eu podia ir embora? Foi sorte minha. Se estivesse lá quando você invadiu a casa da dona Ira...Que teria sido de mim?
Você sabe, melhor do que eu, o resultado de tudo isso que andou fazendo. Ficou todo endividado. Que vergonha! Pensa que eu não sei que você deve um monte de dinheiro para aquela mulher que gosta de usar vestido com tons de vermelho? É isso mesmo, aquela que entrou na briga das cores, azul versus vermelho. Você brigou com os amigos dela e depois precisou emprestar...Que vergonha! Ainda bem que nessa questão de cores ultimamente você aprendeu alguma coisa. Você viu como todas as cores são bonitas? Por que brigar?
Eu sei que você está com problemas financeiros. Sei também que no fim você dá um jeito. Por outro lado, eu sei que você nem saiu das encrencas anteriores e já está tentando entrar em mais uma briga. Estou avisando, para seu próprio bem, não se meta com essa gente.
Apesar de tudo, gosto de você. E, pelo amor de Deus, não entre mais em confusão. Vê se ajuda a sua própria família. Ou você ainda  não percebeu qu alguns dos seus filhos estão com problemas enquanto outros não sabem o que fazer com tanto que têm...às vezes acho que você não é tão mau assim, talvez até um pouco ingênuo. Não sei...

Filho da América


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Friday, December 21, 2012

Assaltou o banco e colocou no Youtube


Assaltou o banco e colocou no Youtube

O nome dela é Hannah Sabata, tem 19 anos, e mora em Waco, Nebraska. No dia 19 de novembro ela teve, segundo suas próprias palavras, o melhor dia de sua vida.  Ela roubou um lindo Pontiac Grand  Am, foi até o Banco Cornerstone, entregou um bilhete para o caixa, e conseguiu levar mais de seis mil dólares. A mensagem que ela escreveu no papel foi a de sempre: “nada de alarme, telefonemas,...etc.” Avisou também que tinha uma arma carregada. Na verdade não estava. Até aí, tudo quase normal. Acontece até com certa frequência, principalmente porque nos EUA não existe toda aquela segurança na entrada dos bancos. Dificilmente os assaltantes não são pegos. Existem câmeras, a polícia normalmente é eficiente – às vezes até demais - e além disso, os ladrões não conseguem se segurar, fazem de novo e acabam sendo pegos.
No caso de Hannah foi mais fácil, porém. Ela fez um pequeno filme contando vantagem sobre seus feitos, exibindo o dinheiro e detalhes de sua façanha através de mensagens escritas, e exibiu tudo no Youtube. Ela estava feliz e vitoriosa. Declarou que comprou marijuana, que iria pagar as dívidas e que iria comprar como louca. Claro, a polícia foi até a sua casa e algemou-a. Está na cadeia aguardando julgamento.
Se eu fosse advogado dela, acho que teria uns bons argumentos contra a sua condenação. Diria, com termos jurídicos, é claro, que ela teve um ataque agudo de idiotice. Fazer o que ela fez e ainda e ainda colocar na Internet! Idiotice é coisa séria, quando ataca não tem jeito. Até gente importante é atacada às vezes. Vemos exemplos quase todos os dias no jornal. A pena seria ela ir de volta para a escola e aprender um monte de coisas. Muitas coisas. Um tempinho na cadeia seria necessário.
Se eu fosse o juiz, até sei a pena que deveria ser aplicada. Alguns meses na cadeia com um computador. No primeiro mês, ela faria um filminho para o Youtube. A cena seria sua cela. Daí então ela escreveria uns cartazes – parecidos com o que fez sobre o roubo – em que diz: “Fiz uma idiotice, portanto sou idiota. Idiotas vão para a cadeia, por isso estou aqui” Deixaria uma certa margem para a criatividade dela. No segundo mês, ainda na cadeia, ela faria um segundo filme mostrando que, quando você fez uma idiotice muito grande, não há necessidade de colocar na Internet. Talvez uma observação na parte de baixo do cartaz: “Quando você põe coisas na Internet, todo mundo vê, inclusive a polícia.” Talvez no terceiro mês ela simplesmente poderia fazer um cartaz fixo, na parede da cela, dizendo: Uma idiotice grande fica muito maior quando você faz a idiotice de contar para todo mundo a idiotice que você fez. Eu fiz isso, portanto sou uma idiota, muito, muito grande.”
Claro que o juiz não vai fazer isso. Ao contrário vai lhe dar uma longa sentença. Até gente inocente fica na cadeia por décadas, imagina o caso dela...É verdade também, que com um bom advogado, você pode matar e sair “livrinho da silva”...A lei, ora a lei...



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Wednesday, December 19, 2012

O Resgate


O Resgate

A missão era clara e objetiva: alcançar o planeta devastado, fazer um levantamento da destruição, juntar dados e possivelmente amostras e voltar. A partir daí, seria feito um plano. Se houvesse sobreviventes, quem sabe até ajudar na reconstrução da civilização, fornecer tecnologia...
As sete naves haviam chegado há uma semana com um pequeno intervalo entre uma e outra. Espalharam-se pelas diferentes regiões, fazendo buscas e avaliação. As coisas não pareciam boas. Obviamente havia sido um conflito nuclear de proporções davastadoras. Havia radiação fortíssima por toda a parte.
Os sinais de problemas com o distante planeta tinham começado há 15 anos. Logo foi possível verificar que as condições estavam se deteriorando a passos rápidos, fora de controle. Em dois meses as transmissões pararam de chegar. Através de uma nave não tripulada, que estava há alguns meses luz dali, foi possível orbitar o planeta. Se havia sobreviventes, não era possível verificar sem descer. Por motivos técnicos essa espaçonave não poderia exercer a tarefa. Por isso, só 4 anos depois foi possível a chegada da “frota dos sete”. 

A destruição era muito maior do que se havia pensado.  Não havia sinal de vida, pelo menos inteligente. Certamente algumas formas microscópicas tinham resistido. Os astronautas do projeto eram experientes, tinham já passado por experiências como essa. Ali, entretanto , estava algo com que nunca tinham se deparado antes. O nível de desolação era inimaginável. Não se sabe quem era o agressor e quem era o agredido, todos foram “varridos” completamente do mapa. O que se passava na mente dos membros da equipe de resgate era muito semelhante. Como uma civilização naquele estado de progresso tecnológico e científico tinha se envolvido num conflito quase infantil?  O nível de tecnologia era óbvio. Duas enormes estações orbitais, que ainda resistiam, eram prova disso. O pouco que restara indicava claramente que não só eles haviam alcançado o que poderia ser considerado “nível elevado” de avanço, mas também que estavam entrando na fase em que poderiam se beneficiar de aspectos práticos da física quântica. O comandante da missão havia estudado esse tipo de civilização. Ao mesmo tempo em que a teconologia e a ciência avançam, crenças e líderes maníacos entram em conflito com essa evolução. É um momento delicado de toda espécie: quase entrando naquela fase em que as crenças “primitivas”e ideologias malucas ficam obviamente deslocadas diante da grandeza da ciência e ao mesmo tempo tentam sobreviver, lançando mão, porém, de recursos extremos. Eles sabem que sua “visão do mundo” está ameaçada e fazem tentativas desesperadas de deter o conhecimento. Muitas civilizações conseguem passar essa fase, outras entram num processo absurdo de aniquilação.
Depois de duas semanas, a primeira nave estava se preparando para voltar. Levava amostras de vida microbiológica e fragmentos de seres inteligentes para um estudo profundo de DNA e, quem sabe, uma tentativa de “recriação da espécie” local.
A frota que tentava o resgate era do planeta Raddar, situado na constelação de Centauro e o que estava destruído era a antes maravilhosa e exuberante Terra. A civilização terrestre conseguira sobreviver, com suas glórias e seus pecados, com suas conquistas e seus fracassos, com sua obsessão e arrogância, até o ano 2093. Infelizmente não conseguiu virar a página do novo século.

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Histórias do Futuro

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Tuesday, December 18, 2012

O fim do mundo no dia 21



O fim do mundo no dia 21


Existe gente aflita com o fim do mundo que se aproxima. Estou falando do Calendário Maia e do fim de tudo na próxima sexta-feira, dia 21. Praticamente já chegou.  A Nasa e todos astrônomos respeitáveis já descartaram a catástrofe há muito tempo. Algumas pessoas são teimosas e insistem na tragédia iminente. Talvez esteja faltando um pouco de ação em suas vidas ou talvez seja ignorância mesmo. Um pastor nos EUA marcou por duas vezes – o dia exato -  a data do Juízo Final e falhou, como obviamente pode ser constatado pelo simples fato de estarmos ainda aqui. Acho que houve uma falha nas comunicações celestiais. Agora ele deve estar ajustando a antena mística para tentar conseguir uma melhor recepção. Um louco só dá para entender, mas um monte de gente acreditando pela terceira vez?

Sou leigo em astronomia e civilização maia mas tenho um monte de razões pelas quais o mundo não vai terminar. Entretanto, basicamente posso dizer que a principal delas é porque estamos falando de uma sexta-feira. É injusto acabar com tudo numa sexta. O povão trabalhou a semana inteira e quando o final de semana vai chegar, pronto, acabou tudo? O  Renato, o Alfredo, o Júnior e o Antonio vão fazer churrasco e precisam comprar a picanha no sábado. O Pedro e o Jônatas vão reunir as famílias por causa do aniversário do Fernandinho. A Cecília, a Maria, a Flávia e a Larissa vão namorar.  Na televisão vai passar um especial que o Mário e o Celso vão assistir. O pessoal do escritório vai jogar futebol no domingo e no sábado eles precisam treinar. É  jogo contra. Nossa, tem tanto compromisso que tem de ser cumprido e esses Maias não pensaram em nada disso. Nem vou colocar aqui a relação toda do poetinha quando escreveu  “O dia da criação”...Lembra quando ele começa a enumerar “Porque hoje é sábado...”...Realmente seria uma “ideia de jerico” vir com essa história de fim de mundo numa sexta-feira.  Quem faz isto bem na hora de começar um final de semana? Essa gente não tem mesmo noção de bom senso.
Se fosse na segunda, até que a gente poderia levar em consideração. Para dizer a verdade, eu conheço um monte de gente que até toparia. Segunda, às cinco da manhã, acordar para ir trabalhar? Eu quero mais é que o mundo acabe...

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Precisamos enterrar os nossos loucos


Precisamos enterrar os nossos loucos

(Homenagem às crianças assassinadas em Newton, EUA)

No sábado à tarde, autoridades revelaram
 a identidade das vítimas.
Dos 26 mortos, 20 eram crianças
com idade entre 6 e 7 anos. (www.estadao.com.br)


Precisamos enterrar os nossos loucos. Também aqueles que pertencem ao mal, que não respeitam a vida, que estão muito longe de qualquer coisa que pode ser chamada de humana. Precisamos enterrar as armas que eles carregam e que matam nossa gente, nossos inocentes, nossas crianças. Não queremos guerras, não estamos em guerra, somos da paz. Precisamos respirar nosso ar sem medo, precisamos de espaço  para nossos pequenos. Os loucos e os demônios não são da nossa terra, não pertencem ao nosso ambiente. São corpo estranho. Não sei de onde apareceram e nem como se misturaram a nós.
Precisamos enterrar os loucos e suas armas para pararmos se enterrar nossos irmãos, nossas pessoas inocentes. Precisamos enterrar os loucos para pararmos de enterrar nossos filhos. Queremos nossas crianças vivas, elas são nossas sementes. Não podemos enterrá-las pois elas são as almas que nos vão manter vivos até o dia em que a eternidade vai começar...
Para aqueles que querem explicar por que a venda dessas armas pesadas, verdadeiras armas de combate, não deve ser controlada, sugiro que eles se sentem junto aos pais das crianças de 5 e 6 anos que morreram no massacre e exponham seus argumentos...Se um só pai daqueles entender, eu também entenderei. Talvez eles devessem ter conversado com os próprios garotos um dia antes. Poderiam talvez ter argumentado por que eles teriam de morrer no dia seguinte, com três ou quatro balas em seus corpos que nem sequer atingiriam a adolescência. Quem sabe eles teriam entendido a “nobre causa” da liberdade de vender armas para quem quiser...Talvez os pequeninos teriam alcançado em suas pequenas cabeças o entendimento da “glória” e da importância da segunda emenda da Constituição Americana.
Vamos enterrar os nossos loucos...antes que eles enterrem as nossas crianças e a nós mesmos! 


Vítimas de massacre foram mortas com mais de um tiro

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Monday, December 17, 2012

Chove chuva, chove sem parar











Chove chuva, chove sem parar

O senhor Mendes sabe falar inglês muito bem, é um excelente representante comercial e precisa viajar. Vai para todo lugar: Nordeste do Brasil, América do Sul, Europa, Estados Unidos...Já se acostumou. Sempre existem os dois lados da  moeda. É sempre bom conhecer novos lugares, “sentir” outras culturas, ver as coisas de um outro ponto de vista. Por outro lado, a saudade é uma coisa cruel. Quando você está muito tempo fora, às vezes ela vem sem avisar e dói...Eu sei. A sua terra é cheia de defeitos, de coisas absurdas, mas...você sente falta. Era assim que Mendes estava se sentindo naquele dia. Chuva, muita chuva. Afinal de contas, ele estava em Seattle, o que poderia se esperar?
Pelo menos, o dia estava acabando. Uma última tarefa e, definitivamente, bem fácil. A entrevista que ele havia programado não iria acontecer. O diretor da firma estava viajando e tudo que ele tinha de fazer era deixar os catálogos com a secretária. Assim que ele cumpriu a “difícil missão” na “1st Avenue”, andou dois blocos e entrou numa cafeteria. Pegou um café, sentou-se junto a uma mesa e olhou para fora. A chuva havia aumentado um pouco, as pessoas se apressavam. Era bom estar ali, aquele aroma gostoso se espalhando pelo ar. Pensou um pouco na vida. Valia a pena estar sempre viajando, longe das pessoas amadas? Uma pequena tristeza invadiu seu coração. Ali, tão longe de casa, pessoas diferentes, coisas diferentes, cultura diferente. Por uns instantes pensou em tudo que por dois meses deixara para trás.
Estava absorto em seus pensamentos, em suas lembranças, quando, de repente, começou a ouvir um som que parecia familiar. Era o Jorge  Ben cantando: “Chove chuva, chove sem parar...”  eu sei que eram as circunstâncias, Mendes estava sozinho, há muito tempo fora...E de repente, ali, noutro país, aquele som gostoso, conhecido. O fato é que ele estava emocionado.
Aquele momento transformou-se em magia. Foi um bálsamo para a alma, um remédio para a dor, uma alegria para o coração...O Mendes se deliciou. O Jorge Ben cantou a música até o fim e ele não perdeu uma só nota, uma só sílaba. De todas as reuniões e compromissos da viagem, aquele encontro foi o mais importante e..inesquecível.

Vídeo: Jorge Ben

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Essa vida da gente

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Friday, December 14, 2012

Um Pedacinho de Papel


Um Pedacinho de Papel

O pedacinho de papel veio girando, girando, até cair no para-brisa do carro do Afonso. Ficou ali, parado, como se estivesse esperando para ser lido. Afonso, talvez por ser escritor, talvez por achar o fato estranho, parou junto à calçada, saiu do carro e pegou o papel. Era a parte de baixo da página sete de um livro. Era muito pequeno e havia pouco a ser lido:
“...foi a partir daí que Laura resolveu partir. Seu coração estava em pedaços, nunca fora tão humilhada em sua vida. Seu namorado havia cometido a pior traíção que alguém pode cometer. Ele a havia traído como amigo. Coisas de namorado, uma caso passageiro com outra mulher, quase que dá para perdoar. Mas falhar na amizade, isso era fatal. Não havia como perdoar Leonardo. Foi por isso que Laura...”
E daí a página terminava e provavelmente o capítulo. Não havia nada no verso da página, o que fez Afonso supor que o capítulo continuava no topo da página seguinte e por isso não havia nada no verso. Deu uma olhada ao redor do carro e ao longo da rua para ver se via a origem do papel ou, pelo menos, o resto da página, ou até mesmo outras páginas do livro. Nada. Ao retomar o volante, ficou pensando por que as pessoas destruiriam um livro. Por que não doar ou até mesmo deixar em algum lugar onde alguém pudesse pegá-lo? Alguém teria chance de ler, de apreciar. Depois concluiu que o que estava pensando era besteira. Estava divagando porque era escritor.
Chegou finalmente em casa, pegou o livro “1984” de George Orwell, que estava relendo, abriu na página 7 e guardou  o pedaço de papel que resgatara.
No dia seguinte, Afonso pensou sobre o assunto o tempo todo. Pesquisou na internet os personagens Laura e Leonardo, arranjou os trechos do livro de várias formas, mas não achou nada. Afonso tinha um novo livro planejado, estava para começar. O que acontecera, porém, começou a a fermentar em sua cabeça. Parecia uma espécie de mensagem. Parecia que o destino queria que ele escrevesse outra história. Ele tinha apenas algumas frases. Tinha de completar o antes e o depois.
Foi o que fez. Primeiro fez o esboço do livro. Laura e Leonardo se conheceram num seminário sobre ecologia. Um mau entendido fez Laura se afastar de Leonardo e a conclusão dessa parte é exatamente o que estava escrito no pedacinho de papel. Vivem anos separados, cada um seguindo sua vida. Afonso planejou escrever os capítulos, cada um, alternadamente, contando as histórias de um e de outro. O destino faz com que se encontrem novamente, dez anos depois. A própria maneira como se reencontram explica o mal entendido que os havia separado. A história termina.
Existe algo que precisa ser explicado. E isso também justifica o fato de Afonso ficar tão impressionado com o que acontecera. Ele também fora abandonado pelo amor de sua vida por causa de um equívoco. Estava tentando resolver seu drama pessoal, ou pelo menos sonhar com uma solução, através da ficção. O que acontecera aquele dia, o papel caindo em seu carro, fora uma espécie de mágica, uma espécie de mensagem do céu. Pelo menos era o que ele pensava.
Afonso terminou de escrever o livro. Precisava, no entanto, fazer umas retificações e depois uma revisão. Foi atrás de uns livros que precisava, para conferir algumas coisas que havia escrito. Era melhor para o livro parecer mais real, Afonso gostava de colocar sua “ficção” de certa forma “ligada” com a realidade. Dedicou aquele dia para revolver a sua pequena biblioteca, para mexer nas suas coisas antigas. Estava já há uma hora remexendo nelas quando deparou com uma velha pasta. Fazia tempo que não a via, tinha praticamente se esquecido de sua existência. Dentro achou inúmeras anotações, ideias para romances, para contos, pesquisas, etc. Ficou gelado quando viu o título de um pequeno bloco de papel ”O Reencontro”. De imediato tudo voltou à sua mente. Tinha esboçado esse livro logo depois que Marisa o abandonara. A história estava toda delineada ali, completa. Apenas alguns pequenos detalhes eram diferentes. Havia mais: o primeiro capítulo já havia sido escrito. Afonso releu sôfrego as sete páginas para encontrar, no final, as  exatas mesmas palavras do pedacinho de papel que caíra em seu parabrisas. Ficou paralisado, não conseguia acreditar no que estava lendo. Por outro lado, agora se lembrava vividamente do que escrevera, onde estava, tudo. A única diferença era que ele havia datilografado essa primeira página e o que estava no papel encontrado tinha sido certamente sido impresso em uma gráfica.

Afonso sentiu que o destino estava brincando com ele. Sentiu que o sobrenatural estava fazendo uma visita.
Às vezes procura-se uma solução para um mistério e o que se encontra é ainda mais misterioso. E mais, quando você procura testar se o mistério é de verdade ou pura imaginação, as coisas parecem ficar ainda mais nebulosas. Assim que saiu do estado de entorpecimento, Afonso largou o que estava fazendo e foi pegar o livro que estava lendo, o “1984”. Avidamente abriu na página sete, para uma vez mais conferir as palavras no pedacinho de papel. Foi uma grande surpresa outra vez. Não havia nada lá. Era como se o destino estivesse lhe negando a prova de que precisava para provar seu contato com o sobrenatural. Agora tudo que ele tinha era o caso de um autor que retomou uma obra vinte anos depois...Sem mistérios, sem mensagens.

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Essa vida da gente

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Thursday, December 13, 2012

A cidade que parou no tempo


A cidade que parou no tempo

A pequena cidade se chamava Jenost e tinha uma posição geográfica absolutamente singular. Além de ser muito pequena, ficava entre elevações e tinha uma única saída para o “resto do mundo”.  Era uma estrada estreita entre as montanhas. A população não chegava a 1000 pessoas. Foi por isso que quando chegaram aqueles caminhões do exército, naquela linda tarde de março de 1947, todos ficaram sabendo. Eles montaram algumas barracas e nelas se estabeleceram por alguns dias. Enquanto isso algumas máquinas  desengonçadas começaram a ser transportadas para um terreno que sabidamente pertencia ao governo. Finalmente um dos militares começou a chamar o chefe de cada família para uma entrevista. A notícia se espalhou como fogo em  capim seco. O encontro se dava em uma das barracas. O coronel fazia as entrevistas e, a seu lado, duas pessoas, aparentemente cientistas, ficavam ali para esclarecer as dúvidas das pessoas. O governo queria fazer uma experiência científica revolucionária.
Era uma época muito especial para todos. O país acabara de sair vitorioso da guerra, todos estavam orgulhosos das forças armadas e o patriotismo certamente dominava o coração de todos. Jenost, por causa de suas peculiaridades, havia sido escolhida para ser o centro de um grande  e importante experimento. Dali sairia a tecnologia e o conhecimento que permitiria ao país praticamente ficar imune a qualquer ameaça de qualquer inimigo externo provavelmente durante os próximos duzentos anos... Era relacionado com átomos mas nada tinha a ver com bomba. Também não se relacionava com armamentos químicos ou qualquer coisa do gênero. Ciência pura.  Obviamente a natureza da experiência não podia ser revelada por motivos de segurança. Certamente não haveria perigo algum para os habitantes. Haveria um seguro absolutamente alto para os descendentes no caso de haver algum problema, o que entretanto  era quase impossível. Era um experimento seguro, controlado pelos maiores cientistas do país e até alguns do exterior. A cidade ficaria isolada por algum tempo e quem quisesse sair, sem participar do evento, teria toda a  liberdade para fazê-lo antes do início. Não havia conspiração ou qualquer coisa do gênero. Era uma questão de patriotismo. Além disso toda e qualquer pessoa que ficasse na cidade durante aquele curto período, nunca mais teria de se preocupar com sobrevivência. O governo cuidaria deles durante toda a vida. Os velhos, os jovens e as criancas nunca mais teriam problemas financeiros. Tudo que tinham de fazer era assinar os documentos necessários, concordando com tudo. Eram cinco páginas de documentos.
Apenas nove famílias não concordaram e saíram. Também receberam uma pequena indenização mas tiveram de assinar um documento prometendo sigilo. Nesta época de pós-guerra, ninguém ousou ir além disso. Pegaram o dinheiro, assinaram a papelada e partiram. Oitocentas e noventa e três pessoas permaneceram.
Três semanas depois, a unidade do exército abandonou a pequena cidade, deixando para trás uma espécie de pequena fábrica em aço inoxidável com umas estranhas antenas. A saída da cidade foi bloqueada com uma alta cerca de metal. Ninguém saía, ninguém entrava.

A primeira noite, após o bloqueio, corria normal. Pelo menos até uns quarenta minutos após a meia-noite quando uma espécie de zumbido infernal acordou praticamente  todos. Não houve explosão, nem fogo, nada. Apenas aquele estranho ruído e finalmente a visão de uma luz esverdeada ao redor das instalações do governo. Depois disso, silêncio total.
De manhã as pessoas começaram suas atividades normais. Apesar do incidente noturno, houve poucos comentários. Eram oito horas da manhã. Inicialmente ninguém sabia explicar, era algo que as pessoas sentiam mas não sabiam o que era. Finalmente, o senhor Fahrid, dono da mercearia da Rua Principal, exprimiu em palavras a sensação que todos estavam tendo. O tempo não passava. Ou talvez  parecia não passar. À oito e cinco, todos tinham a sensação de que estavam ali há pelo menos três ou quatro meses. Olhavam para o relógio e apenas cinco minutos haviam se passado. Aliás, olhar para o relógio era o que as pessoas mais faziam. Naqueles primeiros minutos algumas pessoas tinham verificado as horas centenas de vezes. Os ponteiros não andavam. À oito horas e seis minutos algumas pessoas começaram a se desesperar. Alguns achavam que mais de um ano havia se passado embora o relógio ainda não tivesse chegado às oito e sete. Logo depois das oito horas e oito minutos o boato que corria na cidade era que tudo aquilo tinha a ver com as máquinas que o exército trouxera e com o experimento que o governo estava fazendo.
Algumas pessoas já haviam tomado centenas de comprimidos para dormir. Dormiam horas e horas e quando acordavam apenas  algumas frações de segundos haviam se passado.
Às oito e trinta a situação estava insustentável. Muitas pessoas achavam que tinham enloquecido. Houve alguns casos de suicídio. Tony era um dos poucos jovens da cidade. Havia pouquíssimas crianças e muitas pessoas idosas. Ele achou que tinha de fazer alguma coisa. Ir até “as máquinas” era inútil. A cem metros do local as pessoas começavam a se sentir fracas e desmaiavam. Foi aí que ele se lembrou de uma caverna que acabava dando para o outro lado de uma montanha, quase junto à rodovia. Era como cortar o caminho em cinco quilômetros. Ninguém mais se lembrava dela. Sua entrada havia sido coberta por densa mata há muito tempo.
Foi muito difícil achar o local. Mais difícil ainda abrir espaço entre a vegetação. Tempo era o que não faltava. Entre se preparar para a viagem, fazer a longa caminhada, ficar interminavelmente procurando a entrada da caverna apenas um segundo se passara.
Tony já estava do outro lado e tinha certeza de que já se sentia melhor. Tinha ainda mais dois quilômetros para chegar até a estrada. Só agora notava como o ar estivera carregado antes. Deu uma olhada em toda a paisagem. Havia algo errado. Aquele não era o lugar que ele pensava. Estava tudo diferente. Ainda assim caminhou mais. Definitivamente era muito parecido com a paisagem que conhecia. Era isso, o mesmo lugar, mudado. Outras árvores, outra pista na estrada, outros sinais de trânsito. Reconheceu algumas árvores e notou que a pista havia sido retificada. Como? Em algumas horas, enquanto estivera recluso no vilarejo?
Estava no acostamento na esperança de conseguir uma “carona”. Não demorou para um “carrão” aparecer na curva e depois parar. Sentiu-se aliviado ao entrar no veículo. O motorista era um senhor respeitável, meia idade. Parecia um médico ou coisa assim. Perguntou a Tony como chegara ali, um ponto tão inacessível. Após ouvir a explicação de Tony, ele comentou:
-Não entendo como você conseguiu entrar naquele lugar...
-Como assim?
-A vila inteira está interditada pelo governo há mais de dez anos.
-O quê?
-Houve um incidente com umas instalações do governo, muitas pessoas morreram. Para dizer a verdade, todos morreram, exceto duas pessoas que simplesmente sumiram. Até hoje ninguém consegue entrar lá.
Tony estava atônito. Pôs a cabeça entre as mãos, suspirou e após algum tempo, perguntou:
-Em que ano estamos?
-Como assim, em que ano estamos, você não sabe?  Abril de 1959...
-Esse carro, quando eu vi, pensei por que você fez tanta modificação nele..
-Este ém um Ford 59, eu adoro esse carro..O que você acha?
Depois de alguns momentos:
-Você está sentindo alguma coisa? Algum problema?
Você pode me levar para a polícia?
-Claro. Espero que você esteja bem.
Vinte minutos depois Tony estava numa sala contando sua história para dois oficiais. Esses fizeram algumas perguntas e disseram que precisavam fazer alguns telefonemas antes de tomar as providência que o caso requeria. Depois de uns 90 minutos, três homens entraram na sala e pediram que ele os acompanhasse. Entraram num carro. Ele tentou conversar mas ninguém respondeu. Rodaram em silêncio por mais de duas horas e então um grande propriedade apareceu na paisagem. O prédio era baixo mas extenso.
Era um hospício. Tony tentou reagir mas foi inútil. Deram-lhe drogas e começaram o tratamento. Constantemente o psiquiatra explicava para ele que provavelmente algo horrível havia acontecido em sua vida pessoal. Ele havia criado uma realidade alternativa - o experimento -  pois a sua era insuportável. Ele reagiu muito no início. Após algum tempo e com a ajuda de drogas, ele começou a acreditar que tudo aquilo fora sua imaginação.

Santiago também morava em Jenost na época do incidente. Ele percebeu o que Tony estava fazendo e o seguiu. Tomou, no entanto,  um caminho diferente. Não perguntou nada para ninguém, seguiu seu próprio destino. Procurou amigos, fez inúmeras pesquisas sobre o caso, e se mudou para um país da América do Sul. Estava preparando um livro sobre o assunto. Todos os detalhes viriam a público. Um editor em Nova Iorque havia concordado em publicar o livro. Santiago estava feliz, além de ficar famoso, iria fazer o que é certo:  denunciar o governo, alertar a população, para que nada semelhante ocorresse no futuro. Naquela manhã, levantou-se mais cedo e foi tomar um café da manhã na lanchonete da praça. Meia hora depois, levantou-se para voltar ao apartamento e dar os últimos retoques no livro. Assim que pôs os pés na rua, um ladrão agarrou sua carteira e  esfaqueou-o diversas vezes. Morreu ali mesmo, todo ensanguentado.
Nunca um roubo ou ataque havia ocorrido naquela parte da cidade. Estava claro que o sistema não queria que a história ficasse conhecida. Exceto por isso, tudo voltou ao normal. Onze anos depois Jenost iria ser reaberta. Novos tempos. Um lindo conjunto residencial para famílias de militares de alta patente estava para ser inaugurado. Desta vez o tempo ia seguir seu curso normal, iria passar rápido, mas nem tanto...














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Estranhas Histórias
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