Friday, May 31, 2013

Entregador de pizza flagrado dentro do elevador

Entregador de pizza flagrado dentro do elevador

Com tanta notícia doida que aparece por aí em tantos meios de comunicação, talvez você não tenha visto aquela do entregador de pizza. Na maior cara de pau, o funcionário abriu a caixa de papelão e começou a beliscar o delicioso alimento e comer as azeitonas que estavam por cima. A câmera pegou a cena toda dentro do elevador, não há como o dito cujo declarar-se inocente é dizer que é coisa inventada pela oposição. Antes de você ficar indignado, porém, devo declarar que isto aconteceu na Rússia e que, por enquanto, nesse aspecto, você está garantido.

Gostaria aqui de dar uma de advogado do diabo e fazer algumas considerações. Em primeiro lugar, há uma questão de privacidade. Isso é coisa séria. Até onde  o interior de um elevador é um lugar privado?  Não sei, mas não é justo ir filmando assim um duro trabalhador em seus momentos mais íntimos. Tenho certeza de que muitos juízes iriam considerar essa prova inadmissível no tribunal. Aposto que quem gravou esse vídeo, não tinha um mandado judicial para fazê-lo. Eu sei que quem encomendou a pizza, deve estar furioso, mas nem por isso devemos passar como um rolo compressor por cima da lei. Nos Estados Unidos existe até uma parte da Constituição que diz que todos têm direito a um processo justo. Muita gente já se safou de coisa muito mais grave por muito menos. Quem nunca ouviu falar do O. J. Simpson, que veio para o tribunal com sangue escorrendo nas mãos – estou exagerando um pouco, é claro – e acabou sendo absolvido por uma questão de tamanho das luvas? Quem não ouviu falar da Casey Anthony, que deixou a filha morrer, mentiu  tudo que dava para mentir e acabou sendo absolvida, por alguns detalhes? É tudo por causa da lei, que deve ser cumprida com acuidade máxima para se processar alguém. Não cuidou dos procedimentos periciais corretos, não fez tudo de acordo com o manual, o fulano é absolvido.



 Aposto que lá na Rússia, eles não levam esses detalhes a sério, e o fulano pode acabar se dando mal. Por outro lado, não dá para comparar os assassinos acima com um pobre e mal remunerado funcionário de pizzaria. Mais ainda, a pizza devia estar quentinha, aquele cheirinho gostoso o dia inteiro, não é fácil, meu amigo. Se eu fosse juiz, eu iria querer saber se o fulano teve acesso a um pedaço do alimento, de graça, durante o dia. Porque há outro aspecto: você não pode expor um empregado por horas a fio a pizzas deliciosas e não lhe garantir pelo menos uma mordidinha. Acho que não pode. Isso é crueldade e exposição de empregado a condições impróprias de trabalho. É claro, na Rússia, as coisas podem ser diferentes. Eu vou dizer uma coisa, se esse caso for para o tribunal, muita coisa vai ter de ser rediscutida. Vai haver nova jurisprudência e muitos aspectos do caso vão ficar nos anais da história jurídica. É capaz até de precisarem mexer com a constitucionalidade. Existem duas coisas, entretanto, que não mudam de jeito nenhum: o enorme vexame do entregador por ter sido pego em tão ridículo flagrante e a enorme raiva de quem comprou a pizza. Por isso, eu acho que esse caso tem de ser abafado. Se fosse no Brasil, seria fácil. Nós somos bons nisso, não somos?

Tuesday, May 28, 2013

Um planeta como o nosso

Um planeta como o nosso



Eu tenho certeza de que, em algum lugar do Universo, muito distante daqui, existe um planeta igual ao nosso. Lá existem rios, mares, florestas, montanhas, como as nossas. A ciência é parecida. Assim como a  história. Até as manias são as mesmas. Sabem fazer canções e sabem cantar como nós. Poesias belas como as que se escrevem aqui, tem também. Romances e novelas cheias de prosa. Aves coloridas, que cantam, animais que encantam, e um céu cor de anil. Neles, aviões modernos levam as pessoas para lá e para cá em rotas mil. Um oceano imenso com barcos e navios, isso também não pode faltar. Flores...tantas e tão coloridas!
Ah!...E as pessoas? São todas boas. Não há os falsos, nem os mentirosos, nem os malandros, nem os os maliciosos. Criminosos? Nem pensar! Só gente bacana, de bom-senso, gente que a gente gosta de ter perto da gente. Gente que é gente de verdade.

Na verdade, pensando melhor, será que esse planeta não podia ser aqui mesmo, onde já estamos, só para facilitar? Por que não? Afinal, quem disse que não se pode sonhar? 

Sunday, May 26, 2013

No confessionário

No confessionário


-Padre, preciso confessar.
-Sim, meu filho, quais são seus pecados?
-São muitos, nem sei por onde começar.
-Muito simples, comece pelos mais graves e depois conte os mais simples.
-Mas, padre, são tantos e tão ruins, que nem sei...E se Deus não perdoar? Existem alguns, que não sei não...
-Para Deus não existe nada que não possa ser perdoado.
-E se eu pecar de novo, cair na tentação? Como vai ser? Daí não vai ter mais jeito, não vai mais ter perdão...
-Deu sempre perdoa, é só confessar. Confessar e se arrepender, é claro.
- Eu me arrependo. Mas estava pensando...
- Pensando o quê? Não há nada para pensar. Só há o que confessar.
-Estava pensando, não quero dar trabalho. Se vou ser perdoado, vou acabar de pecar. Pecar o que falta ser pecado. Daí junto tudo e peço para ser perdoado, tudo de uma só vez. Não quero ficar dando trabalho...


Wednesday, May 22, 2013

Quando a noite vem


Quando a noite vem


Não sei o que acontece no final da tarde. Vem uma tristeza dentro da alma, que é difícil de se explicar. Talvez seja a percepção de que o dia está terminando antes de estarmos prontos. Talvez seja o sentimento de que algo está faltando...Talvez seja a primitiva sensação de que a escuridão possa ser perigosa. Talvez o mundo, ao escurecer, deixe-nos a sós, com nosso espírito, e tenhamos medo do nosso próprio ser interior. Tememos, mesmo sabendo que o sol vai nascer de novo.
A noite é passageira, não precisamos nos preocupar, mesmo porque vamos estar dormindo. Mas tal qual uma criança, nossa  alma não se conforma, é sempre uma hora difícil. Entretanto é um momento bonito, com suas nuances de claro escuro, de luzes que se vão, e outras mais fracas que estão por vir.
Lá no fundo, sabemos todos o que acontece. O dia é a vida, a noite é a morte. Sempre achamos que ainda não está na hora. Queremos prolongar, até onde se possa, nossa luz...Queremos brilhar para sempre!


Sunday, May 19, 2013

As mulheres no exército americano


As mulheres no exército americano




Existem muitas coisa que são difíceis de se entenderem. Muitas. Uma delas é uma recente discussão que está havendo aqui nos Estados Unidos. É um assunto que vai e volta. Na verdade, vai mais que volta, se é que isso é possível. Existem muitas nuances, muitos aspectos, mas a verdade é bem simples. As mulheres que estão servindo no exército americanosão estupradas por colegas ou superiores numa taxa mais alta do que se espera, já levando-se em conta a estupidez humana.  Isso por si só, já seria assustador. Porém, o que nos deixa mais indignados, é que nada acontece. Quando uma das vítimas tem coragem de denunciar e correr os riscos de represália (que sempre acontece), na maior parte das vezes o acusado não é condenado. Quando é, a maior parte das vezes é perdoado por um superior, o que é permitido pela lei militar.
Isso é especialmente estranho num país onde esse crime é gravíssimo. É muito comum um jovem – não militar – fazer sexo consentido com uma jovem de dezessete anos e meio e ser condenado por seduzir uma menor. Ele pode entrar na relacão de “sex offenders” e ter seu nome execrado para o resto da vida. Isso cria uma disparidade absurda na maneira como a justiça é aplicada. Pois é, agora estão discutindo mais uma vez, o óbvio: mudar  esse tipo de decisão – sobre a culpa de militares que estupram – da justiça militar para a justiça comum. Nem sei por que é necessário se discutir isso. O óbvio não deveria nem ser discutido.
Enfim, quem não conhece essa história de os militares serem especiais, poderem fazer o que bem entendem? Já vimos isso antes, não? Por todo o lado. Ou alguém pensa que por os Estados Unidos serem o país mais “avançado” do mundo, aqui isso jamais  aconteceria? Se quiser , pode continuar pensando....mas acontece!

Sobre o assunto: 

Inside the military’s “giant rape cult”

Why rapists in military get away with it

Saturday, May 18, 2013

A parede de vidro



A parede de vidro

O Silas acordou assustado naquela manhã do verão de 1994. Nem ele sabia por quê. Logo notou que a Jaci não estava na cama, já havia se levantado. Reparou então que havia um bilhete pendurado no abajur. Lá dizia que tinha ido fazer compras, voltava em uma hora.
Silas foi até o banheiro e depois resolveu dar uma volta pela casa. Sentiu que estava meio abafado e então foi até a porta da frente. Abriu-a e teve uma grande surpresa. Uma espécie de parede de vidro fechava toda a entrada. Tinha cerca de 20 centímetros de grossura mas era transparente e podia se ver tudo lá fora. Passados os primeiros segundos de espanto, ele correu para a janela e escancarou as cortinas. Mesma coisa. O mesmo tinha acontecido com todas as outras janelas.



Ele pensou então em pegar o telefone mas notou que ele estava mudo e também que não havia eletricidade e água na torneira. Abriu a geladeira e percebeu que o gelo começava a derreter. Havia suco  na jarra, entretanto. Tomou alguns goles  e foi novamente para a porta da frente. Talvez aquilo tudo fosse uma ilusão e agora já tivesse passado. Sonho não era, ele sabia. Foi a primeira coisa que ele pensou. Além disso, lembrou-se muito bem de ter acordado e depois ter ido para a sala.
Nada havia mudado. Aquela muralha de vidro ou acrílico ainda estava lá, intransigente. Foi aí que notou o carro da Jaci estacionado na frente da casa. Logo a seguir, percebeu que ela estava andando em direção à porta. Ela ainda não havia notado a parede de vidro e com uma das mãos – a outra segurava uma sacola com compras – procurava a chave da porta. Começou a gritar para ela – não que ela fosse ouvir – em desespero. Quando ela estava bem perto, bem perto mesmo, viu dois vultos virem por trás dela e um deles tocou em seu ombro. Ao invés de olhar para ele, ela se virou para trás. Os dois vultos, na verdade dois policiais, seguraram-na pelos braços, delicadamente, assim que ela se virou. Ela, sem resistência, acompanhou-os.
O desespero do Silas aumentou. Algo, lá dentro de sua cabeça, dizia que aquilo era permanente, definitivo. Tentou, por alguns segundos, relacionar o que estava acontecendo dentro de casa e o fato de levarem sua mulher embora. Sabia que, por mais que pensasse, não iria achar uma explicação. Estranhamente, o vidro estava se tornando opaco e mal se conseguia ver o lado de fora.
Apesar da situação, decidiu que devia sentar-se um pouco no sofá da sala. De repente, pareceu óbvio para ele. Precisava tomar um remédio. Era uma coisa boba, mas pensou que era bom que havia suco na geladeira, pois assim era mais fácil engolir. Ele já tinha tomado remédio antes por motivo semelhante. Um momento, será que isso já aconteceu uma vez? Não, certamente não. Ele estava tão assustado que estava se confundindo. Sabia que tinha que tomar uma bela dose. Um ou dois comprimidos não iriam resolver. Tomou vários. Não demorou muito e começou a ficar sonolento. Ao mesmo tempo, começou a adquirir a certeza de que o problema iria embora. O que ele não entendia direito era se o remédio fazia com que ele dormisse ou se o remédio de alguma forma fazia a parede de vidro desaparecer. Isso não pode ser. Será?
Foi acordando devagar. Luz branca de hospital lá no teto. Vozes. Está numa cama e não tem forças. Alguém lhe pergunta algo mas ele não consegue responder.
Silas dormiu mais e mais. De repente, parecia estar sonhando. Começou a falar de uma  parede de vidro. Gritava para que não levassem a Jaci embora.
Alguém lhe falou alguma coisa, tentando acalmá-lo. Mas ele não ouviu. Deram-lhe alguns comprimidos e, com jeito, fizeram que ele os engolisse com a água do copo. Ele foi se acalmando novamente. Parecia dormir, mais uma vez.
O Silas acordou assustado naquela manhã do verão de 1994. Nem ele sabia por quê. Logo notou que a Jaci não estava na cama, já havia se levantado. Reparou então que havia um bilhete pendurado no abajur. Lá dizia que tinha ido fazer compras, voltava em uma hora.
Silas foi até o banheiro e...

Framstad, a cidade do futuro


Framstad, a cidade do futuro    



O projeto “Framstad” foi organizado pelos maiores cientistas da humanidade a partir do ano 2276. Foram mais de 20 anos de estudo, considerações, planejamento e testes. Finalmente o primeiro modelo estava funcionando.
Três mil pessoas, de idades diferentes, foram escolhidas para habitar Framstad, a cidade do futuro. A diversidade dos habitantes era propositalmente enorme. Nenhum detalhe foi deixado de fora.
O local era secreto e todo o funcionamento era controlado a partir do Centro de Inteligência Artificial. A quase totalidade das decisões sobre o funcionamento e o dia a dia da cidade era feita pelas máquinas inteligentes. Entretanto, um “conselho especial”, formado por homens da ciência, supervisionava essas decisões.
O principal objetivo do projeto era preparar a maneira de vida para a Terra em 500 anos. Era um modelo de cidade do futuro. Com tudo feito dentro da mais alta tecnologia e por IA, pouco havia a se acrescentar. No entanto, nos últimos anos, o professor Brysig insistiu, em oposição à inteligência das máquinas, que deveria haver um componente mais humano, algo que desse uma certa carcterística de “incerteza” no funcionamento daquela comunidade especial. Ele achava que, do jeito que estava, aquilo parecia mais uma espécie de jogo virtual, algo muito artificial. Depois de muita luta, conseguiu que sete elementos, habitantes da cidade, fossem programados para serem inovadores, humanistas, verdadeiros rebeldes. Eles seriam os “Upprormen”.  Era uma espécie de válvula, ou uma espécie de contraponto, para aquilo que o professor Brysig estava chamando de “cidade de gelo”.
Depois de cinco meses de funcionamento, os “controladores” humanos da cidade, começaram a notar alguns problemas causados pelos “Upprormen”.  Entre outros tumultos, tentaram sair do perímetro sem autorização. A respeito disso, deve se notar, que era raro alguém precisar sair da cidade. Em primeiro lugar, era praticamente impossível alguém precisar de algo de fora, uma vez que a “cidade perfeita” tinha de tudo. Em segundo lugar, era muito complicado sair. Era permitido, entretanto, pois não se queria criar a ideia de que estavam numa prisão. Quando um raro habitante manifestava desejo para deixar momentaneamente o local, tinha de passar por um portal e passar por diversos exames.
Estranhamente, todos que voltavam dessas “viagens” não se sentiam muito bem, não gostavam da experiência e evitavam falar sobre elas. Cada vez mais os habitantes evitavam pedir autorização para saída. Para os “Upprormen” estava óbvio que alguma coisa estava errada e, eles, como grupo de controle, não estavam satisfeitos. Estavam muito desconfiados dos controles que eram feitos nas pessoas que saíam e entravam. Por isso estavam exigindo sair sem esse controle.
Estava criado um impasse. A IA dizia que, de acordo com a estrutura do projeto, sair sem controle era impossível. Para o professor Brysig e alguns de seus seguidores, esse era exatamente o propósito dos “Upprormen”, ou seja, contestar o projeto, descobrir o que não estava bem. Estavam criando uma cidade do futuro, não uma cidade autômatos.
Algum tempo depois dos primeiros confrontos entre o professor Brysig e a IA, aconteceu o que jamais poderia acontecer numa cidade perfeita, Três dos 7 “Upprormen” haviam sido “teminados”. Três outros pareciam ter desistido completamente de sair, porém estava claro que sua parte psíquica não estava bem. O último dos “Upprormen”, Edward,continuava lutando para sair sem controle e claramente denunciava a administração da cidade por estar “boicotando” os “Uppprormen”. O “conselho” se reuniu várias vezes, o que não deveria acontecer, pois tudo estava previsto, nada mais deveria ser discutido. A discussão era sempre a mesma.  A IA tinha “desabilitado” propositadamente os “Upprormen” , era o que o professor Brysig dizia e aquilo era uma reação normal do sistema contra elementos perigosos para uma comunidade, diziam os que apoiavam a administração feita pelas máquinas.
Brysig tinha um segredo. Ele tinha pessoalmente programado “Edward”, o último dos “Upprormen”. Ele era controlado apenas em parte pela IA. Uma parte dele tinha capacidade de tomar decisões próprias, além de conhecer detalhes do projeto que nenhum outro habitante conhecia.
Como todos suspeitavam no mundo científico, bem como na população em geral, a “Framstad” ficava mesmo no deserto de Chihuahuan. Mesmo que você chegasse bem perto, entretanto, você veria pouca  coisa. Tudo que se destacava na paisagem era um só e grande edifício: a administração da cidade. No subsolo é que estava todas a população, Clones humanos cuidadosamente guardados em cápsulas devidamente monitoradas e ligadas a um sistema central. As consciências dos clones eram reais e eles viam e sentiam tudo que se passava. Eles tinham uma vida virtual, perfeita e programada. Felicidade, bem-estar, tudo que um ser humano poderia desejar. Se funcionasse, os seres humanos normais iriam usar o sistema mais tarde. Para que ter um corpo humano, perecível, que envelhece, com todos os riscos que vêm junto? Os clones que tentavam “virtualmente” sair da cidade, tinham de passar pelo portal, também “virtual” e lá era reprogramados para não terem mais vontade de sair. Um clone nunca poderia fisicamente sair da cápsula, pois estava preso a ela, de fato. Edward, porém, era diferente. O professor Brysig tinha conseguido deixá-lo livre, embora dentro da cápsula, caso quisesse se liberar do sistema. Ele tinha um controle dentro da cápsula para isso. Além disso, parte do tempo, a consciência de Edward era real e ele podia ter uma melhor visão da realidade, podendo tomar decisões nos dois mundos, no real e no virtual. Inicialmente professor Brysig tinha pensado em deixar todos os “Upprormen” na mesma situação que Edward, mas achou que ele ia ser descoberto muito cedo e não conseguiria provar seu ponto de vista.
Foi durante uma das grandes reuniões do conselho que o alarme soou. Tinha havido uma brecha de segurança no sistema. Algum clone tinha saído do subsolo, do imenso “depósito” de clones. Antes mesmo que se levantassem de seus assentos, entrou pela porta principal, nada mais nada menos do que Edward, nu, arrastando consigo alguns dos terminais que haviam sido ligados a seu corpo.
Brysig levantou-se, pôs as mãos em suas costas e levou-o para o laboratório. Era o que Brysig queria provar. O único elemento que tinha chance de sair por vontade própria, o fez. Existia algo de errado na concepção do sistema. Felicidade e bem-estar total não era a única coisa importante. Mesmo um clone, geneticamente preparado para aceitar este tipo de vida, tinha se rebelado, precisava de um mínimo de liberdade, de autodeterminação.
Brysig, por sua coragem e determinismo, conseguiu redirecionar o destino da humanidade. O futuro iria continuar a ser planejado e finalmente viria a se tornar virtual em grande parte, mas não tão já e não em escala total.

Thursday, May 16, 2013

O inverso do Universo


O inverso do Universo



A Teoria das Cordas havia se reafirmado e era aceita como padrão por toda a comunidade científica há mais de 350 anos. Como sempre acontece, ela veio com algumas surpresas. A partir daí, pouco se acrescentara  em termos teóricos e a ciência e a tecnologia praticamente estavam agora “digerindo” a mesma e suas possibilidades.
Um pesquisador sueco, baseado nas novas fronteiras do conhecimento, tinha então elaborado um novo instrumento de pesquisa do Universo que ele havia denominado como “Beperes”.  A Agência Mundial de Ciência havia aprovado sua construção e havia inúmeros deles navegando fora do sistema solar. Eles não eram telescópios enormes, eles não “viam” o Universo. O que eles faziam era “sentir”, em todos os níveis, principalmente no subatômico, todo o Cosmos.
Os resultados  estavam se mostrando surpreendentes. Havia tantos dados e tantas novidades que a comunidade científica estava numa verdadeira  ”festa” quântica. Nada, porém, surpreendeu mais do que a detecção da “Grande Esfera”. Ela estivera lá o tempo todo, provavelmente, mas antes não se podia perceber.  Quase nas bordas do Universo observável, uma enorme bola, equivalente a pelo menos 17 sistemas solares iguais ao nosso,  envolvida por uma espécie de geleia azul, extremamente brilhante. Segundo os “experts”, se uma nave espacial terráquea estivesse passando por ela, nem a notaria. Ela simplesmente “não existiria”, ela só existia para os “Beperes”. Mais surpreendentes ainda, eram os resultados da interação que o nosso sistemade “Bepertes” estava fazendo com a “Grande Esfera”. A primeira grande surpresa era que, embora ela estivesse a uma quantidade inimaginável de anos luz de distância, as “mensagens” iam e vinham  em períodos de três anos – anos normais – o que era absurdo e  incompreensível. “Conversávamos” com ela, como se ela fosse um ser vivo. Aparentemente a “Grande Esfera”   já mandava suas mensagens “traduzidas” em “matemática” nossa, para um melhor entendimento. Ainda assim, mesmo com nossas poderosíssimas máquinas de inteligência, demoramos mais de dez anos – trabalho ininterrupto e intenso – para termos uma vaga impressão do que se tratava.
O cientista Goran, criador do sistema “Beperes” , programou uma conferência eletrônica mundial para  apresentar os primeiros resultados:
-Aparentemente estamos diante de um outro Universo. Não é “paralelo”, nem nada semelhante. É como se fosse uma versão inversa do nosso. Ele se expande ao contrário, para dentro. O centro dele é o infinito. Quando mais você viaja para o centro, maior ele fica, mais ele se expande e, apesar de seu aspecto externo, ele é infinitamente maior que o nosso próprio Universo. Talvez nós e o nosso cosmos sejamos a exceção e eles sejam a regra. Quanto mais ele se “expande” para dentro, ele diminui seu “tamanho” externo – pelo menos de acordo com nossa “visão”. Ao fazê-lo, permite que o nosso Universo se expanda mais. Provavelmente quando ele se expandir de todo, ou seja, quando ele “desaparecer” para nós, haverá um Big Bang, dando origem a um outro Universo, e certamente nosso Universo também será consumido no processo. Mas isso não importa, pois muito antes, nenhum ser vivo e inteligente estará por aqui.
Ao ser perguntado se seria possível “entrar”, de alguma forma, naquele mundo, o professor explicou:
-Não, nunca. Tem outras leis da Física, outras leis naturais, outra essência.
Alguém, da antiga Rússia, perguntou:
-Já se pensou em utilizar a máquina de teletransporte para “enviar” algum ser vivo para lá? Poderíamos “ler” alguma coisa através dos resultados da operação...
-Infelizmente tentamos. A simples tentativa de enviar algo, desintegra o elemento que queremos mandar. Transforma-se numa espécie de pó subatômico, se é que podemos chamar assim. Como dissemos, são outras leis naturais, outras leis da Física, outra Física...Nem mesmo sei como foi possível detectar a “Grande Esfera”...
-Chegamos então a um ponto de impasse? É aqui que termina a nossa jornada, aqui estão as últimas fronteiras da Ciência?
-Sim, você expressou bem o que é. Agora só podemos analisar elementos secundários, aspectos não essenciais. Nada mais resta a ser feito...
Daí com um gesto, despediu-se nas telas de todos que acompanhavam aquela espécie de “entrevista coletiva” e recolheu-se para seu “escritório”. Enquanto caminhava, entretanto, murmurou para si mesmo:
- Isso, por enquanto...Vamos saber  mais. Pode demorar 500 ou mil anos, mas vamos transcender mais essa barreira...
Nem ele sabia como, por isso não formalizou essa ideia na entrevista.  Mas lá no fundo ele tinha essa certeza...

Saturday, May 11, 2013

Física quântica


Física quântica



Física quântica. Física doida, tresloucada, sem regra, sem sentido. Rebelde, transgressora, invasora. Sonhadora também...Cheia de histórias, mas sem histórias para contar. Boa para histórias de ficção. Física de poucos mas que rege a todos. Física de loucos, loucos sensatos, sequiosos. Impossível de se entender, de se estudar, ainda assim é boa de se olhar. É só de alguns, mas rege a todos. Concessiva, deixa a velha Física pensar que ainda está a mandar. Reina através dela, junto com ela e contra ela.
Física admirável, do futuro, de outros mundos, alternativos, paralelos, inconsequentes. De outras dimensões sem dimensão, estruturadas dentro do caos, mas sem estrutura estrutural. Multiversos dentro de meus versos. Segredos estritamente confidenciais. Física inquantificável. Acelerando a vida, e a partícula de Deus. Deus e a Física, a Física de Deus. O livro escrito por Deus. Higgs. Imensidão dentro do infinitamente minúsculo ponto. Ponto. Física, fisicamente impossível, Física Quântica. Ponto de interrogação.

Friday, May 10, 2013

Brasileiros em Miami, que festa!


Brasileiros em Miami, que festa!

As últimas semanas foram muito movimentadas por aqui, especialmente para os jornalistas. Primeiro foram aqueles dois monstros, ou loucos, que explodiram bombas e mataram 3 inocentes, além de mutilarem dezenas de outras pessoas em Boston, durante uma maratona. Quase na mesma época, a explosão numa fábrica de fertilizantes matou 14, entre moradores da vizinhança e bombeiros voluntários. No Mississipi, alguém descontente com o governo enviou cartas com veneno para o Presidente da República e outros políticos. Tudo isso quase ofuscou o julgamento de Jodi Arias, que assassinou  seu ex- namorado com um tiro, um corte na garganta e inúmeras facadas. Ela tirou várias fotos dos dois em cenas íntimas – íntimas demais – e, sem querer, fotografou também provas incriminadoras. Jogou fora a câmera, mas a polícia achou. Posso garantir que os filmes do gênero vão ter dificuldade em suplantar todos esses fatos. Pois é, como meu amigo Nino Belvicino sempre diz, a realidade supera a ficção.



Parecia que o circo de horrores estava chegando ao fim, quando de repente...Não dá para acreditar, uma de três mulheres que haviam desaparecido há cerca de dez anos, conseguiu escapar do cativeiro em que estava e, com a ajuda de um vizinho, chamou a polícia. Pelas primeiras notícias que ainda estão chegando, os filmes do gênero vão precisar se esforçar muito para superar os fatos. A concorrência que esses doidos fazem contra a criatividade do cinema de Hollywood não é honesta. Eles apelam muito.
Pois é, havia imigrantes de uma república da ex-União soviética, porto-riquenhos e americanos tradicionais envolvidos em todas essas coisas medonhas. Até que o Brasil não é tão mau assim...
Foi aí que alguns brasileiros deram o ar da graça. Trocaram socos em um avião da American Airlines em Miami. Nem vou falar os motivos, porque não estou a fim de denegrir nossa querida pátria. Mas não eram nada nobres, nunca são...Além disso com tudo que já aconteceu em aviões por aqui, o que fizeram é coisa muito séria. Mais sério ainda, é o sistema judicial, que certamente é diferente, posso garantir.
Está vendo, o Brasil precisava  participar. Claro que a concorrência no noticiário nestas semanas estava brutal e o nosso pequeno espetáculo não tem a menor chance de ganhar muito espaço nos jornais.  Sem desrespeitar as vítimas todas, ainda bem, pois senão poderíamos estar em todo noticiário.
Por incrível que pareça, os brasileiros ainda têm um bom conceito por aqui. Vamos deixar do jeito que está...

Thursday, May 9, 2013

Problemas existenciais


Problemas existenciais

(ou a metafísica vista do botequim do outro lado da  rua)

Viver é perigoso, como diz o Rosa. Tem suas idas e voltas, prós e contras, e mais importante do que tudo, tem suas interrogações. Para dizer a verdade, só tem interrogações, um perguntar sem fim. Nós, as pessoas comuns, não gostamos de muito no interrogar, por isso vamos pegando tudo quanto é resposta que aparece por aí. Não conseguimos viver com aquele enorme ponto de interrogação pairando sobre nossas cabeças. Entretanto, eu posso garantir, meu amigo, que dúvidas é só o que temos. As certezas que pensamos ter hoje, são a correção e a modificação das certezas de ontem e são as certezas que vão ser corrigidas e modificadas amanhã. Então, não temos nada. Querer ter certeza é fraqueza, além de ser uma impossibilidade.
A falsa certeza vem de muitas formas. Pode ser uma religião, uma crença, um manifesto, um jeito de viver. Existe até a teoria de que somos todos virtuais, um conjunto monumental de informações, dados, se interando e se integrando num fantástico software. A sensação de real é tão forte, tão intensa, que nem sequer nos damos conta. Isso pode parecer para muitos – e para mim também  - um absurdo e talvez seja. Mas se isso não for – poder ser tanta outra coisa – que diferença faz? Se não temos controle, se não podemos definir o que está a nossa volta, se não entendemos as regras, dá tudo no mesmo, continuamos sendo personagens de quadrinhos ou de jogos de video game, só que pensamos que somos reais, vivos, de fato.
E assim vamos fazendo nossa parte, interpretando o enredo que nos foi dado nesse palco existencial. Alguns resolvem tomar conta do próprio destino, tomar as rédeas da situação, dar um grito de independência. O diretor da peça não precisa fazer nada. É quase uma auto destruição. É fatal, é quase sempre igual. Esses, na verdade, são os que chamamos de loucos, os excêntricos, os que fazem atos danados, sem perdão. O que estão fazendo, nada mais é do que tentar acabar com a encenação. Existe o extremo, os suicidas, que, verdadeiramente, estão se recusando a continuar o ensaio geral. O único problema é que, assim, eles nunca vão saber a verdade. Mas e nós? Vamos?
A verdade mesmo, é que não sabemos nada. Nada mesmo. O que aprendemos, logo a seguir se desfaz em novas explicações, que, depois, mais uma vez,  acabam se revelando falsas. Na verdade, o bom mesmo é não pensar nessas alucinações. Feliz é aquele que não se desvia do saber comum, que é saber nenhum. A ignorância total é ruim,mas a ignorância controlada, medida, pode ser o melhor. É bom saber só o necessário, que a gente sabe que não é suficiente para entender o mistério cósmico, mas é suficiente para nos mantermos navegando até o momento final, que tudo vai explicar. Vai? Eu não sei, você não sabe, nós não sabemos, ninguém sabe, Quem diz que sabe, se engana, pois precisa de um motivo para viver.
Bom, já que não há solução, podemos tomar uma cerveja gelada ou vinho lá do outro lado da rua. Podemos nos divertir de outras formas, ver um filme, escutar um som, sei lá. Mas se a dúvida existencial continuar a apertar, em último caso, podemos também dar uma olhada no Google. Depois de olhar, você pode decidir se quer duvidar ou acreditar. Tente “teoria das cordas” ou “multiuniversos”...Você pode igualmente assistir o filme “Matrix”. Sei lá, é complicado, porém,  talvez você devesse continuar a tentar. Um dia, todos vamos parar de procurar. Ou talvez vamos começar a, de fato, procurar...

Saturday, May 4, 2013

Estranhas Histórias


No Amazon: Estranhas Histórias   (Brasil)

Estranhas Histórias (USA)

Pedro, o pescador


Pedro, o pescador

Minha jangada vai sair pro mar
Vou trabalhar, meu bem querer
Se Deus quiser quando eu voltar do mar
Um peixe bom eu vou trazer
Meus companheiros também vão voltar
E a Deus do céu vamos agradecer
Dorival Caymmi (Suíte do Pescador




Pedro, o pescador, olha para as águas do mar. Pescar, não pesca mais, mas gosta de mirar o verde azul e as ondas que vão e que vêm.Tem tristezas que não conta para ninguém, pois ninguém vai senti-las do jeito que ele as sente.
Tanta coisa aconteceu. Coisas boas também, mas muita tristeza. Os poetas olham os pescadores e o mar e fazem poesia. Mas, para ser sincero, a coisa lá longe está mais para um teatro de tragédia. Tanta gente boa morreu. Nunca se pode fazer um enterro decente. Tem gente que diz que é até romântico para um marinheiro desaparecer no fundo das águas do oceano, mas não é bem assim...Há mais outras coisas tristes, também.
 Um grande barco de pesca, bateu nas rochas e afundou. Seu irmão, junto com outros, morreu. Foi numa noite de tempestade, uma grande escuridão. No dia seguinte, o sol da manhã, com sua luz ofuscante, era até uma ofensa para sua dor. Foi há muito tempo, mas a dor que sente é a mesma.
Por capricho da natureza, ali as águas são escuras e nada se pode ver. Muitas vezes teve vontade de mergulhar, tentar achar uma lembrança, qualquer coisa.
A mãe deles nunca viu o corpo e por isso, até morrer, achou que ele ia voltar. Acho que isso é ser mãe. Agora ela morreu, não precisa esperar.
Pedro também já está velho e pensa muito em se juntar a eles. Vai dar um grande abraço nos dois...Ah, isso ele vai sim. Daí, toda essa tristeza, essa tristeza de olhar para o mar, vai acabar. Vai acabar...

Wednesday, May 1, 2013

O médico, o mágico


O médico, o mágico

Lá ia ele, de um lado para o outro, com sua maletinha de médico. Em Perus, em, Caieiras, às vezes até na casa do paciente, lá estava ele. Não era só a consulta:  aconselhava, dava remédio, orientava. Funcionava, sozinho, melhor que um plano inteiro de saúde de hoje em dia. A única parte que não funcionava bem era a parte do recebimento. Ele não era muito bom nisso: quem podia pagar, pagava, quem não podia , tinha o mesmo tratamento.
Quanta gente ajudou, não consigo contar. Meu pai foi um deles e tinha um respeito e uma admiração por ele que não tinha por mais ninguém. Quantas vezes ele precisou da ajuda daquele doutor incrível.
Ele era um verdadeiro mágico, pois além de cuidar de tanta gente com tanto amor, ainda tinha uma família enorme para cuidar. Enorme mesmo. Na verdade, acho que a cidade inteira era sua família.
Existe muita gente que não se esquece do doutor. Muita gente mesmo!
Se houver uma contabilidade de dar e receber lá no paraíso, São Pedro teve uma dificuldade enorme para acertar tanto bem que ele fez com tão pouco que recebeu.
É até uma pena que não haja doente lá em cima, com todo respeito. Ele estava tão acostumado a curar, que deve sentir uma falta danada de fazer o bem. Finalmente parou de correr, está descansando o merecido descanso, o descanso das pessoas boas...
Obrigado, Dr Milton Neves!


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