Tuesday, March 31, 2015

Carroças sem cavalo e luzes muito brancas

Carroças sem cavalo e luzes muito brancas



Justina olhava com tristeza para sua filha. Ela fora sempre assim, tímida, mirrada e parecia perdida no mundo. Já tinha consultado médicos, feito exames, mas ela não tinha nenhuma doença conhecida. Justina era viúva e sua grande missão na vida era cuidar da sua pequena Janete. Na verdade, ela não era tão pequena assim. Tinha quase 22 anos quando, naquela tarde de primavera do ano de 1998, chegaram na pequena cidade do interior. A mãe tinha tentado por muitos anos viver em São Paulo. Achou que vivendo em uma grande cidade, talvez sua filha desabrochasse para o mundo. Nada. Foi ficando mais e mais triste e recolhida. Certa vez Justina até recorreu a uma dessas videntes, que falou um monte de bobagens. Nunca mais voltaram lá. Imagina, aquela mulher doida  tinha falado que sua filha estava presa num passado distante e que a angústia dela era pelo fato de viver em dois mundos. Justina não acreditava em nada dessas coisas. Só foi lá depois de ter tentado tudo, até um psicólogo, para sempre ter a mesma resposta: que ela não tinha nenhuma doença aparente. Lá dentro de seu coração, Justina sabia que algo não estava bem.
A mudança de uma metrópole para uma pequena comunidade, pelo menos no começo, estava sendo boa para as duas. A mãe conseguira um trabalho à noite, o que permitia passar boa parte do dia com a filha. Janete continuava a mesma em quase tudo, porém parecia um pouco menos angustiada. A confusão de São Paulo definitivamente não lhe fazia bem. Até mesmo aqueles sonhos constantes que ela tinha, diminuíram. Ela sonhava sempre com casas antigas, ruas antigas, ela e a mãe andando à toa por uma cidade que ela não conhecia. Vestiam roupas estranhas e falavam uma língua também estranha.
Bem quando as esperanças de Justina de ter uma vida quase normal estavam aumentando, houve um acidente doméstico com a Janete. Estava mexendo com uma faca quando fez um corte profundo e longo na palma da mão esquerda. Ainda bem que a Justina estava em casa. Pediu ajuda para um vizinho que tinha carro e foram até o pequeno hospital da cidade. Ela foi atendida imediatamente e colocada numa mesa de cirurgia. Tinham de suturar aquela mão, pois havia risco de hemorragia. Logo depois de lhe aplicarem anestesia, porém, ela entrou em coma profundo. A mãe não sabia que ela era alérgica.
Era outono na Europa e corria o ano de 1376.  Justine já estava caminhando há mais de 9 horas para chegar até os arredores de Besançon. Viviam antes em Paris, mas decidiram mudar-se para lá. Jeannette, sua filha, não se dera bem na cidade grande, estava cada vez mais estranha. A decisão definitiva veio quando uma de suas vizinhas começou a espalhar para todos da vizinhança que Jeannette era uma bruxa. Com medo de retaliação, não tiveram outra opção.
Além disso, Jeannette, que agora já tinha 22 anos, tinha sonhos cada vez mais estranhos. Quando dormia, via objetos que não existiam, e as pessoas falavam uma língua estranha. Na semana passada, sonhara três vezes que tinha cortado sua mão e que a levaram para um lugar grande com luzes fortes. Havia pessoas vestidas de branco, que mexiam em seu corpo. Falavam coisas estranhas, que ela não entendia. Tinham costurado sua mão. O mais esquisito de tudo, porém, era que a levaram numa carroça que andava por si mesma, sem ajuda de animais. Nesses seus sonhos, havia uma mulher que cuidava dela, que a ajudava.
Aí estava mais uma razão para Justine vir para os arredores de Besançon. Havia uma mulher que diziam arrancar esses maus espíritos das pessoas. Era a última esperança de Justine para sua filha Jeannette.

Estavam cansadas e famintas. Felizmente foram atendidas quando pediram comida para alguém que morava na beira da estrada. Sentaram-se à mesa. De repente Jeannette deu grito. O sangue jorrava de sua mão. Havia se cortado com uma faca. Enrolaram sua mão em panos, mas ela já estava ficando branca. Desmaiou. Acordou levemente e começou a falar. Falava em carroças sem cavalos, luzes brancas muito fortes, homens vestidos de branco que costuravam sua mão. E eles falavam uma língua muito estranha...


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Monday, March 30, 2015

Um pássaro azul

Um pássaro azul



O Jenuíno foi o primeiro. Foi ficando esquecido, esquecido, até não se lembrar de mais nada. A gente olhava para ele e ele ficava com aquela cara de interrogação. Não sabia do que a gente estava falando. Seu sorriso era distante, uma vaga impressão de que sabia do que se tratava. Quando o Alberto ficou exatamente do mesmo jeito, e ele era o melhor amigo do Jenuíno, muita gente pensou que era uma coisa que “pegava”. Existe gente que é ignorante, não entende como funcionam essas coisas de bactérias e vírus. Eu também não entendo muito, mas pelo menos sei que loucura não é contagiosa, não dá para pegar. O fato é que o doutor da cidade também descartou essa possibilidade. Disse que o único jeito de descobrir essas coisas era fazendo exames. Coisa sofisticada, em laboratório. Ele já estava providenciando. Essas coisas não podem ser feitas assim, no mais ou menos. Ciência é coisa séria, não é coisa de opinião, muito menos coisa de comadre conversando na rua.
De repente, a coisa pegou fogo. Você pode argumentar o que quiser, mas contra fatos não há argumentos. O doutor Euzébio não conseguiu mandar ninguém para fazer exame na cidade grande. O motivo foi bem simples e ao mesmo tempo assustador. Ele também “pegou” a estranha doença. Coisa de louco, sem querer fazer jogo de palavras com coisa tão séria. Não clinicava mais, só balbuciava umas palavras e tinha aquele mesmo olhar perdido dos outros dois. Agora estava claro. Não só aquilo era coisa que “pegava” como também era coisa do capeta. Imagina só, o próprio doutor. Um homem formado, que sabia das coisas, que conhecia higiene como nenhum outro, pegar uma coisa daquelas. Já pensou quanta cultura ali, desperdiçada?
 O fato é que os moradores começaram a ficar com medo. Tinha gente que fervia água, tinha gente que punha álcool em tudo. Que tolice. Como é que álcool vai impedir uma coisa dessas? Ignorância é uma coisa triste. É verdade que, às vezes, as coisas são tão complexas que até mesmo pessoas inteligentes não conseguem entender. Veja o caso do doutor. Nem ele sabia o que estava acontecendo. A ignorância é também uma coisa relativa. Até o mais sabido de todos pode ser um ignorante. Ele sabe um monte de coisas, porém não sabe outras que estão muito acima dele. O fato é que para entender o que estava acontecendo ali, tinha de ser alguém com uma sabedoria muito grande. Não era qualquer um que podia explicar. Com certeza, não.
A única coisa que se sabia era que aquilo era uma coisa esquisita. Primeiro, dois amigos. Depois o doutor que estava tentando descobrir uma solução. Pode ser coincidência, mas parecia que existia alguém por trás daquilo. Os dias foram passando e os três apareciam de vez em quando na rua, cumprimentavam as pessoas, mas não estavam melhorando. Falavam coisas sem sentido entre eles e com a gente também. Isso à parte, o resto era normal. Comiam, bebiam, andavam pela cidade. Devagarinho a gente foi se acostumando com a ideia. Acho que para isso não acontecer, o ente que estava provocando tudo isso, resolveu dar uma mostra de poder. Em uma só semana, atacou mais cinco. Um parente do doutor, dois tios de sua mulher, um primo do Jenuíno, outro conhecido do Alberto. Tinha lógica e não tinha. Eram parentes ou amigos. No entanto ali na cidade, quase todo mundo acabava sendo parente ou relacionado de alguma forma. Só podia ser doença ou uma coisa sobrenatural. Uns três jovens, todos de certa forma ligados aos “atacados” – como agora eram chamados – resolveram sair da cidade. Nunca se sabe, podia ser mesmo contagioso.
A nossa pequena comunidade era muito isolada do mundo e a gente tinha quase de tudo que precisava por ali. Talvez tenha sido esse o motivo pelo qual ninguém decidiu procurar ajuda, ver o que estava acontecendo. Eu tenho cá para mim que o verdadeiro motivo era o medo. Medo de descobrir o que realmente era. Se fosse uma doença curável, tudo bem A gente fazia o que tinha de fazer. E se não fosse? De repente era uma coisa do mal, e a gente ia ficar numa situação comprometedora. Com essas coisas não se brinca. Do jeito que estava, não estava bom, mas mexer naquilo podia ficar pior. Ninguém falava as coisas claramente, mas dava para saber o que todo mundo estava pensando. Como disse, não era nada bom, entretanto era melhor assim do que ficar pior.
Eles não atrapalhavam ninguém, a gente foi se acostumado de novo e cada vez mais, as coisas foram andando. Todo mundo sabia que não ia ficar por aí. Tem coisa que não tem uma lógica visível, mas dá para saber que é o óbvio. Mais algumas semanas se passaram e mais algumas pessoas ficaram “atacadas”. Depois de alguns meses eram centenas, as pessoas nem avisavam mais. A cidade era pequena, tinha pouco mais de mil habitantes e chegou-se a um ponto onde havia mais “atacados” do que gente normal. Tirando o caso do doutor que tinha uma função muito complexa, os outros todos continuavam a cumprir suas funções sem muitos problemas. Faziam as coisas mecanicamente, como autômatos. Entretanto, a gente sabia que eles não estavam pensando, que seus cérebros não funcionavam.
Éramos agora bem poucos, os “sadios”. E a “coisa” parou por um tempo. Achamos até que tudo tinha acabado. Aí outra coisa esquisita começou a acontecer. Uns pássaros grandes, do tamanho de urubus, começaram a descer na cidade. Mas não eram pretos, não. Eram de um azul escuro, muito bonito. Também não eram agressivos. Ficavam por ali, andando ao invés de voar. Vez ou outra eles voavam um pouco, mas voltavam. Havia centenas. Ninguém podia dizer do que se alimentavam. Ficavam bem à vontade, não pareciam ter medo da gente. Às vezes pousavam sobre nossos ombros, bem amigáveis. Vá se entender. Se não fosse o problema que a gente já tinha, ia ser uma confusão danada. Mas o que era aquilo perto do que nós estávamos passando?

Finalmente todos ficaram “atacados”. A gente sabia que isso ia acabar acontecendo. Eu fui o último. Agora, aqui de cima, posso ver meu corpo, lá embaixo, andando pela cidade, fazendo as coisas que precisam ser feitas. Assim, sem saber o que está acontecendo. Mas sou eu mesmo que decido para onde meu corpo vai, o que vai fazer, o que vai comer. Não estou falando de meu corpo de pássaro. Estou falando do meu corpo de gente. Só não consigo falar, e estou me esquecendo de quase tudo. Mas agora, pelo menos, as coisas fazem sentido. Eu sou um belo pássaro azul, consigo controlar meu corpo. Só não dá para a gente conversar com os outros pássaros, quero dizer, com os outros habitantes da cidade. Mas a gente se entende. Voa um pouquinho, pousa lá na rua. A gente se vê por aí. Eu sou um belo pássaro azul. Bonito mesmo. Como disse, as coisas agora se encaixam. Claro, não têm explicação, a causa nós não sabemos. Mas quem sabe a causa de alguma coisa? A gente não sabe de nada, ninguém sabe como tudo começou. Claro, estou falando agora do mundo, do Universo. Como as coisas apareceram? Quem sabe? Nós não sabemos nada. Pelo menos, eu sei agora, que eu sou um pássaro azul. Bonito. Quando quero, posso voltar para o chão. Quando quero, posso voar. Isso é mais do que suficiente. Para que eu iria querer saber mais? Não precisa. Ser um pássaro, e ainda mais azul, é para mim, mais do que suficiente, pelo menos por enquanto...


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Sunday, March 29, 2015

Deus nos livre dos loucos de hoje em dia


Deus nos livre dos loucos de hoje em dia

Meus olhos infantis não entendiam aquele homem e seus gestos estranhos. Olhava com aquele olhar perdido para algum ponto que só ele via. Mexia lentamente com os dedos, como se eles fossem as asas de um pássaro e murmurava em tom de confidência: pomba branca, pomba branca. Tinha um sorriso infantil, inocente.
Isso é tudo que me lembro dele, do meu tio. Ele tinha uma doença mental e minha santa mãe cuidava dele, porque ele era irmão de meu pai e ela sentia que era seu dever. Se não fosse, ela cuidaria do mesmo jeito.
Para mim, isso era loucura: olhar um olhar vago, mexer os dedos e imaginar uma pomba branca. E é por isso que não entendo os loucos de hoje em dia. Desvairados, armados, matam dezenas de pessoas em atos de fúria. Enchem-se bombas e explodem, matando-se e matando os inocentes que passam. E há uma grande variedade deles. Um verdadeiro circo de horrores.
Este último, então, vindo diretamente da Europa, símbolo da civilização, foi demais. Arremeteu o avião em direção às duras rochas das montanhas, matando 150 passageiros. Estávamos comentando entre amigos que ele é o que se chama de suicida-homicida. Falando assim, parece até que há um certo equilíbrio. O problema é que ele é 150 vezes homicida e somente uma vez suicida. Matemática macabra.

O que aconteceu com aqueles louquinhos simpáticos que não prejudicavam ninguém? Acho que não existem mais. Tudo muda. Estamos num mundo doido de verdade. Deus nos livre dos loucos de hoje em dia.

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Friday, March 27, 2015

O Rei Ricardo III está aguardando no estacionamento




O Rei Ricardo III está aguardando no estacionamento

O mundo mudou. Há poucos reis agora e alguns nem mandam mais, só são figurativos. Outros são reis de quase nada. Reinados de pequenos domínios, muitas vezes menores que algumas cidades do interior. Mas antes não era assim. Rei era algo muito, muito especial. Sem querer abusar das palavras, era real, “majestoso”. Se fosse da Inglaterra, então, bota majestade aí. Esses monarcas tinham realmente jeitão para o que faziam. Promoviam guerras, lutavam, mandavam, executavam, enfim, reinavam. Só agora eu entendo porque minha mãe me falava, quando pequeno, “para não ficar reinando”. Houve um que até ousou enfrentar o papa porque ele não autorizou seu divórcio. Não teve dúvida, fez uma outra religião. Ele mesmo, o Henrique VIII. Havia tanto jeito para ele resolver o problema sem falar com o pontífice mas ele não quis saber. O rei de Portugal poderia simplesmente explicar para ele o que era o “jeitinho”, pois, afinal de contas, foi ele que explicou para nós. Mas rei que é rei, usa sua majestade. Mas o dito cujo de quem quero falar agora é o Ricardo III. Valente, lutou para defender sua coroa contra usurpadores. Ficou todo machucado, dizem até que ficou corcunda. Não deu sorte e acabou perdendo. Aí, você sabe, inventaram um monte de mentiras a seu respeito, sabe como é quando você é o derrotado... Posso garantir, entretanto, que ele era um verdadeiro nobre. Mas como você sabe, “rei morto, rei posto”, acho que é assim... Ele morreu em combate e foi enterrado em uma igreja. Esqueceram dele pois a nova linha de monarcas não tinha interesse nenhum em preservar sua memória. Tanto esqueceram, que um dia demoliram a igreja em que estava enterrado e nem se lembraram de exumar seu corpo. Eu acho isto um desrespeito, mas como a gente não pode se meter com essa gente, o que vai se fazer? E lá ficou o Ricardo III, enterrado, sem ninguém saber, debaixo do antigo piso. Naquela época não havia automóvel, afinal de contas são mais de 500 anos, mas séculos depois, fizeram lá um estacionamento. E é por isso que eu disse que o rei está aguardando no estacionamento. Claro que ele não está lá estacionado, está apenas parado, esperando. Quer dizer, estava. Agora, finalmente o descobriram. Ainda tem as costas tortas, coisa que a morte não curou. Tem também uns ossos machucados e tudo mais. Isso prova que ele lutou e foi um herói. Mesmo assim alguém poderia dizer que é tudo fabricação, estão querendo reviver o rei, que aquilo é simplesmente um cadáver plebeu.  Você sabe que inglês não faz coisa a olho, nem coisa para a gente ver, embora o contrário seja verdadeiro, e por isso eles fizeram um exame de DNA. Compararam com um descendente distante e lá estava: comprovado, cientificamente, que o rei era o rei. Embora estacionado, quero dizer, enterrado, não perdeu a majestade. Quem diria, hein, Ricardo – desculpe a intimidade – tanto séculos depois. Estão vendo como as coisas mudam? Eu garanto que se alguém, no seu reinado, ousasse falar que um dia existiria o DNA e daria para finalmente identificar Vossa Majestade mesmo sem RG ou passaporte, você seria capaz de condená-lo de heresia e mandá-lo para a fogueira.

Tudo bem, eu entendo seu ponto de vista. Se alguém me disser que daqui a 500 anos vai ser possível viajar no tempo, eu também não vou acreditar!

A Notícia

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Thursday, March 26, 2015

Um dia infinito, um dia sem fim


Parabéns, Graziela!
Que seus dias sejam sempre tão altos, como seus voos!
Que sejam dias como esse que o cronista inventou:
um dia maravilhoso, um dia sem fim!


Um dia infinito, um dia sem fim

Eu queria, sim, que este dia não tivesse mais fim. Que ele, com as coisas boas e as más, que todos dias têm, ficasse, assim, parado, imóvel, no tempo. Daí, pouco a pouco, eu iria, sem pressa, consertando tudo. Tudo colocando no lugar. Em primeiro lugar, o coração. Separar, e ao mesmo tempo juntar, amor e amizade. Que a amizade é o amor sem sexo e é bom que seja assim. Que, por outro lado, a amada tenha tudo, o carinho e o amor também. Queria também dizer para as pessoas admiráveis, que eu as admiro demais e é por isso que as chamo assim. Diria para os heróis, quão importantes eles são, para mim e para todos nós. Nesse dia, nesse que não vai mais ter fim, eu tentaria aprender tudo que precisava ter aprendido e não aprendi: tanta coisa, meu Deus! Como é um dia infinito, vou usar para entender a ciência dos homens e a de Deus. Simplificar a divina sabedoria, para que possa aprendê-la, desmistificá-la. A sabedoria dos homens, dela eu tiraria a arrogância, para ver o que ela tem que me possa ajudar. Nesse imortal e ilimitado dia, vou começar, devagar, a entender o mistério do Universo. Por que tão imenso, se tão pequenos somos? Só para ficarmos, bestas, à noite, olhando para cima e assim ter certeza que nada somos?
Nessas tresloucadas 24 horas vou me embebedar. Do azul do céu, da escuridão da noite, do brilho da luz. Vou procurar respostas para o que não tem resposta. Vou fazer perguntas impossíveis para, quem sabe, o destino se cansar do meu indagar e me responder. Vou perguntar, por exemplo, por que nos fizeram tão limitados, se tão ilimitado é tudo mais?
Alguém talvez possa me perguntar se, em determinado ponto, não vou me cansar. Daí vou responder, claro que não. É apenas um dia, embora seja um dia que nunca mais vai terminar. E também, quem pode se cansar de amar? Pois é isso que vou estar fazendo. Além de amar minha amada, vou estar amando este Universo sem fim. Além disso, de amar um amor forte, intenso, vou estar procurando. Pois é isso que todo ser faz: nasce perguntando, assim continua e assim vai morrer. Isso é o que somos. Perguntadores, aventureiros, navegantes insaciáveis, explorando o sentido da vida.

Desconfio, porém, que o Infinito, por infinito ser, nunca vai responder. Se respondesse, não seria mais o que ele é. Seria uma resposta e nada mais. E, então, a magia do meu interminável dia, iria ter um fim. Junto, iria morrer o amor meu pela minha amada e dela por mim. E, sem amor, não se consegue viver. Nem por um só instante, nem por algumas horas... Imagine, então por um dia inteiro e, ainda mais, se esse for o dia infinito, sem fim, que eu criei só para mim...

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Wednesday, March 25, 2015

O menino que fazia filmes

O menino que fazia filmes
Para minha querida nora, Mirella, 
mãe de minha linda neta 
e que também "sabe fazer filmes"...


“Agora eu era o herói
E o meu cavalo só falava inglês
A noiva do cowboy
Era você além das outras três...”
(João e Maria: Chico Buarque)

Veja o vídeo




Estávamos no final dos anos 50, quase chegando aos gloriosos 60. O nosso personagem era apenas uma criança e nem 10 anos tinha. Fazia sua lição de casa, algumas tarefas que sua mãe lhe passava, e depois perambulava pelo bairro, nunca muito longe de sua casa. E naquela época nem havia muito motivo para se preocupar, pois tudo era mais seguro. Mas você sabe como são as mães: nunca o filhote pode ir muito longe de casa.
Havia, porém, um lugar especial que o menino sempre visitava. Era o cinema do bairro. Se você não viveu nessa época, eu preciso explicar como funcionavam esses lugares. Era tudo diferente. O velho cinema tinha poltronas de madeira – pelo menos o da nossa história, que se passa em Perus, São Paulo - e você sabe, as “fitas” eram realmente fitas e quebravam de vez em quando. Daí todos ficavam vaiando enquanto o pobre operador não conseguia emendar a dita cuja de volta. Espera angustiante. Também, quem mandava quebrar bem na hora do perigo? Bem na hora que o mocinho ia levar um tiro ou um soco? Talvez fosse isso mesmo, para dar tempo de avisar nosso herói. Naquele tempo não tinha essa história de torcer para o bandido, como certas pessoas que conheço, fazem hoje em dia. Não. Todos, sem exceção, torciam para o mocinho. E não é que o danado sempre levava a melhor! Uma vez houve um herói, num dos seriados, que estava preso numa esteira e essa se movia em direção a uma serra circular. Sua cabeça pendia para fora, bem na direção dos dentes cortantes da lâmina. Claro, o vilão havia feito isso. Bem quando chegou a hora de seu pescoço encostar na serra, o filme parou. Não, não tinha quebrado a fita. Tinha terminado a sequência e era preciso esperar uma semana inteira para saber como ele iria se livrar do perigo. Naquela época não havia seriados de TV, eles aconteciam no cinema do bairro. O menino não se lembra mais qual era o herói, talvez fosse o Flash Gordon. Não importa, o garoto, agora homem crescido, se lembra muito bem que ele se safou. Vamos voltar agora à fita quebrada.
O desastre era sempre antecedido por uma espécie de buraco que se formava na grande tela branca. Como se ela estivesse queimando ou algo assim. O som parava e ouvia-se um ruído característico da película se debatendo nos carretéis do grande projetor. O operador, então, se apressava em cortar as duas pontas para tirar as irregularidades e emendá-las novamente. Um suspiro coletivo de alívio da plateia e lá estávamos de novo em ação. Uma coisa banal, corriqueira, que acontecia várias vezes nas matinês.
Para o menino de nossa história, no entanto, isso era o motivo de algo muito importante que aconteceu na sua meninice e que influenciou toda sua vida. Os pedacinhos do filme que eram cortados, iam para um latão ao lado do prédio. E foi aí que o menino de nossa história descobriu esses “quadrinhos” de filmes. Dá para acreditar que jogavam fora essas preciosidades?
Nosso personagem morava numa casa bem simples mas cheia de salas, lá em cima, no morro. Numa delas havia uma cristaleira. Dentro dela, taças, doceiras, copos antigos, transparentes, desenhados, coloridos: azul, verde, vermelho. A janela tinha duas folhas de madeira, que ao se fecharem, deixavam, talvez por causa de um pequeno defeito de ajuste, uma fresta minúscula. E, por essa, passava um raio de luz. Não um raio de luz qualquer. Ele durava não muito tempo e acontecia numa hora certa, numa hora divina em que o sistema solar se ajustava de tal maneira, geometricamente, num ângulo certo para permitir o fenômeno. Daí então, o menino, sozinho, tinha a sala de projeção mais bonita do planeta. A grande sessão começava com as diversas peças de vidro se movendo, através das mãos infantis, ao longo do raio de luz. Essa, graciosa e, ao mesmo tempo, poderosa, deslumbrante, se multiplicava em formas e cores mil e se espalhava e se espelhava nas paredes brancas da sala. Era um milagre. A luz reverberava, implodia, explodia, resplandecia. Então vinha a segunda parte. Os pequenos pedaços de filmes, que, com cuidado haviam sido recolhidos anteriormente, eram colocados sob a luz. E então o menino via as cenas dos filmes antigos, coloridos ou não. Um rosto, um carro, uma rua, um acontecimento. Inicialmente não se mexiam pois eram apenas um quadro. Mas, de repente, como uma mágica, a imaginação do garoto dava movimento e força para os quadrinhos. As cenas se desenrolavam, os automóveis andavam, os mocinhos e as mocinhas sorriam e cantavam e corriam. E se o bandido viesse para atrapalhar, num dos pedacinhos de fita, coitado dele. Era sumariamente destruído.
O raio de luz finalmente começava a desvanecer. Era o momento do “grand finale”. Os personagens iam se retirando... Voltavam cuidadosamente para a caixa de papelão. Os cristais, solenes, então retornavam para finalizar o evento com um espetáculo de luz. O menino – diretor de cinema – comandava com maestria o show. As luzes se distorciam em curvas, retas, círculos e nuances, juntavam-se novamente e explodiam, mais uma vez, em novos formatos... Até que a composição cósmica dos planetas se desfazia e a luz se esvaía... As peças de vidro voltavam em formação para seus postos na cristaleira da mãe... A escuridão voltava e o menino também, para sua vida normal.

Mas o colorido vibrante, multifacetado e os enredos e histórias daquela “sessão de cinema” continuam até hoje dissipando as nuvens e sombras da mente de adulto daquele que um dia foi um menino... o menino que fazia filmes...


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Tuesday, March 24, 2015

Consertando o mundo

Consertando o mundo



Na favela corre a cocaína, adultos morrem, crianças ficam viciadas. Na cidade  há falta de heróis e heroínas. A única heroína é a droga.
A morte espreita na rua deserta,  mas na igreja, a cura é quase certa. Uns se inebriam de fé, outros têm fé em outras coisas. Alguns cobram da fé e outros cobram de quem tem fé.
No barraco chora uma criança com fome, na mansão se sofre de outra coisa.
Nas transações, o dinheiro some, aparece em outro lugar.
Em todo lugar falta o amor, em todo lugar sobra a dor. Que ironia dor rimar com amor. Com certeza é uma rima imperfeita.
Há outras tantas coisas mas não consigo revelar.
Está tudo tão torto, tão desfeito, mas há pouco que fazer.

Dentro das pessoas de bem, entretanto, uma vontade enorme de consertar o mundo...



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Paralelo 38 e outras histórias
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Sunday, March 22, 2015

Nós precisamos dos corvos



Nós precisamos dos corvos

A pequena cidade de Córregos Claros vivia feliz, mas ultimamente estava tendo problemas com os corvos. Eles vinham em grande quantidade e devoravam qualquer sinal de carniça que aparecesse, com uma ferocidade sem igual.
Talvez houvesse muitos animais, principalmente pequenos, que estivessem morrendo de alguma doença e era por isso que estavam vindo aos borbotões. Entretanto, ninguém pensou nessa possibilidade, todos estavam furiosos com os abutres. Bichos feios, escuros,nojentos. O prefeito, daqueles que é amigo de todo mundo, claro que estava a par do assunto. Poderia ter chamado alguém da Secretaria de Saúde ou ter chamado algum veterinário para esclarecer o assunto, mas achou que não havia necessidade. Ele era a lei, a autoridade. Convocou todo mundo para uma reunião lá no salão paroquial, único lugar que podia acomodar bastante gente.
Falou com eloquência, embora com muitos erros gramaticais, mas isso ninguém percebeu. O importante era resolver o problema, acabar com aquela raça maldita, que estava escurecendo os céus da linda cidade. Pediu para todo mundo tirar as espingardas do baú. Outras armas poderiam ser usadas também, a autoridade iria olhar de lado no caso de armas não registradas. Era um caso de calamidade. Formariam uma espécie de “exército de libertação” de Córregos Claros.
E assim foi. Em poucos dias as pobres aves foram dizimadas. Entraram até nos bosques ao redor da cidade para ver se ainda havia sobreviventes. Alguns se preocupavam em enterrar os corpos, mas muitos achavam que era até bom deixá-los ali expostos. Seria uma advertência ou então uma isca para os malignos ou  incautos que viessem se alimentar de seus próprios irmãos. Alguém esclareceu que aquilo era besteira, que corvo não come carne de corvo. Eles se respeitam. Enfim...
Passaram-se alguns dias e começou um terrível  mau cheiro. Além dos cadáveres dos abutres, ainda havia os dos animaizinhos, de diversas espécies, que continuaram morrendo. A coisa ficou insustentável, pois, além de tudo, as pessoas começaram a ficar doentes também.
O professor de Biologia da escola explicou, num artigo do pequeno jornal local, que, na verdade, os corvos eram importantíssimos para a saúde pública, pois ao devorarem os restos animais em putrefação, estavam nos livrando das bactérias e, consequentemente, das doenças.
O prefeito ficou uma fúria. Nova reunião, salão paroquial. O professor foi chamado de subversivo, anarquista, agitador. Ele se lembrava dessas palavras da época da ditadura, mas muita gente nem tinha ideia do que ele estava falando. Falou que iria pedir a sua transferência da cidade. Tinha amigos na Secretaria da Educação e tudo mais. Não precisou, pois o professor mesmo se transferiu. Muitos pensaram que foi por causa do prefeito, mas não foi não. Ele estava com medo era de pegar alguma doença.
Na mesma reunião, o prefeito sabiamente explicou que  os corvos eram inteligentes, e certamente só estavam vindo à noite, porque, sendo escuros como o capeta, ninguém os veria. E no meio das trevas espalhavam as doenças. Precisavam iniciar as patrulhas noturnas. Os grupos se reorganizaram.
No final muita gente acabou morrendo e a administração do prefeito um dia  acabou. Veio gente da Saúde, fez uma desinfecção geral, mas as coisas só ficaram em ordem depois que os corvos voltaram. Eles comiam, diligentemente, qualquer ameaça de formação de bactéria.
Muita coisa pode se deduzir dessa história. Muita mesmo. Mas existe gente lá, na pequena cidade, que nunca vai entender. Assim, vamos resumir da seguinte forma:
“Nós precisamos dos corvos.”


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Saturday, March 21, 2015

O depósito da Antárctica

O depósito da Antárctica


Foi um de meus primeiros empregos. Eu me sentia muito importante. Além do mais, uma moleza, era pertinho de casa. Eu fazia os “mapas” de entrada e saída de bebidas do depósito da Antárctica. Caixas de Pilsen Extra, caixas de Malzbier, de Guaraná, de Soda Limonada e até de Club Soda. Só mais tarde eu aprendi para que esta última servia.
Era uma folha enorme, pegava a mesa inteira. Chegava o caminhão da fábrica, eu registrava as caixas, saíam os caminhões para os bares e vendas, eu registrava a saída. Tudo no lápis e na borracha. A soma das colunas de saída e entrada era na calculadora. Era daquelas antigas, mecânicas, com uma manivelinha do lado. Quando alguém a estava usando, ia no lápis e papel mesmo, e era aí que eu me tornava realmente importante. Excel e outros programas, nem nas excelentes cabeças dos autores de ficção científica. Computadores? Nem aqueles de  cartões perfurados. Bons tempos, hein? Quer dizer, em alguns aspectos, sim. Era ou não uma coisa essencial  o que eu fazia? O meu patrão e dono do negócio era o “seu” Garcia. Havia vários motoristas, um deles era o Idabir, dele eu me lembro.
Nessa época, tive minha primeira lição de “marketing”. Para ter direito ao “Guaraná Antárctica”, o comerciante precisava comprar as cervejas. Represália contra a concorrente que só vendia a sua famosa cerveja se o estabelecimento também comprasse o não tão famoso Guaraná da Brahma. Não havia moleza e o “seu” Garcia não estava lá para brincar, não. Eu era muito novo ainda e nem sei se fazia meus mapas direito. Por outro lado, desconfio que ele tinha tudo na cabeça, caixa por caixa. Mais tarde, o depósito foi para um lugar muito maior.
Para vir trabalhar era fácil. Andava um pouco pela Dona Rosina, rua da minha casa, lá em cima, e depois”rolava” morro abaixo até chegar na “Fiorelli Peccicacco”. Na verdade eu vinha quase “caindo”, tão íngreme era o percurso. A ladeira, na época, era uma mistura de pequenas escadas, rampas e curvas. Quando chovia, virava um pequeno rio, cheio de buracos. O duro mesmo era subir de volta. Mas que encurtava o caminho, encurtava. Se viesse pelo Morro do Cartório e pela Praça, era quatro vezes mais longe. Até olhei no Google Mapas, nem sequer nome para a ladeira puseram lá.
Minha “carreira”, como “mapista da Antárctica”, foi curta, mas foi muito boa, nunca esqueci. Muito tempo passou e vejam só o que aconteceu: a Antárctica e a Brahma acabaram ficando  juntinhas, “de mãos dadas”. Uma pena que nem tudo é assim. Muita gente e muitas coisas acabaram de distanciando para sempre, como essas mesmas lembranças que acabo de narrar. É a vida, não é?


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A crônica acima não faz parte do livro abaixo

Essa vida da gente

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Thursday, March 19, 2015

A Dona Aninha

A Dona Aninha



Da minha casa, eu e meu irmão do meio, tínhamos bronquite. Não sei se a culpa era do tal do DNA ou se era o pó do cimento. Dava um aperto no peito, ficava tudo fechado, a gente não conseguia respirar. E o chiado? Todo mundo achava que havia um monte de gatos lá dentro. Era duro, um sofrimento. Naquela época ainda não havia aquelas “bombinhas” miraculosas, que abriam os pulmões na hora. Ou, pelo menos, nós não tínhamos acesso a elas.
O meu irmão, coitado, ficava pior do que eu. Acho que, às vezes, ele ficava até roxo. Dava um medão na gente, pois aquilo era um mistério, não dava para entender. Às vezes, quando a situação ficava muito grave, alguém levava a gente até a enfermaria da Fábrica de Cimento.
Entretanto, na maioria das vezes, a gente tinha socorro ali perto mesmo, umas duas ruas para trás. A Dona Aninha. Era um milagre.  Era só chegar, ela já estava lá, fervendo as agulhas e as seringas numa latinha de alumínio. Aquela injeção era tão boa que a gente nem ligava para a agulhada. Vinha aquele cheiro gostoso de eucalipto na boca e depois, como  num milagre, tudo se abria. Entrava aquele monte de ar para dentro, como se fosse um tufão. Eu não sei onde ela aprendeu a dar injeção, nem como. Para nós, entretanto, ela era a melhor e maior especialista em vias respiratórias e pronto!
Às vezes, meu irmão ficava tão atacado, que nem conseguia andar. O outro meu irmão, ou meu pai, então, colocava o paciente num carrinho de madeira, daqueles de uma roda só na frente, e ele era “transportado” até a casa da Dona Aninha. Tudo mudou. Quem leva, agora, um doente num carrinho de madeira?
A imagem, entretanto, fica sendo projetada, vez ou outra, na minha cabeça. Existem coisas que a gente nunca esquece...


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