Friday, May 25, 2012

A República dos Prazeres


A República dos Prazeres
autor: Flávio Cruz
Era uma vez uma república. Muito grande, muito rica, fabulosa. Trabalhava-se muito, ganhava-se muito e comia-se bem e bastante. Ah, sim, comida era algo muito especial. Como ninguém tinha tempo de prepará-la pois precisavam ganhar dinheiro, modernas fábricas se encarregavam disso. Elas faziam alimentos saborosos. Uma delícia. Especiarias crocantes, apimentadas e salgadas. Os doces então, não dá nem para descrever. O que não se economizava era o açúcar. Era tudo muito doce e isso era necessário porque antes o salgado e o crocante já tinham atiçado o paladar. Muito importante igualmente era o o óleo. Tudo precisava ser muito bem frito e ter aquele colesterol gostoso e indispensável. Outra coisa muito interessante era que eles colocavam sal nos alimentos doces para contrabalançar um pouco – era muito doce – e colocavam açúcar nos alimentos salgados, também para contrabalançar. Eram uns gênios em termos de culinária industrial.
Havia no entanto um pessoal chato e desmancha-prazeres. Inventaram uma história ridícula de que essas coisas não eram boas para a saúde e que até as crianças estavam ficando gordas. Conversa fiada.Todo mundo estava feliz, por que se preocupar? Existe gente que consegue ver problema em tudo. Esse pessoal que estava reclamando era muito chato e não parava. Eles eram iguais aos comunistas e subversivos. Estão sempre querendo mudar a ordem vigente. O pessoal não estava dando muita bola para eles. Se gostavam de falar, que falassem. O problema é que eles eram muito insistentes. Começaram a fazer estísticas. Pior que isso, ficavam falando das mesmas para todo mundo: nos jornais, na televisão. Alguns abusados escreveram até livros. Tem gente que não pode ver felicidade dos outros que quer estragar. Que mal pode haver no doce, no salgado, no azeite?  Afinal de contas, tudo vem da natureza.
Alguns mais chatos que os outros, começaram a fazer umas contas esquisitas. Que muita gente  estava com diabetes (imagina culpavam o coitado do açúcar!) e com pressão alta (imagina que falavam que era por causa do sal).Chegaram ao absurdo de dizer que tinha gente com problemas no coracão por causa do colesterol! Tudo isso dava para aguentar, mas quando falaram que, no final das contas isto poderia custar mais dinheiro no setor de saúde e que este dinheiro teria que ser conseguido através de mais impostos, então a coisa ficou feia.

A República, entretanto, tinha grandes cabeças e grandes estrategistas. Imediatamente explicaram o mal entendido, não havia necessidade de se apavorar. Pelo contrário, a ordem era só regogizar. Tudo muito óbvio e muito simples. Se era verdade que mais pessoas precisavam ir ao hospitais, verdade era também que estavam tomando mais remédios. Muitos remédios: comprimidos, injeções, soluções. E não era só isso. Havia mais consultas, mais receitas, mais médicos, mais enfermeiras, mais hospitais e o grande argumento: mais empregos!  Era impossível não se ver o benefício geral para a República. Ah, estava esquecendo, claro que haveria mais impostos também. Não estou nem mencionando  a questão da propaganda. Quanto dinheiro girava em anúncios! Pessoas felizes nas telas saboreando coisas crocantes, doces, salgadas, picantes e até geladas! Pessoas curadas por remédios fantásticos dando testemunhos na telinha. Propagandas de doutores e hospitais! De novo, mais anúncios e mais empregos para gente importante que sabe “bolar” um anúncio e para gente não tão importante que iria colar os anúncios nos “outdoors”. Só um idiota completo não conseguiria ver a quantidade enorme de benefícios para toda a nação! Existe gente que se perde em detalhes e não consegue ver o “todo”.
Há cidadãos que nunca estão felizes e por isso alguns ainda insistiram. Falaram com os representantes do povo e pediram  para eles intervirem e pararem com aquela loucura. Precisava haver controle, regulamentação, algo precisava ser feito antes que toda a nação ficasse doente.  Estavam diante da inevitabilidade de um país de obesos, hipertensos, circulando em cadeiras de rodas e outros aparelhos especiais. Que besteira! Além do mais, se isso fosse verdade, já pensaram na tecnologia a ser desenvolvida para esses veículos, as fábricas, os empregos?  Mal podia se antever toda a gama de oportunidades para todos.  Isso sem contar o conforto com que as pessoas poderiam circular daqui para a frente.
Voltando aos representantes do povo, a maioria não ligou mas alguns resolveram discutir o assunto. Mas não tinha jeito. Aquele povo todo que fabricava alimento mandou um verdadeiro exército – tudo dentro da lei – para provar o erro dos subversivos, como eles não entendiam de economia, como eles iriam acabar com a  República, dificultando negócios, transacões e eliminado empregos com aquele debate desnecessário sobre  alimentação saudável.
A discussão era tanta e tamanha era a confusão que muitos advogados eram necessários. Com tantos advogados, eram precisos também mais anúncios para que eles pudessem explicar que eles eram melhores do que os outros e que iriam ganhar a discussão para você, desde que você pagasse as custas e os honorários necessários para se ganhar um argumento. Mais anúncio, mais gente fazendo anúncios…mais tudo.
Alguns representantes, muito poucos, estavam firmes na questão de preservar a saúde pública e prometeram fazer algo. Foi aí que aconteceu uma tragédia ainda maior e que não tinha nada  a ver com os doces e salgados. Aquele pessoal que cuidava do dinheiro das indústrias e do povo em geral, ousou mais do que era permitido ousar, aventurou-se mais do que era sábio aventurar. Uma catástrofe, perdeu-se muito dinheiro e, pior que isso, muito emprego. Todo mundo ficou mudo. Até pararam um pouco de falar do doce e do salgado. Agora só se falava de dinheiro e emprego.
Claro que o fato de não se falar sobre o fato não impede que  continue aumentando a quantidade de gente em cadeiras de rodas, gente nos hospitais, gente andando de ambulância…Mas acho que não há problema, pois isso vai gerar mais emprego, mais negócios, etc…e a República vai continuar a crescer, se divertir e ser feliz! Viva a República!
P.S.: Esta é uma história absurda, sem fundamento na realidade, pura obra de ficção, e qualquer semelhança com pessoas e fatos reais é pura e incrível coincidência!



Sunday, May 20, 2012


Corpus Christi
 “Viste, Senhor, a injustiça que sofri;
 julga tu a minha causa.”
Lamentações de Jeremias 3:59


Carlos DeLuna foi executado em 1989  pelo assassinato de Wanda Lopez.  A vítima sentiu o perigo, chamou a polícia, que não veio e, provavelmente por isso, foi esfaqueada até a morte.  Pelo menos a justiça foi feita, vão dizer os defensores da pena de morte. Errado. Executaram o outro Carlos. O que matou Wanda foi Carlos Hernandez, conforme relatório do professor James Liebman e seus cinco alunos da “Columbia Law School”. Segundo o  mesmo relatório, erros grosseiros foram cometidos durante a investigação e o julgamento , culminando com a execução.  A acusação foi baseada  numa só testemunha, que viu um “hispano” correndo do posto de gasolina onde a vítima tinha sido assassinada. Carlos DeLuna estava usando uma  camisa branca enquanto Carlos Hernandez  usava uma camisa cinza e tinha bigode. Mais ainda (a idiotice e incompetência não têm limites, acreditem!), Hernandez  matou uma outra mulher, mais tarde, com a mesma faca, admitiu que foi ele que havia matado Wanda também e ainda assim DeLuna foi executado. Nesses seis anos entre o crime e a execução, apesar de todas as evidências, o caso nunca foi revisto. Ironicamente o absurdo todo aconteceu na cidade de Corpus Christi, no Texas, é claro. DeLuna não era um anjo. Estava na condicional e naquele dia havia bebido , razão pela qual fugiu quando a polícia se aproximou. Nem de longe, entretanto, era um assassino.  Às vezes as autoridades, por arrogância ou simplesmente para não admitir um erro, fazem barbaridades como esta, matando um inocente. Podemos tentar viver com a incompetência e até com a arrogância de certos indivíduos, mas não quando elas resultam em tamanha injustiça. Puxa, Corpus Christi – Corpo de Cristo – que lugar foram escolher para levar a cabo esta calamidade. Não vou dizer a maior, porque convenhamos, a concorrência é grande.  Mas voltando ao nome da cidade, não consigo assimilar a ideia: Corpus Christi! Bem que poderiam ter escolhido outra cidade…


Tuesday, May 15, 2012


A Maratona de Ryan

Ryan Adams era um senhor respeitável, educado e extremamente saudável, principalmente se considerarmos que estava com 73. Poderia ter se aposentado há mais de 15 anos atrás, mas preferiu continuar trabalhando. “Fazer o que em casa?”, perguntava.
Sam era relativamente jovem, tinha apenas 32. Bom sujeito, extrovertido, brincava com todos. Tinha um pequeno defeito, porém. Estava sempre fazendo observações sobre os colegas e sempre na frente de todos. Não eram maldosas mas às vezes incomodavam um pouco. Era um grande hotel e havia muitos funcionários. Ora Sam fazia uma brincadeira sobre a gravata do recepcionista, outras vezes sobre a maneira como o rapaz do estacionamento corria para pegar o carro do hóspede ou ainda sobre o novo penteado da moça da limpeza. Como disse, nada pesado, mas não deixava passar nada. Tinha sempre uma observação. Às vezes vinha disfarçada em forma de elogio, as vezes não tinha disfarce nenhum. Apesar da diferença de idade, Sam não perdoava nem o Ryan. Sempre alguma coisa a respeito da idade, da aposentadoria ou algo assim. Com o Ryan, Sam disfarçava bem, sempre vinha em forma de elogio. Ryan, no entanto, era experiente, já tinha vivido muito e certamente sabia ler nas entrelinhas. Não só isso, sabia ler antes e depois da linha. Sábio que era, nunca retrucava, embora tivesse pelo menos três ou quarto respostas que aniquilariam a piada do colega de trabalho. Mas fazer isto não era seu tipo e por isso apenas dava um pequeno sorriso, educado, mas que para um bom leitor de expressões faciais, significava muita coisa.
Um dia houve uma maratona organizada pela empresa que administrava o hotel. Qualquer um podia participar: hóspedes, funcionários, qualquer atleta que viesse de qualquer lugar. Chega o dia esperado e Sam, que também gostava de se exibir, resolveu participar da mesma. É dada a partida e Sam começa com tudo. Antes de completar o primeiro quilômetro, entretanto, começa a fraquejar, o coração parece que vai explodir e, sábia e dissimuladamente abandona a corrida.  Espera, claro, que nenhum colega tenha visto pois não tinha vontade de ouvir uma “gracinha” igual às que ele mesmo fazia. Encontra uma área de descanso onde pode sentar-se e tomar um refrigerante. Precisa passar um bom tempo lá para que nenhum colega seu perceba o fiasco.
Depois de mais de duas horas e meia, tempo que Sam precisou “matar”, começam a chegar os primeiros maratonistas, aqueles com os melhores tempos. Muita conversa e animação, pessoas se cumprimentando, se abraçando. De repente, para surpresa de Sam, entra o Ryan, todo lépido, de tênis e tudo mais. Senta-se e pede uma água gelada. Será que ele correu? 73 anos? Não pode ser…Ele é um velhinho.  Sam começa a ficar preocupado com todas as piadas que fizera. Quando percebe, Ryan está acenando para ele. A seu lado, uma linda mulher também está sorrindo. Não havia outro jeito senão se aproximar. Após as introduções de praxe, Jessica explica que “Papai fez um bom tempo mas está chateado pois sempre fica entre os primeiros 50 e desta vez ficou entre os cem”. Diante da estupefação de Sam, ela explica: “Existe uma boa explicação para isso…”  e continua: “Papai estava deprimido  porque a direção do hotel não o liberou para a maratona de Boston no próximo mês, onde ele sempre consegue uma boa marca. Papai correu a vida inteira.”, finaliza a orgulhosa filha.
Sam estava aturdido, envergonhado, mudo de vergonha. O “velhinho” era um sério corredor de maratonas. E ele? Um gozador barato que mal conseguiu dar as primeiras passadas na corrida. Nem se lembra do que falou para a exuberante Jéssica, deu algumas desculpas esfarrapadas e foi para a casa. E pensou, pensou…
Sam praticamente parou de fazer piadas. Com certeza nunca mais fez nenhuma sobre o Ryan, pai de Jéssica, o grande maratonista, o grande atleta, etc, etc…
A história é verdadeira e até pensei em um grande pensamento para o desfecho, mas acho que não precisa, os fatos falam por si mesmos…ou talvez melhor dizendo “calam por si mesmos”?

Sunday, May 6, 2012

O Protocolo


O Protocolo

A estação estava calma como sempre e o funcionário KS23-6788 realizava as inspeções  de rotina. Há um bom tempo os humanos haviam parado de usar nomes para identificação. No entanto o KS23-6788 gostava do apelido que seu avô lhe dera quando ele era bem pequeno ainda: Nick. Era uma coisa de família, pessoal. Quase todos achavam uma infantilidade usar esses nomes da época em que os humanos mal conseguiam navegar pelo espaço. Na verdade neste ano fazia 3 séculos que o homem pela primeira vez havia conseguido voar para fora de seu planeta e posar na Lua. O que na época foi algo espetacular, agora era considerado uma navegação grosseira, rudimentar e arriscada.
Nem os grandes escritores de ficção científica conseguiram antecipar os rumos que a exploração do espaço iria tomar. Na verdade foi a combinação de avanço científico e tecnologia com o imprevisível, o acaso. 
As pessoas agora viviam muito mais, pelo menos 200 anos. Poderia ser mais, mas havia uma combinação de fatores sociais,  científicos e econômicos, que fizeram o homem “optar” por cerca de 200 anos. Na verdade os indivíduos não morriam mais: eram “preservados” através do  incrível e avançadíssimo sistema de criogenia  administrado por computadores quânticos. Ninguém sabia ao certo os crítérios de descogelamento, mesmo porque esses novos computadores eram programados mas depois se auto-reprogramavam. Tomavam então  decisões  por conta  própria. Uma pessoa seria “descongelada” quando e  se fosse necessário, de acordo com eles. Trariam de volta à vida número suficiente de humanos no caso de uma catástrofe ou de uma ameça de extinção vinda do próprio planeta ou de fora.
Através do novo sistema de navegação espacial a espécie humana espalhou-se por inúmeros planetas. Basicamente instalavam algumas estações em cada um e essas continham alguns poucos humanos e inúmeros robôs, além de máquinas, que lentamente iam tornando o planeta habitável. Era um novo sistema de colonização. Agora os humanos eram “elaborados geneticamente” para sobreviver mais especificamente no local  para onde foram designados. Seria, pois, quase impossível Nick voltar para a Terra pois teria de ser “reelaborado” em sua configuração. Mesmo assim Nick às vezes sonhava com isso. Seu avô conseguira lhe transmitir algumas ideias saudosistas ( por muitos consideradas perigosas) dos primórdios da colonização espacial empreendida pela raça humana.  Cada vida durando dois séculos não foi difícil as imagens e ideias do bisavô de Nick chegarem até ele.
O Planeta GP3467A não era dos piores. Até que lembrava de longe o nosso planeta. Em uma série de 8, a colônia estava na fase 3 de colonização completa. Fora da grande base inúmeros robôs trabalhavam enquanto  Nick ficava a maior parte do tempo no interior. A atmosfera ainda era tênue e ele precisava sair com o equipamento apropriado. As grandes explosões que criariam uma atmosfera razoável só viriam na fase 6 e durariam quase um ano pelo tempo da Terra. Durante a última semana Nick havia trabalhado  intensamente com os computadores de comunicação para restabelecer a mesma. Não havia conseguido nada e ele estava preocupado, pois precisava de aprovação urgente para algumas alterações no programa. Era muito raro o corte completo de contato e por isso Nick havia tentado  se comunicar, em caráter de emergência, com outras colônias. Isso normalmente não era  permitido e a administração central da Terra normalmente era severa contra esse tipo de tentativa. Nick, no entanto, não estava preocupado com isso. O que o aborrecera tremendamente é que as mensagens recebidas do Planeta G9878B estavam truncadas e o pouco que se podia entender delas era profundamente preocupante. Havia a menção de que eles também não estavam conseguindo contatar a Terra e, pior que  isso, haviam recebido uma mensagem gerada por computador de que havia emergência 3B segundo a classificação de emergências do  centro geral de comunicação do sistema de colônias da Terra. Era profundamente perturbador para Nick que tanto a mensagem original do nosso planeta como a retransmissão através do Planeta G9878B não tinham chancela humana, ou seja, ficava a pergunta, havia humanos para validar a mensagem? Além disso emergência 3B estava a apenas dois passos da emergência L que era o ultimo grau e que consistia numa autorização implicita de seguir seus próprios passos por falta de comando central. Quando a emergência atingisse o nível L, as colônias deveriam usar o Protocolo. O Protocolo certamente daria as instruções mas ninguém o havia usado antes e obviamente havia algo fatalístico sobre o conceito.  O que mais assustava a respeito do assunto é que todos sabiam como funcionava o mecanismo.   O Protocolo na verdade era um computador separado de todo o sistema e que só poderia ser acionado pelas colônias, se no Planeta Terra, o comandante chefe de comunicações ou alguém autorizado por ele não o reativasse por mais de uma hora. O fato de ninguém estar lá para acionar o Protocolo por esse tempo era obviamente estarrecedor e significava uma tragédia de inusitada proporção. Nick tinha esperança de que brevemente as comunicações seriam restabelecidas.
Para longas viagens no espaço ou para longos períodos de tempo sem atividade numa colônia era usada a técnica do “adormecimento”. Isto permitia que um longo período se passasse com um consumo mínimo de energia e principalmente, sem danos psicológicos para o astronauta ou colonizador. Além do mais, o nível de ”adormecimento” era tão profundo que praticamente não contava como “tempo vivido” e se uma pessoa ficasse neste estado por um periodo longo, esse tempo estaria sendo acrescido a sua vida. No entanto, esta técnica só poderia ser usada por cerca de 10 anos. Mais do que isso seria necessário recorrer-se à criogenia, obviamente algo muito mais sério e definivo. Todos sabiam que o uso do Protocolo estava ligado a uma  dessas duas técnicas ou às duas. Foi por isso que, quando  ele recebeu de um planeta próximo a retransmissão de “condição L”, ou seja a emergência maxima, Nick realmente se assustou por mais preparado que estivesse psicologicamente. Até então ele havia ficado bem mesmo quando,  nas últimas semanas,  toda a sua equipe, de 14 pessoas,  havia sido removida para uma missão especial. Deixaram-no  sozinho e nem por isso se abalou. Na época, como era praxe, não questionou nem consigo mesmo nem através das mensagens a proridade ou não daquela retirada. Agora, no entanto, começou a relacionar os dois fatos, “ a condição L” e a remoção de seu pessoal e começou a achar, quase ter certeza,  de que as coisas estavam interligadas.
Em duas horas , se não chegasse nova mensagem, ele deveria tentar abrir o Protocolo. Além de ser um sistema de segurança, o Protocolo eram também, um lugar físico com o grande computador independente e as máquinas de adormecimento e criogenia. Havia também quatro  robôs que operariam o sistema em caso de necessidade. Até então ninguém havia entrado  na sala do Protocolo.
Nick acabava de estar em contato com essa nova realidade, quando para sua surpresa, o sistema de Protocolo respondeu a sua tentativa de acesso.Isso era a confirmação da condição "L " ou seja, emergência máxima. Por mais treino que ele tivesse tido para este momento – você nunca acredita que é possível  acontecer -  ele estava estarrecido.  Acomodou-se no confortável assento e começou a seguir o  “prompt” com as instruções. O Protocolo informava inicialmente que o “incidente” havia ocorrido no Planeta  Terra e era localizado. A possibilidade de sobrevivência  local era de apenas 10%.  A seguir o Protocolo calculou de 3 a 10 anos o tempo de restabelecimento no caso de haver o mínimo de vida reminiscente na Terra para operar o processo de resgate e recuperação.  O Protocolo então explicava que as colônias que tinham passado da fase 6 de colonização estavam autorizadas a tomar medidas de sobrevivência em sistema de autonomia da Terra. As outras, segundo o próprio Protocolo estariam diante de um dilema. Se a Terra sobrevivesse – e as chances eram de apenas 10% - o adormecimento era a melhor alternativa, pois em menos de 10 anos haveria  socorro, instruções. Outros planetas mais próximos poderiam mandar  ajuda, o que não fariam no caso de o dano na Terra ser permanente, pois teriam  de cuidar da prória sobrevivência.  No caso de a administração central e sua população ficar reduzida a zero ou a condições de pré-civilização espacial, o congelamento seria a melhor indicação por ser quase perene. Milhares de anos poderiam se passar até que novas tecnologias voltassem e viabilizassem o descongelamento. Depois de séculos de tirania , autonomia e arrogância, pensou Nick, os computadores estavam confessando que não tinham condições de tomar uma decisão. Ironicamente, na hora mais importante  de sua existência, Nick teria de confiar em seu próprio senso de análise. O Protocolo, o “Grande Protocolo” estava ali, a sua frente, confessando que não tinha a capacidade de decidir. O Nick, que era um funcionário de quinta linha no “ranking” tecnológico, estava ali, a uma distância assustadora da terra , sozinho, com a decisão de sua própria vida em suas mãos, pela primeira vez.
O computador dizia que ele tinha  cerca de 300 horas decidir e iniciar ou os procedimentos de “adomercimento “ ou “congelamento.”  Cinco ou dez anos de sono super profundo seriam como nada e tudo estaria resolvido. E se o problema na Terra fosse muito mais grave? Dali a alguns anos ele estaria de volta, ali, sozinho, acordado mas sem qualquer perspectiva e provavelmente teria de induzir a própria morte para não ficar louco. A outra alternativa, a da criogenia, era a um tempo garantida e assustadora. Assustadora porque nada  mais dependeria dele. Se as coisas voltassem ao normal, milhares de anos depois, alguma civilização que dominasse tanto a tecnologia de viagens espaciais e a criogenia talvez chegasse até ele e o  ressuscitasse. O Protocolo estaria mandando sinais indefinidamente pelo espaço.Ou então…ele poderia ficar congelado para sempre.
Embora não fosse momento para isso, Nick resolveu dormir por algumas horas. Induziu em si mesmo um sono leve em que pudesse sonhar. E sonhou. Sonhou com a Terra. Com seus rios, seus oceanos, suas árvores, sua aves. Com o sorriso das pessoas, com o som dos ventos, com o aroma das flores. Sonhou que uma nave o estava transportando de volta, que seus gens estavam sendo modificados para novamente habitar o Planeta. Sonhou que a civilização estava voltando devagar…
Nick acordou aliviado  e feliz. Tinha decidido. Era melhor esperar mais de mil anos e ter pelo menos a esperança sólida de uma vida mais parecida com a que seu avô descrevera. Entrou na sala de criogenia e deitou-se na cápsula que se fechou automaticamente. Apertou o botão de “iniciar”. Segundos depois notou que dois robôs, um de cada lado se aproximaram dele. Dali a pouco começou a se sentir sonolento,   a primeira fase do congelamento …Nick então dormiu profundamente enquanto as máquinas programavam o evento e armazenavam a fabulosa energia para manter a sua cápsula isolada e fria, muito fria por muito tempo..…Mas ele não estava sentindo nada.  A última coisa que sentiu foi o vento quente do mar da Terra em seu rosto, em seu sonho…