Thursday, January 26, 2012

Os Dois Mundos de Andy

Os Dois Mundos de Andy
Joseph Davis, meu amigo americano, adora contar histórias. Até aí, tudo bem. O que acontece, porém, é que as histórias que ele conta são incrivelmente absurdas. No entanto, ele conta de um jeito que elas parecem ser verdade. Mais do que isso, ele acredita nelas e jura que realmente aconteceram. A  última narrativa foi sobre um tal de Andy, morador de uma pequena cidade do Tennessee, chamada Tellico Plains. Andy era um bom rapaz que tinha terminado o segundo grau e agora morava sozinho num quarto alugado. Tinha um emprego bom numa loja de autopeças e todos gostavam dele. Nos dias de folga viajava umas vinte milhas para o norte para visitar os pais. Era quase um ritual. Os pais o esperavam com ansiedade e ele também gostava de vê-los, almoçar e jantar com eles, conversar.  Era o mês de maio de 1999. Como sempre, naquele dia de folga, Andy andou com sua mochila até a margem da rodovia estadual  68 e esperou por uma carona. Ele sempre conseguia e normalmente demorava pouco para uma alma boa parar e acolhê-lo. Naquele dia a demora foi mais do que o normal, no entanto. Não havia muitos carros na estrada. Além disso, algo um tanto estranho também ocorreu nesse dia.  Do nada apareceu um anão, bem vestido e cumprimentou Andy, que levou um susto. Não tinha visto ninguém vindo e por isso assustou-se. Pediu desculpas. O anão poderia pensar que era algum tipo de preconceito ou algo assim. Respondeu ao cumprimento e o anão, sem parar, foi falando com ele, já passando e olhando para trás: “Escolhe bem a carona!” e repetiu a frase com um sorriso. Andy pensou em responder algo mas ficou sem fala. Quando finalmente se deu conta da frase do transeunte, tentou procurá-lo com os olhos na estrada mas  ele já havia desaparecido tão rápida e misteriosamente como havia surgido. Imerso nos pensamentos mal percebeu que um carro azul, um chevy, havia parado na beira da estrada. Após as apresentações e informações de praxe,  Andy entrou no carro e a conversa fluiu normalmente por uns cinco minutos. O casal estava vindo de Ducktown e estava indo para Oakdale para visitar a filha, Jeanne. Ele era o senhor Mark Lewis e ela a senhora Kathy Lewis. Eram aposentados e deviam ter mais de setenta anos. Eram muito simpáticos e estavam falando de como sentiam saudades da filha casada que morava em Oakdale. Todo mês iam visitá-la. Andy disse que também sentia falta dos pais e estava indo visitá-los. A conversa era bem agradável mas, não se sabe por que, de repente, Andy sentiu um sono profundo e precisava fazer um esforço enorme para ouvir o que o senhor Mark estava falando, até que passou a dormir profundamente. Eram dez horas da manhã.
Algum tempo depois Andy acordou. Lembrou-se das pessoas que lhe haviam dado carona e se envergonhou. Dirigiu-se ao senhor Mark.pedindo desculpas: “Sr. Mark, eu sei que foi uma indelicadeza de minha parte, mas...” O  motorista interrompeu-o e ao mesmo tempo virou seu rosto para trás, dizendo: “Não se preocupe, rapaz, eu sei que você teve uma semana pesada.” Andy estremeceu. A pessoa que estava lhe falando não era o Sr. Mark. Aquele homem tinha menos de 40 anos. A passageira, presumivelmente sua esposa, era morena clara e tinha cabelos escuros, ao contrário da Sra. Lewis que tinha cabelos brancos. Não conseguia entender. Vendo sua agitação, o motorista perguntou se estava se sentindo bem. Então, Andy perguntou: “Qual é mesmo o seu nome? “ O estranho lhe respondeu que era Simon. Simon Williams e esta é minha esposa, a senhora Ellen. Eu já me apresentei  lá atrás , mas notei mesmo  que você estava sonolento...”
Andy não sabia o que pensar. Teria sonhado? Não, impossível.  Lembrava-se vividamente do casal, dos nomes, das coisas que eles contaram. “ E o carro? Este aqui é um..Corolla, branco. Aquele era um chevy azul. Meu Deus, o que será que está acontecendo? “  Estava torturado com esses pensamentos, pensando que talvez estivesse ficando louco, quando o carro diminuiu a velocidade. Parou.  Aparentemente havia um acidente logo mais a frente.  Ao sinal do policial, Simon – o "novo" motorista – começou a dirigir de novo, bem lentamente.   O trânsito havia sido desviado para o acostamento. Havia um agrande acidente. Um caminhão e um carro. Este último praticamente perdera toda a parte da frente. Meu Deus! O carro...O carro...Era o carro do sr. Mark Lewis... Tinha certeza. A cor. Um azul pouco comum, um colar com motivos indianos pendendo do retrovisor. Não havia dúvida, era o carro em que estava. Mas como? O que estava acontecendo?  Estaria delirando? Ainda aturdido com esses pensamentos, percebeu que o carro estava parando e que  Simon lhe dizia. “Este é o local que você falou, certo? Esta escola, perto da casa de seus pais?” Concordou, pegou sua mochila e desceu.
Os pais de Andy estranharam sua atitude e acharam que ele estava doente. Fizeram inúmeras perguntas para ele, que  tentou acalmá-los dizendo que tivera uma semana agitada. Seus pais deram-lhe um dos calmantes que sua mãe costumava tomar. Ainda assim passou um dia agitado e uma noite em que teve inúmeros sonhos e pesadelos. No dia seguinte, ainda sem entender o que havia acontecido, Andy foi até o posto de gasolina perto da casa`dos pais e comprou um jornal. A manchete? O acidente horrível que acontecera na estrada. Andy lê avidamente a notícia e...Não podia crer...Três vítimas fatais, O senhor e a senhora Lewis e mais um caronista, sem documentos, que estavam tentando identificar. Aparentemente, alguém que estava vindo desde a Flórida, só pegando carona. Foi aí que Andy se lembrou do anão e da frase misteriosa “Escolhe bem a carona!”...
A vida de Andy continuou normal, embora agora era como se as pessoas que conhecia antes  eram as mesmas mas tinham algum detalhe diferente. Em alguns a maneira de sorrir, em outros, o vocabulário. Atés seus pais tinham alguns detalhes que pareciam ter mudado.
Não sei o que você pensa desta história, mas Joseph tem uma explicação que, para ele, é a única. Por algum motivo, Andy tinha sido transportado para um mundo paralelo. Os mundos paralelos existem, me explicou. Acontece que o seu “eu”do outro mundo tem sua própria consciência e não partilha a mesma com os outros “eus”.  Nesse caso, talvez por causa do acidente,  ou sabe-se lá por quê, Andy tinha desaparecido de um universo e sua “consciência” havia sido transportada para o outro “eu” que no outro mundo paralelo... não havia morrido. Eu até pensei em fazer algumas perguntas para o Joseph...mas provavelmente  eu teria de ouvir um monte de explicações complicadas. Deixa assim mesmo. Apenas mais uma história misteriosa, sem explicação...

Tuesday, January 24, 2012

Bob Saiu de Férias

Bob Saiu de Férias
autor: Flávio Cruz
Bob é um sujeito sistemático, metódico. Todos os dias vem trabalhar no hotel, no mesmo horário, com a mesma pasta sob o braço, com o mesmo...mesmo tudo, tudo sempre igual. Faz isto há muito tempo, mais de vinte anos. Em sua mesa de trabalho, tudo está sempre no mesmo lugar, sempre do lado certo. O que muda de lugar, logo a seguir volta para o lugar de onde saiu. Bob tem algumas angústias, mas sempre são as mesmas angústias. Um pouco de depressão, um vago sentimento de solidão e incerteza, um certo medo de coisas indefinidas. Mas vai vivendo. Não tem paixões, nem por mulheres e nem por homens. Sem querer ofender, é assexuado. Espero que não seja politicamente incorreto chamar alguém de assexuado pois não quero ser incorreto com o Bob. Afinal, ele, entre outras coisas, é muito correto. Não faz nada de errado no trabalho. Bom, ele também não gosta de tirar férias. Vai acumulando, acumulando. Bom, chega um dia e ele é obrigado a tirar férias. Existem normas,regulamentos. Desta vez ele teve de programar a sua ausência. Programar, ele sabe, é o que mais faz na vida. Pressionado pelo chefe, programou as férias. Não é  que você está pensando. Ele nem sequer pensou em viajar ou ir para algum lugar. Programar as férias é marcar o dia de sair e o dia de voltar, principalmente o dia de voltar. Um suplício, ficar em casa, esperando pelo dia da volta. Todos estavam esperando o dia de Bob começar as férias. E o dia chegou. Na próxima segunda, os intermináveis 15 dias iriam começar para Bob.  Por respeito, ficou combinado que ninguém iria usar sua mesa enquanto estivesse ausente. Para dizer a verdade, não era bem respeito, ninguém queria arriscar mexer em algo que não devia e depois ter que ver o Bob sofrer um colapso nervoso quando voltasse. A segunda-feira chegou. Um dia lindo, sol, e um céu de brigadeiro, como se falava antigamente. No escritório do hotel, tudo calmo, e as pessoas começam a chegar. Às 8:45 em ponto, pasmem, o Bob também chegou. Todo mundo se assustou. Talvez tivesse esquecido de algo. Alguma coisa importante que fosse precisar em casa, talvez sua agenda. Mas por que aquela roupa de trabalho? Ele não explicou nada. Chegou, sentou, começou a fazer tudo como fazia todos os dias. Ninguém ousou perguntar nada. O chefe, naquele dia, só viria depois das três da tarde. Será que o Bob tinha conseguido cancelar as férias? Impossível! O dia foi de fofocas. Faltavam duas horas para o dia de trabalho terminar quando o senhor Thompson, o chefe, chegou.  Iria virar à direita para ir até seu posto, quando sua vista aguçada alcançou o Bob. Virou rapidamente para a esquerda e se aproximou de Bob. Tiveram um diálogo rápido, um pouco agitado. Thompson saiu sacudindo a cabeça como que diz “Eu não acredito”...e foi para sua mesa. Lentamente, Bob foi arrumando suas coisas, guardando tudo metodicamente. Demorou tanto que praticamente saiu no horário em que teria de sair de qualquer jeito. A explicação, que na verdade todos já conheciam, era que Bob tinha “esquecido” das férias. Dá para acreditar? Esqueceu das férias. Eu não sei, embora desconfie, quais são as explicações psicológicas para o evento. Sei, no entanto, que um grupo de psicólogos levariam um dia todo discutindo o assunto...e iam adorar!

Saturday, January 21, 2012

O Herói Ausente

O Herói Ausente
Todos nós nos lembramos de nossos super-heróis dos gibis de nossa infância: Fantasma, Mandrake, Capitão América, etc. Em nossas cabeças eles não eram ficção, mas sim parte real de nossas vidas. Nós crescemos e  eles, de certa forma também, pois foram para as telas dos cinemas, para a Internet, viraram objeto de consumo. Tudo bem, esta é a vida. Mas ainda temos alguns heróis, que não são super, mas que conseguem preencher esta nossa necessidade interior.  Existem os heróis do dia a dia, que quase ninguém reconhece e que, na verdade, são os autênticos.Eles não tem poderes especiais mas fazem coisas que ninguém faz. Sacrificam o próprio bem-estar para ajudar um desconhecido, dispõem de bens materiais que  poderiam lhe ser úteis para ajudar uma outra pessoa, fazem sacrifícios enormes para aliviar a dor ou o problema de outros. No  entanto ninguém os chama de heróis, no máximo ganham o título de boas pessoas. Paciência, assim é a vida. Existe um outro tipo de herói, que é bem mais reconhecido, talvez porque eles se pareçam com aqueles das histórias em quadrinhos. Fazem coisas fantásticas ou porque é a profissão deles ou porque o destino ou as circunstâncias, talvez, os ajudaram. Pode ser um atleta ou alguém famoso que fez algo de chamar a atenção do público. Pode ser um ilustre desconhecido que por um acaso – aquelas coisas do destino – está no lugar certo, na hora certa . Um incêndio, um naufrágio, uma enchente.  O até então desconhecido salva uma ou várias vidas. É verdade que ele teve a chance, mas temos de reconhecer que também precisou da coragem. Precisou arriscar a própria vida. Pois bem, você deve ter ouvido a respeito do acidente com o navio Costa Concórdia  na Itália. O capitão, para agradar alguém, segundo as fofocas, fez uma rota estranha, aproximou-se muito doa costa e atingiu um rochedo  e...Você conhece aquela canção de criança: “A canoa virou....”? A única diferença é que o barco era enorme, com milhares de pessoas a bordo. Gente correndo para todo lado, todos tentando se salvar, procurando botes salva-vidas, coletes etc... No final algumas dezenas de pessoas morreram. E o capitão? Parece que tomou algumas ações, mas logo depois acomodou-se num bote salva-vidas e...salvou-se. O problema é que havia muita gente para ser salva ainda e todos sabem que o capitão tem de ser  o último a abandonar o navio. A  guarda costeira interpelou o sujeito, gritou com ele, tentando convencê-lo a voltar para seu posto. Que nada. Não funcionou. Está aím uma caso diferente. Ele teve uma chance enorme de ser herói, salvar vidas, comandar,  aparecer com o uniforme rasgado nas fotos dos jornais, talvez um pouco de sangue no rosto, etc, etc....Sabe todas aquelas coisas de heróis. É claro que sua fama de herói iria ser um pouco abalada pelo fato de ele mesmo ter causado a tragédia. Mas você sabe, numa situação dessas, as pessoas têm a tendência  de esquecer certas coisas. Ele negou-se terminantemente a fazer o seu papel de herói. Ele foi o herói ausente. Quantos não gostariam de ter tal chance de virarem ídolos? A poeira, quero dizer, a água, baixou um pouco e as histórias começaram a aparecer.
 Entrevistas, inquérito policial, depoimentos. E aí mais uma grande surpresa. Diante da grande indignação popular pelo  fato de ter abandonado o navio, o capitão veio com uma das mais incríveis desculpas que já se ouviu na história. Muito melhor que pneu furado, trânsito congestionado, falecimento de parente ou qualquer coisa do gênero.A mais esfarrapada das desculpas.  Ele disse que tropeçou no navio e caiu no bote salva-vidas! Dá para imaginar? Uma coisa é certa. Assim  como ele perdeu a maior chance em sua vida de ser herói, com certeza, com essa mentira ele ganhou a certeza de poder se tornar  um grande político! Uma mentira dessas não vai ser fácil encontrar, nem mesmo em nosso querido país! Tropeçar? Sim, claro...Ele tropeçou na vida, na carreira, mas não no navio...

Notícias:
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Tuesday, January 17, 2012

O Voo 206 e a Teoria da Relatividade

O Voo 206 e a Teoria da Relatividade

Um recente incidente com um avião da British Airways deixou meu amigo Herrera em estado de êxtase. Parece estranho, mas existe uma explicação.  Como vocês sabem, meu amigo Herrera é vidrado em ciência, física quântica, etc. Pasmem, mas é difícil imaginar a quantidade de conclusões científicas que ele conseguiu tirar do ocorrido. Bom, vamos aos fatos para que tudo seja esclarecido. Há alguns dias atrás, o voo 206 da British Airways decolou de Miami em direção a Londres. Todos fazendo o que deviam fazer: os pilotos comandando o avião, os comissários de bordo dando assistência aos passageiros, estes se preparando para dormir, ou comer ou ler ou o quer que seja que se possa fazer durante o voo. Isto acontece todos os dias, inúmeras vezes, em todas as partes do mundo. Este voo porém, tinha algo diferente para seus passageiros. Três horas depois da partida, quando tudo parecia normal, ouve-se uma voz que anuncia algo completamente inesperado: que os passageiros deveriam se preparar para um pouso de emergência na água pois o avião estava caindo. Que surpresa desagradável, quero dizer, trágica, não é mesmo? Nem imagino e nem quero imaginar o que passou pelas cabeças dos passageiros. Família, filhos, esposa, Deus, o céu e também o inferno. Cair na água num voo intercontinental deve ser meio arriscado, pelo menos pela experiência que temos de fatos recentes na história da aviação. Sei também que coisas idiotas possam ter passado pela imaginação de outros. Uma conta que não foi paga, qual seria a reação de seu chefe quando souber da notícia, quem colocaria o lixo para fora na manhã seguinte, será que a a esposa conseguiria receber o dinheiro do seguro sem problemas... Parece incrível mas as coisas mais imbecis vêm à sua mente numa hora dessas. De qualquer forma, o pânico demorou pouco. Logo em seguida o capitão avisou que fora um engano. Não que estavam caindo e, de repente, não estavam mais. Não. Por algum erro humano ou não ( importa numa hora dessas?) , aquela gravação tinha ido “ao ar”. Que alívio! Aí que meu amigo Herrera entrou com uma bateria de hipóteses. Segundo ele, para uma boa parte dos passageiros, aquilo foi um milagre e, por intervenção divina, o destino foi mudado. Um aviso do além para você mudar de vida. Para outros, uma conspiração ou uma guerra de marketing de outras companhias. Alguém fez uma sabotagem para que a mensagem fosse divulgada e a companhia aérea fosse prejudicada. Para outros, um erro imbecil e imperdoável. Para o piloto, uma complicação. Para as companhias de seguro, uma prejuízo enorme que não aconteceu. Para alguns “espíritos de porco” um motivo de gozação. Aí tenho de concordar com o Herrera, tudo é relativo, depende de onde você está, qual a sua relação com o evento, em que momento ele aconteceu em sua vida. O acidente não aconteceu, somente o incidente, e acidentalmente muitas coisas mudaram nas vidas de muitas pessoas. Aí, de novo, a relatividade. Se você é uma pessoa crente e fez promessa, vai ter de cumprir. 
Se você é pessoa assustada, possivelmente vai mudar de vida e tentar ser melhor. Se você é muito prático – acho que essas pessoas, às vezes não têm graça – simplesmente não voa mais de British ou tenta processar para obter algum dinheiro. Se você é uma pessoa “bacana”vai pensar como é bonita a vida, que vale a pena viver, que daqui para a frente vai aproveitar mais  do que o mundo pode oferecer...Bonito, não? Mas, é tudo relativo. Ah, estava esquecendo daquela pessoa que foi responsável pelo ocorrido, ou seja, da gravação que foi ao ar. Se ele é uma pessoa importante, vai conseguir passar a culpa para outro que vai ser demitido. Se a pessoa responsável pelo evento não for importante, ela é quem vai ser despedida. E por aí vai...tudo é relativo. Para muitos foi uma coisa sem a menor importância...foi rápido, nem deu para sentir o perigo. Para outros, foi uma coisa que vai mudar completamente sua maneira de viver...No fim, Einstein sempre tem razão, tudo é relativo. Quero dizer, tudo menos a velocidade da luz!
Para terminar: eu não sabia que havia esse tipo de gravação nos aviões. Daí fico imaginando que outras mensagens podem já estar gravadas e prontas para serem ativadas... Pensando bem, não quero nem saber quais são...
Leia a notícia (texto em Inglês)

Monday, January 9, 2012

Os Três filhos da Viúva Whitaker

Os Três filhos da Viúva Whitaker

A senhora Whitaker tinha três filhos: Simon , Andrew, Matthew. Mathew era o mais velho com 22 anos, Andrew era dois anos mais jovem e Simon tinha 18. Viviam os três numa cidadezinha do Kansas, sem problemas e sem grandes aspirações também. Do marido e pai não falei porque ele já havia morrido. Tinha sido um homem de respeito e também responsável. Por isso é que a viúva, além da pensão, tinha a casa paga. Além disso tinha um modesto emprego numa loja local. Isso já seria suficiente para sobreviver, mas havia ainda a contribuição dos “meninos”: os três trabalhavam e ajudavam em casa. A vida era decente. A dona Whitaker tinha só uma pequena tristeza. Nenhum dos três quis continuar os estudos. Foram até o segundo grau. O que se pode fazer? Não foi por falta de falar. Se o Mathew tivesse resolvido fazer universidade, talvez os outros o seguissem. Mas que nada, ele não gostava nem de passar perto de escola. Os outros seguiram a mesma rota, afinal de contas, fazer o que com um diploma lá no meio do nada? Quando a gente não quer uma coisa, desculpa é o que não falta. A vantagem era que seus filhos estavam ali, perto dela, amenizando a viuvez. Tudo estava na santa paz até que um dia passou pela cidade um grupo de artistas encenando uma peça teatral no velho prédio do cinema. A peça que estavam apresentando era, ironicamente, “Our Town” de Thornton Wilder. Dormiam nos mesmos trailers em que viajavam. Entre as pessoas do grupo havia uma moça chamada Lisa. Pois bem, Simon se apaixonou por ela.  A paixão era daquelas devastadoras, como furacão e não teve jeito não. Conversa para cá, conversa para lá, o  Simon se meteu no grupo e quando chegou a hora de eles partirem, lá foi ele junto com a troupe. A dona Whitaker entristeceu, pois, entre outras coisas, ele era o caçula. Ainda havia a esperança de ele voltar a  estudar, fazer carreira e ser alguém.  Como a gente costuma dizer, o que não tem solução, solucionado está e a mãe se consolou com a ideia de que um dia ele poderia se tornar famoso, aparecer em capa de revista, fazer filme. Fazer coisas que gente famosa faz.  Mas tudo isso, na verdade, era desculpa para encobrir sua tristeza. Sabe aquele tipo de tristeza que dói, dói mesmo, no peito?  Não é dor psicológica não, é dor física, aquela que só mães têm, quase como a dor de um parto reverso. Mas como a sabedoria popular diz, o tempo cura tudo e algum tempo se passou até que uma outra tristeza maior ainda ocorreu. O mais velho, Mathew, resolveu ir para o exército. Quero dizer, foi para a guerra mesmo, para o Iraque. Aí sim a dor foi dupla. De um lado ficava sem o filho mais velho e de outro havia o risco de vida. Todo mundo sabia que a morte ronda os soldados por aquelas bandas. Dona Whitaker por mais patriota que fosse, dessa vez não conseguiu se consolar dizendo que era pela pátria, etc., etc...Foi uma dor diferente, daquelas misturadas com preocupação, uma dor doída e doida. Restava Andrew, o do meio. Ela já estava desconfiada que ele iria acabar indo embora também. Não sei se foi premonição ou o acaso, ou o exemplo dos outros irmãos: o que todos suspeitavam, aconteceu. Desta vez, porém, foi diferente, algo que ninguém esperava. Passou pelo local um pregador. Falava de coisas estranhas mas principalmente dos perigos do mundo moderno, da ciência. Dos homens querendo clonar, querendo imitar o Ser Supremo. Dos astronautas invadindo o espaço celestial, querendo conquistar a Lua, Marte e sabe-se lá mais o quê, querendo brincar de Deus...Desta nova ciência quântica, que, com certeza, era coisa do diabo. Mas ele não parecia nem evangélico nem católico. Uma coisa estranha. Pregava no meio da praça com um megafone. Com ele vieram alguns discípulos e discípulas que o ajudavam na pregação, que recolhiam as ofertas e tudo mais. Por algum motivo, Andrew se entusiamou com a novidade e se foi...Isto foi demais para a viúva. Uma coisa insensata, além de pecaminosa. Ela havia educado os três na fé e até há pouco tempo frequentavam a pequena igreja batista local. Lá se foi ele com aquele estranho profeta. Ela chorou muito. Agora ela estava sozinha. Orava pelos três e sofria muito. Não sei se foi por isso ou se foi o destino ou o conjunto de fatores genéticos e psicológicos ou tudo ao mesmo tempo, que dois anos depois ela morreu. Mathew, que havia voltado da guerra e estava numa base militar e Simon, que sempre ligava para ela de onde estava, ficaram sabendo e voltaram para prestar as homenagens póstumas. Choraram  lágrimas amargas e sentidas, talvez misturadas com o arrependimento de terem, de certa forma, abandonado a mãe. Andrew, o filho do meio, nunca mais havia contatado nem a mãe nem os irmãos. Ou por falta de comunicação ou porque não quis, não veio para o funeral, nem para mais nada depois. Correu notícia de que o “profeta” havia morrido e a igreja agora não viajava mais e Andrew era o novo líder da religião, que crescia cada vez mais. O boato era de que havia já uma grande sede no sul do país e que a igreja agora contava com milhares de membros. Não usava mais  seu nome e era chamado simplesmente de “o profeta”.
Quando ouvi essa história, pensei num monte de explicações e simbolismos. Por que só Andrew não voltara, justo ele que havia escolhido uma religião?  Os três tinham nomes de apóstolos: algum simbolismo aí? Religião, pátria, arte? Depois desisti de pensar no assunto e concordei com um amigo meu que sempre falava com sabedoria: existem coisas que não têm explicação. Simplesmente acontecem, às vezes a vida é muito triste. Nem sempre o bem prevalece, nem sempre o mal é castigado. A vida é o que é, uma sequência insensata, às vezes bela, às vezes sombria, às vezes misteriosa, mas sempre, com certeza, digna de ser vivida. Quanto à dona Whitaker, talvez ela mesma seja culpada, sem querer, de tudo. Talvez seja a forma como ela criou os filhos. Pensando bem, acho que não é nada disso...Mesmo após todas estas considerações,  ainda tenho pena da dona Whitaker...Coitada...

Saturday, January 7, 2012

Rosewood e o Conceito de Verossimilhança

Rosewood e o Conceito de Verossimilhança
Nos anos 60 aprendi, em minhas aulas de literatura, o conceito de 'verossimilhança' em uma obra literária ou no cinema. A ideia é que uma história que se conta precisa ter essa característica de ser real, mesmo que seja absurda, ou seja, deve haver uma lógica interna que crie a sensação de ‘verdadeiro’, de ‘possível’. Pois bem, quando você assiste ao filme “Rosewood”, por um certo momento você poderá achar que falta ‘verossimilhança’ à história, tal a indignação que ela provoca.  Acontece que a narrativa é baseada em fatos reais que aconteceram em 1923 nesta pequena comunidade da Flórida. A maioria da população era negra, lutando para prosperar diante das inúmeras restrições racistas que ainda eram muito fortes nessa época, principalmente nesta parte do país. A versão que temos dos fatos é que se espalhou um boato, mais tarde confirmado como sem fundamento, de que um homem negro havia violentado física e sexualmente uma mulher branca. Imediatamente formaram-se grupos que começaram a perseguir e atacar pessoas da raça negra em Rosewood. Várias pessoas negras foram assassinadas. Por dias todo habitante de Rosewood precisou se esconder nos pântanos ou no mato. Com a ajuda de algumas pessoas de bom senso foi organizada uma retirada principalmente através da estrada de ferro (Seaboard Air Line Railway).
 Praticamente todas as propriedades pertencentes à comunidade local foram  derrubadas ou incendiadas. Mais tarde apurou-se que  Frances "Fannie" Taylor, a mulher que se queixou da violência sexual, na verdade foi vítima de seu próprio amante, um homem branco. Inventou a história para esconder do marido sua traíção A cidade de Rosewood desapareceu, nenhum habitante jamais voltou para a mesma. Virou uma cidade fantasma. 
Don Cheadle, Ving Rhames, Jon Voight, Loren Dean, Michael Rooker atuam neste filme que  recria com fidelidade essa triste história da Flórida. Como eu disse, se não fossem fatos reais, eu iria duvidar da “verossimilhança” da narrativa. Como uma espécie de vingança cármica, o local nunca mais se desenvolveu. Claro, o Pato Donald e o Mickey Mouse não sabiam desses horrores e acabaram vindo para perto anos mais tarde. Talvez a presença deles ajude as pessoas se esquecerem da vergonha do ocorrido, porque, afinal de contas,  a mágica precisa continuar...

Wednesday, January 4, 2012

A Estranha História de William Cobb (Parte III – A Volta)

Parte III – A Volta
Fiz de tudo para trazer William de volta para a cidade mas ele estava obcecado e não queria sair dali. Passei algumas horas e depois desisti, precisava voltar para casa pois minha família deveria estar preocupada. Eu me despedi e ele respondeu com um adeus que parecia sincero e definitivo. Me agradeceu com um ar de quem diz “um dia você vai entender”.
Foi a última vez que vi William Cobb. No dia seguinte, depois do trabalho não voltei para casa. Ao contrário me dirigi para o terreno onde o havia visto pela última vez. Para minha surpresa, suas roupas estavam lá no chão, vazias, camisa abotoada, como se ele tivesse “evaporado”. Olhei para todos os lados, andei pelo terreno todo e não achei o William. Fiquei em dúvida, mas acabei levando sua roupa para casa. Aparentemente na cidade ninguém se preocupou com o desaparecimento de William. Ele se foi como chegou: como um fantasma.
Procurei esquecer o assunto mas nos meses seguintes sua imagem não me saía sa cabeça. Resolvi então  fazer o que deveria ser o óbvio: tentar achar o nome de “seu pai” na lista telefônica de Lincoln. Estava com dificuldade de aceitar a história de William ou talvez não quisesse participar de sua loucura e por isso demorei para tomar a decisão. Senti um calafrio quando descobri que existia sim um tal de Robert Cobb. Pensei muito antes de ligar mas finalmente criei coragem. Inventei uma desculpa para iniciar o assunto. Havia conhecido uma pessoa com o mesmo sobrenome dele e queria saber se o conhecia, se era parente, etc. Quando falei o nome “William Cobb”, ele riu do outro lado da linha. Perguntei por que estava rindo. Eu conheço sim, me disse ele, mas tenho certeza de que você não o encontrou. Ele nunca saiu daqui, tem apenas dois meses e nasceu no hospital local. Gelei e perguntei se poderia vê-lo se passasse por Lincoln. Claro, quando quiser, mas vai ser mais fácil você me encontrar na escola. Antes de eu perguntar, ele me disse, com orgulho – podia sentir na vibração de sua voz – que era professor de física. Nunca tive coragem de encontrar o sr. Robert Cobb, acho que ele, por mais que sua mente fosse aberta, iria rir da minha história.
Uma coisa é ler uma história de ficção científica e outra coisa é “viver” uma história dessas. O contato com uma experiência desse tipo é, embora fascinante, assustadora. De certa forma eu não queria acreditar nas “evidências”.  Antes de escrever esta história – achei que tinha obrigação de fazê-lo – ainda passei por duas situações que me causaram arrepios. A primeira foi quando assistia a CNN em 18 de janeiro de 1991. As imagens da operação “Desert Storm” trouxeram-me imagens vivíssimas de William. Meses mais tarde, pela segunda vez, senti arrepios: uma grande manchete de um jornal local comunicava o colapso oficial da União Soviética. Era 26 de dezembro de 1991. Apesar do pavor que às vezes sinto, gostaria de viver até 2029 e talvez conhecer pela segunda vez William Cobb. Claro, depois de sua volta para o futuro...

Monday, January 2, 2012

A Estranha História de William Cobb (Parte II – A Revelação)

Parte II – A Revelação
Por isso que, naquela manhã de domingo, seu telefonema me surpreendeu. Para ele ligar, alguma coisa diferente deveria ter acontecido. Ele estava bastante alterado do outro lado da linha, quando  pus meu ouvido no aparelho. Falava rápido e um tanto descompassado. Perguntou-me se eu poderia vê-lo imediatamente.Lembrara-se de tudo e precisava falar comigo. Peguei o carro e em vinte minutos estava no lugar combinado. Pediu-me para levá-lo a um lugar nos arredores da cidade.  Paramos ao longo de um grande terreno sem construção, com algumas pequenas árvores espalhadas lá e acolá. Antes de sair do carro, entretanto, contou-me a história mais fantástica que já tinha ouvido em minha vida. Seu pai era um professor de física, Robert Cobb, que trabalha para o governo em um projeto  secreto de física quântica, coisa relacionado com teletransporte, viagem no tempo, etc. Cheguei a pensar que estava brincando, mas não, estafa falando sério, ou pelo menos ele achava que sim. 
Ele era o chefe de pesquisas e trabalhava em Lincoln, capital do Nebraska. O ano? Pasmem, 2029! O pai tinha tanta certeza de que tinha conseguido descobrir algo fantástico que resolveu fazer um experimento com o próprio filho, William, que era solteiro e também era fascinado pelo assunto. Se não houvesse necessidade de alguém como ele, físico de altíssima capacidade, para trazer “o viajante do tempo” de volta, faria o experimento consigo mesmo. Mas ele precisava ficar para o caso de uma emergência, talvez para fazer uma operação de resgate de volta para 2029 se algo desse errado.Diante de minha incredulidade, Cobb me explicou que  de  2019 até 2025,  ocorreram ( ou ocorrerão?) descobertas fantásticas, desencadeadas por inesperados eventos na história da ciência, coisas que normalmente só aconteceriam daqui a 200 anos. É difícil acreditar, ele repetia a toda hora, mas era verdade. Ele me explicou que era impossível viajar para o futuro, mas perfeitamente possível para o passado. Imagine, disse ele, você falar para um homem da Idade Média que o homem iria para a Lua em 1969. Você deve estar sentindo a mesma coisa, mas, garanto, é normal ou vai ser, ele repetia. Ele me disse que seu pai recomendou inúmeras vezes que,se ele acordasse ou aparecesse em algum lugar distante, para não se desesperar, para marcar bem o lugar. O aparelho de transporte “não viaja” – pemanece exatamente no mesmo ponto - e ele não conseguiria  vê-lo,  embora estivesse ali – “numa outra época”. Não sabia explicar porque ele aparecera em Alliance e não em Lincoln: talvez um acidente quântico. Muitas coisas ainda não tinham explicação.William me explicou que, no entanto,  ele teria de ficar dentro de uma área distante não mais de três metros do ponto onde chegara para que o aparelho de 2029 o alcançasse de volta. O que aconteceu no entanto, foi que, alguma coisa afetou sua cabeça durante o evento e quando se deu conta, estava andando  nu numa estrada de Alliance. Tudo mudara agora. Ele se lembrava do local exato, até de um arbusto com flores amarelas, que foi a primeira coisa que vira por ocasião da chegada de sua jornada. Saiu então do carro e me pediu para acompanhá-lo. Mostrou-me o arbusto, e também uma pequena área que aparentemente havia sido “chamuscada” por algo. Tenho de ficar aqui, me disse ele. Meu pai deve estar tentando me trazer de volta. Ele só pode ligar a máquina durante meia hora por dia por motivos técnicos. Ele deve estar tentando, ele me disse ofegante. Eu queria acreditar, desejava mesmo que fosse verdade, mas meu bom senso não me permitia. Pensei então que, definitivamente, William precisava de um tratamento psiquiátrico. Fui honesto com ele e disse o que pensava. Ele me falou então que sua memória estava prejudicada mas havia algumas coisas de que ele podia se lembrar de ter lido sobre os anos 90 e 91. Disse-me que a União Soviética iria desaparecer, e que haveria uma guerra no Iraque. Falou que talvez isso me ajudasse a acreditar nele depois que ele se fosse. Disse também que não sabia onde seu pai estava em 1990 mas talvez eu pudesse achá-lo. "Claro, ele não vai entender, porque tudo isso ainda não aconteceu, mas eu sei que agora ele já é um professor de física."
(CONTINUA...)

Sunday, January 1, 2012

A Estranha História de William Cobb ( Parte I – A Chegada)

A Estranha História de William Cobb
Parte I – A Chegada
Ele apareceu na pequena cidade assim sem mais nem menos. Do nada. Não falava coisa que fizesse sentido, embora tivesse jeito de gente inteligente. Tinha um sotaque estranho, um que eu nunca tinha ouvido antes. A roupa era daquelas que as pessoas usam em festas, embora atualmente possamos dizer que há pouca diferença entre as mesmas e as que as que se usam no dia a dia. Ele era a conversa da cidade. O boato era que um policial havia detido o estranho mas achou que ele era meio louco  e era melhor deixar o assunto de lado. Sabe, essas coisas dão muito trabalho, papelada, promotor público, relatórios. A história das roupas eu já desvendara por conta própria. Vi uma notícia no jornal local a respeito de um fulano nu que entrou numa loja de roupas especiais para bailes, juntou algumas peças e saiu correndo. Só podia ser ele. Mas por que estava nu? De onde surgira? Obviamente, com o susto, ninguém foi atrás dele. Mais tarde registraram o caso na polícia. Todos que tinham tido contato com ele – eu me incluo na lista - diziam que ele era calmo e não representava perigo.
William Cobb era seu nome. Pelo menos foi o que me disse quando falei com ele pela primeira vez. Cobb era educado, esperto, mas parecia assustado. Olhava tudo com muita atenção como se tentasse reconhecer as coisas. Com o tempo passamos a nos encontrar quase regularmente. Aos poucos fui me acostumando com seu jeito, com sua linguagem e tudo mais. Falava coisas desconexas. Aparentemente ele teve algum problema mental, talvez alguma experiência traumática. Nossa cidade, Alliance, Nebraska, ele conhecia de nome, mas ele “achava” que era de Lincoln, a capital. Não sabia como tinha vindo parar ali, a uma distância de quase 400 milhas. Pensei em levá-lo para lá e descobrir algo mas ele se recusou, disse que não estava preparado, queria lembrar-se melhor de tudo. Falou que todo dia novas imagens vinham a sua mente, às vezes simples palavras, as vezes figuras humanas. Algumas palavras ou frases vinham do nada e na maioria das vezes não tinham uma imagem correspondente, eram apenas um amontoado de sílabas.
Não sabia o que pensar da situação toda. No começo todas as pessoas – a cidade era muito pequena -  estavam como eu, interessadas, curiosas, imaginando mil coisas. Dá para imaginar o que gente com pouca coisa para fazer pode pensar. Mas depois vem a rotina. Cobb se incorporou à paisagem, era o “louquinho” da cidade, não fazia mal a ninguém, tudo bem. No entanto, para mim havia ali algo de especial. Conversava praticamente todos os dias com ele. Minha mulher concordou e oferecemos um quarto para ele usar até que se estabelecesse, mas ele recusou. Supostamente as coisas deveriam ir ficando mais claras conforme o tempo fosse passando, mas, ao contrário, mais perguntas iam surgindo das minhas conversas com Cobb. Uma vez me disse, por exemplo, que já tinha visto fotos de Alliance, agora se lembrava, mas eram muito diferentes do que estava vendo ali. O que estava presenciando, tudo, as coisas, as pessoas, os prédios, pareciam coisas do passado, coisas antigas. Havia pelo menos uma via expressa e uma outra estrada bem larga que ali não estavam. Era como se ele fosse do futuro. Nas fotos que ele vira as pessoas usavam roupas completamente diferentes daquelas. Os carros, esses então, definitivamente nada tinham a ver com os carros das fotografias que vira. Mas ele reconhecia os mesmos por causa de filmes antigos que tinha assistido.
Era o ano de 1990. Muitas coisas que vemos hoje, naquela época ainda podiam ser consideradas como pertencentes ao reino da ficção científica. Por isso estranhei muito quando William um dia me falou de telefones enviando imagens instantâneas, de drones e muitas outras coisas. Ele me dizia que a data parecia correta – 1990 – mas tudo mais parecia ter voltado. Andou lendo coisas na biblioteca, jornais, revistas e ele praticamente sabia de tudo mas as datas estavam embaralhadas. Achou que tinha definitavamente enlouquecido.  Tudo que via e lia pareciam ter acontecido há 20 ou 30 anos atrás. As coisas atuais – para ele - haviam desaparecido e as datas dos jornais e das revistas pareciam estar erradas. Estava certo agora de que precisava da ajuda de um psiquiatra. Antes de ver um médico para a cabeça, no entanto, achei que ele deveria ver um  médico regular, pois as duas pequenas queimaduras, uma na testa e outra no pescoço, que William tinha desde o primeiro dia,  haviam aumentado bastante. Falei com ele sobre isto mas ele não me repondeu. Seu pensamento estava distante. Alguma coisa estava mudando em sua mente, tinha certeza disso. Talvez a vida que ele estava levando, dormindo aqui e ali, em bancos de praças, no mato, comendo  coisas que as pessoas lhe davam, estivesse mexendo com seu orgulho, talvez o que quer que seja que lhe tenha acontecido, agora estava realmente pesando. Não foi falta de convidar: várias vezes para passar uns dias em casa, para passar fim de semana, para jantar. Nunca aceitou mas sempre agradeceu polidamente. Tinha deixado meu número de telefone com ele para alguma emergência mas ele nunca me ligou. Normalmente eu o encontrava no final do dia, no caminho de casa. Estava sentado em dos bancos da praça. Sempre passava algum tempo com ele, conversava. Mais de dois meses haviam se passado desde que ele “aparecera” na nossa  comunidade.
(CONTINUA...)