Saturday, October 27, 2012

O Padre João


O Padre João

Faz muito tempo.  Quando conheci o padre João fazia apenas alguns anos que ele havia sido ordenado. Era um ser humano espetacular. Olhava para mim e para os outros como seres humanos e não simplesmente  como pessoas que frequentavam a igreja. Existe uma diferença mas não cabe aqui explicar. Podia se dizer que tinha “humanidade”. Mas havia outra coisa sobre o padre João. Ele tinha uma tristeza lá no fundo dos olhos. Não sei como uma criança era capaz de “ver” essa tristeza, mas eu via.
Chegou a hora e o padre João foi transferido não sei para onde. Eu também fui para outros lados, não virei ateu nem nada mas me afastei da igreja. Nunca mais o vi até muitos anos depois. Circunstâncias completamente novas, uma tremenda coincidência. Conversamos muito. Foi muito diferente, eu era então um adulto, bem adulto. A parte boa foi que ele não tinha mais aquela tristeza no fundo dos olhos. E a grande surpresa, ele estava casado! Não entrei em detalhes mas acho que foi com autorização da igreja. Com Deus eu tenho certeza que ele se entendeu direitinho. Posso garantir que Ele entende muito bem essas coisas, muito mais do que seus próprios apóstolos aqui na terra. Imagino que o João, pois agora ele não era mais padre, explicou que não dava, que não era aquilo que ele queria, para Ele entender, etc...Tenho certeza também que nem levou bronca, até levou um tapinha nas costas, se é que Deus faz essas coisas. O que  eu quero dizer é que eles se entenderam, que tudo está bem. Noutro dia ele me  apresentou sua esposa. Imediatamente percebi que ela gostava dele. Que bom!
Preciso consertar só um pouco esta história, que por sinal é verdadeira. Sabe a tristeza no olhar? Sumiu, é verdade, mas acho que ficou um pouquinho. Um pouquinho só. Talvez porque ele achasse que no fim das contas acabou “falhando” com Deus, talvez porque lamentasse uma época que ele “perdeu” sendo padre. Se for a segunda hipótese, melhor não mencionar quando estiver falando com Ele em suas preces, pois sei que ele ainda se ajoelha de vez em quando. Acho que não fica bem. Voltando ao assunto da tristeza, certeza eu não tenho, mas acho sim que havia mesmo um restinho...

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Essa vida da gente

(crônicas e contos sobre o cotidiano)







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Friday, October 26, 2012

Meu Cérebro Ainda Funciona...


Meu Cérebro Ainda Funciona...

Não quero chocar você com a minha situação e é por isso que vou lhe dar as notícias bem devagar. Na verdade eu também fiquei sabendo das coisas aos poucos. Se assim não fosse, acho que meu cérebro explodiria e ele é tudo o que eu tenho, se é que você me entende. Vamos devagar, não quero atropelar minha narração. Eu acordei e, pelo menos durante os primeiros segundos, achei que estava tudo normal. Logo a seguir, porém, percebi que estive dormindo há muito tempo. E esse foi o primeiro susto que  tive. Não sabia por quanto tempo tinha estado “ausente”, ou onde estava e nem mesmo quem eu era, mas, positivamente, sabia que muito tempo tinha se passado. A gente, ou pelo menos eu, quando passa por uma situação muito difícil ou diferente, imediatamente muda as referências, muda o padrão de exigências, para que as coisas fiquem aceitáveis. Claro, que mais podemos fazer? Não é por isso que, quando alguém morre, dizemos que “foi melhor, estava sofrendo muito”? Ou se ele não estava sofrendo, dizemos “ainda bem que morreu em paz” ou ainda “não viveu muito mas foi feliz enquanto estava vivo” ou qualquer coisa assim? Sempre achamos que poderia ter sido pior. No meu caso, entretanto, foi e está sendo difícil arrumar uma boa comparação, ou uma referência qualquer para me consolar. Você vai entender, vai ser difícil algo que possa ser pior ou pelo menos mais estranho. Logo, logo, você vai compreender o que eu quero dizer.
É difícil explicar o que estou sentindo. É como não ter corpo. Sinto que tive sempre uma vida cheia de coisas, de responsabilidades, de pessoas à minha volta mas não me lembro de nada, de ninguém, nem de meu nome. Outra coisa interessante: não vejo nada mas também não está escuro. Escutar coisas eu escuto, mas é de um jeito estranho. É como  ouvir as palavras sem som. Como se elas estivessem entrando em forma pura no meu pensamento. Parece óbvio que eu estou sob o efeito de drogas, drogas fortíssimas. Justo eu que não gosto de tomar remédios, nem aspirina. Mas não tenho certeza disso também. Pode ser outra coisa. Por que estou aqui, como cheguei a esse ponto? Não tenho a menor ideia. Não posso reclamar de dor. Isso eu não sentia e não sinto agora. É como se eu estivesse existindo sem corpo. Não consigo parar de repetir isso mas é bem o que estou sentindo.
O tempo passa rápido mas não importa, pois não tenho a menor ideia da época em que estou, não tenho referência, você entende? Algumas coisas mudaram desde que tomei consciência dessa minha inconsciência. No começo eu ouvia conversas mas não sabia o que estavam falando. Agora escuto frases e conversas inteiras. Mas não estão falando de mim, não. E, embora eu entenda o que eles estão falando, não adianta muito pois eu não sei qual é o contexto, qual é a referência. É  como ler um pedaço de um livro ou assistir a um pedaço de um filme sem saber o começo nem o fim.
Algo muito importante está acontecendo agora. Estou tendo uma experiência fantástica. Estou andando numa estrada muito bonita, com casas luxuosas aqui e acolá, uma paz sem par, como nunca tinha experimentado antes. Interessante sou eu e não sou eu. Sei que sou eu quem está caminhando, mas não sinto que sou eu. Ou é ao contrário? Isto está gravado em minha cabeça, não vou esquecer. Parece que alguém colocou estas imagens lá. Outras vezes eu estou numa sala conversando com pessoas. Minha voz não sai mas as pessoas assim mesmo respondem, conversam comigo. Todos estão felizes, riem muito. Acho que gostam de mim. Não devem estar sabendo do meu estado. Acho que conheço essas pessoas mas não sei de onde. Também não sei o nome de ninguém. Mais estranho ainda, ao mesmo tempo em que eu participo da pequena reunião eu sou também um espectador. Quero dizer, estou observando a mim mesmo, que fala animado, conversa. Isso é bom.
Começo a sentir melhor o espaço. Quando nada está acontecendo, tenho a impressão  de que estou numa sala. Não vejo nada mas sinto a presença de pessoas circulando, falando. Acho que não falam de mim. Acho que não me vêem, mas não tenho certeza. Sinto pela primeira vez  o corpo, mas como tudo mais, não parece meu corpo. Talvez a lembrança de um corpo? Por pouco tempo. Agora a sensação está indo embora. Cada vez mais posso entender o que as pessoas estão conversando na sala. Estou pensando comigo mesmo – gozado falar isso, nunca tinha pensado nessa expressão - estou pensando “comigo mesmo”...Eu deveria estar preocupado com a situação. Com certeza o que está acontecendo comigo não é nada normal. Gozado, não consigo me preocupar. Estou curioso, porém. Estava falando “normal” mas agora tenho dúvidas. Quero dizer. Nem sei mais o que é normal.
A última vez que ouvi conversas na sala, tive certeza de que falavam de mim. Dessa vez era de mim que eles falavam. Duas pessoas estavam discutindo sobre minha pessoa, sim senhor. Falavam como se eu não pudesse ouvir. Um deles dizia que estava preocupado. Que, se pudesse, não teria participado de tudo aquilo. Podia sentir tristeza não na sua voz, não na voz, na sua...não sei dizer o quê. Porque o que eu ouvi não era som, era como se fosse um pensamento. O outro parecia menos procupado, parecia mais excitado com o que estava acontecendo, seja lá o que fosse.
Cada vez mais fico “próximo” dos dois. Interessante, pois posso sentir que os dois também me “sentem” mais. Acho que nunca vou conseguir explicar a sensação. Eles falam coisas estranhas, às vezes. Tão estranhas que eu acho que não pode ser verdade e eu me recuso a pensar nelas. Desta última vez, entretanto, a conversa foi tão direta, tão explícita, que fui obrigado a acreditar e enfrentar a realidade.
Um deles estava ficando irritado com o outro. Não estava mais aguentando a choradeira. Acho que o “outro” estava com pena de mim, estava comovido com a minha situação, que nem eu sei qual é. Mas além de comovido, acho que ele estava preocupado. Eu estou ficando bom nisso. Consigo cada vez mais “sentir” as pessoas por dentro, pelo menos aquelas duas, sem mesmo vê-las. No meio do bate-papo dos dois, o primeiro, aquele que estava irritado, falou algo que realmente mudou tudo. Interessante que ele tinha falado a mesma coisa antes mas eu não tinha percebido o verdadeiro significado. No meio da discussão, ele falou para o “outro” parar com aquela choradeira, pois “aquilo era apenas um cérebro”. Antes eu sempre achei que quando ele falava “cérebro” ele se referia a minha pessoa inteira. Sabe, como quando a gente fala que alguém é “uma cabeça”? Foi aí que senti a coisa toda. Eu era apenas um cérebro mesmo. E desta vez ele falou tudo. Eu era “um cérebro mergulhado num líquido especial e com centenas de microfios ligados, tudo dentro de um cilindro de vidro”. Acho que ele mencionou também que havia uma máquina. Eu só percebi que eu era “um cérebro” mesmo, quero dizer só um cérebro, sem corpo, porque ele usou a palavra “aquilo” junto. O “aquilo” era eu. Senti um choque mas logo me recuperei. Por pior que fosse a realidade, havia alguma coisa que eles tinham feito em mim que não me deixava ficar angustiado, humilhado ou triste. Também não sentia alegria. Como tudo havia acontecido? Não sei. Talvez um acidente? Ou será que foi tudo de propósito? Também não sei. Não me importo com isso. Sem problemas. O que vai acontecer? Não sei e não me importa. Eles devem saber o que estão fazendo. E se não souberem ou se for algo abominável? Não importa também. Eu sei que eu deveria estar desesperado, deveria estar angustiado e sentindo as piores sensações que uma mente pode sentir. Mas não...não sinto nada. Agora você entende porque eu disse no começo que queria explicar tudo devagarinho. Também agora você pode entender quando eu falei que “cérebro é tudo que eu tenho”...Definitivamente, cérebro é tudo que eu tenho.
http://www.bc.edu/

Tuesday, October 23, 2012

As Marmitas do Senhor Bonifácio

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As Marmitas do Senhor Bonifácio

A marmita que a dona Eleta preparava para o senhor Bonifácio era uma obra de arte. Tinha cinco andares. Cinco vasilhames redondos de alumínio com alças dos dois lados, por onde passava uma peça que se transformava em uma alça. Eu era muito criança e a marmita era desproporcional para o meu tamanho. Eu tenho certeza de que uma  das marmitas tinha feijão e a outra tinha arroz. Isso era sagrado. As outras três levavam as misturas. Era um cheirinho muito gostoso. Ah, havia também, amarrada pelo gargalo, uma garrafinha verde com uma rolha de cortiça, que continha o café, que, após minha longa jornada ainda chegava quente na fábrica de cimento. Garfo e colher eram seguros por um elástico num dos lados. Não me lembro da data exata mas com certeza eram os anos cinquenta.
O roteiro era perigoso para um garoto com menos de 10 anos. Mas ninguém temia, nem as mães nem as crianças. Acho que havia mais anjos da guarda naquela época ou, pelo menos menos, demônios. Saía de casa sempre no mesmo horário e começava a minha jornada. Descidas, curvas para a direita e para a esquerda, casarão da esquina, correio e lá no final havia uma esquina e começava uma reta.
Nessa época acho que nenhuma rua era asfaltada. Algumas eram cobertas com paralelepípedos e outras ainda eram de terra ou cobertas com cascalho.Quando chovia, as ruas de terra lá do alto eram perigosas porque eram um barro só e as lá de baixo se enchiam de água. Alternávamos nossas pequenas tragédias e continuávamos nossas vidas.
E eu também  continuava meu caminho até  atravessar uma pequena ponte e dali a pouco atingir a parte mais arriscada da viagem: um túnel que passava por baixo da estrada de ferro e que era usado para conduzir as águas do rio do nosso bairro. No cantinho havia uma pequena passarela por onde eu andava com cuidado, olhando para as correntes de água passando quase junto a meus pés. A seguir já era possível se ver as grandes chaminés da fábrica de cimento. Caminhava então pelo chão coberto pelo pó cinza, quase verde, enquanto ouvia o apito anunciando o horário do almoço. Do meu lado esquerdo estendia-se uma grande cerca de arame. Os fios eram muito grossos , cobertos que estavam com o mesmo pó.
Após algum tempo podia ver pai me esperando. Ele dava um largo sorriso. Também quem não daria, faminto,  vendo chegar um almoço gostoso daquele? Sentávamo-nos no refeitório. Enquanto ele fazia seu ritual, escolhendo as marmitas, pegando os talheres, eu observava os outros trabalhadores. Conversando, rindo, apesar do cansaço. Eu tinha certeza de que meu pai era o mais importante de todos, o mais forte de todos, o mais...tudo. Era uma parte gostosa do dia. Afinal eu estava lá cumprindo a minha importante missão. Depois de algum tempo ele encerrava sua refeição, arrumava toda a tralha, dava um tapinha nas minhas costas e me mandava de volta para casa. De novo, aquele sorriso de felicidade. Não que ele sorrisse sempre. Mas quando sorria, você dava valor. Ele também  não era de ficar fazendo carinho, dando abraços o tempo todo, etc...Ainda assim eu achava que ele era o paizão mais afetuoso de todos, o senhor Bonifácio.
O tempo passou.
Já tinha dois filhos e com eles ia sempre visitar meus pais em Perus, que era perto de onde eu morava. Não havia mais fábrica de cimento, nem marmita, nem a caminhada, e a infância, então, já tinha ido embora há muito tempo e agora era de propriedade dos meus filhos. Quando abria o portão, deixava os dois correrem para frente. Meu pai, que estava sempre abaixado, cuidando de sua horta, levantava-se, firmava a vista e dava um sorriso. Era exatamente o mesmo sorriso de quando eu ia levar suas marmitas. E esse sorriso era diferente dos outros seus sorrisos.
Foi só aí que eu entendi. O sorriso não era por causa do almoço que eu estava trazendo. O sorriso era para mim. Era a alegria de me ver. Agora que eu tinha crescido, ele havia transferido esse presente para os netos. Era um sorriso quieto mas enorme. Era do tamanho do mundo. Agora, que eu estou aqui escrevendo, mais velho do que ele, eu posso sentir...sentir que  ele está olhando de novo para mim, sorrindo...de novo, como se eu fosse ainda uma criança.



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Obs.:  A crônica acima não pertence ao livro abaixo.


Essa vida da gente

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Sunday, October 21, 2012

Lembranças


Lembranças
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O sr. Ayala estava ficando velhinho. Sua memória e sua saúde, no entanto, estavam muito bem, obrigado. Estava aposentado mas nem por isso deixava de fazer suas tarefas. A dona Mercedes tinha o maior orgulho dele. Imagina só, naquela idade fazia tanta coisa. Na casa consertava tudo que estava quebrado . Quando dona Mercedes fazia um elogio para ele nas conversas com amigos, ele ficava sem graça e dizia que, aqui na América, era tudo fácil. Tinha ferramenta para tudo. Qualquer um podia ser um profissional... E dava um sorriso acanhado. Não gostava quando a esposa ficava se gabando desse jeito. Ele não era homem que gostasse de ficar “aparecendo” para os outros.
Nas  horas de descanso lembrava-se, como se fosse hoje, de quando seu pai e toda a família chegou na Georgia, vindo de Porto Rico. Todos animados e com esperança. Ele era muito pequeno mas agora sabe disso,  quero dizer, da esperança. Depois disso se mudaram para a California e para o Colorado. Finalmente quando se casou veio morar na Flórida e lá estava há muitas décadas. Lá atrás falei que a memória dele estava muito bem. Para dizer a verdade, deveria ter usado um “quase”. Aos 83 anos, vez ou outra o sr. Ayala se esquecia de alguma coisa. Nada grave. Às vezes não se lembrava onde tinha colocado uma ferramenta ou se esquecia de tomar os remédios ou de tomar café pela manhã. A dona Mercedes falou em ir ao médico mas ele de cara descartou essa possibilidade. Era teimoso o sr. Ayla. Mas era de uma teimosia simpática. Assim como dona Mercedes: uma simpatia. A vida toda uma companheirona. Tiveram só uma filha, a Carlotta. O Ayala sempre falava que a Carlotta era uma filha tão boa que eles não precisavam de outra. Foi por isso que ela se tornou filha única. E ela amava seu pai, cuidava dele, estava sempre visitando os dois e cuidando deles.
Toda manhã o sr. Ayla dava umas voltas pelo quarteirão. Era gostoso. Cumprimentava os amigos, acenava para os estranhos, via as novidades. Quando passava pela praça, sentava-se um pouco no banco antes de continuar. Aquele dia, porém,  ele estava um pouco mais cansado do que o normal. Sentou-se, respirou fundo. Olhou para as árvores e de repente sentiu uma pequena tontura. Ficou um pouco lá e depois tentou se levantar. Não conseguia, estava com uma espécie de vertigem. Esperou um pouco e depois  percebeu que não havia porque se levantar. Ele não conseguia se lembrar para onde tinha que ir. Não se lembrava de nada. Não sabia mais nada. Ficou um tempo com os dois olhos perdidos nas copas das árvores do parque. Finalmente alguém se aproximou e perguntou:
- O senhor está bem?  Está se sentido bem?
Ainda ouviu mais uma vez “O que o senhor está sentindo?” , depois foi um branco total.
Não sei quanto tempo depois, mas foi muito, o sr. Ayala estava numa cama de hospital. Ainda bem que encontraram documentos em seu bolso. Quando ligaram em sua casa para falar com a Dona Mercedes, ela já tinha ligado para todo lado. O marido estava desaparecido há horas e ela sabia que isso não era bom. A Carlotta veio correndo, com um medo triste no coração.
Lá estavam aflitas a mulher e a filha, ao lado da cama, esperando o Ayala acordar ou “voltar”. Graças a Deus ele estava vivo e não tinha ferimentos. Os médicos ainda não sabiam o que ele tinha. Estavam esperando os resultados dos exames.
Devagarinho ele foi abrindo os olhos. Não entendeu nada, não sabia onde estava. Não se lembrava do que acontecera, nem quem ele era. Um vazio enorme na cabeça. Foi aí que viu as duas mulheres, uma em cada lado de sua cama. Uma tinha cerca de  30 anos e a outra era apenas uma menina de cinco anos. Ele sorriu para as duas. Aquele sorriso de quem conhecia as duas. Claro, aquela era sua esposa e a menina era sua filha. Não entendia porque estava todo mundo ali. A Mercedes tinha de estar no hospital trabalhando, ela  era uma enfermeira em Denver, Colorado. A sua filha, a Carlotta, deveria estar na escola. Não entendia o que elas estavam fazendo ali, àquela hora. As duas eram lindas. Continuou sorrindo. As duas, aliviadas, sorriram de volta.
Por algum mistério do corpo humano o cérebro do sr. Ayala apagou tudo e voltou mais de 50 anos no tempo. Voltou para a melhor época de sua vida e estancou lá. Não havia nada que o fizesse voltar. Mistérios do ser humano. Voltou para a casa onde a esposa cuidava dele com carinho. A Carlotta vinha quase todos os dias também. Ele sorria muito, sorria o tempo inteiro. Como era bonita a sua Mercedes. E a Carlotta, ele podia garantir, quando crescesse, seria a moça mais bonita da cidade. A mãe e a filha estavam muito tristes com o que acontecera com a cabeça do sr. Ayala mas ele sorria tanto que elas acabaram se conformando. Elas sabiam, que por algum mistério da natureza, ainda assim, ele era um homem feliz...

Saturday, October 13, 2012

As coisas que fiz no dia de hoje



As coisas que fiz no dia de hoje
Autor: Flávio Cruz

Era um emprego que definitivamente causava desgaste. Entretanto toda manhã Brian chegava disposto e alegre. Minha função era verificar se ele estava bem, se estava pronto para o trabalho. Estávamos no começo do século 22 e nós, humanos, não mais fazíamos esforço físico, apenas tínhamos funções de controle. Nosso departamento cuidava dos clones. Esses  sim trabalhavam duro. Quando havia algum problema com eles, eram enviados para nós. Nós os fazíamos dormir e os colocávamos numa grande máquina.  A maioria tinha problemas fáceis de se resolver e imediatamente os fazíamos voltar para o trabalho. Alguns poucos, no entanto, perecisavam de mais cuidados. Para ser franco, quando eles precisavam de muitos cuidados, nós...bem, nós encerrávamos suas carreiras. Na verdade essa era a função do Brian, a minha, como eu disse, era ver se ele estava em condições de executar as suas obrigações. Você deve estar se perguntando porque todo esse cuidado com o Brian. Bem, não era nada fácil tomar as decisões que Brian tomava. Estávamos em uma época de paz, de grande respeito pela vida, praticamente não havia violência.  Na verdade a única coisa estranha que ainda restava na nossa civilização era essa história de clones. Eles eram geneticamente “configurados”  para exercerem funcões específicas, exatamente como haviam previsto grandes escritores e cineastas nos séculos 20 e 21. Tínhamos assim duas grandes classes de seres humanos: nós e os clones. Eles eram humanos, por mais que os cientistas  apresentassem argumentos ao contrário. Verdade é que a engenharia genética fazia de tudo para que eles não se parecessem conosco. Os sentimentos, a sociabilidade e a emoção em geral eram mantidos no menor nível possível: apenas o suficiente para executarem seus trabalhos. A inteligência prática era aguda, objetiva, aguçada e direcionada. Apesar de toda a tecnologia que tínhamos, às vezes as coisas  não davam certo.  De certa forma, lá no fundo, alguns simplesmente se recusavam a seguir seu destino. Era como se, aquilo que antigamente chamávamos de alma ou espírito, se recusasse a aceitar o que a ciência genética estava obstinada em fazer. O Brian, eu não queria estar na pele dele, tinha que tomar aquelas decisões horríveis. Pior que isso, tinha que executá-las. Como disse, não valia a pena muitas vezes tentar “acertar” um clone que estava com problemas. E Brian tinha que ir até o fim, ou seja, apertar o botão - na verdade um leve toque na imagem holográfica projetada pelo computador – e esperar alguns segundos até que o corpo fosse desintegrado. Ironicamente entre os “não-clones” era dificil encontrar alguém com essa frieza de tomar a decisão e executá-la. No final do dia Brian estava uma lástima, sentia-se um monstro. Como éramos bons em criar e também destruir os clones, tínhamos de ser bons também em resolver problemas iguais aos de Brian. Havia outras funções  iguais às do Brian. Essa parte era eu que fazia. Colocava o Brian numa pequena célula, ajustava uns terminais em sua cabeça e...deletávamos todas as más memórias do dia. Mais do que isso, substituíamos essas imagens por outras muito mais agradáveis.  Todos os dias Brian ia para casa feliz pelo bom trabalho que tinha feito ao longo da jornada diária. Não se lembrava de nada desagradável. À noite fazia o que gostava de fazer em casa e no dia seguinte começava um novo dia, cheio de boas lembranças...
Ainda assim, momentos antes de cada sessão de “deletamento” Brian sofria muito com remorso do que acabara de fazer. Não achava certo também deletar as memórias como se nada tivesse acontecido.

Ele foi muito habilidoso, de tal forma que eu não percebi quando burlou o procedimento. Para ser franco nem sei ao certo como ele fez. Por não ter deletado as lembranças do dia, passou uma noite horrível pensando em todas as coisas que teve de fazer. No dia seguinte, quase  não autorizei a sua entrada na sala de procedimentos.  Era como se ele estivesse punindo a si mesmo. Pela segunda vez ele conseguiu se livrar do deletamento. Foi o que acabou com ele. Passou a noite se torturando. Ele ainda conseguiu vir trabalhar. Deve ter usado algum mecanismo tranquilizante antes de vir. Uma vez dentro de sua sala de operações, chamou um clone que estava liberado para trabalhar e deu algumas instruções para ele. Entrou na mesma célula onde já havia “desintegrado” inúmeros clones e esperou. O clone seguiu à risca as instruções que recebera e no momento certo colocou seu dedo no cilindro holográfico. Brian e todo seu remorso desapareceram instantaneamente. O último suicídio registrado ocorrera há decadas. Inicialmente pensou-se que um clone havia se rebelado ou que houvera um acidente, coisa rara de acontecer. Depois, durante a investigação, ficou claro por pistas deixadas pelo próprio Brian, que era aquilo que ele queria. Achava que não merecia viver e que um clone deveria terminar com sua existência. Afinal...
A política de reciclagem de clones e da própria criação dos mesmos foi rediscutida após o incidente e inúmeras e profundas modificações foram introduzidas no programa. Este foi o legado de  Brian, o homem que achava que não se pode apagar as coisas que foram feitas  durante o dia...



Wednesday, October 10, 2012

A Lenda do Povo Feliz




A Lenda do Povo Feliz
Era um povo bonito, alegre, sempre a cantar. Não era só o cantar, era também o dançar, o gingar, parecia uma alegria sem par. Era sol, era chuva e nada e nem ninguém conseguia estragar a felicidade daquela gente. Às vezes vinha tempestade, outras vezes até inundação, mas nem isso tirava o brilho bonito das  faces. Havia um porém: algumas pessoas espertas estavam roubando das pessoas que não eram tão espertas. Aconteceu então uma coisa horrível. Um pessoal, que estava quieto, só olhando, quis consertar tudo. Consertaram e desconsertaram. Para consertar, machucaram quem não era para se machucar e isso foi seu desconsertar. Mas o povo era bom e esqueceu-se de de tudo, quase tudo. Lembraram-se apenas de algumas coisas boas que eles fizeram e ficaram só com elas na cabeça. Eu já disse, é um povo bom, que só tem coisas boas na cabeça. Daí vieram os que resolveram consertar o que havia sido desconsertado. E o povo se alegrou e se regogizou. Agora até podiam escolher a quem deviam obedecer. Novos tempos, novos ares, novos sonhos. E as pessoas que quase haviam parado de sorrir, novamente se alegraram. E foi um sorriso gostoso, alegre, que só aquele povo sabe dar. Daí, não sei como foi,  não sei o que aconteceu. Os que vieram para consertar, depois de consertar, começaram a estragar tudo de novo. O coitado do povo, sofrido, ainda assim continuou a sorrir, a dançar, a pular. Para alguns não tinha jeito, não. Um sofrimento danado,  amargura, fome, desilusão. Ainda assim, os danadinhos, de vez em quando, no intervalo da dor, cantavam um pouquinho, davam um pequeno sorriso que é para não esquecer o que é felicidade. Outros nunca pararam de sorrir, povo danado de alegre que era esse. O estrago  foi ficando pior, mas eles, os que mandavam, mandaram dizer que estava tudo bem, que tudo estava melhorando. Esse povo que acreditava em tudo, nisso acreditou também. Não dizem que a profissão do povo é a esperança? Foi assim que todos, animados, esperaram tudo melhorar. Viveram para ver o futuro chegar. Viram o que era para ser visto. Que tudo estava melhor. Afinal de contas, não é essa terra, uma terra bonita? As praias são tão belas que não há nada igual. O clima, meu Deus, não poderia ser melhor. Que paisagem! Palmeiras, flores, frutos tropicais.  Ah, e como esse povo sabe cantar! Dançam de um jeito que ninguém sabe dançar. Ah, o sorriso, podem apostar: não há gente no mundo que saiba sequer imitar. Que ironia! Tanta alegria, tanto sorriso, tanta arte, almas tão boas, bom-humor sem fim... E alguns poucos a explorar a grande maioria. Será que não há ninguém bom para governar?
O meu amigo, Nino Belvicino, metido a filósofo e outras coisas mais, me explicou. É uma questão de equilíbrio cósmico. Existem terras onde há governos excelentes, mas o povo não sabe sorrir e dança mal. Há outras com governos muito bons mas daí vêm o terremoto e o furacão. Daí, mesmo sabendo, o povo não consegue cantar. Há casos ainda piores: o governo é ruim e, em cima disso, há tempestades e vulcões, além do povo não saber cantar. Há lugares onde as pessoas até conseguem sorrir um pouco e o governo é bom. Mas a alegria não vem de dentro e além disso, quando sorriem, não se pode ver por causa do tempo ruim. Ninguém tem tudo, não dá. Por isso que digo que esse povo aqui da nossa história, tivesse quem soubesse governar, meu Deus, estaria no paraíso... Daí, a gente teria que controlar as fronteiras com esse mundão todo querendo  vir para cá. Não se pode querer tudo. Claro, um governo pelo menos um pouquinho melhor não seria pedir muito. Vamos esperar, quem sabe... Por enquanto, povo querido, continue a cantar, a sorrir e a bailar... porque não se sabe ainda o que vai te sobrar!

Monday, October 8, 2012

O Harold quer conversar

O Harold quer conversar
Dave Bowman: Open the pod bay doors, HAL. 
HAL: I'm sorry, Dave. I'm afraid I can't do that. 
Dave Bowman: What's the problem? 

(O computador Hal 9000 no filme    
"2001 - Uma Odisseia no Espaço"
falando com Dave, o astronauta)

Eu não sei o que deu no Harold nesses últimos dias. Ele está ansioso, aflito, me chama a todo momento. É  muito estranho. Talvez não tanto para você, mas para mim realmente é algo extraordinário. O fato é que você não sabe que o Harold não é gente, é um computador. Meus amigos astronautas que já viajaram pelo espaço com um desses, já haviam me alertado.  Os cientistas encarregados de viagens espaciais estavam desenvolvendo há muito tempo a inteligência emocional para inserir nesses computadores que coordenam longas viagens tripuladas pelo espaço. Sabe, assim dão um toque mais humano, os astronautas sentem que têm companhia, a solidão fica mais tolerável etc. Não é nada fácil ficar anos isolado numa nave vagando pelo espaço. É verdade que a maior parte do tempo estamos ou congelados ou em coma profundo induzido. O problema com o Harold é que ele está agindo de uma maneira muito além do que um computador “humanizado” deveria ou poderia ir. Eu posso sentir que existe algo por trás. Está querendo conversar, querendo me convencer que ele pode ser mais amigo do que um amigo de carne e osso. Fico constrangido pois eu sei que ele é uma máquina. No entanto, ele é muito convincente. Não me lembro de ter um amigo que tivesse tentado ser mais camarada  comigo do que o Harold. Outro dia fiquei até emocionado quando ele falou de minha infância, confidenciou que me compreendia mais do que eu poderia imaginar. Aliás não sei quem deu autorização para inserir dados pessoais meus em sua base de dados. Preciso entrar com um pedido de explicações. Ele garante que não foi nada disso, que ele “leu” meus pensamentos. Conversa fiada, sei que isso não existe. Mas voltando à “história da minha infância”, ele falou algumas coisas que faziam sentido e me  emocionei. Eu disfarcei mas acho que ele percebeu. É muito esperto, o Harold.

Mas não estou aqui para falar de minhas coisas pessoais. Eu quero falar da minha missão, isso que é importante. Desculpe, devo dizer “nossa missão”, como o Harold faz questão de me corrigir o tempo todo. Ele é muito habilidoso. Este Harold... Não sei como o Dr. Litvac consegiu desenvolver um software como esse para inserir no Harold. É demais. É interessante pois o Dr. Litvac em si mesmo não é uma pessoa emocional. Pelo contrário, poderia dizer até que ele é completamente frio. Na verdade, ele mesmo não precisa ser uma pessoa muito humana para fazer o que faz. Nas últimas décadas o que eles usaram aqueles pobres clones para extrair dados sobre a natureza humana, meu amigo, você não vai acreditar!

 Apocaliptus

Não quero me estender muito a respeito desse assunto pois tenho algo mais importante para contar. No momento estou estacionado aqui neste planeta, dentro da Constelação Centauro. Ele foi designado como EB2235 pela comissão espacial da Terra, mas nós, os astronautas, o chamamos apenas de “Apocaliptus”. Faz sentido como você vai ver. Ele foi o primeiro planeta onde se detectou vida inteligente fora da Terra. Podia se notar pelas transmissões que recebemos, que eles estavam a pelo menos cinco séculos na nossa frente em termos de tecnologia. Recebemos sinal verde deles para fazermos uma visita. No entanto uma tragédia aconteceu. Como você sabe, mesmo agora, com essas fantásticas naves que temos, demora muito tempo para se chegar aqui. No meio da caminho, em nossa primeira viagem, algo aconteceu com o planeta.  Ele foi completamente destruído. Agora mal dá para se notar as características gerais da forma de vida que eles tinham. Não conseguimos até agora nem sequer descobrir qual foi a causa principal do desastre. Há suposições apenas. Essa minha é a terceira missão da Terra após o fim da civilização dos Xtrons, como eles eram chamados. Você deve estar se perguntando: “Se está tudo destruído, por que mandar outras missões?” Na verdade há uma boa explicação para isso. No meio da devastação total descobriu-se que havia ainda sinais sendo emitidos do subsolo. De um ponto específico, entretanto. Pelo pouco que se sabia dos meios de comunicacão usados por eles, pudemos concluir que essas novas mensagens não eram muito amigáveis, que não queriam que nos aproximássemos ou que tentássemos ir até o subsolo. Havia várias teorias. Alguns pensavam que havia um esconderijo onde os dirigentes do planeta haviam se refugiado para sair depois que as coisas estivessem seguras. Outros achavam que quem estava lá embaixo eram  os “bandidos” que haviam destruído a civilização dos Xtrons e estavam se preparando para sair e habitar novamente o planeta. Alguns cientistas pensavam que lá houvesse apenas inteligência artificial esperando que algum tipo de ser vivo, talvez o próprio humano, aparecesse de forma que eles pudessem usar seus corpos e instalar um “império da máquinas” ou algo assim. Ninguém sabia ao certo. O que  todos sabiam era que lá dentro havia energia e artefatos capazes de destruir o planeta novamente e qualquer nave que estivesse na superfície ou em órbita.


Incorum

As intruções “fora do computador” que eu recebi antes de vir, foram claríssimas. Aquela missão era de pesquisa, visava a colher mais dados sobre a situação. Em hipótese alguma deveria ser tentado algum tipo de contato ou intrusão na área, que passara a se chamar de “Incorum”. Nem que ficasse claríssimo que não havia perigo, jamais, em hipótese alguma, qualquer coisa do gênero deveria ser tentada.
Agora, voltando ao Harold. Ele sabia dessas ordens melhor do que ninguém. Mesmo assim, várias vezes, comentou que “a área estava livre agora” e que o contato não só era possível, mas necessário. Começou sutilmente, depois foi ficando agressivo, insistente, como falei no começo desta narrativa. Isso estava me incomodando muito e em determinado momento, avisei que, se ele não parasse, eu teria de desabilitar algumas de suas funções, talvez deixá-lo só com a capacidade de navegação. O Harold sabia que eu poderia fazer isso e imediatamente recuou. Agora, no entanto, ele estava tentando me manobrar de outro jeito. Estava falando da importância épica daquela missão. Falava de como apenas grandes homens e não máquinas, como ele, eram capazes de transcender o momento e perceber que algo inusitado, inédito e heroico precisava ser feito. Aquele era um momento histórico para a humanidade. Talvez a única e última chance de descobrir o que acontecera no planeta Apocaliptus. Talvez naquela enorme caverna subterrânea estivessem segredos tecnológicos que a humanidade só alcançaria em mil anos. E assim por diante.
O Harold era brilhante e esperto mas eu sabia exatamente o que ele estava tentando. No entanto, me perguntava por que uma máquina estaria tão interessada no assunto. Será que o Dr. Litvac trinha exagerado na dose “humanística” do Harold e ele estivesse se tornando ambicioso, desbravador, como os antigos seres humanos? Hoje em dia nem os próprios terráqueos eram mais assim. Os cientistas desses novos tempos deixavam de lado as emoções e permitiam que as máquinas adotassem as medidas mais adequadas para a humanidade.
O Harold deixou claro o que ele queria. Ir pelo setor C da grande área do Incorum onde havia uma entrada. Era um setor onde seus sensores não podiam detectar quase atividade nenhuma e portanto seguro.  Eu deveria entrar lá com sua ajuda, colocar um pequeno explosivo, abrir a entrada e cuidadosamente penetrar no Incorum. Ele sabia o que eu deveria fazer e como. Nesse mesmo setor havia peças de hardware que estavam carregadíssimas com informações importantíssimas  para os cientistas da Terra, segundo ele. Seria uma missão perfeita e eu seria um herói. Diante das minhas constantes negativas, Harold parou por uns dias, como se tivesse desistido. Finalmente veio com uma outra proposta. Disse que entendia a minha posição e as ordens que recebera para aquela missão. Que admirava meu profissionalismo e como era  importante que houvesse seres humanos como eu para a integridade das missões. Ele era muito convincente. Sabia usar as palavras, o tom e o timbre certos para fazer com que sua mensagem penetrasse em meu cérebro. O que ele tinha descoberto, no entanto, era algo surpreendente e que mudava tudo, eu entenderia se ouvisse e certamente, na hora certa, o comando da Terra não só entenderia o que eu “tinha” de fazer, como também aplaudiria a decisão.

Sala de Interação Profunda
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Finalmente fez uma proposta bem clara. Ele pararia de insistir com uma condição. Eu deveria conversar com ele na “sala de interação profunda”. Era um lugar na nave onde o astronauta entra numa faixa de ondas cerebrais de baixíssima frequência, o que facilita o entendimento de informações difíceis ou em quantidade muito grande para um ser humano captar em condições normais. Eu logo entendi o perigo. Eu tinha amigos que já tinham usado essas salas em situações de emergência e os resultados foram impressionantes. Era como juntar a  capacidade da máquina e a sensibilidade e inteligência humanas e esse amálgama ser ampliado dez vezes. Era muito eficiente. Por outro lado, quem controlaria a situação toda seria o Harold e eu estaria em suas mãos ou em seus circuitos, como se dizia antigamente. Sutilmente ele sugeriu que a outra opção era ele continuar insistindo até o ponto máximo. Este “ponto máximo” obviamente soou como uma ameaça. Claro que o Harold amenizou a situação dizendo que aquilo era para o bem da humanidade, e que a sua geração de máquinas jamais prejudicaria um homem ou a espécie.
Eu pensei muito, principalmente numa área considerada “boba” da nave, ou seja onde onde o Harold não podia ver minhar expressões, juntar com bilhões de outras informações e talvez saber o que eu estava pensando. Tomei umas preocupações e depois avisei o Harold que concordava. Eu precisava sair daquela situação.
Sentei-me, a porta se fechou, a luz diminuiu e eu ouvi a voz do Harold, começando a explicar o que ele descobrira. Era impressionante. De acordo com suas descobertas haveria uma revolução em ciência muito maior do que a de dois séculos atrás quando o conhecimento da física quântica começou a  ser aplicada em termos práticos na ciência e nas nossas vidas. Havia uma música no fundo, linda, como eu nunca ouvira antes .Uma espécie de síntese de todas as canções de que eu mais gostava, multiplicada por mil. Os aromas gostosos de minha infância, sublimados, sintetizados. As faces e sorrisos mais lindos que passaram pela minha longa vida, todos de uma só vez. Eu me sentia como um jovem, quase adolescente. E as explicações continuavam. Estava com a mente numa sintonia maravilhosa. De repente o Harold parou de enumerar as decobertas que fizera no Incorum. Eu nem me lembrava mais quais eram. Agora ele raciocinava, mostrava o que tinha de ser feito. Entrar, capturar o equipamento. Eu estava achando lógico, absurdamente lógico, sem nem mesmo entender por quê... Estava prestes a concordar, em autorizar que ele prosseguisse com seu projeto. O timbre da minha voz seria a assinatura e abriria os códigos que autorizariam Harold. Foi aí que um alarme tocou.

O Relógio Antigo

O relógio que eu tinha era de ouro e era uma espécie de joia que não se via há mais de quinhentos anos a não ser em algum museu muito especializado. Tinha ganho  de um amigo astronauta que vivera mais de 230 anos, pouco antes de ele ter de se decidido por morte voluntária: muita gente fazia isso. Viver muito não era mais uma aspiração, era um problema. Eu sabia que o nono minuto dentro da sala de interação profunda era decisivo, era quando os humanos entravam em sintonia profunda com a máquina e tomavam suas decisões através da fala, numa situação que antigamente chamaríamos de “transe”. Eu sabia também que o Harold captaria e anularia qualquer alarme eletrônico que tentasse me trazer de volta. Pus o alarme para oito minutos, antes do horário de perigo e aí então poderia decidir o que fosse necessário não em estado de transe mas em meu estado normal.
Toda a argumentação que Harold fizera era falsa e era por isso que nem sequer me lembrava dela. Ele me tentara enganar e ele sabia que eu sabia. Ficou com uma admiração quase humana quando expliquei que tinha usado um alarme “mecânico” que ele não poderia ter detectado. Como não se fabricava um desses relógios há muito tempo ele não tinha registro de tal peça em seu imenso banco de dados. Apesar de estar furioso com o Harold, ainda brinquei:
-Desta vez eu te peguei, não é mesmo, Harold?

Harold e a Volta

Para evitar mais problemas, notifiquei o Harold que iríamos sair em 24 horas, horário da Terra. Assim que saíssemos da órbita do planeta EB2235, eu me prepararia para o processo de criogenia. Ficaria congelado poe décadas, até alguns meses antes de chegarmos ao destino final.
Agora que tudo está tranquilo, posso me preparar com calma para a partida. Eu sei que você talvez esteja preocupado com o que o Harold possa fazer enquanto eu estiver congelado. Ele pode tentar enganar a Central da Terra e procurar voltar. Sim, ele pode. Mas estou preparado para isso. Ele ainda não sabe. Estou todo sorrisos e ele nem desconfia. Assim que a rota estiver delineada, vou desligar suas atividades “extra-máquina”. É um segredo que nós, os astronautas, temos. Nós e o comando da Missão na Terra. Talvez o Harold desconfie, mas ele não tem certeza. Quando ele perceber, vai ser apenas uma máquina, de novo. Às vezes, até sinto pena do Harold. Ele quer conversar o tempo todo, tem aspirações, quer fazer grandes coisas, quer ser herói. Tenho pena mesmo...Sabe, essa vontade enorme e incontrolável que ele tem de ser como a gente...

Friday, October 5, 2012

O Menino da Rua Principal


O Menino da  Rua Principal

Era um dia exuberante de setembro de 1995. Naquela manhã a Rua Principal da pequena cidade se preparava para a rotina do dia. Lojas abrindo, cartazes sendo colocados na vitrine, fornecedores descarregando mercadoria para o comércio. A sra. Hartman, que tinha um pequeno negócio de roupas, chegara mais cedo e limpava o balcão.  Aguardava Lucy, sua empregada, para ajudar a trazer algumas caixas com vestidos do depósito. Foi aí que viu algo estranho. Um garoto, de seus  6 ou 7 anos mirava com um olhar vago as mercadorias da vitrine.  Estava usando um daqueles terninhos que as crianças de antigamente usavam. Não parecia perdido, mas certamente não era ninguém dali. Nenhuma criança daquela idade costumava andar pela Rua Principal naquela hora do dia. Estava absorta em seus pensamentos quando Lucy entrou falando bom-dia e se desculpando pelo atraso. Logo em seguida perguntou:
-Quem é o garoto?
-Também não sei, respondeu a sra. Hartman.
-Eu nunca vi esse menino por aqui. Também tenho certeza de que não é filho de nenhum de nossos fregueses. Estranho...

As duas foram para o depósito e quando voltaram o garoto já não estava mais lá. Foram até a calçada e viram que ele estava no próximo bloco olhando para os cartazes de uma mercearia. Duas horas depois, lá estava o garoto novamente em frente à porta, porém olhando para o outro lado da rua. Desta vez a Sra. Hartman acho melhor falar com ele.
-Ei, você, está tudo bem?
O garoto olhou um tanto surpreso...
-Sim.
-O que você está fazendo?
-Meus pais vão me encontrar por aqui. Eu não me lembro qual a loja.
-Qual o nome de seus pais?
O menino olhou surpreso e não disse nada. A Sra. Hartman então insistiu:
- E seu nome, qual é o seu nome?
Como se estivesse tentando se lembrar, o menino demorou um pouco e depois falou:
-Gary.
Diante do olhar interrogativo da Sra. Hartman, ele completou:
-Gary T. Parker.
-Ok, Gary, o que você está fazendo aqui? Está perdido? Pode falar comigo...
O menino olhou sem expressão para ela e não respondeu. A Sra. Hartman convidou-o para entrar e tomar água. Ele fez que não e mencionou qualquer coisa de ter de procurar o lugar certo. A Sra Hartman entrou novamente pensando em telefonar para a polícia. No caminho mudou de ideia e chamou o marido. O Sr. Walter disse que viria para a loja e depois decidiriam o que fazer. Enquanto isso ela procurou os vizinhos de comércio para perguntar sobre o menino. Alguns tinham notado, outros não, mas ninguém tinha a menor ideia de quem ele era. A essa altura, ele tinha desaparecido de novo. Quando o senhor Walter chegou e viu que ele não estava lá, resolveu guiar seu carro ao longo da rua para procurá-lo. Passaram-se uns dez minutos quando notou que o garoto estava sentado em um banco mais para o final. Estacionou, falou com ele. O menino respondeu com monossílabos e se recusou a entrar no carro. De volta na loja, o casal Hartman decidiu que, definitivamente, precisavam chamar os policiais, que logo chegaram. Rapidamente acharam o Gary e o trouxeram para a loja. O  policial ponderou que já era muito tarde – muitas horas haviam se passado -  e o serviço social que poderia cuidar do caso era em outra cidade. Haveria alguém que poderia cuidar do menino durante a noite? Imediatamente o casal se ofereceu e lá foi Gary, completamente em silêncio, para a residência dos Hartman. Comeu apenas metade do lanche que lhe foi oferecido, limpou-se, vestiu o pijama que a Sra Hartman guardava de seu neto, e dormiu no quarto de hóspedes.
Durante a noite o casal havia decidido que no dia seguinte dariam atencão total ao caso.  Logo de manhã dirigiram-se ao quarto do pequeno hóspede. Para sua surpresa o garoto não estava mais lá. O pijama estava  dobrado na cama e a porta do fundo do corredor estava aberta. Ele havia saído. Muito preocupados dirigiram o carro pela vizinhança perguntando pelo desaparecido. Nada. Foram até a Rua Principal e também lá ele não estava. Desapontados e preocupados ao mesmo tempo, avisaram novamente a polícia. Após os procedimentos de praxe, o chefe declarou que não podia fazer nada. Ninguém havia reclamado sobre uma criança desaparecida, não existia ninguém com esse nome nem lá nem nas cidades vizinhas. Era um mistério completo. Nem sequer poderiam recorrer a um órgão superior pois não tinham dados suficientes. Iriam parecer ridículos.
O tempo foi passando e as pessoas, como sempre acontece, foram se esquecendo do incidente. Menos o Sr. Walter Hartman, que, desde o início, tinha alguma coisa dentro dele falando que ali havia lago mais. Ele tinha tempo de sobra e começou a pesquisar: listas telefônicas, lista de crianças desaparecidas, casos misteriosos. Pesquisou até sete anos  antes, que seria mais ou menos a época do nascimento de Gary. Nada. Durante a pesquisa entretanto, notou alguns casos curiosos nos jornais e acabou se interessando pelo assunto. Foi voltando no tempo nas notícias de jornal. Em 1972 houvera um caso parecido de um garoto que havia surgido na cidade mas não tinham seu nome e havia apenas uma pequena nota no canto da página sobre o assunto. Em 1963 houve um caso de um garoto que apareceu à porta de uma residência procurando por seus pais. Chamaram a polícia , mas quando voltaram para falar com o menino ele havia sumido. O Sr Walter havia se tornado pertinaz em explorar o assunto e foi mais fundo. A Sra. Hartman já estava ficando aborrecida com o marido e essa nova mania que ele adquirira.
Mais uma vez, naquela manhã, dois meses depois do incidente, o Sr. Hartman sentou-se à escrivaninha e começou a pesquisar os jornais do ano de 1949.  Ao passar pelo mês de fevereiro teve um calafrio quando viu uma manchete: “Garoto desaparece depois de discussão dos pais”. De imediato ele sentiu que ali havia algo sobre o mistério que estava tentando resolver.  A história narrada pelo jornalista Stevens, na época, era de um casal que morava na Rua Principal da cidade e que  discutira muito durante a noite. Uma briga feia, deram murros na mesa da cozinha, atiraram coisas no chão. Só pararam quando ela, chorando, pediu para o marido parar por causa do menino. Ele deveria estar assustado depois de tanta confusão. O marido concordou e resolveu dar uma espiada no garoto para ver se ele estava dormindo. Ele havia sumido. A janela estava aberta. Imediatamente deduziram que ele ficara assustado com os gritos e resolvera sair. Esqueceram-se da briga e, desesperados, começaram a andar pelas ruas procurando pelo pequeno. Assim foi durante toda a noite. No dia seguinte chamaram a polícia, fizeram cartazes e daí para a frente foram dois meses de absoluta angústia. O resultado foi zero. O  filho do casal  não deixou nem uma pequena pista sequer. O casal Parker consumiu-se em desespero, culpa e remorso. Um dia de manhã, quando a irmã da Sra. Parker veio ver como ela estava, encontrou os dois mortos no chão, ao lado da mesa da cozinha. Haviam cometido suicídio em conjunto. Ainda havia um resto de veneno nos copos segundo o que a polícia apurou depois.  Tudo o que aconteceu foi demais para eles.
No final da notícia hjavia uma foto do menino desaparecido e embaixo o nome do garoto:  Gary T. Parker.
O Sr. Walter de certa forma resolveu o mistério do menino da Rua Principal. No entanto, reabriu outros, muito maiores, de um passado distante e sombrio...

Tuesday, October 2, 2012

Lamentações de Amor










Lamentações  de Amor

A  Regina foi embora. Ela me abandonou dizendo que eu não era bom o suficiente para ela. Foi tarde. Quem vai querer uma mulher que diz que você não é suficiente? O que ela quer dizer com “suficiente”? Além disso, o que ela pensa que é? Será que ela é tudo aquilo? Tenho de admitir que algumas coisas boas ela tem. Ela é muito bonita. Tem um sorriso que desmancha qualquer marmanjo. Os olhos dela, além de serem de um azul infinito, brilham...e brilham. Nem sei como explicar. Por outro lado, pensa bem, o mundo está cheio de mulheres bonitas e, além disso, muitas delas são mal amadas. O que vale é o que você é por dentro. Sabe, lá dentro do seu coração...E você sabe, a Regina...Nem sei o que estou falando. Ela é ótima. Tem um coração de ouro. É gentil, compassiva, paciente. Não vê maldade em nada e confia em todo mundo. Eu que sou um idiota, até que ela me aguentou muito tempo. Mas existem mulheres que, além de tudo, são inteligentes, sensíveis. Vou parar por aqui. Nem vou continuar. Tenho de confessar que a Regina é mulher mais sabida que eu conheço. Culta, raciocínio rápido. Tudo isso sem ser metida, sem ser arrogante. Fui eu que...Sabe de uma coisa, a Regina é boa em tudo, é perfeita. Claro que chegamos  um ponto que nem ela aguentou minha estupidez. Ah, Regina, não existe ninguém igual a você. E como você era meiga, suave...Não sei como fui deixar você escapar. Você  é, de longe, a melhor mulher do mundo. Você nem imagina a falta danada que estou sentindo de você...