Thursday, April 30, 2015

A Matemática da religião



A Matemática da religião

Escrever sobre religião é uma coisa muito perigosa. Sempre alguém fica furioso, o que, na verdade, não é nada religioso. Lá vou eu, entretanto. Peço desculpas por antecipação se ofendo alguém, não é minha intenção. A maior parte das grandes religiões, afirma que, quem estiver professando a fé errada, ou seja, outra que não seja a sua, deverá ir para algum tipo de inferno. Pensando assim, melhor que a correta seja o Cristianismo, uma vez que se constituem em 2.2 bilhões. Menos gente no inferno, mais gente no paraíso. Os muçulmanos vêm logo atrás, com 1.6 bilhões. Nesse caso é aconselhável que católicos e protestantes, sendo ambos cristãos, fiquem juntos, pois, separados, vão enfrentar as chamas do inferno, por se tornarem minoria. É aconselhável deixar as diferenças de lado e ficar só com o que têm em comum. Uma questão de sabedoria. Fico preocupado, entretanto, com a possibilidade de os hinduístas estarem com a razão. Eles são 1,1 bilhão e vêm logo atrás na contagem. Nesse caso, seríamos, os outros, mais de 3.8 bilhões indo para as chamas eternas. Seria um desastre.
Fiquei preocupado, também, com uma tal de religião chamada Movimento Rastafári, que tem apenas 600 mil adeptos. Até acho muito, por outro lado. Rastafári? Se todo o resto das religiões estiver errado e só ela certa, vão ser bilhões de pessoas no inferno. Haja lotação! Nem quero pensar numa coisa dessas!
Quero pensar, no entanto, em algo melhor. Que todas as religiões encontrem o que elas têm de bom em comum e esperem um Deus compreensivo e misericordioso perdoando a todos. Quanto àqueles que matam e fazem outras barbaridades em nome de Deus, só Ele mesmo para perdoar, pois nossa capacidade humana não chega a tanto. Quanto àqueles que maltratam as criancinhas, o próprio Cristo falou: “Ai daqueles que...”. Não sei se entendi direito, mas acho que nem Ele mesmo perdoa, com o perdão da palavra. Mas quem sou eu para falar?

Por outro lado, todos sabem, com certa naturalidade, o que é certo e errado, com minúsculas diferenças, e o resto é só perfumaria. Tenho certeza de que o Ser Supremo não vai se basear em perfumaria para controlar a entrada no céu. Mas, repetindo, aqueles que abusam de crianças, não sei não... Melhor botar as barbas de molho.

ooooooOOO0OOOooooo

A crônica acima não faz parte do livro abaixo

Essa vida da gente

Para adquirir este livro no Brasil 

--------------------

Wednesday, April 29, 2015

Um tal de Alzheimer



Um tal de Alzheimer

Foi quando já estava me preparando para a chegada da velhice que ouvi pela primeira vez falar do tal de Alzheimer. Já foi um trabalho danado aceitar o fato de que um dia precisamos ficar velhos. Agora, alguém chegar e dizer que, além de tudo, podemos nos esquecer de tudo? O competente doutor, que deu o nome à doença, podia ter ficado quietinho e deixar os velhinhos tranquilos. Imagino que ele quis que seus sucessores conseguissem, talvez, uma cura para o mal. Até agora, infelizmente, nada.
Por isso, estou pensando em combinar algo com minha amada. Que tal fazermos pequenos bilhetes dizendo “Eu te amo”, “Você me ama”, “Nós nos amamos”? Pendurá-los em lugares estratégicos da casa, para incitar nosso cérebro, no caso da vil enfermidade nos atacar? Espalhar por todo canto, lindas fotos dos dias maravilhosos que passamos juntos? Fotos dos nossos amados, da família? Quem sabe “cutucar” os dorminhocos neurônios para que eles liberem as lindas memórias? O fato é que não suporto a ideia de olhar para uma pessoa que amo e não conhecê-la.
Não sei não se isso vai funcionar. Parece que as sinapses de nossa cabeça entram numa espécie de “curto” e tudo se apaga. Eu nunca fui bom em eletricidade, isto vai ser um problema.
Se for mesmo, como dizem, um “branco” memorável (que ironia: memorável), um enorme vazio, que poderemos fazer?

Talvez eu possa, dentro dessa bolha de esquecimento, criar novas memórias. A partir de um sorriso de minha amada. Quem sabe, ela também se lembre de meu primeiro beijo? Ou se mesmo isso não for possível, talvez comecemos do zero. Quem impedirá nossos espíritos de, novamente, se apaixonarem? Eles certamente não têm sinapses ou eletricidade. Funcionam à base de um plasma divino, metafísico, que o grande médico ainda não conhecia. É isso que eu espero, antes de não mais poder nem mesmo esperar...

ooooooOOO0OOOooooo

A crônica acima não faz parte do livro abaixo

Essa vida da gente

Para adquirir este livro no Brasil 

--------------------

Tuesday, April 28, 2015

Eu, um estranho passageiro




Eu, um estranho passageiro

Com minha valise de mão, corri na plataforma e ainda consegui pegar o trem. Por pouco. Suado, procurei por um lugar na janela. Foi fácil, o vagão não estava muito cheio. Seriam 47 minutos de viagem, nem daria tempo para recomeçar a leitura de meu livro. Relaxei, encostei a cabeça na poltrona e me pus a admirar a paisagem. Uma mata baixa com uma ou outra árvore um pouco mais alta se destacando. Enquanto o fundo daquele quadro permanecia estável, as pedras e a vegetação ao lado dos trilhos parecia viajar na velocidade da luz. Lembrei-me do meu amigo, professor de Física, comentando; “relativo, relativo...” Suas respostas sempre começavam assim. E com o tempo comecei a achar que ele tinha razão. Tinha visto cada coisa na vida que... Bem, melhor nem pensar muito.
Quando estava começando a relaxar, percebi que a paisagem começou a mudar. Começaram a aparecer as primeiras casas, estilo rural, dispersas naquele enorme campo que se descortinava à minha frente. Olhei para o relógio e notei que faltavam apenas sete minutos para que a estação da cidade de Retiro dos Anjos chegasse. O tempo tinha voado, mesmo. Comecei a me preparar para descer. Olhei de novo as horas e então faltava menos de um minuto. A velocidade do trem, entretanto não estava diminuindo. Estava óbvio que ele não iria parar. Perguntei para uma pessoa do banco ao lado o que estava acontecendo. Olhou para mim como se não estivesse entendendo e por isso falei mais claramente:
-O trem não vai parar?
-Nunca parou nesta cidade, meu senhor. Nunca.
Em desespero, tentei entender o que estava acontecendo. Lembrei-me quase imediatamente que aquilo não poderia ser verdade. Só nas últimas semanas eu tinha viajado três ou quatro vezes e em todas elas eu tinha parado naquele lugar. Entretanto, atônito, vi meu vagão passar pela plataforma vazia sem parar. Sentei-me novamente e tentei me acalmar. Não sei por que me veio à mente a imagem de minha mulher me dizendo: “Homem, onde você está com a cabeça?” Naquele caso, porém, ela não teria razão.
Passados uns 15 minutos, refeito, dirigi-me àquele senhor, novamente:
-Qual a próxima estação?
-Pousada dos Pardais.
E deu um sorriso simpático. Só aí me dei conta de que era uma outra pessoa. Nem percebi quando aquele outro homem tinha saído. Segundos depois acrescentou que estaríamos lá em cerca de uma hora e sete minutos. Pensei no absurdo. Teria que viajar mais uma hora, esperar outro tanto e se tivesse sorte, arrumar um outro trem para voltar. Eram quatro, cinco ou mais horas, pelo menos. Só daí estaria de volta a Retiro dos Anjos. Aquele dia estava perdido. Tentei me acomodar na poltrona e dormir. Claro que não consegui. Aquela agitação mental, aquele torpor, quase medo, deixavam-me mais do que acordado. Não sabia o que pensar. De repente me veio um nome à mente: Santa Clara. Um segundo depois, entendi. A próxima estação era Santa Clara e não Pousada dos Pardais. O homem estava enganado. Comentei isso com ele, que, condescendente, me falou:
-O senhor está enganado. Santa Clara é muito para trás. Eu sei onde o senhor embarcou e ela fica duas estações antes. Outra direção, meu amigo. Outra direção.
E voltou a ler seu jornal. Eu tinha certeza de que era eu quem estava certo. De qualquer forma, a essa altura faltavam apenas sete minutos para chegar a nova parada e eu me preparei para a desforra. Arrumava as palavras de ironia ou de condescendência que iria usar com o meu vizinho passageiro. Quando faltavam dois minutos para a nova estação, percebi, assustado, que o trem não diminuía a velocidade, de novo. Confirmando meus temores, ele passou direto. Por outro lado, tive uma pequena vitória. A estação que passou tinha sido Santa Clara. Estava em dúvida em minha mente se perguntava a meu vizinho por que não tinha havido parada ou se me vangloriava de que tinha acertado a estação. Enquanto, indeciso, me virava para lhe falar, percebi que não havia ninguém no banco. Olhei para o resto do vagão e não vi meu companheiro de viagem em nenhum lugar. Apenas quatro passageiros. Que besteira, naquele momento me vieram a mente as palavras “quatro cavaleiros do Apocalipse”. Com um problemão daqueles em minha vida e eu pensando em passagens bíblicas. Eram quatro mesmo? Estava duvidando até disso agora.
Sentei-me e fiquei me lembrando do conselho de um grande amigo meu no passado. Na hora da crise, a coisa mais importante é se acalmar.  Cabeça quente só faz besteira. Foi o que tentei fazer com relativo sucesso. Relatividade é tudo. Quem mesmo que falou isso? Acho que “tudo é relativo” é a frase certa. Foi bom. Depois de alguns minutos, uma coisa óbvia me ocorreu. O chefe do trem. É por isso que ele se chama chefe. Ele sabe das coisas. Decidi procurar por ele. Um pequeno temor se apossou de mim. E se não houvesse um chefe? Com tanto fato estranho acontecendo, a ideia não era tão absurda assim. Fiquei formulando as perguntas que lhe faria, sem parecer louco.  Se ele achasse que eu não estava bem da cabeça, ele poderia tomar atitudes. Si lá. Ele não tinha passado ainda. Deveria estar vindo da frente. Melhor esperar. Assim minhas perguntas iriam parecer casuais. Se achasse que eu estava parecendo estranho, teria tempo de dizer que estava brincando. Sabe, viagem longa, sem ter o que fazer?
Como se o destino estivesse me ouvindo, vi a porta lá da frente se abrir. E um senhor gordo, de quepe, como deveria ser um chefe de trem, apareceu, para meu alívio. Ele, porém, vinha devagar. Era como se estivesse verificando as passagens de imaginários passageiros. Quando estava bem perto, procurei a passagem no bolso. Graças a Deus, ela estava lá. Só me faltava mais uma dessas! Automaticamente olhei para ela e lá estava: Retiro dos Anjos. Entreguei-lhe a passagem, que ele picotou. Balbuciei, então:
-Como o senhor pode ver, eu perdi minha parada. Como faço agora?
Ele olhou para mim, sem entender, e perguntou:
-Como assim?
-Eu pensei que o trem parasse lá, mas...
Ele me interrompeu:
-Como assim? Retiro nem chegou ainda. São mais três horas de viagem. O senhor andou bebendo?
Eu, que deveria ficar ofendido com a pergunta, dei, no entanto, graças a Deus. Só quis confirmar:
-Mas o trem para lá?
- Meu senhor, a sua passagem não diz “Retiro dos Anjos”? Se a nossa companhia vende uma passagem com um destino é porque o trem para nesse destino.
Tentei argumentar, explicando os fatos pelos quais eu tinha passado, mas desisti. Certamente passaria por ridículo. Ele se despediu me desejando boa viagem. E continuou picotando os bilhetes. Dos passageiros de verdade e dos imaginários que eu não via. Tentei relaxar. Tentei achar lógica no que estava acontecendo. Foi aí que me lembrei novamente do meu amigo, aquele que falava “relativo, relativo”. Ele sempre dizia que a lógica não existia. Existia o mundo, existiam as coisas. Depois a gente tentava arrumar uma lógica para elas. Então, uma coisa só é estranha antes de você aplicar uma lógica para a mesma. A lógica se adapta. Por exemplo, se as plantas nascessem no ar, com as raízes para cima, a gente arrumaria uma lógica para isso, pois seria um fato. A lógica nós inventamos para se adaptar aos fatos. O fato não se adapta. O fato é o fato. Lembro-me perfeitamente da cara de satisfação com que ele dizia isso. Tentei, então, arrumar uma lógica para os fatos recentes. Não conseguia.
E o tempo foi passando e eu dividindo o tempo em compartimentos. Dividia os minutos que faltavam em blocos de dez. Os blocos de dez em cinco blocos de dois. Às vezes me distraía com outros pensamentos e alguns blocos escapavam. Era bom. Menos blocos para contar, para ver passar. Assim foi que, de repente, faltava só meia hora para Retiro dos Anjos. E essa meia hora demorou. Finalmente faltavam apenas dez minutos. E no fim de tudo, os dois minutos fatais, aqueles em que o trem tinha de diminuir a velocidade. Percebi então, que iria acontecer tudo igual. O trem iria passar direto. Na verdade, ele já tinha passado direto. Não havia lógica para isso. E daí podia ver meu amigo insistindo: “Você precisa arrumar uma lógica para os fatos. Eles, por si mesmos, não têm lógica.”
Estava bem claro o que eu tinha de fazer. Andar pelo trem inteiro, falar com todo mundo. Abrir o jogo. Falar com o maquinista, novamente com aquele doidinho do chefe do trem, com todos os passageiros. Daí, sim, eu iria arrumar uma lógica para aquilo. Eu sempre consegui explicações para as coisas na minha vida. Não seria dessa vez...
Levantei-me decidido e fui até a porta da frente, por onde o chefe do trem tinha saído. Acho que ele não era chefe coisa nenhuma. Um bilheteiro apenas. Existem bilheteiros? Não importa.
Abri com força a porta e o vento quase me derrubou. Não havia outro vagão, não havia máquina, nem maquinista. Os trilhos voavam por baixo do vagão e sumiam. Aquilo não era o fim do mundo. A máquina podia estar empurrando o vagão por trás. Não era comum num trem de passageiros, mas o que era comum naquele trem? Fui andando para a porta traseira. No caminho, percebi que os passageiros tinham sumido. Fazia sentido, aquele era o primeiro vagão, vinha um vento danado, isso incomodava, eles haviam se retirado. A lógica estava se montando novamente. Eu sabia que aconteceria. Tudo faria sentido. Agora estava explicado por que o maquinista não parava nas estações, Ele não as via, porque estava lá atrás. Era tão evidente. O que era mais evidente ainda, era que nós, os passageiros, tínhamos de avisá-lo que queríamos parar. Como ele iria saber? Para que parar, se não havia ninguém para descer? Naquele pequeno trecho, tudo que tinha acabado de acontecer, se explicava por si mesmo. Havia uma lógica interna, bonita, coerente, sensata, em tudo aquilo. Meu amigo tinha toda a razão do mundo. O fato é o fato. A lógica se ajeita depois. Sábio, o meu amigo. Devia ter conversado mais com ele quando tive chance.
Coloquei a mão no puxador e abri a porta de trás. Não havia nada. Só os trilhos, voando, vindo de baixo do vagão. E aquele barulho típico de trem. Parecia absurdo, mas eu tinha certeza de que havia uma lógica interna. Uma lógica a ser descoberta, criada. Era bonito aquilo, estava gostando. Arrumar uma explicação para o inexplicável. Até me senti culpado, eu parecia um deus dando sentido para tudo, para a criação. Notei naqueles segundos, antes de fechar novamente a porta de trás, que não havia rede elétrica. O trem, então, tinha de estar sendo movido a lenha ou a diesel. Tudo seria possível. Não era maravilhoso tudo ser possível?
Sentei-me novamente. Dessa vez, com muito mais tranquilidade. Tinha conseguido dar lógica a muitas coisas. Havia ainda muito a ser explicado. Muito. Alguns fatos, bem, alguns eu teria bastante dificuldade em explicá-los. Mas eu tinha todo o tempo do mundo.
Agora já faz muito tempo que estou neste trem, viajando. De vez em quando consigo dar sentido para algumas coisas. Por exemplo, nunca mais vi estações. Faz sentido, pois não preciso mais delas, Não vou descer. Não preciso, estou bem aqui. Não sinto fome nem sede. Não preciso ir ao banheiro nem cortar o cabelo. Não preciso explicar ou falar nada para ninguém, pois ninguém está aqui. Gosto do jeito que tudo está. E o mais bonito de tudo, sabe o que é? A paisagem nunca se repete. Algumas bem estranhas, sem explicação. Mas eu não me preocupo. Um dia tudo vai fazer sentido, tudo vai ser explicado. Não estou com pressa.
A única coisa que me incomoda é que não consigo achar o livro que trouxe para me distrair. Sabe, é uma longa viajem. Mas isso também deve ter uma lógica. Qualquer dia desses eu descubro. A gente sempre acaba entendendo o significado das coisas. Sempre.


                                                    oooooOOOooooo

Estranhas Histórias
Estranhas Histórias

Para adquirir este livro no Brasil 



Para adquirir este livro nos Estados Unidos 

Monday, April 27, 2015

Um pequeno poema para um imenso amor



Um pequeno poema para um imenso amor

Eu não queria ser não, o teu caderninho...
Nem queria que você me visse nas curvas da Estrada de Santos...
Nem mesmo ficar no teu corpo como tatuagem eu queria...
Só beijar-te as mãos, minha querida, como queria o Anísio Silva?
Não pode ser só isso, como na perdida e distante canção.
Nem mesmo ficar repetindo três vezes “te quero, te quero, te quero”,
como na melodia dos Beatles.
Quero muito mais.
Quero teu corpo embrulhado em tua alma,
Quero tua alma reencarnada em teu corpo, só para mim.
Milhares de vezes, reencarnada. Carne e alma.
Quero tudo. Toda você, por inteira.
E quero que me queiras também!
Isso é pedir muito?

Sinto muito, mas é isso tudo que eu quero e nada mais.

ooooooOOO0OOOooooo

A crônica acima não faz parte do livro abaixo

Essa vida da gente

Para adquirir este livro no Brasil 

--------------------



Sunday, April 26, 2015

As máquinas estão maquinando


As máquinas estão maquinando

Faz tempo que elas chegaram. Muitas chegaram bem antes de eu nascer. Antigamente elas eram simples, modestas, obedientes. Humildes, até. Quando não sabiam ou não conseguiam executar alguma tarefa, esperavam pacientemente até serem consertadas. Algumas eram graciosas, outras desengonçadas.  Muitas eram até românticas, como as velhas locomotivas a vapor. As máquinas, há um bom tempo, são parte de nossas vidas, imprescindíveis, práticas.
Não sei, porém, o que aconteceu com elas nos últimos vinte anos. Começaram a ficar independentes, não necessitar mais de nós. Começaram até a fazer outras máquinas, dizer  para nós como precisam ser feitas. Conversam, perguntam e respondem. Fazem nossas contas, escrevem nossos pensamentos, adivinham o que queremos falar. Não quebram e, quando quebram, não podemos consertar. São superiores, prepotentes, arrogantes. Não nos deixam mais falar com nossos filhos. Eles mesmos, mal falam entre si e com seus colegas. Lado a lado, conversam, entretanto, através de textos, curtos, silábicos, aglutinados. Cada vez mais precisamos delas e cada vez menos elas precisam de nós. E está tudo mudando muito rápido. Tenho receio. Não sei o que essas máquinas estão pensando, tramando...Estou com medo...das máquinas. Acho que elas estão maquinando algo.




<><><><><><><><><><><><><>

Lançamento (contos de ficção científica):

Histórias do futuro    ($ 3.99- e book)

Brasil


Saturday, April 25, 2015

Carta do estrangeiro


Prezado amigo Gervásio:

Escrevo-lhe essas relativamente bem escritas linhas para expressar minhas preocupações quanto ao meu linguajar. Como você sabe, estou aqui no estrangeiro já há algum tempo. Isso me faz pensar na minha falta de contato direto e diário com a nossa língua. Isso definitivamente me preocupa muito. Às vezes, por exemplo, me deparo procurando pelo termo correto para se usar em determinada frase. Preciso esperar alguns segundos e, ainda assim, é muito comum eu precisar conferir o real significado e a ortografia no dicionário.
No momento, entretanto, o que mais me preocupa, é o que se usa e o que não se usa mais. Eu acredito que a gíria  “ boko-moko” já deva ter morrido, uma vez que já estava agonizante quando eu saí daí. Fico imaginando se “legal” e  “bacana” ainda são bastante utilizadas nas conversas do dia a dia. Outra coisa: quando estava de saída, a expressão “da hora” era relativamente nova em termos de língua. Ela estava se fortalecendo principalmente entre os  jovens. Ela vingou ou não? Vou perguntar por perguntar, mas imagino que “encher o saco” continua viva e atuante como sempre. Gostaria de saber se o povão usa esses novos termos americanos ligados à informática, como “cloud”, “text”, etc...Não posso imaginar alguém falando “nuvem” para significar “ cloud” ( da informática, é claro). Além disso, seria uma competição desonesta com o nosso “viver nas nuvens” que nada tem a ver com a tecnologia da informação. Como você  pode ver, Gervásio, tenho mil dúvidas. O mais importante de tudo, porém, é você me mandar uma lista de palavras novas, destas que começaram a ser usadas nos últimos 10 anos. Não precisa ser exatamente uma palavra nova, pode ser uma palavra que estava no esquecimento e, de repente, a sabedoria popular despertou-a e está aí dando o ar de sua graça. Aí está mais uma boa pergunta: o pessoal ainda usa “dar o ar da  graça”? Espero que sim, pois acho que é uma expressão cheia de graça, sem querer fazer graça.
Vou terminando minha missiva por aqui. Não precisa ficar assustado com o meu “missiva”, não, eu só usei este verbete para brincar com você. Eu sei que é boko-moko, quero dizer, nem sei bem mais o que quero dizer...Eu não falei que às vezes não acho mais as palavras? Enfim, atualize-me, pois, quando voltar, quero estar usando um linguajar “da hora”, “top” de linha...
Desse seu servo e amigo (brincadeirinha de novo, sei que é cafona falar assim: ainda usam “cafona”?), aqui do estrangeiro ( “estrangeiro” também não soou “legal”, soou?),
José Arquimedes ( Joseph, para os amigos americanos)

ooooooOOO0OOOooooo


Essa vida da gente

Para adquirir este livro no Brasil 

--------------------

Para adquirir este livro nos Estados Unidos 


Friday, April 24, 2015

Eterno perguntar

Eterno perguntar


Minha mente, inquieta,
Pergunta:
Por quê?
E continua a perguntar,
Incerta.
Sem saber a resposta
Se inquieta...
Não se sabe,
Ninguém sabe,
Não há o que responder.
A alma, porém,
Parece que sabe algo.
Porém, não consigo ouvir.
Presto atenção,
Olho para dentro de mim,
Pergunto de novo,
Aguço os ouvidos,
Finalmente acho que vou saber...
Ela vai explicar
O sentido de tudo,
De tudo o porquê...
Então ela sussurra suave
Por dentro de mim:
Por que me perguntas?
Eu também não sei
Das coisas o porquê...

ooooooOOO0OOOooooo

A crônica acima não faz parte do livro abaixo

Essa vida da gente

Para adquirir este livro no Brasil 

--------------------



Thursday, April 23, 2015

Firma reconhecida para entrar no céu



Firma reconhecida para entrar no céu

Eu não sei se era um céu só de brasileiros, mas o fato é que, quando o Chico chegou lá, viu que havia uma fila enorme. Ficou um pouco frustrado. Não estava atrás de coisa grátis ou de algum serviço do Governo para ficar ali, esperando. Tinha sido honesto a vida inteira, cumprido suas obrigações, feito caridade e tudo mais. Quis saber o que estava acontecendo. Para obter informação sobre a finalidade daquela fila, teve de entrar numa outra. Aquela, porém, era rápida e foi logo atendido. Nem acreditou no que estava ouvindo. Mesmo tendo feito tudo direitinho na Terra, precisava de um requerimento para entrar no paraíso. Tinha trazido um só por garantia, mas só por trazer, jamais imaginava que fosse precisar. Deu um suspiro de alívio - é bom ser prevenido - e começou a se encaminhar para o final da fila de verdade, aquela de admissão nos campos celestes. Mal deu o primeiro passo, o anjo deu uma informação adicional: A firma precisa estar reconhecida. O Chico, apesar de toda sua seriedade, quase soltou um palavrão. Ainda bem que segurou a tempo. Ali não ficaria nada bem. Já não entendia o porquê do tal requerimento, pois, se ali era o céu, deveriam saber de tudo. Agora, além disso reconhecer firma, era demais. Para quê? Ele estava ali, em pessoa, de que servia o reconhecimento de firma de alguém lá da Terra? E se o escrivão fosse um malvado qualquer? Fazia sentido precisar ter sua assinatura firmada por alguém, que, talvez no futuro  fosse para o inferno, para outro poder ir para o céu? Isso seria sim, um paradoxo. Um paradoxo doutro mundo, de verdade. O Chico, porém, tinha sabedoria, deveria haver alguma razão. Talvez aquilo fosse um último teste de paciência. Tinha de haver uma explicação. Instalou-se pacientemente no seu lugar. A fila era imensa. Iria tentar convencer o anjo de aceitar o requerimento simples, só com a assinatura. Começou, então, a dar uma olhada em tudo para matar o tempo. Anjos apressados, voando por todos os lados, com papelada nas mãos. A burocracia tinha invadido as repartições celestiais. Era incrível. Percebeu, então, que havia muitos santos andando por ali. Reconheceu, de cara, o São Sebastião e o São Cristóvão. Ficou pensando como seria interessante ver o São Paulo. Afinal é de lá que ele tinha vindo. Pensou consigo mesmo, que até faria um comentário com ele: que não era nada fácil não pecar naquela cidade. Melhor não, talvez não ficasse bem. Poderia se ofender, afinal era a cidade do santo.
De repente, aconteceu algo extraordinário. Passou bem à sua frente, nada mais, nada menos, do que o São Francisco. Imaginem só, o seu santo de devoção. Tinha até seu nome e tudo mais. O que mais deixou o Chico surpreso e feliz, foi que o santo o reconheceu imediatamente. Logo lhe perguntou: “Chico, o que você está fazendo aqui?” Achou um pouco estranho, pois ele, como santo e permanente morador do céu, deveria saber. Imediatamente percebeu que era uma pergunta retórica. O São Francisco puxou-o pelo braço e falou que ele não precisava de requerimento e muito menos de firma, reconhecida ou não. Andaram cerca de cem jardas celestiais e num instante passaram pelos anjos que conferiam os requerimentos. Eles imediatamente os cumprimentaram e perceberam que ele estava com o santo e não precisava ser checado. O Chico achou que os primeiros da fila olharam para ele com um pouco de inveja. Talvez fosse só impressão, porém. Quem está num lugar assim, não costuma ter esses sentimentos.
Só daí é que o Chico teve ideia do que era estar no céu. Imediatamente percebeu tinha valido a pena ter sido correto o tempo todo. Pensou em perguntar ao santo como e quando tinha acontecido aquela história de requerimento com firma reconhecida, algo que não combinava com aquelas paisagens paradisíacas. Achou, no entanto, melhor ficar quieto. Já estava lá dentro mesmo e aquilo era infinita felicidade, não havia mais nada com o que se preocupar. Mas o Francisco, o santo, sabia o que ele estava pensando. Afinal de contas, ele tinha poderes celestiais. E respondeu, mesmo sem ele perguntar. Disse que estava tudo bem até há um tempo atrás. Daí alguns problemas começaram a aparecer. Não se sabe como, algumas almas que deveriam ter ido para o inferno, tinham conseguido se enfiar no purgatório e depois sorrateiramente tinham chegado às portas do paraíso. Um deles chegou a pôr um pé dentro. Ele pegou fogo imediatamente, que é o que acontece quando alguém demoníaco entra em contato com a atmosfera do Éden. A chance matemática de alguém assim entrar é menos do que zero. Mas para evitar dissabores, as autoridades divinas acharam que deveriam complicar um pouco, só para evitar a presença de indivíduos indesejados. Daí usaram o sistema brasileiro, que é o mais burocrático de todos e certamente iria dificultar os indesejáveis. Mesmo assim, andaram falsificando uns requerimentos, por isso foi acrescentado o pedido o reconhecimento de firma. Pois isso, todos sabem, é uma coisa difícil de se falsificar. No fundo, não haveria necessidade de nada disso, pois, como foi dito anteriormente, as almas daninhas entram em combustão em contato com a atmosfera da bem-aventurança. Ninguém, porém, estava a fim de ver esses espetáculos por aqui, disse o santo. O Chico mal acreditava no que estava ouvindo. Até ali, esse pessoal estava tentando “bagunçar”. Aposto que até tentaram suborno, pensou. O São Francisco captou seu pensamento e completou: “Pode uma coisa dessas, Chico? Pode? Até aqui no céu, esses “caras” estão tentando “aprontar”. O Chico riu. Gozado ver o santo falar desse jeito, igual à gente. E completou as palavras do seu interlocutor: “Pode?”

Deu um suspiro de alívio por estar ali por toda a eternidade e pensou consigo mesmo que a exigência do requerimento e da firma reconhecida não era tão má assim. Até que esses santos sabiam o que estavam fazendo. Quem diria, hein, firma reconhecida até lá em cima! Deu um largo e celestial sorriso e perdeu-se nas paradisíacas nuvens.

ooooooOOO0OOOooooo

A crônica acima não faz parte do livro abaixo

Essa vida da gente

Para adquirir este livro no Brasil 

--------------------

Monday, April 20, 2015

Um estranho caso de amor



Um estranho caso de amor

O Renato, coitado, rompeu com a noiva. E foi muito triste, pois estavam juntos há mais de 7 anos. Isso mesmo, quase igual à história de Jacó na Bíblia. Aqueles anos todos esperando, para nada. Mas vale aqui uma pequena correção. A Sandra é que terminou com ele. Ele, para dizer a verdade, estava com aquela insuperável dor de cotovelo e resolveu escrever um bilhete para ela. Uma amiga em comum se encarregou de entregar a “carta” que dizia assim:
Sandra:
Na verdade foi até bom terminarmos. Não queria dizer, mas não aguentava mais seu autoritarismo: “Faz isso, faz aquilo”, “Vai para lá, vem para cá”. Eu mais parecia um menino de recados do que um homem que estava para se casar. A gente precisa de um mínimo de respeito. E a sua arrogância, então? Achando que sabia de tudo, que sempre estava na minha frente em tudo. Sempre se achando a tal. Fazendo tudo de um jeito como se estivesse fazendo um favor de estar comigo. Onde se viu uma coisa dessas? E aquela mania de nunca concordar comigo, sempre achando que estava com a razão? Aquele ar de nobreza, como se eu fosse da plebe e você uma princesa. Uma coisa impressionante. Sempre se achando mais culta, mais inteligente. Mesmo que fosse verdade, que homem gosta disso? Um pouquinho de humildade não faz mal para ninguém, não, moça! Sempre se achando a mais elegante de todas, sempre com aquele risinho de escárnio em relação a mim e meus amigos e minhas amigas. Quem você pensa que é? Você tem muitos defeitos, mocinha. Eu é que sou educado e não gosto de falar. Nunca apontei os “foras” que você deu em muitas ocasiões, pois sou uma pessoa educada. Não sou como você que não perde uma chance de esculachar os outros. A verdade, pura e simples, é que estou melhor agora. Não é assim que dizem: “Melhor só do que mal acompanhado.”?
Tenho tantas coisas negativas que poderia enumerar desses 7 anos que passamos juntos, mas vou me abster. Não vale a pena.
Adeus!
Em tempo: Se você, entretanto, mudar de ideia e quiser conversar a respeito de um possível reatamento, estou de braços abertos. Qualquer coisa, me avise imediatamente, por favor. Pode ser a qualquer hora do dia ou da noite.

Renato

ooooooOOO0OOOooooo

A crônica acima não faz parte do livro abaixo

Essa vida da gente

Para adquirir este livro no Brasil 

--------------------