Friday, September 30, 2016

O Expresso Cubano



O Expresso Cubano

Entre 1969 e 1970 houve 15 sequestros de aviões brasileiros. Era uma época de turbulência política no mundo inteiro. Grupos extremistas recorriam a este ato radical com o objetivo de atrair a atenção para suas causas e por motivos mais práticos, como sair do país, ou obter a soltura de presos políticos. Era a maior “moleza”. Entravam como passageiros, portando armas, sem controle nenhum. Quem viveu nessa época, deve se lembrar da “emoção” que se vivia nesses momentos. Uns achavam um absurdo, outros achavam que era a única saída contra regimes autoritários.
Um mesmo avião da falecida e gloriosa Varig foi sequestrado 3 vezes, segundo matéria publicada pela UOL. Isso mesmo, três vezes. Eu não sei o que aquele pessoal tinha contra o pobre do 707. A aeronave 707 “PP-VJX, em cada uma dessas ocasiões foi para Cuba. Em todas as ocasiões, os passageiros e a tripulação foi hospedada no Hotel Rivera em Havana durante sua breve “estadia”. Parece até marketing de hotelaria. “Hotel Rivera: o repouso ideal para o sequestrado”. O primeiro foi quando o avião saía de Buenos Aires para Santiago do Chile, o segundo – por um argelino – quando saia de Paris, e o terceiro, num voo de Santiago para Nova Iorque. A Varig até colocou instruções especiais no avião e até frases em espanhol para os tripulantes para uma eventual situação de emergência.
O avião foi apelidado de “Expresso Cubano”. Mais uns sequestros e a rota “algum lugar – Havana” - se tornaria uma linha regular. Mais tarde o “Expresso Cubano” foi – ironia do destino – comprado pela FAB.
Não se pode dizer que era uma manifestação de paz, mas, dentro das circunstâncias, não havia violência, procurava-se não matar. Havia negociação, os sequestradores conseguiam seus objetivos políticos e os políticos, faziam sua política conseguindo libertar todo mundo.
Claro, isso não é algo que se recomende para países civilizados, mas vamos prestar atenção na diferença. Hoje, os terroristas não negociam, eles explodem os aviões. Decapitam as vítimas, explodem prédios inteiros.
Como diz meu amigo Nino Belvicino, não se fazem mais terroristas como antigamente.

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Thursday, September 29, 2016

A mensagem




A mensagem


Não eram pios, não eram cantos, não era chilrear. Era um som agudo, cheio de dor aquele que os pássaros soltavam. Machucava os ouvidos. Dava um pânico interior. Elas estavam desesperadas, as pobres aves.
Esse foi o primeiro dia, ninguém falou nada, mas todos perceberam. À noite houve silêncio e todos puderam descansar.
No segundo dia aqueles verdadeiros gritos de dor recomeçaram. Eram lancinantes, penetrantes, insuportáveis. As pessoas começaram a falar sobre o assunto. Algumas até fizeram telefonemas, consultando especialistas. Era o assunto do lugar e da hora. Muitos colocaram tampões nos ouvidos para não escutar. Várias hipóteses surgiram. Estavam ficando doentes, vítimas de algo que as atacava e que causava muita dor. Dava muita pena dos animaizinhos. Os bichinhos do chão, porém, não eram afetados.
À noite veio o silêncio novamente e, depois, surgiu a manhã do terceiro dia. Para surpresa de todos, naquele dia reinava o silêncio. Não havia no ar uma ave sequer. Nem nas árvores, nem em lugar nenhum. Todas haviam partido.
Junto com o alívio, veio a preocupação. Se estavam doentes, por que não morreram, por que teriam ido embora? Na manhã, foi o assunto da cidade.
Depois do almoço, havia muita gente nas ruas. Muita conversa, muito comentário. Até quem não costumava sair, naquele dia saiu. Queriam saber das coisas, saber das novidades. Havia gente como nunca antes, no centro e nos arredores.
Por volta das duas horas da tarde, algo aconteceu. De repente, todos começaram a ouvir um barulho surdo, vindo de longe. Parecia o motor de um avião, mas muito mais alto, como se estivesse muito perto.  Começaram então a se ouvir os primeiros gritos: olha, olha! Da parte sul da cidade, uma enorme aeronave vinha descendo rapidamente em direção ao centro. Uma das turbinas estava em chamas. Três minutos depois, ele espatifou-se no chão. Tanques cheios, causou uma explosão catastrófica. Uma labareda enorme se levantou.
Morreram muitas pessoas. Uma quantidade muito maior do que os ocupantes do avião. Coisa estranha, ali nem era rota de aeronaves.
Os sobreviventes então entenderam. Era isso que elas estavam tentando avisar, mas ninguém decifrou a mensagem das aves.


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Wednesday, September 28, 2016

O Dedo que Caiu do Céu





O Dedo que Caiu do Céu e algumas metáforas pertinentes

(publicada inicialmente em fevereiro de 2012)

Mohammed é um homem muito violento que vive perto de Londres. Mais do que isso, ele é covarde, pois bate na esposa. Quer dizer, batia, pois ela resolveu sumir. Mudou de nome e deu o novo endereço apenas para os parentes mais próximos. Mohammed não é homem de desistir de seus objetivos. Estava determinado a achar sua mulher e por isso começou a perseguir e intimidar Mahmood, seu cunhado. Para encurtar a história, fez mais do que isto, matou-o e esquartejou seu corpo. Ninguém sabe onde colocou os restos mortais. Mesmo assim foi condenado com seus comparsas – covarde que era, pediu ajuda para outros criminosos. Está preso, mas você sabe, fica aquela sensação horrível para a família de que a história não terminou  uma vez que o corpo sumiu. Até agora esta história, embora sinistra e triste, é como outras histórias que às vezes acontecem neste mundo doido. O que acontece a seguir, no entanto, é completamente inesperado. Um pássaro, não se sabe por quê, de alguma forma acha o corpo, o que nem mesmo a polícia  havia conseguido e, após pegar um dos dedos do defunto começa a voar pelos céus da vizinhança de Londres. Aí, não se sabe se por causa do peso ou por deliberação, a ave o deixa cair. Havia tanto lugar para o dedo  aterrissar e desaparecer! Para achá-lo depois seria como procurar uma agulha num palheiro. Capricho do destino ou justiça divina, o dito cujo foi parar num estacionamento. Mais do que isso, foi filmado em sua queda por uma câmara de segurança. O sangue é examinado. Confirmado. Era do irmão da ex-esposa de Mohammed.
Diante da estranheza da situação, imediatamente considerações começam a ser feitas sobre o evento. E todos nós sabemos como é a sabedoria popular, com suas frases e expressões. Quero dizer, não sei se essas considerações foram claramente expressas, mas poderiam, por serem muito óbvias. Por exemplo, tenho certeza de que alguém pensou no dito “um passarinho me contou” ou em “apontar um dedo acusador”. Certamente seria próprio se pensar também que “alguém havia colocado um dedo na ferida”. Entretanto está descartada a frase “mais vale um pássaro na mão do que dois voando”, pois, nesse caso acontece exatamente o contrário, uma vez que  ironicamente mais “valeu um pássaro voando do que vários na mão”. Seguramente podemos também afirmar que "mais vale um dedo no chão - especialmente esse dedo - do que 10 dedos no ar ou na escuridão."
Do ponto de vista da polícia, certamente há muita ironia. Imagine se o chefe dos investigadores houvesse dito para seus subordinados com sarcasmo: “Vão atrás das provas, do corpo... ou vocês estão esperando que uma prova caia do céu?” Certamente ficaria sem graça ao saber que, efetivamente, a prova caiu do firmamento. “O que vocês estão esperando? Um milagre?” Também seria humilhante para ele, pois tecnicamente o que aconteceu foi um milagre.
Do ponto de vista do réu, ele certamente gostaria que o pássaro tivesse ficado de “bico fechado” e se possível, “não metesse o bico onde não é chamado”. Se quisesse rimar o réu iria pedir para a ave não deixar "a peteca, quero dizer, o dedo" cair do céu. De nada adiantaria, pois Mohammed está longe de ser poeta e o pássaro, embora voe, viva e “ investigue" na Inglaterra, não entende patavina de linguagem humana, nem inglês, nem português, e muito menos de poesia. De qualquer forma esse tal de Mohammed, além de ser um monstro covarde, é um cara muito, muito, azarado mesmo... para quem tem fé, não é azar, não. É justiça. Não dizemos que Deus escreve certo por linhas tortas? Claro, o Mohammed é o fulano das linhas tortas, e o pássaro certamente... agora já estou ficando confuso...


A notícia

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Tuesday, September 27, 2016

A diferença que faz um celular

A diferença que faz um celular



Eu sei que você está pensando em todas aquelas situações em que um celular faz toda a diferença do mundo. Por exemplo, você perdido numa mata, chamando por socorro. Informações importantíssimas que você procurou na Internet e que o ajudaram a resolver um “problemão” num local distante. Mas a história que tenho para contar é bem diferente e, infelizmente, muito mais trágica.
O Deodato saiu de casa  numa pressa danada. Tinha uma reunião onde certamente iria fechar um negócio que sustentaria sua família por pelo menos um ano. Hoje em dia, como sempre, isto é vital. E família é família, certo? Temos de prover.
Lá está ele, dez minutos após a saída, pronto para pegar a via expressa, quando decide fazer  uma ligação. Onde está o telefone? Não é que nunca ele está no lugar?  Não estava onde deveria estar, nem nos outros lugares onde costuma ir parar, como por exemplo, embaixo do banco. Tinha esquecido a preciosa peça em casa. Fez um retorno proibido e “voou” para casa. Algumas ruas e duas avenidas mais tarde, lá estava ele perto de sua residência . A sua era a penúltima da direita. Foi aí que ele viu um fulano de boné pulando o muro. Ficou desesperado e acelerou. A Teresa estava sozinha.
Largou o carro com a porta aberta junto à calçada e foi para os fundos. Não havia sinal de arrombamento. Estaria ainda no quintal o desgraçado do ladrão? Deu uma volta e, quando  passou pela porta da frente, ouviu alguns gritos surdos da Teresa. Tinha de agir com cuidado. Esses assaltantes matam por quase nada. Ele corria o risco de causar a morte da esposa ao invés de salvá-la. Abriu a porta com cuidado. Mais uma vez, os gritos abafados. Pegou uma faca na cozinha e foi para o quarto. Quando entrou, viu o fulano, agora sem  boné, segurando as duas mãos da Teresa enquanto esta se debatia. O criminoso estava tão ocupado que nem percebeu quando o Deodato enfiou a longa faca de cozinha nas suas costas. Deu um berro, o sangue jorrou, e ele caiu morto em cima do corpo da esposa do Deodato.
Era difícil definir a cara da Teresa. Espanto, susto, surpresa, vergonha admiração. Uma coisa era certa: não esperava o marido por lá. Tinha provavelmente salvado sua vida.
Chamaram a polícia. Alguns dias depois o procurador decidiu assim mesmo processar o coitado do Deodato. Disse que o “assassinado” não tinha antecedentes, muito pelo contrário, era um bom cidadão e, no caso, uma vítima. O pobre marido vai preso e na terceira visita o seu advogado lhe explica a situação. Que sentia muito, que seu caso era difícil. Talvez ele não soubesse, mas a Teresa estava tendo um caso com o morto, que na verdade não era um ladrão, a não ser de corações, na falta de uma parte mais apropriada do corpo para designar sua especialidade. Até a mulher do amante já sabia. Agora o “crime” tinha motivação: ciúmes, vingança. Um marido raivoso tinha apanhado a mulher infiel no “flagra” e feito justiça com as próprias mãos, melhor dizendo, com a própria faca. Havia premeditação e tudo mais. A tese de legítima defesa da mulher e da honra da mesma (e da sua) não iria “colar”. Certamente não havia "honra" a ser defendida.
A Teresa veio visitá-lo também e confessou. Disse que, na verdade, eles já tinham terminado e que o amante estava se mudando para outro estado. Ela estava arrependida, tinha resolvido nunca mais traí-lo, daqui para frente iria levar uma vida de anjo. O amante tinha vindo até a casa apenas para se despedir, mas daí, uma última vontade da carne...
Foi só então que o Deodato se deu conta de que os “gritos abafados” da mulher, na verdade, eram gemidos de prazer. Provavelmente estavam brincando de “bandido e vítima” para dar um sabor mais especial no ato hediodo que estavam praticando.
Não bastasse a situação de estar preso e a humilhação de estar sendo traído, seu advogado veio com mais uma. Ele tinha de provar que não sabia que estava sendo enganado e que julgou ser um facínora que estava ali.  Aí se justificaria a tese de legítima defesa, que, realmente era o que tinha acontecido. Nem sequer a chance de manter as aparências de alguém que havia lavado a honra com sangue estavam lhe dando. Situação cruel como essa é difícil de se ver por aí... Ou era um assassino que ia pegar cadeia ou um idiota de um marido traído. Tinha de escolher.
Não é difícil imaginar qual foi a decisão do Deodato. Depois de tudo isso, ainda ficar na cadeia?  O negócio era, como se dizia antigamente,  “levantar, sacudir a poeira e dar a volta por cima”... E foi o que ele fez.
Se a Teresa estivesse falando a verdade e o amante realmente estivesse indo embora e se de fato ela tivesse decidido “virar um anjo”, aquele celular fez uma diferença e tanto. Se o Deodato não tivesse esquecido o dito cujo ou tivesse resolvido não voltar para pegá-lo, quem sabe não estivesse todo mundo feliz? O amante lá longe, a Teresa aqui perto com o maridinho, ela uma esposa feliz e ele um marido feliz. Nada de promotor, nada de delegado, nada de humilhação. O que os olhos não veem, o coração não sente. Mas essa mania maldita de não largar o celular... Viram só no que deu?
Claro, sempre esteve aberta também a possibilidade de a Teresa, com celular ou sem, ter sido uma esposa honesta e confiável. Essas coisas, porém, nem sempre acontecem do jeito que prevemos ou queremos. Este departamento do ser humano é completamente fora de controle. De qualquer jeito, depois que apareceu em nossas vidas, o celular tem feito muita diferença. De um jeito ou de outro...
Por falar em "ser humano", estranhamente, o marido, livre, perdoou a esposa e eles vivem felizes. Toda vez que não consegue achar o celular, entretanto, Deodato sente uma estranha sensação no estômago. Claro, é apenas uma reação psicológica.

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Sunday, September 25, 2016

A Hayley Mills foi ao cinema de Perus


A Hayley Mills foi ao cinema de Perus


Provavelmente você nunca ouviu falar da Hayley Mills. Eu, entretanto, a conheço muito bem,  e ela fez parte da minha vida. Quem diria, hein? Também não é assim, vou explicar os detalhes. Ela é uma atriz inglesa, ainda viva e que nasceu em 1946. Começou muito cedo a sua carreira de atriz, fazendo filmes como “Pollyanna”, “The Parent Trap” e outros. Olhos azuis, cabelos loiros, um rosto divinamente suave.
Eu estava ainda no seminário, por volta do ano 1966, e tinha acabado de voltar das raras e curtas férias que tínhamos. Foi durante esse breve período em casa que me deparei com uma revista e comecei a folheá-la. Manchete, Cruzeiro, Fatos e Fotos? Não sei, não me lembro mais, os anos passaram ligeiros. De repente, lá no meio, uma página inteira com o rosto dela, sorrindo. Eu me apaixonei imediatamente. Aquele coração adolescente, solitário, foi presa fácil. Decidi fazer o que era, sem dúvida, um grande pecado para um seminarista. Arranquei com cuidado a página, dobrei-a em quatro e a escondi em minhas coisas, não me lembro onde, mas estava bem guardada. Espero que não tenha sido dentro da Bíblia, o que seria, naquela época, quase um sacrilégio.
No seminário, sempre que tinha uma chance, dava uma olhada nela. Não importava quantas vezes eu a olhava, ela continuava sorrindo o mesmo sorriso, cheio de luz. E era para mim, com certeza, que ela sorria.
Certamente não foi só isso, acho que os padres descobriram também que, à noite, às vezes eu fugia do dormitório e ia até o pomar, chupar mexericas sob a luz do luar. Um dia, o reitor me chamou bem cedo. Disse o que eu já sabia, que não tinha “vocação”, que partiria às 9 horas da manhã de volta para Perus, naquele mesmo dia. Ainda era bem cedo. Certamente tinham avisado para meus pais me pegarem no Colégio Sagrado Coração de Jesus, em São Paulo. Fiquei preocupado com minha mãe, o que ela iria pensar. Ao mesmo tempo, senti um alívio enorme, aquilo era tudo que queria: sair dali, viver. O trem da Sorocabana partiu de São Roque e, num instante, chegou a São Paulo. Não me lembro se meu pai me disse alguma coisa ou não, mas certamente não deu bronca. Minha mãe, discretamente, nada comentou.
Ali estava eu, naquela selva, a vida fora do seminário. Tímido, morrendo de vergonha, ficava vermelho só de estar a uns três metros de qualquer garota. Não sabia o que dizer, como e quando. Não sabia como agir. Ia ser uma dura luta, essa de me adaptar ao mundo. Dentro de mim, entretanto, havia uma paz e uma alegria indescritível.
Foi então que o destino, generoso, me deu mais um presente. Meus irmãos mais velhos, preocupados com minha timidez, com minha situação, resolveram me levar  até o cinema de Perus.
Estava passando um filme colorido, imaginem só: “As Grandes Aventuras do Capitão Grant”. Mas não era só isso. Além de astros como Maurice Chevalier, George Sanders, lá estava ela, a minha querida Hayley Mills. Exuberante, linda, sorridente, inteligente, graciosa. Posso jurar que ela sorriu para mim o filme todo. Aquilo era um milagre.
Foi um dos melhores dias de minha existência. Passei, entre outras coisas, a amar a vida e o  cinema. Claro, tudo aquilo era uma ilusão da adolescência, mas marcou todo meu futuro. Mais do que isso, parafraseando o grande poeta, “foi infinito enquanto durou...”

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Friday, September 23, 2016

Os diferentes



Os diferentes

No começo foram só alguns casos isolados, ou pelo menos era o que parecia. Algumas pessoas, repentinamente, se “desligavam”. Passavam a agir como se fossem robôs. Na verdade, elas continuavam fazendo tudo que faziam antes, até coisas íntimas e pessoais, mas, lá no fundo, pareciam ter perdido a alma, o espírito. Podia ser um irmão, uma esposa, um marido, um amigo, um vizinho. Assim, do nada, de repente.
Não demorou muito para ficarmos sabendo que o fenômeno não era local. Estava acontecendo no mundo todo. Cientistas e médicos começaram a fazer estudos, exames, análises. Nada. Nada de objetivo, pelo menos. Tudo parecia normal. Para quem conhecia essas pessoas, porém, era como se elas tivessem perdido a alma. Havia debates na televisão, artigos nos jornais e em revistas e blogs. Todos estavam falando do assunto. Embora os religiosos obviamente falassem sobre isso também, havia um certo cuidado em “demonizar” o assunto, pois ninguém sabia quem seria o próximo. Poderia ser o próprio pastor, ou o padre ou ainda alguém muito próximo.
Com o tempo, as coisas foram se acalmando, porém. O povo acaba se acostumando com tudo. A certa altura verificou-se que não estavam ocorrendo casos novos. Ninguém, porém, “voltava” daquele estado. Parecia uma coisa definitiva. Muitos começaram a falar em “arrebatamento”, embora, tecnicamente aquilo não tinha as características do mesmo. O ser humano precisa de explicações e, quando não acha, começa a ficar criativo.
Logo depois que se encerraram novos casos, muitos governos apareceram com estatísticas. Cerca de 13.3% da população tinha sido afetada pela “doença” e ironicamente, ficou oficial algo que a maior parte das pessoas já tinha percebido. Os “diferentes”- eram assim chamados pelo mundo afora – não morriam. Pelo menos até agora, nenhum tinha. Estatisticamente isso seria impossível.
Quando ficou claro que a imortalidade - pelo menos até então – era um fato, começaram a aparecer inúmeras explicações místicas ou pseudocientíficas. Alguns afirmavam que os “diferentes”, na verdade, tinham tido suas mentes “raptadas” por de seres de galáxias distantes.
Tudo isso, entretanto, não durou muito tempo. Algo novo e extraordinário ocorreu. Os “diferentes” começaram a desaparecer. Seus corpos, no entanto, nunca eram achados. Antes, porém, que aparecessem boatos de extermínio, de assassinatos, ou coisas do tipo, ficou claro o que estava acontecendo. Mas isso também não esclarecia muita coisa.  Os diferentes estava se juntando em lugares específicos. Saíram de suas casas e começaram a viver em áreas isoladas, não muito longe de suas cidades, de suas comunidades. Eram tão determinados que ninguém ousava ir atrás deles para convencê-los a voltar. Não sobrou um diferente sequer que tivesse ficado com a família. Todos, sem exceção, estavam, em alguma comunidade isolada, perto de suas cidades, pelo mundo afora. Não se preocupavam com comida, com nada. Foi por muito pouco tempo, porém. Um dia, no mesmo horário, em todo o mundo, uma névoa branca, luminosa, envolveu a todos, e, alguns segundos depois, todos os diferentes, sem exceção, haviam desaparecido.
Havia uma mistura de tristeza, de alívio, de sabe-se lá o quê! Arrebatamento? Uma raça mais avançada, com remotas e desconhecidas máquinas, tinha levado embora uma quantidade inusitada de espécimes humanos para estudo?
O povo precisava continuar vivendo e, mesmo diante de tão inéditos e estranhos fatos, a rotina continuou. O que quase ninguém percebia é que todos os fatos relacionados com a vida dos “diferentes” começaram a sumir da lembrança das pessoas, tanto quanto suas próprias imagens. Desta forma, processava-se uma espécie de novo passado, se é que tal coisa possa existir. Não se sabe se havia relação com isso, mas muita coisa mudou na paisagem e até algumas na geografia. Algumas casas e prédios desapareceram e outros surgiram. Era como se uma nova realidade, que se adaptava aos que ficaram, tivesse se formado. Havia no ar uma mistura de surpresa e de tristeza. Foi então que alguns governos informaram que a grande névoa que tinha coberto tudo na época do desparecimento dos diferentes, na verdade tinha coberto apenas os que ficaram. Os diferentes foram para lugares onde a grande luz branca não tinha alcançado. Isso queria dizer que, quem tinha sumido não eram os diferentes, éramos nós. Em outras palavras, os “diferentes” éramos nós. Fazia sentido, nosso mundo praticamente não existia mais, tanto ele tinha mudado. Os diferentes é que tinham restado e ficado para repovoar a terra. Nós estávamos em algum lugar diferente. Num outro universo, talvez? Alguns falavam até em realidade virtual.
Para ser sincero, agora quase ninguém discute mais isso. Eu ainda falo um pouco sobre o assunto e conheço uns outros poucos que também o fazem. A grande maioria não tem a menor ideia, não se lembra de nada. Para eles o mundo sempre foi assim, nunca houve os diferentes. Essa história de “diferentes” é coisa de gente louca. Alguns loucos que existem por aí. Loucos como eu.
Ultimamente tenho pensado a mesma coisa. Que talvez nunca tenha havido os diferentes, que talvez a maioria das pessoas tenha razão. Aos poucos eu vou me convencendo de que foi tudo uma ilusão. Talvez seja melhor assim, talvez eu finalmente tenha um pouco de paz.

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Thursday, September 22, 2016

Prece










Prece

A cidade é grande e bela. Sedutora. Tem histórias de nobreza, tem histórias de coragem. Tem gente trabalhadora, com coração. Gente que ajuda e que ajuda a ajudar. Que se entrega.

Há igualmente os mudos e cegos de espírito. Quase autômatos, formam uma massa disforme e imensa, lentamente se mexendo, cumprindo a missão de sobreviver. Sem saber, não são o que poderiam ser. São só o que precisam e conseguem ser.

Há, felizmente, os que são alegres. Conversam, cantam, se divertem, são amigos e são felizes. São a alma da cidade. Impedem, quantas  vezes, a cidade de chorar.

Alguns existem, que oram. Outros preferem rezar. Uns privilegiados, explicam como devemos orar. Há os que pensam ter contato direto com Deus. Ateus, esses existem também.

E há os demônios. Roubam, matam, não têm alma. Perderam há muito o significado da vida. Roubam de todos nós o sentido das coisas, a alegria de viver. Torturam a cidade de dia e de noite com seus crimes hediondos, são os monstros.

São algozes dos que oram, dos que rezam, dos que se alegram e da grande massa também. Eles mesmos um dia já foram parte da grande massa. Agora são seus assassinos.

Que os que oram e rezam, nos consigam proteção lá de cima. Que os que têm coragem, nos protejam cá embaixo. Que os que têm coração, enterrem nossos mortos. Que os que são alegres, nos consolem.

E que o Deus de todos, mesmo dos que não têm Deus, tenha piedade de todos nós!


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Tuesday, September 20, 2016

Uma fábula moderninha



Uma fábula moderninha

O Falcão acordou cedo e, como fazia todos os dias, foi até o banheiro. Olhou para o espelho, como sempre fazia, para ver sua cara de quem acabou de acordar. Para seu espanto, entretanto, não era sua cara que estava ali. Era um emoji. Aquela carinha de felicidade rindo para ele. O que lhe veio à mente, em primeiro lugar, foi a ideia de que alguém havia lhe pregado uma peça. Passou a mão pela face, esperando sentir alguma textura plástica de uma possível máscara, maldosamente colocada em sua cara durante a noite. Que nada, o que sentiu foi exatamente o que sentia quando tocava sua pele. Não, não era uma brincadeira de mau gosto de algum amigo. Além disso, assim que seus dedos tocaram suas bochechas, o emoji mudou de felicidade para susto. Outro emoji. Imediatamente veio à sua mente a palavra “surreal”. Agora entendeu bem, bem mesmo, o significado da palavra que tinha, por coincidência, aprendido há alguns dias atrás. Surreal. Podia ser um pesadelo, mas era muito, muito real.
Logo a seguir, pensou em acordar a mulher, a Tâmara. Ela sempre tinha alguma boa explicação para tudo. A única preocupação era que ela levasse um susto muito grande com sua aparência. No entanto, essa era a única coisa que podia fazer, por enquanto. Acendeu a luz, aproximou-se e cutucou seu ombro. Quando ela se virou, lá estava nada mais, nada menos que um emoji. Ela não acordou, ainda bem. Uma cara de zangada. Meu Deus, aquilo não era pesadelo, não tinha explicação. Talvez fosse castigo para o fato de ele ficar tanto tempo no computador, mandando mensagens para todo mundo, sempre com um emoji. Voltou para o espelho e agora sua cara era de “tímido”.
Não sabia o que pensar. Ainda bem que logo começou a sentir um sono extraordinário. Estranho, pois tinha dormido a noite inteira. Voltou para a cama e quando encostou a cabeça no travesseiro, já estava dormindo de novo.
Não dormiu muito. Quando acordou, não tinha mais corpo, só aquela carinha simpática de emoji. Nem nome tinha mais, não se lembrava de mais nada. Estava lá, agora com aquela carinha de amor, grudado numa tela de celular. Viu que alguém o olhava. Esse alguém tinha acabado de escrever uma mensagem e, quando ele menos esperava, veio com aquela setinha e clicou nele. Sentiu umas cócegas e, quando percebeu, já estava em outra tela. Acho até que era em outro país. Um outro rosto sorridente clicou de novo nele. Agora as cócegas foram menores, quando a setinha o cutucou. E lá estava ele de volta para a primeira tela. A mesma pessoa, de novo, toda feliz com a sua volta. O Falcão, que agora nem sabia mais que antes era Falcão, lembrou-se de sua mulher, que ele não sabia mais que era sua mulher. Lembrou-se de que ela era um emoji de zangada.
Ele não sabia qual a razão, mas isso fazia lógica. Ela sempre fora muito raivosa. Isso mesmo, acho que era isso. Depois de mais alguns cliques, ele não se lembrava de mais nada. Só ficava viajando de tela em tela, levando sempre junto sua carinha de apaixonado.

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Monday, September 19, 2016

Breve história da mentira




Breve história da mentira

No começo, bem no começo, ninguém falava mentiras. Com o tempo, talvez por necessidade, alguns poucos começaram a falar meias verdades. Houve revolta, mas depois o povo se acostumou. Alguns até gostavam. Mas as pessoas mais responsáveis ainda ficavam furiosas com isso. Passou mais um tempo e alguns, mais ousados, passaram a falar mentiras inteiras. Tinham, porém, uma desculpa pronta para o caso de serem contestadas. Uma desculpa qualquer: foram enganadas, mentiram para elas também, etc. Eram ainda poucos. Passou mais um tempo e o número daqueles que falavam mentiras inteiras aumentou bastante. E então, não precisavam mais de desculpas. Mantinham a mentira como se ela fosse verdade. O Maluf é dessa época. Alguns até juravam, outros até choravam para garantir a legitimidade da mentira. Mais tempo se passou e alguns passaram a invocar Deus para legitimar a mentira.
Agora, a maior parte dos que mentem acha que, definitivamente, estão falando a verdade. Até se sentem mal quando, por descuido, falam alguma verdade.
Existem agora os magos das mentiras. Eles nunca falam a verdade. Quase todos acreditam neles e os que não acreditam, são chamados de mentirosos. Os jornais, a televisão, quase todos, discutem a mentira normalmente, como se ela fosse verdade. É o caso do Trump.

Quando a verdade voltar, não sei o que será de nós. Acho que não vamos mais reconhecê-la.

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