Wednesday, September 30, 2015

Velhas versões de mim



Velhas versões de mim

Decidi: vou enterrar
as velhas versões de mim.
Melhor, vou mesmo cremá-las,
colocá-las numa urna,
jogá-las no espaço sem fim.
Quero refazer os versos,
o reverso do que eu fui,
e enfim transformá-los,
na minha nova versão.
Quem sabe, agora, por fim,
eu consiga encontrar
no meio das cinzas do ar,
o inegável óbvio
que eu antes nunca vi?

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Tuesday, September 29, 2015

Lua, estranha Lua



Lua, estranha Lua

Martin tinha ido para sua casa nas montanhas para passar o final de semana. Na verdade era seu sítio no meio do mato. Havia umas colinas cá e lá, mas era bonito falar “casa nas montanhas”.  Sozinho, aquele ar puro e gostoso, não podia haver nada melhor. Saiu do trabalho mais cedo na sexta e quando era quase noite, chegou na antiga cabana. Arrumou rapidamente as coisas, encheu um copo de vinho e foi para a varanda. Adorava essa parte.  Olhar para aquele último clarão do dia, as sombras chegando, as estrelas aparecendo na vastidão do céu. Era algo que não se comparava a nenhuma outra sensação.
Seu refúgio não era nada mau. Tinha até energia elétrica. Tinha pago uma fortuna para colocar todos aqueles postes por quase dois quilômetros para trazer a rede do pequeno vilarejo até onde estava. Fazia questão de não ter televisão por ali. Rádio era bom, não que ouvisse o tempo todo. Algumas notícias, um pouco de música para o fim de semana.
Ele já estava na quarta taça de vinho. Sem problemas, não iria a lugar nenhum, poderia dormir até a hora que quisesse. Era uma noite sem nuvens, cheia de estrelas e aquela lua formosa. Ela tinha algo de diferente naquela noite. Estava enorme e alaranjada. Como nunca tinha visto antes. Dava até a impressão que estava pulsando, como se fosse um coração. Era como se ela tivesse veias e artérias. Que bobagem. Tinha mesmo bebido demais.
Levantou-se e foi para a cama. No caminho teve a sensação de que estava mais leve. Que seu coração batia de um outro jeito.
Dormiu algumas horas. Acordou com um estranho ruído. Parecia o som das folhas das árvores ao soprar do vento. Mas não havia vento nenhum. O ar estava incrivelmente parado. Olhou para o teto e notou que havia duas folhas de papel grudadas nele. Outras pequenas coisas que ele não reconhecia também lá estavam. Como se elas tivessem sido atraídas para cima. Levantou-se e, paradoxalmente, sentia-se extremamente leve, como se fosse flutuar, e ao mesmo tempo um torpor excessivo, como se o sangue quisesse explodir em suas veias. Foi lentamente até a varanda. Olhou para cima e viu algo que não entendia. Sentou-se. Não podia acreditar em seus olhos. Tentou concentrar-se para entender o que estava vendo. A Lua estava enorme. Sinistra, anormal. Cinco ou seis vezes maior que seu tamanho normal. Era agora praticamente vermelha. Era como se tivesse rios de sangue correndo pela sua superfície. Pareciam lavas de um vulcão subterrâneo. Sua inteligência não conseguia processar o que seus olhos viam. Dirigiu a vista para o lado da vila.  Não havia luz. Certamente, como em sua casa, a energia elétrica tinha sido cortada. O rubro da Lua, entretanto, reverberava de volta para o céu. Notou então, que folhas, objetos leves, até o pó do chão, estavam sendo levantados para cima, como se estivessem sido atraídos pelo astro. Apesar do inédito e do bizarro da situação, seu raciocínio funcionou rápido. Se a Lua estava mais próxima, sua força gravitacional estaria também atraindo tudo que podia em sua direção. Isso explicaria também porque se sentia mais leve. E também a sensação de que estava explodindo por dentro. Tentou ligar o rádio de pilha para saber alguma coisa. Nada.
Era paradoxal. Uma beleza inédita e fantástica e, ao mesmo tempo, aterradora. Estava acontecendo, mas não podia estar acontecendo. Era impossível.
Muito mais coisas estavam subindo para o ar agora. Coisas não tão leves. Começou a sentir falta de ar. Como se ele estivesse ficando rarefeito. Estaria a Lua sugando tudo, inclusive a atmosfera? Sabia que iria morrer, mas sabia que aquilo era um espetáculo que nenhum ser inteligente havia visto antes. Como os astrônomos não souberam disso com antecedência? Como não haviam feito previsões, com toda a tecnologia disponível? Havia lava dentro da Lua, ou era outro fenômeno que estava acontecendo? Nunca ficaria sabendo. Deitado na relva, Martin estendeu a palma de sua mão contra o firmamento. Aquela bola gigantesca estava agora quatro ou cinco vezes maior que ela. Com a falta de oxigênio, Martin já não raciocinava mais.  Viu ainda mais uma vez aquela esfera enorme, avermelhada, com rios de lava se aproximando cada vez mais. Depois tudo se apagou.

A grande e apocalíptica explosão muitas horas depois, ele, definitivamente, não viu. Nem ele, e nem qualquer outro ser humano. Talvez, fora do sistema solar, alguma nave alienígena estivesse observando. Para eles, na distância, seria apenas um pequeno cintilar de luz. Depois do fenômeno, seus aparelhos talvez estivessem calculando o realinhamento dos planetas. Para nós, o extermínio. Para a galáxia, um reluzir inexpressivo, passageiro, no meio de infinitos outros.

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Brasil


Monday, September 28, 2015

Coisa de comunista


Coisa de comunista

Tento entender como tantos são enganados por tão poucos. Também não consigo entender como tão poucos têm tentáculos de tarântula que tentam o tempo todo tomar posse de tudo que é tão somente o pouco que a maioria tem para sobreviver. Tento entender  e não atino com o que eles têm para dizer. São poucos que têm muito e tantos que nada têm.
Ainda estou tentando entender a estatística desta matemática maldita, fatalista, que ataca a população com golpes fatais. Frios, com furor sugam as tetas de tudo. Tiram do trabalho de outros tudo que podem.Têm na testa a marca da besta. Têm tanto que nem podem usar no tempo que têm para viver. Têm tudo que os outros não têm, têm tudo que os outros deixam de ter.
Acho que é tudo só impressão minha. Não se pode falar coisa assim, isso é coisa de comunista...                  
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Friday, September 25, 2015

Adições e subtrações




Adições e subtrações

Somando-se todas paixões,
todos os doces amores,
daí subtraindo-se todo ódio,
toda ira, doidas sensações,
o que sobra em nossa alma?
Somando-se as doces sentenças,
os gestos de amor e carinho,
subtraindo-se toda dor intensa,
tudo que nos foi algoz,
o que sobrará dentro de nós?
Só nós mesmos, só nós, nada mais.

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Tuesday, September 22, 2015

Palavras, tantas palavras


Palavras, tantas palavras

Anacrônico
Anátema
Anacoluto
Analfabeto
Anatomia
Anabel, um amor que já se foi...
Análise
Analogia
Anarquia
Anagnostenia:
Essa última me deu dor de cabeça...
Preciso de um

Analgésico

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Thursday, September 17, 2015

Meu amigo, o tempo




Meu amigo, o tempo

Depois desse tempo todo,
acabei ficando amigo dele.
Isso mesmo, do tempo.
Às vezes ele me engana,
dizendo que vai ser rápido,
mas então demora demais.
Diz também que vai demorar
e daí passa num instante.
Vez ou outra, eu também o engano.
Faço de conta que estou com pressa,
para ele passar devagar.
No geral a gente se entende bem.
Ele faz o que tem de fazer
e eu finjo que está tudo bem.
Um dia, eu sei, ele vai parar de passar,
mas daí eu vou parar também.
  
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Tuesday, September 15, 2015

Quando a eternidade chegar


Quando a eternidade chegar

Estou aqui, ansioso, esperando...
Esperando a eternidade chegar.
E ela, teimosa, nunca que chega.
Não sei por que demora tanto,
está atrasada, vem devagar.
Quando ela chegar, eu vou dizer:
Pensei que você não viesse mais,
você demorou uma eternidade!
Talvez ela responda, com prazer:
Pensando bem, vou voltar mais tarde.
E quem sabe mais um infinito
se passe, antes que ela volte.
Não faz mal, não. Não estou nem aí.
O que é esse eterno porvir,
para quem tem uma só vida?
Acho até legal, por que não?
Quem sabe ela se esquece de vir?

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Monday, September 14, 2015

Aperto, o do trem, e outros mais

Aperto, o do trem, e outros mais



Um braço cruzado segurando o fichário e um livro sobre o peito, para o curso noturno. Apertado como nunca. Nem os dedos dava para mexer. O outro braço, o esquerdo, abaixado, segurando uma sacola com o lanche para o almoço. Também não podia se mexer. Os pés igualmente, tinham de ficar quietinhos, movimento nenhum. A cabeça sim, essa podia virar um pouco, mas não muito.
Todo mundo empacotado, petrificado, paralisado, era o trem das seis e cinco, da manhã, é claro, saindo de Perus. Em Jaraguá piorou mais um pouquinho e em Pirituba mais um pouco ainda. O zíper do fichário quase machucava minha pele. A Lapa estava chegando, graças a Deus, muita gente ia sair lá. Ainda ia continuar  uma sardinha em lata, mas pelo menos os dedos eu iria poder movimentar. O subúrbio da Santos a Jundiaí foi diminuindo de velocidade, já dava para ver o nome da estação. Nem precisava me preocupar em dar passagem para quem ia sair. Levavam a gente para fora e depois a turma de fora levava a gente de volta para dentro. Se quisesse trocar a posição dos braços, essa era a hora.
Aquele dia porém, algo tinha acontecido. Havia muita gente naquela estação da Lapa também. Trem quebrado? Não sei, mas mal tinha conseguido ser empurrado para fora, já estava vindo de volta. O impossível aconteceu. Ficou mais apertado do que antes. Os dois braços estavam na mesma posição em que haviam entrado em Perus.
Quando chegou a Água Branca, finalmente  meu corpo e minhas coisas foram empurradas para fora. Respirei fundo, aquela sensação gostosa de ar, apesar da mistura de cheiro de freio do trem e de poluição das fábricas próximas. Podia, finalmente, esticar os membros inferiores e os superiores.
Agora era só correr até a Francisco Matarazzo e finalmente pegar o ônibus. Não conseguiria me sentar, mas pelo menos, poderia me estirar.
Era uma segunda-feira qualquer de agosto de 1966, faltavam 34 anos para o novo milênio, mas ninguém pensava nisso, tanta coisa havia para se fazer. Havia a ditadura e seus porões. Ela partiria mais tarde, mas muitos porões ficariam e outros se criariam. E o milênio chegou e mais 13 anos se passaram. O que mudou? Muito e nada. A condução, pelo menos, deve ter mudado, assim espero.

O aperto, entretanto,  pelo menos aquele dentro do peito, acho que continua forte e persistente na nossa querida pátria: a nossa pátria, amada, idolatrada, cheia de encantos mil, meu adorado Brasil.


o0o0o0o0o0o0o0o0o0o0o0o0o0o


Essa vida da gente

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Sunday, September 13, 2015

São Paulo bandeirante

                                                  

São Paulo bandeirante

Ando em São Paulo pelas ruas,
e tudo que vejo são almas nuas.
Vejo angústia, solidão,
sorrisos que não se firmaram,
esperanças que findaram
para sempre na imensidão.
Gente com andar seguro,
e no ar, cheiro de café expresso
em meio a crimes confessos.
Vejo nos rostos, abortos
de desejos retos e tortos.
Vejo também muitos anjos,
mulheres com ar de criança,
e marmanjos sem esperança.
Vejo inúteis ideais,
mesclados com ideias banais.
Vejo o mundo se criando,
de novo, a cada instante,
neste eterno despertar
de metrópole gigante.
Acho que é por isso que te amo,
minha cidade bandeirante,
e com força te conclamo
para ser minha amante.
                  

ooooooOOO0OOOooooo

O texto acima não faz parte do livro abaixo

Essa vida da gente

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Friday, September 11, 2015

As pílulas do Doutor Sampaio



As pílulas do Doutor Sampaio

O Léo não andava nada bem. Tristeza, depressão, falta de ânimo pela vida. Às vezes, tinha surtos de alegria intensa. Curtos, muito curtos. E ele não queria nem ouvir falar em médico. Psiquiatra, psicólogo? Nem pensar!
Chegou uma hora, entretanto, que não deu mais. Era um perigo deixar um rapaz naquele estado andando por aí, isso sem contar o sofrimento. A família deu um jeito, e, com jeito, levaram-no para o doutor. Esse era daqueles bem práticos. Conversa não adianta nada. Fez uns testes e receitou um monte de remédios. No começo, a própria irmã do Léo é que separava os comprimidos. Um branco, cinco azuis, duas vezes por dia. Havia também um amarelinho que era só à noite.
E não é que a medicação do Doutor Sampaio estava funcionando? Dois dias depois o Léo já estava bem melhor. Depois de uma semana estava claro que ele já podia cuidar de si mesmo e ingerir todas aquelas pílulas.
Um mês depois, uns dias antes da nova consulta, o rapaz sentou-se no sofá da sala. Estava feliz. Agora sim estava entendendo o que se passava com ele e queria continuar com aquele tratamento. Por falar nele, lá estavam, do outro lado, sobre a cristaleira, aquelas pílulas milagrosas. Branquinhas, azuis, amarelinhas. Um milagre da Medicina. Fechou os olhos por uns segundos e podia ver aquelas luzinhas coloridas brincando no ar. O azul às vezes se destacava, crescia, aumentava e depois ficava nebuloso. Depois era a vez daquele amarelo bonito que ia e vinha pelo ar. Depois todos os comprimidos se misturavam num perfeito arco-íris. De repente, o Léo se lembrou que era hora de tomá-las. Levantou-se e atravessou a sala, foi até a cozinha e voltou com um copo de água na mão. Pegou os três frascos e colocou-os na mesinha da sala. Abriu aquele com as bolinhas azuis e pegou cinco. Depois ficou em dúvida. Achou que eram cinco brancas e uma azul e não o contrário. Será? Mas por outro lado a azul parecia mais importante e resolveu pegar cinco de cada. Depois pegou as amarelos. Sabia que era um só e era à noite. Mas por uma questão de simetria, era melhor cinco de cada. Colocou-as na palma da mão. Antes de engoli-las, pensou como aquela azulzinha fazia bem. Tinha certeza de que ela era a mais importante das três. E ele queria ter uma noite feliz. Pegou mais cinco daquelas azuis. Só para garantir. Azul, cor de anil, cor da felicidade. Talvez fosse perigoso tomar tudo aquilo, pensou. Mas quando pensou, já tinha tomado. Recostou-se no sofá e alguns minutos depois já se sentia mole e gostoso. Dormiu profundo, o Leo. O profundo mais profundo de sua vida.
Nunca mais acordou.
Alguns dizem que foi suicídio, outros que foi um acidente. Que comprimidinho poderoso aquele azul. Azul, azul cor do céu.

Não sei por que me lembrei das pílulas de vida do Doutor Ross. Que saudade!

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O texto acima não faz parte do livro abaixo

Essa vida da gente

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