Saturday, January 30, 2016

Coração de mulher









Coração de mulher

Resolvi fazer uma viagem
para o coração da amada.
Criei muita coragem
e comecei a empreitada.
Para dizer a verdade,
temia o que podia encontrar,
talvez verdades tristes
que não quisesse enxergar.
Foi uma longa viagem,
cheia de muita miragem,
coisa para se deleitar,
como deve ser, com certeza
todo coração de mulher.
Mas para ser sincero,
queria algo singular,
com o qual pudesse,
pessoalmente me identificar.
Queria me ver nela,
lá bem dentro de seu
intenso e denso pulsar.
Vi sim, finalmente,
uma preciosa pedra,
e, lá dentro, um nome escrito.
Apertei bem os olhos,
tentando ler meu nome, talvez...
Parecia, mas certeza não tinha.
Voltei entre alegre e triste,
sem saber a resposta
para tão grande segredo.
Pode ser e pode não ser:
Não é mesmo assim,
todo coração de mulher?

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Friday, January 29, 2016

Uma cidade chamada “Facebook”


Uma cidade chamada “Facebook”



O moço, simples, acanhado, não tem amigos, só tem conhecidos do tipo “olá, como vai?”.  É triste ser assim, ele muito bem sabe, precisa mudar. Foi daí que ouviu falar do Facebook. Entrou, "perfilou", pesquisou. Envergonhado de tudo que era e fazia, falou quase nada de si. Estava, entretanto, orgulhoso. Orgulhoso não, esperançoso. Procurou na Internet por mais de três horas algo para postar. Achou algo supimba e uma foto mais legal ainda. Postou. Requisitou três amigos que já eram seus conhecidos, não podia falhar. Ou podia?
Daí esperou. A cada cinco minutos, dava uma olhada e nada. Passaram-se as horas e chegou a noite. Era já tempo de dormir e deu mais uma olhada. Havia um ‘curtir” e um “compartilhar”. Pessoal do escritório onde trabalhava. Foi uma felicidade sem par. Foi dormir, todo excitado. Finalmente apagou. Sonhou. Estava em um conversível, amarelo berrante e agressivo, entrando numa cidade. A placa dizia bem claro, em Inglês: “Facebook City”. Entrou glorioso, direto pela avenida central. Havia milhares de pessoas dos dois lados, aclamando, acenando e, certamente, com "tablets" na mão. Tiravam fotos suas. Ele, majestoso, num fraque de divino azul e camisa branca de seda. Um gravata violeta balouçando ao vento. E as pessoas postavam as fotos. E as pessoas curtiam as fotos. E as pessoas comentavam sobre as fotos. E as pessoas compartilhavam as fotos. Ele era agora, o rei das redes sociais. De repente alguém gritou: “Tuíta por favor!”. Então ele, com a mão esquerda no volante cor de marfim e com a direita segurando um android dourado, começou a tuitar. Tuitou desatinado. Ao longe, ele podia ver o final da avenida, o final da cidade e, também, o final de seu sonho. Sabia que a manhã estava chegando e ele iria parar de sonhar. Iria voltar para sua costumeira posição. Entre milhões de outras, ele seria, novamente, uma página normal, banal,  na extensa rede social.

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Thursday, January 28, 2016

Sonhar



Sonhar

Nos anos 50,  The Everly Brothers já cantavam: tudo que eu preciso fazer é sonhar...sonhar e sonhar. E não sonhamos todos nós? Com felicidade, com riqueza, com uma notícia boa que nos livre de algum mal? Que as pessoas das quais gostamos, também gostem de nós? Que nenhuma tragédia ocorra nem para nós, nem para nossos queridos? Sonhos muitos, tantos sonhos para serem sonhados.  Sonhamos até que nossos sonhos vão ser realizados.
Mas sonhos são apenas sonhos e é por isso que os chamamos assim. Se tudo fosse perfeito, bom e belo, quem precisaria deles?
Vamos nos iludindo, achando que o que desejamos vai acontecer amanhã, qualquer dia destes, um dia qualquer na vida. Precisamos acreditar, é como se fosse um alimento da alma. No decorrer da existência, vamos, lentamente, percebendo, que alguns poucos, bem poucos,  se realizam. Não do jeito que queríamos, nem do jeito que esperávamos. Nunca desistimos, porém. Faz parte de nosso DNA.

O tempo passa e vamos diminuindo as expectativas, remodelando nossos desejos. Então, quando o último dia chegar, ainda estaremos sonhando. Sonhando, talvez, que tenhamos mais um dia além do combinado com o destino. Um dia só, mais um só dia, para, de novo, mais uma vez, sonhar...


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Wednesday, January 27, 2016

Vamos beber





Vamos beber

Minha alma está inquieta,
não consigo entendê-la.
Suspira, às vezes, à toa,
outras vezes, chora quieta
como alguém que destoa.
Está assim só, incompleta,
engolfada  nas sombras.
Converso, então, com ela,
explico que tudo passa;
mesmo que demore um pouco:
é só agir com cautela,
e não como um louco,
que nada tem a perder.
Ela finge que concorda,
dá mais um suspiro profundo,
e continua com seu viver.
Como a alma é minha,
dou um sorriso também,
ofereço-lhe uma taça de vinho
e continuamos a beber.

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Tuesday, January 26, 2016

Lágrimas de presidente



Lágrimas de presidente

Para muitos que não vivem nos Estados Unidos, o presidente Obama é de direita, pelo simples fato de ser um presidente americano. Dentro desse país, no entanto, ele é considerado de esquerda. Um socialista, quase comunista. E todo mundo sabe que “socialismo” é um verdadeiro palavrão por aqui. Esse negócio de esquerda ou direita é daquelas coisas extremamente relativas, como quase tudo na vida.
Pois bem, esse presidente, que paradoxalmente está ao mesmo tempo nas duas pontas do longo palco político, chorou há algumas semanas atrás. E não pensem que foi na intimidade de sua sala na Casa Branca. Não, senhor, foi ali na frente de todo mundo, em rede nacional de televisão. Ele estava tentando defender algo que parece lógico num mundo supostamente lógico: fazer com que as pessoas que querem comprar armas tenham um atestado de antecedentes criminais. Já tentou isso antes e foi derrotado no Congresso. O pessoal que gosta das armas -  quase todo mundo - não quer que ninguém sequer chegue perto de qualquer controle. Mas voltemos ao choro. Foram lágrimas reais, até grossas, e rolaram copiosas pelo rosto do mandatário.
Gritaria geral do pessoal que defende armas para todos. Lágrimas de crocodilo, fingidas, uma encenação. Eu já vi choro fingido, posso garantir que aquelas lágrimas eram as mais sinceras que um homem pode verter. O motivo do choro? As crianças que morreram no massacre da Sandy Hook Elementary School. Bastante compreensível para um pai que tem duas filhas. Eu não sou autoridade em lágrimas presidenciais, mas apostaria um milhão – que nunca tive e  jamais terei – na autenticidade delas. Cheguei a pensar em pedir para minha querida nora, a Mirella, que é atriz, para dar uma olhada no tape. Tenho certeza de que ela concordaria comigo.
Esse povo não acredita que um presidente possa chorar por um verdadeiro motivo: vinte crianças que morreram de uma forma estúpida.
Sou suspeito por apoiar o Obama. Sempre achei que ele está sendo o melhor presidente das últimas décadas. Tudo que enfrentou, as causas pelas quais lutou, o respeito e dignidade que teve com seus adversários, só vai ser apreciado muito tarde.
As lágrimas do presidente, posso garantir mais uma vez, são as coisas mais legítimas que vi nos últimos tempos.


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Sunday, January 24, 2016

São Paulo de Bartira



São Paulo de Bartira

São Paulo, minha cidade,
não sei se és meu pai,
se és minha mãe.
Só sei que temos o mesmo DNA,
não há como negar.
Por que me deixaste,
ou fui eu quem te deixou?
Sou um distante filho de Bartira,
a índia de Ramalho.
Vem, portanto, me resgatar,
estou chorando de saudades,
mas também tenho medo de ti.
Tenho medo que me vicies,
que me engulas de vez,
em teu ventre fascinante,
belo, envolvente.
Cidade assustadora, insensível,
sussurrando segredos
que não quero ouvir.
Só sei que é um amor insensato,
esse amor que sinto por ti
e que sentes por mim.

Um pouco de história:


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Saturday, January 23, 2016

Poema inconsequente, saturado de insensatez


Poema inconsequente, saturado de insensatez

Tenho pena do coitado
que pegou uma pena injusta
e, por isso, pego a pena e escrevo.
Enquanto isso, ele paga a pena.
Pergunto “Vale a pena?”
Vale quanto pesa?
Vale enquanto pensa?
Viu só como são as palavras?
Vão pulando para lá e para cá,
brincando com formas e significados,
com conteúdos contidos que não conseguem se conter.
Eu me divirto com elas.
Divirto, diversão, divisa, divagar, devasso.
Vou devagar para não divagar demais,
nas vagas do mar, nas vagas do amar.
Me apaixono pelos vocábulos,
pelos verbetes do dicionário
e pelos verbos irregulares,
pois irregular é a própria vida.
Vida, vital, via, Via Veneto,
vá logo para lá,
mas depois volte para cá!
Você já esteve lá? Na Itália?
Não permita Deus que eu morra,
Gonçalves,
Sem alguns Dias estar por cá.
Lá, acolá, ali, aí, aqui
-não confunda com caqui-
Nem com o cáqui do uniforme militar.
Oxalá, um dia eu possa estar
bem-estar, mal-estar,
-quase me esqueci do hífen-
às vezes tem, às vezes não tem,
às vezes há, outras não.
Estar de bem com a vida
e de mal com a morte?
Morro de rir das expressões,
morro também de fome, de sede.
De vontade, de cansado,
de pena do coitado lá de cima,
que nem sabe do que estou falando,
tão preocupado está com a pena que recebeu.
Mas não morro de verdade,
morrer aqui é só uma metáfora.
Ou é um anacoluto?
Talvez uma metonímia
que não me meto a explicar.
Mas um dia a gente morre de verdade,
morte morrida,
e depois a gente não fala mais
palavra nenhuma
metáfora nenhuma.
Tudo denotativo.
Sete palmos de terra,
acho que vou me cremar
-ou vão me cremar-
Crematório, purgatório só depois do velório.
Cinzas,
depois que tudo acabar,
vai ser tudo conotativo,
abstrato,
insensato.
Sem sujeito.
Nem oculto ele vai estar.
Pelo menos não vou mais precisar fazer a análise sintática,
que eu nem fazia mais.
Mais, más, demais, ademais.
A única dor que vou sentir,
unicamente, dolorida,
vai ser a dor do linguajar.
-Dolores: nunca amei uma Dolores-
A dor vai ser uma só,
somente só
a dor de não poder falar, escrever
as palavras de que tanto gosto.
Vocabulares, sibilantes, guturais, bilabiais.
E as vogais, então?
Que saudades eu vou ter.
Abertas, fechadas, entreabertas,
Vou morrer de saudades.
Melhor, vou ter morrido de saudades!
Como é complicado conjugar estes verbos,
verbos da minha amada, idolatrada,
Minha Língua, Portuguesa.
Do Brasil.
Varonil!
Não aguentei e fiz mais uma rima
rima besta, sem sentido!
Uma rima que estava faltando neste insensato,
sem senso, inassimilável poema,
que mais parece um teorema.
Um teorema que rima com semantema.
Nestes termos, peço deferimento.

Assinado: eu

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Friday, January 22, 2016

As bulas de remédios e as bulas papais



As bulas de remédios e as bulas papais

Certamente todos conhecem as bulas de remédios. Sabem como elas são úteis, como podemos aprender as vantagens de um medicamento, suas doses, seus efeitos colaterais e coisas assim. As bulas papais eram muito úteis, também. Eram comuns no século XV e eram documentos que permitiam à Igreja controlar muitos assuntos, inclusive o poder sobre as novas terras descobertas. Havia, porém, um tipo muito especial de bula e é sobre ela que quero escrever.
Pepe Rodriguez descreve algumas delas, de acordo com o que se pode ler no blog “jomalori.blogspot.com”. Roberto Pompeu de Toledo em seu livro “A Capital da Solidão” também se refere a elas. Eram uma espécie de licença para se poder pecar que estava à venda. Não poderia dizer que os preços eram módicos, pois desconheço o poder de compra da moeda da época. Mas nas fontes acima temos uma pequena tabela e você pode ir fundo no assunto para saber o preço de seu pecado preferido. Nosso país as adotou logo no início.
Aqui estão algumas partes do “Taxa Camarae”, uma espécie de tarifário promulgado pelo papa Leão X (eram 35 artigos):
1 - O eclesiástico que cometa o pecado da carne, seja com freiras, seja com primas, sobrinhas ou afilhadas suas, seja, por fim, com outra mulher qualquer, será absolvido, mediante o pagamento de 67 libras, 12 soldos.
 2 - Se o eclesiástico, além do pecado de fornicação, quiser ser absolvido do pecado contra a natureza ou de bestialidade, deve pagar 219 libras, 15 soldos. Mas se tiver apenas cometido pecado contra a natureza com meninos ou com animais e não com mulheres, somente pagará 131 libras, 15 soldos.
3-O sacerdote que desflorar uma virgem, pagará 2 libras, 8 soldos.

E a lista vai por aí. Não vou citar o resto para que ninguém se assuste.
Graças a Deus, minha querida mãe não teve acesso, a qualquer um desses documentos. Coitada, morreria de desgosto. Ou talvez, simplesmente não acreditaria, católica “militante e juramentada”, que era, como diria o Odorico Paraguaçu.

Acredite, se quiser...





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