Saturday, September 29, 2012

Mensagem do Futuro


Mensagem do Futuro
autor: Flávio Cruz

Gerald trabalhava numa central de comunicações especiais.  Ali ele não recebia transmissões de naves espaciais , embora houvesse milhares no espaço próximo e distante, nem de estações estabelecidas por humanos em outros planetas. Seu trabalho era outro.
Fazia quase 300 anos que o homem pousara na Lua e a tecnologia atingira níveis sequer imaginados. Além disso, muitos outros fatos haviam ocorrido. Foi por acaso, mas finalmente o homem havia feito alguns contatos com civilizações extraterrestres. No processo descobriu outras formas de comunicação, ondas em outras dimensões, que mesmo os autores de ficção científica jamais tinham concebido. Eram esses tipos de transmissão que Gerald procurava captar. Seus aparelhos eram completamente inúteis para sinais convencionais, eles sondavam em outras áreas, em outras faixas. Assim, qualquer transmissão que se conseguisse captar através daquelas incríveis máquinas era extremamente importante e singular.
Foi por isso que Gerald ficou excitadíssimo quando uma mensagem apareceu no cilindro holográfico. Estava em forma de números, extremamente pequenos e em movimento. Ele sabia que ela tinha significado mas tinha de ser decifrada. Chamou o especialista em decodificação. Este congelou a imagem, desbloqueou o cilindro da máquina e saiu levando-o consigo. Gerald ficou sozinho. Começou a analisar os dados no histórico do computador. Quando viu a data de envio da mensagem teve um sobressalto: 27 de junho de 2253, ou seja, 31 anos depois. A mensagem havia sido enviada do futuro? Devia haver algum erro. Ele sabia, porém, que essas máquinas não erravam. Enquanto pensava sobre aquele acontecimento inédito foi chamado para uma reunião.

Ficou admirado ao ver na tela da sala de teleconferência o legendário Dr. Stravius. Ele era chefe do projeto “Time Streaming” . Gerald sabia que o objetivo do mesmo era colocar no espaço naves especiais que viajariam a uma velocidade próxima da luz. Nesse ponto seria colocada em ação a nova tecnologia de viagem no tempo. Uma vez que a nave conseguisse “dar o pulo” para algum tempo no futuro ou no passado, ela voltaria para a Terra...em outra época. A parte teórica estava em ordem há muito tempo, faltava agora a inteligência artificial projetar e fabricar os equipamentos necessários, inclusive a nave em si, que viajaria com robôs. Um ser humano, mesmo com todos os avanços da ciência,  não resistiria a uma velocidade dessas.
O que Gerald não sabia era que nos últimos anos houve um progresso geométrico  em todo o projeto. A espaçonave do tempo, o objetivo final do projeto “Time Streaming”, estava pronta para ser lançada. Gerald não conseguia acreditar nas revelações. Nesse momento chegou a transcrição da mensagem que ele recebera. Era um pedido de socorro da nave TS01, primeira do projeto, que nem havia sido lançada .Ela estava com problemas e pedia ajuda ...do futuro. Houve uma rápida discussão dos envolvidos no projeto sobre o absurdo que isso representava.  Gerald só ouvia. Eles não podiam anular o projeto. Não podiam cancelar o lançamento porque agora eles sabiam que ele já tinha acontecido. Não adiantaria tentar, era o tal do “paradoxo” , do qual  os antigos cientistas tanto falaram no passado.De qualquer forma, para bloquear o lançamento seria necessário usar os computadores e estes “sabiam” que não podiam evitar algo que já tinha acontecido no futuro. Eles se recusariam a tomar as medidas necessárias.
A essa altura, Gerald estava pensando como eles tinham deixado que ele participasse de uma reunião com cientistas que estavam vários níveis acima dele. Tinha certeza de que eles fariam algo para evitar que ele revelasse para outros cientistas ou técnicos qualquer coisa do que acontecera e ouvira no encontro. O que fariam?
A resposta veio logo. Antes de sair do local onde se realizara a reunião, ele ficou sabendo que todos, exceto os cinco grande cientistas-chefe do projeto, teriam de passar por um departamento para cumprir as determinações do código MDSP345 que fazia parte dos procedimentos do projeto Time Streaming. Uma máquina deletaria completamente os dados referentes ao projeto, inclusive a recente  reunião, do cérebro de todos. Assim, em suas mentes, a mensagem não tinha vindo, o projeto ainda estava na fase inicial, nada disso tinha acontecido. Por outro lado, os acontecimentos, as opiniões, a discussão, a reação dos envolvidos, tudo ficaria retido na memória das máquinas.
Assim é que para Gerald, o dia seguinte foi um dos mais monótonos das últimas semanas. Nada de especial estava acontecendo agora, nem tinha acontecido no dia anterior...

Thursday, September 27, 2012

O Abrigo


O Abrigo


Tom era obcecado com a ideia de que uma catástrofe poderia  acontecer a qualquer momento e ele não estar preparado. Talvez porque ele fosse sobrevivente do furacão Katrina ou talvez porque ele tivesse participado da Guerra do Iraque, eu não sei. Para dizer a verdade, embora ele dissesse que tinha mudado para o Colorado por causa de negócios, desconfio que o verdadeiro motivo era que, para ele, lá as coisas eram mais seguras. O negócio de segurança – que não era por acaso – que ele tinha, estava indo muito bem. Conseguiu juntar um bom dinheiro e vivia numa espécie de sítio ao pé de uma pequena montanha a apenas algumas horas de Denver.
Vivia sozinho. Isto talvez ajudasse a aumentar a sua obsessão. O fato é que ele via conspiração, ameaça e perigo em tudo. Estava ligado em qualquer notícia que envolvesse FBI, armas nucleares que outros países estavam fazendo, grupos suspeitos, tudo. Embora o local onde estava vivendo fosse absolutamente calmo e pacífico, sentiu necessidade de se proteger. Resolveu construir um “bunker”. Primeiro escolheu o local: dentro de sua propriedade, numa parte mais alta, no começo de uma colina e bem no meio de umas árvores. Lugar perfeito. Além de seguro, ninguém viria bisbilhotar o que estava fazendo. Comprou ferro, concreto, lâminas de aço e barras de ferro. Trabalhava à tarde depois que vinha de seu escritório e durante os finais de semana. Demorou meses para construir tudo. O abrigo tinha dois ambientes. Havia gerador de energia e tudo mais: combustível, água, alimentos não perecíveis. Havia vários cabos que iam, enterrados, até bem longe do bunker e mais alto na montanha. Se houvesse sinais de TV ou rádio após um desastre coletivo, ele poderia captar lá de dentro. Pacientemente revisou todos os itens, todos os detalhes. Finalmente estava pronto para qualquer evento.
Tom agora estava bem mais calmo, bem mais seguro. Quase todo dia passava pelo seu “bunker”, dava uma limpada, revisava as coisas. Quando tinha mais tempo, consumia algumas horas lá dentro, lendo, meditando. De fora não se percebia nada. A pequena escotilha fora habilmente disfarçada com plantas artificiais e o verde se misturava com o resto da paisagem. Podia se dizer que, com seu “bunker” , ele havia comprado uma certa quantidade de paz.
Se você prestar atenção no que acontece no mundo, uma boa parte das coisas é absolutamente improvável. Depois que acontece, você fica se perguntando: Como pode? Pois bem, veja só o que aconteceu na vida de Tom. Lá estava ele, num belo sábado, descansando em sua varanda e olhando para a colina. Sim, aquela onde estava seu esconderijo. Pensando na vida, pensando no seu irmão que morava na Califórnia e que era bem diferente dele. Bom menino, no entanto. Bob era mais novo que ele mas era bem independente, não precisava se preocupar. Estava absorto em seus pensamentos quando ouviu um ruído sibilante, que, no entanto, não pode identificar. Ação contínua, houve um grande estrondo e logo a seguir uma coluna enorme de fumaça iluminada pelo fogo que rompeu logo depois. Tudo isso atrás da colina. Tom trancou a casa e saiu correndo em direção a seu abrigo. Enquanto corria, podia ver que o incêndio já se alastrava pela mata. Entrou e se trancou lá dentro. Imaginou que não teria dado tempo para pegar nenhum tipo de radiação. Sim, com certeza, estava a salvo.
As primeiras horas foram de muita excitação. Checou o gerador, checou a energia elétrica, tudo funcionando. Tudo menos a antena externa. Não podia ver o que estava acontecendo lá fora. As primeiras horas foram estranhas. Havia uma mistura de medo, de alívio e ao mesmo tempo aquele clima de apocalipse. Depois dos primeiros dias começou acontecer algo que ele, de certa forma, havia previsto. As horas não passavam...Ou passavam e ele acabava perdendo a nocão. Verificava o calendário e as horas a cada pouco. Daí se lembrou de que havia guardado uma grande quantidade de remédios para dormir. Era uma forma de enganar o tempo. Passou semanas meio dopado. Quando estava acordado, fazia as pequenas tarefas que tinha de fazer – ele era muito disciplinado – e pensava nas pessoas que conhecia. Será que a California tinha sido atingida? O Bob estaria vivo? E as outras  pessoas de sua cidade? Estariam todos mortos? Machucados, deformados? Quantos teriam sobrevivido?
O passar do tempo era um dos maiores problemas. Começou a assistir filmes, havia trazido muitos. Lia livros. Pensava, pensava e tomava remédios para dormir. Nem ele sabe como conseguiu, mas ficou lá quase cinco meses. Resolveu sair, ver a situação. Havia a possibilidade de ele voltar se as coisas não estivessem bem.
Calculou a hora de sair. De manhã, às oito, seria ótimo. Se a situação não estivesse muito má poderia ver com clareza e fazer uma avaliação.
De manhã teve uma certa dificuldade com a porta reforçada de seu abrigo. Estava muito pesada. Certamente havia debris acumulados em cima dela. Assim que conseguiu abri-la, sentiu em seus olhos uma claridade intensa. Ficou em pé lá fora, esfregou os olhos e viu que o dia estava lindo, espetacular. Não via nenhum sinal de destruição. Caminhou em direção a sua casa. Devagar. Enquanto andava pensou que talvez tivesse feito uma estupidez. Talvez nada tivesse acontecido. Mas ele vira a explosão, vira o fogo...E se fosse uma outra coisa, mais bem simples? Será que tinha se precipitado? Quando avistou a casa, notou que havia gente dentro e dois carros estacionados lá fora. Achou melhor esperar um pouco. Iriam querer saber quem ele era, haveria perguntas, ele ainda não estava preparado para enfrentar a realidade. Fez uma curva para a direita e se dirigiu para a estrada. Precisava de tempo para pensar.
Não havia minguém por ali para quem ele pudesse perguntar sobre a explosão. Andaria um pouco pela estrada, havia um posto mais à frente, com jeito se informaria. Foi andando lentamente.
Se ele tivesse encontrado alguém, esse alguém teria lhe explicado que a explosão fora de um avião comercial que havia caído a dois quilômetros de sua casa. Cento e dez pessoas morreram mas não foi o fim do mundo, nem de seu país e nem mesmo da cidade. Tudo tinha voltado ao normal. Ele, então teria de sofrer o vexame pelo que fez. Claro que ele poderia esconder isso de todos, inventar uma história para justificar sua ausência..
Estava pensando como iria encarar as pessoas quando começou a andar pelo asfalto. Talvez fosse melhor enfrentar os fatos, falar a verdade. Poderia dar entrevistas, virar a coisa toda a seu favor. Podia não dar certo e ele se tornaria a maior piada do ano. Mais à frente havia uma curva na estrada e mais duas milhas para se chegar ao posto de gasolina.  Assim que virou à direita, viu as placas na distância. Aquela estrada não tinha muito movimento e ele caminhava dentro da pista. Percebeu que estava com fome. Bom, poderia comer algo lá. Começou a pensar no que poderia pedir – estava cansado de só comer alimentos enlatados – quando ouviu atrás de si um barulho de carro brecando no asfalto. Era o Sr. Morris que se dirigia para o trabalho. Ele nunca iria imaginar que alguém estivesse andando no meio da pista logo após a curva. Escutou aquele barulho horrível do corpo de Tom chocando-se contra o capô de seu carro e percebeu que ele voou por cima e foi cair lá atrás. Tom morreu instantaneamente.
Ele foi enterrado no cemitério local. Se pudesse, talvez tivesse escolhido ser enterrado em seu abrigo: ou deveria dizer jazigo? Seu irmão Bob, que estava no funeral, jamais poderia imaginar que houvesse tal lugar. Conversava de vez em quando com o irmão mas ele jamais havia lhe revelado qualquer segredo, muito menos esse. Enquanto o corpo era içado para o fundo da cova, Bob tentava imaginar por onde Tom andara durante aqueles cinco meses. Era a mesma pergunta que todos se faziam ali no enterro. Sumiu todo aquele tempo e de repente aparece atropelado numa estrada a pouca distância de casa. Havia muito mistério em tudo. As respostas ninguém tinha, a não ser o próprio Tom. E agora, definitivamente, ele as estava levando consigo para o túmulo.

Wednesday, September 26, 2012

Cëu Verde


Céu  Verde

“Só há uma diferença entre um louco e eu.
O louco pensa que é sadio. Eu sei que sou louco.”
 Salvador Dali

Eu gosto do Dr. Ross, acho que é um homem decente, correto. Ele não duvida de mim, ou pelo menos não fala. Nunca faz cara de incrédulo quando eu conto minhas histórias. Ainda bem que ultimamente ele tem tratado de mim mais do que o Dr.Reinard. O Dr. Reinard foi o meu primeiro médico. Dizem que ele é um grande psiquiatra, mas eu acho que ele trabalha para o governo. Desde o começo ele sempre falou que as coisas que falo são coisas imaginadas, que não aconteceram. Diz que é uma doença. Ele sabe tanto quanto eu que as coisas que eu falo realmente aconteceram. Diz que não, acho que é pago para isso.
Eu nunca vou esquecer as coisas que vi. Eles estão me dando cada vez mais remédios. Quando posso, seguro os comprimidos na boca. Quando o enfermeiro vai embora, cuspo fora. Eu sei o que eles querem, querem me deixar dopado, querem fritar meu cérebro. Daí ninguém vai acreditar em mim mesmo, é isso o que eles querem. Acho que o Dr. Ross não pertence ao esquema. Eu vi tudo, é como se tivesse acontecido ontem.  Acho que já faz uns dois anos, foi daí que me trouxeram para cá. Imagina, o Dr. Reinard fica falando que estou aqui há mais de 9 anos. Eu sei que o que aconteceu foi há dois anos. Por que ele insiste em falar que estou aqui há 9 anos?  Algum motivo tem...


As pessoas daqui...Não dá para conversar com elas. São loucas de verdade. Não está certo me colocarem com elas. Existe um engenheiro, seu nome é Scott, com ele dá para conversar. Não sempre. Às vezes ele está muito por baixo, fica com os olhos distantes e eu sei que ele não está ouvindo. Para ele eu conto as coisas. Acho que ele acredita. Em quase tudo.Ele só fica meio assim quando falo que o céu ficou verde. Uma vez ele falou que provavelmente era a minha vista. Mas eu sei que não. Minha vizinha, a dona Raquel, também viu. Coitada, ela morreu na explosão. Todos morreram na explosão, Quase todos. Ela falou comigo. Ela saiu gritando, “o céu ficou verde” e foi pela rua atrás do marido que tinha saído a pé para fazer compras. Os dois morreram. Acho que sim.
Foi a manhã mais estranha de minha vida. Acordei assustado. Fazia um calor completamente fora do normal. Logo notei que não havia energia elétrica. Isso não seria tão estranho se eu não tivesse percebido que não era só isso. As baterias também não funcionavam. Nada, nem computador, nem rádio. Resolvi sair de casa. Era o caos. Pessoas deitadas na rua, umas se mexendo, outras não. Carros parados no meio da pista. Poucas pessoas andando...todas cambaleando. Foi daí que resolvi olhar meu rosto no retrovisor de um carro. O céu atrás de mim estava verde, sinistramente verde. Daí percebi que havia um som, como se fosse um som de fundo, sinistro, numa vibração baixa. Lembrei-me então de Rose, minha namorada. Ela morava a uns cinco blocos de casa. O celular não funcionava, nem ligava. Nada que tivesse bateria funcionava. Comecei a andar...Já contei tantas vezes essa história para o Dr. Reinard. Ele sempre diz que é tudo minha imaginação. Ele diz que eu criei essa história para desviar minha própria mente de algo muito horrível que havia acontecido comigo ou algo que eu fizera. Mas eu não acredito nele. Eu sei que vi, eu sei o que vi. Aquele ruído horrível começou a aumentar. A frequência começou a mudar, começou a ficar insuportável. Eu senti que a cor do céu estava mudando novamente. Não quis olhar. Aquele som estranho agora doía no ouvido. Vi uma casa vazia. Entrei. Havia um porão. Entrei e me tranquei lá. Dentro era um pouco melhor. Foi aí então que ouvi uma grande explosão. Barulho de coisas caindo, acho que a casa estava caindo. Foi então que algo bateu em minha cabeça. Não sei mais o que aconteceu. Acordei, não sei quanto tempo depois, num hospital. Via mas não ouvia. Não conseguia falar também. Acho que tinha estado em coma.
Algum tempo depois me mandaram para esse hospício. Acho que é um hospício. E eu tenho contado os dias e os meses. Faz um pouco mais de dois anos. E o Dr. Reinard continua dizendo que estou aqui há nove anos. Até mostrou minha ficha. Mas é mentira. Eles querem esconder o que aconteceu. Eu até encontrei um fulano de minha cidade, que eu conhecia de vista. Tentei falar com ele para ele confirmar minha história. Mas ele está muito mal, não consegue se comunicar.
O Dr. Ross continua insistindo que tudo vai ficar bem, Ele mudou meus remédios. Mesmo assim, quando dá, eu cuspo tudo fora. Existem umas coisas que estou  esquecendo. Não sei mais o nome de minha cidade. Seria importante lembrar. Ficaria mais fácil provar para todos o que aconteceu se eu me lembrasse. Será que era Rock...? Rock  alguma coisa? Estava tentando me lembrar do nome de minha irmã. Não consigo também, mas me lembro bem de seu rosto, de seu sorriso. Tenho saudades de seu sorriso.
Acho que me dão injeções enquanto durmo. Pensei que era um sonho, mas depois vi que havia picadas na minha pele. Não gosto disso. O que será que eles querem fazer comigo? Será que querem me fazer esquecer tudo? Algumas coisas eu já estou esquecendo. Não me lembro mais como vim parar aqui. O médico que me aplica as injeções enquanto durmo é o Dr. Reinard, mas a cara dele é a cara do Dr. Ross. É estranho...Agora, toda vez que me encontra, o Dr. Ross diz que eu vou ficar bem, que tudo vai ficar em ordem. Ele fala isso o tempo todo. Ele fala que vou ter uma vida feliz. Para ser franco, eu acho mesmo que estou mais feliz agora. Penso muito menos nas coisas que aconteceram. Algumas já nem lembro mais. Eu não sei mais o que estava fazendo na rua naquela manhã. Lembro-me de que havia pessoas na rua. Elas estavam com algum problema. O Dr. Ross falou de novo que tudo iria melhorar. Por que eu estava na rua? Por que não voltei para casa? Eu  me lembro vagamente que era um dia bonito. O céu era azul. Estava tudo bem. O Dr. Ross sempre fala que as coisas já estão melhores. Eu me sinto melhor.
Hoje falei falei com o Scott, o engenheiro. Ele não está nada bem. Ele piorou ultimamente. O Dr. Ross falou que eu não deveria ficar ou falar com ele. Disse que não era boa companhia para mim. Faz tempo que não vejo o Dr. Reinard. Existe um enfermeiro novo que é muito parecido com ele.
Coitado do Scott, ele não está nada bem. Ele tem umas conversas estranhas. Hoje de manhã ele estava me falando da explosão que houve na minha cidade. Que ele tinha descoberto algumas coisas. Seria interessante eu saber. Coitado do Scott, eu sei que ele quer me ajudar, mas ele está pior do que eu. Fica falando em explosões, em um laboratório de pesquisas avançadas em física lá na minha cidade. Ele não sabe que minha cidade é aqui mesmo. Coitado, acho que andou lendo coisas em algum livro. Disse que eu tinha razão, que o céu tinha ficado verde. Acho que o Scott não tem mais jeito, imagina, céu verde...Esse Scott...
Imagina, que coisa, de onde ele tirou essa ideia de céu verde? Scott, pelo amor de Deus, o céu é azul! Todo mundo sabe que o céu é azul.
O Scott continua piorando. Agora ele está me falando que é mentira que eu estou aqui há 9 anos. Ele já está aqui há muitos anos e se lembra de quando eu cheguei. Coitado, ele nem sabe que eu sempre morei aqui. O céu lá do pátio sempre foi azul. Ele fala de coisas estranhas. Sabe, acho que não vou falar mais com ele. Eu tenho muita pena, mas o Dr. Ross falou que é pela minha própria saúde mental. Não é nada bom falar com o Scott. Eu estou  muito bem agora, estou feliz. Tenho tudo de que preciso aqui.
Estou preocupado com o Scott. Eu parei de falar com ele e faz tempo que eu não o vejo. Talvez tenha piorado, talvez tenham levado o coitadinho embora. Eu gosto daqui. O Dr. Ross continua dizendo que eu vou ficar bem. Não sei porque ele continua falando isso. Estou já estou bem, sempre estive bem. Adoro aqui. Não tem porque o Dr. Ross falar isso. Sempre morei aqui, sempre foi bom. Da próxima vez que o Dr. Ross passar pelo meu quarto, vou falar para ele. Ele precisa entender, o Dr Ross. Eu sou daqui, eu sou feliz. Ele precisa mais é  cuidar do Scott. O Scott sim, que tem problemas. Imagina,  fica falando aquelas coisas estranhas. Coitado! Imagina só! Céu verde! Que ideia mais estranha! Onde foi que ele arrumou uma coisas dessas...Céu verde? Pobre Scott...Que absurdo! Céu verde!?

Monday, September 24, 2012

O Profeta Mudo


O Profeta Mudo


Eis que ficarás mudo e não poderás falar até o dia
em que estas  3  coisas acontecerem, 
visto que não deste crédito às minhas palavras, 
que se hão de cumprir a seu tempo. 
Lucas: 1-18,19,20.


Não dizem que “para baixo todo santo ajuda”? No caso de Eduardo o dito popular foi cumprido à risca. Ele tinha emprego bom, namorada bonita, alugava um belo apartamento – pequeno mas bom e simpático – e era feliz. Pois bem, primeiro ele perdeu o emprego e dali a dez dias a namorada. Não vou ser cínico a ponto de afirmar que uma coisa tem a ver com a outra. Cada um que tire suas próprias conclusões. Para não cairmos em desgraça com as mulheres por acharmos que elas só ficam com os homens por dinheiro, vamos usar outro ditado popular – “desgraça pouca é bobagem”- e assim não precisamos entrar em considerações metafísicas. Além disso, de qualquer forma foi melhor para ele. Ter uma namorada e estar sem emprego ao mesmo tempo não é ter uma namorada, é ter um problema. Houve outras pequenas desgraças a seguir, mas nem vou mencioná-las pois fazem parte do pacote. O fato é que três meses depois Eduardo estava sendo despejado e teve de, humildemente, ir morar com uma tia da qual não gostava. Não foi tão trágico assim pois durou  pouco. Uma manhã, quando os tios pensavam que ele estava dormindo, ele ouviu umas lamentações do casal. Até quando será que ele vai ficar? Assim não dá mais, onde se viu um marmanjo desses morar com parentes? Eduardo estava na pior mas ainda  não tinha chegado ao nível mais baixo. Juntou o restinho de orgulho,  juntou também as poucas roupas que tinha, pôs tudo numa pequena mala e se foi. No mesmo dia, à tarde,  começou a sentir uma dor na garganta. Podia usar mais um ditado popular para isso mas não vou abusar. Afinal de contas o que Eduardo tinha era um tumor, embora benigno, e por isso aquela dor horrível: tudo estava comprimido na garganta. Tinha dinheiro para uma ou duas noites numa pensão vagabunda. Andou pela avenida com sua maleta, pensando na vida. 

Quando colocou a mão no queixo percebeu que sua barba tinha crescido muito. Talvez fosse melhor assim, pois quando tivesse que dormir na calçada, ficaria mais difícil alguém reconhecê-lo. Raciocinou que aquele dia tinha sido tão horrível que nem merecia ser terminado com uma noite na cama. Resolveu economizar os trocos que tinha para comer no dia seguinte, que diabos, que importância tinha dormir na calçada? Encostou no muro, estava calor, não haveria problema. Roubado não podia ser, não havia nada a ser roubado a não ser suas dívidas. Não posso dizer que dormiu bem – não se dorme bem na rua – mas dormiu pesado e só acordou no dia seguinte de manhã, com o sol no rosto. Antes de abrir os olhos ficou refletindo sobre a rapidez como as coisas aconteceram. Ainda bem que seus pais moravam longe, coitados. Nem podia imaginar a vergonha que iriam sentir. Puxa, tinha chegado no final do poço, não podia baixar mais. Este pensamento durou pouco. Quando abriu os olhos e viu a seu lado dois ou três trocados, viu que dava para baixar mais sim: ele acabara de ser rebaixado para mendigo. Verdade era também que com aquele dinheiro poderia comer um pouco mais...
Não tinha coragem de se levantar ou talvez não tivesse forças. Lembrou-se de amigos que nunca davam esmolas pois achavam que quem mendigava era vagabundo. Ainda bem que ele não era um desses pois agora estava do outro lado e estava vendo como se sentia um legítimo sem-teto, sem-terra, sem-nada. Estava com vontade de fazer xixi mas não tinha forças para se levantar. Ficou lá um bom tempo e mais duas notas foram jogadas a seu lado. Resolveu recolhê-las antes que alguém se “engraçasse” com elas. Ao colocá-las no bolso, no entanto, sentiu o peso da responsabilidade. Agora era oficialmente um mendigo.  Ainda estava a fazer essas considerações, quando alguém que estava passando, parou e olhou fixamente para ele.
O estranho agachou-se e o examinava, como se tentasse reconhecê-lo. Ele não queria ser reconhecido e por isso tentou virar o rosto. O fulano, porém, era insistente. De repente aconteceu o que ele não queria: estava sendo chamado pelo nome:
-Eduardo? Eduardo?
Eduardo lembrava-se vagamente da fisionomia. Devagarinho o rosto foi ficando mais familiar. Era um colega de faculdade. Agora se lembrava melhor. Era um gozador, um fulano debochado, às vezes arrogante.
A essa altura seria bom você saber qual a profissão de Eduardo. Ele era um advogado recém-formado e trabalhava numa grande firma de advocacia quando foi demitido no começo desta história. Na verdade eu estava omitindo outra parte importante das desgraças sofridas por Eduardo: aquela firma teria sido o seu treinamento para mais tarde ter seu próprio escritório. Bem, aquele indivíduo ali na frente também era advogado e, pela sua aparência, não estava se dando bem. Outra coincidência, Eduardo acabara de se lembrar: ele também se chamava Eduardo. Nosso Eduardo, o primeiro, chegou à conclusão de que não adiantava ficar “enrolando” e resolveu admitir para o segundo Eduardo que ele era o Eduardo que ele pensava que ele era. Havia um problema, porém. A voz não saía. O problema que ele tinha, havia se agravado e ele estava mudo.
O recém chegado explicou que morava ali perto. Que não era bom ele estar ali e que deviam ir para seu apartamento. Era daqueles tipos convicentes e que não aceitam recusa. Quando nosso Eduardo chegou ao apartamento de seu xará imediatamente percebeu que ele também não estava bem das pernas. Chegou a pensar que ele queria dar um golpe, chegou a ficar desconfiado. Mas depois de pensar um pouco, novamente se lembrou de que não havia nada a ser roubado. Tomou um banho e depois tomaram umas cervejas embora sua garganta estivesse doendo muito. Eduardo sabia que seu companheiro estava tramando algo, podia sentir. Ouviu bastante antes dormir, pois ouvir era a única coisa que podia fazer.
No dia seguinte, Eduardo escreveu para seu companheiro – já que não podia falar – que precisava de um barbeador. Para sua surpresa , seu companheiro disse que não podia cortar a barba, pois iriam precisar dela. Agora era certeza: Eduardo  - o segundo – estava “aprontando” alguma. No entanto, ele não se abriu. Nos dias seguintes, os dois Eduardos ficaram em casa. Um suspeitando, outro trabalhando como um louco com papéis , com o computador. No terceiro dia, de manhã, o segundo Eduardo, que a partir de agora vamos chamar pelo seu sobrenome, Alves, para evitar confusão, chegou perto de Eduardo e falou:
-Está vendo essa sua barba?
Alves colocou um espelho na frente de Eduardo. Realmente a barba estava enorme. Daí, ele continuou:
-Nós vamos faturar com essa barba. Vem comigo.
O Alves pegou um vaso chinês que estava em cima da mesa, despejou dentro o conteúdo de um saco plástico que tirou de dentro da gaveta.Depois foi até seu quarto e voltou com uma túnica branca. Eduardo não estava entendendo nada e como não podia falar, gesticulava. Foi aí que Alves falou algo que o deixou mais confuso:
-Você é o “profeta mudo”. Nós dois precisamos de grana, certo?
Eduardo não entendeu nada mas foi junto com ele. A praça não era longe. Lá chegando, colocou o vaso no chão, uma espécie de pequena urna ao lado e posicionou Eduardo com sua túnica branca logo atrás. Ficou em pé a seu lado e começou a tocar um pequeno sino que tinha mão esquerda. Com a mão direita começou a chamar as pessoas que passavam.
Não demorou até que três ou quatro pessoas compareceram. Alves então anunciou o seu profeta.
-Este é o “profeta mudo”. Ele não fala pois há muita gente falando no mundo, mas o que eles falam são mentiras. Nosso profeta só transmite a verdade e porque é a verdade, ela vem escrita. Coloquem suas mãos dentro do vaso e retirem sua mensagem. Não é necessário pagar. A verdade não tem preço.
Na urna destinada a doações havia um aviso: “Doe o que seu coração está dizendo. Considere o valor da verdade na mensagem que você está recebendo do profeta mudo.” Logo a seguir, as pessoas começaram a retirar os papeizinhos. Era irresistível. As pessoas liam com cuidado as mensagens, andavam um pouco, remexiam nas carteiras ou nas bolsas e voltavam. Quase todos colocavam “doações” na urna. Daí Alves repetia a cena e mais gente chegava.
Eduardo chegou a sentir vergonha pelo que seu companheiro e ele estavam fazendo mas ao mesmo tempo estava atônito e, sabe, todo aquele dinheiro entrando...Não passou uma hora para que o Alves notasse que as pequenas mensagens estavam acabando e que a urna estava cheia. Parou de tocar o sino e assim que teve uma chance, recolheu tudo e puxou Eduardo pelo braço. Chegando ao apartamento, comentou com o Eduardo:
Calculei mal. Tinha de fazer dez vezes mais papeizinhos...
Eduardo não conseguia falar mas não se conteve e escreveu num papel: “O que você fez? O que está escrito naqueles papeis?
Alves deu uma gargalhada e disse:
-O que as pessoas gostam de ouvir. Além disso, coisas que só fazem bem...
Diante da cara de interrogação do Eduardo, Alves explicou melhor:
-Que nessa semana ele vai receber uma boa notícia, que ele acabou de se livrar de uma grande desgraça que ele nem sabia que ia acontecer, que o câncer que tinha começado a se desenvolver sem seu conhecimento estava curado e ele poderia fazer um exame já, frases mágicas da Biblia e...um monte de mensagens que tirei em “biscoitos da sorte”...Você sabe, aqueles de restaurantes chineses.
Eduardo estava boquiaberto. Alves completou:
-Não falha...Todo mundo fica feliz...
Eduardo achou que não era uma boa fazer aquilo. No entanto fez mais uma vez. Desta vez a urna era muito maior assim como o vaso de mensagens. Ficaram algumas horas lá e arrecadaram uma quantidade enorme de dinheiro. Então Eduardo concordou em fazer mais uma...e mais uma...
A essa altura, Eduardo já se acostumara e estava aprimorando. Fazia gestos lentos e solenes, olhava para o céu e estava caprichando na barba. A sua túnica era de um branco imaculado. Mudavam de lugar constantemente, iam para lugares diferentes da cidade, havia pessoas que os seguiam. O dinheiro era muito bom. Um dia aconteceu algo ainda mais extraordinário. Um senhor muito distinto aproximou-se, ajoelhou-se diante do profeta mudo e balançou a cabeça várias vezes. Depois dirigiu-se à urna e jogou lá dentro um envelope. Assim que teve uma chance, o Alves não resistiu e foi lá “xeretar”. Olhou dos lados, não havia ninguém e abriu o envelope. Quase caiu de costas. Eduardo perdeu sua postura de profeta e quis ver o cheque também. Havia vários zeros...Dava para comprar umas duas casas boas!
Juntaram tudo e foram para o apartamento. Mal podiam crer. Sentaram-se no sofá. Tomaram champagne e fizeram planos. Uma das coisas que discutiram era se continuariam ou não. Havia riscos e agora tinham dinheiro, mas sabe...
Eduardo pensou, pensou...Depois olhou para a urna e teve uma ideia.Que tal experimentar do próprio remédio e tentar a sorte dos bilhetinhos?  Enfiou a mão lá dentro e tirou uma mensagem que dizia; “Tudo tem o seu tempo determinado, e há tempo para todo o propósito debaixo do céu...
tempo de estar calado, e tempo de falar; (Eclesiastes 3)
Imediatamente sentiu em seu coração que era "tempo de falar"e deixar de ser mudo. Mas quis saber mais...Tirou outro: “Pois, que aproveitaria ao homem ganhar todo o mundo e perder a sua alma?” (Marcos 8:36). Daí então, Eduardo sentiu um calafrio...
Nesse momento Alves advertiu que o objetivo da mensagem era fazer com que o leitor separasse uma  boa parte do que ganhara e doasse para eles...a mensagem não era para ele, Eduardo... (que idiota!)
Aí então, Eduardo retirou um terceiro bilhete das suas próprias profecias e ele dizia: “Saiba quando é o momento de parar. Dinheiro não é tudo.” Aquilo foi demais para o coração de Eduardo. Para Alves, entretanto, o objetivo da mensagem era obviamente outro. Não houve jeito, Eduardo fora vítima de suas próprias profecias. Ele estava mudo mas não era cego. Alves não teve outra alternativa senão a de concordar. Pararam com a história do “Profeta Mudo”. Tenho certeza, muita gente sentiu falta. Sem querer abusar de ditados populares, podemos dizer que “o silêncio é de ouro” ou até talvez que “em boca fechada não entra mosca.”
Bom, como eu disse antes, ambos eram advogados, embora deva confessar que eram bem “fraquinhos”...Com o dinheiro que tinham, abriram um escritório de advocacia e, com a sorte que estavam, conseguiram um contrato com uma associação de “proteção ao consumidor” (que ironia!). Ficaram ainda mais ricos apesar da malandragem do Alves e do azar de Eduardo. Mas quem disse que a vida é justa? Agora para terminar, não consigo resistir e vou usar mais uma daquelas  frases feitas: “...e viveram felizes para sempre...”

Thursday, September 20, 2012

O Experimento de Lenz










O Experimento de Lenz                               autor: Flávio Cruz 

Eu sei que não estou morto mas sei também que muito vivo não estou.  

Primeiro eu pensei que o Lenz havia me congelado e me abandonado naquele compartimento, junto com os outros membros da tripulação da espaçonave. Claro que isso não podia ser verdade, pois se assim fosse, eu não estaria pensando como estou agora. Consigo pensar mas não consigo sentir nada. É como se eu não tivesse corpo. Meus colegas de missão estavam comentando há alguns meses atrás que os supercientistas estavam tentando captar ondas cerebrais de corpos em hibernação. Na época fui firme em contradizê-los pois aquilo era um absurdo. O Frank, lembro-me bem, fez aquela cara de sabido e disse, meio rindo, que em ciência, nesses novos tempos não existe mais “o absurdo”. De certa forma, acho que ele tem razão. Veja o Lenz, por exemplo, a gente nem mais consegue pensar nele como uma máquina, como um computador. Às vezes ele é mais humano que humanos que conheço. Além disso, parece que eles mudam de personalidade de acordo com as conveniências. Quando é necessário, eles impõem respeito. Os cientistas põem nomes técnicos neles – AIU378NG, esse é o nosso Lenz – mas eles parecem ser tão vivos, que é irresistível: acabamos dando nomes de gente a eles. Eles, além da super-inteligência, é claro, têm opiniões, têm sensibilidade e até – parece impossível – sentimentos. Sabe, a gente conversa muito aqui no espaço. Por mais que eles inventem responsabilidades para nós, sempre temos muito tempo livre. Além disso, sabemos que qualquer que seja a falha que tenhamos, eles,  o Lenz  no nosso caso, acabam sempre corrigindo. A gente acaba desenvolvendo um sentimento de inferioridade, de incompetência.
Estou ficando cansado, acho que vou apagar. Não sinto o corpo mas acho que minha mente está cansada, muito cansada. Não gosto de apagar pois sempre tenho medo de que não vou mais voltar. Outro dia, quando estávamos discutindo sobre a superinteligência dos computadores, o David veio com aquela história...depois continuo, acho que não dá mais...
Quanto tempo será que apaguei? Acho que não tem importância. Nada mais tem importância. Agora me lembro, estava pensando no David, no que ele falava. Seu argumento era que a inteligência artificial nunca iria superar a inteligência humana. A criação não pode superar o criador. Daí o Leo explicou que ele estava enganado. Explicou que a inteligência artificial era a soma das maiores e melhores inteligências humanas e que, a partir do momento em que criara vida própria, tinha velocidade e capacidade maiores que um simples mortal. Por vaidade e outros motivos biológicos a inteligência humana não se soma a de outros humanos. A artificial é uma só, a soma dos melhores intelectos no momento, e que também é o resultado final e supremo de toda a história do “homo sapiens”. Ainda vejo a cara cínica do Sanz comentando, que evoluímos, evoluímos, juntamos tudo que sabíamos e “entregamos o ouro para o bandido”. De certa forma é o que estou sentindo agora. Estou percebendo  – e agora é tarde – toda a manobra do Lenz. Primeiro ele mandou um alerta de que nossa nave iria passar por uma região muito perigosa da galáxia. Havia registro de inúmeras missões que terminaram ali, segundo ele. A tripulação ficava louca, começava a cometer idiotices. Outros ficavam doentes. Os computadores da geração anterior falhavam, era o fim da missão. Acreditei nele. Parecia um grande  e velho companheiro muito preocupado com todos nós. Segundo o Lenz, ele era da nova geração de máquinas pensantes, não havia perigo, mas a tripulação corria grande risco. A melhor solução – a única – seria a hibernação de todos. Só o comandante, no caso eu, ficaria acordado. Ele conseguiria dar proteção para um, os outros – era imperativo – teriam de ser hibernados em 48 horas. Não haveria tempo de consulta com  a Terra. Todos aceitaram. Só o  Dr. Helmut, o médico da missão, que não gostou nada da explicação do Lenz e estava começando a se rebelar. Eu fui muito ingênuo em não perceber a manobra toda. Imaginem, logo em seguida o Dr. Helmut ficou muito doente. O sistema não conseguiu identificar o problema. O Lenz disse que havia 98% de chances de ser uma das consequências da passagem pela zona de perigo sobre a qual ele alertara. Agora estava óbvio que ele causou a doença do Dr. Helmut  e tudo mais eram mentiras. Até há algumas horas atrás eu não tinha entendido porque o Lenz me mantivera vivo. Agora já sei. Pensei que ficando a salvo eu conseguiria, junto com ele, trazer toda minha tripulação de volta. O Lenz me convenceu a entrar naquela cápsula regenerativa da espaçonave que nunca ninguém tinha usado. Era para me proteger melhor contra as estranhas radiações que começavam a chegar.Que nada. Ele me encurralou lá e me fez dormir. Depois não sei, mas acho que os robôs me levaram para algum tipo de cirurgia. Acordei mas não sentia meu corpo. Talvez me insensibilizaram. Talvez ele tenha tomado uma parte de meu cérebro e estou andando por aí, sem perceber, fazendo coisas para ele. Tudo é possível. Ele pode estar lendo meus pensamentos. Será? Acho que é impossível. Deve ser alguma outra artimanha. Talvez tenha desviado a nave, talvez tenha mudado o objetivo da missão. Meu pensamento...devo ter cuidado, ele pode estar lendo tudo. Agora me lembro de algo que o Dr. Helmut me contou. Bom homem, o Dr. Helmut. Ele me disse que estavam testanto numa super-máquina esta história de ler pensamentos. Agora sei porque estou com esta preocupação. Agora me lembro. Eles já tem todas as possíveis ondas cerebrais para analisar. Bom homem o Dr. Helmut, inteligente. Ele disse que daí eles juntaram milhões de possibilidades de microcontrações que o rosto e o corpo fazem quando estamos falando ou fazendo algo e fizeram uma correlação. Ficaram décadas coletando esses dados. E continuam...Lembro muito bem da cara que o Dr. Helmut fez quando disse isso. Bom homem...Daí, esses “monstros da Inteligência Artificial” – a cara do Dr. Helmut: ele realmente sentia o que estava falando – esses montros, repetia, juntavam tudo. Juntavam o incrível banco de dados – acho que eram bilhões, na verdade -  com todas as ondas cerebrais. Acabavam fazendo as combinações, eliminavam o que não interessava, e até – imaginem – punham na equação as características pessoais do indivíduo. Disso para transformar a informação em linguagem era fácil. Tinham requintes de colocar as idiossincrasias linguísticas do indivíduo. Na época achei que era exagero do Dr. Helmut, que ele estava querendo divertir a gente, que fazia aquilo para passar o tempo. Mas agora já não sei. Estive pensando. Por que Lenz me deixou vivo? Na verdade ele não precisa de mim. Ou precisa? Por quê? Para quê? Estou cansado. Acho que o Lenz está lendo minha mente. É isso mesmo. Agora tenho certeza. É para isso que ele precisa de mim. Quer sugar meus pensamentos. Nunca vou voltar. Como pude ser tão idiota?
Estou falando com você agora, Lenz! Eu sei que você está me ouvindo! Você venceu desta vez! Mas há outros Helmut lá na Terra. E eles, nós, vamos reverter tudo. Sabe de uma coisa, Lenz? Eu acho que você não conseguiu tudo que queria. Vou parar de pensar. Estou parando, você não vai mais...Vou pensar só em morte, viu? Estou quase morto. Olha aí...Estou morrendo...
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Súmula de evento excepcional:

Transcrição linguística das últimas linhas de pensamento do capitão da nave “New Spirit” lançada da plataforma de Marte em 27 de março de 2179.

Transcrição anteriores: sem possibilidade de reconhecimento (explicação temporária: captadas quando o corpo estava sob coma ultra profundo).

Experimento não autorizado feito pela Unidade de Inteligência Artificial AIU378NG.

Último contato feito pela unidade: 18 de abril de 2194.

Recuperação da nave “New Spirit”: 19 de setembro de 2197, por contato visual da patrulha espacial “ SG 23356” na órbita de Júpiter.

Outras informações: Óbito da tripulação: 17 de abril de 2194.

Ação tomada: Suspensão por tempo indeterminado dos experimentos de transcrição mental em toda área abrangida pelas colônias da Terra.

Comunicação desse evento: restrito apenas aos “cientistas magnos”
Explicação para o resto da comunidade científica e comunidade em geral: captura da nave por civilização extraterrestre ainda não codificada.

Friday, September 14, 2012

Do outro lado



Do outro lado
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Autor: Flávio Cruz
Não fazia sentido. As imagens do espaço profundo que passavam pelas escotilhas da espaçonave de Tod eram absurdas. Ele checou os dados nos computadores. O absurdo estava  confirmado. O impossível estava acontecendo. A nave estava próxima da velocidade da luz. Ele usou o sistema independente para checar se todos os aparelhos estavam funcionando de maneira adequada. Estava tudo em ordem. Fez isso porque a situação era inédita. Nem precisaria pois essa geração de computadores jamais tivera uma falha em mais de cem anos, desde sua criação. O visual confirmava os dados. Verdade era também que ninguém jamais  adentrara aquela área do espaço. Isso, no entanto, não justificava o que estava correndo. A simulação da rota havia sido feita inúmeras vezes e tudo sempre estivera perfeito.
Tod era frio e calmo, como requeria sua profissão, e tentou pensar. Talvez estivesse tendo um delírio, talvez fosse tudo uma ilusão. Sentou-se numa poltrona, ligou-se ao sistema de verificação de ondas cerebrais e tudo estava absolutamente em ordem. Lá fora as coisas continuavam mais estranhas ainda. Verificou novamente a velocidade. Estava aumentando. Estava numa área onde se podiam ver  muitas estrelas e  percebeu que a cena vista por ele começava a ficar distorcida. Provavelmente era uma das consequências de se atingir uma velocidade impossível. Pensou em começar a ressuscitação do resto da tripulação que estava na sala de criogenia, mas logo desistiu pois sabia que de nada adiantaria. As coisas estavam acontecendo muito rapidamente. Aí sentiu algo muito estranho. Estava conseguindo ver as coisas com antecedência. Estava vivendo o momento mas já sabia o que estava acontecendo horas e dias depois. Simplesmente sabia. Olhou a data e horário da Terra. Era o ano de 2978, 3 de outubro, três e vinte e cinco da tarde, horário de referência do Centro de Lançamento de Missões Especiais numa área central do que tinham sido os Estados Unidos da América há alguns séculos atrás.
No Centro Espacial, o chefe de Missões Especiais para fora do sistema solar estava avisando o seu superior que os computadores tinham acabado de notificar o desaparecimento da nave SSS29. Alguns dias antes eles haviam registrado o falecimento de toda a tripulação. O comandante olhou para a tela do computador e conferiu a data do desaparecimento: 5 de setembro de 2953. Ficou triste pois era amigo pessoal de Tod.  Estavam todos decepcionados com o encerramento da missão mas ninguém comentou sobre a discrepância de datas. Nem poderiam. Eles não sabiam que naquele momento a SSS29 ainda voava e  sua tripulação ainda estava viva. No entanto o tempo para eles era outro – quase 25 anos depois – e eles mergulhavam numa velocidade vertiginosa num buraco negro próximo à estrela  V4641...

Monday, September 10, 2012

Irmãos, irmãos, negócios à parte









Irmãos, irmãos, negócios à parte

-Sr. Leo, está reconhecendo esta voz? Obviamente é sua...
-Não consigo entender, é minha voz, mas eu nunca falei isso...
-Explique melhor, Sr. Leo. Não estamos entendendo...
Leo não respondeu e um dos dois investigadores rodou novamente a gravação. Era impressionante. Ao mesmo tepo que Leo tinha certeza de que não falara aquilo, tinha também certeza de que aquela era sua voz. Estava zonzo, não entendia nada. A conversa era entre uma pessoa que para os investigadores era ele e mais dois homens. Estavam planejando um assalto a banco. Havia muito detalhes e os bandidos resolveram gravar para se lembrar depois. Dois deles foram presos logo após a bem sucedida empreitada e na casa de um deles apreenderam todos os tipos de aparelhos e depois de inspecioná-los, acharam a conversa incriminadora. O terceiro homem que os investigadores haviam prendido seria Leo, o chefe do bando.
Era certamente um pesadelo. Leo era daquelas pessoas que você pode considerar quase perfeitas. Daquelas que nos filmes policiais se fala que “não tem nem multa de trânsito”. Prenderam-no de manhã em seu trabalho. Estava assustado e tentando entender o que estava acontecendo. Era uma pessoa normal, jamais tivera qualquer problema com a polícia. Morava sozinho, tinha uma noiva, pretendia casar-se em um ano. Estava arrasado. Não sabia o que o atormentava mais: a vergonha de estar preso ou o medo de ser condenado por algo que não tinha feito.
Na parte da tarde as coisas pioraram. Os outros dois comparsas – comparsas segundo a polícia – cada um em separado, confirmaram que aquele era, sim, o seu chefe Marvin. Claro, os investigadores imediatamente deduziram que Marvin era seu nome de guerra e Leo era seu verdadeiro nome. Leo viu as coisas se complicando, pensou em sua noiva Nora. O que ela iria pensar? E o emprego? Mesmo que tudo aquilo fosse um engano, não iam querer que ele voltasse. O emprego...bem ele podia dizer adeus.
Foi tudo muito rápido. A polícia, os investigadores, o promotor e o juiz agiram com uma eficiência nunca antes vista. No julgamento ele ouviu várias vezes que as provas eram “conclusivas”, “gritantes”. Por falar em gritar, era tudo que ele queria. Gritar contra a injustiça, gritar contra a incompetência, gritar contra o sistema. Mas não podia, não dava. O seu advogado, apontado pelo governo, além de ser extremamente inepto, acreditava mesmo que ele fosse culpado.
E lá estava Leo na prisão, sua vida destruída. Praticamente não tinha amigos e a noiva, por vergonha ou por decepção, não vinha visitá-lo. Ficava ressentido pois mesmo os piores criminosos a sua volta tinham visitas. Foi por isso que ficou admirado quando, depois de algumas semanas, anunciaram que alguém queria vê-lo.
Leo estava esperando na sala própria para isso, quando Marvin entrou. Quase caiu de costas. Parecia que era seu outro “eu” entrando. No entanto, era loiro, certamente tingira o cabelo. Fora isso, ele era exatamente igual. Quando falou, então, a mágica se completou. Era sua própria voz.
-Sou seu irmão gêmeo...
-O quê?
-Sim, seu irmão. Você não sabia de mim mas eu sabia de você. Você foi adotado por uma família de bem, e eu não queria envergonhá-lo ou perturbá-lo com minha presença. Você sabe, minha profissão...Mas eu sempre estive de olho em você...
-Você que assaltou aquele banco?
-Sim, infelizmente fui eu.
-Como você teve coragem de deixar que eu fosse parar na prisão?
- Você vai entender. Primeiro queria terminar de explicar...
Leo ouviu contrariado a história de Marvin. Não  tivera tanta sorte como ele. O primeiro casal que o adotou, divorciou logo em seguida e ele foi parar num orfanato. Daí para frente só desgraça. Fuga, prisão para menores, violência, etc...Acabou virando bandido. Mas ele era dos bons. Apontou o indicador para a testa e falava:
-Não sou como os outros, eu sei usar isso aqui...
-Estou vendo...Você também usou seu irmão para pagar por seu crime!
Leo, na verdade, estava dividido. Seu coração pulsava com a novidade de ter um irmão, alguém da família, finalmente. Por outro lado, ele ali na prisão olhando para seu gêmeo, criminoso...Que sina.
- Vou tirar você daqui...
-Como?
-Deixa comigo, é melhor você nem saber. Mas como eu estava falando lá atrás, você não sabia de mim, mas eu sabia de você. Sempre acompanhei a sua sombra...Você se lembra de quando você ia perder seu carro porque botou seu dinheiro em um investimento fajuto e ficou completamente quebrado? Lembra-se do dinheiro que apareceu na sua conta? E aquela vez que aquele vizinho doido estava  deixando você louco? Você estava morrendo de medo que ele se tornasse violento? Ele mudou, não  mudou? E foi por aí afora...
Leo  lembrou-se de quantas vezes fora salvo – na verdade, sempre – pelo destino. Pois bem , o destino era seu irmão gêmeo, Marvin.
-Tenho de ir agora. Preciso “trabalhar”...Um advogado vai visitar você e tudo vai ser esclarecido.
No dia seguinte, o Dr. Hernandez visitou-o na prisão. O seu irmão havia se apresentado para a polícia, mostrado evidências incontestáveis de que ele era o autor do crime. Ficou preso. Em questão de dias Leo iria ser solto. O promotor já sabia, já concordara, era uma questão de papelada, burocracia.
Demorou um pouco mais do que o esperado. Um dia após ter chegado em casa, estava arrumando a bagunça, quando tocaram a campainha. Uma carta com entrega especial. Dentro, um cheque administrativo. Um valor significativo, praticamente o salário de um ano. Como Marvin  tinha feito isto de dentro da prisão? Resolveu que no dia seguinte iria visitá-lo na cadeia.
Os funcionários não diziam o que tinha acontecido. Mas ele sabia que algo diferente havia ocorrido. Conversas sutis, movimentos estranhos. Finalmente vieram até ele.
-Seu irmão não se encontra mais aqui.
-O que aconteceu? Foi transferido?
Deram um número para ele ligar. Ficou pensando que talvez ele fosse algum bandido muito procurado – crimes graves – e quem sabe tivesse sido transferido para uma prisão de segurança. Com isso em mente dirigiu-se para casa. Para dizer a verdade, ele estava sentindo um orgulho estranho. Seu irmão, um bandido famoso, inteligente. Talvez até fizessem um especial na TV sobre ele...
Abriu a porta e ligou a televisão no noticiário. Imediatamente percebeu que era uma edição especial de notícias. Leu o título da manchete no rodapé da tela: “Fuga inédita deixa a polícia perplexa”. 
Nunca pegaram o Marvin de volta. No entanto, de vez em quando ele aparecia na vida de Leo, geralmente em forma de presentes ou ajuda.  Leo tinha orgulho dele mesmo assim, seu irmão, um cara diferente...Ele pesquisou depois e decobriu que ele nunca fora violento, só usava a inteligência e artimanhas para cometer seus crimes. Realmente tinha mais orgulho do que vergonha. Mas isso ele guardava para si mesmo, não falava para ninguém.
Agora sabemos como Leo ficou conhecendo seu irmão gêmeo Marvin.

Saturday, September 8, 2012

O sorriso do demônio


O sorriso do demônio

Jason havia percorrido metade de seu caminho. Estava ansioso mas queria fazer tudo corretamente, cumprir sua missão. O trânsito não estava ajudando. Durante a semana havia comprado tudo de que precisava para levar a cabo aquilo que o destino lhe reservara. Ele sabia que não podia passar  o que tinha de fazer para outro. Era sua obrigação, a sociedade esperava dele aquele sacrifício, aquele ato de coragem. Estava preparado para o inimigo. Este era forte e esperto mas, desta vez, ele o pegaria de surpresa. Nem de longe esperavam que alguém como ele fosse capaz de tal ato de coragem. Imaginem, ele, aquele rapaz quieto, sem amigos, sem namorada, um ninguém.
Agora ele precisava de concentração. Ele não podia deixar a emoção do momento obscurecer a sua habilidade de execução do plano. O que ele estava para fazer era algo grande, maravilhoso. Já podia ver as manchetes nas tvs e nos jornais. Não é todo dia que um herói aparece e faz o que tem de ser feito. O inimigo havia crescido muito nos últimos anos e alguém precisava fazer alguma coisa. Ele poderia começar já. Havia inimigos bem ali ao seu alcance. Mas se ele começasse  já, o efeito de seu ataque seria reduzido. O adversário viria contra ele antes da hora. Não, tinha de pegá-los juntos, sem chance de contra-ataque.
Agora Jason estava bem próximo. Podia ver as faixas, as bandeiras dos inimigos tremulando. Lá estavam eles, todos juntos, prontos para serem derrotados. Não esperavam a chegada do grande herói,  do grande vingador, do grande salvador. Estacionou o carro do outro lado da praça. Pegou a pesada valise com as armas e se dirigiu a passos rápidos em direção à pequena multidão. Quando chegou a uma distância boa para atirar, parou, escolheu uma das armas  e começou. Alguns segundos se passaram antes que os participantes do encontro percebessem o que estava acontecendo. Começou então a correria. O valoroso soldado então procurava atingir aqueles que tentavam fugir. Atirava  para os lados, para a frente e até em quem estava deitado se mexendo. Já era possível ver sangue em vários pontos da praça. Ao longe podiam se escutar as sirenes dos carros de polícia. Jason ainda deu muitos tiros antes de sentir uma agulhada forte em seu braço direito. Com o tiro, perdeu o equilíbrio e caiu. Ele sabia que o inimigo iria chegar. Mas tinha conseguido um excelente resultado. Sabia que tinha feito um grande estrago nas fileiras inimigas.

Suas forças estavam se esvaindo. Sua cabeça rodava. Ainda conseguiu imaginar sua imagem nas telas de televisão de todo país, pessoas admiradas de seu grande feito. Pessoas que o conheciam dando entrevistas. Não sabiam que aquele rapaz tão quieto poderia ser capaz de tanto heroísmo.
A mãe de Jason não podia acreditar que seu filho era aquele monstro que mostravam  nos noticiários. Ele havia assassinado 11 pessoas inocentes  e ferido mais de 37 antes de ser abatido. As imagens eram chocantes. Pessoas chorando,  gritando, ambulâncias voando pela cidade. Corpos cobertos, sangue esparramado pelo concreto. Uma simples manifestação contra o aquecimento global havia se tornado numa grande chacina.
Dentro de uma ambulância,  a enfermeira olhava para o corpo inerte do monstro. Estava todo ensanguentado e era difícil para ela entender como um jovem como aquele podia ter feito tamanha atrocidade. Algo mais a incomodava, porém.  Era seu sorriso. Como podia sorrir?  Era, claro, o sorriso de um demente, de um insensato. Ainda assim, havia algo mais. Mais tarde, na paz de seu lar, ela entendeu. Ela havia visto o sorriso do demônio.

Thursday, September 6, 2012

Uma Tragédia Americana


Uma Tragédia Americana

Virou quase coisa do dia a dia. Rambos modernos saem atirando em locais públicos, matando e ferindo pessoas. Antes era uma raridade, comovia o país, virava manchete durante todo o mês. Agora os tiroteios estão tão banalizados que, não demora muito, vão para as páginas internas dos jornais. Não pensem que são iguais aos nossos. A violência tupiniquim certamente tem raízes sociais, está ligada a diferenças de classe, problemas de educação, etc. Não que queira contar vantagem, porque nos dois casos não há vantagem nenhuma, só prejuízo. No entanto está claro que os tiroteios americanos com certeza têm outras raízes. É como se alguém tivesse aberto as portas de um grande hospício e os pacientes - aqueles mais furiosos – estivessem soltos por aí comprando armas pesadas, munição para depois começar a matança. Mas, espera aí, é permitido vender armas para loucos? Aparentemente sim. O direito de vender e comprá-las é sagrado, é algo com que não se brinca. 

Nenhum político americano – mesmo aqueles que acham isso um absurdo – ousa propor alguma legislação de controle. Não estou falando de proibir a venda  de armas comuns (..que já são bem poderosas). Estamos falando de controlar armamento pesado e em grande quantidade para uma mesma pessoa. Estamos falando de limitar a quantidade de munição. Há pessoas que compram o suficiente para começar uma pequena revolução. O político que for contra isso terá sua carreira definitivamente encerrada. A verdade, nua e crua, é que nem seria necessária a ação ( e eles agem bastante...) da poderosa Associação Nacional de Rifles para manter o “status quo”. Na verdade, o próprio povo – em sua grande maioria – não quer ninguém mexendo neste assunto. Quando há uma matança, há choro, vigílias e tudo o mais, porém ninguém fala em fazer um movimento para prevenir este tipo de comércio. Em todos esses casos a compra do equipamento sempre foi absolutamente dentro da lei. Nenhum desses monstros – racistas de extrema direita, ex-funcionários revoltados, maridos enfurecidos ou simplesmente doentes mentais – precisou contrabandear ou usar o mercado paralelo para conseguir o que queria. Tudo feito legalmente. Parece mentira mas é do jeito que o povo quer e, como se diz, “a voz do povo é a voz de Deus”...Um momento, isto quer dizer que Deus é a favor das armas..? Não sei não, mas acho que há algo de estranho com esse ditado popular...

Tuesday, September 4, 2012

O Espelho


O Espelho
“Então, ouvi o número dos que foram selados,
que era cento e quarenta e quatro mil,
de todas as tribos dos filhos de Israel:”
(Apocalipse 7:4)

Meu nome é Steve Sanders. Minha família sempre viveu numa pequena cidade na parte central dos EUA. Só recentemente mudei para Nova Iorque. Existem coisas que meu pai, falecido, me contou e que meu avô, relutantemente, me confirmou antes de morrer. Aparentemente esses fatos ocorridos no ano de 1937 e que meu avô presenciou, realmente marcaram as pessoas da pequena localidade. Ao contrário do que normalmente acontece, todos queriam esquecer, ninguém queria que eles entrassem para a história local.
Tudo começou com um homem que apareceu sem mais nem menos na praça da cidade no meio do mês de setembro daquele fatídico ano. Nunca ninguém soube seu nome porque ele nunca revelou. Aliás, ele nunca falou nada. Inspirava, entretanto, um ar de autoridade que certamente impediu os habitantes de exigirem qualquer informação. Tinha barba e bigode grisalhos, usava um belo terno, certamente confecção fina, um chapéu comum na época, mas certamente de alguma marca boa. Mas tudo isso era irrelevante. O que havia de estranho era que o elegante homem trazia consigo – imaginem – um espelho. Este tinha uma moldura de madeira trabalhada, cerca de 1 metro de largura e 1,80 m  de altura. No primeiro dia chegou-se a pensar que o distinto visitante era um comerciante e que estava ali a exibir sua mercadoria. No entanto não havia preço escrito em nenhum lugar e o dito cujo nada falava, só sorria. O fato de ele ser amigável de imediato afastou qualquer suspeita de algo errôneo ou maléfico. Como era natural, as pessoas automaticamente se olhavam no espelho assim que se aproximavam do ponto onde ele se instalara. As crianças e os adolescentes achavam graça e vinham mais de uma vez ver sua imagem refletida. Os adultos também vinham mas com um certo receio. Disfarçadamente também olhavam sua imagem. Um ou outro dirigia a palavra ao estranho que entretanto jamais respondia. Entretanto olhava com simpatia para seu interlocutor e invariavelmente ensaiava um sorriso.
 Especulou-se que talvez fosse um mágico que mais tarde viria para a cidade e estaria ali fazendo seu “marketing”, atiçando a curiosidade das pessoas. Dos boatos todos esse foi inicialmente o mais forte e que se espalhou rapidamente.  O dia seguinte se encarregou de desfazer essa primeira impressão. Isto aconteceu através da Sra. Jenkins que ao mesmo tempo botou na rua um monte de outras  conjeturas. Ela chegou logo de manhã e o senhor misterioso não estava mais na praça. Ela andara bastante para ver o espelho – uma vizinha havia lhe contado a história – e ficou um pouco decepcionada. Começou a voltar para casa quando viu, de repente, o misterioso espelho e seu portador numa rua distante três quadras do primeiro local. Não teve dúvidas. Parou e depois de falar algo para ele, procurou ver o reflexo de sua imagem . O que aconteceu a seguir é algo difícil de se descrever. Segundo meu avô, havia várias versões, mas a mais comum falava que a sra. Jenkins foi tomada de um pavor quase indiscritível e, agitadamente, tentava escrever algo na palma da mão com a caneta que tirara da bolsa. Depois, sem falar nada com ninguém, saiu em caminhada frenética de volta para casa. Em vão os vizinhos e outros amigos tentaram descobrir o que ela havia visto no espelho, o que a assustara tanto. Não ficou muda mas se recusava terminantemente a falar sobre o assunto. Mas as atenções logo se desviaram dela. No mesmo dia mais 9 pessoas tiveram reações estranhas ao se mirarem no espelho, que, a essa altura, já estava sendo chamado de “espelho mágico”. O caso mais dramático foi do Sr. Griffin, que ficou com a pele completamente vermelha e começou a dar gargalhadas como um louco. No terceiro dia a quantidade de pessoas com reações estranhas aumentou muito. É bem verdade que a maioria dos curiosos não via nada mais do que o próprio corpo. Para alívio de todos, no dia seguinte, quem quer que tivesse sido afetado pelo “reflexo” ou não se lembrava do que ocorrera ou não queria se lembrar, mas todos estavam calmos e apresentavam uma paz fora do comum.

Após  uma semana e meia podia se dizer que todos da cidade haviam olhado para o espelho para ver se viam algo diferente. A curiosidade agora era sobre as anotações que as pessoas afetadas fizeram ou na própria mão ou em pedaços de papel. Era inacreditável, ninguém conseguiu achar uma só anotação. Era definitivamente um grande mistério. Por falar em mistérios, outro, bem grande, era como o senhor do espelho aparecia na cidade e como saia no fim da tarde. Apesar de ser uma cidade pequena com poucas ruas, nunca ninguém conseguia saber de onde ele viera e como ele tinha saído. Era como se todo mundo ficasse hipnotizado nesse momento. No décimo terceiro dia ele não apareceu. Houve reunião na prefeitura, no clube e em outros lugares. As hipóteses sobre o que ocorrera eram inúmeras. Um enviado de outro planeta para estudar seres humanos ou uma entidade demoníaca perscrutando as almas? O Sr. Reynolds, mais prático, achava que era apenas um “gozador” de uma cidade grande querendo ridicularizar os caipiras do interior do estado.
Mal começou a diminuir o interesse sobre o assunto quando todas as teorias caíram por terra. Não porque tivessem conseguido uma explicação, mas porque algo mais grave aconteceu. Alguns dias depois houve um reboliço na praça principal. Inúmeras relatos de desaparecimento de pessoas. Conforme as notícias iam chegando, o painel foi ficando claro: os desaparecidos eram exatamente aqueles que tiveram reações estranhas ao se olharem no espelho. Haviam sumido durante a noite: todos exatamente na mesma noite. Tentou-se contatar alguém que tivesse tido a experiência do reflexo para se tentar evitar o desparecimento, mas não havia mais ninguém. Fizeram a lista e a conta: 143 habitantes haviam se evaporado. Não havia respostas e o pavor era tão grande que nem mais as teorias estavam aparecendo. O que poderia ser feito? Avisar o governo do estado, avisar as autoridades federais? A  política naquela época já funcionava. Imediatamente os líderes da cidade pensaram como seria péssimo para a reputação local aquela publicidade. Hoje em dia seria difícil, com Internet e grandes redes de TV, esconder um fato de tamanha amplitude. Naquela época, entretanto, era mais difícil divulgar do que esconder. Além disso, quem iria acreditar? A cidade seria ridicularizada. Um conjunto de 11 líderes resolveu determinar sigilo absoluto sobre o assunto. Estava proibido inclusive passar a história para filhos e netos. Cortariam o mal pela raiz. Confiscaram e queimaram todas as edições do pequeno jornal local sobre a matéria. Recolheram as cópias de casa em casa. Na verdade alguém guardou um pequeno recorte. Não só isso, passou a sua versão dos fatos para os filhos e para os netos. Nada mais, nada menos que o Sr. Sanders, o meu avô.
Agora, só mais alguns detalhes e podemos terminar esta história. Alguém se lembrou de que o Sr. Porter morava longe da cidade, na zona rural, e ninguém ouvira falar dele, ninguém sabia se ele havia desaparecido. Afinal fora ele que desmaiara ao olhar sua própria imagem. Imediatamente uma comitiva de pelo menos 15 pessoas se dirigiu para lá. Não deu outra. A casa estava completamente abandonada. Agora todos tinham o número exato de vítimas: 144. Não sei se a palavra “vítima” é apropriada, mas é a que me ocorre no momento. Quanto ao número, nem me atrevo a fazer conjeturas, pois esse é um assunto muito delicado. Prefiro pensar que tudo não passa de uma simples coincidência e que os fatos não são fatos mas fruto da imaginação de meu avô. Quanto aos recortes do jornal, ainda não sei o que dizer, estou tentando arrumar uma explicação...