Sunday, June 30, 2013

O verdadeiro legado de Mandela

O verdadeiro legado de Mandela



Não deve haver no mundo ninguém que duvide do heroísmo e coragem de Nelson Mandela. Vinte e sete anos de prisão injusta não quebraram seu espírito ou o desejo de libertar seu povo. Não era perfeito, tinha suas “humanidades”, por assim dizer. Isso, ao invés de diminuí-lo, coloca-o na posição de líder autêntico. Conseguiu chegar até a presidência de seu país, algo inimaginável anos antes. Não pregou ódio, mas sim a convivência pacífica. Não adotou a arrogância, mas sim a simplicidade e a autenticidade.


Entretanto, poucos prestaram atenção no momento de sua carreira onde ele provou  verdadeiramente o grande ser humano que é.  Depois de terminar seu mandato presidencial, já reconhecido mundialmente como uma personalidade que ficaria para sempre na história da humanidade, o normal seria se candidatar à reeleição, o que é permitido pela constituição de sua nação. Depois do segundo mandato, que ele conseguiria facilmente garantir devido à sua incontestável popularidade, poderia e teria força política para mudar a constituição, com apoio popular, e se perpetuar no poder. Como muitos fizeram. Humildemente, porém, saiu da presidência no final do primeiro e único termo presidencial, deixando para outros a continuidade e a preservação da liberdade. Sábia e saudavelmente resistiu ao apelo do poder. Sabia e acreditava que novas gerações tinham que fazer seu próprio trabalho em prol da democracia do país. Nesse sentido e em muitos outros, ele é único. Temos aí um verdadeiro heroi, um verdadeiro chefe de um povo. Como eles, existem poucos, muito poucos. Quando ele se for, vai faltar algo no mundo.

Friday, June 28, 2013

Está escuro

Está escuro



Escuro na cidade,
Escuro nas ruas.
Sombras nas almas,
Sombras nos corações.
Brigas e traição..
Engano e dor.
Há sombras negras, envolvendo tudo.
Tudo por dentro,
Tudo por fora.
Quem apagou as luzes da cidade?
E as luzes dentro de nós?
Quem as apagou?


Thursday, June 27, 2013

O arrastão


O arrastão

O relógio
A bolsa
A carteira
O cartão de crédito
O dinheiro
A beleza do dia
O apetite
A paz...
Tudo se foi!
No meio do jantar,
Os moleques passaram,

Foi um arrastão...


Wednesday, June 19, 2013

Pedra perdida

Pedra perdida


Galáxias e estrelas se equilibram no infinito do céu,
Junto com elas, numa suave harmonia,
Dança o sol, dança a lua...
Na terra, nos palcos da vida, nós desfilamos,
Submissos ao nosso destino.
Porém, em algum ponto, indefinido, incerto,
Neste mesmo universo, no meio da mesma galáxia,
uma pedra disforme, que parece um meteoro,
sai pelo vazio universal ,
procurando seu destino individual.
Bêbada, errante, sem rota, sem órbita.
Acho que nunca vai chegar lá.
Vai sim, se arrebentar sem rumo
Em algum planeta sem nome.
Não sei não, mas acho que essa rocha
sem forma, sem jeito,
que não sabe nada de nada,
que procura o que não sabe,
que nem sabe o que procura,
Eu acho que essa pedra perdida,

Sozinha, sem destino, sou eu.

Deus ex machina

Deus ex machina

A enorme esfera, mais de 500 metros de diâmetro, apareceu de repente, sem ser notada, sem ser percebida. Nenhum dos sofisticados observatórios a viu chegar do espaço, nenhum instrumento sísmico registrou sua possível saída do subsolo. Não estava lá num momento e, de repente, noutro momento, estava.
Durante três dias, cientistas, estudiosos, homens do governo, exército, aeronáutica, se aproximaram daquele distante ponto no deserto para tentar descobrir alguma coisa. Era obviamente de metal. Conforme o ângulo pelo qual se olhava era como se fosse de aço inoxidável, ou era de algum metal desconhecido, ligeiramente azulado.  Não emitia sinais. Entretanto nada ou ninguém conseguia chegar a menos de 967 metros de distância. Se era aparelho, parava de funcionar. Se era gente, desmaiava. Parecia haver uma barreira invisível. Por cima, aviões ou helicópteros, nem pensar.
Todos os meios de comunicação fervilhavam com notícias. Líderes políticos, religiosos, folósofos, teólogos, todos davam sua opinião. A verdade é que ninguém sabia nada.
No quarto dia após sua chegada, às 11: 37 am, horário de Londres, algo aconteceu no mundo inteiro. Todas as pessoas, todas, não houve uma só exceção, sofreram uma espécie de transe, que deve ter durado alguns poucos minutos. Quase imediatamente, o mundo mudou. As pessoas começaram a agir de maneira completamente diferente. Todos sorriam, conversavam, tentavam ajudar os outros. Não havia mais dor, sofrimento, angústia ou tristeza, traição. As pessoas se esqueciam das coisas más do passado, das suas e das outras  pessoas. Todos estavam em êxtase. Os problemas todos começaram a desaparecer diante do fato que todos se ajudavam. Os portões das prisões foram abertos, os doentes começaram a se sentir melhores, pessoas caminhavam longas distâncias só para dizer que perdoavam. Nem se lembravam mais do  que estavam perdoando, mas perdoavam. Muitos cantavam nas ruas. Os doentes saíam curados dos hospitais, as pessoas que tinham armas, traziam-nas para as praças para serem recolhidas e incineradas.  Havia uma coordenação mundial, natural, toda dirigida para o bem.



Os meios de comunicação começaram a espalhar que Deus tinha chegado. Era isso. Não poderia haver outra explicação. Os líderes religiosos abandonaram suas convicções e começaram a falar em um único Deus, igual, pai de todos e que queria o bem e a felicidade geral. A esfera passou a ser apenas considerada como um símbolo, um sinal, um marco. Ninguém nem sequer pensou em adorar ou cultuar o grande objeto. O importante era fazer o bem, todos sentiam que Deus estava em todo lugar, estava dentro de cada um.
No planeta Gudaval, a 5678 anos-luz da Terra, o conselho dos “maiores”, liderado por Klokman, estava iniciando o grande encontro. Sabiam que a “esfera” tinha sido teletransportada com sucesso para o Planeta Terra. Sabiam também que a “limpeza cósmica” dos habitantes tinha sido acontecido com perfeição. Gudaval era pelo menos 30.000 anos mais adiantado que a Terra. Eles também tinham sido ajudados  por outra civilização, superior a eles,  há cerca de 28.000 anos.

O avanço em todos os campos da atividade humana iria agora ser acelerado pelo menos cem vezes. Em cerca de 100 anos a Terra poderia, finalmente, fazer parte do seleto grupo de civilizações interplanetárias de primeiro grau. Estariam então, mais perto de Deus. Aquilo era só o começo. Por enquanto, o que tinham experimentado, era ainda o “Deus ex machina”.

Tuesday, June 18, 2013

Os estranhos habitantes de Jordish

Os estranhos habitantes de Jordish

Olof nunca tinha aceitado bem a ideia de se fazer uma parada no planeta Jordish na sua jornada para Endel. Afinal era uma viagem interplanetária de 27 anos e o grande objetivo era Endel. Por que fazer esse “stop” insensato, com um objetivo não claramente definido? O motivo dado, bem vago, fora um incidente que ocorrera com uma das naves da Confederação das Américas há 187 anos atrás, e que nunca teve uma explicação razoável. Ainda assim, o Conselho aprovou, por unanimidade, a inclusão de Jordish na missão. Aparentemente, o computador mestre da missão, o MCSME2519, também conhecido como Vedalt, concordava com eles. De qualquer forma, não importava a opinião de Olof. O que tinha de ser feito, iria ser feito.
Logo na terceira órbita ao redor de Jordish, a tripulação conseguiu detectar a enorme e  famosa nave estelar Ultracosmos, a primeira a atingir velocidade próxima a da luz, e que havia ficado retida em Jordish. As circunstâncias tinham sido bastante estranhas. Ninguém jamais entendeu como uma nave, equipada com a mais alta tecnologia, tinha ficado silenciosa de repente, e completamente sem ação. Tecnicamente, era impossível de se entender.
Vedalt já estava trabalhando com toda sua capacidade para “escanear” o planeta. Visualmente  era possível se detectar com nitidez a grande planície onde estava estacionada a imponente Ultracosmos. Podia se notar uma longa linha no chão que ia dela até uma cadeia de pequenas montanhas, situada a cerca de cinco quilômetros dali. Era uma trilha que mal se notava, provavelmente por causa de poeira acumulada durante décadas. A nave de Olof, a Lightstream, já estava se aproximando. Depois de alguns minutos já estava estacionada a cerca de um quilômetro de sua “colega”. A equipe que devia fazer a inspeção da nave, colocou seus trajes especiais, uma vez que a atmosfera de Jordish era tênue, além de conter gases prejudicias ao ser humano. Com um veículo especial, dirigiram-se até a enorme nave. Ela tinha mais de duzentos metros de altura. Havia várias entradas, todas destruídas. Foi fácil. Abandonaram o veículo e começaram a inspeção. Não demorou muito para perceberem  que estava ali uma simples carcaça. A nave havia sido depredada. Todos os equipamentos haviam sido retirados. O que imediatamente deixou todos supresos, foi que tudo havia sido retirado com cuidado, com precisão cirúrgica. Os danos estruturais eram mínimos, mas não havia uma só peça que havia restado. Obviamente seres inteligentes haviam estado ali. Como? O planeta era inabitado, pensava Olof, e certamente o resto todo da tripulação achava o mesmo. Ficou claro que era inútil terminar a varredura. Olof ordenou, então, que Vedalt esquadrinhasse completamente a enorme estrutura para ver se encontrava algo que se parecesse com alguma peça de nave que ele tivesse em seus dados. O resultado era o que todos esperavam. Nada. Seth ponderou que alguma nave, que não pertencia à Terra, deveria ter passado lá e “confiscado” todas as peças, na esperança de encontrar alguma tecnologia não dominada por eles. Argus achava isso pouco provável, uma vez a Terra teria notado em suas patrulhas interplanetárias qualquer objeto capaz de tal tipo de navegação. Seria muito difícil se chegar a uma conclusão. A inteligência artificial da nave, Vedalt, disse que não havia dados suficientes para dar uma opinião, pelo menos por enquanto.
Não havia muito o que fazer. Olof deu ordens a Vedalt para que inciasse o processo de retomar a grande empreitada para Endel. O computador disse que ainda estava colhendo dados de Jordish e que partiria em 7 horas e trinta minutos.
No horário marcado, Vedalt acionou a nave que, antes de partir, fez mais cinco órbitas ao redor de Jordish. Questionado por Olof, Vedalt respondeu que precisava escanear o resto do planeta. Olof pensou consigo mesmo que aquilo seria uma inutilidade, mas não falou nada.
Lightstream já tinha alcançado sua velocidade ideal quando Vedalt advertiu Olof que tinha acabado de analisar todos os dados de Jordish e que queria fazer uma apresentação. Novamente, Olof questionou interiormente por que perder tanto tempo com um planeta vazio e uma nave sucateada, mas novamente manteve seus pensamentos para si mesmo. Como tinha de mostrar gráficos e mapas, Vedalt chamou todos para uma espécie de “anfiteatro eletrônico” que não era muito distante da sala central de comando.
Após dez minutos de “conferência”, estavam todos de queixos caídos. As revelações de Vedalt  eram absolutamente inacreditáveis e assombrosas. Jordish continha vida inteligente e não eram seres invisíveis, não. Eram menores que os seres humanos, bem parecidos, embora tivessem um segundo par de braços. As quatro mãos tinham seis dedos cada, sendo que dois deles em cada uma, funcionavam como polegares. Eles viviam no subsolo. Cavernas enormes,em incrível quantidade, de até  cinco quilômetros de altura e centenas de quilômetros de extensão, eram seu habitat.  Muitas cavernas continham água e havia canais de interligação. Havia cerca de novecentos milhões de habitantes. A estrutura de transporte e habitação sugeria uma alta taxa de civilização e inteligência, equivalente a pelo menos a que a Terra tinha por volta do ano 2200 DC. Havia vários tipos de animais, a maioria parecida com répteis, embora houvesse outros tipos também. Havia uma espécie de luz natural, algo que Vedalt não tinha dados suficientes para explicar. Vedalt tinhas também notado cerca de 470 “saídas” para a superfície, todas inteligentemente “disfarçadas”. Eles também teriam de usar máscaras para vir para a superfície. Lá embaixo, havia oxigênio, misturado com alguns gases que lhes eram essenciais para a vida. Havia captado também mensagens inteligentes entre eles e uma sofisticada rede de comunicações.



A grande surpresa, Vedalt deixara para o final. A Lightstream quase havia sido capturada h;a algumas horas atrás. Eles tinham equipamento capaz de “congelar” todo o sistema de propulsão. Foi o que fizeram com a Ultracosmos. Foram eles que “canibalizaram” a nave, no intuito de obter tecnologia. Dessa vez, porém, queriam pegar a nave intacta, para descobrir coisas que não tinham descoberto antes. Iam utilizar o elemento surpresa, enquanto parte da tripulação da Lightstream estava fazendo a inspeção. Não esperavam que Olof fosse  encurtar o tempo de visita e passasse a tarefa de escanear para Vedalt, acelerando todo o processo.
Esses computadores quânticos eram programados para terem reações e atitude humanas, para facilitar a interação com a tripulação. E foi por isso que Vedalt fez um comentário do qual Olof definitivamente não gostou. Disse em tom de brincadeira “que, por ironia, a falta de curiosidade científica de Olof, desta vez, foi a salvação da “Missão Endel”,  e que, às vezes, “a preguiça também é compensada”. Olof não gostou mas também não respondeu. Seria dar muita importância para Vedalt.
Por dentro, Olof deu um suspiro de alívio, e comentou, rindo com alguns da tripulação, que aquilo não tinha sido sorte. Era intuição. Ele sempre tivera esse dom. Falava isso de um jeito que não se podia dizer se era brincadeira ou se estava sendo sério.

Seth, por sua vez, comentava que o homem também tinha começado nas cavernas, mas tinha conseguido sair. Seria irônico, milhões de anos de evolução depois, ser capturado por “seres” da caverna, novamente. A essa altura, com todos aliviados e em seus lugares, a Lightstream já tinha atingido sua velocidade máxima: era um rastro de luz no infinito do Cosmos...

Sunday, June 16, 2013

Um planeta sem cores

Um planeta sem cores

Flicka tinha grandes olhos verde-escuros, um corpo esguio, cabeça lisa e um tom de pele róseo, quase branco. Era considerada bonita no meio em que vivia. Estava ali, na frente do comandante geral, Ragnar, explicando os problemas que estava tendo. Ele já os conhecia, mas queria sentir pessoalmente como ela estava sendo afetada por toda a situação. Além disso, queria submetê-la ao “leitor mental”, uma máquina consideravelmente grande, onde era possível ver-se, numa enorme tela, o que se passava na mente do “paciente”. Flicka, vestida com uma túnica sintética de cor cinza, bem clara, estava agora deitada e com conectores muito pequenos ligados à sua cabeça. Com um simples agitar de mão, Ragnar ligou o aparelho e imagens começaram a aparecer na tela. Vales, montanhas nevadas, campos, rios, o oceano. Uma visão magnífica de cima, de paisagens da Terra. Era como se um pássaro ligeiro, com uma câmera sofisticada, estivesse filmando tudo do alto. Isso era o que estava no cérebro de Flicka. Por alguns momentos, Ragnar transformou as imagens em holografia, mas depois voltou à tela normal. Após alguns minutos, desligou o aparelho. Já tinha tudo que precisava saber.
Seria normal se Flicka, pelo menos uma vez na sua vida, tivesse visto qualquer coisa da Terra. Ela era quase uma criança para quem vive quase duzentos anos. Tinha apenas 22. Seu embrião foi obtido com material humano que também nunca tinha tido contato com a Terra.
Jern havia sido colonizado pelos humanos há mais de dois mil anos. Era um planeta cinzento, feito basicamente de rochas. Havia oásis e água, certos tipos de vegetação, grandes oceanos, mas,  por vários motivos, nem de longe, nada do que havia lá, lembrava as cores exuberantes de nosso planeta. Propositadamente, desde que os primeiros colonizadores chegaram, evitava-se a todo custo, qualquer coisa que lembrasse a exuberância terrestre. Não se queria distúrbio algum nas mentes dos Jernianos. Se você só conhece o cinza e outras tonalidades semelhantes, esse tom vai ser bonito para você.
Ragnar sabia que, em arquivos secretos, havia quantidade enorme de filmes, projeções holográficas e outras imagens do planeta de origem. Entretanto, ninguém tinha acesso a ele. Ragnar que tinha quase 200 anos de idade, fizera uma única e longa  viagem à Terra, há mais de 60 anos. Ele, entretanto era treinado e jamais seria afetado pela beleza das cores, da paisagem.
Como Flicka estava tendo essas visões quando dormia ou mesmo acordada? Ragnar e suas “máquinas pensantes” estavam analisando o cérebro de Flicka e não encontravam resposta. Nenhuma explicação, nem de longe, conseguia trazer um pouco de luz para o fato. Algo escondido no DNA, que depois mais de 30 gerações, estaria agora se manifestando? Lógico, que, em última análise, os primeiros materiais genéticos tinham vindo da Terra.



O planeta Jern era muito importante para o sistema de colônias terráqueas. Lá havia materiais raríssimos e eles eram importantes para sofisticadíssimas máquinas de inteligência artificial e robôs de última geração. Todas as colonias e estações a uma distância espacial razoável se utilizavam desse material. Ragnar era muito precavido e não queria nem pensar em uma “onda saudosista” da Mãe Terra, depois de quase dois milênios de trabalho e avanço teconológico naquela parte inóspita do espaço. Seria demais ter “saudades” de um planeta que você nunca viu. Mais do que tudo, seria muito perigoso.
Ragnar ainda não tinha comunicado nenhuma decisão a seus subordinados. Todos sabiam, entretanto, quais seriam suas determinações. Com certeza, deletaria todas as imagens da mente de Flicka, por precaução. Poderia haver outros casos.
A única coisa que adiantara para as pessoas imediatamente sob seu comando foi:
- Essas “cores” podem ser muito perigosas. Não precisamos delas, pelo menos por aqui...
Na Terra, as mesmas cores exuberantes dos últimos milhares de anos, continuavam a causar admiração para qualquer nave que estivesse chegando ou voltando. Nessa nova fase da civilização, em que o homem tinha espalhado colônias para além do sistema solar, os únicos tons que sutilmente imaculavam - ou talvez acentuassem - a fabulosa e colorida paisagem, cheia de mil nuances naturais de nosso planeta, era um prateado, quase mágico – de um material muito especial -  que se via cá e lá, incrustado nas incríveis instalações, maquinários e equipamentos que eram características daquela admirável era pela qual passava a humanidade: o ano de 5.347 DC.

Ironicamente, quase todo esse material precioso tinha vindo de Jern, através de longas e demoradas viagens, feitas  por cargueiros espaciais, aos longos dos últimos 2000 anos.

Wednesday, June 12, 2013

Ao pé da letra


Ao pé da letra

O Godofredo chegava a ser chato com sua mania de levar tudo ali, em cima, sem margem para nada. Era detalhista a um ponto que irritava. Você não podia deixar nada em aberto, nada liberado para a imaginação. As coisas tinham de ser definidas, enquadradas, estabelecidas.
Nós trabalhávamos juntos e um dia precisei repassar para ele uma ordem de meu chefe. Precisávamos melhorar as vendas, precisávamos ser criativos. Dei algumas sugestões, apelei para sua criatividade.
Foi aí que ele ficou desesperado e começou a fazer um monte de perguntas. Precisava  de detalhes, precisava de mais explicação. Então desisti  e falei:
-Godofredo, você  não pode querer entender tudo ao pé da letra. Existem coisas que só se sugerem, você precisa criar em cima disso. Você precisa inventar, imaginar...
Percebi então que ele estava se desesperando e parece que o ouvi murmurar:
-Ao pé da letra...

Entendi o que se passava em sua mente. Quase podia ver. O Godofredo tinha colocado em sua tela mental todas as palavras que eu tinha dito. Daí pôs um pezinho imaginário em cada letra de cada palavra. Imagino até os pezinhos se mexendo e ele observando. Ele estava realmente levando as minhas palavras ao pé da letra. E eu que pensei que letras não tinham pé, a não ser no mundo metafórico. Coitado do Godofredo.


Monday, June 10, 2013

Panaceia

Panaceia



Que atrevido é o ser humano. Sempre achando que pode o que não pode. Quer ir para as estrelas, quer criar outro homem igual a ele. Na verdade, melhor que ele. Quer voar para as estrelas distantes, mesmo sabendo que para isso o tempo se conta em “luz”...Anos luz, quem pode viajar na velocidade da luz? Não digo que é atrevido? E foi sempre assim. No passado, havia aqueles que queriam criar o lugar perfeito. A tal de “utopia”, certo? Dá até vontade de rir...
Houve até aqueles que acharam que dava para fazer um remédio que curasse todos os males do ser humano, por dentro e por fora. Corpo e alma. Um exagero. Criaram até um nome: panaceia.
Entretanto, meus amigos, vejam como é a vida. Acabei vindo parar numa pequena cidade da Flórida, junto ao mar. Linda, graciosa, você quer ficar lá para sempre. E, parece gozado, lhe deram o nome de Panacea – panaceia em inglês, óbvio. 

Sabe de uma coisa? Acho que nesse caso eles têm razão, pois aqui tudo se cura. Faz um bem danado para a alma. A gente sara por dentro e por fora. Isto não é panaceia? Além disso estou em companhia de pessoas que amo...Não todas, mas pelo menos duas delas....

Sunday, June 9, 2013

Porque sim

Porque sim




Silvana era uma boa esposa. Nenhum defeito extra, nada que outras não tivessem também. Joaquim era um bom sujeito também. Para ser mais acurado, a Silvana tinha sim, algo um pouco diferente. Era um pouco exagerada, um pouco dramática. Tudo virava uma grande coisa, uma grande causa.  Tempestades em copo d’água eram sua especialidade, mas tormentas fazia sem copo e sem água também. Assim era a Silvana.
Um dia, sabe-se lá por quê, o Joaquim soltou uma bomba, quando chegou em casa. Disse, assim,  mais nem menos, que estava indo embora. Demorou um pouco para ela entender. Como assim? Embora, como? Joaquim foi curto e incisivo:
-Vou embora, quero divórcio. Não temos filhos, o pouco que temos, pode ficar para você.
E isso foi tudo, não explicou mais nada.
A Silvana soltou uma ladainha enorme de perguntas. Ela mesma dava as respostas e fazia novas perguntas:
-O que aconteceu? Alguma mulher? Isso mesmo, você conheceu alguma vagabunda por aí. Só pode ser isso.
O Joaquim continuava impassível. Parecia um marinheiro em alto mar, já acostumado com as tormentas. E a Silvana não parava. Ela não lhe agradava mais? Queria alguém mais jovem? Ela gastava muito? Coitada, tinha tanta coisa que ela queria e nunca teve. Isso não podia ser. Estava com problemas existenciais? Crise de meia idade? Só podia ser outra mulher. Ele não levava jeito de quem tivesse outra mulher, mas quem pode saber? Quem era, o que era? Alguma coisa com ela, com a sua Silvana? Alguma fofoca, alguma mentira?
E o Joaquim, sério e silencioso. Verdade é que, se ele quisesse responder, teria dificuldades, pois não havia intervalo para comercial, a Silvana não parava por mais de um segundo. E continuou, continuou, perguntando e respondendo ao mesmo tempo. Não se sabe se era o desespero, ou se ela tinha finalmente encontrado a tempestade perfeita.
O Joaquim sempre se perguntava, antes disso, o que a Silvana faria, se um dia houvesse realmente um problema, que drama ela criaria. Ali tinha ele a resposta.
Depois de mais uma série de perguntas, ela estava ficando finalmente cansada e desesperada e parecia realmente querer ouvir uma resposta. Terminou esta última sequência de perguntas com três dramáticos “por quês”.
-Por quê? Por quê? Por quê?
E parou. Olhou para o Joaquim e parou, aguardando uma resposta. Esse, depois de se certificar que ela havia parado e, efetivamente estava dando espaço para que ele pudesse responder, olhou bem para ela e falou:
-Porque sim.

Levantou-se, pegou suas coisas e partiu.

Um casamento como nenhum outro

Um casamento como nenhum outro



O Armando estava lá na frente da igreja, firme, esperando pela noiva. Bonitão, elegante, olhava para a porta do templo, esperando a futura esposa chegar. Olhando para seu semblante, porém, você jamais poderia saber o que se passava em sua mente. Havia duas forças se confrontando. Uma, que poderíamos chamar “de fundo” estava comparando a vida que ia ter, de casado, com a que tinha tido até então. Como ele se relacionava com a Márcia há muito tempo, era fácil “montar” um quadro mental do futuro “lar”. Não se pode dizer que ele estivesse decepcionado ou apavorado com o futuro próximo, mas certamente não se pode dizer que ele estava vivendo um gozo antecipado. A outra força, que poderíamos chamar de “aparente” , tentava fugir desses pensamentos e olhava a paisagem festiva e solene, a decoração, as faces das pessoas. Foi então, que uma luta surda começou a se travar dentro de sua cabeça. A força “de fundo” estava chamando a consciência exterior para uma conversa, uma discussão sobre o cenário que estava a se descortinar. A outra evitava o confronto por que sabia que não ia ser bom. Mais do que isso, agora era tarde, nada mais poderia ser feito. Por que, então, pensar no que já é quase um fato e que não tem mais jeito? “O que não tem solução, solucionado está”, não é assim que se diz?
A cena era a típica de um casamento.  Amigos,  parentes e conhecidos distribuídos ao longo dos bancos. As mulheres, invariavelmente, conversavam baixinho, sussurravam, discretamente, como requeria o lugar. Apontavam coisas e objetos. Com um pouco de imaginação, quase era possível adivinhar-se do que falavam. Os homens, um pouco mais silenciosos, examinavam o teto, os altares laterais, ou simplesmente olhavam para o vazio. Só Deus sabe o que realmente pensavam.
De repente, Armando percebeu  o que todo mundo já tinha percebido. A noiva estava muito, muito, atrasada. Havia mais. Já se podia perceber uma movimentação extra no fundo da igreja. Algumas mensageiras chegavam, outras saíam. Era óbvio que alguma coisa estava no ar. Algumas donzelas estavam nervosas, outras disfarçavam um choro e outras, maldosas, mal podiam conter um ar de sadismo. Os homens, invariavelmente, fingiam que não tinham percebido nada. Uma atmosfera de constrangimento invadiu o sagrado recinto.
Todos já sabiam a essa altura que algo havia ocorrido. O “algo” também todos sabiam o que era, mas não ousavam falar. A noiva teve um ataque de pânico e desistiu na última hora.
Se você  pudesse ler a mente dos presentes, iria encontrar inúmeras e estranhas  “correntes” de pensamento. Um colega de trabalho estava pensando no dinheiro que gastou com o presente. Será que eles iriam devolver? Pedir de volta certamente era impensável. O outro lamentava a viagem que deixou de fazer para estar ali. Um amigo sincero se preocupava com o que iria acontecer com o Armando. E assim por diante. Provas cabais da mesquinharia humana poderiam ser recolhidas ali, se  alguém por acaso duvidasse de sua existência. Eu não vou falar das coisas que se passavam nas cabeças das mulheres, pois alguma leitora poderá pensar que tenho ideias machistas. Posso garantir, entretanto, que iam desde uma dor profunda, sincera, até um “bem feito, ela merece”...
E o noivo, o preocupado Armando, que até agora há pouco estava com aquela monstruosa batalha interior, de repente percebeu que poderia encerrar a disputa mental que estava ocorrendo. Para economizar tempo, vou direto ao ponto: estava tremendamente aliviado, como nunca estivera antes em sua vida. Claro que não poderia mostrar o que sentia por dentro.... Por isso, naquele momento sua preocupação passou a ser outra: como coordenar aquela enorme sensação de surpresa e genuína felicidade pela libertação recém adquirida, com uma cara oficial – que teria de fazer para a ocasião – de tristeza e humilhação. Ele bem que tentou.
Se alguém tivesse tirado uma foto de seu rosto naquele exato momento, iria obter uma expressão facial nunca registrada antes. Ganharia fácil do ar misterioso do rosto de Monalisa. Sempre havia a possibilidade de se explicar aquele sorriso contido (Como é possível diante de tal tragédia?), como sendo consequência de um choque traumático. Tantos anos juntos, mais de um ano preparando o casamento e, de repente, os dois abruptamente fugindo de seu destino.

Armando e Márcia provavam mais vez que os corações humanos escondem segredos que nem o mais habilidoso psicólogo consegue penetrar. Ora bolas, quem consegue entender o ser humano?

Friday, June 7, 2013

A hora dos lobos


A hora dos lobos

Lobos famintos e ferozes atacariam a vila no  meio da noite. Era preciso vigiar. Eles eram enormes. Do tamanho de um boi. Não adiantava atirar, não adiantava se defender. Queriam carne, queriam sangue de gente. Era a sina.
O Dino repetia isso o tempo todo, mas com as palavras dele, com a voz dele, com o jeito dele. E não era fácil de entender, não. Eram praticamente uns grunhidos. Era tudo que ele conseguia fazer com todos os problemas que tinha. Ele, coitado, era retardado, doente mental. Muito poucas pessoas entendiam o que ele falava, mesmo assim, prestando muita atenção. Uma delas era o Sandro. Além de ter pena do coitado, ele achava também que havia algo de bondade nele, alguma coisa espirirtual, sei lá. Provavelmente era besteira, mas era o que ele sentia.
O Dino morava com a mãe, muito velhinha. Tinha coisas que ela não conseguia mais  fazer na sua velhice, tinha coisas que ele não podia fazer no seu atraso mental. Juntavam, então, o pouquinho que cada um podia e tocavam a vida. Às vezes precisavam de uma ajudazinha aqui e acolá e acabam sempre tendo uma mão amiga. Viviam da pensão que o pai, falecido, tinha deixado.
Toda noite, por volta das dez, o Dino saía de casa e entrava no bosque que havia perto de sua casa. Era grande e se estendia até perder de vista. Escuro como  breu. Não se sabe como o Dino conseguia andar por lá . Ficava umas três horas lá dentro e depois voltava. Toda vez que o Sandro perguntava, ele dizia que ia lá acalmar os lobos, dizer para eles não virem. Tinha de conversar, cantar baixinho para eles se acalmarem. Era o único jeito. Não podia falhar uma só noite, pois, do contrário, eles viriam para vila e matariam pessoas até ficarem saciados. Tudo isso o Dino dizia, do jeito dele, com a voz dele. O Sandro era o único que acreditava. Quase acreditava.
Era uma missão importante, essa do Dino. Tinha gente cuja vida dependia dele. Ele não gostava de deixar a mãe sozinha à noite, mas aquilo era uma coisa sagrada que só ele podia fazer.  Acalmar os bichos, conversar  com eles, era seu destino e só seu.
O Dino, durante o dia, andava para lá e para cá, com aquele jeito desajeitado que ele tinha. Meio desengonçado, ia atravessando as ruas, sem muito olhar. Não havia muito perigo, pois havia poucos carros e todo mundo já o conhecia na redondeza. Viam aquela figura manquitolante, lá de longe, e já diminuíam a marcha.
Naquele dia, porém, havia alguém de fora chegando na cidade. Quando percebeu, o Dino estava bem na frente do carro, não teve como desviar. A velocidade não era muita, mas pegou o coitado de jeito. Foi levado para a  Santa Casa, em estado nada bom. A  cabeça que já não era muito certa, levou uma pancada também.



Logo chegou o Sandro, comovido com a notícia. O atropelado estava dormindo, mas assim que percebeu a chegada do amigo, acordou e ficou agitado. Queria falar alguma coisa. Sandro encostou os ouvidos na boca do enfermo. Mal dava para perceber o que ele falava, mas o Sandro já tinha prática e entendeu tudo. Era para ele ir embora da cidade por uns dias. Não tinha como evitar, os lobos iam atacar. Não dava para ele ir conversar com eles naquela noite, para acalmar, para cantar. Ninguém podia evitar, ele tinha de sair.
Sandro, apesar de assustado, não conseguia acreditar naquilo que o Dino falava. Ainda assim, como tinha uma visita pendente para um irmão na cidade vizinha, usou esta desculpa para si mesmo e viajou.
Três dias depois, voltou.  O Dino, pobre, tinha falecido e jazia no pequeno cemitério da vila. Na rua de sua casa, que era bem perto da rua do Sandro, uma grande desgraça. Na noite anterior, houve assassinatos em cinco casas. Treze pessoas, no total, haviam morrido e pouco tinha sobrado delas. Quem – ou o que - quer que tenha atacado, ou jogou a maior parte dos pedaços dos corpos fora, ou os tinha comido. Tinha sobrado pouca coisa. Sangue nas paredes, sangue no chão, sangue na porta. Nas casas ninguém restou para contar como foi que tudo aconteceu. Uma tragédia.
Ninguém conseguiu relacionar  o que o Dino costumava falar com o que tinha acontecido. Ou porque num evento de tal magnitude, simplesmemente ninguém se lembrou da pobre figura, ou talvez porque nunca ninguém tinha entendido direito o que ele estava dizendo. Só o Sandro sabia.
O Sandro sabia também que os lobos não voltariam mais. Acho que o Dino tinha explicado para ele uma vez que, se eles atacassem, iam atacar só uma vez.
Sandro morou na pequena localidade pelo resto de sua vida. Sempre houve muita paz depois disso. Muitas vezes ele ficava pensando  que aquilo era uma pena que a cidade tinha de pagar, às vezes pensava que era coincidência e tudo tinha sido feito por um assassino maníaco que passava casualmente por ali. Nunca a polícia descobriu o que realmente tinha acontecido.

 O fato é que aconteceu tudo do jeito que o Dino falou. Acho que às vezes Deus fala através dos tolos e o diabo através dos lobos. Quem quiser acreditar, que acredite. Todos são filhos de Deus e Ele escolhe quem ele quiser para ser seu mensageiro. Pode ser também que o Dino tivesse premonição.  E, por que não? Ou ainda podia ser que na loucura dele, ele tinha capacidade de criar monstros na vida real, na forma de lobos ou não. Acho, porém, que isso é improvável.  A única coisa certa, é que tudo aquilo aconteceu. E tudo aconteceu do jeito que o Dino falou. Ele mesmo, o Dino, louco, débil mental, retardado...Pelo menos para o resto de nós, ele era.

Thursday, June 6, 2013

Homens que desaparecem



Onde foi parar o Honório?

No princípio não dei muita atenção ao Hilário. Bom sujeito, mas sempre foi meio estranho. Mas devia, como você mesmo vai deduzir. Mas ainda não está na hora de se fazer consideração a respeito. Primeiro vamos aos fatos. Só uma última coisa antes deles, porém. O Hilário é esquisito sim, mas às vezes as coisas do mundo também são. Mais do que imaginamos.
Aposentado que era, fui morar em um sítio longe da cidade. Um lugar especial. Era um grande pedaço de terra que foi dividido em sete chácaras. Talvez por causa da topografia do terreno, talvez porque o dono anterior gostava do número bíblico. Enfim, comprei o meu quinhão. O terreno era ligeiramente inclinado, de forma que podiam ser vistas do meu lado as três propriedades e, do outro as outras quatro. Cada um construiu sua casa, alguns de nós construímos um pequeno celeiro e começamos a nova vida de vizinhos. Além de outras, uma curiosidade sobre a nossa pequena comunidade era que todos éramos casais e morávamos sós. A maior parte tinha filhos, porém já eram crescidos e andavam pela vida.
Embora ao longe, dava para se ver a atividade diária dos habitantes. Todo mundo plantava um pouco, criava alguns animais, enfim cuidava de sua vida. Vez ou outra íamos uns até a casa dos outros para conversar um pouco, perguntar alguma coisa, pedir algo emprestado, enfim, fazer coisas que vizinhos fazem.
O Hilário porém gostava de conversar mais do que qualquer outro. Não sei se era por causa da quietude da sua mulher, ou se ele era assim mesmo, coisa de nascença, só sei que ele não podia passar muito tempo sem trocar uma palavrinha. Já vinha, já sentava na velha cadeira de balanço que eu tinha na minha varanda. Eu não me incomodava, até que era bom. Aí ele começava seus “causos”. Um mais estranho que o outro. Uma pena que ele não fosse um homem de letras, um escritor, pois seria um bom contador de histórias. Fantásticas, é claro.
O tempo foi passando e nós todos, amadurecendo e branqueando os cabelos para não contrariar a mãe natureza, fomos seguindo em nossas vidas. Depois de quase dois anos que estávamos lá, a loucura do Hilário parece que estava chegando a um ponto crítico. Um dia ele chegou em casa, agitado e contou uma história estranha sobre um de nossos vizinhos, o Honório. Eu não entendi quase nada do que ele falou e, quando pedi para ele repetir com calma o ocorrido, ele disse que estava com pressa e saiu quase correndo de minha casa.
Três dias depois, já mais calmo, ele sentou-se nos degraus da escada de madeira que levava até minha varanda e começou a falar comigo, que estava em pé, em frente à casa:
-O Honório sumiu de casa. A Dona Inácia está um desespero só. Ela estava no quarto, costurando e o marido estava no jardim. Depois de uma meia hora que não o via, começou a chamar pelo seu nome. Nada. Saiu preocupada para o quintal, já pensando o pior. Afinal o Honório é freguês de carteirinha da clínica de coração lá da cidade. Felizmente ou infelizmente, não era isso. O Honório, simplesmente tinha evaporado. Ela andou pela estrada, foi até aquela vendinha a uns três quilômetros daqui, vissitou algumas casas e , nada.
-Quando foi isso, Hilário?
-Faz três dias hoje. Hoje às três e quarenta da tarde vai fazer três dias que o Honório sumiu.
-Três dias!
 -A Dona Inácia já foi à polícia?
-Você sabe, ela não dirige, não tem jeito para essas coisas e, além disso, a gente sabe que eles não vão fazer nada.
-Mesmo assim é preciso. Essas coisas precisam ser documentadas.
-E o pior é que agora, tem uma tal de raposa que aparece lá na casa dela a toda hora e quer entrar. Parece que a danada, ou o danado, sabe que o dono não está em casa. Ela morre de medo. Em todo caso, ela falou que parece que o bichinho não é agressivo. De qualquer jeito, é esquisito. Eu nunca vi raposas por essas bandas.
Fiquei cismado. De qualquer forma, por mais lunático que o Hilário fosse, não poderia ter inventado uma coisa dessas. Resolovi dar uma passada lá. Encontrei a Dona Inácia soluçando. Ela confirmou a história toda, tim-tim por tim-tim. Fiquei um pouco envergonhado de achar que o Hilário estava exagerando. Levei, meio à foça, a pobre mulher até a cidade para registrar o desaparecimento do Honório. Na saída, o policial falou qualquer coisa a respeito da antiga propriedade, antes de nós comprarmos. Qualquer coisa de maldição ou coisa assim. Acho que ele tinha um disfarçado ar de escárnio quando falou. Nem eu nem Dona Inácia demos importância para o homem. Na volta, perguntei a ela se queria que eu pusesse uma armadilha para pegar a raposa. Ela disse que não, que já tinha se acostumado, ela era até simpática e fazia companhia.
Passaram-se três semanas e nada. Por solidariedade, quase todo dia eu passava pela casa da Dona Inácia. Ela já estava mais conformada. A raposa, agora estava confirmado, era um macho, tinha se instalado lá definitivamente. Dormia dentro de casa e tudo. Comecei a rarear minhas visitas mas coloquei-me à disposição para qualquer coisa.

Hildebrando e o cavalo malhado

O Hilário continuou a me visistar regularmente. Cada vez vinha com uma interpretação a respeito do sumiço de nosso vizinho. Tudo que se possa imaginar.Um dia ele até sugeriu que o raposo, agora devidamente qualificado quanto ao gênero, havia engolido o “seu” Honório para ficar mais perto da Dona Inácia. Minha esposa, Linda, nunca se incomodou com a presença do Hilário. Nesse dia, porém, ela ouviu um pedaço desta história e achou melhor que eu diminuísse meus contatos com ele. Ele precisava consultar um especialista, disse ela. “Esse homem não está bem da cabeça”, ela me confidenciou.  Naquele mesmo dia, por algum motivo, a Linda resolveu visitar a Dona Inácia comigo. Teve pena dela, mas achou que ela estava bem. Estranhou, entretanto, a presença do raposo, ali, como se fosse um cachorro, dentro de casa.

A gente acaba se acostumando com a desgraça, mesmo uma desgraça estranha como essa. Mas a gente sabe também, que uma desgraça nunca vem só. Vem em dupla e, às vezes, Deus me livre, vem até em cachos. E não é que na tarde seguinte à nossa visita para a senhora Inácia, me chega o Hilário com mais uma história? Ninguém sabia onde o Hildebrando tinha se metido. A esposa, Dona Carolina, estava desesperada, principalmente por causa dos eventos recentes. Todos os vizinhos estavam ajudando, olhando pela redondeza, procurando ao longo da estrada. No dia seguinte, fomos até a polícia e registramos o fato. Pensei que o detetive fosse achar estranho, fosse perguntar alguma coisa, mas nada disso aconteceu. Simplesmente registrou a ocorrência. Algo dentro de mim dizia que tudo iria ficar por isso mesmo, como aconteceu com o “seu” Honório. E não deu outra. Pior que isso, aconteceu ainda algo mais estranho. Apareceu lá um cavalo malhado, bonito, e não havia jeito de o bicho ir embora. Fizemos um mutirão nas redondezas para descobrir quem era o dono, mas nada. Nunca ninguém tinha visto aquele animal antes. Obviamente a Dona Carolina não permitiu que ele entrasse em casa, mas que ele queria, queria. Dessa forma, ficava lá pelo quintal, dia e noite. Quando tinha uma chance, enfiava a cabeça pela janela para espiar o que a Dona Carolina estava fazendo.
Desta vez tive que aguentar o Hilário com toda a força. “Você não consegue ver?”,  dizia ele. Os fatos estão relacionados: antes um raposo, agora um cavalo! E as hipóteses para explicar os fatos jorravam aos borbotões da boca de Hilário.Os outros vizinhos estavam preocupados mas ninguém nunca mencionou o aspecto do aparecimento dos animais.
Eu pensei que a cota de acontecimentos estranhos em minha vida e em minha comunidade tinha se esgotado. Estava enganado. Num belo dia, cinquenta dias depois do último desaparecimento, numa mesma manhã, nada menos do que três homens desapareceram. Na mesma noite, dois gatos e um galo repetiram o ritual. Cada um em cada casa, apareceram e queriam se instalar nas mesmas. O absurdo era óbvio e ainda assim eu não queria acreditar que fosse algo sobrenatural ou semelhante. Não conseguia disfarçar, porém, e o Hilário já tinha percebido. Agora ele não queria mais explicar nada. Estava preocupado consigo mesmo e, segundo ele, comigo também. Estava óbvio, segundo ele,  nós éramos os próximos depois do Hélio, do Hermes e do Homero. Pela primeira vez cheguei a me preocupar e achar que aquilo podia chegar até mim. Procurava, em minha mente, alguma explicação lógica. Desconfiei, de certa maneira dos policiais. Aquela frieza, aquela naturalidade, diante de coisas tão extraordinárias. Por quê?
No dia seguinte, o Hilário confirmou: os dois gatos e o galo haviam se instalado nas casas. Nesse mesmo dia, as mulheres, novas vítimas da tragédia, foram até a minha casa. Falaram comigo e eu não conseguia arrumar palavras para acalmá-las. Minha esposa levou-as para dentro e conversou com elas. Escutei parte do que falavam. Ela disse que tinha de haver alguma explicação. Obviamente havia algo por trás daquilo, talvez alguém interessado em que vendêssemos as terras. Linda sempre fora bastante racional e eu tentava acompanhá-la, mas desta vez, a coisa era comigo. As mulheres não estavam desaparecendo, eram os homens que estavam.
Ficou resolvido. No dia seguinte, todos nós, os dois casais que haviam sobrado e as outras cinco mulheres, iríamos para o centro da cidade falar com a polícia, com o prefeito, com quem quer que fosse. Aquilo precisava de uma explicação, de uma solução.

Essa do coelho eu não esperava

Acordei cedo e logo percebi que algo muito estranho estava acontecendo. Senti um cheiro forte de grama e percebi que estivera dormindo sobre algo úmido. Eu estava fora de casa, no quintal. Escutei uns latidos de cachorro e olhei para trás. Um cão médio, de cor marrom clara, olhava para mim, com cara de bonachão. Ninguém precisou falar, ninguém precisou explicar. Eu sabia que aquele era o Hilário e ele sabia que eu sabia também. Ele olhou para mim meio esquisito mas nós dois evitamos comentar o ocorrido. Aconteceu o que tinha de acontecer. Como dizem, estava escrito nas estrelas. Não sei por quê, achei bem lá dentro de mim, que o Hilário, involuntariamente, era quem estava causando aquilo. Dizem que tem gente que pensa tão forte nas coisas, que elas acabam acontecendo. E pensar em estranhezas, ele pensava. Não que ele quisesse, era uma coisa de seu espírito. No fundo, isso é uma bobagem, mas eu ficava pensando...
Andei com ele pela vizinhança. Embora não conseguíssemos conversar, por motivos óbvios, ou seja, sendo ele um cachorro, nós nos entendíamos muito bem. Passamos pela casa dos vizinhos, demos uma olhada geral, parecia tudo normal. Quero dizer, normal dentro da nova ordem.
Bem mais tarde, voltei para casa. Um carro de polícia estava em frente ao portão. No quintal, minha esposa e três policiais conversavam. Linda gesticulava, mostrava, falava. Os homens  da lei tomavam notas. Um deles parecia ter um pequeno sorriso de gozação, mas podia ser que fosse pura imaginação minha.
A Linda nem percebeu que eu estava chegando. Fui me encostando, queria tomar parte da conversa. Foi aí que percebi que minha voz não saía. Pior que isso, foi aí que percebi que eu era um coelho. Ainda pior, minha mulher quase pisou em mim.
Como disse anteriormente, a gente acaba se acostumando com tudo. Mesmo com as coisas mais estranhas. Agora vivo por aqui, na minha própria casa. Depois de eu muito insistir, não com palavras, mas com atitudes, a Linda me deixou dormir dentro. Imagina só. Eu, um coelho dentro de minha própria casa.
Eu desconfio que ela desconfia que o coelho sou eu. Ela tem certeza de que o cachorro é o Hilário, pois eu ouvi quando ela falou isso com a Dona Inácia. Pelo jeito que ela acaricia minha cabeça, ela só pode achar que sou eu. Ela acabou se acostumando, eu também. Acho que a gente se acostuma com tudo, como já disse antes.
Por falar nisso, meu nome é Honofre. Isso mesmp com H. Acho que o escrivão não sabia disso quando me registrou. Como você deve ter notado, todos os homens que desapareceram têm seu nome começado por H. Claro que é coincidência. Ou não. Nesta minha situação, na verdade, não faz diferença. Agora que tenho mais tempo e já me habituei com meu novo “status”, fico às vezes pensando...Será que se o meu pai tivesse me registrado corretamente, Onofre com “o”, será que meu destino seria diferente? Difícil dizer...Existem coisas que não tem explicação. Não, não têm...



Wednesday, June 5, 2013

A Allie está voltando para casa

A Allie está voltando para casa

A Allie, não sei como, acabou se machucando. Havia ferimentos pelo corpo todo. Ficou um tempão se recuperando. Não foi nada fácil. Eu não tenho os detalhes, mas o que eu ouvi dizer, foi impressionante. Ela passou por maus bocados. Coitadinha. Tiraram até raio X.

O importante mesmo não é falar sobre o que foi, mas sobre o que vai ser. Ela vai voltar para casa, com hora marcada e tudo. Vai ser num sábado, 22 de junho, a uma da tarde. O pessoal do hospital e o médico que cuidou dela estão tão felizes que até convidaram todo mundo para assistir seu retorno. Puseram aviso em todo lugar, em inglês, já que ela mora aqui na Flórida. A Allie é uma linda tartaruga e vai voltar para o golfo do México, onde é seu lugar. Até página no Facebook, fizeram para ela.

Esse pessoal sabe cuidar dos animais. Foi tratada como uma princesa, enquanto estava no “Gulf Specimen Marine Lab”.  Essa turma da Vida Animal, aqui da Flórida, não brinca em serviço. Um monte de gente cuidando de uma tartaruga, durante um  monte de tempo,  para depois devolvê-la para o seu “habitat”natural...É demais, não?


Alguém pode dizer, por que fazer isso se há um monte de gente sem tratamento algum?  O que posso dizer é que essas pessoas estão fazendo bem o que se espera que elas façam, onde elas estão. Se elas tivessem de cuidar de pessoas, fariam tão bem ou melhor. São pessoas que respeitam a vida, em geral. Por outro lado, quem não trata bem os animais, certamente não vai cuidar bem das pessoas também...




A viagem

A viagem

Atrás da escola, havia um bosque com árvores não muito altas e que depois se estendia até o pé da montanha.  A parte da frente do estabelecimento dava para o bairro de classe média onde morava  a grande maioria dos alunos. A maior parte era transportada pelos próprios pais. Alguns moravam tão perto que andavam até suas casas. Era o caso de Joseph e das gêmeas Ana e Érica, todos com 9 anos de idade. Esses três andavam sempre juntos. A família do Joseph tinha vindo da Alemanha há um ano, quando pai fora transferido pela firma em que trabalhava para sua filial no Brasil. As gêmeas também chegaram na mesma época, quando seus pais americanos se mudaram para cá por causa de negócios. Romero, outro garoto de nove anos, ou porque tinha uma certa inveja deles ou porque gostasse de Érica, estava sempre de olho nos três. Foi por isso que notou que, às vezes, os mesmos, ao invés de irem para casa após as aulas, entravam no bosque.
Naquele dia ele resolveu segui-los. Depois de andarem por cerca de um quilômetro, pararam em uma clareira. Romero ficou à espreita e percebeu, depois de alguns minutos, que, apesar de ser pleno dia, uma luz muito forte vinha do chão, bem no meio dos três. Alguns segundos depois, as coisas voltaram ao normal e, esticando o pescoço, ele percebeu que havia um objeto, aparentemente feito de inox, semelhante a um grande ovo, equivalente a três ou quatro bolas de futebol. Assim que os três se afastaram, Romero tentou se aproximar do “ovo”.  Ele não estava mais lá, porém. Entre ele se certificar de que os três haviam se afastado o suficiente e ele voltar o olhar para a cena, tudo havia desaparecido.
Não era todo dia que os garotos iam até o local secreto. Era uma vez por semana, mas nem sempre no mesmo dia. Assim que  Romero teve uma chance de segui-los outra vez, sua mãe apareceu na última hora para pegá-lo e ele teve de esperar mais uns dias para uma nova oportunidade.



Era uma quarta-feira e ele percebeu que naquele dia iria acontecer algo, pois os três conversaram muito durante o intervalo. E assim foi. Depois das aulas, os três sumiram no meio das árvores. A mesma cena se repetiu. Desta vez Romero percebeu que, enquanto estavam em volta do objeto, eles pareciam estar muito concentrados, os semblantes fechados. Depois não viu mais nada. A luz era tão forte, muito mais forte do que a primeira vez, que praticamente o cegou por uns minutos. Quando conseguiu novamente fixar a vista, ninguém mais estava lá. Nem os garotos, nem o objeto.
Na semana seguinte, o pequeno Romero ficou com medo e não foi. Ficou ao lado do prédio escolar, esperando que eles voltassem. Foi nesse dia que notou algo estranho. Logo após os três emergirem de dentro das árvores, o carro do pai de Joseph estacionou junto à calçada da escola e esperou pelos três. Quando estavam bem perto, saiu e deu um casaco para cada um deles que, aparentemente, morriam de frio. Isto significava que os pais sabiam onde eles estavam.
No dia seguinte, vários boatos estavam correndo pela escola. O primeiro deles dava conta do desaparecimento dos três. Segundo as notícias, não havia sinal de violência, aparentemente eles haviam saído da casa por vontade própria, à noite. Outra coisa estranha foi a entrevista dada pelos pais para a Rádio local. Todos estavam comentando sobre o comportamento deles diante dos fatos. Falavam da frieza com que narravam o ocorrido. Muitos atribuíam isso ao fato de eles serem estrangeiros. O segundo boato foi uma luz vista por pessoas que estavam acordadas, por volta das duas horas da madrugada. Deixou um fino rastro no céu, de baixo para cima. Os mais “entendidos”  tentavam relacionar os dois fatos. Tanto a polícia quanto a direção da escola minimizaram as coincidências, explicando que tudo era imaginação e que as pessoas, com razão, estavam assustadas e começavam a “pensar” coisas.
Depois de uma semana, o pequeno Romero resolveu ir até a Diretoria da escola e relatar o que sabia. Descreveu com todos os detalhes o ocorrido. A diretora chamou seus pais e explicou que o garoto estava assustado e estava imaginando coisas. Talvez precisasse de um psicólogo.

O fato é que os três nunca mais voltaram. Os pais se mudaram dali. Segundo os comentários, tinham voltado para seus países de origem. Quanto ao Romero, nunca alguém deu a mínima para sua história. Afinal, ele era apenas um garoto.