Saturday, October 21, 2017

A casa de meu avô



A casa de meu avô


A casa de meu avô era grande, muito grande. Tinha muitos quartos, muitas salas. Muita gente, muitos tios e tias, muitos primos e primas e meu avô e minha avó. Eu era muito criança e a minha idade era a idade da inocência, a primeira inocência, a primitiva. E o casarão tinha muitos porões, porões cheios de coisas. Um porão para cada cômodo da casa, em cima.
Os objetos que havia lá, nos porões, eram estranhos, pelo menos para mim. Eu os pegava, um a um, e os admirava. Uma porcelana pintada, uma garrafa colorida, uma caixinha de madeira, uma coisa que eu não entendia. Jornais de não sei quando, com letras antigas, notícias antigas, fotos antigas de gente antiga. Havia muitas coisas que eu não entendia.
E os livros? Havia tantos que não dava para contar. Eram livros gozados, tinham capas com gente desenhada, quase se beijando, outras de mãos dadas. Romances antigos, talvez pudorados, não sei pois não sabia ainda ler. Histórias que não acontecem mais ou que agora parecem sem graça ou que acontecem de outro  jeito. Era só um mistério só, grande, cheio de mistérios pequenos.
E havia os livros de Allan Kardec, depois aprendi. Antes mesmo de saber, porém, eu sabia que havia segredos ali. Folheava um a um, com uma mistura de medo e curiosidade. Queria e não queria saber o que estava escrito, olhava as figuras e não entendia. Eu não sabia ainda da vida, da eternidade e muito menos o que as pessoas pensavam dela. Não sabia o que as pessoas discutiam sobre o pós-vida, nem sabia ainda da primeira vida, dos seus acertos e desacertos.
Tudo isso aconteceu em Santana do Parnaíba, terra dos bandeirantes,  terra da represa Edgard de Sousa, que invadiu nossas casas para trazer luz para o povo. É assim que se fazem as coisas.
Naquela época meu avô estava doente. Acho que era o coração. Estava num quarto acima, na cama. Algum tempo depois, já em Perus, fiquei sabendo, a notícia veio molhada com as lágrimas de minha mãe, que ele havia falecido. Soluçando, ela contava para alguém que ouviram sua mão bater na madeira da cama. Era a mão desfalecida, caindo. A imagem ficou.
Muitas vezes, depois disso, fiquei meditando.  Será que ele se reencarnou? Será que o que acontece com a gente depois da morte é aquilo que a gente acredita? Se isso for assim, acho que ele está no corpo de um jovem, bonito, inteligente, andando por aí. Talvez um jovem rebelde, com muitas causas para lutar. De qualquer jeito, uma pessoa boa, isso eu sei. Se não fosse assim, como dele poderia ter nascido uma mãe, como a minha mãe, um anjo de primeira linha?
Luis Maximiliano, esse era seu nome. Nome bonito, cheio de força. E ele acreditava nos espíritos, e isso era bom, é bom acreditar em alguma coisa. Só sinto falta de poder ter tido contato com ele. Nunca tive uma chance. Ele poderia ter me explicado sobre as capas das revistas, sobre as figuras dos livros de Allan Kardec, sobre as notícias dos jornais antigos. Explicar para que serviam aqueles objetos estranhos, sobre o que havia nas caixinhas de madeira. Sobre os mistérios do mundo. Sua versão, pelo menos. Que pena.
 Espero que eu possa contar coisas para meus netos. Só coisa bonita, explicar o pouco que eu sei. Não sei se eles vão achar graça ou interesse, como eu teria achado, vindo de meu avô. Não faz mal, mesmo que eu seja um avô antigo, quero poder estar com eles. Só estar, só isso, já vai ser muito, muito, bom.



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Tuesday, October 17, 2017

Um bauru "na frança”



Um bauru "na frança”

Ficava pensando na mulher de seus sonhos. Uma loira, como gostava delas, mas com um toque de morena sensual. Uma mulher inteligente, mas que fingisse não ser mais que ele. Uma mulher ativa, empreendedora, mas que não ofuscasse sua presença. Uma mulher de firmes decisões, mas que não o fizesse parecer um tonto. Com bastante coragem, mas não a ponto de fazê-lo parecer um covarde. Uma mulher que gostasse de trabalhar bastante, fizesse dinheiro mais do que suficiente, mas que se mostrasse – para si e para os outros – uma mulher dependente. Dele, é claro. Que lhe desse carinho e amor o tempo inteiro e não ficasse pedindo dele o mesmo a todo instante.
- O que o senhor vai querer?
Pensou por um instante que o destino, ou um interventor divino, tivesse vindo atender seus pedidos. Mas não. Era apenas o rapaz da lanchonete perguntando o que ele queria para comer.
-Um “bauru na frança” e um guaraná!
Os sonhos teriam de ficar para mais tarde. Por enquanto, o “sanduba” e o “refri” eram a única coisa a que ele tinha direito. E olha lá...

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Sunday, October 15, 2017

Tudo passa


Passa tudo.

Aquele vexame que a gente deu, quando não podia dar. A vergonha por não ter feito o que deveria e por ter feito o que não deveria. Por aquela palavra maldita que nunca deveria ter saído dos lábios. Passa até a frustração por não termos conseguido satisfazer aquela vontade enorme por algo que, na verdade,  não era tão importante assim. Pela ausência quando a gente não poderia deixar de estar. Pela presença quando não era para a gente estar.
Passam as vontades, os desejos, o ódio, a inveja, a insensatez. Passa o medo, passa a miséria, a desilusão, a luxúria. As coisas boas e as más também.
Tudo passa.
A vida vai chegando ao fim.
No final, só fica um grande amor e tudo que a ele pertence.

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Friday, October 13, 2017

Somos aves voando




Somos aves voando

Somos todos aves voando,
voos rasantes,
voos suaves,
voos solitários,
voos gigantescos,
voos curtos,
longos voos também.
Corajosos, medrosos,
há voos de todos os tipos.
Voos quase perfeitos
-porque perfeitos não há-
todos voamos.
Porque voar é preciso.
O que também todos fazemos
Com certeza
É um dia,
Finalmente,
Pousar...


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Wednesday, October 11, 2017

Os Vitrais da Capela



Os Vitrais da Capela


“Na minha vila tem uma capela
Muito bela e dentro dela
Tem um morador
É um anjo de braços abertos
E esse anjo é Nosso Senhor”
(Zico e Zeca: Capela)

Acho que tinha 8 ou 9 anos. Antes de ir para  o “colégio interno”. Adorava passar ao lado do cinema local e examinar a grande lata redonda onde o dono colocava os pedaços de “fita” que ele tinha de cortar para emendar o filme. Certamente é diferente agora, mas naquela época os cinemas tinham aqueles grandes rolos com a “fita" que ia passar. Às vezes dava algum problema, o filme queimava, a plateia toda soltava aquela exclamação de desagrado e o coitado do operador tinha de “correr”. Cortava o pedaço queimado ou quebrado, juntava as duas pontas, colocava o mesmo de volta no carretel e continuava. O pedaço queimado ou estragado ia para o lixo. Mas sempre sobravam alguns quadradinhos. Era esses que eu pegava. Levava-os para casa cuidadosamente. Eram cenas de filmes diversos, filmes que eu nunca tinha visto e provavelmente nunca iria ver. Alguns eram coloridos, ah esses eram demais.. Cenas, rostos, objetos que eu não conseguia identificar, pois eram de terras distantes. Eu ia para casa, fechava a porta da pequena sala onde minha mãe mantinha uma mesa, cadeiras e uma cristaleira. A janela de madeira que meu pai havia feito tinha duas folhas. Quando eu as fechava, por algum motivo, na parte de cima escapava um raio de luz. Eu colocava um pano branco no chão, o pequeno pedaço de fita no caminho do raio de luz,  e assim fazia meu próprio cinema. Era fascinante. Minha imaginação de criança voava, era maravilhoso... Depois eu escolhia um dos copos coloridos de minha mãe, ou então os tampos trabalhados de vidro das doceiras e os punha sob o faixo de luz que, então, se espalhava pela sala em cores, em formas. Na minha imaginação essa luz multifacetada era o pano de fundo para os pequenos quadros do filme que eu “exibia”... Eu era feliz, muito feliz.

Já no seminário, aos 11 anos, eu não tinha como montar as minhas sessões. No entanto, eu podia ir até a capela, e depois de fazer a genuflexão e o sinal da cruz, eu me sentava no banco e olhava para os vitrais coloridos recebendo os raios do sol. Eram lindos e representavam motivos religiosos. Refletiam-se em múltiplas formas pelo chão e pelas paredes. Como disse, eram lindos, mas nem de longe se pareciam com as minhas espetaculares sessões  de “multivision” em casa... Talvez por isso, até hoje, eu considere o cinema a arte das artes...


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Saturday, October 7, 2017

Antes que tudo acabe



Antes que tudo acabe
Antes que tudo acabe,
ainda mais uma vez,
quero voltar para Paraty.
Viajar para Santarém,
que eu nunca conheci.
Jantar numa cantina do Bixiga,
com ar de quem é feliz.
Respirar o ar dos pinheirais,
na cidade em que eu vivi.
Rever sinceros amigos
que ficaram por aí.
Mais do que tudo, porém,
dar mil beijos e abraços,
na mulher que sempre amei,
tudo isso, antes de partir...

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Friday, October 6, 2017

Aqui estamos nós




Aqui estamos nós

Aqui estamos nós todos,
andando como loucos,
enfrentando o tempo presente,
nadando contra a corrente,
lutando contra o destino,
amando com amor ferino,
esperando o impossível,
acreditando no invisível,
avaliando as possibilidades,
confrontando nossas maldades,
consertando o imperfeito,
aceitando nossos defeitos,
comprando falsos sonhos,
cantando tons tristonhos,,
escrevendo contos fantásticos,
tomando propósitos drásticos
sonhando com o irreal,
temendo um golpe fatal,
navegando num insano oceano.
Assim nós vamos levando a vida,
até que enfim, um dia, ela nos leve.

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Thursday, October 5, 2017

Escritor



Escritor

Todo dia faço um poema,
escrevo qualquer coisa.
Espero que alguém leia
e sinta o que eu sinto.
Vez ou outra, descuido,
jogo palavras ao vento.
Espero que ele as leve,
bem longe daqui.
Que, alguém, sedento,
de alguma leitura,
num distante país,
as leia, com atenção.
E se for um chinês,
que só fala mandarim?
Azar dele, quem mandou
não aprender português?

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Monday, October 2, 2017

Uma certa idade




Uma  certa idade

Vou, devagar, com paciência,
aprendendo a envelhecer.
Dura tarefa, mas garanto,
tem a sua graça também.
Descobrir novas, justas, raivas,
criar novas paciências,
permitir-se impaciências,
esquecer-se de quase tudo,
lembrar-se de outras coisas,
menos do que é preciso.
Deixar a porta aberta,
acordar de madrugada,
dormir mais cedo que os outros,
dormir até bem mais tarde,
dormir sempre quando quiser!
Desaprender todas as coisas
de que não precisa mais
e as que precisa também,  
aprender coisas mais novas,
só pela graça de aprender.
Não concordar com o óbvio,
ficar ofendido sem motivo,
viver apesar de tudo mais!
E, fingindo não ouvir,
perceber o que, em sussurros,
estão falando da gente:
Não liga, não, pobrezinho,
ele já tem certa idade!
Ah, e quem liga para isso?

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