Friday, February 28, 2014

El Paso

El Paso



A música country americana e a música sertaneja brasileira têm coisas comuns em seus temas. Falam de amores trágicos, paixões banhadas por sangue. Traduzida de maneira livre,aqui está a bela canção cantada por Marty Robbins. Paixão, sangue e morte na letra da música “El Paso”:
“Eu me apaixonei perdidamente por uma garota Mexicana, lá do lado oeste do Estado do Texas. À noite, você poderia me encontrar na cantina da Rosa, enquanto a música tocava e a Felina dançava.
Os olhos dela eram mais escuros do que a noite, malvados e perversos quando jogavam um feitiço. Meu amor por ela, profundo. Era em vão, porém, posso garantir. Uma noite, um jovem cowboy, tão selvagem quanto o vento do oeste do Texas, entrou, arrojado e ousado no bar.  Lá estava ele a compartilhar um drinque com a malvada Felina, a mulher que eu amava. Com grande ódio, questionei  o direito dele amar essa jovem. Ele baixou a mão à procura de seu revólver.  Demorou menos que o tempo de uma batida do coração para eu responder e o formoso rapaz cair morto no chão.  Por um momento fiquei ali, parado, abobado com a coisa estúpida que tinha acabado de fazer. Muita coisa passou pela minha cabeça enquanto eu ficava pasmado, sem me mexer. Entretanto, o único recurso que me restava era fugir.
Corri para o fundo da cantina da Rosa onde os cavalos estavam amarrados. Escolhi o melhor, um que parecia correr bem, montei e cavalguei o mais rápido que pude da cidade texana de El Paso para as fronteiras do México.
Se eu voltasse para El Paso, minha vida não teria nenhum valor. Tudo estava acabado para mim, nada tinha restado. Fazia  muito tempo, porém, que pela última vez tinha visto aquela mulher, e meu amor, ainda assim, continuava mais forte de que o medo de morrer. Selei meu cavalo e fui, de volta, cavalgando sozinho na noite escura. Talvez no dia de amanhã, uma bala me encontrasse, mas nesta noite, nada era pior do que esta dor no meu peito.
Finalmente cá estou, de cima da colina, olhando para El Paso. Posso ver lá embaixo a cantina da Rosa. Meu amor é forte e me empurra para lá. E eu vou, então, em busca da Felina.
Do meu lado direito vejo cinco cowboys em seus cavalos e, do meu lado esquerdo, uma dúzia ou mais. Tiros e gritos, não posso deixá-los me pegar, preciso chegar até a parte de trás da cantina da Rosa. Algo está terrivelmente errado, posso sentir uma dor que queima do meu lado. Embora eu tente ficar montado, estou ficando cansado, incapaz de cavalgar.
Mas meu amor por Felina é tão grande que eu me levanto de onde caí. Apesar de meu cansaço, não posso parar para descansar. Vejo a fumaça branca dos rifles e posso sentir a bala lá no fundo do meu peito.
Do nada, Felina me encontra, beija minha face enquanto se ajoelha perto de mim. Sustentado por aqueles dois braços pelos quais eu daria minha vida, recebo um último beijo da Felina e... adeus!”

Assim termina a história da trágica paixão do cowboy pela misteriosa Felina...




Thursday, February 27, 2014

Intrigas e fofocas

Intrigas e fofocas



A notícia está lá no Estadão: “cardeais não devem fazer intriga ou fofocas”. Foi o papa Francisco que falou durante a cerimônia de nomeação dos novos cardeais. Sem dúvida, um santo ensinamento. Deve ser  por isso que o querido Francisco torna-se cada vez mais popular. Vai “direto na veia” como dizem alguns. Fofocas e intrigas podem destruir qualquer coisa. Acabam com um casamento, destroem uma amizade e podem obliterar completamente o funcionamento de uma firma, de uma organização, de um grupo. Têm,às vezes, consequências trágicas.
Na igreja, então, esse péssimo hábito  deve ser muito mais devastador. Como falar de Cristo, de perdão, de compreensão, e depois, aos sussurros, fazer maus comentários sobre os outros. Nem dá para imaginar o que Jesus faria ou pensaria de uma coisa assim. Se é péssimo em qualquer parte da sociedade, imagina só no seio da Igreja Católica, uma das maiores instituições do mundo. Além disso, já pensou que poder tem uma fofoca feita por um cardeal, se comparada a um simples, pobre e insignificante fuxico de uma comadre?  Dá até medo.
Está ótimo assim, espero que o Santo Pontífice continue a nos brindar com esses nobres ensinamentos e direcionamento. Vai ser muito bom para a fé, para o futuro da humanidade.
Só uma coisa está me preocupando e esteve o tempo todo, desde que li a notícia. Talvez o querido leitor também tenha, lá no fundo, sentido a mesma coisa. Eu  nunca imaginei que um cardeal fizesse fofoca. Esta foi uma novidade para mim. Eu sei de outras coisas, de outros pecados...Mas fofocas e intrigas, essa me surpreendeu. Vivendo e aprendendo.

Obrigado, Papa Francisco, pelo ensinamento e pela franqueza.

Monday, February 24, 2014

Brasil do Sul, Brasil do Norte

Brasil do Sul, Brasil do Norte



Após a Segunda Guerra Mundial, os Aliados resloveram dividir a Coreia: a do Norte e a do Sul. A parte de cima sob influência comunista, a do sul com influência capitalista e dos Estados Unidos. Um pouco mais tarde, entre 1950 e 1953, houve a Guerra da Coreia, uma tentando engolir a outra, muita gente morrendo. E o povo? O povo está dividido até hoje. Há alguns dias atrás, parentes dos dois países puderam se encontrar, excepcionalmente, durante algumas horas, em Kumgang, na parte do Norte. Não se viam há 60 anos, desde a guerra.
As grandes potências não tiveram nenhuma compaixão, na época, pelo povo. Acima de tudo, o que prevaleceu foi o fanatismo pelas convicções políticas dos dois lados. Obviamente, dentro do vocábulo “político”, inclui-se “interesse  econômico”. Quem deu  a determinados seres humanos o direito de estabelecer a sorte dessa nação? Além disso, vamos raciocinar. E se tivesse ficado tudo comunista? Quem sabe, não estariam agora, como a Rússia, deixando de lado o regime e conduzindo seu próprio destino? Atrasados? Talvez, mas ainda assim, um povo único, unido, em busca de seu caminho. E se o país tivesse ficado todo capitalista? Do ponto de vista dos comunistas, eles poderiam, talvez dizer, com orgulho: estão vendo, quanta injustiça social, quanta desigualdade, quanta concentração de renda. Ainda assim, repito, eles seriam um só povo, buscando sua identidade.
Imaginem se tivessem tentado fazer isso com o Brasil. Um Brasil do Norte, comunista "ferrado" e um Brasil do Sul , capitalista deslumbrado. Poderia ser vice-versa, não faz diferença. Dividido, sem poder se comunicar. Um lado, furioso, querendo jogar bombas. O outro, reclamando do desrespeito aos direitos humanos do lado comunista. Não, não...Acho que não teria dado certo. Dos dois lados, haveria gente tentando “quebrar o galho”. Uma passadinha por baixo do pano daqui para lá, outra de lá para cá. Um “jeitinho” capitalista daqui, um “jeitinho” comunista dali. O Charles de Gaulle tinha razão, a história não seria levada a sério...Estaríamos "avacalhando" o comunismo do mesmo jeito que estamos fazendo com o capitalismo. 
Estão vendo? Às vezes o “jeitinho brasileiro” tem suas vantagens.







Sunday, February 23, 2014

A vidente


A vidente


Aquele pobre homem estava na pior. Cheio de dívidas, cheio de problemas. O destino não estava dando folga, nem um pouquinho.Tinha chegado ao ponto de não ter nada o que comer, ele que já tinha tido uma vida até boa. 
Achou, por acaso, alguns reais no bolso de um paletó que tinha resolvido vender, já que era de fina costura e podia render alguns trocados. Ele até se lembrou de quando pôs aquele dinheiro lá. Nem valia a pena relembrar, eram  bons tempos, não queria ficar se chateando ainda mais com  essas coisas. Enfiou a grana no bolso e resolveu que ia fazer um almoço decente. Coisa simples, mas boa, pois fazia um bom tempo que não via nome de restaurante nem em lista telefônica.
Lá vai ele pela rua, quase se esquecendo de como era preta a sua situação. Olha de um lado,olha de outro, saboreando, pelo menos por alguns minutos, a paisagem. De repente vê a placa de uma vidente. Lá dizia que você precisa “conhecer seu passado para determinar seu futuro”. Passou pela sua cabeça, “quem sabe?”. Aquilo poderia ser uma reviravolta em sua vida, agora que tanto precisava.
Claro que não, além de ser uma besteira, estava com uma fome desgraçada. E continuou andando. “Pessoas de sucesso vestem Lemans”, dizia um outdoor logo na frente. E não era que aquele paletó, onde tinha acabado de achar o dinheiro era dessa marca, que ele até pensou não mais existir? Parecia um sinal. Dinheiro no bolso do paletó Lemans, vidente, pessoa de sucesso, Lemans...Voltou e decidiu falar com a vidente. Entrou, sentou-se. Lá de dentro, através de uma parede de vidro daquelas que só se vê de um lado, a mulher examinou seu novo, primeiro e único cliente do dia. Ela tinha muita prática em saber o que as pessoas estavam passando por dentro. Deu um tempo para fazer charme, depois foi até a recepção e mandou-o entrar.
A primeira coisa foi cobrar a consulta. Depois colocou o dinheiro numa caixinha de madeira. Pediu, então, que o cliente colocasse as mãos sobre a pequena mesa redonda. Tocou-as  ligeiramente com suas próprias mãos, como se precisasse desse contacto para ler seu passado e seu destino. Fechou os olhos e começou a sessão. Emitiu uns ruídos estranhos, fez algumas caretas, esboçou uns sorrisos, virou ligeiramente a cabeça para os lados e começou a falar:
-Vejo, em um passado distante...
E começou a enumerar todas as vidas passadas do pobre homem. Um samurai que foi punido por falta de lealdade, há muitos séculos atrás. Duas ou três vidas obscuras que ela não conseguia enxergar. Uma prostituta na França no começo do século dezenove, um escravo que foi executado porque tentou fugir três vezes, um servo num país islâmico que roubou e teve suas mãos amputadas pelo patrão. Essas eram algumas de suas vidas passadas. Ele queria, desesperadamente, que ela parasse. Aquilo era uma indignidade, ele não acreditava. Mas sabe como é o espírito humano, ele ficou impressionado. No final, ela explicou que tudo que havia acontecido nos últimos séculos era uma espécie de preparação, que agora sua vida estava para mudar, que o que estava passando tinha sido uma preparação, ele iria ganhar uma grande fortuna, abrir um grande negócio, tornar-se o homem mais rico da cidade. Ou por não acreditar nela, ou por estar muito deprimido, levantou-se e saiu. Na rua, pôs a mão no bolso e viu que tinha sobrado muito pouco dinheiro. Mal dava para um cachorro quente. Foi o que fez, comprou um. Sentou-se num banco da praça e comeu a seco pois o dinheiro não tinha sido suficiente para o refrigerante.
Enquanto comia – até que estava gostoso – não conseguia ver as lindas flores do canteiro, nem o sorriso das crianças que brincavam, nem o gingado da garota que passou. Na sua mente as imagens se confundiam. Uma prostituta com as mãos cortadas e  vestida de samurai  por exigência de algum cliente pervertido, jogada num canto escuro de uma rua de Paris. Certamente não acreditava naquele passado, muito menos num futuro milionário. Imagens, mesmo mentais, falam mais do que mil palavras, por isso elas ficavam dançando em sua mente. 
Por fim, terminou seu cachorro quente, pensou na vidente e falou um palavrão. Olhou bem para suas mãos, ficou feliz por elas ainda estarem no lugar e por ele ser apenas um desempregado do século vinte  e  um. Depois foi, resignado, curtir sua miséria na solidão do lar.

Thursday, February 20, 2014

Demônios do Alabama

Demônios do Alabama



Samuel estava sentado sobre a sela de um cavalo naquela manhã  longínqua de primavera. As pessoas à sua volta gritavam, excitadas, palavras de insulto, xingamentos e outras impropriedades. Ele mal entendia o que estava acontecendo, mas sabia que não era nada bom. Em volta de seu pescoço havia uma corda que, mais acima, estava amarrada ao galho de uma árvore. Era o começo do século 19 numa pequena cidade do interior do Alabama, nos Estados Unidos, e ele estava aguardando sua execução.
O povo tinha verdadeira obsessão por enforcamentos e é por isso que muita gente havia se juntado na pequena praça. O carrasco e mais as autoridades estavam aguardando a chegada de alguém importante para presidir o ato e o povo estava ficando impaciente. Queriam ver o espetáculo.
Samuel tinha retardamento mental e era uma espécie de vagabundo que vivia pelas ruas à procura de alimento. Seu rosto e seu corpo tinham deformidades acentuadas e não era, definitivamente, uma figura bonita de se ver. Ninguém escondia o alívio de ver aquele ser horrendo desaparecer da paisagem local. Alguns chegavam a falar até que ele era o próprio demônio em forma de gente.
Samuel, entretanto, não conseguia entender todo aquele alvoroço, toda aquela confusão. Estava com fome, isso sim, estava. Tinha passado três dias na cadeia local e mal lhe deram algum alimento.  Sua vida nunca tinha sido boa. Para dizer a verdade, sempre fora abaixo de miserável, mas há alguns dias atrás tinha se tornado ainda pior. Na tarde do sábado passado,ele estava tentando encontrar algo para matar a fome  na parte de trás de um bar, quando se deparou com um corpo no chão. Havia muito sangue saindo do peito do pobre homem. Tinha levado um tiro ou uma facada. Samuel se ajoelhara para vê-lo e verificar se ainda estava vivo. Assim que se abaixou, ouviu gritos de “assassino, assassino”. Não demorou muito para que o agarrassem e o levassem para a cadeia. Lembra-se vagamente de ter sido acusado do assassinato daquele homem e de ter sido condenado à morte. Era por isso que estava ali.
Ia ser rápido agora.
Tinha chegado quem faltava, as pessoas urravam. Era só o carrasco dar uma chicotada no cavalo que o mesmo iria para a frente e seu corpo cairia pesado, quebrando seu pescoço e tirando sua vida. O barulho era infernal. Suas mãos estavam atadas atrás por uma corda. No último minuto, tinha percebido que ela estava frouxa. Poderia facilmente libertar-se dela. Tinham feito um serviço grosseiro, porque estavam com pressa de acabar com ele e por saberem que ele era um pobre coitado que jamais reagiria.
A autoridade fez um sinal para o carrasco e esse levantou o chicote para açoitar o cavalo. Samuel instintivamente livrou suas mãos e levou-as acima de sua cabeça, agarrando-se na corda que pendia do galho da árvore. Com uma força que não sabia possuir, ato contínuo, deu um impulso no corpo, como se fosse um gato e subiu na árvore.
As pessoas, antes barulhentas, agora estavam mudas de pavor. Os palavrões foram substituídos por clamores a Deus e quase todos saíram correndo. Alguns permaneceram ali, petrificados. Lá de baixo dava para ver a figura de Samuel, de cócoras, escondido entre as folhas e os galhos. Começou, instintivamente, a uivar. Seu sentido de autopreservação deu-lhe forças descomunais. Seus gritos aumentaram e finalmente afugentaram o resto dos assistentes. Saíram fazendo o sinal da cruz, aterrorizados.Todos, incluindo as autoridades e o carrasco. Ele tinha se transformado no diabo, pelo menos para quem estava ali. Quando se sentiu seguro, Samuel desceu e penetrou na mata, que começava não muito longe dali.
A lenda ficou. A cidadezinha tentou enforcar o demônio e não conseguiu. Dali para a frente, nas noites escuras, muitos garantem que veem a figura do demo e ouvem seus uivos lancinantes.

Samuel, entretanto, era um anjo por dentro e ele, sim, tinha visto muitos demônios naquele dia. Estava agora longe, seguro, em outra cidade, em outro estado, mas a sua imagem ficou lá atrás, na perdida cidade do Alabama. Por décadas, desde o incidente, os habitantes tiveram de lidar com seus próprios demônios.

Sunday, February 16, 2014

Os tanques estão nas ruas




Os tanques estão nas ruas


Os padres tinham falado para  a gente que uma revolução estava começando. Os comunistas tinham chegado e nós precisávamos lutar. Nós, não, pois éramos crianças. Eles tinham tomado o governo, o povo brasileiro precisava lutar. Para nós, isolados no seminário, foi uma festa, sair assim, bem na época das aulas e ir para casa, passar uns dias. Certamente não achavam seguro ficarmos ali e sermos alvos fáceis dos perigosos e impiedosos vermelhos. A bandeira cor de sangue, com a foice e o martelo, tremia nos píncaros de nossa pátria.
O trem da Sorocabana ia veloz pelos trilhos, levando-nos em segurança, para o seio de nossas famílias em São Paulo. Vez ou outra, víamos pela janela, blindados e soldados. Chegando à capital, o movimento era maior. Havia militares armados nas ruas, havia veículos de guerra no asfalto.
Era 31 de março de 1964. Estava começando o golpe  militar. Eu, de guerra, só conhecia o velho armamento e pedaços de balas de canhão da revolução de 32, exibidos no pequeno museu de Lavrinhas, onde tinha frequentado o seminário há alguns anos atrás. Por isso, fiquei todo maravilhado com  o movimento. Por algum motivo não estava com medo dos socialistas. O que me deixava excitado era aquela movimentação toda. Algo diferente estava acontecendo. Adolescente gosta dessas coisas.
Em casa, ouvia o rádio. Havia dois tipos de estação. Algumas pertenciam à Rede da Legalidade, o pessoal do governo, outras pertenciam à Rede da Democracia, o pessoal que apoiava a derrubada de Jango Goulart. Por algum motivo, eu achava que os da legalidade tinham razão. Mas isso era opinião de moleque, que não entendia nada.
Devagar, tudo foi se acalmando, o governo caiu, o sangue não foi derramado. Acho que brasileiro não gosta de briga feia, de tiros de verdade. Sempre é possível apartar uma briga, deixar as coisas para lá. Foi isso o que fizemos. E a vida continuou, aparentemente calma, em nosso país.
A minha dolescência terminou e eu fui para a Universidade, alguns anos depois. Foi só aí, que descobri que a luta havia recomeçado.  Era, entretanto, uma luta diferente. Não havia canhões, nem tropas, nem soldados. A batalha era em outros campos. Havia os que podiam falar e os que não tinham esse direito. Havia a censura e os censurados. Havia os que puniam e  os que eram punidos. Havia aqueles que tinham as armas do governo e havia aqueles que assaltavam bancos para poderem comprar armas para lutar. A  guerra era à noite, às escondidas. A guerra era também de dia, nos porões. Os “soldados” presos, geralmente estudantes e jornalistas, eram torturados, queimados com pontas de cigarros, pendurados nos “paus de arara”. Alguns tinham agulhas enfiadas por baixo das unhas. Os médicos cuidavam deles para que não morressem. Precisavam ficar vivos, para sentir dor e poder confessar, delatar os companheiros. Se alguém morresse, precisavam de um médico para dizer que era suicídio.
Antes, quando vi os tanques nas ruas, não sabia que a revolução ia ser desse jeito. Se soubesse, talvez não tivesse achado bonito eles desfilarem nas ruas.  Até nisso o país foi o país do jeitinho. Fizeram uma guerra, mas foi uma guerra que não parecia guerra. Fizeram uma revolução, mas foi uma revolução de poucos. Quase ninguém foi convidado, e, sem convite, ninguém entrava, a não ser pela porta dos fundos.

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Wednesday, February 12, 2014

Dúvidas metafísicas

Dúvidas metafísicas



Como pode? Leio no jornal a notícia: “O monsenhor Nunzio Scarano, um ex-contador de alto escalão no Vaticano  julgado por evasão de divisas, foi também acusado de lavagem de dinheiro nesta terça-feira, 21, disseram autoridades policiais e seu advogado.
Li mais uma vez e era isso mesmo.  Sempre soube, desde a minha época de seminarista, que os padres devem fazer três votos: de pobreza, de castidade e de obediência. A obediência não sei como anda, mas a castidade, bem, todo mundo sabe o que tem acontecido nos últimos anos. A pobreza, sempre pensei, que não iria ser difícil, pois a mãe Igreja fornece tudo para eles, o tempo todo e, certamente, na velhice. E, de repente, me deparo com a notícia acima. O que faz um monsenhor tornar-se um “lavador de dinheiro”?  Evasão de divisas? De onde para onde? Do Vaticano para as Ilhas Cayman? Depois de aposentado, ele vai se aposentar num paraíso fiscal, para poder, livremente quebrar os dois outros votos?
Difícil entender o ser humano, muito difícil. Espero que o Papa Francisco dê um jeito nessa turma. Se eles querem os pecados do mundo, devem viver nele e não na Igreja.

Será que, quando o monsenhor fez os votos, ele cruzou os dedos para não valer? E aí vem minha dúvida metafísica: esses votos valeram ou não?  Ele vai para o inferno? Eu só sei que, por outro lado, muita gente pobre está vivendo no verdadeiro inferno da fome, da privação, e esse dinheiro todo desviado poderia “lavar” a alma deles, dos pobres. Quanto à alma do monsenhor, acho que não tem jeito, não dá mais para lavar. E o inferno, será que existe mesmo? Bom, se existir, ele tem vaga garantida lá, com assento marcado. Acho que o Satanás até já fez o crachá dele e tudo mais...

Tuesday, February 11, 2014

Pimenta nos olhos dos outros...

Pimenta nos olhos dos outros...


Quem não conhece o velho ditado “Pimenta nos olhos dos outros é refresco”? Por isso é que vou escrever com cuidado o que tenho em mente. O povo todo está reclamando do calor em algumas partes do país. Justo. Vamos entretanto, dar uma pensada nos que sentem frio. “Frio”, no caso em pauta é um eufemismo, pois trata-se de gelo puro, mesmo. As temperaturas na parte norte da terra do Tio Sam estão dando o que falar. Mas o problema não é só todo mundo ficar congelado. Junto com isso vem carros deslizando na pista, batendo, capotando. As redes elétricas caem por causa de tempestades e da neve, e o aquecimento desaparece. Muita gente tem de ir para abrigos onde há ar quente. Aulas suspensas (muitos até gostam!). Firmas fecham. E por aqui não existem tantas leis trabalhistas assim. Se você não trabalha, mesmo que não seja sua culpa, nada de grana. Carga parada, os bens não chegam onde têm de chegar. É um caos. O primeiro mundo torna-se, de repente, segundo e até terceiro...
Na costa oeste, uma seca desgraçada, não chove. Os preços dos alimentos sobem, tal qual num país que eu conheço. Para quem gosta de vinho, uma má notícia:  a produção de uvas na California está caindo por falta de água e o preço do delicioso líquido de Baco vai para as alturas, logo, logo. Além de outros desastres naturais, outros não tão naturais assim. Tiros continuam sendo disparados com assiduidade em escolas, shoppings e outros  lugares públicos. Existe até um pouco, relativamente muito pouco, do tradicional assalto à moda tupiniquim. O nosso estilo provavelmente tem direitos autorais garantidos e ninguém ousa copiar.
Todo mundo tem direito de reclamar. Na verdade, faz até bem para a alma. Adaptando, porém, o ditado acima, podemos dizer que “gelo na cabeça dos outros é refresco”.


Monday, February 10, 2014

Os gringos andaram “colando” na prova

Os gringos andaram “colando” na prova



Nada mais razoável do que os oficiais da Força Aérea Americana, aqueles que cuidam do lançamento de mísseis nucleares, terem de passar por um teste. Não existe nada de razoável no fato de ainda haver  esses tipos de arma, entretanto. Muito menos razoável é esses oficias “colarem” no exame que precisam fazer. Isso mesmo, cerca de 100 oficiais – aqueles que, no caso extremo de uma guerra nuclear, apertam os botões de lançamento – “colaram” ou tentaram, ao fazer suas provas de habilitação para a “nobre” função. Nem em filme de terror, ou naqueles de conspiração extrema, foi visto algo assim.
Agora, as autoridades estão investigando. Ufa, ainda bem. Espero que ninguém “cole” ao escrever os relatórios sobre o incidente. Aliás, fiquei surpreso – mas não deveria – de saber que pelo menos 100 oficiais são necessários para operar essas máquinas. Deve haver muitas delas, mais do que imaginamos. “Scary”, como dizem os americanos.

Estão vendo? Esse pessoal fica criticando o nosso querido país. Esse tipo de coisa nós não fazemos, nem mesmo em Brasília. Claro, devo confessar que nós nem sequer temos esse tipo de mísseis, pelo menos pelo que sei. Além disso, quem precisaria fazer testes para uma coisa dessas? Uma simples indicação política, sem burocracia, resolveria todo o problema. Eu não sei por que o pessoal por aqui complica tanto as coisas. Para que tantos testes? É só saber apertar uns botões e pronto...

Wednesday, February 5, 2014

Meu pequeno grande herói

Meu pequeno grande herói



Nesse mundo cheio de tantos vilões, é bom saber que há heróis de verdade. Mais ainda, há heróis que são crianças. Tyler Doohan, de apenas oito anos,  estava passando a noite com seus avós numa “mobile home” em Penfield, Nova Iorque. No mesmo veículo, estavam também outros parentes, alguns adultos e duas crianças, uma de seis e outra de quatro anos.

Eram 4:45 da madrugada quando o garoto acordou por causa de um cobertor que estava em chamas. Percebeu que era um incêndio. Acordou seis das pessoas e as fez sair da casa. Depois voltou, entre chamas e fumaça, para salvar sua avó e seu avô de 57 anos, Lewis Beach, que estava numa cadeira de rodas por ter tido sua perna amputada anteriormente. Seis pessoas se salvaram. Morreram um tio, o avô e o menino, que foi encontrado a pouca distância dele, num evidente esforço de resgatá-lo. Morreu tentando salvá-lo. Não teve medo da fumaça ou do fogo. Se esse garoto não é um herói, eu não sei quem é. Teria se tornado um homem extraordinário, se tivesse sobrevivido. Estamos em falta de heróis assim. Corrigindo, super-heróis assim.

Tuesday, February 4, 2014

Corações em pedaços

Corações em pedaços


Você precisava ver o ódio que aqueles dois espalhavam pelo ar. Pela porta aberta dava para ver e ouvir os dois discutindo. Apontava o dedo em riste para o marido, talvez namorado,  e o ameçava. Repetia incessantemente que era para ele sair imediatamente. Junto com a mensagem repetia também inúmeros palavrões, daqueles que não dá para a gente escrever. Tão horríveis eram os vocábulos que ela usava, que certamente não poderia voltar atrás.
Ele não deixava por menos. Chamava-a de epítetos que não se usam  para uma mulher. Chegou a empurrá-la de leve quando ela encostou o dedo em seu nariz. Nem chance havia de ser apenas uma visualização da canção  “Entre Tapas e Beijos” do sertanejo cantor, ou de ser uma cena de filme americano em que o casal, depois de quase se matar, acaba na cama. Não, senhor, aquilo era coisa feia.
Depois de esgotada a lista de insultos, ambos a repetiram mais uma vez. Depois ela começou a empurrá-lo para fora. Bateu a porta com força e continuou gritando. Ele também berrava, fazendo aquele conhecido sinal com o dedo. Ligou o carro e saiu cantando o pneu.
Fim de um amor que nunca existiu.

Eu lhe digo, com certeza, que às vezes, o amor é uma coisa feia, triste, horrenda, suja. Em verdade, em verdade, lhes digo: aquilo, então, não era amor, não senhor...