Tuesday, December 27, 2016

Sussurro

Sussurro



Estou sempre me apaixonando por palavras. Outro dia foi por “sussurro”. Tenho ou não razão? Ela é cheia de sons, de onomatopeias, de “esses”...Aliterações. Nem preciso pronunciá-la para sentir toda sua sensibilidade “sussurrando” nos meus ouvidos. Até suspiro. Aliás, acho até que ela é parente de “suspiro”, pelo menos foneticamente falando. Não sei se quando o sussurro, quero dizer, a palavra “sussurro”, foi criada, pensaram em todas essas considerações, em todas essas sensações. Se não pensaram, foi uma sensacional coincidência de sons.

Não sei se fica bem a gente ficar sentindo essas coisas por palavras que, afinal, não são pessoas. Não é só por seres vivos que devemos sentir afeição? Pensando bem, acho que essas danadinhas são mais vivas que muita gente. Causam emoção, comoção e até sensação.  Por isso, preciso sussurrar em seu ouvido, algo que descobri. Desconfio que “sussurro” tem coração e que,  até bate mais forte que o de muita gente que conheço...



=============

À procura de Lucas


Para adquirir este livro no Brasil 

Clique aqui  ( e-book: R$ 7,32 / impresso: R$ 27,47)

Para adquirir este livro nos Estados Unidos 

Sunday, December 25, 2016

Feitiço da Terra? Feitiço da Lua?


Feitiço da Terra? Feitiço da Lua?


Era uma grande procissão, uma linha interminável na estrada. Alguns, como bêbados, saíam às vezes do asfalto, depois voltavam.  Outros, monótonos, andavam em linha reta. Havia maltrapilhos, havia bem vestidos, havia luxo, havia miséria. Uns estavam cabisbaixos, outros pulavam com falsa alegria. Multidão insana, incoerente, dependente de líderes que não estavam lá. Uns falavam incompreensíveis palavras. Contavam contos sem fim e sem final e cantavam partes de cançōes que não se cantavam mais.
De onde vinha aquela turba, como tinha tudo começado? Dizem alguns que começou de quase nada, de alguns poucos, que, aos poucos foram aumentando. Foram ficando cada vez mais estranhos, cada vez mais sem sentido.  Havia quem dissesse que aquilo era o começo do fim do mundo. Havia quem dissesse que era uma nova seita, daquelas que sempre aparecem. Outros afirmavam que eram filhos de uma nova era, rejeitados e escravizados por vontade própria. Uns poucos garantiam que eram adoradores de máquinas divinas, que tinham chegado de outros mundos.
Cheguei mais perto. E vi que havia uma luz pálida em uma das mãos. E a palidez se espelhava nos olhos daqueles seres. E era mágico, estavam hipnotizados.
De repente, sem querer, sem saber, estava no meio deles. E a luz pálida veio também de minha mão e meus olhos ficaram enfeitiçados por ela. Só então percebei que era um pesadelo. Era, porém, um paradoxal pesadelo do qual não queria mais sair, ninguém queria sair.
E a fantástica procissão prosseguia, prosseguia por aquela estrada sem fim.
Talvez fosse uma estrada em círculo, mas ninguém queria saber. O que importava era a luz pálida das mãos. Era uma noite de luar e a luz pálida da Lua se confundia com a palidez da luz dos homens.

Feitiço da Terra? Feitiço da Lua?

==(((()))===


Lançamento no Clube de Autores:  Insólito

Para comprar no Brasil ( impresso ou e book) clique: 


Para comprar nos Estados Unidos clique

Saturday, December 24, 2016

As coisas de hoje em dia




As coisas de hoje em dia

O terrorista desalmado
O transeunte assustado
O idealista alienado
O jornal de um só lado
O presidente radicalizado
O politico depravado
O povo enganado
O racista descarado
O sermão alterado
O fiel logrado
O simples herdarão o reino dos céus?
Ou será que ele vai ter de ser comprado?

===(((()))===


Lançamento no Clube de Autores:  Insólito

Para comprar no Brasil ( impresso ou e book) clique: 


Para comprar nos Estados Unidos clique

Thursday, December 22, 2016

Grito da alma



Grito da alma

Brincando dentro de mim,
com alegria sem fim,
há um menino travesso.
Lá também há, um velhinho,
rabugento, ao avesso,
que, insistente, não para,
maçante, de reclamar.
Também há um jovem ousado,
só querendo inventar.
Confusão, só confusão...
De repente me irrito,
nervoso, dou um grito!
Suplico: Basta! Chega!
Chega de palhaçada!
É minha alma falando...
Os três param, atentam,
surpresos, assustados.
Logo depois, porém,
dão as costas, desligados,
e continuam a brincar
reclamar e ousar...


===(((()))===


Lançamento no Clube de Autores:  Insólito

Para comprar no Brasil ( impresso ou e book) clique: 


Para comprar nos Estados Unidos clique

Tuesday, December 20, 2016

Com o tempo, a memória começa a falhar


Com o tempo, a memória começa a falhar

A idade vem chegando e a memória vai indo embora pela outra porta. Não há o que fazer. Dizem que há exercícios para isso. Já tentei vários. O problema é que eu acabo me esquecendo de fazê-los. A explicação dos biólogos e neurólogos é que os neurônios, coitados, vão ficando cansados e acabam se esquecendo de fazer o que têm de fazer. A sinapse, que tem de dar aquele “pulinho” de um neurônio para outro, está quase se aposentando, e acaba caindo no meio do caminho. Melhor eu parar de falar bobagens científicas. Nunca fui bom nisso. Meu negócio é “humanas”, não que eu seja bom nisso, também. Arrisco um pouquinho, todo mundo precisa, de vez em quando, ousar.  Mas, voltando àquele assunto sobre o qual eu estava falando...

Do que é mesmo que eu estava falando?

<o><o><o><o><o><o>




Lançamento no Clube de Autores:  Insólito

Para comprar no Brasil ( impresso ou e book) clique: 


Para comprar nos Estados Unidos clique

Saturday, December 17, 2016

A Internet das coisas


A Internet das coisas

Os computadores falam,
os celulares conversam,
os softwares pensam,
roubam, ágeis, os hackers,
vence a tecnologia,
ninguém precisa mais de nós.
Os carros andam sozinhos,
os robôs fazem de tudo.
Tudo está automatizado,
nós viramos autômatos.
E nós, onde estamos nós?
Do lado de fora das máquinas,
tentando amá-las, servis...
Nós não podemos mais,
elas é que são, que podem.
Nós não somos mais nós,
não somos mais nada.
Não é mais a Internet da gente,
é a Internet das coisas.

==(((()))===


Lançamento no Clube de Autores:  Insólito

Para comprar no Brasil ( impresso ou e book) clique: 


Para comprar nos Estados Unidos clique


Tuesday, December 13, 2016

O oitavo dia



O oitavo dia
E havendo Deus acabado no dia sétimo
a obra que fizera,
descansou no sétimo dia
de toda a sua obra, que tinha feito.
Gênesis 2:2

No oitavo dia,
o homem assumiu o que Deus tinha criado.
E foi então que tudo começou.

E eu me vi, de repente, ali naquela rua sombria, toda cinza, andando e olhando para as vitrines. Não havia cor nas pessoas, não havia cor nas coisas. Não tinha pressa, nem sabia para onde ia. Não sabia meu nome, minha idade, minha profissão. Havia uma ausência mental. Os outros pareciam também estar na mesma situação em que eu estava. Autômatos, sombrios, sem rumo, perdidos na paisagem urbana.
Aos poucos, porém, uma casa e uma mulher apareceram em minha mente. Era para lá que eu ia. Estava indo sem saber onde era. Agora já sabia, estava voltando de algum lugar. E esse lugar era meu local de trabalho. Um trabalho que eu fazia sem saber o que era. Tinha uma profissão que não sabia onde tinha aprendido.
Cheguei em casa, abri a porta e entrei. A mulher, acho que era minha esposa, estava esperando com o jantar na mesa. Não havia cheiro, não havia sabor e ela não tinha nome. Sentamo-nos, comemos a comida insípida, ficamos em silêncio e logo a seguir fomos dormir.
Não houve sonhos. Nem bons, nem pesadelos. Foi meu primeiro dia.
No dia seguinte, acordei e saí. Andei dois quarteirões, tomei um ônibus e depois de quarenta minutos, desci. Era o meu local de trabalho. Entrei e comecei a trabalhar. Ninguém falou comigo, nem eu falei com ninguém. Nesse segundo dia, porém, já havia cor. Era esmaecida, muito fraca, mas, definitivamente, a paisagem estava colorida. Senti, pela primeira vez, um pouco de cheiro. Agora as pessoas já falavam, embora eu não as ouvisse.  O trabalho terminou e peguei o ônibus de volta. Desci e comecei a andar de volta para casa. As pessoas tinham cor e as coisas também. Quase total, mas ainda faltava um pouco. Em casa, minha esposa me recebeu com um ligeiro sorriso. Ela me esperava para jantar. Falou algumas coisas, mas as palavras não saíram de sua boca. Acho que ela sentia as coisas como eu, ou seja, não sentia as coisas. Nesse segundo dia, vimos um pouco de tevê. As histórias não faziam sentido, as personagens de uma história apareciam em outra e os comerciais rodavam de trás para frente. Ela se levantou e eu também. A televisão se desligou sozinha. Acho que ela falou boa noite. Ela, a televisão. Não respondi, pois sabia que aparelhos não fazem essas coisas. Dormi sem sonhar e acordei para o terceiro dia.
Logo ao sair de casa, percebi que havia vários sons nas ruas. Eles estavam misturados. Havia sons de perto e sons que pareciam vir de muito, muito, longe. Havia pedaços de músicas, conversas, gritinhos, sorrisos e gargalhadas. Todas misturadas, porém. Misturadas e interrompidas. Algumas pessoas me olhavam. Umas pareciam surpresas, outras nem tanto. Andei, tomei o ônibus e desci. Entrei no prédio onde trabalhava. Ainda não me lembrava onde aprendera meu ofício, nem quando. Não sabia meu nome, mas sabia que tinha um. Quando abri a porta, vi que tudo estava modificado. Era um salão enorme, com dezenas e dezenas de cadeiras, colocadas em círculo. Quase todas estavam ocupadas. Uma, uma só, parecia transparente. Era a minha. Algumas pessoas conversavam, outras não. Algumas tinham cor, outras eram de cor cinza. Ninguém parecia se importar. Eu também não me importava. Começaram a chamar nomes. Cada um que era chamado, se levantava, caminhava até uma porta de vidro. Esta se abria automaticamente e a pessoa entrava. E foram chamando. Não conhecia aqueles nomes, não conhecia aquelas pessoas.  Em determinado momento, chamaram um nome e ninguém se levantou. Chamaram de novo e nada. Notei, então, que todos olhavam para mim. Era meu nome, percebi. Levantei-me e fui até a porta de vidro. Não me lembrava do nome que tinham chamado. Perdi a chance de saber meu nome.
Do outro lado da mesa, um senhor de chapéu preto, bigodes grandes e óculos redondos, olhava sério para mim. Depois começou a falar, falar. Mas sua voz não saía. Ou eu não escutava. Começou a perder a paciência comigo. Colocou os papéis de lado, olhou bem para mim e perguntou algo. Como eu não estava ouvindo nada, não sabia o que estava perguntando. Desconfio que queria saber meu nome. Quando eu tentava ler seus lábios, a visão ficava confusa e eu me perdia. Depois de algum tempo, alguém veio por trás, bateu no meu ombro e fez sinal para eu sair. Foi bom, porque o homem estava realmente nervoso. Fiz tudo igual, tudo de novo. Chegando em casa, a minha mulher abriu a porta, antes mesmo de eu tentar. Acho que ela estava me esperando. Ela não precisou falar nada, percebi que estava triste e decepcionada. Tinha a ver com o fato de eu não conseguir responder às perguntas do homem de bigode. Isso eu sabia. Depois nos deitamos. Na cama, ela se aproximou de mim. Acho que queria alguma coisa. Talvez quisesse que eu a tocasse. Achei que seria perigoso. Fiquei quieto. O terceiro dia estava para terminar.
 Logo a seguir dormimos para acordarmos no quarto dia. No meio de tanta confusão, não sei por que eu continuava a contar os dias. Acho que era importante. Acho que havia algum prazo. Não tinha certeza, mas acho que havia.
O quarto dia foi rápido. Não havia a grande sala, não havia pessoas sentadas. Todo mundo perto de mim estava trabalhando. Era dia de trabalho duro. Ninguém falava. O homem de bigode não estava lá. Acho que ele só vinha quando havia a grande sala de reuniões e no quarto dia não havia sala de reuniões. Talvez porque fosse dia par. Será que ele só vinha em dias ímpares? Isso não fazia sentido nenhum. Nem para mim. O quarto dia acabou sem surpresas. As pessoas na rua, no meu caminho de volta para casa, estavam cinzas naquele dia. Só um casal, sentado na calçada, tinha cores. Eles estavam se beijando. Quando cheguei em casa, minha mulher também estava colorida. Mas só ela, as coisas dentro da casa eram de cor cinza. Ela estava sorridente. Ela não falou nada, mas eu sabia que era porque, no dia seguinte, o homem de bigode estaria lá. Ela estava achando que eu ia me sair bem. Que ia conseguir dar as respostas. Que ideia, isso não fazia sentido nenhum. Nós fomos para a cama e dormimos logo. O quarto dia estava acabando.
Durante a noite, sonhei uns sonhos bons. Com ela, a minha mulher. Acho que coisas aconteceram, mas eu não tenho certeza. De manhã, ela estava bem feliz. Acho que, definitivamente, algo aconteceu. E ela estava mais colorida do que nunca. Cores exuberantes. Eu tinha certeza de que alguma coisa tinha acontecido durante meu sonho. Foi com esses pensamentos que comecei o meu quinto dia. Antes de descer do ônibus, eu já sabia. Aquele dia era dia do homem de bigode. Eu achava que naquele dia eu ia dar certo. Estava prestando atenção. Estávamos todos sentados, esperando a chamada começar. Falaram o primeiro nome, ninguém se levantou e todo mundo estava olhando para mim. Não tive dúvidas, dei um pulo da cadeira. E todo mundo, que antes estava cinza, de repente ficou colorido. Foi só eu me levantar. Achei que aquilo era poder. Podia enfrentar o homem de bigode. E de chapéu. Entrei.
Foi o maior susto. O homem estava com um chapéu vermelho, cor de sangue. Doido. O bigode tinha ficado ruivo. Acho que ele fez aquilo para me assustar, para me testar. Funcionou. Saí correndo, não olhei para ninguém na sala e fui pegar o ônibus de volta para casa. Nem me lembrei de olhar se as pessoas estavam cinzas ou coloridas. Estava envergonhado de meu susto, estava assustado com minha vergonha. A mulher minha, cujo nome nunca soube, ela estava chorando. Soluçava e eu conseguia escutar e entender seus soluços. Eram todos por mim. Cem por cento. Ela sabia que eu tinha falhado. Foi então que descobri o que era óbvio. O homem de bigode era muito importante. Tudo dependia dele. Quem mandou ele mudar de chapéu? Ou será que era o mesmo chapéu, molhado de sangue? Nunca vou saber. Nessa noite, fim do quinto dia, até eu conseguir dormir, minha mulher, acho que era minha, não parou de chorar. Ela nem tentou me tocar. Nem na vigília, nem nos sonhos.
Acho que era o sexto dia, estava começando a perder as contas. Mas só podia ser o sexto, porque um dia antes, tinha sido o quinto, e o sexto vem depois dele. Sempre foi assim. Era dia de trabalho, eu tinha certeza. Trabalho duro. Na fábrica, estava todo mundo colorido, havia uma vibração no ar. Sentia cheiros, sentia brisa, sentia calor, sentia tudo. Ninguém falou nada, entretanto. Eu, de qualquer forma, não iria entender, pois não conseguia ouvir nada. Saí no horário certo, peguei o ônibus e desci perto de casa. Só depois que desci, que reparei que o ônibus estava sem motorista. Coisa louca! Como ele conseguiu chegar? Se pudesse falar, eu perguntaria para minha mulher. Quando cheguei, já quase à noite, ela estava me esperando fora de casa, linda, vestindo um maravilhoso vestido azul. Tinha pintado os cabelos de loiro e havia desejo em seu olhar. Em seu corpo também, podia garantir. Nem sei como ela podia ter preparado comida tão gostosa. Uma comida divina. Jantei gostoso. E ela me serviu vinho. O vinho, além de ser vinho, tinha um gosto gostoso de uva.  Bebi muito, ela não parava de servir. Fiquei tonto. Só me lembro de ela me beijar, ali mesmo, na sala. Depois, tudo apagou. Acho que foi assim o fim do sexto dia, provavelmente uma sexta-feira. Certeza ninguém tinha, muito menos eu.
Acordei, no dia seguinte, na minha cama. Era o sétimo dia, com certeza. Mesmo que não fosse. Estava atrasado, saí correndo para a fábrica. Desta vez havia motorista. Por trás, curiosamente, ele se parecia com o homem de bigode. Na hora de descer, dei uma olhada, mas ele não tinha bigode.  Fora isso e o chapéu, bem que ele podia ser o homem lá de dentro. Era o sétimo dia, como eu disse, e isso era importante. Não podia falhar.
Entrei na sala, todas as cadeiras estavam vazias. Sentei-me numa delas. Uma espécie de ajudante me apontou uma outra cadeira, pois aquela não era minha. Obedeci. Não fazia sentido, porém, uma vez que todas estavam desocupadas. Quis falar algo, mas desisti. Ele não iria entender e, mais importante, minha voz não iria sair. Chamaram o primeiro nome, nem prestei atenção e já fui me levantando. Coisa lógica, só eu estava lá. Erro. Era o nome de outro alguém. Chamaram mais de vinte nomes até chegar o meu. Se eu não estivesse tão assustado, poderia ter aprendido meu nome. O ajudante teve que me avisar que era minha vez. Eu cheguei a me lembrar do nome, mas, logo a seguir, me esqueci de novo. Entrei.
Aquele homem era mesmo cheio de surpresas. Estava lá, sem chapéu, sem bigode. Foi então que percebi que ele e o motorista eram a mesma pessoa. Isso me deixou agitado de novo. Olhei pela janela e vi que o ônibus estava estacionado no pátio da fábrica. Isso sim, fazia sentido. De todas as coisas até agora, esta era a que mais fazia sentido. Se minha voz saísse, eu poderia contar isso para minha mulher. Eu havia me sentado e dessa vez conseguia entender o que ele estava falando. Muito bem.
Ele me perguntava qual era meu nome, qual era minha profissão. Eu entendia o que ele falava, mas não adiantava nada, pois não sabia a resposta. Ele falou que ia me dar sete chances e sete vezes me fez a mesma pergunta. Pura coincidência, mas era o mesmo número de dias que eu estava vivendo por ali. Uma chance para cada dia.  Ele me perguntou pela sétima vez e eu não pude responder. Com tantas chances que tive de saber meu nome, em nenhuma delas consegui aprender. Parece mentira, mas era a pura verdade. Parecia um pesadelo. É verdade que eu também não sabia minha profissão, embora tivesse trabalhado ali na fábrica durante vários dias. Teria sido fácil se eu tivesse perguntado para alguém do meu lado, o que eu estava fazendo. O que a pessoa dissesse, seria minha profissão. Enfim, não sabia nenhuma das duas respostas. Ele fez um gesto de enfado e apontou a porta. Fui saindo e fui pensando no choro da minha mulher quando chegasse. Ia ser triste. Na volta, o motorista era um índio e me deixou fora do ponto. Tive que andar mais. E foi triste, pois tudo estava cinza como no primeiro dia. Talvez ainda fosse mesmo o primeiro dia e eu tivesse sonhado os outros seis. Não sei. Tudo estava sem cor. Era tão parecido que acho mesmo que era o primeiro dia de novo. Quando cheguei em casa, tive certeza. Aquele era o primeiro dia, de novo. A mulher estava do mesmo jeito, tudo igual. E eu já sabia que iria ter de passar pelos sete dias, mais uma vez. Ela está cansada da repetição. Coitada. Acho que ela quer me ajudar, mas não pode. Está presa, como eu, nesses sete dias. E esses são meus sete dias e não dela. Mas acabam se tornando os dias dela também.
Penso, às vezes, que existe uma explicação para tudo isso. Deve haver. Deve haver uma conexão entre os dias, entre as cores, entre as pessoas. Eu só não acho justo eu não saber meu próprio nome. Outra coisa bastante injusta é minhas palavras não saírem. Elas saem na minha cabeça, mas não saem da minha boca. Não se articulam. Injusto também é o fato da mulher ter de ficar esperando em casa, meus sete dias se passarem. Que culpa ela tem?  Será que ela, pelo menos, sabe meu nome?
Eu só contei esta história para ver se você pode me ajudar. Eu nem sou de contar histórias, como acabei de dizer, fiz isso por pura necessidade. Você consegue entender o que está acontecendo? Eu estou completamente perdido. Você sabe meu nome?  Minha profissão? Por que as coisas não estão dando certo? Se souber, por favor, me responda! Estou precisando de ajuda, muita ajuda.
Talvez você possa me salvar, mesmo não sabendo meu nome, mesmo não sabendo quem eu sou. Eu só não posso ficar repetindo os meus sete dias.  Você, que lê esta história, tudo o que você precisa fazer, é me levar para o oitavo dia. Você pode? Você pode fazer isto por mim? Agora só tenho um objetivo, o oitavo dia. O oitavo dia é o segredo de tudo. Depois disso, as coisas vão andar, tudo vai dar certo. O meu nome eu não sei, mas isso eu sei, e é tudo que sei.



==(((()))===


Lançamento no Clube de Autores:  Insólito

Para comprar no Brasil ( impresso ou e book) clique: 


Para comprar nos Estados Unidos clique



Monday, December 12, 2016

Flor selvagem




Flor selvagem



A flor selvagem é de um amarelo forte com uns tons de vermelho. Distingue-se no meio das folhas verdes. Um raio de sol, esguio, escapa por entre as as copas das árvores e atinge em cheio suas pétalas. O amarelho brilha e o vermelho, forte, quase escorre por suas entranhas. Uma beleza agressiva no meio da paz da pequena floresta. Perto, um pássaro de peito igualmente fulvo vem pairando e pousa num galho próximo. Talvez tenha sido atraído pela beleza da flor. Talvez, por uns segundos,  tenha pensado que fosse um dos seus. Vistos de baixo, os dois se confundem, dois pontos coloridos agredindo o verde escuro.
Não muito longe dali, já na cidade, um rapaz sai para trabalhar. É madrugada, caminha rápido pelas ruas para não se atrasar. Como a ave, tem amarelo em seu peito: a camisa nova que a namorada lhe deu de presente. De repente, alguém surge à sua frente, quer sua carteira e seu relógio. Não pode, precisa daquele dinheiro, não quer perder a hora também. Ouve-se o tiro.
Uma mancha rubra aparece no louro do tecido. Bem no peito. Como no flor. Por trás do edifício, um traço de luz surge e ilumina a cena cruel. Só o pássaro não vem. Mas, como na floresta, visto do alto, é apenas um ponto colorido no meio do chão escuro.




=============

À procura de Lucas


Para adquirir este livro no Brasil 

Clique aqui  ( e-book: R$ 7,32 / impresso: R$ 27,47)

Para adquirir este livro nos Estados Unidos 

Saturday, December 10, 2016

O jugo das conjugações


O jugo das conjugações



A vida é bem  parecida com uma conjugação verbal. Todos sabemos que o Pretérito Perfeito indica alguma ação que já está completamente terminada, resolvida, definida.  Parece, entretanto, que nada é perfeito, e tudo que fizemos – principalmente de errado – continua a atormentar nossas vidas. Já o Pretérito Imperfeito é mais adequado. Segundo a gramática, descreve fatos passados não concluídos, por isso mesmo, imperfeitos. Não é assim que acontece? Sempre existe na vida da gente algo que ainda precisa ser resolvido. Já o tempo presente é o mais enganoso de todos. A gente fica esperando e, quando percebe, já aconteceu. E isso é um contínuo presente. Além disso, não é nada do que a gente esperava. Por isso temos de botar a esperança no Futuro do Presente. Esperando que nossas esperanças se realizem, de preferência num futuro próximo. Mas que nada, é só desilusão. Este tempo verbal acaba virando Futuro do Pretérito: poderia, ganharia, venceria, etc... Acho que é por isso que, antigamente, ele se chamava “condicional”, pois sempre há uma “condição”, geralmente impossível, para que ele aconteça. Não é fácil. E tudo isso que descrevi ainda é no modo indicativo, que, supostamente, deveria ser mais real, mais preciso. Como se não bastasse, ainda existe o modo subjuntivo. As frases desse tipo, indecisas, marotas, começam sempre com “talvez”, “se”, “quando”, “mesmo que” e vai por aí afora. Se eu ganhasse na loteria, mesmo que eu arrume um bom emprego, talvez ela diga “sim”... Talvez, talvez... Aparentemente, por todo o infinitivo, quero dizer “infinito”, temos de viver sob o jugo das conjugações. E tanto faz se o Infinitivo é Pessoal ou Impessoal... Eu ainda ia falar sobre os verbos irregulares, mas daí pensei: é demais! Você não acha?

==(((()))===


Lançamento no Clube de Autores:  Insólito

Para comprar no Brasil ( impresso ou e book) clique: 


Para comprar nos Estados Unidos clique