Thursday, June 22, 2017

Um pedaço do céu, um ateu e a Dona Zulmira


Um pedaço do céu, um ateu e a Dona Zulmira











Quem colocaria numa cidade o nome de “Pedaço do Céu”? Pois bem, entre tantos nomes estranhos, pelo menos esse era auspicioso. Diria, até, apropriado.  Por ser pequena, muito pequena, talvez devesse ser “pedacinho”, mas aí entrou um pouquinho de vaidade e o diminutivo ficou de lado.  Não sei se por causa do destino, ou de fatores sociológicos, ou até mesmo antroplógicos, o fato é que o nome tinha tudo a ver. Não havia em toda a cidade, uma só pessoa que não frequentasse a igreja. Além do Centro Espírita, que certamente deve ser contado, havia pelo menos mais quatro igrejas com sede e tudo mais. O Centro ainda não tinha um templo, tudo era feito na casa do “seu” Joseval. O homem tinha mesmo aquele olhar distante e calmo, de quem sabe o que há no porvir. De quem conhece o outro lado da existência.
 Embora não houvesse grandes contendas metafísicas, vez ou outra, uma contenda filosófica ou teológica, aumentava um pouco a tensão. Fora isso, era um harmonia só. Até o horário oficial dos cultos, da missa e da sessão espírita, era sincronizado. Ninguém, acho, queria ser pego de surpresa  por um concorrente de fé.
Foi por isso que, quando o professor Carlos chegou, a população ficou meio desconfiada. Aquele homem calmo, cheio de paz, e certamente  muita sabedoria, seria uma aquisição e tanto para qualquer rebanho. Para frustração de todos, logo ficou-se sabendo – o que não se sabe em um lugar tão pequeno? – que o professor não tinha religião nenhuma. Era ateu.  O vigário – não se sabe por quê – achou melhor chamá-lo de agnóstico. Não deu muitas explicações para o palavreado estranho. Espero que eu não seja excomungado por isso dizer, mas acho que ele estava com segundas intenções. Aquela palavra parecia mais pesada e certamente os seus fieis ficariam com mais medo.
O fato é que o homem era muito inteligente e culto.  Certamente ninguém queria entrar em um debate com ele, embora sua simplicidade e modéstia fossem  óbvias. Passado algum tempo, as pessoas foram se acostumando com o fato de que um “agnóstico” não é um bicho-papão. Quase todos. A Dona Zulmira e suas comadres, que ficaram muito impressionadas com a inusitada alcunha, resolveram continuar sua campanha. Aquela era um pessoa perigosa, ainda mais ensinando nossas crianças. O que se pode esperar de alguém que não acredita em Deus? Pior mesmo foi quando ela começou a falar que o demônio tem muitos truques. Às vezes veste uma máscara de bondade, de fraternidade, de paz e até de sabedoria. E aí é que estava o perigo. A maior parte das pessoas não levava isso a sério, mas, lá no fundo, muitos, inclusive seus alunos, passaram a olhar para o rosto do professor de um jeito diferente. Começaram a ver, escondido atrás daquela face sadia e honesta, o rosto do tinhoso. É uma coisa do inconsciente. Claro, ninguém tinha certeza. Alguns, porém, até tinham medo.  Essas coisas são assim, pessoas fanáticas podem destruir o mundo.
O professor Carlos, com muito jeito e paciência, foi levando sua vida. Era até bom não ter muita interação com algumas pessoas. Podia ter seu “retiro”, podia observar a natureza, ele gostava muito disso. Dava passeios longos, às vezes a pé, às vezes de bicicleta. O lugar para o qual ele mais gostava de ir, era, ironicamente, o “Monte do Santo”. Uma pequena elevação, de onde se podia ver a pequena cidade, o “pedaço de céu” , se espelhando pela paisagem. Ao redor, três estradas que ligavam aquela pequena população com o resto do mundo. O pôr de sol e o amanhecer eram, desculpem o jogo de palavras, divinos, visto dali.
Era um domingo ao anoitecer. O professor tinha acabado de subir o pequeno monte, que, aliás, era praticamente na beira da cidade. Admirava o final do dia. O sol ainda podia ser visto lá do outro lado, mas sombras já se espalhavam pelas casas, pelos pequenos prédios. A cidade não era muito iluminada e, por isso, cinco lugares se destacavam por ter um pouco mais de luz. Havia a luz da igreja católica, a luz de uma igreja protestante tradicional, a luz de duas igrejas avivadas e, finalmente, a luz do Centro Espírita. Se Carlos resolvesse se converter, não seria pela força da luz que vinha das congregações. Ali, do alto do morro, todas pareciam fracas e iguais. Era, no entanto, uma paisagem bonita. Ele estava satisfeito. De repente, porém, viu uma luz nova, diferente, que, depois de começar pequena, começou a aumentar. Se ele tivesse um só poquinho de fé, poderia ver aí um milagre, um sinal divino. Mais uma nova religião, dessa vez, a certa. Mas aquele seu pensamento científico não deixava margem para imaginação. Em poucos minutos tirou uma conclusão lógica. Um incêndio estava começando. Ele sabia que ninguém viria socorrer, ajudar. Estavam todos bem no meio das orações, dos pedidos. Sabia que estava sozinho na empreitada. Pegou a bicicleta, desceu como um raio pela ladeira, aproveitou o impulso e “voou” pela rua deserta. Era uma casa de esquina, e, pasmem vocês, era a casa da Dona Zulmira. O mestre sabia que ele não conseguiria combater o incêndio, pois não havia mangueiras, nem água suficiente, nem nada. Raciocinou, porém, que, embora fosse improvável, poderia haver alguém lá dentro. Deu um pontapé na porta e entrou correndo, gritando. Foi aí que ouviu o choro de um garoto. Era o  Mindinho, neto da Dona Zulmira, de oito anos. Não tinha se sentido bem, a avó o havia deixado em casa, na cama. Carlos pegou o menino nos braços e correu para fora. Foi até o vizinho, abriu a torneira do jardim e umedeceu o corpo do garoto, Ele estava com algumas pequenas queimaduras, mas estava salvo. Ficou com o garoto no colo, olhando para o fogo que punha um vermelho sinistro nas faces dos dois. Dali a pouco escutou carros buzinando. Vários. Começaram a estacionar. Várias pessoas correram em direção à casa. Mas daí todos paravam, duas paredes já tinham caído e o telhado pendia quase até chão na direção delas. Era uma  fogueira só. Foi aí que ele ouviu os gritos desesperados da Dona Zulmira. Ela havia acabado de chegar e estava enlouquecida, gritando com todos os pulmões:
Meu netinho, meu netinho! Alguém socorre meu Mindinho!
Alguém veio junto a ela e segurou-a pelo braço. Era óbvio, nada podia ser feito.
Enquanto isso, o professor ateu foi andando apressadamente, no meio das pessoas, em direção a ela. Bateu em seu ombro, dizendo:
 -Dona Zulmira, seu neto está aqui. Ele está bem, só tem umas queimadurinhas.
O alívio que aquela mulher sentiu não está em lugar nenhum da Bíblia e em nenhum outro livro qualquer. Com o neto em seus braços, olhou então para o rosto vermelho – pelo reflexo do fogo – do professor. Em circunstâncias normais, seria um sinistro rosto do diabo, ardendo com o fogo do inferno. Mas o que ela viu, foi outra coisa. Um anjo, bonito, cheio de luz, uma luz branca que alumiava toda a cidade. Foi o único anjo de verdade que ela viu em toda a sua vida. E daí ela entendeu por que o professor não tinha religião. Ele não precisava, ele tinha vindo direto do céu. Tinha vindo para salvar o seu netinho.


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Monday, June 19, 2017

O grande show


O grande show

Perpétuas estrelas e cometas dançando vertiginosamente na infinita coreografia do céu. Infindáveis energias cósmicas que se renovam, interagem e se multiplicam. Fantástica harmonia coordenando a brutal força interestelar com o ruflar insensível e silencioso da borboleta. Uma sabedoria imensurável que não precisa se expressar, pois já é a própria expressão. Irreverente ameaça à nossa lógica rudimentar, manifestação da absoluta inteligência. Beleza irracional, inexplicável, absurda, incomparável.

E nós, aqui, observando. Impotentes, insignificantes, irrisórios, ínfimos. Esperando os segundos, os minutos, as horas e os dias passarem. Torcendo para que esses se transformem em meses, em longos anos, antes de nossa hora chegar. Aí, então, nosso ingresso para o tremendo espetáculo vai expirar. Só para nós, pois o show universal vai continuar...

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Thursday, June 15, 2017

Você está fazendo alguma arte?


Você está fazendo alguma arte?

Quando eu era garoto e sumia por algum tempo, minha mãe me chamava perguntando se eu estava fazendo alguma “arte”. Fiquei com aquilo na cabeça. O que será exatamente que ela queria dizer? Claro que ela  queria saber se eu estava fazendo algo errado, alguma travessura. Fui crescendo e, felizmente, amadurecendo. Junto, o conceito de “arte”  também foi. O que eu fazia, escrevia, via... seria arte? Durante muito tempo não conseguia entender porque ela - e todas as outras – usavam esta palavra para as coisas que eu não deveria fazer. Finalmente, quando comecei a escrever  mais regularmente e a pergunta “será arte?” passou a ser frequente, entendi o significado escondido na expressão. Ousar. Obviamente éramos pequenos e nossos pais certamente não queriam que “ousássemos”, que fizéssemos “arte”. Adultos, conscientes, agora podemos “ousar” em nossas criações,  em nossos escritos. Sim, é isso, fazer arte é “ousar” com as cores, com os sons, com as palavras...

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Tuesday, June 13, 2017

Um minúsculo grão




Um minúsculo grão

O fulano estava com uma raiva incontida, ódio mesmo, do beltrano. O sicrano tinha lhe contado  como o beltrano o considerava - em suas próprias palavras - um ser insignificante, besta, simplório. O fulano queria matar o beltrano por expressar tais ofensas, e até mesmo o sicrano, só de lhe contar.

Como era tarde da noite, deixou para o dia seguinte a confrontação. Eles iriam ver só o que era bom para a tosse. Antes de dormir, deu uma olhada para o céu. E viu aquela imensidão de estrelas, galáxias e sei lá mais o quê. E ele já tinha lido que o nosso mundo é apenas um grãozinho de areia, pairando, perdido na vastidão do cosmos. Pensou consigo: ele mesmo era um outro grãozinho dentro do grãozinho. E o beltrano e o sicrano eram grãozinhos menores que ele ainda. Deu um suspiro e decidiu deixar tudo como estava. Não seria algo ridículo três minúsculos grãos se debatendo, dentro de um outro grão, num ponto perdido da vasta paisagem do Universo?

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Sunday, June 11, 2017

O oposto do oposto


O oposto do oposto

Estamos sempre reclamando que nós, brasileiros, não gostamos de regras, da ordem, da lei. Que quase todo mundo “dá um jeito” de passar por cima dela, coitada. Reclamamos também das consequências disso. Percebemos que nós mesmos somos os mais prejudicados. E, por não haver outro jeito, pelo fato de isso ser quase o normal, mesmo quem não gosta de ser assim, precisa fazê-lo. É a estrutura.
Os americanos gostam de seguir as normas. Quem não gosta, geralmente já vai com tudo para o outro lado, para o extremo. E novas regras estão sempre surgindo. E, às vezes, elas produzem estranhos eventos.
Aconteceu na cidade de Fort Lauderdale, na Flórida. Aliás, muita coisa acontece na Flórida, que não é feita só de Mickey Mouse e lindas fadas e princesas. Os legisladores estabeleceram uma regra que visava manter a cidade limpa, bonita. Proibiram os cidadãos de alimentar pessoas sem-teto na cidade. Talvez fosse uma cena deprimente, não sei.
Dwayne Black, Mark Sims, pastores, e mais Arnold Abbott, de 90 anos, resolveram “burlar” as normas. Abbot, que, apesar da idade, sempre vai ao socorro dos necessitados, estendeu um prato de comida para um mendigo. O policial imediatamente ordenou que ele soltasse o prato, como se fosse uma arma. A penalidade para a infração é de 500 dólares mais 60 dias de prisão. Abbot vai tentar ganhar esse direito- o de alimentar os famintos- no tribunal.
E assim temos, excesso de norma, perfeita aplicação da lei, por mais cruel que seja. Nós, por outro lado...
Difícil de entender. É o oposto do oposto.



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Essa vida da gente

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Friday, June 9, 2017

Lágrimas Roubadas

Lágrimas Roubadas

O brasileiro não é conhecido pelo patriotismo ou coisas afins. Muitas vezes olha os fatos que estão acontecendo na própria terra como se fosse uma coisa distante, alheia, estrangeira. Talvez  os historiadores ou os psicólogos de massas tenham uma boa explicação para isso. No entanto, não deixa de ser triste. Por isso é que chamou muita atenção o que aconteceu em 16 de abril de 1984 na Cidade de São Paulo. Um milhão e meio de pessoas se reuniram no Vale do Anhangabaú para exigir a volta da democracia - coitada, tão sofrida- e das Diretas Já. Eu estava lá. O que aconteceu naquele dia, tenho certeza, foi coisa única na história do Brasil. Foi a nossa maior manifestação política em todos os tempos. Entretanto, não foi isso que chamou mais a atenção, não foi isso o mais importante. O que fez desse momento um evento único foram as lágrimas. As pessoas choraram. Todos choravam: os velhos, os adultos, as crianças, os jovens. Ninguém procurava esconder. Lágrimas sinceras, puras, limpas. Nunca o povo amou tanto a sua pátria como naquelas horas. O hino nacional era cantado com uma força que eu jamais havia visto antes. Patriotismo como aquele nunca houve antes nem depois. Naquele momento faríamos qualquer coisa pela pátria.
Conseguimos algumas coisas. As eleições diretas foram indiretas, mas mesmo assim conseguimos eleger o nosso Tancredo, que por uma manobra inexplicável de Deus – ele sabe o que faz – acabou morrendo antes de governar. Mais triste que a morte prematura de nosso herói foi o que fizeram com nossas lágrimas. Alguns aventureiros, políticos maliciosos e traidores, as roubaram . Com elas construíram uma democracia falsa, cheia de malabarismos, onde os espertos se aproveitam do esforço de todos. Insensíveis, usaram nossas lágrimas sinceras e sua força para fazerem as mudanças que não eram as nossas. Era o que precisavam para tomar o poder. Usaram a força de nosso choro para criar um reino de corrupção, malícia, favoritismo e tudo aquilo que se pode ver nos jornais. Coitado do nosso povo. Nossas lágrimas foram em vão. Roubaram nossas lágrimas.



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Tuesday, June 6, 2017

Os sonhos do meu sono


Os sonhos do meu sono

Pela manhã, acordo,
junto todos meus sonhos,
e começo o dia.
Com o passar das horas,
as lidas da dura vida,
para meu desespero,
vão destruindo um a um.
À noite, tão cansado,
meu corpo então morre
para a realidade,
Mas minha alma, ativa,
fiel, laboriosa,
durante todo sono,
novos sonhos constrói.
São frescos novos sonhos,
para então, eu poder,
na seguinte manhã,
com eles, tão feliz,
novos sonhos sonhar...

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Sunday, June 4, 2017

As criaturas


As criaturas

Estão matando os monstros que aparecem. Eles são muitos, porém, e continuam a aparecer. Não se sabe de onde vêm. São heróis reversos, de causas sem sentido, de razões sem razão. O homem, perplexo, agora já tem medo de seu próprio reflexo. Reflete, busca causas e motivos. Sua lógica, entretanto, não é a mesma. São referências diversas que se desencontram e se afastam. Para cada demônio morto, outros, multiplicados, vão surgindo, mais ferozes. Às vezes fingem brigar entre si para nos distrair. Outras vezes se juntam em trágica aliança, para nosso desespero.
Às vezes, acho que sei quem criou estas nefastas criaturas, outras vezes, acho que não. Penso que sempre existiram, escondidas, e que só agora estão se mostrando. Depois penso que são novos demônios, vindos do futuro para nos assustar. Outras criaturas monstruosas já existiram, mas foram embora. Penso que estas também irão um dia. Talvez elas nunca se foram e essas são as filhas, ferozes, bastardas, daquelas que já morreram. 
Tudo isso não importa. Precisamos encontrar os anjos guerreiros. Fortes, valentes. Nós, sozinhos, não podemos vencer.
Mas onde estão os anjos? Meu Deus, eles estavam aqui agora há pouco e já não sei mais onde eles estão.


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Paralelo 38 e outras histórias
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