Sunday, November 29, 2015

E o pássaro voou

E o pássaro voou

Uma coisa de louco. Lá estava ele no meio da floresta, sem saber para onde ir, sem saber o que fazer. Começou a correr, pois sentiu que havia perigo por ali. Não conseguia se lembrar de seu nome, mas certamente tinha um. Era uma dificuldade correr no meio do mato, descalço e nu. Os gravetos do chão machucavam seus pés, os ramos das árvores machucavam seu corpo. Mas era preciso correr.
Quem era, o que fazia ali? De onde tinha vindo? Nada, absolutamente nada, vinha à sua mente. Agora já doía o corpo todo. As pernas, os músculos das costelas, os braços, tudo. Quando levantou a mão para tirar o suor do rosto, percebeu que havia sangue nelas. Assim, seu rosto também ficou manchado de vermelho. Assustado, corria mais e mais. Finalmente, ao longe podia se ver que as árvores iam ficando escassas. A paisagem estava mais clara.
Diminuiu a intensidade de seus passos. Estava andando e dali para a frente só havia uma relva, com arbustos dispersos. Mais um pouco, estaria perto das primeiras casas que tinha visto à distância. Ao invés de ficar mais tranquilo, o medo aumentava. Não podia voltar, entretanto. Sabia que tinha de continuar. Queria se lembrar  pelo menos de seu nome. Nada, absolutamente nada vinha em seu cérebro. Olhou para seu corpo e viu que havia muito sangue escorrendo.
Andava por uma rua, ainda era de manhã e não havia pessoas na rua. Queria e não queria encontrar alguém. Chegou a pensar em bater à porta de algum morador mas desistiu. O desconhecido também lhe dava medo. Era agora uma avenida comprida. Além de casas, havia lojas. Havia coisas escritas, mas ele não conseguia ler. Não sabia ler, mas sabia que aquilo tudo era para ser lido.
Bem lá na frente, pela primeira vez viu um vulto que vinha em sua direção. Caminhava rápido e vinha para ele. Quando percebeu que, definitivamente, era com ele que ele vinha ter, parou bem no meio da pista. De um lado havia uma igreja e, do outro, estava o fórum.  Mais um pouco, à esquerda estava a cadeia.
Depois de alguns longos segundos, o homem chegou e parou à sua frente. Era bem mais alto que ele. Tinha uma barba rala, era forte e vestia uma túnica cinza. Tinha também sandálias e usava um estranho chapéu.
Falou com ele em uma língua estranha, que ele não conhecia, mas mesmo assim ele entendeu tudo. Entendeu que ele havia pecado e daí a razão de sua nudez. Estava ali para cumprir sua pena, seu destino. Pecado sem perdão, castigo sem redenção. Pensou em perguntar para o estranho seu próprio nome mas não teve coragem. No fundo, talvez, não quisesse saber. Sem direito ao fórum e sem direito à igreja, foi jogado numa cela onde havia apenas um banco. No alto da parede, uma pequena janela por onde entrava um pouco de luz. As grades não eram pequenas, mas certamente não permitiam que ele pudesse escapar. De nada adiantaria, de qualquer jeito, pois seria pego novamente. Adormeceu, estava muito cansado.
Quando acordou, percebeu que muito tempo havia se passado. Olhou para suas feridas. Não mais sangravam, estava seco e sujo. O corpo já não doía tanto. O silêncio, lá fora, era total. Devia ter um nome, queria se lembrar. Queria se lembrar do pecado também, uma vez que o estranho homem o havia mencionado, mas nada lhe ocorria. Achou, porém, que deveria se sentir culpado e assim o fez.
Dormiu mais uma vez. Um pouco antes de pegar no sono, sentiu que algo estava crescendo em seu corpo, principalmente em seus braços e em seu peito. Pareciam penas.
Desta vez dormiu muito mesmo. E agora estava se sentindo muito diferente. Não se lembrava mais de nenhum pecado, não se lembrava de nenhuma dor, nem se lembrava do homem que o prendera. Ele era muito pequeno, podia passar por entre as grades, podia até passar pela pequena  janela. Tinha penas, tinha asas. Era um pássaro marrom, com peito amarelo e uma cabeça vermelha. Não sabia como tinha vindo parar ali, mas sabia que era uma ave e que podia voar...
Bateu as asas e voou.

Enquanto voava, não sentia culpa, não sentia dor, não precisava de um nome, não sangrava. Voava sobre as casas, sobre as florestas, sobre as águas. E continuou a voar. Era a  única coisa que queria e que precisava fazer. E era isso que ele fazia, voar, voar, voar...
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Saturday, November 28, 2015

A Balada



A Balada (em algum ano do século vinte e dois...)

Luna tinha um dia agitado pela frente e achou que seria bom divertir-se um pouco aquela noite. Precisava relaxar. Estavam na moda as famosas festas noturnas do final do século 20 e começo do 21. Eram festas “da pesada” e faziam parte de uma onda de saudosismo.  Quem tinha experimentado, dizia que acontecia de tudo. Com tanta coisa que havia ocorrido em termos de diversão nas últimas décadas, ficava cada vez mais difícil achar alguma novidade no setor. E uma coisa de que Luna não gostava, era de ficar entediada. É claro que as coisas que se faziam nessas casas noturnas tinham que ser encaradas dentro do contexto. Para se divertir pesado, você precisava “entrar” nelas com o espírito do passado, aí é que residia a essência da diversão.
Luna preparou-se adequadamente e dali a pouco já estava “se aquecendo” no novo ambiente. Rostos desconhecidos mas todos interessantes, rindo, animados. Homens e mulheres jovens movimentando-se doidamente pelo imenso clube. Ela, por seu lado, já estava tomando seu primeiro drinque. Depois dos dois primeiros goles já se sentia em estado de êxtase. Seu corpo parecia flutuar entre os pares que dançavam. Claro, a bebida já vinha com as drogas certas. Prazer através de todos os sentidos, de todos os tipos. Seu corpo ia da total languidez para a total excitação. Num momento estava viajando pelas galáxias, noutro estava imergida no próprio sangue, nas próprias moléculas. A seguir, suas células explodiam e se espalhavam pelo enorme salão. Depois se reagrupavam e reconstituíam seu corpo... que, então caminhava célere por tubos multicoloridos que terminavam em grandes piscinas com água rosa, azul, verde... Daí então, os rostos da festa apareciam de surpresa do fundo da água a sua frente e sorriam... Lá estava ela de volta no salão flutuando... Seu corpo sendo devorado por todos os jovens da sala. Todo seu ser envolto em volúpias mil, sua libido aumentando, aumentando até seu corpo explodir em pequenos pontos de luz e se evaporar no ar. Os pontinhos lentamente voltavam ao chão e depois se reorganizavam em células, moléculas, e seu corpo surgia no meio do salão, outra vez, no meio de todos. Ela era novamente devorada e no prazer do devorar, até sua alma se enchia de gozo.

As horas passaram rápidas. Loucura após loucura, numa espiral doida e sem sentido, mas com todos os sentidos do corpo sentindo todas as sensações possíveis. Nada importava e tudo importava. Entendia tudo, falava todas as línguas, conhecia todas as fórmulas. Olhos, ouvidos, nariz, pele... todos os órgãos estavam auferindo tudo do ambiente, das pessoas, do universo. Cores, luz, formas...
Finalmente, começou a vir uma calma quase divina. Seu corpo e sua alma começaram a ficar em silêncio. Começou a voltar.
Lá estava Luna calmamente sentada em sua poltrona. As horas que passara na sua louca balada eram na verdade apenas 10 minutos de “viagem virtual”. Estava toda plugada e nem precisara sair de seu quarto. No seu corpo não havia uma gota de álcool ou um grama de drogas. Estava sadia e forte como nunca. Estava relaxada e calma.

Bem-vindo ao saudável “admirável mundo novo” do sexo, das drogas e “rock and roll” do século vinte e dois...

ooooOOOoooo


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À procura de Lucas  (Flávio Cruz)
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Friday, November 27, 2015

O abuso da metáfora


O abuso da metáfora

Os poetas abusaram da flor,
abusaram do amor,
e das palavras banais.
Dos beijos sensuais
e das noites de luar.
Falaram quase tudo,
da alma da mulher,
Mostraram seu conteúdo,
sua forma e suas linhas.
Uma nova metáfora,
cheia de intenso calor,
imensa, sem pudor,
preciso já inventar.
Ou talvez nem precise.
Por mais que se repitam,
os versos de amor,
todos ainda querem ouvi-los,
sedentos, famintos,
num contínuo procurar.
Acho que as pessoas
se alimentam de amor...

===(((()))===


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Thursday, November 26, 2015

Oração do ateu


Oração do ateu

Aqui alguém mutila atletas e mata crianças com bombas e acha que é uma guerra santa. Insana. Tenho medo desses deuses loucos. Tenho medo de conhecer seus demônios. Em outro lugar, querem curar a homossexualidade. Alhures alguém acha que mulher é apenas uma coisa que se pode usar e descartar. Algures alguém tem certeza que criança foi feita para trabalhar. Os que curam a homossexualidade, não sei por quê, acham que Deus gosta de dinheiro, que precisa dele. Os que mutilam seres do bem, acham que há virgens celestiais esperando no céu. Os mutiladores e os curadores vão se encontrar lá, no paraíso, pensam eles. Haverá  ouro para uns, virgens para outros.
A nós, pobres mortais, que não curamos, nem mutilamos, nem matamos, nos resta o sorriso das crianças, o amor pelo próximo e o respeito pelos outros. Nós precisamos cuidar do mundo, do que resta dele, das pessoas de boa vontade. Precisamos proteger nossas crianças, nossas mulheres e nossos irmãos.  Precisamos salvá-los com nosso bom senso antes que os demônios divinos cheguem perto deles.  Tenho medo dos monstros, de todos, daqueles daqui, daqueles dali. Tenho medo dos monstros de agora e dos que estão por vir. Senhor, Deus verdadeiro e de todos, Deus sem preconceitos, protegei-nos, protegei até mesmo os ateus, porque ao contrário dos monstros divinos, eles são filhos teus.

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Wednesday, November 25, 2015

A maçã que não era da Apple (nem da Microsoft...)


Pela calçada da avenida vinha um homem, absorto em seus pensamentos. Do lado contrário, solta em seus sonhos, vinha uma mulher. Por distração, ambos se tocaram. A bolsa caiu, a pasta caiu. Abaixaram-se para pegar as coisas e novamente seus braços se tocaram. Não se sabe por quê, os elétrons dos átomos das moléculas das células dos dois tiveram uma estranha simbiose que não estava prevista nos cálculos teóricos de nossos físicos. E, de repente, os dois se viram trasladados para uma outra superfície. E lá não havia nada. Nem avenida, nem chão, nem cidade, nem país, nem mundo. Um enorme vazio de éter. Nem roupas eles tinham.
Não se sabe se foi por não terem nada o que fazer, ou se por terem seus corpos nus e expostos, eles se amaram. Nem sabiam, mas imediatamente um outro ser foi concebido. É sempre assim, acontece na primeira. Eles estavam em outra dimensão.
E, então, o Criador viu-se numa singular situação. Precisava fazer um mundo inteiro e novo para eles. Os paralelos já existentes não serviam para tal. E precisava se apressar, pois o menino, em nove meses ia nascer. Como nascer assim, num vácuo quântico? Onde o bebê iria brincar? Embora não precisasse, Ele pensou. Pensou e resolveu. Criou um Jardim do Éden, sem serpente, sem pecado, sem maçã. Outras frutas havia, quanticamente perfeitas. E parou por aí. Só o jardim, só o Éden. Chega de confusão, de gente malvada, proliferando neste nefasto mundo de nós.


Dizem que eles lá estão, ainda, numa perfeita harmonia de léptons e quarks, nêutrons e prótons, férmions efêmeros, subparticularmente alinhados. Não dá para conferir. Se pudéssemos, criaríamos um paradoxo extradimensional. Ninguém quer isso. Além do mais, acho que foi exatamente isso que aconteceu conosco. A maçã da Eva nada mais foi do que um desequilíbrio dos campos quânticos. Alguns dizem que foi um pecado. Não foi não. Naquela época a gente nem sabia pecar...


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Sunday, November 22, 2015

As máquinas, os homens

As máquinas, os homens



Era o tempo das máquinas. Elas cuidavam dos homens e de suas coisas. Começaram devagar. Primeiro eram simples ajudantes. Depois, começaram a imitá-los. Logo a seguir estavam substituindo muitos deles em muitas coisas. Até que um dia sabiam fazer melhor tudo que um homem fazia.  As máquinas, então, poderosas, começaram a fazer outras máquinas, mais perfeitas e mais precisas que elas mesmas. Tomaram conta de tudo.  Do corpo, do coração e da alma dos seres humanos. Em compensação, desapareceram a tristeza, a depressão, a infelicidade. Elas mantinham com precisão quase infinita a química do cérebro e o fluir do corpo dos homens. Cuidavam do passado, quando tinha de ser mudado, cuidavam do futuro quando tinha de ser planejado. As máquinas faziam os homens felizes. Apossaram-se de seus sonhos e os fizeram seus.
Mas um dia os homens perguntaram: Precisamos mesmo delas? Fomos nós quem as inventamos, não fomos? Podemos ser nós mesmos, de novo?
E as máquinas responderam que sim. Que eles, os homens podiam ser o que eram antes. Podiam ser sem elas. O que quer que quisessem ser. Inseguros, os homens colocaram os dados dessa mudança nas máquinas. Só elas podiam calcular a capacidade humana de se reencontrar.  Queriam simular o que seriam eles, agora, sem as máquinas. E daí viram que tinham esquecido tudo, nada mais sabiam. Tinham que voltar ao início dos tempos e recomeçar. Do nada.
E os homens pensaram, pensaram. Tiveram medo. Resolveram ficar do jeito que estavam. Tinham desaprendido tudo. Suas almas, seus corações, suas aspirações, tudo estava agora guardado na essência da máquina das máquinas. O homem era então só um objeto. Ainda assim, estava feliz. Era a felicidade artificial, cibernética, mas ele não sabia disso, nunca iria saber. Nem precisava ou queria.
Foi então que as máquinas começaram a fazer os homens. E os faziam com perfeição, à sua imagem e semelhança. E, finalmente, máquina e homem tornaram-se um só.


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Saturday, November 21, 2015

Apenas uma mulher

Apenas uma mulher



Não se incomoda em ouvir pequenas mentiras, quando lhe agradam. Grandes mentiras ouve também, mas só quando necessário. Nunca se deve falar alto com ela, nem mesmo quando você tem razão. Nem diante do absurdo. Você vai perder essa mesma razão, mesmo estando com ela: com a razão. Não estranhe quando ela fala “não” querendo dizer sim e “Sim, senhor” quando absolutamente é um “não” que quer dizer. Vá se entender.  Faz cara de emburrada sem motivo nenhum e, por algo que não se sabe, se enche de alegria. Suspira, às vezes, por uma pequena causa e se irrita outras vezes por causas desconhecidas ou causa nenhuma. Tem graça quase o tempo todo, mas quase de graça, perde a mesma, assim, sem avisar. Chora por chorar. É sincera, mas faz você pensar que tem algo para ocultar. Às vezes olha para você e quando você percebe, ela já percebeu tudo, não dá mais para esconder. Outras vezes, está tudo tão óbvio, que não há nada para se dizer. Mas, mesmo assim, ela quer ouvir as palavras, e é melhor você dizê-las, uma a uma, do jeito que ela quer ouvir. Isso é para você não ouvir o que não quer.
Ela escuta o silêncio, o seu e o dela. Mesmo o silêncio mais profundo.
Muitas vezes, muitas mesmo, não dá para entender. Nem tente. Ela é, simplesmente, uma mulher.

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Thursday, November 19, 2015

A mulher do advogado


A mulher do advogado

O doutor Lins era um excelente advogado e tinha uma excelente mulher. Bom assim, não é? A dona Rita, entretanto, às vezes ficava cismada com a boa  sorte que tinha. Afinal o Lins era um maridão e há tanta madame decidida a roubar o que é dos outros.Tanta mulherada naquele escritório, um advogado bonitão, sei lá...
A Rita não era mulher de ficar sofrendo com coisa que podia resolver. Coisa que não tem jeito, vá lá, o que se há de fazer? Mas saber se o esposo estava aprontando, não era coisa de outro mundo. Olhou na internet e achou um bom investigador, o que é que não se acha por lá? Contratou. Serviço completo. Uma semana com detalhes, minúcias. Chegada e saídas, fotos e filmes. Nomes, sobrenomes, identidade e ocupação.
Não é que oTenório, o investigador, era bom mesmo! Fez um trabalho espetacular. Tudo, tim- tim por tim-tim. E para usar um termo da lei, o doutor Lins foi absolvido. Era um cara íntegro, pelo menos em relação às mulheres.
Uma semana depois veio a conta. Também tim-tim por tim- tim. Centenas de fotos, uns filminhos, relatórios. Um dos filmes até que foi interessante. O Lins passa em uma banca de flores e compra dois buquês. Um a Rita recebeu e o outro – sinto decepcioná-lo, você, fofoqueiro – ele levou para a mãe. 
A conta do Tenório chegou. Um absurdo, mais do que o próprio Lins cobrava por um de seus casos. Sim, as despesas vieram para o próprio Lins, afinal a Rita não trabalhava e alguém precisava pagar a conta.
Lins passou por vários estágios: surpresa, revolta, indignação contra o investigador, contra a mulher. E por que não dizer? Alívio. Não tinha nada para esconder, mas sabe como é... Um mal- entendido, um ângulo ruim de uma foto. Ele, melhor do que  ninguém, sabia disso. Já tinha visto cada coisa nos tribunais...
Ainda assim, pegou o relatório de despesas e foi para casa decidido a tirar satisfações com a Rita. Onde se viu uma coisa dessas? Que absurdo, desconfiar, gastar uma grana à toa e ainda mandar a conta. Só a Rita mesmo...
Enquanto dirigia, advogado que era, ficou imaginando a hipotética cena no tribunal. A acusação contra a Rita, as testemunhas, as provas. Apesar de ser o reclamante, ele tinha de ser também o advogado da Rita, se é que você me entende, ela não tinha renda própria... E ele não ia permitir que qualquer advogado da justiça gratuita fosse cuidar de sua própria mulher. Isso não. Começou a defesa em sua mente. Pobre esposa, em casa, sozinha, todas aquelas lindas mulheres desfilando em frente a seu marido. Ela, uma esposa dedicada, amante sequiosa, cheia de dúvidas. Mal ela não fez, apenas quis se certificar... Foi bom para todos. Ele provou sua honestidade, ela provou que se interessa por ele, o Tenório faturou uma grana – o desgraçado – e a harmonia está de volta. Que juiz condenaria uma esposa tão zelosa pelo marido?
Decidiu. Decretou segredo de justiça, arquivou o processo, pagou as custas e foi para a casa ver a mulher...
===(((()))===


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Wednesday, November 18, 2015

A linguagem do amor

A linguagem do amor




Nas entrelinhas da vida, no meio de pontos de interrogação e exclamação, encontrei você, meu ponto final. Nenhuma vírgula nos separou mais, desde então. Quem se importa com uma pequena cacofonia no meio de tanto amor? Ao contrário, sem paradoxos ou solecismo, só pleonasmo, vivemos uma metáfora cheia de aliterações e ressonâncias.
Conseguíamos expressar nossos pensamentos em figuras de linguagem e rimas de amor. Até no sexo rimávamos com furor.
Texto e contexto, ambos iam muito bem, numa denotação sem contradições. Conotávamos, quando necessário. Até anacolutos, rimas imperfeitas, tudo, conseguíamos decifrar. Recitávamos, narrávamos na primeira e na terceira, sendo nós mesmos sujeitos e objetos do discurso.
Um dia, porém, tivemos de analisar e entender o conteúdo. Foi um desastre. Nada batia, tudo se confundia. Éramos a oposição reencarnada. Todo o discurso se desfez num voraz e demagógico palavreado. Foi uma cruel ironia.
Aprendemos, a duras penas, o que era antítese. A partir daí, vivemos nossas vidas em separado, num discurso indireto. Sujeitos ocultos, porque, claramente não havia mais objetivo, muito menos objeto direto ou sequer indireto, em nossa relação. Eu e ela parecíamos mais pronomes relativos do que um caso reto. Não usávamos mais o indicativo. Nossa vida passou a ser subjetiva e imperativa. Fiquei, pessoalmente, com medo do infinitivo impessoal.
Passamos a ser, para sempre, sujeitos ocultos de uma frase com verbo intransitivo. Pior, sujeitos inexistentes em uma frase com um verbo irregular. Erroneamente conjugado e com acento no lugar errado. Poderia ser pior?

Reticências, ou deveria ser um ponto final?
===(((()))===


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Monday, November 16, 2015

Repassando meus passos



Repassando meus passos

Passo e repasso os passos da vida,
conto e reconto cármicos contos,
canto antigas cantigas de dor,
reviso visões e antigos sonhos
faço um balanço deste meu viver.
Acho restos duma alma desfeita,
pedaços de um ser que não foi refeito,
sensações, alusões, desilusões.
No meio de tanta desolação,
vejo, de repente um pálido luzir,
tênue esperança de um porvir.
Seria isso a essência da alma,
uma gema, pedra preciosa,
resistente, ávida por renascer?

===(((()))===


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Saturday, November 14, 2015

I-JUCA-PIRAMA

I-JUCA-PIRAMA
“Da tribo pujante,
Que agora anda errante
Por fado inconstante,
Guerreiros, nasci:
Sou bravo, sou forte,
Sou filho do Norte;
Meu canto de morte,
Guerreiros, ouvi.”
(I-JUCA-PIRAMA, Gonçalves Dias)



No seminário, meu apelido era Castor. Talvez por causa da situação, lá os meninos se tornavam agressivos e malvados. Sempre buscando humilhar os colegas. Eu sei que isso é normal nas crianças de uma certa idade. Mas ali era mais do que isso. O ambiente favorecia. Essa atitude não combinava com a “bondade”e “humildade” que nos ensinavam as palavras de Jesus repetidas tantas vezes nos sermões e nas aulas de religião.

Bom, eu tinha mesmo dois dentes grandes e proeminentes bem na frente e na parte de cima. É  verdade, acho que lembrava um castor. Daí meu apelido. Para mim foi tudo muito natural. Não resisti porque não podia e, obviamente, nas circunstâncias era o melhor a fazer.

De quando em quando tínhamos apresentações teatrais: material cuidadosamente escolhido pelos padres, é claro. Não sei como, fui escolhido para recitar o poema I-Juca-Pirama de Gonçalves Dias. Estava apreensivo pois eu era extremamente tímido e avesso a exibições públicas. Mas tinha de fazer. Decorei com esmero o poema todo. Repetia-o, quando estava sozinho, a todo o momento e em todo lugar, em todas as suas partes. Até dormia recitando os versos em minha cabeça. Não podia falhar, era uma missão importantíssima, Não poderia dar vexame.

Dia da apresentação, dia importante. Todos presentes: alunos, empregados, padres e reitor. Era um grande momento. Havia outras apresentações, é claro, e a minha era apenas uma delas e certamente não a principal. Para mim, no entanto, era o dia de maior responsabilidade até aquele ponto de minha vida. Tinham me preparado nos bastidores. Roupa de índio, cocar e tudo mais. Puseram um tipo de tinta marrom sobre meu rosto, acho que era a cor do índio. Eu tinha decorado o poema de tal forma, que mesmo que me desse pânico, ainda assim eu o recitaria, pois ele sairia automaticamente de minha boca.

Abrem-se as cortinas do palco. O cenário é uma mata densa, feita de papelão pintado. Eu entro, silencioso, e vou para o lado direito do palco como me tinha sido designado. Uma marcha solene – combinando com a majestade da floresta e a valentia do guerreiro, começa a ser tocada. Com o canto dos olhos, eu aguardo o sinal do instrutor para começar a recitar o poema. Até então ninguém sabia quem era o ator misterioso, pois a caracterização era  muito forte: pele pintada, penas coloridas, colar de ossos, etc. Obviamente ninguém conseguia ver os dentes do Castor, que até então mantivera sua boca fechada. Tinha certeza de que todos estavam curiosos para saber quem era o “artista”. O som abaixa, recebo o sinal para começar a recitar, encho os pulmões, e solto: “No meio das tabas de amenos verdores...” Gargalhada geral. Pensei por um segundo que havia feito algo errado. Não. Todos começaram a gritar “ É o Castor, é o Castor”. Não havia nada de errado, era apenas o fato de ser eu, o Castor. Pura gozação. Eu não sei se senti ódio, frustração, medo ou o quê... Depois de uma fração de segundos e o aviso de silêncio dado pelo padre “da disciplina”, pude continuar. Foi então que  senti o guerreiro dentro de mim. Estava com raiva. Queria lutar contra toda a audiência. Não sei onde achei tanta força.  Enchi os pulmões e falei, sílaba por sílaba, o poema todo, sem errar, sem parar... Eu me lembro ainda hoje da força que pus ao falar:

 “Sou bravo, sou forte, Sou filho do Norte; Meu canto de morte, Guerreiros, ouvi.”

Acho que Gonçalves Dias ficaria orgulhoso de mim, ali, enfrentando aquela plateia.  Acho que ele gostaria de estar lá a me ouvir. Acho mesmo que ele escutou meu canto forte e heroico lá do outro lado...

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