Saturday, May 31, 2014

Houve uma época em que nosso país era muito feliz



Houve uma época em que nosso país era muito feliz
( ou “A copa e as covas de Perus)

Houve uma época em que nosso país era muito, muito, feliz. Havia tão poucas notícias ruins, que os jornais nem mais tinham matéria para publicar. Você sabe como é, só desgraça é que vende jornal. Para preencher espaço tão precioso de um noticiário, um deles começou a publicar receitas de bolos e doces. Como não tinham muita prática nessa nova empreitada, às vezes elas saíam incompletas, com defeitos. Outro jornal, mais dedicado à cultura, lançou poemas de gente famosa, e principalmente versos de “Os Lusíadas”. Isso era para o povo ficar cada vez mais culto. Acho que deviam ser mais organizados, porém. De repente, interrompiam a narrativa, e isso poderia prejudicar seu sentido. Valeu a tentativa , no entanto.
Além de não haver notícias ruins, havia um monte de boas. Um progresso sem igual. Estradas, telefonia, tecnologia. Parecia até os Estados Unidos. Era difícil ver alguém  insatisfeito! Era mesmo um governo bom, esse dos militares.
Você sabe como são as pessoas. Sempre arrumam um jeito de reclamar. Começaram a falar que esse progresso todo ia custar uma fortuna e que, mais tarde, teríamos de pagar. Décadas e décadas de pobreza e fome para cumprir os compromissos financeiros e seus juros. Mas não é assim que se constroem as coisas? Não dá mesmo para satisfazer a essa gente toda. Como se isso não bastasse, até uns coveiros do novo cemitério de Perus estavam insatisfeitos com seu trabalho. Era um excesso. Corpo vindo de todo lado. Para acalmar a situação, disseram a eles que não precisavam se preocupar. Estava dispensada a identificação. Além disso, poderiam colocar todos numa só cova. Ainda bem que esse pessoal tinha visão: era preciso facilitar o jeito de operar, pois isso, sim, fazia parte do progresso.
Quando o contentamento e a satisfação eram completos, ainda assim, apareceram uns chatos. Diziam que ouviam gritos. Parecia gente sofrendo. Não sabiam de onde vinham aqueles sons horripilantes. De casas fechadas, dos porões? Podia ser, pois os ruídos eram abafados. Mas, acho eu, eles estavam apenas ouvindo demais.
Ainda bem que, com o tempo, esse choro pungente foi passando. A gente tinha quase esquecido. Nos últimos tempos, porém, não sei por quê, existem pessoas que estão falando deles novamente. Talvez reconheceram as vozes, talvez eles mesmos sejam os que gritaram de dor, um dia. Como eu disse, existe gente que reclama de tudo.

Justo agora que tudo ia tão bem, a gente quase ganhando a copa e tudo mais...


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Wednesday, May 28, 2014

A respeito do amor



A respeito do amor

É meu amigo Nino Belvicino que diz. Ele é metido, se acha um filósofo e não sei mais o quê. É sobre o amor.
O amor não é uma opção, diz ele. Ele acontece. Às vezes, diz, ocorre num coração desastrado, violento e bruto. Nesse caso, ou amacia o seu portador, ou se transforma em paixão violenta. Deixa, portanto, de ser amor. Outras vezes, a pessoa amada se recusa a receber o grande benefício. Tem seus motivos, talvez seu próprio e outro amor. É duro, mas acontece o tempo todo. Nesse caso, ou ele se consome em si mesmo, desaparece, ou se direciona para uma causa, para uma outra coisa qualquer. Desperdício, mas também acontece a toda momento.
Acontece, porém, dele encontrar a certa direção e ser correspondido por igual amor. Aí, então é uma festa universal. Uma explosão cósmica.
É aí que o Nino fica com aquela cara triste e diz: “Você não imagina como isso é raro!” Completa dizendo que viu isso uma ou duas vezes, se tanto. E ele completa comentando que já não é tão novo assim.
Eu, por outro lado, sou um tremendo otimista. Acho que está ocorrendo a toda hora, em todo lugar. É só saber olhar, saber procurar. O Nino, sim,  é um tremendo de um pessimista.

Não sei, não... Para ser franco, também tenho dúvidas. Às vezes, acho que sou otimista demais...

Monday, May 26, 2014

Temporada de furacões

Temporada de furacões
De primeiro de junho até 30 de novembro é a temporada dos furacões (Hurricane Season). É nessa época que os danados vêm e acabam com tudo. Derrubam árvores, amontoam barcos uns em cima dos outros, derrubam outdoors, levam carros, inundam casas e, pior de tudo, matam gente.  Seria ótimo se pudéssemos  desviá-los para onde estão pessoas e coisas ruins. Mas, infelizmente, não funciona assim. Eles não têm preconceito nem admiração por ninguém, destroem tudo que está pela frente.
No entanto, é quase inútil marcar data para essas tragédias. Muito antes disso, durante o ano inteiro, outras estão sempre acontecendo. Já tivemos, há pouco tempo, incêndios em várias partes do país, tempestades, tornados, enchentes, nevascas. Aparentemente, todo ano e o ano todo é temporada de coisa ruim. E estou  falando só dos atos da querida mãe Natureza ( que os americanos chamam de “acts of God”) .

Se  formos falar dos atos dos homens, das atrocidades que eles cometem contra a Natureza, contra os animais e contra seus semelhantes, é temporada total, 24 horas por dia, dia e noite, sem parar...Ainda bem que há muita gente boa, por todo lugar, para compensar. Eu mesmo, que não sou ninguém, conheço um monte de almas extraordinárias que estão por aí, para contrabalançar o mal do mundo. Graças a Deus!

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Thursday, May 22, 2014

Harmonia e paz, amém



Harmonia e paz, amém
A dona Raquel, discreta, olha para o outro lado da rua pelas frestas da cortina. Lá estão o seu Laurindo e a dona Arminda conversando. Parecem animados e confidentes. Seria muito interessante saber o que estão falando. Na semana passada, o seu Laurindo comentou com a Raquel que a Arminda é uma boa pessoa, uma senhora educada, porém...Às vezes, porém, fala muito, não consegue parar e ele tem coisas para fazer, precisa entrar. Ele não está ali para resolver problemas de pessoas solitárias. Dois dias depois foi a vez da Arminda. Contou para a Raquel que o seu Laurindo é um senhor muito simpático, mas não consegue cuidar do próprio quintal. Não haveria problema se ficasse tudo por lá. Mas não. As folhas, às vezes até alguns papeis, acabam caindo do seu lado. Isso não deveria acontecer, ele devia ser mais cuidadoso.
A Raquel ficou imaginando que, agora, é dela que estariam falando. Mesmo porque, de vez em quando, olham para sua janela. O que será? Com certeza, um está pedindo para o outro não comentar nada com ela, “que isso fique entre nós”...
Não deveriam todos ser honestos e sinceros e falar a verdade uns para os outros? Ficou então imaginando um mundo em que todos os seus conhecidos falassem o que estão pensando. E pensou, e pensou...Imaginou tudo que teria de falar e tudo que teria de ouvir.
Não demorou muito para chegar a uma simples conclusão. Assim estava bem. Era só não exagerar, manter as aparências. O mundinho dela e de todos à sua volta estava tão equilibrado. Uma coisinha qualquer, um pequeno grão de areia, poderia desequilibrar tudo.

Que assim seja, pensou. A fofoca e a indiscreção de cada dia, nos permitam hoje, mais uma vez. Que eu só ouça o que tenho de ouvir e fale o pouco que preciso falar. Que o universo continue em harmonia e paz, amém!

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Wednesday, May 21, 2014

Por falar em máquinas que falam



Por falar em máquinas que falam

Quem não conhece a antológica cena de “2001 – Uma Odisseia no Espaço” em que o computador da nave, o Hal, fala com sua voz suave para o astronauta Dave que, infelizmente, não pode deixá-lo entrar novamente na nave? Ele sabia que o Dave queria desligá-lo e não queria que tal fato acontecesse para não arriscar a missão. Esperto, ele. Muito mais esperto que muita gente.
Mas depois voltamos ao Hal. Por enquanto, o que queria dizer é que agora o que era ficção não é nada mais do que o cotidiano. Estamos falando com máquinas a todo momento. No começo era difícil, mas hoje em dia elas estão conversando muito bem. Existe uma – ainda estou falando das máquinas – que “trabalha” para um banco americano, que é especialmente boa. Ela entende praticamente tudo e pergunta exatamente o que deve ser perguntado. Além disso, é muito educada. Quando, devido ao nosso sotaque tupiniquim, ela não entende alguma coisa, ela pede para repetir. Avisa, porém, que é culpa dela, não nossa, e fala um “sorry” absolutamente honesto e sincero. Gosto dela. Qualquer dia, quando houver clientes brasileiros suficientes, ela não só vai entender nosso sotaque, como também vai falar “Que bonito sotaque você tem. Aposto que é do Brasil!”. É tudo uma questão de marketing, pode ter certeza. O que me preocupa, no entanto, é que ela pode fazer o mesmo que o Hal fez naquele fatídico momento do filme. “Sinto muito, querido cliente, não posso fazer isso.” Talvez eu precise de uma grana extra e o meu pobre saldo bancário não alcance o limite. Certamente um saldo negativo prejudica a “missão” bancária que é ganhar mais e mais. Mas posso ficar tranquilo, ela não vai me ofender. Vai falar com muita educação e suavidade. E devo ficar muito feliz com isso. Existem inúmeros humanos que não conseguem ser educados pessoalmente e muito menos por telefone!


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Tuesday, May 20, 2014

Crônicas, torturas, sexo para aumentar a nota, apesar de você....



Crônicas, torturas, sexo para aumentar a nota, apesar de você....

Este modesto cronista, às vezes, se arrisca dentro da literatura, na ficção científica e no “realismo fantástico”. Um psicólogo poderia dizer que isso é uma maneira de se fugir da realidade e buscar uma espécie de equilíbrio. As crônicas, simples e singelas, como, de certa forma, sugere o nome, deveriam ser apenas para tratarmos das coisas do dia a dia, dos pequenos devaneios e sonhos do homem comum passando pela existência na Terra. As coisas excepcionais, os grandes eventos – heroicos ou bizarros – deveriam ser apenas temas de grandes obras literárias, epopéias, obras cinematográficas memoráveis, esplendorosas obras de ficção, como “Os Lusíadas” ou a “Divina Comédia”. Mas vejam só vocês, quando a gente passa os olhos pelas notícias do jornal, tentando encontrar aquela cena lírica, o manifestar singelo da riqueza interior do ser humano, o que vamos encontrar? Hoje, por exemplo, logo na primeira página, li as seguintes manchetes:
“PF prende deputado e faz buscas na casa do governador do MT”
“Obra do Itaquerão aumenta casos de abuso infantil na região do estádio”
“Maio pode tornar-se o mês mais seco da história do Cantareira”
Coisas da vida, pensei, temos de conviver com isso. Depois, dou mais uma olhada e vejo: “Rubens Paiva foi torturado a som de ‘Apesar de você’, diz testemunha”. Penso, então, como estranhamente dizem alguns, isto é um “pouco demais”. Mas, faz tanto tempo, não vai acontecer de novo. Provavelmente não. Não com esse torturador, não com essa música, mas quem é ruim, não para de inventar. Vão ser outros temas, outras torturas, outras circunstâncias. Sempre, porém, daquele que “pode” contra aquele que “não pode”. Não é sempre assim?
Passo, então, desconsolado, para a parte internacional e vejo: “Nos EUA, aluno ganha nota alta após fazer sexo com a professora”. Pensei em ver mais, mas depois concluí: vai ser uma competição cheia de horrores, melhor parar por aqui...








Sunday, May 18, 2014

Um coroinha e a história de Perus


Um coroinha e a história de Perus

Se você pudesse voltar no tempo e ver Perus dos anos 50, certamente iria pensar que estava em um outro país, em alguma terra distante. Além do esqueleto principal do bairro, suas principais artérias, nada se parecia com o que é agora. Mas não é assim em todo lugar?
Às vezes olhamos fotos antigas e, por algum mecanismo mental, pessoas e fatos voltam à nossa mente. Foi o que aconteceu comigo quando vi aquele “retrato” da antiga Paróquia de Santa Rosa de Lima. Lembrei-me da época em que fui coroinha. Nem sei como aconteceu. Não sei se minha mãe, devota como ninguém, teve alguma coisa a ver com isso, mas o fato é que aconteceu.
Fora do horário da missa, eu ficava bisbilhotando os objetos, livros e tudo que havia por ali. Foi então que encontrei aquele livro enorme – enorme mesmo – igual àqueles que existiam nos cartórios. Aliás, eu nunca entendi por que os chamavam de livros, se você escrevia neles e eles não vinham impressos. Não deveria ser “caderno”? Semântica à parte, o fato é que o livrão, em pé, era mais alto do que eu. Abri a primeira página e lá estava uma grafia impecável, distinta, daquelas que só se viam antigamente. Comecei a ler e percebi que era alguém tentando escrever a história de Perus. Dava para ver que o projeto tinha sido abandonado. Infelizmente não tinha ido além da primeira página. Lembro-me vagamente do  narrador falando da tal “Maria dos Perus”, a Nhá Maria. Quando ela tinha chegado, onde era sua casa, a antiga fazenda que havia por ali... Eu era muito pequeno e certamente não me lembro dos detalhes. O que eu me lembro, no entanto, é de que eu sabia que estava diante de alguma coisa importante, uma espécie de documento histórico. Enchi o peito e avisei o padre e todo adulto que pudesse me ouvir. Ninguém deu a menor bola para mim.  Esses meninos – eu, no caso – não têm mesmo o que fazer, pensam que os adultos têm tempo para essas besteiras.  E eu continuei minha vida, não fui historiador nem nada, mas não consigo me esquecer do ocorrido. O livro, será que ele existe ainda? Duvido. O que iriam fazer com um “cadernão” desajeitado daqueles, que quase precisava de duas pessoas para ser carregado? E o escritor misterioso? Um pároco antigo, algum dos primeiros residentes de Perus, um devoto? Nunca vou saber.

Como se escreve nos tabelionatos, eu vi, atestei. É verdade, dou fé. Ou como o grande poeta brasileiro do Romantismo, Gonçalves Dias,  escreveu uma vez: “Meninos, eu vi!”.


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Saturday, May 17, 2014

As meninas da Nigéria e o País das Maravilhas de Alice



Você deve conhecer a Alice. Sim, aquela mesmo de “Alice no País das Maravilhas”. Pois é, há bem pouco tempo atrás, ela achou que aquele mundo louco em que ela vivia não podia ser o normal. Como faz muito tempo que o seu dono, criador e inventor,  Lewis Carroll, morreu, deduziu que agora ela era de domínio público, portanto dona dela mesma. Resolveu, então, dar uma olhada no universo real, para ver se fazia sentido. Como o dela, certamente, não tinha lógica nenhuma, seria ótimo comparar.
Escolheu uma avenida qualquer e foi andando toda lampeira pela calçada. Viu uma banca de jornal e parou.Nada melhor que as notícias para conhecer um mundo novo, cheio de paz, de coisas boas e, principalmente, muita lógica. No começo ela não entendeu muito bem. Achou até que as outras personagens de seu livro estavam com ciúmes dela e estavam lhe pregando alguma peça. Havia crimes, assassinatos, corrupção e outras notícias horrorosas nas manchetes. E todo jornal que lia, era a mesma coisa. Ficou cheia daqueles jornais mentirosos. Continuou pela avenida e percebeu que, em algumas lojas, havia televisão. Sentou-se na calçada e ficou vendo um pouco. Até que havia alguns programas interessantes. Daí chegou a hora do noticiário. Estava já um pouco preocupada, mas resolveu ficar mais um pouco. Foi então que o apresentador falou das cerca de 200 meninas nigerianas que foram raptadas de uma escola. Só podia ser um filme de terror. Mas não era. Ela viu a notícia de novo e de novo.
Só então percebeu o óbvio. Esse mundo da gente é milhares de vezes mais louco que o dela. Quem disse que seu país não tinha lógica? Qualquer lógica era melhor do que  aquilo que ela estava vendo. Correu de volta para a toca do coelho e se escondeu. E fez de conta que foi tudo um pesadelo.
Aquele sim era um “País das Maravilhas”, não esse nosso mundo doido daqui!


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Thursday, May 15, 2014

Deus nos livre


Deus nos livre de grupos religiosos que consideram as mulheres objetos de segunda classe e que podem ser vendidas ou negociadas. Deus nos livre de loucos que vendem meninas virgens para casamento.  Deus nos livre de líderes que interpretam a palavra de Cristo segundo seus interesses pessoais.  Usam as escrituras para justificar preconceitos e visões distorcidas do mundo. Deus nos livre também daqueles que acham que o dízimo é mais importante do que amar o irmão como a si mesmo.  Deus nos livre dos que têm fortunas absurdas enquanto há fieis seus passando dificuldades.  Deus nos livre daqueles que se julgam com moral perfeita em comparação com todos os outros, terríveis “pecadores”. Deus nos proteja de quem distorce suas palavras para se adaptarem a seus interesses escusos. Que nos livre Deus, também, daqueles que escolhem partes seletas da Bíblia para provar sua visão pobre e insignificante da verdade.

Que Deus nos livre de todos eles e nos mostre os verdadeiros líderes, aqueles que “sentem” o que Cristo falou e mostrem isso com seu próprio exemplo. Sabemos que são poucos, mas alguns há de haver para Deus nos mostrar...


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Wednesday, May 14, 2014

As propagandas daqui



Estou distraído, vendo televisão, e percebo que há uma propagando bonita, quase artística, passando. Um casal anda, melhor dizendo, flutua, sobre a relva. Depois um beija o outro, dão-se as mãos e continuam “pairando” sobre o gramado. A seguir, vejo que se trata de uma espécie de Viagra. Tudo bem, o laboratório precisa anunciar seu produto. O locutor enumera, com uma voz convincente, eloquente, as maravilhas do novo “remédio”. Depois de alguns segundos, uma outra voz, muito mais baixa, suave, delicada, continua a falar. É tão doce que você nem se interessa pelo conteúdo, pois já é uma delícia só ouvir aquele sussurro. No entanto, se você prestar atenção, vai ver que o que ela está fazendo é cumprir a lei. Isso mesmo, aquela que manda, junto com o anúncio do produto, também enumerar dele, todos os efeitos colaterais, possíveis e imaginários. Desta forma, se você prestar atenção para aquela voz de anjo, ela vai estar falando que o milagroso medicamento pode também, em alguns casos, causar morte, ataques cardíacos, problemas renais graves e uma série de outros malefícios. Mas a voz é tão suave...nem dá para imaginar! A propaganda é alma do negócio!

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Tuesday, May 13, 2014

O óbvio


Quando eu era jovem – e isso já faz um bom tempo – adorava ler as crônicas do Nelson Rodrigues. A todo momento ele repetia a expressão “óbvio ululante”. Eu acho e achava que ela tem uma força extraordinária. Era como se ele ficasse irritado com as

 pessoas que não conseguiam ver o dito  cujo ( o óbvio, é óbvio) e as sacudisse. Com o tempo aprendi algo que não é tão óbvio assim.  Que ele ( ainda estou falando do óbvio) é sorrateiro, esperto e dissimulado. É a única explicação que consigo vislumbrar. Há tantas coisas no mundo que são tão claras, tão evidentes, que é impossível que as pessoas não as vejam, não as entendam. Eu mesmo, às vezes não consigo enxergar o que está – figurativamente ou não – bem debaixo de meu nariz. Tenho, porém, a desculpa da idade.

Desconfio, porém, de outra possibilidade.  A ganância e o interesse dos inescrupulosos. Eles certamente veem o óbvio e o entendem. Por interesses pessoais, por outros sentimentos escusos, fingem que não estão vendo nada. Mas que ele está ululando, irritado, ele está. O Nelson tinha razão.

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Saturday, May 10, 2014

Eu queria





Eu queria que, nesta manhã de sábado, alguém se esquecesse de algo ruim que está martelando seu cérebro. Que alguém, que mal conhece o vizinho, lhe falasse um “bom dia” olhando nos seus olhos.  Que alguém elogiasse o penteado da moça insegura lá da mercearia.  Que alguém se lembrasse que o porteiro também existe e perguntasse sobre seus filhos.  Que alguém olhasse para um mendigo e pensasse que, possivelmente, ele não seja um preguiçoso, e o ajudasse. Que a turma convidasse o cara chato lá da firma para descer e que, juntos, tomassem um café. Talvez ele tenha algo interessante para contar dessa vez.

Mas, por quê? Porque, conforme disse o poetinha, hoje é sábado, hoje é dia de amar.


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Friday, May 9, 2014

O cãozinho que se perdeu



Era o final de outubro de 2012 e o furacão Sandy baixou em Nova Jersey, sem dó nenhuma e nem um pouco de consideração. Foi arrasando tudo, sem pedir licença. Alagamentos, árvores caídas, casas destruídas. Pessoas vagando sem teto e sem rumo pelas ruas cheias de destroços. Muitos animais de estimação também acabaram se perdendo de seus donos. Entre eles estava o lindo e gracioso Reckless, mistura de pitbull e terrier, alegria da família. O coitadinho sumiu no meio da horrível tempestade. Todos os familiares, principalmente os filhos, ficaram devastados.
A vida precisava continuar. Era preciso reconstruir o que havia sido destruído e o tempo foi curando as dores pela perda do importante cãozinho. Um ano e meio depois, ainda sentindo falta do pobrezinho, o casal James resolveu adotar um novo animalzinho de um abrigo para alegrar um pouco as crianças. E lá foram todos eles para escolher um. Logo na primeira jaula acham um pitbull-terrier igualzinho ao Reckless! Como podia uma coisa dessas? Depois, olhando bem, era o Reckless! Deu para reconhecer por uma cicatriz no focinho, entre outras coisas.
Foi só alegria naquele dia e depois e depois...
E não é que acontecem coisas maravilhosas, mesmo depois de uma tempestade insensata como aquela, nesse maravilhoso mundo de Deus?




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Thursday, May 8, 2014

Lágrimas masculinas

 


Você acha que é possível alguém se separar depois de velho? Trinta e cinco anos de casamento?
Foi o que aconteceu com meu grande amigo Lourenço. O pior mesmo é que a sua mulher é minha amiga também. Que situação! Ainda bem que não houve aqueles rompantes de fúria, de ódio. Não ficaria bem para nenhum dos dois. Afinal, modéstia à parte, só tenho amigos distintos. Lá no fundo, minha solidariedade masculina está a me sussurrar que ela tem mais culpa que ele. Não importa, porém, quem cometeu o delito. O negócio, agora, é curar as feridas, cobri-las com algum unguento que tire a dor, colocar alguns esparadrapos. Que se há de fazer?
Pelo menos, o meu amigo diz que está bem, que, no final das contas, não doeu nada! Foi até bom, ele arrisca dizer. Depois olho bem para a cara dele e percebo que mal consegue conter as lágrimas. Tento contemporizar e falo:
-Um pouco tem que doer, Lourenço. Afinal de contas são trinta e cinco anos...

Ele disfarça, diz que já volta e dá uma saída. Mas demora mais do que o normal...Lágrimas masculinas saem menos. Por isso mesmo, quando saem, doem muito mais...

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Wednesday, May 7, 2014

Nosso destino



Passamos a vida tentando controlar nosso destino. Junto, o destino das pessoas amadas, aquelas que estão à nossa volta. Tentamos segurar o inevitável, apressar o improvável, agitar o que não tem movimento, estabilizar o que se movimenta demais. Tentamos  juntar apoio para nossas causas, juntar amor para nós e nossos filhos, lutar contra os inimigos, livrar-nos de ódios antigos e de novos ressentimentos. Parece, às vezes, que temos sucesso. Ficamos felizes e acreditamos que estamos vencendo. Outras vezes, aquilo que parecia uma vitória, revela-se uma grande desilusão.

A verdade é que não controlamos nada. Temos, no máximo, aquela sensação débil de estarmos no comando. Pura ilusão. Bom ou mau, nosso fado é o que é. Tudo depende do que você quer fazer com ele. Ficar feliz e comemorar o pouco ou muito que tem ou lamentar-se por aquilo que nunca conseguiu. Essa parte é sua. Você pode escolher a atitude com que quer enfrentar os resultados. Daí vai depender a felicidade. Você vai fazer o muito do pouco, ou nada fazer, do muito que aconteceu...Esse é o único controle que temos.

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Monday, May 5, 2014

Fingimento


A partir de um certo momento, quando o amor já tinha acabado, ele começou a fingir que a amava. Ela, sensível, fingiu que não percebeu seu fingir. Mas não foi só isso, ele passou a fingir outras coisas também. Que gostava das coisas que ela fazia, que achava graça em tudo, sem achar. Fingia completamente. Ela continuou fingindo que não percebia que ele fingia, era melhor assim. Um dia, coisa do destino cruel, ela se foi. Um ataque do coração, daqueles fulminantes. Ninguém sabe se tinha alguma coisa a ver com tanto fingimento. Se tinha, ele fingiu que não sabia. Com o tempo, ele sentiu sua falta. Difícil dizer se era de verdade ou não. Ele já não sabia o que era e o que não era. Coisa certa, porém, era sua dor. Tentou fingir que não doía, mas doía uma dor daquelas que não se pode fingir. Esse fingimento ele não conseguiu. Fingiu, porém, que tinha conseguido fingir. E foi fingindo até o fim dos seus dias. Quem sabe, agora, ele possa fingir que se encontrou com ela. Lá do outro lado, para fingir de vez. Fingir um eterno fingimento...a dois!

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Sunday, May 4, 2014

Para não dizer que não fiz um poema


Rima perfeita, metáfora desfeita.
Rima imperfeita, estética suspeita.
Métrica correta, o símbolo afeta.
Métrica incorreta, não é a coisa certa.
Imagens ousadas, leitura ameaçada?
Hipérboles contidas, poesia insípida?

É o que sempre digo: não é nada fácil ser poeta....









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