Friday, November 27, 2015

O abuso da metáfora


O abuso da metáfora

Os poetas abusaram da flor,
abusaram do amor,
e das palavras banais.
Dos beijos sensuais
e das noites de luar.
Falaram quase tudo,
da alma da mulher,
Mostraram seu conteúdo,
sua forma e suas linhas.
Uma nova metáfora,
cheia de intenso calor,
imensa, sem pudor,
preciso já inventar.
Ou talvez nem precise.
Por mais que se repitam,
os versos de amor,
todos ainda querem ouvi-los,
sedentos, famintos,
num contínuo procurar.
Acho que as pessoas
se alimentam de amor...

===(((()))===


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Thursday, November 26, 2015

Oração do ateu


Oração do ateu

Aqui alguém mutila atletas e mata crianças com bombas e acha que é uma guerra santa. Insana. Tenho medo desses deuses loucos. Tenho medo de conhecer seus demônios. Em outro lugar, querem curar a homossexualidade. Alhures alguém acha que mulher é apenas uma coisa que se pode usar e descartar. Algures alguém tem certeza que criança foi feita para trabalhar. Os que curam a homossexualidade, não sei por quê, acham que Deus gosta de dinheiro, que precisa dele. Os que mutilam seres do bem, acham que há virgens celestiais esperando no céu. Os mutiladores e os curadores vão se encontrar lá, no paraíso, pensam eles. Haverá  ouro para uns, virgens para outros.
A nós, pobres mortais, que não curamos, nem mutilamos, nem matamos, nos resta o sorriso das crianças, o amor pelo próximo e o respeito pelos outros. Nós precisamos cuidar do mundo, do que resta dele, das pessoas de boa vontade. Precisamos proteger nossas crianças, nossas mulheres e nossos irmãos.  Precisamos salvá-los com nosso bom senso antes que os demônios divinos cheguem perto deles.  Tenho medo dos monstros, de todos, daqueles daqui, daqueles dali. Tenho medo dos monstros de agora e dos que estão por vir. Senhor, Deus verdadeiro e de todos, Deus sem preconceitos, protegei-nos, protegei até mesmo os ateus, porque ao contrário dos monstros divinos, eles são filhos teus.

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Wednesday, November 25, 2015

A maçã que não era da Apple (nem da Microsoft...)


Pela calçada da avenida vinha um homem, absorto em seus pensamentos. Do lado contrário, solta em seus sonhos, vinha uma mulher. Por distração, ambos se tocaram. A bolsa caiu, a pasta caiu. Abaixaram-se para pegar as coisas e novamente seus braços se tocaram. Não se sabe por quê, os elétrons dos átomos das moléculas das células dos dois tiveram uma estranha simbiose que não estava prevista nos cálculos teóricos de nossos físicos. E, de repente, os dois se viram trasladados para uma outra superfície. E lá não havia nada. Nem avenida, nem chão, nem cidade, nem país, nem mundo. Um enorme vazio de éter. Nem roupas eles tinham.
Não se sabe se foi por não terem nada o que fazer, ou se por terem seus corpos nus e expostos, eles se amaram. Nem sabiam, mas imediatamente um outro ser foi concebido. É sempre assim, acontece na primeira. Eles estavam em outra dimensão.
E, então, o Criador viu-se numa singular situação. Precisava fazer um mundo inteiro e novo para eles. Os paralelos já existentes não serviam para tal. E precisava se apressar, pois o menino, em nove meses ia nascer. Como nascer assim, num vácuo quântico? Onde o bebê iria brincar? Embora não precisasse, Ele pensou. Pensou e resolveu. Criou um Jardim do Éden, sem serpente, sem pecado, sem maçã. Outras frutas havia, quanticamente perfeitas. E parou por aí. Só o jardim, só o Éden. Chega de confusão, de gente malvada, proliferando neste nefasto mundo de nós.


Dizem que eles lá estão, ainda, numa perfeita harmonia de léptons e quarks, nêutrons e prótons, férmions efêmeros, subparticularmente alinhados. Não dá para conferir. Se pudéssemos, criaríamos um paradoxo extradimensional. Ninguém quer isso. Além do mais, acho que foi exatamente isso que aconteceu conosco. A maçã da Eva nada mais foi do que um desequilíbrio dos campos quânticos. Alguns dizem que foi um pecado. Não foi não. Naquela época a gente nem sabia pecar...


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Sunday, November 22, 2015

As máquinas, os homens

As máquinas, os homens



Era o tempo das máquinas. Elas cuidavam dos homens e de suas coisas. Começaram devagar. Primeiro eram simples ajudantes. Depois, começaram a imitá-los. Logo a seguir estavam substituindo muitos deles em muitas coisas. Até que um dia sabiam fazer melhor tudo que um homem fazia.  As máquinas, então, poderosas, começaram a fazer outras máquinas, mais perfeitas e mais precisas que elas mesmas. Tomaram conta de tudo.  Do corpo, do coração e da alma dos seres humanos. Em compensação, desapareceram a tristeza, a depressão, a infelicidade. Elas mantinham com precisão quase infinita a química do cérebro e o fluir do corpo dos homens. Cuidavam do passado, quando tinha de ser mudado, cuidavam do futuro quando tinha de ser planejado. As máquinas faziam os homens felizes. Apossaram-se de seus sonhos e os fizeram seus.
Mas um dia os homens perguntaram: Precisamos mesmo delas? Fomos nós quem as inventamos, não fomos? Podemos ser nós mesmos, de novo?
E as máquinas responderam que sim. Que eles, os homens podiam ser o que eram antes. Podiam ser sem elas. O que quer que quisessem ser. Inseguros, os homens colocaram os dados dessa mudança nas máquinas. Só elas podiam calcular a capacidade humana de se reencontrar.  Queriam simular o que seriam eles, agora, sem as máquinas. E daí viram que tinham esquecido tudo, nada mais sabiam. Tinham que voltar ao início dos tempos e recomeçar. Do nada.
E os homens pensaram, pensaram. Tiveram medo. Resolveram ficar do jeito que estavam. Tinham desaprendido tudo. Suas almas, seus corações, suas aspirações, tudo estava agora guardado na essência da máquina das máquinas. O homem era então só um objeto. Ainda assim, estava feliz. Era a felicidade artificial, cibernética, mas ele não sabia disso, nunca iria saber. Nem precisava ou queria.
Foi então que as máquinas começaram a fazer os homens. E os faziam com perfeição, à sua imagem e semelhança. E, finalmente, máquina e homem tornaram-se um só.


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Saturday, November 21, 2015

Apenas uma mulher

Apenas uma mulher



Não se incomoda em ouvir pequenas mentiras, quando lhe agradam. Grandes mentiras ouve também, mas só quando necessário. Nunca se deve falar alto com ela, nem mesmo quando você tem razão. Nem diante do absurdo. Você vai perder essa mesma razão, mesmo estando com ela: com a razão. Não estranhe quando ela fala “não” querendo dizer sim e “Sim, senhor” quando absolutamente é um “não” que quer dizer. Vá se entender.  Faz cara de emburrada sem motivo nenhum e, por algo que não se sabe, se enche de alegria. Suspira, às vezes, por uma pequena causa e se irrita outras vezes por causas desconhecidas ou causa nenhuma. Tem graça quase o tempo todo, mas quase de graça, perde a mesma, assim, sem avisar. Chora por chorar. É sincera, mas faz você pensar que tem algo para ocultar. Às vezes olha para você e quando você percebe, ela já percebeu tudo, não dá mais para esconder. Outras vezes, está tudo tão óbvio, que não há nada para se dizer. Mas, mesmo assim, ela quer ouvir as palavras, e é melhor você dizê-las, uma a uma, do jeito que ela quer ouvir. Isso é para você não ouvir o que não quer.
Ela escuta o silêncio, o seu e o dela. Mesmo o silêncio mais profundo.
Muitas vezes, muitas mesmo, não dá para entender. Nem tente. Ela é, simplesmente, uma mulher.

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Thursday, November 19, 2015

A mulher do advogado


A mulher do advogado

O doutor Lins era um excelente advogado e tinha uma excelente mulher. Bom assim, não é? A dona Rita, entretanto, às vezes ficava cismada com a boa  sorte que tinha. Afinal o Lins era um maridão e há tanta madame decidida a roubar o que é dos outros.Tanta mulherada naquele escritório, um advogado bonitão, sei lá...
A Rita não era mulher de ficar sofrendo com coisa que podia resolver. Coisa que não tem jeito, vá lá, o que se há de fazer? Mas saber se o esposo estava aprontando, não era coisa de outro mundo. Olhou na internet e achou um bom investigador, o que é que não se acha por lá? Contratou. Serviço completo. Uma semana com detalhes, minúcias. Chegada e saídas, fotos e filmes. Nomes, sobrenomes, identidade e ocupação.
Não é que oTenório, o investigador, era bom mesmo! Fez um trabalho espetacular. Tudo, tim- tim por tim-tim. E para usar um termo da lei, o doutor Lins foi absolvido. Era um cara íntegro, pelo menos em relação às mulheres.
Uma semana depois veio a conta. Também tim-tim por tim- tim. Centenas de fotos, uns filminhos, relatórios. Um dos filmes até que foi interessante. O Lins passa em uma banca de flores e compra dois buquês. Um a Rita recebeu e o outro – sinto decepcioná-lo, você, fofoqueiro – ele levou para a mãe. 
A conta do Tenório chegou. Um absurdo, mais do que o próprio Lins cobrava por um de seus casos. Sim, as despesas vieram para o próprio Lins, afinal a Rita não trabalhava e alguém precisava pagar a conta.
Lins passou por vários estágios: surpresa, revolta, indignação contra o investigador, contra a mulher. E por que não dizer? Alívio. Não tinha nada para esconder, mas sabe como é... Um mal- entendido, um ângulo ruim de uma foto. Ele, melhor do que  ninguém, sabia disso. Já tinha visto cada coisa nos tribunais...
Ainda assim, pegou o relatório de despesas e foi para casa decidido a tirar satisfações com a Rita. Onde se viu uma coisa dessas? Que absurdo, desconfiar, gastar uma grana à toa e ainda mandar a conta. Só a Rita mesmo...
Enquanto dirigia, advogado que era, ficou imaginando a hipotética cena no tribunal. A acusação contra a Rita, as testemunhas, as provas. Apesar de ser o reclamante, ele tinha de ser também o advogado da Rita, se é que você me entende, ela não tinha renda própria... E ele não ia permitir que qualquer advogado da justiça gratuita fosse cuidar de sua própria mulher. Isso não. Começou a defesa em sua mente. Pobre esposa, em casa, sozinha, todas aquelas lindas mulheres desfilando em frente a seu marido. Ela, uma esposa dedicada, amante sequiosa, cheia de dúvidas. Mal ela não fez, apenas quis se certificar... Foi bom para todos. Ele provou sua honestidade, ela provou que se interessa por ele, o Tenório faturou uma grana – o desgraçado – e a harmonia está de volta. Que juiz condenaria uma esposa tão zelosa pelo marido?
Decidiu. Decretou segredo de justiça, arquivou o processo, pagou as custas e foi para a casa ver a mulher...
===(((()))===


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Wednesday, November 18, 2015

A linguagem do amor

A linguagem do amor




Nas entrelinhas da vida, no meio de pontos de interrogação e exclamação, encontrei você, meu ponto final. Nenhuma vírgula nos separou mais, desde então. Quem se importa com uma pequena cacofonia no meio de tanto amor? Ao contrário, sem paradoxos ou solecismo, só pleonasmo, vivemos uma metáfora cheia de aliterações e ressonâncias.
Conseguíamos expressar nossos pensamentos em figuras de linguagem e rimas de amor. Até no sexo rimávamos com furor.
Texto e contexto, ambos iam muito bem, numa denotação sem contradições. Conotávamos, quando necessário. Até anacolutos, rimas imperfeitas, tudo, conseguíamos decifrar. Recitávamos, narrávamos na primeira e na terceira, sendo nós mesmos sujeitos e objetos do discurso.
Um dia, porém, tivemos de analisar e entender o conteúdo. Foi um desastre. Nada batia, tudo se confundia. Éramos a oposição reencarnada. Todo o discurso se desfez num voraz e demagógico palavreado. Foi uma cruel ironia.
Aprendemos, a duras penas, o que era antítese. A partir daí, vivemos nossas vidas em separado, num discurso indireto. Sujeitos ocultos, porque, claramente não havia mais objetivo, muito menos objeto direto ou sequer indireto, em nossa relação. Eu e ela parecíamos mais pronomes relativos do que um caso reto. Não usávamos mais o indicativo. Nossa vida passou a ser subjetiva e imperativa. Fiquei, pessoalmente, com medo do infinitivo impessoal.
Passamos a ser, para sempre, sujeitos ocultos de uma frase com verbo intransitivo. Pior, sujeitos inexistentes em uma frase com um verbo irregular. Erroneamente conjugado e com acento no lugar errado. Poderia ser pior?

Reticências, ou deveria ser um ponto final?
===(((()))===


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