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Thursday, November 29, 2018

Resumindo a história...




Resumindo a história...

Quem gosta hoje em dia de ficar lendo um texto enorme? Todo mundo quer coisa fácil, rápida. Os cronistas precisam ser sucintos, concisos. Substantivos sem adjetivos ou adjetivos que já digam tudo. Objetividade, essência e graça. Fazer uma crônica como se faz um poema, sei lá...  Significar sem enrolar, direto ao ponto?
Acho que é isso. Fim!
Ooops, ficou muito curta... Acho que exagerei!




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À procura de Lucas  (Flávio Cruz)
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Sunday, June 4, 2017

As criaturas


As criaturas

Estão matando os monstros que aparecem. Eles são muitos, porém, e continuam a aparecer. Não se sabe de onde vêm. São heróis reversos, de causas sem sentido, de razões sem razão. O homem, perplexo, agora já tem medo de seu próprio reflexo. Reflete, busca causas e motivos. Sua lógica, entretanto, não é a mesma. São referências diversas que se desencontram e se afastam. Para cada demônio morto, outros, multiplicados, vão surgindo, mais ferozes. Às vezes fingem brigar entre si para nos distrair. Outras vezes se juntam em trágica aliança, para nosso desespero.
Às vezes, acho que sei quem criou estas nefastas criaturas, outras vezes, acho que não. Penso que sempre existiram, escondidas, e que só agora estão se mostrando. Depois penso que são novos demônios, vindos do futuro para nos assustar. Outras criaturas monstruosas já existiram, mas foram embora. Penso que estas também irão um dia. Talvez elas nunca se foram e essas são as filhas, ferozes, bastardas, daquelas que já morreram. 
Tudo isso não importa. Precisamos encontrar os anjos guerreiros. Fortes, valentes. Nós, sozinhos, não podemos vencer.
Mas onde estão os anjos? Meu Deus, eles estavam aqui agora há pouco e já não sei mais onde eles estão.


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Paralelo 38 e outras histórias
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Monday, August 15, 2016

Nada sabemos



Nada sabemos


-Tudo depende da triangulação dos elementos.
-Você tem razão. Entretanto, é necessário um fator de motivação antes disso. E, antes dessa, um princípio gerador. Sem isso, não há nada o que triangular, meu amigo.
-Puro engano seu. Se os elementos estão lá, a triangulação ocorre, as coisas acontecem...
-Não concordo. Sem princípio gerador, nada começa. Triângulos, quadriláteros, nada importa. Posso garantir isso com conhecimento de causa.
Eu não sei do que essas pessoas estão falando. Você, certamente, não sabe também. Podem estar falando de Filosofia, de História. Até de algo mecânico, como posso saber? Como citam a palavra “motivação”, há uma grande possibilidade de que o assunto se refira à área de humanas, mas ninguém pode garantir. Pode ser linguagem figurada, pode ser tanta coisa. 
A maioria das pessoas, no entanto, nas situações do dia a dia, aventura-se a interpretações.  Quase sempre. É claro, de acordo com seu próprio conhecimento, experiência de vida, convicções e, principalmente, de acordo com seus interesses. Essa ansiedade do ser humano de procurar significado em tudo, essa vontade de querer interpretar o mundo e as coisas, tendo só uma pequena nesga da verdade, é o que nos leva ao caos. Isso mesmo, esse caos que está por aí, as inúmeras e estranhas religiões, crenças, sociedades misteriosas, tudo isso é consequência dessa necessidade de querer explicar o universo através de uma ínfima, quase inexistente, parcela da realidade. A verdade é que não sabemos nada, quase nada. E o pouquíssimo que sabemos ainda precisa de contexto, de maiores explicações. Em suma, o que conhecemos está muito próximo de zero e vai demorar muito, muito mesmo, para sabermos só um pouquinho.






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Histórias do Futuro

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Sunday, January 10, 2016

O tempo passa pela janela



O tempo passa pela janela

Pela janela vejo o pássaro passar, voando no azul do céu. De repente me lembro de como o tempo também passa. Passa rápido, mais rápido do que quero pensar. Dizem que ele apaga tudo. Apaga? Talvez sim, mas as cicatrizes ficam. Que se danem as cicatrizes, só sei que estou de passagem. Sou assim, como todos, um passageiro com passagem de ida, sem volta. Passo por tempestades, por bonança, por todas as coisas pelas quais tenho de passar. Depois, quando a vida terminar, o tempo para de passar? A eternidade é isso? O tempo parado, estagnado na imensidão de nós mesmos? Mas como é “não passar”? Não existe isso, como não existe um começar. Se existisse, o que estaria se passando antes disso? A existência deve ser, sim, um começo que começa no fim daquilo que ela mesmo começou. Um círculo absurdo, sem pontas, rodopiando, alucinado, sem propósito, sem fim?
Ainda bem que o final de semana está chegando. O tempo vai passar rápido, e vai ter feijoada. Vai ser tão bom, que nem vou ver o tempo passar. Na segunda, então, vou olhar de novo pela janela. E ver se o pássaro passa de novo pelo azul do céu. Se ele passar, é porque o tempo continua passando como devia passar. Apenas queria que ele não fosse tão veloz assim ...


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Friday, October 30, 2015

O Louro e o Seminário

O Louro e o Seminário

Antigamente havia os seminários: colégios particulares católicos para onde meninos que supostamente tinham “vocação” para padre, eram enviados para aprender latim, grego e tudo mais que era necessário para a missão. Normalmente eram enviados para as instituições com a idade de 10 anos, época em que se iniciava o antigo “curso ginasial”. Obviamente com essa idade a vocação, quando existia, não era dos meninos, era dos pais. Em muitos casos alguns garotos eram matriculados porque, afinal, os seminários eram excelentes escolas e, além do mais, quase sempre, grátis. Naqueles tempos difíceis para muitas famílias, talvez essa fosse a única esperança de se obter uma boa formação para os rebentos.
Foi o que aconteceu com o pequeno Fábio. Pais simples, mas desejosos de que o pimpolho fosse algo na vida, mandaram o mesmo para um seminário distante. Estava estabelecido que as visitas só poderiam ocorrer duas vezes por ano. Dureza. Fábio ainda era m muito criança para isso. Nessa época todo mundo ficava muito tempo junto. Mães em casa trabalhando e o pai voltando às 4 da tarde (eu sei o que você está pensando, mas ele saiu de casa às 4 da manhã...). Vida de família, refeições em conjunto sempre que possível. Um tempo que não volta mais (nem as coisas boas, nem as coisas más...).  O menino estivera sempre por ali, a mãe chamando para tomar o café, para almoçar, para ir até a padaria comprar o pão... Brincadeira de bola, de taco, bolinha de gude, pipa... Agora lá estava o pequeno Fábio confinado num prédio sombrio, distante...talvez esteja exagerando, mas que era triste, era. Estava me esquecendo do papagaio que eles tinham em casa e que eles chamavam pelo nome óbvio de “Louro”. O danado repetia tudo... E a mãe de Fábio falava as mesmas frases todos os dias. “Fábio, vem para casa!”, “Fábio, vem tomar banho!”, etc, etc.

Foi uma tristeza nos primeiros dias e, para dizer a verdade, nos dias e semanas e meses a seguir, também. Uma tristeza e uma saudade que, ao invés de diminuir, aumentavam. Mas os primeiros dias foram mais agudos, mais dolorosos, por causa do Louro. Ninguém esperava que ele fosse fazer aquilo. Era inteligente, sabia que o Fabinho tinha saído. Como é então que, sem mais nem menos, durante o dia, começava a gritar: “Fábio, vai buscar o pão!”  Dali a pouco: “Fábio, vem almoçar!”. Se a Dona Amélia não estava chamando, por que o danado estava tomando a iniciativa de gritar daquele jeito. A obrigação dele era só repetir, não tomar a iniciativa. E o danado berrava: “Fábio, vem tomar banho!” Ele não queria nem saber se o Fabinho estava no seminário. O menino tinha de cumprir suas tarefas e ele a sua, de chamar, chamar. Isto não seria tão triste assim se não fosse o estado emocional de Dona Amélia e do pai de Fabinho. Não era fácil, aquela dor de saudade no peito e o malandrinho do papagaio gritando, gritando... lembrando o tempo gostoso em que a família toda estava junta. Dona Amélia não conseguia segurar as lágrimas que vinham aos borbotões toda vez que o Louro abria a boca, quero dizer, o bico. Não disfarçava e podia se ouvir o choro de longe. O marido era mais durão. Nunca ninguém vira uma lágrima em seus olhos. Quando o papagaio gritava, ele disfarçava, ia até a sua oficina de carpinteiro – eu me esqueci de dizer, ele era um marceneiro igual a José, pai de Jesus – e ficava lá com uma ferramenta qualquer, disfarçando.Se você pudesse entrar lá sem ele ver, você iria notar que o pai de Fabinho, estava chorando lágrimas ainda mais grossas do que as de Dona Amélia, se é que isso é possível. Mas, você sabe, naquela época, os homens não podiam chorar. Coitado do Sr. Benevides... Que tristeza!

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Saturday, August 1, 2015

Uma fábula assustadora










Uma fábula assustadora

Eu não sei que conclusão você vai tirar dessa história, pois eu mesmo tenho dúvidas. Ainda assim vou contar. A pequena chácara, bem lá no interior do país não tinha nada de especial. Uma casa relativamnete simples e um pequeno celeiro ao lado. Um casal e um garoto habitavam o local. Na verdade nem sei se eles têm importância no enredo ou não. Deixo para você essa interpretação, como já foi dito, pois aqui minha obrigação é apenas relatar os fatos, absurdos ou não. O foco dessa pequena fábula é, por estranho que possa parecer, um formigueiro que estava ao lado do celeiro. Nem era grande, tinha no máximo trinta centímetros de diâmetro e uns vinte de altura. Mas você sabe, a verdade está nos detalhes, nas coisas minúsculas. Veja o nosso caso, por exemplo. Quero dizer o caso dos seres humanos, o que somos neste universo infinito? Quase nada. E mesmo assim não é que brincamos de Deus, descrevemos o universo, replicamos a vida, dissertamos sobre a relatividade com absoluta precisão, enfim, você sabe tudo que fazemos. Continuamos pequeninos, um minúsculo grão de pó, como dizem, flutuando ao redor de outro pequeno grão, que é o sol, apesar de tudo que já sabemos. O caso das formigas que lá moravam tem uma certa semelhança com o nosso caso. Vamos aos fatos.
O garoto estava brincando junto ao celeiro quando recebeu uma pequena picada de uma minúscula formiguinha. Não doeu quase nada. Pensou em chorar, mas depois viu que estava sozinho e conteve as lágrimas. Nunca se sabe, talvez precisasse delas mais tarde, para que gastá-las quando ninguém observava? Isso também não é importante. O que realmente devemos levar em consideração é o que aconteceu a seguir. Assim que sentiu a agulhada, ele procurou a culpada. Instantaneamente a liquidou sem remorso nem nada, embora, você deve concordar comigo, o pequeno inseto também é um ser vivo e se você considerar a relatividade das coisas todas, ele é tão importante como a gente. Mas poder é poder. O garoto podia, quis, e matou a coitadinha. Não é assim que nós humanos fazemos às vezes? Daí ele viu que havia muitas outras. Uma fila inteira, apressada, vindo e indo, se cruzando no caminho sem nunca trombar. Organizadas. Trabalhadoras. Levavam suprimentos para ... foi aí que ele viu: o formigueiro.
Eu não sei exatamente o que ele pensou. Posso conjeturar, entretanto, que ele fez uma analogia. Aquele montinho de terra fofa era como se fosse um mundo inteiro, cheio nde vida. Era  a “Terra” dos pequenos seres, embora não girasse, não tivesse oceanos, nada disso. De certa forma ele ficou admirado de ter todo um mundo ali, à sua disposição. Poderia dar um chute, acabar com tudo. Tantas coisas poderia fazer. O que decidiu finalmente foi cobrir o “planeta”, que acabara de descobrir, com uma panela de ferro que havia no celeiro. Assim teria tempo de fazer planos, de pensar.
Agora vamos deixar o pequeno fazendeiro, e agora proprietário de um pequeno formigueiro, ir viver sua vida, cuidar de seus afazeres. Vamos para dentro do pequeno reino para ver o que aconteceu. A primeira coisa que perceberam foi que não havia luz. Depois perceberam que suas irmãzinhas ficaram presas lá fora. Claro, isso é uma questão de ponto de vista. Para as que ficaram fora, as de dentro é que ficaram presas. A verdade é que as de fora ficaram confusas sem um lar para voltar, acabaram de perdendo, acabaram morrendo. Elas poderiam ter sobrevivido. Só não o fizeram porque não podiam ouvir a Rainha dando as instruções.
Lá dentro instalou-se o estado de emergência. A busca por suprimentos foi cancelada temporariamente. A prioridade era achar uma saída. E elas procuraram, como procuraram, as coitadinhas. Não sei se foi o desespero, ou simplesmente azar, mas não achavam um portal para o mundo externo. Às vezes topavam com uma rocha, outras com uma grossa raiz, enfim nada dava certo. O destino, porém, tem seu próprios caminhos: procurando por uma coisa, acharam outra. Por um dos buracos que fizeram para cima, começaram a cair grãos de milhos vindos do celeiro. E quanto mais os tiravam do caminho, mais e mais eles vinham rolando.O que poderia ser motivo para desespero, acabou sendo motivo de alívio. Pelo menos estavam garantidos com respeito à alimentação. A Rainha ordenou que parassem as buscas por uma abertura para o mundo exterior e se concentrassem na organização geral e distribuição dos alimentos. E assim o fizeram. Depois de um certo tempo, no entanto, não havia muito o que fazer além de comer, é claro. A rainha imediatamente sentiu o perigo e mandou que todos fizessem exercícios. Ficavam andando em círculos, queimando as calorias. Ela ordenou também que se organizassem comissões, formadas pelas formigas mais inteligentes, para pensar, pesquisar, descobrir uma solução. Neste processo, elas acabaram evoluindo bastante. Começaram a criar hipóteses, fazer teorias. Algumas se destacaram por sua grande inteligência.
Muito tempo se passou e o saber foi passando de geração para geração. Por outro lado elas foram se esquecendo do que acontecera. O dia maldito em que tudo escureceu, ninguém mais lembrava. Virou uma espécie de historinha que se conta para crianças, uma lenda apenas. O conhecimento, porém, continuou crescendo. Posso arriscar e dizer que se continuassem assim por um tempo razoável, elas poderiam evoluir muito e chegar a um estado de civilização quase humana, se não mais, se considerarmos que, além de tudo, elas são disciplinadas.
De novo o destino. Na Terra maior, na nossa, não aconteceu também aquela catástrofe,  aquele meteoro gigantesco que caiu e matou todos os dinossauros? Acontece. Desgraça acontece, acontece sempre, meu amigo. No caso das formigas começou com uma benção e depois... Imagine uns extraterrestes chegando, iluminando nosso caminho, abrindo fronteiras e depois...Bom, vou direto para a parte final, chega de comparações. Eu havia me esquecido de que não quero me intrometer nessa parte.
Um dia, sem mais nem menos, uma forte luz veio de cima, quase todas as formiguinhas a viram imediatamente. Logo, logo, as outras vieram de dentro das camadas mais internas e também viram aquele foco branco vindo de cima. E havia calor também. Um calor diferente. Para elas um fato que mudava tudo, algo infinitamente importante, mas na verdade era uma coisa bem simples. Havia um novo dono da propriedade. Ao dar uma volta ao redor do celeiro, viu aquela panela e resolveu pegá-la. Era grande e de ferro fundido e poderia ser útil para a esposa preparar carne assada ou polenta. Ficou contente mas não gostou muito do formigueiro que viu debaixo. Havia um monte de bolsinhas brancas o que significava que aquilo ainda ia crescer muito.
Por alguns minutos, foi como um grande milagre. Todas saíram , até a Rainha resolveu dar uma espiada. Imediatamente começaram a fazer uma fila e a andar pelo terreno. Estava no DNA, quero dizer “fazer fila” estava na informação genética delas. Mal tinham começado a explorar este vasto mundo de Deus, quando um líquido amarelo começou a cair em profusão dos céus.Ondas gigantescas se formavam e a maioria delas se viu engolfada no líquido. Algumas se agarravam desesperadas nos pequenos grãos de areia, arbustos, gravetos ou qualquer coisa disponível. Aquele líquido era horrível mas não era pesticida, elas não morreram ali, na hora. Era gasolina, talvez pudessem até sobreviver. Mas se elas conhecessem melhor os humanos, saberiam que quando vem gasolina assim, de graça, é porque vem fogo atrás. Nem tiveram tempo de sofrer. Labaredas enormes consumiram as pobrezinhas. Só se salvaram algumas que ainda não tinham saído e que estavam nos porões mais profundos do formigueiro. Mas o novo fazendeiro não teve dó. Foi lá e com uma pá revirou tudo. Jogou mais gasolina e pôs fogo de novo. Não sobrou nenhuma para contar a história.

Faz sentido uma coisa dessas? Passar por tudo que passaram , sobreviver, evoluir e depois serem eliminadas de forma tão cruel? Justo quando viram uma luz salvadora vindo dos céus?
Eu não acho justo e por isso contei essa história. Alguém tinha de contar. É uma fábula. Como eu disse no começo, tente você achar uma explicação. Para mim não tem. É a coisa mais absurda que já vi.


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Monday, February 10, 2014

Os gringos andaram “colando” na prova

Os gringos andaram “colando” na prova



Nada mais razoável do que os oficiais da Força Aérea Americana, aqueles que cuidam do lançamento de mísseis nucleares, terem de passar por um teste. Não existe nada de razoável no fato de ainda haver  esses tipos de arma, entretanto. Muito menos razoável é esses oficias “colarem” no exame que precisam fazer. Isso mesmo, cerca de 100 oficiais – aqueles que, no caso extremo de uma guerra nuclear, apertam os botões de lançamento – “colaram” ou tentaram, ao fazer suas provas de habilitação para a “nobre” função. Nem em filme de terror, ou naqueles de conspiração extrema, foi visto algo assim.
Agora, as autoridades estão investigando. Ufa, ainda bem. Espero que ninguém “cole” ao escrever os relatórios sobre o incidente. Aliás, fiquei surpreso – mas não deveria – de saber que pelo menos 100 oficiais são necessários para operar essas máquinas. Deve haver muitas delas, mais do que imaginamos. “Scary”, como dizem os americanos.

Estão vendo? Esse pessoal fica criticando o nosso querido país. Esse tipo de coisa nós não fazemos, nem mesmo em Brasília. Claro, devo confessar que nós nem sequer temos esse tipo de mísseis, pelo menos pelo que sei. Além disso, quem precisaria fazer testes para uma coisa dessas? Uma simples indicação política, sem burocracia, resolveria todo o problema. Eu não sei por que o pessoal por aqui complica tanto as coisas. Para que tantos testes? É só saber apertar uns botões e pronto...

Monday, December 3, 2012

O Incerto Destino da Nave CRA 2513-79


O Incerto Destino da Nave CRA 2513-79

Voltando

Agora estava chegando a hora da verdade.  A qualquer momento Dr. Lynn seria descoberto. Teria de admitir que havia reprogramado seu destino para Marte. Não sabia se haveria uma luta de palavras ou apenas uma luta cibernética tentanto reverter sua rota para a Terra ou talvez algo pior. Agora mais do que nunca, Dr. Lynn queria levar sua cidade voadora para o Planeta Vermelho”. O nome soava estranho, porque havia pouco vermelho por lá. Marte agora se parecia muito mais com a Terra de antigamente, era muito mais humano que nunca. Um verdadeiro céu para quem detestava a escravidão total para as máquinas, para a “Inteligência”, para a “Rede”. Dr. Lynn revisava em sua mente os 50 anos de viagem, o projeto, como tudo aquilo passara a ser o seu motivo de vida. Em muito pouco tempo saberia se poderia voltar a sentir felicidade genuína, não induzida por computador. Sentir de novo o que é ser humano…

CRA 2513-79: A BELA ADORMECIDA

Muitos séculos haviam se passado desde que o homem havia pisado na Lua pela primeira vez. Agora os terráqueos estavam espalhados não só pelo sistema solar mas também faziam parte da colonização de planetas distantes. Havia também o que era chamado de “planetas móveis”, enormes naves espaciais que ficavam viajando pelo espaço por tempo indeterminado. Elas acomodavam milhares e milhares de navegantes, verdadeiras cidades voadoras. Elas eram importantíssimas  não só por motivos práticos e logística espacial mas também por motivos científicos.
A raça humana estava irreconhecível  se pensarmos em termos de século 20 e 21. Não havia mais concepção no sentido que o termo tinha séculos antes. Todos os humanos eram feitos por computadores em laboratório, geneticamente já direcionados para a função que iriam exercer e o local para onde seriam enviados. Finalmente o “admirável mundo novo” de Aldous Huxley havia se concretizado. O caso da nave “Sleeping Beauty”, nome romântico dado para a estação móvel  “CRA 2513-79”, era porém ainda mais especial.  Havia sido lançada há 50 anos da Estação Lunar “LR 21VT” e tinha uma missão específica. Originalmente ela tinha apenas 97 navegadores, todos cientistas de diversas modalidades.  Nesses anos todos sua população tinha aumentado para 37.334 habitantes, o que na verdade havia sido também planejado. Era mais do que uma nave, era uma cidade ou um planeta navegando pelo espaço.
Marte
Marte, visto do espaço, era agora muito diferente dos primórdios da colonização do espaço. Havia verde e azul como na Terra e grandes conglomerados de construções:  na verdade, agora áreas habitadas pelos colonizadores. Por inúmeras décadas foi tentada a técnica da terraformação para se conseguir uma atmosfera semelhante à da Terra mas o resultado ficou no meio do caminho. Ainda assim foi possível a colonização. Uma parte dos humanos que vinham para Marte já estavam geneticamente preparados para resistir a essa atmosfera mais hostil. Ainda assim usavam nano-implantes como complemento para que seus corpos pudessem resistir a um  ambiente tão diferente como o do nosso planeta  irmão. Outros viviam em ambientes cobertos por abóbodas enormes,  feitas de material fino mas extremamente resistente. A nanotecnologia e a tecnologia de resistência de materiais haviam alcançado níveis de sofisticação que ninguém sequer jamais imaginou. Os terráqueos sem a configuracão genética necessária tinham de usar mais aparelhos para poderem sair das áreas fechadas e enfrentar a nova atmosfera do planeta. Os marcianos, como eram chamados os “bebês” criados em laboratórios na nova colônia da Terra só poderiam ser feitos a partir de material de adultos já geneticamente modificados. Ironicamente, o “admirável mundo novo” da nova colônia da Terra era aparentemente mais feliz e mais “humano”do que a própria civilização do Planeta Terra.
Na verdade, 57 anos depois que oficialmente habitantes e não exploradores definitivamente se instalaram em Marte, ela passou a ser uma ex-colônia. A partir do momento em que a inteligência artificial tomou conta de tudo, uma parte da comunidade científica começou a demonstrar forte preocupação com os rumos que isto poderia tomar. O Estado, agora na verdade a “Grande Confederação” , teria suas ações baseadas 100% por cento na decisão dos computadores quânticos, considerados perfeitos. Os dirigentes - o Grande Conselho - apenas corroborariam essas decisões e na verdade apenas as mais importantes. Milhões de pequenas e médias ordens seriam executadas automaticamente sem passar por qualquer escrutínio de seres humanos. Eram muito fortes na cabeça de todos as inúmeras barbaridades executadas por políticos e dirigentes nos séculos 20 e 21. A confiança nas decisões da inteligência artificial era quase unânime.Todos sabiam também que o próximo passo seria deixar que também as grandes decisões fossem executadas diretamente pela “Rede” sem necessidade de aprovação de qualquer ser humano. Aí residia um grande perigo segundo um segmento da comunidade científica. E se os computadores ficassem tão “humanos” que assimilassem também suas “megalomanias”?
Havia uma linha de cientistas que mais e mais queriam evitar esse poder  crescente das máquinas. O Grande Conselho começou a isolar os cientistas dessa linha de pensamento no planeta Marte. Foi uma espécie de exílio. E a grande ironia que isso foi decisão também dos computadores. Ironia maior ainda foi quando os mesmos computadores decidiram que era melhor não intervir quando os cientistas de Marte juntamente com sua administração decidiram se separar da Terra. Foi verdadeiramente uma grande ironia ou talvez a sofisticada rede de Inteligência tivesse planos mais sofisticados para o futuro. A verdade é que o Grande Conselho foi fiel a seus princípios e confirmou as decisões da Rede de Inteligência, permitindo a formação de um Conselho independente em Marte. De qualquer forma, não teria havido violência ou Guerra ou motim de uma parte ou de outra. Há muito tempo isto havia sido banido da nossa civilização. A Lua, outros planetas e os “planetas móveis” continuavam parte do sistema de colônias da Terra. Marte era uma espécie de reduto humanístico, talvez uma referência para a Terra, que em em sua marcha futurística,  poderia vir a perder todo contacto com o que é essencialmente humano. Você sempre poderia olhar para Marte e perceber que se pode mergulhar na ciência sem perder a humanidade.
O Projeto  “Bela Adormecida”
Durante o longo período de debate entre os “humanistas” e os “intelligents” – a celeuma durou décadas - um grupo de cientistas, apoiado pelo Grande Conselho, dedicou-se a um grande projeto chamado “Bela Adormecida”. O projeto tinha duas faces, uma para o público em geral e para os cientistas normais e uma outra, mais secreta, para os os cientistas magnos – as grandes inteligências do sistema - e o Grande Conselho. Era aceitável haver um lado secreto para projetos pelos mesmos motivos que os governos antigos tinham serviços secretos, serviços de inteligência, etc. No entanto ninguém imaginaria haver  motivação política na parte “não pública” do projeto mas apenas segredos científicos. O projeto “Bela Adormecida”  tinha como objetivo principal criar um grupo de pessoas com características genéticas desejáveis para o próximo milênio. Em outras palavras, fazer já, em cinquenta anos, o homem perfeito, o homem que normalmente só apareceria em mil anos se a ciência genética seguisse seu caminho normal, o que já era assustador. Para fazer isso o plano previa o isolamento de espécimes humanas de primeira linha, a seleção dos maiores cientistas – chamados “magnos”- do setor de genética, e a instalação do que havia de mais avançado em computação quântica numa grande nave, com capacidade para 40.000 pessoas: CRA 2513-79 ou a  BELA ADORMECIDA. Era uma mini terra que seria enviada para fora do sistema solar. Haveria um sistema de comunicação reduzido com a terra, mas o resto da nave teria vida própria e independente. Durante a viagem – projetada para 50 anos – 97 cientistas iriam aprimorando e selecionado espécimes humanos cada vez mais perfeitos, dentro de uma população geral de cerca de 40.000, projetada para o final da viagem. O grupo final a ser selecionado – projetado para 300 -  seriam os “super-homens” e deveriam ter a idade de 5 anos por volta da época em que o projeto fosse encerrado. Voltariam então para a Terra para a fase final do projeto. A partir daí forneceriam material genético para as futuras gerações, as gerações dos homens perfeitos. Havia muitos comentários entre os entendidos. Muitos acreditavam que o novo homem não teria sexo, afinal de contas, ninguém era mais concebido pelo sistema antigo. Essa nova espécie também não se comunicaria através da linguagem mas através de ondas elétricas emitidas por seus cérebros super especiais. Mas nada era positivo ou garantido. Havia uma sombra de mistério e segredos envolvendo tudo que se referia à gigantesca nave. Além dos motivos técnicos, havia um de ordem política para esse projeto ser feito em um local distante da Terra: ficar livre de influências de qualquer tipo. Tinha de ser um projeto  puro.
Dr.Lynn: uma ironia
Dr Lynn era uma verdadeira lenda no meio científico. Além de saber usar com maestria os benefícios da inteligência artificial no seu ramo, era também muito intuitivo, aliás a única forma de um ser humano chegar a competir com os computadores. Havia um boato de que ele era humanista o que não seria muito bom politicamente, mas ele nunca admitiu isto, nunca deu declaração pública a respeito. For por isso que a notícia de que ele seria o chefe da missão, pareceu um pouco estranho no seu meio. No entanto lá estava ele, coordenando todo o projeto, inclusive a construção da fantástica e gigantesca nave na órbita da Lua. Inúmeros  cargueiros espaciais viajavam todos os dias da Terra para a órbita lunar para levar material geral  e genético e na parte final do projeto, equipamentos sofisticadíssimos de inteligência artificial. Alguns deles nunca tinham sido usados ou experimentados antes, mesmo porque só funcionavam bem em velocidades próximas da luz.
Foi ideia do Dr. Lynn – e bem aceita pelos responsáveis do projeto – fazer um grupo de controle. Esse seria formado por um grupo 300 pessoas normais, ou pelo menos que não usariam técnicas especiais de aprimoramente genético para servir de contraparte para os “grupo de 300” super-homens. Seriam “concebidos” durante a viagem também. A ideia era ter pessoas normais evoluindo paralelamente. No caso de as coisas darem errado, pelo menos haveria uma referência.
Mesmo para uma ética extremamente mais tolerante – geneticamente falando – do que a da era pré-colonização, o projeto era ousado. Esses  novos seres ao atingirem 5 anos de idade já estariam no completo domínio de suas faculdades mentais. Estariam livres do resto que sobrara de influências sentimentais, morais ou qualquer coisa que impedisse o homem do futuro de atingir o ápice da raça humana. Sexo, ambição e fome ficariam sublimadas de alguma forma neste novo cérebro criado pela inteligência artificial, embora fosse “humano”.
A civilização humana estava bastante adiantada também em termos de convívio social, respeito às regras, etc. Não havia mais guerra, revoluções, insatisfação, terrorismo ou qualquer coisa do gênero.  Por isso era preocupante que naquele momento se instalava uma grande conspiração dentro desta inédita fase de nossa evolução. O verdadeiro segredo da missão, quase ninguém sabia, era que, na verdade, os “super-homens” resultantes da viagem da “Bela Adormecida” não seriam usados como um banco genético para o futuro da humanidade como estava sendo propagado, mas sim, assustadoramente, para serem uma espécie de complemento para as máquinas que constituiam a “Rede”, ou o fantástico hardware base da “Inteligência Artificial”. Os corpos deveriam ficar em estado de hibernação e seus cérebros seriam conectados à rede. Este seria o requinte final para a inteligência artificial: o toque humano que faltava. Daí a necessidade de um “super-homem compatível com a fantástica sofisticação daquelas máquinas.”, Em cinquenta anos seria possível criar uma atmosfera em que isso ficasse viável ou até aceitável ou necessário diante dos olhos da população regular. Era o que esperavam. A nave voltaria para a Terra com a nova geração dos 300. O plano para os outros milhares que também iriam “nascer” na nave era colocá-los de volta em outras viagens. Eles não estranhariam pois era o que eles sempre tinham experimentado: viver em uma nave. Até a volta da Bela Adormecida o movimento “humanista” provavelmente teria arrefecido. Os articuladores do projeto achavam que ao nomear Dr Lynn para chefiar a missão, estavam conseguindo uma espécie de salvo-conduto para suas experiências. Ninguém suspeitaria de que havia algo escuso por trás de tudo. Ficaram por um lado aliviados e por outro admirados quando o proeminente cientista aceitou o cargo. O que eles não sabiam, entretanto, era que Dr. Lynn tinha bem claro em sua cabeça que aquilo seria feito com ou sem ele. Melhor com ele, pensou. Além disso, quando ele sugeriu o “grupo de controle” ele tinha algo diferente em mente.
A Viagem
Dr Lynn contava com a vantagem de não ter que enviar mensagens constantes para a Terra. Afinal nem eles queriam. Não seria uma boa ideia pessoas alheias à verdadeira finalidade do objeto terem acesso aos desenvolvimentos que estavam ocorrendo na “Bela Adormecida”. Quanto menos informação, melhor. Verdade é também que os computadores tinham a programação e saberiam se o desenvolvimento do projeto em termos científicos estava se desviando do objetivo. Dr. Lynn sabia como encaminhar suas pesquisas de modo a satisfazer à “inteligência”. Além disso havia muitos entre os 97 que compartilhavam secretamente com as ideias humanistas do Dr. Lynn e nos anos seguintes, com calma e cuidado, outros mais, muitos, foram convencidos. No entanto, a espinha dorsal do projeto tinha de ser mantida.
Centenas de “novas vidas” já com as instruções genéticas de aprimoramento eram feitas a cada mês. Os “bebês” passavam por sofisticados estágios de aprimoração. De cada  grupo de 1000 novos seres, apenas alguns eram retirados para prosseguirem no projeto. Seriam crianças de 5 a 10 anos superdotadas apenas.  Os outros passavam a fazer parte da população regular da nave, cada um executando suas tarefas. Para o projeto eram praticamente peças rejeitadas. Não para o Dr. Lynn, que criou em volta delas uma verdadeira comunidade do espaço. Uma espécie de grupo privilegiado, que compartilhava antigas visões “humanísticas” da sociedade.
Havia um pequeno “Conselho” formado pelos principais cientistas da Bela Adormecida”. Faziam reuniões periódicas sem a presença da “Inteligência”. Essa havia sido uma das exigências de Dr. Lynn para aceitar a empreitada. Ele havia convencido a comissão especial de que isso era fundamental numa viagem com quase total isolamento da Terra. Poderia haver emergências que nem mesmo os melhores computadores poderiam prever. Eles precisariam de margens de manobra para situações especiais. Tudo isso era mesmo verdade e Dr. Lynn sabia que ele não poderia passar 50 anos “driblando” a “Inteligência” mesmo como estava na nave, desligada da “Rede”. Havia salas especiais onde esses encontros se realizavam completamente desconectadas do resto da Bela Adormecida. Ali se falava abertamente das digressões propositadamente aplicadas ao programa. Não havia segredo. Quanto aos novos habitantes “nascidos” na nave não havia nenhum problema, eles estavam sutilmente sendo “educados” como cidadãos” da Bela Adormecida. Fora fácil “convencer” os computadores da nave que essa seria a melhor forma de passar aquelas décadas iniciais.
A menina “Gênesis”
 Uma grande novidade era que os novos habitantes podiam procriar como nos velhos tempos. Começou com um acidente. Aconteceu. É verdade que não teria acontecido se Dr.  Lynn seguisse estritamente o programa genético que havia sido traçado. Fizeram o parto e tudo. Deram o nome de “Gênesis” para a menina que havia nascido. Foi uma comoção que ninguém ali, nem mesmo quando estavam na Terra, jamais havia sentido. No follow-up para os computadores foi justificado como uma necessidade de manutenção de certos elementos “naturais” e que isto fazia parte das atividades do grupo de controle. A “Inteligência” aceitou, não enviou sinal de alarme para a Terra e Dr. Lynn, a partir dali, multiplicou as experiências, deixando praticamente livre a geração de bebês de forma natural. Isto não acontecia mais nem na Terra, a não ser em áreas especiais que eram conservadas para estudos e ponto de referência para a antiga humanidade. Quando a Bela Adormecida fez 42 anos praticamente 50% da população era de bebês naturais, uma estatística que deixaria o Grande Conselho estarrecida. Dr Lynn, Dr. Sat, Dra. Martha e outros membros mais “humanistas” da direção da nave mal podiam esconder o entusiasmo e a alegria com aquele renascer do “humanismo” em pleno espaço. Verdade era também que essa nova “raça”,  ainda assim era bem diferente do homem de séculos atrás, mas muito mais humana do que a atual raça da Terra e certa e felizmente menos “tech” do que a do futuro imediato.
Durante a viagem, usando do privilégio do isolamento, e o próprio fato de que  “tinham todo o tempo do mundo”, os cientistas mais ligados ao campo de inteligência artificial, foram, ao longo dos anos, deliberadamente inserindo elementos nos computadores centrais que relaxavam o controle da máquina sobre o homem. A essa altura, a “Inteligência” da Bela Adormecida tinha diferenças razoáveis com a da Terra. Isto era a um tempo uma garantia de que eles estariam seguros contra uma possível emissão de sinal de alarme, mas ao mesmo tempo uma preocupação enorme para quando a Bela Adormecida começasse, a cinco anos da volta para a Terra, os procedimentos de reintegração dela com a “Rede” da Terra. O pequeno “Conselho” da Nave discutia e deliberava quase todos os dias sobre o assunto em suas sessões isoladas.
Faltavam agora apenas dois meses para a contagem dos 5 anos finais, quando a Bela Adormecida, começaria o processo de reintegração. No início seria apenas trasmissão de dados, informação, “acomodação” e “preparação” dos habitantes para a nova vida. A alguns meses da chegada, haveria a integração com a “Rede”. Na verdade, a Terra assumiria o controle da Bela Adormecida e a traria com “segurança” ao Planeta de origem, embora apenas os 97 cientistas iniciais pertencessem a Terra. Tudo o mais era original do “PPV” (pequeno planeta viajante) : nome genérico para esse tipo de nave que fica permanentemente no espaço.
Do ponto de vista do Grande Conselho da Terra e planetas, o projeto da Bela Adormecida, teria sido um fracasso, se eles soubessem o que havia acontecido lá. Par o Dr. Lynn e seu grupo, aquela nave era a salvação da humanidade contra o que eles chamavam subserviência total à “Inteligência”. Ironicamente os habitantes da nave eram, em seu conjunto, mais humanos do que qualquer um na Terra ou em Marte.


O LOG
O “Log” era um sistema de computadores que ficara “dormindo” durante toda a viagem e que somente seria ativado na sua parte  final. Ele tomaria conta da reintegração da nave no grande sistema da “Inteligência”da Terra. Ele tinha todas as informações necessárias, inclusive para preservar o privilegiado “grupo dos 300”. E essa era a grande preocupação do Dr. Lynn. Assim que o Log fosse ativado, imediatamente ele perceberia a ausência de dados sobre o grupo de “super-homens”e também perceberia uma série de anomalias no projeto e certamente tornaria a nave numa verdadeira prisão de segurança durante o processo final de volta ao nosso planeta.
Era necessário que se fizesse algo a respeito do Log. O sistema era muito bem protegido e não era fácil livrar-se dele principalmente se a intenção era fazer tudo parecer um acidente. Essa era a missão de Stelt, que era um verdadeiro mágico – o que certamente parece irônico – em relação a computadores. Dr. Lynn, muito amigo de Stelt, tinha confiança de que ele conseguiria resolver esse problema.
Um dia, durante as atividades de rotina, ouviu-se um alarme em toda a nave. E imediatamente percebeu-se que não era treinamento. Logo a notícia se espalhou. O Log havia sido sabotado e estava seriamente danificado. Stelt morrera no “acidente”. Dr. Lynn, extremamente sábio e conhecedor da personalidade de Stelt imediatamente entendeu o que ocorrera. O único jeito de destruir o Log sem ser classificado como sabotagem era perder a própria vida. Stelt se sacrificara pelo projeto do Dr. Lynn. O corpo dele estava completamente destruído, inclusive seu cérebro. Era impossível mesmo com os fantásticos computadores da nave descobrir como tudo ocorrera. Stelt, como sempre e até mesmo na hora de destruir um computador, fizera um trabalho perfeito. Os computadores normais da “Inteligência” teriam agora de fazer a reintegração com a Terra. Como essa não era sua missão inicial e sim a de Log, ele teriam de ser reprogramados pelo menos parcialmente pelo próprio Dr. Lynn.
Dr, Lynn tinha uma lista fictícia dos 300 super-homens. Na verdade uma fantasiosa lista de DNAs cuidadosamente elaborados.O Log não teria aceitado essa lista, pois ele seria conectado diretamente aos corpos dos 300 seres, que na verdade não existiam. Nos computadores normais, agora, era só os técnicos do Dr. Lynn inserirem os dados genéticos. A essa altura o grupo de controle da Terra já sabia do “acidente”. Aparentemente não estavam alarmados. A lista com os dados genéticos dos 300 era assombrosa e era isso que importava.
Faltava agora a parte final do projeto do Dr. Lynn: desviar o ponto final da viagem para Marte. Na Terra haveria julgamento, processos e tudo mais. Embora o projeto fosse secreto, eles arrumariam alguma forma de incriminar o Dr. Lynn e sua tripulação. Em Marte, ele seria recebido como um herói, ainda mais agora que o planeta  vermelho havia evoluído ainda mais para o lado humanista.
Dr. Eggart
O chefe da missão na Terra tinha sido nomeado recentemente e por coincidência era um antigo amigo do Dr.Lynn, embora não compatuasse com suas ideias. A nave já estava no sistema solar há algum tempo e a qualquer momento o Dr. Eggart perceberia que havia algo de errado. Os dados do computador da nave não eram exatamente perfeitos para quem queria vir para a Terra. Dr. Eggart comentou algo a respeito com o Dr. Lynn e esse disse que iria verificar. Pelas características especiais dessa nave, a mesma não poderia ser navegada da Terra sem o Log. A equipe do Dr. Lynn simulou uma série de emergências para não precisar “lidar” com o problema no momento. As desculpas eram aceitáveis, afinal de contas a Bela Adormecida havia viajado quase cinquenta anos e tivera seu computador de reintegração inutilizado.
Passaram-se mais dois meses e agora não havia mais desculpa. A Bela Adormecida estava, definitivamente, se dirigindo para Marte e não para a Terra. Ficou muito claro para o comando da Terra.
Numa conversa que tiveram, Dr. Lynn disse que esperava que seu amigo entendesse. Dr. Eggart respondeu que ele não poderia fazer nada e que o Grande Conselho, que já estava em reunião extraordinária, iria decidir o destino da CRA 2513-79. Comentara que, infelizmente, a destruição da mesma era uma opção bem provável. A essa altura Marte também já havia detectado a rota do Dr. Lynn e lhe dissera que os esperavam de braços abertos.
A Decisão
Dr. Lynn já podia ver a a luz de Marte de sua cabine diretamente, sem monitor. Sabia também que estava ao alcance de uma grande nave militar que poderia facilmente abatê-lo antes de ficar numa área de segurança, o grande cinturão de Marte, onde, por acordos anteriores a Terra não poderia interceptá-lo. Foram horas angustiantes mas mesmo assim Dr. Lynn conseguiu dormir um pouco. Não se conformava com o fato de que aquela nave, aquela cidade que amara tanto e que fora a razão de sua existência nos últimos 50 anos, poderia acabar ali, com um único míssel atômico, em questão de segundos.
Acordou com um sinal suave vindo do painel avisando que entrara no cinturão de segurança de Marte. Estavam salvos. Imediatamente os oficiais começaram a se reunir na sala principal da nave para comemorar.  Aparentemente, uma das maiores conquistas do novo ser humano – a opção pela paz e não-violência – era definitiva. Mesmo  em situações decisivas, a barbárie não mais fazia parte da cultura humana.

Mais tarde, Dr. Lynn conversava com Dr. Eggart sobre tudo o que ocorrera, ainda na nave. Dr. Eggart confessara que sabia das intenções do amigo desde o primeiro segundo que conversara com ele durante o processo de volta para o planeta. Enquanto falava, o grande comandante da Bela Adormecida olhava pela grande janela de sua cabine e podia, agora, bem melhor, ver os contornos de Marte. Os grandes conjuntos residenciais, as plantações com material da Terra e adaptadas ao novo ambiente...Naves circulando o planeta. Grandes linhas riscando a superfície: um incrível sistema de transportes. Um céu diferente da exuberante Terra, mas ainda assim, belo a sua maneira.
Ele não acreditava em céu ou inferno, era um cientista dos tempos ultra-modernos. No entanto, naquele momento, Marte era para ele e para todos da Bela Adormecida, o paraíso com que sonhara...