Thursday, December 17, 2015

O zepelim azul

O zepelim azul



Era um lindo zepelim azul, tendo como fundo, o outro azul infinito do céu. No começo, ninguém percebeu. Era uma cor em cima da mesma cor, quase não dava para notar. Aos poucos, porém, aquela visão fantástica chegou tão perto, que a palavra se espalhou.  E vieram crianças, e vieram adultos, casados, solteiros, e por casar. Padre, prefeito, vereadores e tudo mais. Gente que nunca saía, saiu. Todos, boquiabertos, olhando para cima. E aquele dirigível enorme foi chegando e baixando cada vez mais. Já quase tocava a torre da igreja, da cidade o ponto mais alto. Suspiros, gritos de exclamação. Havia cestas de vime penduradas, como aquelas que se penduram nos balões de ar quente. E como aquele gigante voador era da mesma cor do firmamento, as cestinhas pareciam flutuar, sozinhas, mágicas, no espaço. Dentro delas, pessoas certamente nobres. Pareciam reis e príncipes  e assim se vestiam. Monárquicas vestimentas, vermelhas, verdes e azuis cobriam seus corpos. Lantejoulas. Gala total. Barbas reais e bigodes cobriam seus rostos. Véus sutis cobriam das madames os rostos, e penas, raras e caras, saíam de seus chapéus. E a real caravana, acenava, orgulhosa, benigna e condescendente, lá do alto. O prefeito fazia sinais mostrando o ideal lugar para se pousar. No chão, se apresentaria como o regente local, se ajoelharia e, do supremo monarca, as mãos beijaria. De repente, porém, o dirigível começou, novamente a se mover. Foi, devagar, se afastando, sem o chão tocar. Ainda, ao longe, as figuras reais, acenavam, fascinantes, com um distante sorriso no vazio do ar. Aquele ponto azul foi diminuindo, diminuindo. Finalmente sumiu no anil estúpido do horizonte.

As esperanças, doces e tênues, esmoreceram. No peito daquela gente sofrida, o vazio, que já era grande, aumentou. Naquele dia de sol infinito, o zepelim malvado tinha sido apenas uma vã esperança, um sonho desnecessário, quase um engodo. Toda aquela gente perdeu seu rei. O rei que nunca existiu...

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Wednesday, December 16, 2015

Tenho pena



Tenho pena

Tenho pena do homem raivoso,
do homem irado, nervoso,
que espreita feroz na esquina.
Tenho pena do homem que se confina,
assustado com seu próprio eu.
Sinto pena do homem que se ilude,
e que, confuso, se engana amiúde.
Muita pena mesmo eu sinto
de quem pensa que tudo é verdadeiro,
que acredita na mentira que escuta,
como verdade, pura, absoluta.
Do homem que espalha medos,
os medos que tem dentro de si
e outros que não são segredo.
Do homem que tem poder de agir,
mas que não sabe usar ou definir.
Pena do homem que não tem pena
e que nem sabe o que é penar.
Mas os que me dão mais pena mesmo,
são os homens que não sabem pensar
e aqueles coitados que nem sequer
sabem que não sabem amar.

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Sunday, December 13, 2015

Teatro no ônibus

Teatro no ônibus



Tilico, apesar de pobre, sempre gostou de teatro. Quando era muito pequeno, e ele ainda estava na escola, a professora trouxe um grupo teatral que se apresentou no pátio do estabelecimento. Ele se lembrava de todos os detalhes e se apaixonou pela arte.
Nunca teve chance, porém. Não demorou muito e precisou abandonar a escola. Logo depois morreu seu pai e, logo a seguir, sua mãe. Cada filho foi parar numa família de parentes. Todos tinham seus problemas, mas deram um jeito de não deixar os pequenos abandonados.
Depois que fez 14 anos, entretanto, arrumou um trabalho que, pelo menos, dava para financiar suas próprias coisas, uma vez que comida e moradia seus tios conseguiam prover. Todo dia pegava um ônibus de manhã e voltava no final da tarde. Sorte sua, o emprego era em outro bairro e não no centro e, por isso, o ônibus não era tão cheio. Foi aí que ele teve aquela ideia. Fazer uma mini peça de teatro e se apresentar ali, no ônibus mesmo. E se o pessoal gostasse? E se alguém o visse e conhecesse alguém de teatro? A gente deve tentar sempre, não deve? Além disso, os passageiros tinham de ficar aquela meia hora na condução mesmo, por que não diverti-los com um pouco de arte?
Fez um enredo, bem simples, com dois personagens. Um deles era um garoto da idade dele mesmo. Ele fazia os gestos e as falas, O outro personagem era um adulto. Ele tinha de fazer também. Quando chegava a hora do outro falar, ele ficava de costas e imitava voz de adulto. O enredo era que um assaltante – o adulto – chegou e apontou a arma para ele, um funcionário. Daí ele fez um pequeno diálogo em que o seu personagem  tenta convencer o assaltante a desistir daquilo e ir embora. E ele está quase conseguindo fazer isto, pois aquele era o primeiro crime do outro personagem. Uma tragédia porém, acontece. Quando o “criminoso”, concorda com ele, abaixa a arma e se prepara para sair, desistindo do assalto, uma mulher que está entrando no estabelecimento, dá um grito. O homem armado se assusta e dá um tiro, sem querer, nele, o “funcionário”.
Foi nessa parte que Tilico teve a ideia de esconder um papel celofane vermelho por dentro da camisa. Na hora do tiro, ele põe a mão no peito e puxa, disfarçadamente, o celofane para imitar o sangue correndo.
As pessoas que usavam aquele ônibus começaram a gostar da história, mesmo já sabendo do final. Além disso, sempre havia alguns passageiros novos. Dessa forma, ele acabou se tornando uma pequena estrela naquele reduzido mundinho do ônibus. Aquele era seu palco.
Já fazia um mês que Tilico estava dando seu espetáculo. Naquela segunda-feira, ele pensou em algumas inovações. Mudou um pouco o diálogo e para fazer o papel do outro personagem, ao invés de ficar de costas, ele mudava rapidamente de lugar e punha um boné para fazer o papel do bandido.
Estava feliz com os ajustes e subiu todo confiante na condução. E, como sempre fazia, depois do segundo ponto, quando o motorista pegava uma pequena estrada que ligava os dois bairros e onde não havia muita gente descendo e subindo, ele começou com vigor. O seu personagem principal cantarolava e arrumava as coisas na prateleira do pequeno mercado imaginário  onde trabalhava. De repente, para fazer o papel do assaltante, ele pulou para o outro lado, pegou uma arma de madeira, pintada de preto e gritou:
-É um assalto, fica aí parado!
Os passageiros sabiam que aquele era o momento em que o funcionário  começa tentar a convencer o assaltante de desistir daquilo, o que seria do futuro dele numa cadeia, etc...
Algo muito estranho então ocorreu e todos demoraram um pouco a entender o que era. No início, acharam que o Tilico se enganara e que puxara o celofane vermelho de dentro da camisa na hora errada, uma vez que ainda não estava na hora do sangue. Não entendiam também por que tinha havido aquele barulho de tiro que era só para acontecer no final da peça.
Foi aí que viram um policial vindo de trás do ônibus, ainda com a arma em punho. Ele estava dormindo, acordou com com a frase “É um assalto, fica aí parado!” e puxou a arma. Um espectador inesperado, que não conhecia o enredo, que não conhecia a peça, que não conhecia o ator.
O celofane não era celofane, era o sangue verdadeiro do Tilico. A arma do policial também era de verdade. Ninguém conseguia acreditar no que tinha acontecido, no engano. Um tiro bem no coração do ator único e principal.
O Tilico jazia ali no chão, o sangue de verdade escorrendo no peito, a camisa toda ensaguentada.
Essa foi a maior e última apresentação do grande ator. Foi o maior papel da vida de Tilico, o mais realista.


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Essa vida da gente

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Wednesday, December 9, 2015

Momentos mágicos

Momentos mágicos



Sabe aquele momento mágico que você perdeu? Que, quando você percebeu, já tinha ido? No qual você não acreditou, por ser bom demais para ser verdade? Pois bem, ele foi mágico por ter sido único, não repetitivo. Um conjunto de fatores, de estados de espírito, de coincidências, de pessoas e outras coisas mil, se juntaram. Harmoniosamente, para fazê-lo romper-se na corrente do destino. Não há como reconstituí-lo, recriá-lo, replicá-lo. Talvez você não estivesse preparado para aceitá-lo, para agarrá-lo, para assumi-lo. Agora ele se foi.

O que pode acontecer, porém, é que outros fluidos, outras combinações de eventos, outras circunstâncias, se alinhem novamente e desencadeiem outro momento. Não vai ser igual, vai ser outro, vai ser diferente. Não quer dizer também que vá ser menor ou menos maravilhoso. Para algumas pessoas acontece só uma vez, para outras, duas no decorrer da vida. Alguns felizardos vão vê-lo acontecer mais vezes.

A pergunta que resta fazer é simples e perturbadora ao mesmo tempo. Quando e se este momento acontecer, você vai perceber? Você vai reconhecê-lo? Ou você vai deixá-lo esvair-se, para só depois, ver a magia perdida?

Esteja preparado, em cada segundo da vida. Nunca se sabe...

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Saturday, December 5, 2015

Esses americanos

Esses americanos



De manhã, a moça, com sono, acorda e vai ao mercado comprar as coisas para um bom café da manhã. Claro, bacon e ovos são necessários, necessário é dizer. Foi de pijama mesmo, quem se importa? Claro, os cabelos estavam desgrenhados também.
Saindo do mercado, estava o respeitado senhor com bermuda xadrez e camisa listrada. Não combina! Para quem? Tudo é relativo. No posto de gasolina, a funcionária para e compra um copo de café. Está indo trabalhar. Depois de colocar gasolina, faz um esforço enorme para entrar no carro, está com umas cem libras a mais. Ninguém prestou atenção. Nem o rapaz que estava ao lado, usando sapatos sociais, com meia e tudo, e uma bermuda, bastante esportiva e colorida, num flagrante desrespeito à moda convencional. Que ousadia!
Quem são essas pessoas? Sem gosto, que não ligam para a aparência? São muitas, são americanos no seu dia a dia, ninguém se metendo na vida da outro, cada um é livre para usar o que quiser. Mesmo a mulher de meia idade, com “bobs” e tudo mais, que vai até o correio.
Ninguém repara, ninguém “cuida”, cada um “fica na sua”.

A coisa toda muda se um pequeno grupo estiver assistindo a televisão e o locutor der uma certa notícia. O prefeito de tal cidade, comprou algo que talvez não era tão necessário. O governador gastou alguns milhares de dólares que podia economizar. Então, até palavrões você pode ouvir. O que esse *** está fazendo com nosso dinheiro? E o outro: Este idiota não sabe que este é o dinheiro dos contribuintes? Isso mesmo, o “tax payer’s money”, este é sagrado. Nisso todos combinam. Ninguém repara nas roupas, mas nisso, pode ter certeza, todos reparam. Esses são os americanos... Nesse aspecto, dá inveja, não dá?

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Thursday, December 3, 2015

O pó das estrelas

O pó das estrelas



Dizem que fomos formados do pó das estrelas. E eu acredito. Que longo caminho, que longa transformação! Os primeiros átomos, as primeiras moléculas se formando, se organizando. Os primeiros micróbios, as primeiras bactérias, os peixes, os répteis e os mamíferos. Tudo evoluindo, evoluindo. Depois, um deles, o macaco, muito esperto, ficou em pé. Podia ver os inimigos de longe, cuidar de suas crias. Depois aprendeu a fazer armas, fazer fogo, se proteger dos inimigos. Ficou, então consciente de si mesmo, sabia que existia. Pensou, logo existia. Não foi assim? E o homem surgiu.
E foi ficando cada vez mais inteligente. Começou a entender do que era feito, como era feito. Aprendeu a voar, que coisa maravilhosa! Ousou e foi até a Lua. Quer ir mais além. Saber os  segredos da vida. Conhecer a mecânica do Universo e a incrível Mecânica Quântica. Nem dá para acreditar que tudo isso aconteceu, tudo isso, vindo do pó das estrelas...
Há um problema, porém. Alguns saíram com defeito. Não estou falando do corpo, não estou falando de pernas ou braços, ou dos sentidos. Para isso, cada vez mais estamos achando a cura. Estou falando da cabeça, do pensamento. Há seres humanos, tão pequenos em sua mentalidade, tão preocupados com coisas tão inferiores, que mal podemos dizer que são humanos. Preocupados com poder, com dinheiro também. Há também os loucos monstros. O que fazemos com eles? Mandamos para reciclagem?  Nada, pois somos civilizados, somos humanos. Temos de conviver, esperando que um dia, por uma alquimia mística, eles sejam tocados e transformados, repentinamente, em seres humanos de verdade. Quem sabe? Ou então esperar, como dizem os livros sagrados, que o pó volte ao pó...

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Wednesday, December 2, 2015

A quitanda da praça

A quitanda da praça





Eu era muito, muito, pequeno e existem coisas das quais não me lembro mais. Lembro-me, no entanto, de que  arrumei um emprego na quitanda de Perus, lá na praça. Devido à tenra idade, nem fui registrado. Desconfio, porém, que, naquela época, muito pouca gente era. As minhas obrigações eram bem simples e adequadas aos meus tenros anos. Não havia exploração infantil, nem nada parecido.
Arrumava os abacates numa caixa de madeira, para que eles ficassem com cara bonita para o freguês. Ela, minha patroa, nunca me falou isso, mas acho que eu já tinha um inclinaçãozinha para marketing. Outra obrigação era separar as frutas podres para jogá-las fora, como mandam as regras de saúde pública. Claro, elas ainda nem existiam. Acho que varria também o pequeno estabelecimento, mas disso não tenho certeza.
O meu emprego, depois da escola, é claro, ia de vento em pompa. Estava feliz. Saía correndo do Grupo Escolar Suzana de Campos só para ir trabalhar. O pagamento certamente era irrisório, mas dava para fazer um monte de coisas, até mais do que eu precisava.
Um dia, porém, fui despedido. Não sei se foi por justa causa, por uma causa razoável, ou por causa de mim mesmo. A Mieko, dona do prestigiado estabelecimento, me avisou, assim, sem mais nem menos. Agora, muitas décadas depois, desconfio que eu brincava muito durante o serviço. Criança não foi feita para brincar? Não tenho raiva da Mieko e nunca tive. Ela estava fazendo seu papel de empresária.
Não sei o que deu na minha cabeça, mas eu continuei por lá. Fiz de conta que não entendi. Que não era comigo. Talvez não tenha entendido mesmo, afinal eu era apenas um pimpolho. Talvez ela não tenha dado aviso prévio ou não tenha me avisado por escrito. Por isso, fiquei ainda trabalhando lá por muito tempo. Claro que brincava também, lá mesmo. Obviamente, o meu “gordo” salário também foi suspenso.
Acho que gostava da praça e, além do mais, aquele Morro do Cartório era terrível. Só subia quando não tinha mais jeito. Era bom ficar por ali...
A gente faz cada coisa quando é criança...


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