Sunday, January 7, 2018

Futebol e filosofia




Futebol e filosofia


Adoro futebol como quase todo mundo. Dia de jogo do meu time é dia de festa. Torço com tudo. Se meu time ganha, o que acontece muitas vezes, é só alegria.  Uma sensação gostosa invade meu ser. Se meu time perde, penso assim: “Há coisas mais importantes na vida. Futebol é apenas um detalhe.” Eu me consolo e continuo até a próxima vitória.
Quando meu time empata, entretanto, sinto uma sensação tola, idiota. Claro, existe o empate que é uma vitória, aquele que dá um título, mas isso não acontece todos os dias. Normalmente, o empate é um vazio, uma falta de realização. Nem sequer dá para filosofar sobre a vida, como disse antes, conformando-se com o fato de que “há coisas mais importantes”. É como ficar no meio, parado. Inútil, sem perspectiva.
Por outro lado, precisamos reconhecer, empatar é o que mais acontece no dia a dia. Em nossas lutas todas, em nossos grandes sonhos, não ficamos sempre pela metade?
Acho que empatar é o que mais fazemos durante toda a vida. Ainda bem que não é sempre zero a zero, pois isso, definitivamente, seria o cúmulo da chatice. Um aborrecimento sem fim.

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Saturday, January 6, 2018

Devolva-me


Devolva-me

Sozinho na sala de espera do consultório, vou navegando pelas músicas antigas do Brasil. Quem não tem uma crise nostálgica de vez em quando? Gosto mesmo é do Chico, do Gil e do Caetano. No entanto, de repente escuto aquela antiga canção primeiramente gravada por Leno e Lilian, desta vez executada por Adriana Calcanhotto, “Devolva-me”. Melodia gostosa, letra simples, mas bonita, deixo-me encantar por uns momentos.
De repente vejo que há uma moça sentada a meu lado. Sempre achei feio obrigar outras pessoas a ouvirem suas preferências musicais. Nesse caso, pior ainda, pois era alguém que não conhecia a nossa língua. Peço desculpas, coloco em pausa o meu fone. Imediatamente ela avisa:
-No, no, I like it!
Deixo então a sinfonia correr: – isso mesmo, agora, ela já tinha mudado de categoria, isso mesmo, uma sinfonia! Até acho que ela é bonita mesmo. Assim que termina a “apresentação”, ela me pergunta o que significa.
Com o Inglês mais romântico que pude produzir, falo que é a história de alguém que rompeu com seu amor e agora lhe diz para rasgar as cartas de amor. E tem mais, se ainda tem o retrato que um dia – quando ainda eram apaixonados – lhe dera, que devolva. Daí o título da música: “Devolva-me”. Explico até que é um caso de dor de cotovelo, do melhor jeito que achei.
Paro então minha tradução com medo de estar me tornando piegas e até inconveniente. Olho para ela, mas ela está dizendo:
-No, no... It’s beautiful!
Aí, então, ouço meu nome, a assistente do médico me chama. Digo então “até mais” e entro no consultório. Eu seria capaz, entretanto, de jurar que seus olhos estavam lacrimejantes. Não, não pode ser...

O fato é que de vez em quando escuto de novo a canção, mas agora meus ouvidos são outros...

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Monday, January 1, 2018

Um pastor chamado Mateus


Um pastor chamado Mateus

Mateus era seu nome. Nome de apóstolo, predestinado? Pelo menos era o que seu pai achava. Cresceu, estudou um pouco, não muito, conheceu a bíblia, tornou-se pastor. Igreja não muito grande. Pastor daqueles que não falam muito de dinheiro, mas sim da palavra.
Era querido, tinha voz bonita e forte, parecia perto de Deus. Naquela semana, porém, parecia não estar bem. Talvez estivesse preocupado com o aluguel do prédio da igreja - ainda não tinha conseguido sede própria – e da própria casa, também alugada. Com a desculpa de estar doente, não fez o culto da quarta, mas havia garantia de que o de domingo pela manhã era coisa certa.
Certo sim, lá estava ele, às dez em ponto. O pequeno coral cantou um lindo hino, “Quão grande és tu”. Pareciam ter vozes de anjos aquelas meninas! Fez-se então um silêncio e o pastor Mateus, talvez fosse Matheus o nome certo, caminhou até o púlpito. Limpou a garganta, abriu o livro sagrado em uma página indeterminada e anunciou:
-Falei com Deus!
Um murmúrio espalhou-se pela igreja. Ele não era de falar assim. Ele estava certamente se referindo a uma conversa verdadeira, não simbólica. Mateus não era de exagerar nos vocábulos. E daí continuou:
-Ele me disse que Ele não existe!
Aquilo foi uma bomba, uma bomba silenciosa! Comentários a meia voz, suspiros, sustos contidos. Certamente não era aquilo que tinham ouvido. Ou o que tinham ouvido não era aquilo. Todo mundo então parou e esperou pela explicação. Tinha de haver uma, por Deus do céu, tinha!
Que nada! Essas foram as últimas palavras dele ouvidas naquela comunidade, naquele bairro. Desceu os dois degraus do púlpito e sumiu pela porta lateral que dava para seu pequeno escritório. Ninguém foi atrás, nem adiantaria. Seu carro já sumia na curva quando os primeiros fieis saíram da igreja à sua procura. O Júnior, que pela primeira vez comparecia ao culto, talvez tenha sido o único que falou algo com sentido:
-O que ele quis dizer foi que o deus que não existe é aquele de barbas, vingativo, punitivo, que gosta de dinheiro. O Deus de verdade existe sim!
Mas ninguém prestou atenção. Era muita comoção. O fato é que nunca mais alguém ouviu falar do Mateus.

Fique registrado aqui que ele não só deixou pagos os alugueis, como também as multas por rescisão de contrato.

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Saturday, December 30, 2017

Loucuras



Loucuras

Há os loucos oficiais.  Eles estão nos hospitais psiquiátricos sendo tratados ou não. Alguns ficam em casa sob fortes remédios, quase mortos para a sociedade. Esquizofrenia, neurose, psicose, demência e outras mais podem atacar  o ser humano. Em alta escala, em escala menor, é sempre triste. Mais triste é a maneira como as pessoas olham para eles: com preconceito. São doenças como as outras, só que são no cérebro. As pessoas que as amam, tentam, desesperadamente, achar aquele pequeno detalhe, perdido no rosto, num gesto, que mostre uma pequena luz, um pequeno contato, por minúsculo que seja, com a realidade. A verdade, porém, dura e dolorosa, é que elas parecem mortas para nós, parece que já se foram.
Vamos deixar esse assunto triste de lado e dizer que, felizmente ou não, há outros tipos de loucura. Há os loucos por comida.  Difícil fazer o balanço entre o prazer de um bom prato e as consequências imediatas e a longo prazo. Há os loucos por dinheiro. Perigoso, perigoso.  Há porém, os loucos de amor. Esses sempre são bons. Claro, desde que não sejam loucos pelo amor de outros que já tenham um outro amor. Há ainda, outros tipos de loucos. Uns são inofensivos, outros são indiferentes, outros ainda são muito perigosos para si mesmos e para os outros.
Os mais perigosos de todos, porém, são os loucos pelo poder. Mantenha distância deles, não tenha contato, avise seus amigos. Eles não têm limites, não respeitam as regras, não levam em consideração nada ou ninguém.
Vale a pena repetir.  Fique longe dos loucos pelo poder. Eles são, de longe, os mais perigosos de todos os loucos.


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Wednesday, December 27, 2017

Sobre o Amor e outras coisas



Sobre o  Amor e outras coisas
Poetas, seresteiros, namorados, correi 
É chegada a hora de escrever e cantar 

Talvez as derradeiras noites de luar 
(Lunik 9, Gilberto Gil)

O amor e outros sentimentos sempre foram objeto do estudo humano. Muito antigamente eram coisas simbolizadas por deuses e havia um deles para cada sentimento.  Palavras como “Eros” e “Vênus”, relacionadas com a mais importantes emoções humanas ainda estão por aqui para provar sua característica eterna. A palavra “venérea” (de Vênus), por ironia, deboche ou zombaria por parte da língua, acabou vindo junto no vocabulário. Não importa, tudo na vida tem uma dupla face. O tempo passou e vieram os tempos pré-modernos e os estudiosos começaram a analisar os sentimentos como mais humanos do que divinos até se chegar à época da psicologia e psicanálise modernas. Essas disciplinas tiraram um pouco da graça do assunto de tanto que explicaram como tudo funciona em nossa cabeça. O amor até foi chamado por outros nomes para ser melhor explicado. Não sou especialista no assunto, mas sei que o nobre amor foi dissecado, repartido, exibido numa relação de causa-efeito, tudo dentro de uma rede de determinismo, fatalismo e muitos outros “ismos”. A gente se conforma com isso e na hora de amar nem pensa nessas explicações todas, pois, convenhamos, perde a graça. Quem quer dar um beijo na amada, pensando em Freud, por mais que “ele explique”.  Já tínhamos nos conformado com esse “amor desnudo” – não é isso que quero dizer, se for isso o que você está pensando – quando mais recentemente, vieram com mais uma. A medicina moderna acabou se metendo na história e começou a também explicar o amor. Para ela o funcionamento pode ser analisado e definido através de um conjunto de neurônios com cargas elétricas, química do cérebro, sei lá mais o quê... Logo, logo, vão vir com uma fórmula matemática. E vocês jovens apaixonados ou que estão para se apaixonar, não se empolguem. Não é nenhuma fórmula para conseguir a paixão de outra pessoa. É fórmula mesmo, números, parênteses e colchetes e tudo que se usa nesse tipo de coisas. Não seria melhor se fosse tudo apenas uma equação, sem solução? Graças a Deus os poetas não acreditam nessas bobagens da ciência e dão, como Vinicius, sua própria definição: “Para viver um grande amor perfeito... É preciso olhar sempre a bem-amada como a sua primeira namorada e sua viúva também, amortalhada no seu finado amor.” Ou ainda do mesmo querido poeta: “Eu possa me dizer do amor (que tive): Que não seja imortal, posto que é chama, mas que seja infinito enquanto dure...” Podemos ainda cantar com Maria Bethânia : “Eu não vou negar que sou louco por você, estou maluco pra lhe ver, Eu não vou negar...”
Quanto ao ódio, concordo. Que façam uma análise detalhada, refinada, definitiva e científica. Que achem uma cura pois é uma doença. Quem façam um mapa genético e retirem do nosso DNA. Que façam uma cirurgia e tirem de nosso cérebro. Que façam psicanálise, e se necessário, uma “simpatia”, e tirem de nosso coração. Que aqueles que têm fé, orem e rezem bastante e definitivamente o apaguem nossas almas.

Infelizmente não podemos ter dois pesos e duas medidas e o rancor vai ser estudado junto com o amor pelos cientistas. Para consolo, no entanto, ouvi dizer que o ódio envelhece e o amor não. Sim, tenho certeza de que não envelhece e não é só isso: às vezes, depois de muito tempo, ele ainda rejuvenesce um pouco. Por isso, digo: “nada mais gostoso do que um amor antigo...”

                                                  ooooooOOO0OOOooooo



O texto acima não faz parte do livro abaixo

Essa vida da gente

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Saturday, December 23, 2017

Estou aprendendo



Estou aprendendo

Todos os dias, aprendo.
Aprendo a viver,
aprendo como se deve morrer,
aprendo a envelhecer.
Aprendo a amar quem,
um dia, odiei.
Aprendo a entender
o que nunca entendi.
Aprendo a entender sons
que não se ouvem
e silêncios que falam.
Aprendo o ver o preto e branco nas cores.
Aprendo a ver a cor
que se esconde no branco e no preto.
Aprendo o que não se deve aprender
e o que se deve também...
Aprendo a falar línguas
que não se falam.
Aprendo que há coisas,
que nunca vou aprender.
Aprendo que devo acreditar
no que é impossível de se acreditar.
A duvidar do óbvio.
Aprendo que é impossível
viver sem amar.
A cada minuto, aprendo.
Aprendo a separar o essencial do circunstancial,
e a incluir o imprescindível no supérfluo.
E, finalmente, aprendo
a entender meu próprio ser,
todos os dias, um pouco mais.

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Friday, December 22, 2017

As lágrimas nossas de cada dia.


As lágrimas nossas de cada dia.


Lágrimas, muitas lágrimas. Desde que nascemos, elas lá estão, grossas, pesadas. Continuam rolando pelas nossas faces, continuam rolando pelas nossas vidas. As lágrimas nossas de cada dia.
Começam abundantes  e depois vão, aos poucos, diminuindo. Não é a dor que diminui:  é nossa capacidade de chorar. As lágrimas vão secando junto com nossa existência. Vão perdendo sua força, aos poucos, até desaparecerem quase completamente em nossa velhice. Como se elas pudessem se esconder em nossas rugas. Talvez, com a idade,  tenhamos descoberto que não é para chorar.
Enfim, quando morremos, outros é que choram por nós. As nossas próprias lágrimas já se foram, já não valem mais. Descobrimos, finalmente,  que não vale a pena chorar. Que é inútil chorar.

                                                 oooOOOooo


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