Saturday, June 20, 2015

O trem das onze

O trem das onze



O trem das onze

Naquela época, 1967, não era fácil arrumar uma vaga num curso de ensino médio, na época chamado de “científico” ou “clássico”. Na região de Perus, mais difícil ainda. A escola que eu arrumei foi no Bom Retiro e se chamava “Dr. Alarico Silveira”. Trabalhar durante o dia era óbvio, portanto tínhamos que estudar à noite.
O trabalho era na Avenida José Garcia. Saía às seis da tarde, pegava o ônibus Penha-Bom Retiro e chegava em cima da hora para as aulas noturnas. Os professores eram ótimos e a gente fazia o que podia para acompanhar, cansados que estávamos. Era, no entanto a melhor parte do dia.
O problema era depois. Após a quinta aula, tínhamos, eu e meu colega de Perus, o maior desafio do dia. Saíamos como corredores de 100 metros livres da Rua dos Italianos, passávamos pela Rua Júlio Conceição e “voávamos” pela José Paulino para chegar até a Estação da Luz. Ainda bem que não havia uma alma viva na rua para atrapalhar. Era o último trem, o trem das onze. Não sei se era exatamente às onze, onze e cinco ou onze e trinta. O que eu sei é que tínhamos no máximo 10 minutos para chegar. Gosto de falar o “trem das onze” por causa do Adoniran Barbosa.
Quando chegávamos na ponta da escadaria de madeira, suspirávamos aliviados de ver o subúrbio ainda lá. O maquinista era nosso amigo, embora apenas o víssemos de raspão ao correr para as portas automáticas. Ele sabia que a gente sempre chegava no sufoco. Muitas vezes, as portas estavam fechadas e quando ele nos via despencando pelas escadas, ele as abria novamente. Para ser sincero, acho até que, mesmo antes de nos ver, ele dava uma esperadinha. Dois anos mais tarde, ficamos sabendo que ele morreu naquele horrível acidente de 69 na Santos a Jundiaí. Nunca pude agradecer.
O pessoal do trem era sempre o mesmo, quase todos estudantes. Nossos assentos eram “marcados”, sempre sentávamos no mesmo lugar. Tentávamos conversar, pois se pegássemos no sono, corríamos o risco de ir parar em Francisco Morato. Já pensou? Tínha de me levantar no dia seguinte às cinco para pegar de novo o trem. Seria uma calamidade.
Juntávamos as últimas forças, subíamos o Morro do Cartório. Lá em cima eu virava para a direita na Rua Dona Rosina e ele ia para a esquerda.

Como diz a música, “minha mãe não dormia enquanto eu não chegava”. Além disso, ela invariavelmente tinha um prato de sopa de feijão me esperando. A Dona Eleta, sempre preocupada comigo. A aquela minha vida era muita correria. Mas nós éramos jovens e aguentávamos. Dia seguinte, cinco da manhã, morro abaixo, trem cheio desta vez, Brás, Celso Garcia...Começava tudo de novo. Perus mesmo, de dia, só no final de semana. Em compensação, a gente dormia até a hora do almoço...

Essa vida da gente

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