Friday, June 29, 2012

A Estrela d’Alva


Era o ano de 2137 e Mary Lou estava se preparando para a mais importante viagem de sua carreira de astronauta. Era também a estreia da nova geração de naves espaciais, com propulsores jamais imaginados pela inteligência humana. Inicialmente a agência do espaço da Grande Confederação da Terra havia concebido uma missão tripulada por robôs ultrassofisticados, também criação recente. Entretanto depois de muita deliberação, decidiram que era seguro e também importante que o ser humano tivesse este tipo de experiência. Além do mais, os astronautas agora não só eram  preparados desde crianças para este tipo de projeto, mas também tinham caracterísicas genéticas próprias para viagens espaciais implantadas em seus corpos desde sua concepção em laboratório.
Mary Lou, apesar de ser uma excelente profissional,  tinha herdado os gens de seu pai – ela o conheceu mesmo tendo sido gerada em laboratório – um certo sentimentalismo característico das gerações antigas. Ela nunca deixara isso ser percebido por ninguém.  Desta forma, apesar de seu treinamento, ela se emocionava ao se lembrar da imagem do pai. Lembra-se ainda hoje, adulta, de uma cena comovente quando ela tinha cinco anos. Seu pai,  astronauta comandante Arvin – do primeiro escalão – disse que havia um presente que queria lhe dar. Era uma corrente de ouro com um pingente no qual estava incrustado um lindo diamante. Era uma joia que estava na família há gerações.  O comandante Arvin, ou Fred, como era chamado pelos amigos, colocou a corrente no pescoço de Mary Lou. Disse a ela para levá-la em todas as suas viagens. E foi o que ela sempre fez. Deu à joia o nome  de Estrela d’Alva.
O destino, no entanto, às vezes é cruel. Depois de três viagens feitas por Mary Lou com a corrente, Fred, que ainda fazia muitas missões espaciais, foi designado para uma viagem como esta que Mary Lou ia fazer agora. No entanto, as naves eram da antiga geração, que, de qualquer maneira eram também bastante sofisticadas.  Por algum motivo, talvez subconsciente, ele pediu para a filha que lhe “emprestasse” a joia que ele havia lhe dado. Queria tê-la em seu bolso durante a missão. Ironicamente sua nave desintegrou-se quando estava indo em direção a Júpiter, matando todos seus tripulantes. O acidente nunca foi bem explicado. O boato era que faziam parte da missão experiências nunca antes tentadas mas tinham a ver com os resultados obtidos através do extraordinário acelerador de partículas recém-construído em Marte. Houve uma comissão especial de cientistas que pesquisou os eventos e chegou a conclusões que obviamente escondiam o que realmente tinha acontecido. Mary Lou fazia agora suas missões sem levar a Estrela d’Alva. E desta vez, sentiu falta. Teve um pouco de vergonha ao pensar nisso, afinal de contas ela era uma oficial de primeira linha, a comandante Arvin, como era chamada em seu meio.
O  Grande Colisor de Hádrons que começou a funcionar em 10 de Setembro de 2008, era um brinquedo de criança comparado ao que havia sido construído em Marte. Cem vezes maior, dez vezes mais sofisticado. Suas atividades haviam sido suspensas após o acidente com a nave de Fred, mas alguns meses depois tudo voltou ao normal.  Claro que astronautas e cientistas não devem ser, e normalmente não são supersticiosos, mas as coincidências da missões de Mary Lou com as de seu pai eram assustadoras. Ambas deviam “dar um passeio” pelo sistema solar e ambas faziam parte de experimentos relacionados com o grande acelerador de partículas. A comandante Arvin não pensava em nada disso, pelo contrário, estava ansiosa e excitadíssima com sua missão. Pensou que seria interessante ter a correntinha de ouro que seu pai havia lhe dado, a “Estrela d’Alva”. Seu pai, se vivo, também gostaria...
A  “New Enterprise” estava agora há um mês de distância de Júpiter, provavelmente não muito longe do ponto onde a nave de seu pai, o comandante Arvin, havia se desintegrado. Uma parte da missão era justamente deixar na órbita do planeta quase metade da própria nave, que seria, na verdade, a primeira grande peça de uma enorme estação que ficaria na órbita de Júpiter. Outras inúmeras missões viriam para completar a obra. A outra parte da missão era praticamente função apenas dos computadores. Os tripulantes só fariam algo numa emergência e, ainda assim, de uma maneira restrita. O segredo não incomodava Mary Lou nem os outros tripulantes. A ciência entrara numa fase tão avançada que era difícil dominar e fazer parte dela de uma maneira completa e direta. Os grandes computadores faziam quase tudo.
Quanto mais a “New Enterprise” se aproximava do grande planeta era inevitável para Mary Lou se lembrar da tragédia e de seu pai. Isto,entretanto, não afetava seus afazeres ou seu desempenho. Ela era provavelmente a mais equilibrada da equipe e jamais o teste emocional que era feito em todos os tripulantes a cada 24 horas indicara nela qualquer alteração. Nem mesmo alguns pequenos incidentes recentes na viagem haviam produzido qualquer efeito  em seu comportamento. Houve vários casos de mau funcionamento de navegação que logo depois eram corrigidos pelo sistema. A única coisa que a incomodava um pouco era que, toda vez que ela tentava analisar o ocorrido, principalmente com o objetivo de evitar nova ocorrência, simplesmente não havia registro do mesmo. Era como se a inteligência dos computadores estivesse tentando esconder algo. Nos últimos três dias, porém, algo mais grave havia acontecido. Uma pequena vibração, que foi notada por todos da tripulação, ocorrera por duas vezes. Os computadores novamente nada registraram. A essa altura Mary Lou não sabia se era mais grave a vibração ou o fato de os computadores se recusarem a notificá-la e explicá-la.
Uma semana depois, algo mais grave ainda havia ocorrido. Uma vibração intensa, por mais de 35 minutos, outra vez sem nenhuma notificação dos computadores, deixara toda a tripulação muito preocupada. Houve reunião, muita discussão, diversas opiniões, mas o fato era que nada podiam fazer. As mensagens especiais enviadas para Marte e para Terra tiveram respostas evasivas, dizendo que estavam analisando, estudando, etc.
Foi então que aconteceu o inimaginável. Uma vibração enorme, assustadora, como se a espaçonave estivesse se partindo em duas. Todos os tripulantes desmaiaram e só acordaram horas depois. Aparentemente a nave estava intata, tudo funcionando. Imediatamente todos começaram a consultar os dados. Mais uma vez, não havia indicação de nenhum mau funcionamento. Nada. No entanto estavam “faltando”  dezessete minutos no tempo, no histórico, nos dados, em tudo. E todos os computadores, mesmo os especiais dedicados somente à missão do grande acelerador, buscavam freneticamente “entender”  os minutos faltantes, sem conseguir. Começaram então a montar uma situação hipotética, trabalhar em cima dela, para que as coisas voltassem ao normal. Enquanto isso membros da tripulação recebiam mensagens não oficiais de conhecidos e amigos de Marte e da Terra narrando estranhos eventos. Nada gigantesco, mas coisas que eram surpreendentes. Prédios e máquinas que sumiram, pessoas que  apareceram em outros lugares depois da “falha dos 17”, como ficou sendo chamado o evento. O óbvio passou a ser o objeto de todas as conversas. O grande experimento que envolvia a “New Enterprise” e o grande acelerador havia interferido no tempo-espaço do sistema solar e talvez até fora. Provavelmente algo infinitamente pequeno em termos cósmicos mas altamente significativo em termos humanos. Obviamente a espécie humana, por mais adiantada que estivesse, ainda não estava preparada para lidar com as consequências deste novo avanço da ciência.
Foi durante uma  conversa com outro membro da tripulação que, quase inconscientemente, Mary Lou enfiou a mão no bolso de sua túnica e – não podia acreditar – sentiu com seus dedos a correntinha de ouro que seu pai lhe dera. Ficou lívida e mal conseguiu esconder o que estava sentindo da sua interlocutora. Pediu desculpas e se retirou para seus aposentos. Tirou a joia e colocou-a sobre a mesa. Não havia dúvida, era a “Estrela d’Alva”.  Consultou dados em seu computador pessoal. As coordenadas coincidiam. O “evento” ocorrera exatamente no mesmo local onde a nave de seu pai havia desaparecido. Lógica? Nenhuma. Por que só a corrente? Definitivamente, pensou ela, os fatos científicos não podiam ser separados da consciência humana. Havia uma ligação. Não comentou nada com ninguém. Iria parecer uma idiota, ninguém acreditaria e afetaria sua imagem de comandante. Nos dias seguintes houve inúmeras entrevistas com os comandantes da missão da Terra e de Marte. Queriam mais dados, além do que diziam os computadores. Coisas pessoais, o que eles haviam sentido. Eles sabiam algo mais, porém não queriam compartilhar, só queriam “ extrair informações”. Havia um grande enfoque em “experiências pessoais” nas perguntas que faziam. O que acontecera não era um fato científico isolado, tinha a ver com “consciência pessoal”, talvez até com espiritualidade, algo de que praticamente não se falava mais, a não ser em estudos históricos. Ela quase falou sobre a joia durante as investigações, talvez fosse uma colaboração importante. Depois decidiu que não.
Voltou para sua sala, abriu a foto de seu pai na tela, olhou para seu sorriso e para seu uniforme de comandante, colocou a Estrela d’Alva na palma da mão, e chorou...de emoção.

Wednesday, June 20, 2012

Uma vez mais, eu te amo…


Uma vez mais, eu te amo…

Ronald acelerou suavemente seu carro quando o sinal abriu. Ouviu então aquele ruido sinistro de um outro carro tentando brecar e…
Cinco dias depois ainda estava no hospital e, pela primeira vez depois do acidente, abriu levemente os olhos. Viu apenas vultos, saindo e entrando...Mas estava tudo muito silencioso. As pessoas falavam mas as vozes não saíam de suas bocas. Dormiu de novo e acordou já no dia seguinte, mas isso ele não sabia. Via melhor agora. Tanto é que sabia que quem estava ali em pé, ao lado de sua cama era um médico. Dizia o seu crachá: Dr. Kalwinsky ou algo assim. O doutor estava tentando falar com ele. Ele não conseguia ouvir mas entendeu quase tudo. Podia ler seus lábios. Dizia que sua cabeça estava com sérios problemas. Haveria consequências, mas ele sobreviveria...Ronald tentou então perguntar sobre Lucy. Onde estava? Estava bem? Mas as palavras não saíam.
Lembrou-se então de que na fração de segundo antes de receber a pancada do outro carro, pensara que era muito azar Lucy estar daquele lado. Era  melhor se ele estivesse ali. Apagou este mau pensamento da cabeça e dormiu, dormiu bastante, sem sonhos, sem nada.
Ronald não sabia mais há quanto tempo estava ali na cama, mas sabia que era muito. O mesmo doutor estava ali, a sua frente de novo. Podia dessa vez ouvir, muito baixo, o que ele estava falando. O médico mencionara que ele constantemente chamava por Lucy, a esposa. Tinha de confessar que infelizmente, ela não tinha conseguido. Sentia muito.  Ronald não queria acreditar nele, aquilo era uma mentira. Por que mentir para ele, ele que estava ali na cama? Não quis ouvir mais e dormiu de novo.
Quando acordou na vez seguinte, lembrou-se que sempre acreditara na força do pensamento. Tinha amigos que acreditavam também. Tinha visto coisas. Mesmo quando algo já tinha acontecido, você podia mudá-lo com a força mental. O tempo não existe, é apenas uma referência para nosso cérebro. Ele tinha uma tática. Voltou com sua mente para os momentos que viveram antes de sair de casa. Ele pegando as chaves e ela pegando a bolsa. Estavam saindo para as compras. Lembrou-se dos detalhes. Pensou de novo e desta vez falou para Lucy que não queria mais fazer compras. Iriam mais tarde, naquele momento iriam mexer no jardim. Lucy ficou um pouco contrariada, não estava entendendo. O exercício mental foi um esforço muito grande para Ronald e ele adormeceu. Acordou mais vezes no mesmo dia e cada vez tentava convencer Lucy para não sair de carro. Finalmente ela concordou e disse qualquer coisa como “Se é isso que você quer...”
Nos próximos dias Ronald foi elaborando sua história. Detalhes, muitos detalhes. Pegando as ferramentas de jardim, mexendo na terra...Cuidar do jardim primeiro, compras depois. Viu Lucy sorrir várias vezes, ele gostava, como ela,  de mexer com plantas. Cada pequeno gesto estava sendo elaborado, caprichado, refeito na mente de Ronald. Ele nem se lembrava mais do acidente. Nada havia acontecido, eles não tinham nem saído. Lucy sorria e ele também .
As enfermeiras notaram que cada vez Ronald sorria mais. Sorria quando estava dormindo e quando estava acordado. Suzane, sua irmã, que o visitava constantemente, também notou. Era um sorriso de felicidade. Convincente, que inspirava paz.
Um dia, finalmente, Ronald viu Lucy entrar no quarto. Era ela e desta vez muito mais real que qualquer outra vez. Sorria o seu sorriso suave e lindo de sempre. Essa Lucy...Ele sabia que iria trazê-la de volta. Ali estava ela, carne e osso, real...Sentou-se a seu lado, passou a mão pelos seus cabelos. Com a outra acariciou seus dedos. E sorria...Ronald apertou seus dedos só para garantir, conhecia muito bem a textura da pele dela. Ronald pensou, se alguém não acreditava que ele era capaz de fazer o que fez, ali estava a resposta. As duas enfermeiras e mais uma visita que ele não estava reconhecendo, eram testemunhas visuais. A sua Lucy estava ali, na frente de todos.
O que estava acontecendo no quarto de hospital entretanto era outra coisa.
Era uma cena até bonita, pensou a enfermeira mais velha. Ficou  emocionada de ver ali, o paciente Ronald, que agora já era um velho conhecido, segurando a mão de sua irmã Suzane. A outra enfermeira pensou como seria bom ter  um irmão como Ronald, que gostasse dela da mesma maneira.
O corpo de Ronald melhorou mas seu cérebro nunca voltou. Ele estava sempre com aquele sorriso nos lábios, sempre conversando com a Lucy. Foi internado numa instituição. Lá, logo todos se acostumaram com ele. Volta e meia estava segurando a mão de uma enfermeira ou de uma paciente, chamando-as de Lucy e sorrindo.  Muitas vezes falava:  “Eu te amo.” Ele se cuidava bem, se barbeava, tomava banhos constantes. Afinal de contas, Lucy era exigente nesse aspecto.
Alguns tinham pena dele, outros achavam que ele era feliz. Sabe de uma coisa? Eu acho que ele era feliz. E digo mais, acho que a Lucy era feliz também. Acho até que ela estava sorrindo...

Saturday, June 9, 2012

O Planeta de Gelo


O Planeta de Gelo

A espaçonave “Solution” foi lançada da estação espacial “Via Stella”, uma gigantesca plataforma em órbita da Terra. Vista do chão tinha o tamanho de três sóis. A maioria das naves de longo curso saíam ou de Marte ou da Lua.  A “Solution” entretanto precisou sair de nossa órbita mais por causa do tipo de construção que ela demandou do que por outros motivos. Saiu exatamente às 10:37:32 GMT do dia 27 de outubro de 2167 AD . O tempo programado de viagem era de 14 anos. Nos últimos 5 teria toda sua tripulação hibernada, devido ao risco que as tarefas que ela teria de realizar traria para seus viajantes. A sua rota seria dentro do sistema solar e seu objetivo principal era coletar dados vitais para expansão das colônias da Terra que então se resumiam apenas a Lua e a Marte. Parte de sua missão, porém, era sigilosa. Nem mesmo o chefe da missão, Ron, tinha completo conhecimento de todos os detalhes. O computador principal, cuidava da rota e da parte principal da missão e um segundo computador tinha os dados sigilosos da mesma. O primeiro partilhava apenas parte dos dados do segundo, mas este último “conhecia” toda a missão.
Como acontece nesses casos, houve muito burburinho, muito comentário e muitas análises a respeito da grande empreitada. Relatórios diários eram transmitidos à população. Depois de dois ou três anos, o interesse diminuiu e somente quando algo de relevo acontecia, o público era notificado. Solution era a primeira de uma nova linha de naves espaciais com os propulsores que alcançavam velocidades jamais sonhadas no século anterior. A tripulação era composta de 17 astronautas, todos cientistas ou especialistas em diversos aspectos de inteligência artificial ou navegação e outros campos de conhecimento necessários ao cumprimento da missão.
Comandar a Solution era uma espécie de coroação de carreira para Ron, um apaixonado por viagens espaciais e astronomia. Ficou mais de cinco anos se preparando. Boa parte do treinamento era dedicado à maneira como interagir com esses novos computadores, uma vez que os mesmos eram bastante independentes, podiam e tomavam decisões que muitas vezes eram difíceis de se aceitar ou de se entendermesmo por cientistas do nível de Dr. Selleck, como era conhecido o Ron. Ludic era o apelido do computador. Shadow era como eles chamavam o segundo computador, o que tinha a parte substancial dos segredos do projeto. Ron sabia que seria fácil ficar irritado con Ludic mas por outro lado ele sabia que o mesmo possuía uma quantidade absurda de informações que ninguém mais tinha e, além disso, ele administrava as “prioridades” que nem sempre coincidiam com as da tripulação. Enfim, tinha de conviver com Ludic e Shadow.
Cada pessoa da equipe cumpria suas funções regularmente e tentava levar a vida da forma mais “normal” possível.
Horas, dias, meses e anos foram se passando. Os cientistas logo perceberam que a quantidade de informações armazenadas era extarordinária. Perceberam também que Shadow, além de ter a “missão” inserida em si, era também uma espécie de garantia no caso de Ludic ficar “super” ocupado ou sofrer avarias. Várias coisas começaram a acontecer que não faziam parte da informação e instrução que a tripulação tinha tido. Às vezes, Ludic interrompia quase todas suas funções, inclusive a comunicação com a Terra. Fazia só o mínimo para manter as funções vitais dos tripulantes e da nave. Todos pensaram que estivessem diante de um mau funcionamento. Após alguns dias Ludic informou de que não havia motivo de preocupação. Estava analisando “data” e economizando energia. A história de economia começou a ficar mais e mais frequente. Era estranho, pois as naves dessa última geração possuíam uma energia praticamente inesgotável. Havia uma certa desconfiança de que Ludic e Shadow estivessem escondendo algo. De qualquer forma, algo fora do normal estava ocorrendo.
A rotina da viagem fez os ânimos se acalmarem novamente, até que no começo do oitavo ano, um antes do processo de criogenia começar, Ludic veio com a novidade: a hibernação teria de ser ativada um ano antes do previsto. Houve um início de revolta, mas Ludic conseguiu explicar com gráficos, números e lógica. Stuart, o mais entendido em inteligência artificial chegou a sugerir secretamente para Ron um boicote. Disse que poderia causar um pequeno “acidente” no Ludic e no Shadow para limitar suas capacidades. Ron chegou a considerar a possibilidade pois estava começando a ficar preocupado com o andamento do projeto. Depois reconsiderou e achou que havia muitas incógnitas no processo. A essa altura certamente havia informações absolutamente necessárias para sua sobrevivência que estavam sendo ocultadas por Ludic e Shadow. O risco seria muito grande.
Começar o processo de criogenia um ano antes significava começá-lo dali a dois meses e esse era também o tempo de preparação  para a mesma. Em outras palavras, a rotina havia acabado e inúmeros procedimentos especiais tinham de ser ativados imediatamente. A alimentação mudava completamente e vários elementos químicos teriam de ser diariamente aplicados em todos. O processo em si mesmo durava 72 horas mas isso não fazia diferença nenhuma pois a essa altura estariam todos inconscientes, em estado de sono profundo. O último a perder a consciência seria Ron, por uma questão de segurança, pois se houvesse algum tipo de problema ele poderia ainda sustar o processo. Da mesma forma, no momento do “descongelamento”, ele seria o primeiro a voltar para supervisionar a “volta” dos outros. Era um sistema seguro e havia sido usado milhares e milhares de vezes antes, mas os procedimentos tinham de ser mantidos.
Ao lado da desconfiança e da ansiedade, havia também um certo alívio, pois aquilo significava o final da missão. Afinal de contas, quando acordassem, seis anos depois, estariam na órbita da Terra esperando a acoplagem da “Solution” na “Via Stella”.
Finalmente o dia chegou. Todos se despediram antes de começar o  “caminho de volta”. Muitos abraços antes de entrarem nas cápsulas. Uma vez lá dentro, lentamente iriam perder a consciência e dormir e depois... temperaturas baixíssimas iriam envolver seus corpos. Enquanto monitorava seus colegas, antes de ele mesmo ser  monitorado por Ludic, Ron ainda pensava... Aquele congelamento não era por causa de energia. Ludic ou Shadow tinham descoberto algo diferente, precisavam fazer experiências e não podiam ou não “queriam” executá-las na presença consciente da tripulação. Consolou-se, dizendo para si mesmo que talvez fosse melhor assim.
Finalmente chegou a vez de Ron. Colocou sua assinatura digital numa das telas do Ludic, concordando com tudo, entrou na cápsula, olhou o pequeno monitor diante de seus olhos e clicou “oK” com seu indicador. Imediatamente os “gases do sono” começaram a ser injetados na cápsula. Ron ainda teve tempo de pensar: “Definitivamente não é uma questão de economia... existe algo mais estranho e profundo nessa história...Talvez...” e daí o cérebro de Ron estava emitindo ondas elétricas tão fracas que um branco invadiu tudo e ele se foi...

A Volta

Ron não sabia se estava sonhando ou se era apenas um sono pesado. Via pequenos pontos azuis que iam e vinham. Depois tudo ficava escuro, então tudo voltava. Após algum tempo começou a ver linhas. Podia reconhecer números e letras. Tentou se concentrar. Abriu e fechou os olhos. Não estava claro nem escuro. Ao longe uma voz, voz de computador. Por mais perfeita, você ainda a reconhece. Agora já podia ler melhor.
Ano: 373401 AD
Tempo de viagem: 371.234 anos
Velocidade média: desconhecida
Eventos: consultar LOG
Energia: nível crítico
Pensou.  A falta de energia está afetando os dados. Não, isso não acontece mais, os computadores não fornecem dados errados. Ou estão desligados completamente ou não falham. Devagar foi se lembrando. “Solution”. Missão. O ano tinha de ser 2181 AD. Talvez uma simulação? Congelamento, agora se lembrava. Estivera congelado. Seu cérebro, talvez seu cérebro estivesse afetado. Ouviu um clique. O pouco movimento que fizera causou a abertura automática da cápsula. Tentou se levantar. Não conseguiu, estava muito fraco. Sentiu que ar carregado de alguma substância saía dos dois lados da cápsula. Lentamente suas forças iam voltando.
 Finalmente conseguiu se levantar e sair. Andou um pouco e se lembrou dos companheiros. Primeiro precisava checar os dados. Computador de emergência, energia própria, separada, tinha de estar funcionando. Sentou-se, tocou a tela. Os dados começaram a aparecer na tela. Clicou em “Status da Missão”. Os estranhos números apareciam novamente:
Ano: 373401 AD
Tempo de viagem: 371.234 anos, dois meses 5 dias 4 horas 48 min 3 seg...
E os segundos e centésimos de segundos rodavam vertiginosamente.
Antes de checar as outras cápsulas, Ron acionou o grande painel para ver o que se passava lá fora. Ele não abriu, não havia energia suficiente. Abriu então, manualmente, algumas escotilhas.
Ficou atônito. Uma grande planeta branco, coberto de gelo, brilhante... Para ter certeza de que era a Terra, verificou a posição da Lua. Lá estava ela com suas manchas e tudo, orbitando em volta de nosso planeta.
Voltou para o computador e clicou em “localização”:
Local: Planeta Terra
Situação:Órbita distante
Status de operação: aguardando autorização para órbita próxima
Ron não acreditava em seus olhos, em seu cérebro, em nada. Resolveu então ver mais detalhes da missão: 7 tentativas de aproximação da Terra em 2181, três falharam, quatro não foram autorizadas. Viu então que Shadow passou a operar em escala total. Trinta e sete anos depois ordenou o auto “adormecimento” e a desativação do Ludic. Bloqueou energia suficiente para a volta para a órbita da Terra no caso de as condições favoráveis retornarem e para a manutenção do sistema de criogenia.
O cérebro de Ron martelava: Mas por quê 371.234 anos?  Ficou imaginando, “nessas centenas de milhares de anos, algo aconteceu no sistema solar...” Imaginou que talvez as consequências do impacto de um enorme meteoro tivesse causado na Terra o bloqueio dos raios do sol...”Mas com todos os sistema de prevenção que tínhamos...? “
Ficou sem pensar nada por um instantes...D aí imaginou que talvez tivesse havido uma deslocação violenta do eixo da Terra...”Mas por quê...?”
Finalmente decidiu verificar o protocolo de emergências. Ficou desolado ao verificar quem em 27 horas e dezenove minutos as condições de habitalidade na nave cairiam para zero. E...logo abaixo vinham as opções de auto-destruição. Ele tinha participado da confecção deste programa. Sabia que a auto-detruição seria automática. Era uma maneira de evitar a captura da nave por inteligências alienígenas que então obteriam informações cruciais sobre nosso planeta, nossa civilização. Você tinha a escolha de antecipar a desintegração da nave. Era uma espécie de “golpe de misericórdia” cósmico...
Ron pensou em acordar os outros. Idiotice. Não daria tempo e só causaria dor. Ele sabia o que tinha de fazer. Aproximou-se da tela e clicou o ícone fatal. O computador começou a contagem regressiva: 37 minutos e uma bomba nuclear interna não deixaria uma partícula inteira sequer.
Ron lembrou-se então dos fortes boatos que ouvira antes de sair, sobre experimentos que estariam sendo feitos em Marte como transposição para mundos paralelos, viagem para outras dimensões e manipulação de sub-partículas descobertas nas últimas décadas. Teriam eles sido cobaias de algum experimento?  Estaria a Terra, circulando bela e cheia de vida em outra dimensão? Não haveria como saber. Tomara que sim...

Se Ron pudesse ter visto, teria gostado do espetáculo. Lá de baixo, sobre a superfície do gelo, foi possível ver uma grande e silenciosa explosão, Silenciosa, pois não havia ar para propagacão do som. O fogo não era vermelho mas sim de um amarelo vívido, com manchas azuis e verdes. Alcançou a enorme planície alva da Terra e reverberou de volta para o espaço. Até o sol desapareceu do céu. Um espetáculo  gigantesco, dantesco e ao mesmo tempo harmônico, estético. Era o fim da “Solution”... Racional como era, Ron talvez também tivesse pensado na ironia do nome de sua espaçonave: “Solution...”. Terminava ali a grande jornada.

Friday, June 1, 2012

Amor, Eterno Amor


Amor, Eterno Amor

Ao contrário do que alguns pensam, há coisas que não têm explicação. Uma delas era o amor que Mário sentia por Regina. Insensato. Absurdo. Sem sentido. Alguns até achavam que era uma doença, mas acreditem, não era não. Amor puro, verdadeiro, paixão sem limites, sem vírgulas ou ponto de interrogação. Só ponto de exclamação e ponto…final. Até a Regina, objeto de tal atenção, achava um exagero e às vezes se perguntava. Não a levem a mal. Ou era incompreensão ou até, quem sabe, uma certa inveja por não conseguir amar nos mesmos e estratosféricos níveis. Mário nem sequer pedia ou sugeria tal retribuição. No fundo sabia que ninguém era capaz de amar assim. Não sei se existe uma explicação para o que vou contar a seguir. No final desta história vou tentar uma solução metafísica, mas vai ser pura especulação.
O que aconteceu foi a inesperada morte de Mário. Um outro motorista, bêbado, encerrou os afazeres de Mário nesta vida. Podia ter matado um outro qualquer, inútil, mau caráter, bandido ou até um suicida que por definição já estivesse querendo morrer. Poderia ter ele mesmo morrido. Qual nada, saiu vivo do acidente e assassinou o maior amante vivo existente na terra. Que fazer? Nada além de chorar, lamentar, chorar de novo. Regina estava inconsolável. O amor de Mário era tão intenso que ela não se dera conta de que um dia ele pudesse desaparecer, quero dizer, ele, o Mário, não o amor. Isso mesmo. O evento passou, velório, funeral, e todos os seres  ligados ao evento também voltaram à rotina da vida. Com o passar dos dias, no entanto, Regina percebeu que, embora Mário não estivesse lá, seu amor estava. Não estou falando figurativamente, não. Ela sentia o amor dele rondando na casa, nas coisas, no pensamento, em tudo que via, sentia ou tocava. A explicação lógica é que o ambiente da casa estava impregnado dele e as lembranças voltavam. Regina começou a sair e ir para lugares que eles não costumavam frequentar, só para testar. Puro engano, pois aquele amor incessante, arrebatador, envolvente e até intrometido, estava em todo lugar. Não era metafórico nem nada. Amor mesmo. Entrava com tudo na cabeça, no coração e na alma de Regina. Ela quase conseguia pegá-lo nas mãos, tão forte era sua presença. Regina, é claro, aceitou e se sentiu feliz por isso. Ao contrário dos amores comuns, esse aumentava ao invés de diminuir com o tempo. Junto com a força que ele adquiria, tornava-se também mais elaborado e  mais sutil e portanto “suportável”, características talvez, do outro lado da existência. Senão, onde iríamos parar com tanto amor assim? E a vida continuou…
Fiquei devendo aquela explicação “metafísica” prometida acima. Talvez seja uma explicação esfarrapada, mas lá vai. Acho que como dizem as filosofias orientais, há um equilíbrio entre as coisas da vida. Ódio e amor, raiva e afeição, saudade e esquecimento, etc…O que seria do universo, se um dos lados começasse a preponderar? Haveria um desequilíbrio cósmico. O amor de Mário era tão forte que houve um princípio de desestabilização. Necessário se fez tirá-lo do cenário.O que iríamos fazer com tanto amor por aqui? Por outro lado, o outro motorista, irresponsável, bêbado, também estava começando a pesar muito do outro lado. De repente teve de sentir um enorme remorso pelo que fez, o que também também equilibrou as coisas no setor.
Não sei se eu mesmo acredito nessas explicações, mas que o amor de Mário era enorme, isso é verdade, e não duvidem não…

Sunday, May 20, 2012


Corpus Christi
 “Viste, Senhor, a injustiça que sofri;
 julga tu a minha causa.”
Lamentações de Jeremias 3:59


Carlos DeLuna foi executado em 1989  pelo assassinato de Wanda Lopez.  A vítima sentiu o perigo, chamou a polícia, que não veio e, provavelmente por isso, foi esfaqueada até a morte.  Pelo menos a justiça foi feita, vão dizer os defensores da pena de morte. Errado. Executaram o outro Carlos. O que matou Wanda foi Carlos Hernandez, conforme relatório do professor James Liebman e seus cinco alunos da “Columbia Law School”. Segundo o  mesmo relatório, erros grosseiros foram cometidos durante a investigação e o julgamento , culminando com a execução.  A acusação foi baseada  numa só testemunha, que viu um “hispano” correndo do posto de gasolina onde a vítima tinha sido assassinada. Carlos DeLuna estava usando uma  camisa branca enquanto Carlos Hernandez  usava uma camisa cinza e tinha bigode. Mais ainda (a idiotice e incompetência não têm limites, acreditem!), Hernandez  matou uma outra mulher, mais tarde, com a mesma faca, admitiu que foi ele que havia matado Wanda também e ainda assim DeLuna foi executado. Nesses seis anos entre o crime e a execução, apesar de todas as evidências, o caso nunca foi revisto. Ironicamente o absurdo todo aconteceu na cidade de Corpus Christi, no Texas, é claro. DeLuna não era um anjo. Estava na condicional e naquele dia havia bebido , razão pela qual fugiu quando a polícia se aproximou. Nem de longe, entretanto, era um assassino.  Às vezes as autoridades, por arrogância ou simplesmente para não admitir um erro, fazem barbaridades como esta, matando um inocente. Podemos tentar viver com a incompetência e até com a arrogância de certos indivíduos, mas não quando elas resultam em tamanha injustiça. Puxa, Corpus Christi – Corpo de Cristo – que lugar foram escolher para levar a cabo esta calamidade. Não vou dizer a maior, porque convenhamos, a concorrência é grande.  Mas voltando ao nome da cidade, não consigo assimilar a ideia: Corpus Christi! Bem que poderiam ter escolhido outra cidade…


Tuesday, May 15, 2012


A Maratona de Ryan

Ryan Adams era um senhor respeitável, educado e extremamente saudável, principalmente se considerarmos que estava com 73. Poderia ter se aposentado há mais de 15 anos atrás, mas preferiu continuar trabalhando. “Fazer o que em casa?”, perguntava.
Sam era relativamente jovem, tinha apenas 32. Bom sujeito, extrovertido, brincava com todos. Tinha um pequeno defeito, porém. Estava sempre fazendo observações sobre os colegas e sempre na frente de todos. Não eram maldosas mas às vezes incomodavam um pouco. Era um grande hotel e havia muitos funcionários. Ora Sam fazia uma brincadeira sobre a gravata do recepcionista, outras vezes sobre a maneira como o rapaz do estacionamento corria para pegar o carro do hóspede ou ainda sobre o novo penteado da moça da limpeza. Como disse, nada pesado, mas não deixava passar nada. Tinha sempre uma observação. Às vezes vinha disfarçada em forma de elogio, as vezes não tinha disfarce nenhum. Apesar da diferença de idade, Sam não perdoava nem o Ryan. Sempre alguma coisa a respeito da idade, da aposentadoria ou algo assim. Com o Ryan, Sam disfarçava bem, sempre vinha em forma de elogio. Ryan, no entanto, era experiente, já tinha vivido muito e certamente sabia ler nas entrelinhas. Não só isso, sabia ler antes e depois da linha. Sábio que era, nunca retrucava, embora tivesse pelo menos três ou quarto respostas que aniquilariam a piada do colega de trabalho. Mas fazer isto não era seu tipo e por isso apenas dava um pequeno sorriso, educado, mas que para um bom leitor de expressões faciais, significava muita coisa.
Um dia houve uma maratona organizada pela empresa que administrava o hotel. Qualquer um podia participar: hóspedes, funcionários, qualquer atleta que viesse de qualquer lugar. Chega o dia esperado e Sam, que também gostava de se exibir, resolveu participar da mesma. É dada a partida e Sam começa com tudo. Antes de completar o primeiro quilômetro, entretanto, começa a fraquejar, o coração parece que vai explodir e, sábia e dissimuladamente abandona a corrida.  Espera, claro, que nenhum colega tenha visto pois não tinha vontade de ouvir uma “gracinha” igual às que ele mesmo fazia. Encontra uma área de descanso onde pode sentar-se e tomar um refrigerante. Precisa passar um bom tempo lá para que nenhum colega seu perceba o fiasco.
Depois de mais de duas horas e meia, tempo que Sam precisou “matar”, começam a chegar os primeiros maratonistas, aqueles com os melhores tempos. Muita conversa e animação, pessoas se cumprimentando, se abraçando. De repente, para surpresa de Sam, entra o Ryan, todo lépido, de tênis e tudo mais. Senta-se e pede uma água gelada. Será que ele correu? 73 anos? Não pode ser…Ele é um velhinho.  Sam começa a ficar preocupado com todas as piadas que fizera. Quando percebe, Ryan está acenando para ele. A seu lado, uma linda mulher também está sorrindo. Não havia outro jeito senão se aproximar. Após as introduções de praxe, Jessica explica que “Papai fez um bom tempo mas está chateado pois sempre fica entre os primeiros 50 e desta vez ficou entre os cem”. Diante da estupefação de Sam, ela explica: “Existe uma boa explicação para isso…”  e continua: “Papai estava deprimido  porque a direção do hotel não o liberou para a maratona de Boston no próximo mês, onde ele sempre consegue uma boa marca. Papai correu a vida inteira.”, finaliza a orgulhosa filha.
Sam estava aturdido, envergonhado, mudo de vergonha. O “velhinho” era um sério corredor de maratonas. E ele? Um gozador barato que mal conseguiu dar as primeiras passadas na corrida. Nem se lembra do que falou para a exuberante Jéssica, deu algumas desculpas esfarrapadas e foi para a casa. E pensou, pensou…
Sam praticamente parou de fazer piadas. Com certeza nunca mais fez nenhuma sobre o Ryan, pai de Jéssica, o grande maratonista, o grande atleta, etc, etc…
A história é verdadeira e até pensei em um grande pensamento para o desfecho, mas acho que não precisa, os fatos falam por si mesmos…ou talvez melhor dizendo “calam por si mesmos”?

Sunday, May 6, 2012

O Protocolo


O Protocolo

A estação estava calma como sempre e o funcionário KS23-6788 realizava as inspeções  de rotina. Há um bom tempo os humanos haviam parado de usar nomes para identificação. No entanto o KS23-6788 gostava do apelido que seu avô lhe dera quando ele era bem pequeno ainda: Nick. Era uma coisa de família, pessoal. Quase todos achavam uma infantilidade usar esses nomes da época em que os humanos mal conseguiam navegar pelo espaço. Na verdade neste ano fazia 3 séculos que o homem pela primeira vez havia conseguido voar para fora de seu planeta e posar na Lua. O que na época foi algo espetacular, agora era considerado uma navegação grosseira, rudimentar e arriscada.
Nem os grandes escritores de ficção científica conseguiram antecipar os rumos que a exploração do espaço iria tomar. Na verdade foi a combinação de avanço científico e tecnologia com o imprevisível, o acaso. 
As pessoas agora viviam muito mais, pelo menos 200 anos. Poderia ser mais, mas havia uma combinação de fatores sociais,  científicos e econômicos, que fizeram o homem “optar” por cerca de 200 anos. Na verdade os indivíduos não morriam mais: eram “preservados” através do  incrível e avançadíssimo sistema de criogenia  administrado por computadores quânticos. Ninguém sabia ao certo os crítérios de descogelamento, mesmo porque esses novos computadores eram programados mas depois se auto-reprogramavam. Tomavam então  decisões  por conta  própria. Uma pessoa seria “descongelada” quando e  se fosse necessário, de acordo com eles. Trariam de volta à vida número suficiente de humanos no caso de uma catástrofe ou de uma ameça de extinção vinda do próprio planeta ou de fora.
Através do novo sistema de navegação espacial a espécie humana espalhou-se por inúmeros planetas. Basicamente instalavam algumas estações em cada um e essas continham alguns poucos humanos e inúmeros robôs, além de máquinas, que lentamente iam tornando o planeta habitável. Era um novo sistema de colonização. Agora os humanos eram “elaborados geneticamente” para sobreviver mais especificamente no local  para onde foram designados. Seria, pois, quase impossível Nick voltar para a Terra pois teria de ser “reelaborado” em sua configuração. Mesmo assim Nick às vezes sonhava com isso. Seu avô conseguira lhe transmitir algumas ideias saudosistas ( por muitos consideradas perigosas) dos primórdios da colonização espacial empreendida pela raça humana.  Cada vida durando dois séculos não foi difícil as imagens e ideias do bisavô de Nick chegarem até ele.
O Planeta GP3467A não era dos piores. Até que lembrava de longe o nosso planeta. Em uma série de 8, a colônia estava na fase 3 de colonização completa. Fora da grande base inúmeros robôs trabalhavam enquanto  Nick ficava a maior parte do tempo no interior. A atmosfera ainda era tênue e ele precisava sair com o equipamento apropriado. As grandes explosões que criariam uma atmosfera razoável só viriam na fase 6 e durariam quase um ano pelo tempo da Terra. Durante a última semana Nick havia trabalhado  intensamente com os computadores de comunicação para restabelecer a mesma. Não havia conseguido nada e ele estava preocupado, pois precisava de aprovação urgente para algumas alterações no programa. Era muito raro o corte completo de contato e por isso Nick havia tentado  se comunicar, em caráter de emergência, com outras colônias. Isso normalmente não era  permitido e a administração central da Terra normalmente era severa contra esse tipo de tentativa. Nick, no entanto, não estava preocupado com isso. O que o aborrecera tremendamente é que as mensagens recebidas do Planeta G9878B estavam truncadas e o pouco que se podia entender delas era profundamente preocupante. Havia a menção de que eles também não estavam conseguindo contatar a Terra e, pior que  isso, haviam recebido uma mensagem gerada por computador de que havia emergência 3B segundo a classificação de emergências do  centro geral de comunicação do sistema de colônias da Terra. Era profundamente perturbador para Nick que tanto a mensagem original do nosso planeta como a retransmissão através do Planeta G9878B não tinham chancela humana, ou seja, ficava a pergunta, havia humanos para validar a mensagem? Além disso emergência 3B estava a apenas dois passos da emergência L que era o ultimo grau e que consistia numa autorização implicita de seguir seus próprios passos por falta de comando central. Quando a emergência atingisse o nível L, as colônias deveriam usar o Protocolo. O Protocolo certamente daria as instruções mas ninguém o havia usado antes e obviamente havia algo fatalístico sobre o conceito.  O que mais assustava a respeito do assunto é que todos sabiam como funcionava o mecanismo.   O Protocolo na verdade era um computador separado de todo o sistema e que só poderia ser acionado pelas colônias, se no Planeta Terra, o comandante chefe de comunicações ou alguém autorizado por ele não o reativasse por mais de uma hora. O fato de ninguém estar lá para acionar o Protocolo por esse tempo era obviamente estarrecedor e significava uma tragédia de inusitada proporção. Nick tinha esperança de que brevemente as comunicações seriam restabelecidas.
Para longas viagens no espaço ou para longos períodos de tempo sem atividade numa colônia era usada a técnica do “adormecimento”. Isto permitia que um longo período se passasse com um consumo mínimo de energia e principalmente, sem danos psicológicos para o astronauta ou colonizador. Além do mais, o nível de ”adormecimento” era tão profundo que praticamente não contava como “tempo vivido” e se uma pessoa ficasse neste estado por um periodo longo, esse tempo estaria sendo acrescido a sua vida. No entanto, esta técnica só poderia ser usada por cerca de 10 anos. Mais do que isso seria necessário recorrer-se à criogenia, obviamente algo muito mais sério e definivo. Todos sabiam que o uso do Protocolo estava ligado a uma  dessas duas técnicas ou às duas. Foi por isso que, quando  ele recebeu de um planeta próximo a retransmissão de “condição L”, ou seja a emergência maxima, Nick realmente se assustou por mais preparado que estivesse psicologicamente. Até então ele havia ficado bem mesmo quando,  nas últimas semanas,  toda a sua equipe, de 14 pessoas,  havia sido removida para uma missão especial. Deixaram-no  sozinho e nem por isso se abalou. Na época, como era praxe, não questionou nem consigo mesmo nem através das mensagens a proridade ou não daquela retirada. Agora, no entanto, começou a relacionar os dois fatos, “ a condição L” e a remoção de seu pessoal e começou a achar, quase ter certeza,  de que as coisas estavam interligadas.
Em duas horas , se não chegasse nova mensagem, ele deveria tentar abrir o Protocolo. Além de ser um sistema de segurança, o Protocolo eram também, um lugar físico com o grande computador independente e as máquinas de adormecimento e criogenia. Havia também quatro  robôs que operariam o sistema em caso de necessidade. Até então ninguém havia entrado  na sala do Protocolo.
Nick acabava de estar em contato com essa nova realidade, quando para sua surpresa, o sistema de Protocolo respondeu a sua tentativa de acesso.Isso era a confirmação da condição "L " ou seja, emergência máxima. Por mais treino que ele tivesse tido para este momento – você nunca acredita que é possível  acontecer -  ele estava estarrecido.  Acomodou-se no confortável assento e começou a seguir o  “prompt” com as instruções. O Protocolo informava inicialmente que o “incidente” havia ocorrido no Planeta  Terra e era localizado. A possibilidade de sobrevivência  local era de apenas 10%.  A seguir o Protocolo calculou de 3 a 10 anos o tempo de restabelecimento no caso de haver o mínimo de vida reminiscente na Terra para operar o processo de resgate e recuperação.  O Protocolo então explicava que as colônias que tinham passado da fase 6 de colonização estavam autorizadas a tomar medidas de sobrevivência em sistema de autonomia da Terra. As outras, segundo o próprio Protocolo estariam diante de um dilema. Se a Terra sobrevivesse – e as chances eram de apenas 10% - o adormecimento era a melhor alternativa, pois em menos de 10 anos haveria  socorro, instruções. Outros planetas mais próximos poderiam mandar  ajuda, o que não fariam no caso de o dano na Terra ser permanente, pois teriam  de cuidar da prória sobrevivência.  No caso de a administração central e sua população ficar reduzida a zero ou a condições de pré-civilização espacial, o congelamento seria a melhor indicação por ser quase perene. Milhares de anos poderiam se passar até que novas tecnologias voltassem e viabilizassem o descongelamento. Depois de séculos de tirania , autonomia e arrogância, pensou Nick, os computadores estavam confessando que não tinham condições de tomar uma decisão. Ironicamente, na hora mais importante  de sua existência, Nick teria de confiar em seu próprio senso de análise. O Protocolo, o “Grande Protocolo” estava ali, a sua frente, confessando que não tinha a capacidade de decidir. O Nick, que era um funcionário de quinta linha no “ranking” tecnológico, estava ali, a uma distância assustadora da terra , sozinho, com a decisão de sua própria vida em suas mãos, pela primeira vez.
O computador dizia que ele tinha  cerca de 300 horas decidir e iniciar ou os procedimentos de “adomercimento “ ou “congelamento.”  Cinco ou dez anos de sono super profundo seriam como nada e tudo estaria resolvido. E se o problema na Terra fosse muito mais grave? Dali a alguns anos ele estaria de volta, ali, sozinho, acordado mas sem qualquer perspectiva e provavelmente teria de induzir a própria morte para não ficar louco. A outra alternativa, a da criogenia, era a um tempo garantida e assustadora. Assustadora porque nada  mais dependeria dele. Se as coisas voltassem ao normal, milhares de anos depois, alguma civilização que dominasse tanto a tecnologia de viagens espaciais e a criogenia talvez chegasse até ele e o  ressuscitasse. O Protocolo estaria mandando sinais indefinidamente pelo espaço.Ou então…ele poderia ficar congelado para sempre.
Embora não fosse momento para isso, Nick resolveu dormir por algumas horas. Induziu em si mesmo um sono leve em que pudesse sonhar. E sonhou. Sonhou com a Terra. Com seus rios, seus oceanos, suas árvores, sua aves. Com o sorriso das pessoas, com o som dos ventos, com o aroma das flores. Sonhou que uma nave o estava transportando de volta, que seus gens estavam sendo modificados para novamente habitar o Planeta. Sonhou que a civilização estava voltando devagar…
Nick acordou aliviado  e feliz. Tinha decidido. Era melhor esperar mais de mil anos e ter pelo menos a esperança sólida de uma vida mais parecida com a que seu avô descrevera. Entrou na sala de criogenia e deitou-se na cápsula que se fechou automaticamente. Apertou o botão de “iniciar”. Segundos depois notou que dois robôs, um de cada lado se aproximaram dele. Dali a pouco começou a se sentir sonolento,   a primeira fase do congelamento …Nick então dormiu profundamente enquanto as máquinas programavam o evento e armazenavam a fabulosa energia para manter a sua cápsula isolada e fria, muito fria por muito tempo..…Mas ele não estava sentindo nada.  A última coisa que sentiu foi o vento quente do mar da Terra em seu rosto, em seu sonho…