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Monday, December 3, 2012

O Incerto Destino da Nave CRA 2513-79


O Incerto Destino da Nave CRA 2513-79

Voltando

Agora estava chegando a hora da verdade.  A qualquer momento Dr. Lynn seria descoberto. Teria de admitir que havia reprogramado seu destino para Marte. Não sabia se haveria uma luta de palavras ou apenas uma luta cibernética tentanto reverter sua rota para a Terra ou talvez algo pior. Agora mais do que nunca, Dr. Lynn queria levar sua cidade voadora para o Planeta Vermelho”. O nome soava estranho, porque havia pouco vermelho por lá. Marte agora se parecia muito mais com a Terra de antigamente, era muito mais humano que nunca. Um verdadeiro céu para quem detestava a escravidão total para as máquinas, para a “Inteligência”, para a “Rede”. Dr. Lynn revisava em sua mente os 50 anos de viagem, o projeto, como tudo aquilo passara a ser o seu motivo de vida. Em muito pouco tempo saberia se poderia voltar a sentir felicidade genuína, não induzida por computador. Sentir de novo o que é ser humano…

CRA 2513-79: A BELA ADORMECIDA

Muitos séculos haviam se passado desde que o homem havia pisado na Lua pela primeira vez. Agora os terráqueos estavam espalhados não só pelo sistema solar mas também faziam parte da colonização de planetas distantes. Havia também o que era chamado de “planetas móveis”, enormes naves espaciais que ficavam viajando pelo espaço por tempo indeterminado. Elas acomodavam milhares e milhares de navegantes, verdadeiras cidades voadoras. Elas eram importantíssimas  não só por motivos práticos e logística espacial mas também por motivos científicos.
A raça humana estava irreconhecível  se pensarmos em termos de século 20 e 21. Não havia mais concepção no sentido que o termo tinha séculos antes. Todos os humanos eram feitos por computadores em laboratório, geneticamente já direcionados para a função que iriam exercer e o local para onde seriam enviados. Finalmente o “admirável mundo novo” de Aldous Huxley havia se concretizado. O caso da nave “Sleeping Beauty”, nome romântico dado para a estação móvel  “CRA 2513-79”, era porém ainda mais especial.  Havia sido lançada há 50 anos da Estação Lunar “LR 21VT” e tinha uma missão específica. Originalmente ela tinha apenas 97 navegadores, todos cientistas de diversas modalidades.  Nesses anos todos sua população tinha aumentado para 37.334 habitantes, o que na verdade havia sido também planejado. Era mais do que uma nave, era uma cidade ou um planeta navegando pelo espaço.
Marte
Marte, visto do espaço, era agora muito diferente dos primórdios da colonização do espaço. Havia verde e azul como na Terra e grandes conglomerados de construções:  na verdade, agora áreas habitadas pelos colonizadores. Por inúmeras décadas foi tentada a técnica da terraformação para se conseguir uma atmosfera semelhante à da Terra mas o resultado ficou no meio do caminho. Ainda assim foi possível a colonização. Uma parte dos humanos que vinham para Marte já estavam geneticamente preparados para resistir a essa atmosfera mais hostil. Ainda assim usavam nano-implantes como complemento para que seus corpos pudessem resistir a um  ambiente tão diferente como o do nosso planeta  irmão. Outros viviam em ambientes cobertos por abóbodas enormes,  feitas de material fino mas extremamente resistente. A nanotecnologia e a tecnologia de resistência de materiais haviam alcançado níveis de sofisticação que ninguém sequer jamais imaginou. Os terráqueos sem a configuracão genética necessária tinham de usar mais aparelhos para poderem sair das áreas fechadas e enfrentar a nova atmosfera do planeta. Os marcianos, como eram chamados os “bebês” criados em laboratórios na nova colônia da Terra só poderiam ser feitos a partir de material de adultos já geneticamente modificados. Ironicamente, o “admirável mundo novo” da nova colônia da Terra era aparentemente mais feliz e mais “humano”do que a própria civilização do Planeta Terra.
Na verdade, 57 anos depois que oficialmente habitantes e não exploradores definitivamente se instalaram em Marte, ela passou a ser uma ex-colônia. A partir do momento em que a inteligência artificial tomou conta de tudo, uma parte da comunidade científica começou a demonstrar forte preocupação com os rumos que isto poderia tomar. O Estado, agora na verdade a “Grande Confederação” , teria suas ações baseadas 100% por cento na decisão dos computadores quânticos, considerados perfeitos. Os dirigentes - o Grande Conselho - apenas corroborariam essas decisões e na verdade apenas as mais importantes. Milhões de pequenas e médias ordens seriam executadas automaticamente sem passar por qualquer escrutínio de seres humanos. Eram muito fortes na cabeça de todos as inúmeras barbaridades executadas por políticos e dirigentes nos séculos 20 e 21. A confiança nas decisões da inteligência artificial era quase unânime.Todos sabiam também que o próximo passo seria deixar que também as grandes decisões fossem executadas diretamente pela “Rede” sem necessidade de aprovação de qualquer ser humano. Aí residia um grande perigo segundo um segmento da comunidade científica. E se os computadores ficassem tão “humanos” que assimilassem também suas “megalomanias”?
Havia uma linha de cientistas que mais e mais queriam evitar esse poder  crescente das máquinas. O Grande Conselho começou a isolar os cientistas dessa linha de pensamento no planeta Marte. Foi uma espécie de exílio. E a grande ironia que isso foi decisão também dos computadores. Ironia maior ainda foi quando os mesmos computadores decidiram que era melhor não intervir quando os cientistas de Marte juntamente com sua administração decidiram se separar da Terra. Foi verdadeiramente uma grande ironia ou talvez a sofisticada rede de Inteligência tivesse planos mais sofisticados para o futuro. A verdade é que o Grande Conselho foi fiel a seus princípios e confirmou as decisões da Rede de Inteligência, permitindo a formação de um Conselho independente em Marte. De qualquer forma, não teria havido violência ou Guerra ou motim de uma parte ou de outra. Há muito tempo isto havia sido banido da nossa civilização. A Lua, outros planetas e os “planetas móveis” continuavam parte do sistema de colônias da Terra. Marte era uma espécie de reduto humanístico, talvez uma referência para a Terra, que em em sua marcha futurística,  poderia vir a perder todo contacto com o que é essencialmente humano. Você sempre poderia olhar para Marte e perceber que se pode mergulhar na ciência sem perder a humanidade.
O Projeto  “Bela Adormecida”
Durante o longo período de debate entre os “humanistas” e os “intelligents” – a celeuma durou décadas - um grupo de cientistas, apoiado pelo Grande Conselho, dedicou-se a um grande projeto chamado “Bela Adormecida”. O projeto tinha duas faces, uma para o público em geral e para os cientistas normais e uma outra, mais secreta, para os os cientistas magnos – as grandes inteligências do sistema - e o Grande Conselho. Era aceitável haver um lado secreto para projetos pelos mesmos motivos que os governos antigos tinham serviços secretos, serviços de inteligência, etc. No entanto ninguém imaginaria haver  motivação política na parte “não pública” do projeto mas apenas segredos científicos. O projeto “Bela Adormecida”  tinha como objetivo principal criar um grupo de pessoas com características genéticas desejáveis para o próximo milênio. Em outras palavras, fazer já, em cinquenta anos, o homem perfeito, o homem que normalmente só apareceria em mil anos se a ciência genética seguisse seu caminho normal, o que já era assustador. Para fazer isso o plano previa o isolamento de espécimes humanas de primeira linha, a seleção dos maiores cientistas – chamados “magnos”- do setor de genética, e a instalação do que havia de mais avançado em computação quântica numa grande nave, com capacidade para 40.000 pessoas: CRA 2513-79 ou a  BELA ADORMECIDA. Era uma mini terra que seria enviada para fora do sistema solar. Haveria um sistema de comunicação reduzido com a terra, mas o resto da nave teria vida própria e independente. Durante a viagem – projetada para 50 anos – 97 cientistas iriam aprimorando e selecionado espécimes humanos cada vez mais perfeitos, dentro de uma população geral de cerca de 40.000, projetada para o final da viagem. O grupo final a ser selecionado – projetado para 300 -  seriam os “super-homens” e deveriam ter a idade de 5 anos por volta da época em que o projeto fosse encerrado. Voltariam então para a Terra para a fase final do projeto. A partir daí forneceriam material genético para as futuras gerações, as gerações dos homens perfeitos. Havia muitos comentários entre os entendidos. Muitos acreditavam que o novo homem não teria sexo, afinal de contas, ninguém era mais concebido pelo sistema antigo. Essa nova espécie também não se comunicaria através da linguagem mas através de ondas elétricas emitidas por seus cérebros super especiais. Mas nada era positivo ou garantido. Havia uma sombra de mistério e segredos envolvendo tudo que se referia à gigantesca nave. Além dos motivos técnicos, havia um de ordem política para esse projeto ser feito em um local distante da Terra: ficar livre de influências de qualquer tipo. Tinha de ser um projeto  puro.
Dr.Lynn: uma ironia
Dr Lynn era uma verdadeira lenda no meio científico. Além de saber usar com maestria os benefícios da inteligência artificial no seu ramo, era também muito intuitivo, aliás a única forma de um ser humano chegar a competir com os computadores. Havia um boato de que ele era humanista o que não seria muito bom politicamente, mas ele nunca admitiu isto, nunca deu declaração pública a respeito. For por isso que a notícia de que ele seria o chefe da missão, pareceu um pouco estranho no seu meio. No entanto lá estava ele, coordenando todo o projeto, inclusive a construção da fantástica e gigantesca nave na órbita da Lua. Inúmeros  cargueiros espaciais viajavam todos os dias da Terra para a órbita lunar para levar material geral  e genético e na parte final do projeto, equipamentos sofisticadíssimos de inteligência artificial. Alguns deles nunca tinham sido usados ou experimentados antes, mesmo porque só funcionavam bem em velocidades próximas da luz.
Foi ideia do Dr. Lynn – e bem aceita pelos responsáveis do projeto – fazer um grupo de controle. Esse seria formado por um grupo 300 pessoas normais, ou pelo menos que não usariam técnicas especiais de aprimoramente genético para servir de contraparte para os “grupo de 300” super-homens. Seriam “concebidos” durante a viagem também. A ideia era ter pessoas normais evoluindo paralelamente. No caso de as coisas darem errado, pelo menos haveria uma referência.
Mesmo para uma ética extremamente mais tolerante – geneticamente falando – do que a da era pré-colonização, o projeto era ousado. Esses  novos seres ao atingirem 5 anos de idade já estariam no completo domínio de suas faculdades mentais. Estariam livres do resto que sobrara de influências sentimentais, morais ou qualquer coisa que impedisse o homem do futuro de atingir o ápice da raça humana. Sexo, ambição e fome ficariam sublimadas de alguma forma neste novo cérebro criado pela inteligência artificial, embora fosse “humano”.
A civilização humana estava bastante adiantada também em termos de convívio social, respeito às regras, etc. Não havia mais guerra, revoluções, insatisfação, terrorismo ou qualquer coisa do gênero.  Por isso era preocupante que naquele momento se instalava uma grande conspiração dentro desta inédita fase de nossa evolução. O verdadeiro segredo da missão, quase ninguém sabia, era que, na verdade, os “super-homens” resultantes da viagem da “Bela Adormecida” não seriam usados como um banco genético para o futuro da humanidade como estava sendo propagado, mas sim, assustadoramente, para serem uma espécie de complemento para as máquinas que constituiam a “Rede”, ou o fantástico hardware base da “Inteligência Artificial”. Os corpos deveriam ficar em estado de hibernação e seus cérebros seriam conectados à rede. Este seria o requinte final para a inteligência artificial: o toque humano que faltava. Daí a necessidade de um “super-homem compatível com a fantástica sofisticação daquelas máquinas.”, Em cinquenta anos seria possível criar uma atmosfera em que isso ficasse viável ou até aceitável ou necessário diante dos olhos da população regular. Era o que esperavam. A nave voltaria para a Terra com a nova geração dos 300. O plano para os outros milhares que também iriam “nascer” na nave era colocá-los de volta em outras viagens. Eles não estranhariam pois era o que eles sempre tinham experimentado: viver em uma nave. Até a volta da Bela Adormecida o movimento “humanista” provavelmente teria arrefecido. Os articuladores do projeto achavam que ao nomear Dr Lynn para chefiar a missão, estavam conseguindo uma espécie de salvo-conduto para suas experiências. Ninguém suspeitaria de que havia algo escuso por trás de tudo. Ficaram por um lado aliviados e por outro admirados quando o proeminente cientista aceitou o cargo. O que eles não sabiam, entretanto, era que Dr. Lynn tinha bem claro em sua cabeça que aquilo seria feito com ou sem ele. Melhor com ele, pensou. Além disso, quando ele sugeriu o “grupo de controle” ele tinha algo diferente em mente.
A Viagem
Dr Lynn contava com a vantagem de não ter que enviar mensagens constantes para a Terra. Afinal nem eles queriam. Não seria uma boa ideia pessoas alheias à verdadeira finalidade do objeto terem acesso aos desenvolvimentos que estavam ocorrendo na “Bela Adormecida”. Quanto menos informação, melhor. Verdade é também que os computadores tinham a programação e saberiam se o desenvolvimento do projeto em termos científicos estava se desviando do objetivo. Dr. Lynn sabia como encaminhar suas pesquisas de modo a satisfazer à “inteligência”. Além disso havia muitos entre os 97 que compartilhavam secretamente com as ideias humanistas do Dr. Lynn e nos anos seguintes, com calma e cuidado, outros mais, muitos, foram convencidos. No entanto, a espinha dorsal do projeto tinha de ser mantida.
Centenas de “novas vidas” já com as instruções genéticas de aprimoramento eram feitas a cada mês. Os “bebês” passavam por sofisticados estágios de aprimoração. De cada  grupo de 1000 novos seres, apenas alguns eram retirados para prosseguirem no projeto. Seriam crianças de 5 a 10 anos superdotadas apenas.  Os outros passavam a fazer parte da população regular da nave, cada um executando suas tarefas. Para o projeto eram praticamente peças rejeitadas. Não para o Dr. Lynn, que criou em volta delas uma verdadeira comunidade do espaço. Uma espécie de grupo privilegiado, que compartilhava antigas visões “humanísticas” da sociedade.
Havia um pequeno “Conselho” formado pelos principais cientistas da Bela Adormecida”. Faziam reuniões periódicas sem a presença da “Inteligência”. Essa havia sido uma das exigências de Dr. Lynn para aceitar a empreitada. Ele havia convencido a comissão especial de que isso era fundamental numa viagem com quase total isolamento da Terra. Poderia haver emergências que nem mesmo os melhores computadores poderiam prever. Eles precisariam de margens de manobra para situações especiais. Tudo isso era mesmo verdade e Dr. Lynn sabia que ele não poderia passar 50 anos “driblando” a “Inteligência” mesmo como estava na nave, desligada da “Rede”. Havia salas especiais onde esses encontros se realizavam completamente desconectadas do resto da Bela Adormecida. Ali se falava abertamente das digressões propositadamente aplicadas ao programa. Não havia segredo. Quanto aos novos habitantes “nascidos” na nave não havia nenhum problema, eles estavam sutilmente sendo “educados” como cidadãos” da Bela Adormecida. Fora fácil “convencer” os computadores da nave que essa seria a melhor forma de passar aquelas décadas iniciais.
A menina “Gênesis”
 Uma grande novidade era que os novos habitantes podiam procriar como nos velhos tempos. Começou com um acidente. Aconteceu. É verdade que não teria acontecido se Dr.  Lynn seguisse estritamente o programa genético que havia sido traçado. Fizeram o parto e tudo. Deram o nome de “Gênesis” para a menina que havia nascido. Foi uma comoção que ninguém ali, nem mesmo quando estavam na Terra, jamais havia sentido. No follow-up para os computadores foi justificado como uma necessidade de manutenção de certos elementos “naturais” e que isto fazia parte das atividades do grupo de controle. A “Inteligência” aceitou, não enviou sinal de alarme para a Terra e Dr. Lynn, a partir dali, multiplicou as experiências, deixando praticamente livre a geração de bebês de forma natural. Isto não acontecia mais nem na Terra, a não ser em áreas especiais que eram conservadas para estudos e ponto de referência para a antiga humanidade. Quando a Bela Adormecida fez 42 anos praticamente 50% da população era de bebês naturais, uma estatística que deixaria o Grande Conselho estarrecida. Dr Lynn, Dr. Sat, Dra. Martha e outros membros mais “humanistas” da direção da nave mal podiam esconder o entusiasmo e a alegria com aquele renascer do “humanismo” em pleno espaço. Verdade era também que essa nova “raça”,  ainda assim era bem diferente do homem de séculos atrás, mas muito mais humana do que a atual raça da Terra e certa e felizmente menos “tech” do que a do futuro imediato.
Durante a viagem, usando do privilégio do isolamento, e o próprio fato de que  “tinham todo o tempo do mundo”, os cientistas mais ligados ao campo de inteligência artificial, foram, ao longo dos anos, deliberadamente inserindo elementos nos computadores centrais que relaxavam o controle da máquina sobre o homem. A essa altura, a “Inteligência” da Bela Adormecida tinha diferenças razoáveis com a da Terra. Isto era a um tempo uma garantia de que eles estariam seguros contra uma possível emissão de sinal de alarme, mas ao mesmo tempo uma preocupação enorme para quando a Bela Adormecida começasse, a cinco anos da volta para a Terra, os procedimentos de reintegração dela com a “Rede” da Terra. O pequeno “Conselho” da Nave discutia e deliberava quase todos os dias sobre o assunto em suas sessões isoladas.
Faltavam agora apenas dois meses para a contagem dos 5 anos finais, quando a Bela Adormecida, começaria o processo de reintegração. No início seria apenas trasmissão de dados, informação, “acomodação” e “preparação” dos habitantes para a nova vida. A alguns meses da chegada, haveria a integração com a “Rede”. Na verdade, a Terra assumiria o controle da Bela Adormecida e a traria com “segurança” ao Planeta de origem, embora apenas os 97 cientistas iniciais pertencessem a Terra. Tudo o mais era original do “PPV” (pequeno planeta viajante) : nome genérico para esse tipo de nave que fica permanentemente no espaço.
Do ponto de vista do Grande Conselho da Terra e planetas, o projeto da Bela Adormecida, teria sido um fracasso, se eles soubessem o que havia acontecido lá. Par o Dr. Lynn e seu grupo, aquela nave era a salvação da humanidade contra o que eles chamavam subserviência total à “Inteligência”. Ironicamente os habitantes da nave eram, em seu conjunto, mais humanos do que qualquer um na Terra ou em Marte.


O LOG
O “Log” era um sistema de computadores que ficara “dormindo” durante toda a viagem e que somente seria ativado na sua parte  final. Ele tomaria conta da reintegração da nave no grande sistema da “Inteligência”da Terra. Ele tinha todas as informações necessárias, inclusive para preservar o privilegiado “grupo dos 300”. E essa era a grande preocupação do Dr. Lynn. Assim que o Log fosse ativado, imediatamente ele perceberia a ausência de dados sobre o grupo de “super-homens”e também perceberia uma série de anomalias no projeto e certamente tornaria a nave numa verdadeira prisão de segurança durante o processo final de volta ao nosso planeta.
Era necessário que se fizesse algo a respeito do Log. O sistema era muito bem protegido e não era fácil livrar-se dele principalmente se a intenção era fazer tudo parecer um acidente. Essa era a missão de Stelt, que era um verdadeiro mágico – o que certamente parece irônico – em relação a computadores. Dr. Lynn, muito amigo de Stelt, tinha confiança de que ele conseguiria resolver esse problema.
Um dia, durante as atividades de rotina, ouviu-se um alarme em toda a nave. E imediatamente percebeu-se que não era treinamento. Logo a notícia se espalhou. O Log havia sido sabotado e estava seriamente danificado. Stelt morrera no “acidente”. Dr. Lynn, extremamente sábio e conhecedor da personalidade de Stelt imediatamente entendeu o que ocorrera. O único jeito de destruir o Log sem ser classificado como sabotagem era perder a própria vida. Stelt se sacrificara pelo projeto do Dr. Lynn. O corpo dele estava completamente destruído, inclusive seu cérebro. Era impossível mesmo com os fantásticos computadores da nave descobrir como tudo ocorrera. Stelt, como sempre e até mesmo na hora de destruir um computador, fizera um trabalho perfeito. Os computadores normais da “Inteligência” teriam agora de fazer a reintegração com a Terra. Como essa não era sua missão inicial e sim a de Log, ele teriam de ser reprogramados pelo menos parcialmente pelo próprio Dr. Lynn.
Dr, Lynn tinha uma lista fictícia dos 300 super-homens. Na verdade uma fantasiosa lista de DNAs cuidadosamente elaborados.O Log não teria aceitado essa lista, pois ele seria conectado diretamente aos corpos dos 300 seres, que na verdade não existiam. Nos computadores normais, agora, era só os técnicos do Dr. Lynn inserirem os dados genéticos. A essa altura o grupo de controle da Terra já sabia do “acidente”. Aparentemente não estavam alarmados. A lista com os dados genéticos dos 300 era assombrosa e era isso que importava.
Faltava agora a parte final do projeto do Dr. Lynn: desviar o ponto final da viagem para Marte. Na Terra haveria julgamento, processos e tudo mais. Embora o projeto fosse secreto, eles arrumariam alguma forma de incriminar o Dr. Lynn e sua tripulação. Em Marte, ele seria recebido como um herói, ainda mais agora que o planeta  vermelho havia evoluído ainda mais para o lado humanista.
Dr. Eggart
O chefe da missão na Terra tinha sido nomeado recentemente e por coincidência era um antigo amigo do Dr.Lynn, embora não compatuasse com suas ideias. A nave já estava no sistema solar há algum tempo e a qualquer momento o Dr. Eggart perceberia que havia algo de errado. Os dados do computador da nave não eram exatamente perfeitos para quem queria vir para a Terra. Dr. Eggart comentou algo a respeito com o Dr. Lynn e esse disse que iria verificar. Pelas características especiais dessa nave, a mesma não poderia ser navegada da Terra sem o Log. A equipe do Dr. Lynn simulou uma série de emergências para não precisar “lidar” com o problema no momento. As desculpas eram aceitáveis, afinal de contas a Bela Adormecida havia viajado quase cinquenta anos e tivera seu computador de reintegração inutilizado.
Passaram-se mais dois meses e agora não havia mais desculpa. A Bela Adormecida estava, definitivamente, se dirigindo para Marte e não para a Terra. Ficou muito claro para o comando da Terra.
Numa conversa que tiveram, Dr. Lynn disse que esperava que seu amigo entendesse. Dr. Eggart respondeu que ele não poderia fazer nada e que o Grande Conselho, que já estava em reunião extraordinária, iria decidir o destino da CRA 2513-79. Comentara que, infelizmente, a destruição da mesma era uma opção bem provável. A essa altura Marte também já havia detectado a rota do Dr. Lynn e lhe dissera que os esperavam de braços abertos.
A Decisão
Dr. Lynn já podia ver a a luz de Marte de sua cabine diretamente, sem monitor. Sabia também que estava ao alcance de uma grande nave militar que poderia facilmente abatê-lo antes de ficar numa área de segurança, o grande cinturão de Marte, onde, por acordos anteriores a Terra não poderia interceptá-lo. Foram horas angustiantes mas mesmo assim Dr. Lynn conseguiu dormir um pouco. Não se conformava com o fato de que aquela nave, aquela cidade que amara tanto e que fora a razão de sua existência nos últimos 50 anos, poderia acabar ali, com um único míssel atômico, em questão de segundos.
Acordou com um sinal suave vindo do painel avisando que entrara no cinturão de segurança de Marte. Estavam salvos. Imediatamente os oficiais começaram a se reunir na sala principal da nave para comemorar.  Aparentemente, uma das maiores conquistas do novo ser humano – a opção pela paz e não-violência – era definitiva. Mesmo  em situações decisivas, a barbárie não mais fazia parte da cultura humana.

Mais tarde, Dr. Lynn conversava com Dr. Eggart sobre tudo o que ocorrera, ainda na nave. Dr. Eggart confessara que sabia das intenções do amigo desde o primeiro segundo que conversara com ele durante o processo de volta para o planeta. Enquanto falava, o grande comandante da Bela Adormecida olhava pela grande janela de sua cabine e podia, agora, bem melhor, ver os contornos de Marte. Os grandes conjuntos residenciais, as plantações com material da Terra e adaptadas ao novo ambiente...Naves circulando o planeta. Grandes linhas riscando a superfície: um incrível sistema de transportes. Um céu diferente da exuberante Terra, mas ainda assim, belo a sua maneira.
Ele não acreditava em céu ou inferno, era um cientista dos tempos ultra-modernos. No entanto, naquele momento, Marte era para ele e para todos da Bela Adormecida, o paraíso com que sonhara...

Saturday, September 8, 2012

O sorriso do demônio


O sorriso do demônio

Jason havia percorrido metade de seu caminho. Estava ansioso mas queria fazer tudo corretamente, cumprir sua missão. O trânsito não estava ajudando. Durante a semana havia comprado tudo de que precisava para levar a cabo aquilo que o destino lhe reservara. Ele sabia que não podia passar  o que tinha de fazer para outro. Era sua obrigação, a sociedade esperava dele aquele sacrifício, aquele ato de coragem. Estava preparado para o inimigo. Este era forte e esperto mas, desta vez, ele o pegaria de surpresa. Nem de longe esperavam que alguém como ele fosse capaz de tal ato de coragem. Imaginem, ele, aquele rapaz quieto, sem amigos, sem namorada, um ninguém.
Agora ele precisava de concentração. Ele não podia deixar a emoção do momento obscurecer a sua habilidade de execução do plano. O que ele estava para fazer era algo grande, maravilhoso. Já podia ver as manchetes nas tvs e nos jornais. Não é todo dia que um herói aparece e faz o que tem de ser feito. O inimigo havia crescido muito nos últimos anos e alguém precisava fazer alguma coisa. Ele poderia começar já. Havia inimigos bem ali ao seu alcance. Mas se ele começasse  já, o efeito de seu ataque seria reduzido. O adversário viria contra ele antes da hora. Não, tinha de pegá-los juntos, sem chance de contra-ataque.
Agora Jason estava bem próximo. Podia ver as faixas, as bandeiras dos inimigos tremulando. Lá estavam eles, todos juntos, prontos para serem derrotados. Não esperavam a chegada do grande herói,  do grande vingador, do grande salvador. Estacionou o carro do outro lado da praça. Pegou a pesada valise com as armas e se dirigiu a passos rápidos em direção à pequena multidão. Quando chegou a uma distância boa para atirar, parou, escolheu uma das armas  e começou. Alguns segundos se passaram antes que os participantes do encontro percebessem o que estava acontecendo. Começou então a correria. O valoroso soldado então procurava atingir aqueles que tentavam fugir. Atirava  para os lados, para a frente e até em quem estava deitado se mexendo. Já era possível ver sangue em vários pontos da praça. Ao longe podiam se escutar as sirenes dos carros de polícia. Jason ainda deu muitos tiros antes de sentir uma agulhada forte em seu braço direito. Com o tiro, perdeu o equilíbrio e caiu. Ele sabia que o inimigo iria chegar. Mas tinha conseguido um excelente resultado. Sabia que tinha feito um grande estrago nas fileiras inimigas.

Suas forças estavam se esvaindo. Sua cabeça rodava. Ainda conseguiu imaginar sua imagem nas telas de televisão de todo país, pessoas admiradas de seu grande feito. Pessoas que o conheciam dando entrevistas. Não sabiam que aquele rapaz tão quieto poderia ser capaz de tanto heroísmo.
A mãe de Jason não podia acreditar que seu filho era aquele monstro que mostravam  nos noticiários. Ele havia assassinado 11 pessoas inocentes  e ferido mais de 37 antes de ser abatido. As imagens eram chocantes. Pessoas chorando,  gritando, ambulâncias voando pela cidade. Corpos cobertos, sangue esparramado pelo concreto. Uma simples manifestação contra o aquecimento global havia se tornado numa grande chacina.
Dentro de uma ambulância,  a enfermeira olhava para o corpo inerte do monstro. Estava todo ensanguentado e era difícil para ela entender como um jovem como aquele podia ter feito tamanha atrocidade. Algo mais a incomodava, porém.  Era seu sorriso. Como podia sorrir?  Era, claro, o sorriso de um demente, de um insensato. Ainda assim, havia algo mais. Mais tarde, na paz de seu lar, ela entendeu. Ela havia visto o sorriso do demônio.

Friday, August 3, 2012

Rosalyn vai às compras



Rosalyn vai às compras

Rosalyn tentou salvar o casamento mas não deu. Graças a Deus os dois eram bastante razoáveis, continuaram amigos e não houve outros problemas. Filhos não tinham, por isso era só tocar para frente. Falar é fácil, fazer é que são elas. Uma depressão profunda tomou conta da pobrezinha da Rosalyn. Bem, talvez “pobrezinha” não seja a palavra adequada por dois motivos. Primeiro porque ela ganhava bem  e ainda por cima ficou com uma boa grana do casamento desfeito. Segundo, porque do jeito que ela estava engordando – por causa da depressão – não sei se o diminutivo pode ser aplicado com precisão. Ainda bem que ela tinha recursos para pagar um bom psicólogo. Que tristeza, sem o maridão. Ao contrário do que acontece em muitos casos, agora é que ela percebia quanta coisa boa ele tinha. Mas o negócio era tocar para a frente. Estava me esquecendo, além dos doces que engolia sem clemência – pelo menos eles adoçavam o espírito – ela entrou num vendaval doido de compras. A gordura ela controlava: engordava, fazia regime, emagrecia, engordava de novo, e assim por diante. O problema era aquele consumo desvairado. Não perdoava nada: sapatos, vestidos, blusas, lingerie. Tudo desde que fosse caro e de qualidade. Deixava a besta à solta no final de semana e depois colocava tudo no closet. Durante a semana experimentava os vestidos, colocava os sapatos, desfilava para si mesma com as bolsas diante do espelho. Imaginava   um grupo de homens admirando e outro de mulheres invejando...Quanta classe, que beleza, como cai bem aquele vestido...mesmo que não caísse. O problema foi aumentando. Os armários não eram mais suficientes. As compras espalhavam-se pela casa toda.
Numa dessas tardes de primavera Rosalyn foi almoçar com sua amiga brasileira, Rosemeire. Gostava dela, confiava nela, era uma grande companheira. Confessou suas fraquezas, disse que não tinha mais coragem de falar com o psicólogo. Além disso, o Dr. Eckardt aparentemente não estava muito preocupado com a situação da Rosalyn. O que ele queria mesmo era estender aquelas consultas para sempre.
Rosemeire ouviu com atenção a amiga, não se surpreendeu, achou tudo muito normal. Advertiu-a porém, que do jeito que ela estava fazendo, iria ter de pedir falência logo, logo.

-Acredite em mim, também tenho fases assim. Mas, minha amiga, você vive num país abençoado e por isso seu problema já está resolvido.
Rosalyn, ainda sem entender, continuou ouvindo.
-Querida, isso não é nada. Já passei por isso. É só devolver...Você sabe melhor do que eu, que ninguém pergunta nada. É só guardar o recibo e não tirar a etiqueta.
-Mas...
-Não tem mas. Faça como eu digo. Para comemorar, vamos fazer compras.
Rosemeire deu uma gargalhada, puxou a Rosalyn pela mão e foram ao shopping. Vestidos de todas as cores e modelos,  bolsas de couro legítimo, sapatos finíssimos, relógios...

Despediram-se no final do dia e Rosemeire alertou:
-Não tire as etiquetas!
E assim fez Rosalyn. Todas as noites, depois do trabalho, vestia vestidos novos – escondia a etiqueta por dentro – desfilava com os sapatos e, acreditem, acariciava o rosto com os tecidos finos de seu imenso guarda-roupa. Depois dormia feliz, feliz...
Sábado de manhã, recolhia tudo nas mesmas sacolas, voltava para as lojas e ia pedindo reembolso de tudo. Ninguém sequer fazia uma simples pergunta. Aí então começava tudo de novo. Novas lojas, novas roupas, novo tudo, nova Rosalyn...
E a operação se repetia toda semana. Viva o capitalismo americano, viva a criatividade brasileira, que felicidade...
Além do mais, estava economizando o dinheiro do psicólogo. Quem precisava de um? Não a Rosalyn, que, afinal de contas, tinha uma amiga chamada Rosemeire...

Monday, July 30, 2012

As Lamentações da Laurinda



As Lamentações da Laurinda

Renato era um bom sujeito. Honesto, sincero, fiel e trabalhador. Além disso, ele era muito paciente. Ah, isso ele era sim. Laurinda, sua mulher, também era uma boa pessoa. Defeito grave não tinha nenhum. Estavam beirando os quarenta anos, sendo que ele estava beirando mais do que ela. De casados tinham quase vinte. Eles se davam bem no geral.  É verdade que isso se devia mais ao Renato do que à Laurinda. Ele havia aprendido algo muito importante com seu pai. Quando brigar com a mulher, não brigue. Quero dizer, deixe que ela fale, só escute. Por mais absurdo e injusto e sem sentido que seja o que ela estiver falando, não responda. É a pior coisa que se pode fazer.  E por falar em coisas sem sentido, Laurinda era boa nisso. A maior parte das coisas das quais ela reclamava tinha absoluta ausência de lógica. Era algo de sua personalidade. Ela precisava do confronto como  precisava do alimento e do ar. Pelo menos uma vez por semana – às vezes duas – ela fazia uma cena. Vinha com uma história qualquer e começava a tirar satisfação do coitado do Renato. Uma semana era que ele deveria pedir aumento para o patrão. Que absurdo, ele trabalhava como um camelo, era um bom funcionário, etc., etc...Que patrão abusa mesmo, ele teria de fazer algo. O que ele estava pensando?  Na semana seguinte o tema era que o marido deveria ser mais social, convidar casais amigos para almoçar em casa, visitá-los, etc. Mais uma semana e vinha a história de que nunca tinham feito  uma viagem decente. Que tipo de vida era aquela? E ela falava, falava. Renato, sabiamente – lembrava-se dos conselho do pai – não dizia uma só  palavra. A cara tinha de ser neutra, totalmente. Um sorriso, insignificante que fosse, poderia ser considerado cinismo, um desrespeito total. Uma cara de bravo ou emburrado seria ainda mais motivo para uma fúria avassaladora por parte da interlocutora. Não tinha jeito. Mesmo assim, depois de desfilar todos os argumentos e enumerar todas as lamentações, ela acabava sempre falando que ele tinha uma cara de indiferença, que ele não ligava para suas queixas, para suas preocupações e...vinha mais uma ladainha. Semana após semana, mês após mês, ela não dava  folga, pobre do Renato.
Finalmente um dia, Renato tomou uma atitude. Laurinda tinha ido passar o final de semana na casa dos pais. Ele não poderia ter ido pois tinha de fazer  hora extra no sábado. O que ela não sabia é que não havia nada de horas extras. O marido tinha outros planos.
Quando ela voltou para casa no domingo à noite, pronta para apresentar novos temas de reclamação que ela  havia cuidadosamente preparado em sua mente no final de semana, viu que o carro do Renato não estava na garagem. Entrou e logo viu sobre a mesa da sala um envelope.  Algumas contas, algumas instruções. Renato havia deixado um cheque com metade do dinheiro que tinham em conta-corrente, metade da  poupança. A casa pertencia aos pais de Laurinda, não haveria problema. Ele, acima de tudo, era um homem justo. Não havia explicações adicionais, reclamações, justificativas, pedidos ou mensagens de perdão. Nada. Tudo muito lacônico. Mais tarde ela ficou sabendo que ele tinha pedido as contas na firma há alguns dias atrás. Nunca mais se ouviu falar de Renato. Tinha desaparecido como um fantasma.

Laurinda não se sentiu humilhada, nem traída, nem nada. O único sentimento que a comeu por dentro foi a frustração de não poder mais reclamar. Sentia uma falta danada de não ver mais ali o paciente Renato ouvindo suas reinvidicações. Nesse aspecto Renato realmente havia sido cruel...